Arquivo da Categoria 'Literatura'


Amanhã tem “Literatura negra uterina” no Pelourinho

postado por Cleidiana Ramos @ 11:55 AM
27 de maio de 2015
Encontro vai reunir as escritoras Cristiane Sobral, Livia Natalia e Mel Adún. Foto: Reprodução/Divulgação

Encontro vai reunir as escritoras Cristiane Sobral, Livia Natalia e Mel Adún. Foto: Reprodução/Divulgação

Amanhã, quinta (28), a partir das 18h30, tem sessão especial do Ogum´s Toques, projeto totalmente voltado para a literatura negra. A noite será das escritoras Cristiane Sobral, Livia Natalia e Mel Adún.

Denominado “Literatura Negra Uterina” o encontro vai debater o conceito que vem sendo trabalhado pela Ogum´Toques envolvendo a produção intelectual e literária feminina.

O evento acontecerá na unidade do Sesc/Senac localizada no Pelourinho.


Ilê Axé Opô Afonjá sedia homenagem ao Dia da Poesia

postado por Cleidiana Ramos @ 11:11 AM
7 de março de 2015
Mãe Stella, ialorixá do Opô Afonjá, é anfitriã do encontro que celebra dia dedicado a Castro Alves. Foto:  Margarida Neide / AG. A TARDE Data: 07/12/2012

Mãe Stella, ialorixá do Opô Afonjá, é anfitriã do encontro que celebra dia dedicado a Castro Alves. Foto: Margarida Neide / AG. A TARDE
Data: 07/12/2012

No dia 14 de março nasceu Castro Alves e, por isso, é quando se celebra a poesia. Ocupante da cadeira que homenageia o mais conhecido poeta baiano na Academia de Letras da Bahia (ABL), a ialorixá Mãe Stella de Oxóssi preparou uma programação especial para festejar uma data tão mágica para as letras.

A partir das 17 horas do dia 14, próximo sábado, no Ilê Axé Opô Afonjá, o projeto Encontro Colorido da Encantada Espiritualidade Baiana vai celebrar o Dia da Poesia com o evento intitulado Três toques: poesia, amor e alegria.

O projeto, que foi inaugurado com a Animoteca, uma biblioteca itinerante, foi pensado para promover o diálogo entre as diferentes tradições religiosas.  A ação é voltada para a construção de uma cultura de paz e combate às variadas formas de violência.

A celebração vai começar com a apresentação da Camerata Castro Alves, criada em 1997 por Marcos Santana e que é especializada na interpretação do repertório do poeta.

“Poesia é ritmo, é toque, é música e é por isso que nos sensibilizaremos com a apresentação deste grupo cultural e artístico”, explica Graziela Domini, coordenadora do projeto Encontro Colorido da Encantada Espiritualidade Baiana.

O amor, que é o segundo toque, vai trazer poemas que cantam esse sentimento como os reunidos no livro Nazaré- das farinhas e poesias, uma coletânea das criações de poetas do município homônimo do período de 1831 a 1963.

A coletânea foi organizada por Carla Domini Peixoto e teve o seu lançamento como uma das atividades da visita da Animoteca a Nazaré.

O terceiro toque é a alegria celebrada no nome sagrado de Mãe Stella – Odé Kayodê –, que numa tradução do iorubá para o português significa Caçador de Alegria.

“ Quem convive com ela sente o encontro da alegria com a responsabilidade em seus pequenos e grandes atos. E é por isso que a cultura brejeira pedirá licença à seriedade do ambiente religioso para encerrar a apresentação com poemas do livro Prosa Morena, onde Jessier Quirino reescreve uma fala sertaneja que diz: ‘O mundo é uma bodega pequena e sortida. Mais dias menos dias a gente se encontra’”, completa Graziela Domini.

Segundo a coordenadora, esse também será o momento de entrega ao prazer da boa comida acompanhada de uma boa prosa. A atividade também vai reservar uma surpresa para os que aceitarem o desafio de declamar poemas autorais ou de outros poetas a partir dos temas amor e alegria.


Ogum´s Toques tem campanha para publicar obras de autores negros

postado por Cleidiana Ramos @ 12:59 PM
10 de dezembro de 2014
O editor Marcus Guellwaar Adun ao lado do poeta José Carlos Limeira. Foto: Arquivo pessoal

O editor Marcus Guellwaar Adun ao lado do poeta José Carlos Limeira. Foto: Antonio Terra/ Divulgação

Uma campanha criativa e pioneira na Bahia promete movimentar o mundo de quem produz literatura com enfoque no combate ao racismo. Trata-se da campanha de crowdfunding, um nome técnico para a famosa “vaquinha” realizada pela editora Ogum´s Toques.

O objetivo é arrecadar U$ 30 mil dólares o que vai permitir a publicação de 10 livros de autoras e autores negros. Os gêneros incluem poesia, infanto-juvenil, contos e também trabalhos acadêmicos.

“O mercado editorial no Brasil, assim como a sociedade brasileira, pratica o racismo institucional de maneira extremamente sofisticada, prestigiando autorias brancas, masculinas, heterossexuais, burguesas,  sulistas esudestinas”, analisa Marcus Guellwaar Adún, escritor, educador e editor.

De acordo com ele, no lugar de apenas constatar as dificuldades para publicação, a ideia é abrir espaço para autores que têm uma forma peculiar de produzir conhecimento, afinal têm experiências variadas na constatação e formas de combate ao racismo.

“As pessoas doadoras terão seus nomes mencionados entre os reconhecimentos contidos nos livros”, explica Adún.

As doações podem ser feitas em qualquer quantia . As que ficarem acima de U$ 100 dólares receberão uma camisa da editora.

Para acessar o site de doação é só clicar aqui.

A doação é feita por meio da pressão no botão CONTRIBUTE NOW.  Para doar é necessário usar cartão de crédito e o valor é automaticamente convertido em dólar.

Por isso é importante você lembrar que o faturamento em moeda estrangeira no cartão de crédito, geralmente, é feito com a cotação do dia de fechamento da fatura. É importante checar com a sua operadora esses detalhes para não se atrapalhar nas contas.

A boa notícia é que os organizadores já estão elaborando  uma ferramenta da campanha em português para tornar mais fácil a contribuição com a iniciativa.

Leilões

A ação também inclui a realização de leilões de obras de arte. Fique por dentro dos lances da campanha também via a página no Facebook . 

Abaixo você confere um dos vídeos da campanha.


Maurício Pestana lança livro com entrevistas de enfoque na questão étnico-racial

postado por Cleidiana Ramos @ 1:13 PM
27 de novembro de 2014
Capa do livro do jornalista Maurício Pestana que será lançado hoje. Foto: Divulgação

Capa do livro do jornalista Maurício Pestana que será lançado hoje. Foto: Divulgação

Hoje, quinta-feira, tem lançamento do livro Racismo: Cotas e Ações Afirmativas, no Palacete das Artes Rodin-Bahia, na Graça, a partir das 18h30. De autoria do jornalista e cartunista Maurício Pestana, a obra reúne 46 entrevistas realizadas pelo autor com artistas, intelectuais e religiosos para a Revista Raça Brasil, onde atuou como editor e diretor executivo.

Dentre os entrevistados estão os ex-presidentes Lula e José Sarney, o cantor Gilberto Gil, a ialorixá Mãe Stella de Oxóssi, dentre outros.

As entrevistas foram conduzidas a partir de experiências pessoais em relação ao racismo e ações afirmativas como as cotas nas universidades. O livro é publicado pela Editora Anita Garibaldi com o apoio da Fundação Maurício Grabois.

Serviço: Lançamento do livro Racismo: Cotas e Ações Afirmativas

Onde: Palacete das Artes- Rodin-Bahia (Rua da Graça, 289, Graça)

Quando: Hoje, a partir das 18h30. Entrada franca.


Balaio de Ideias: Uma crônica para Marlon Marcos: neo-cronista do candomblé

postado por Cleidiana Ramos @ 2:13 PM
24 de abril de 2014
Lançamento de Sob a Égide das Águas será amanhã, das 18h30 às 21 horas, na Katuka (Praça da Sé, Edifício Themis)

Lançamento de Sob a Égide das Águas será amanhã, das 18h30 às 21 horas, na Katuka. Foto: Divulgação

Cláudio Luiz Pereira

É com júbilo imenso que recebi e li o livro Sob a égide das águas (Editora Kawo Kabiyesile, 2014) de Marlon Marcos Vieira Passos. Posso dizer a propósito do autor que é um homem único e, ao mesmo tempo, paradoxalmente múltiplo. Aqui e acolá, ele está em trânsito entre muitos mundos. Está sempre entre as coisas, é um elo, é ele o “e” do vai-e-vem. E sim, ele trafega o mundo da poesia, do jornalismo, da antropologia. E, como não, o mundo do candomblé, que é aquilo lhes dá força e equilíbrio, e onde ele encontra achego, afetos e aconchegos.

Como poeta suas virtudes são muitas e extraordinárias. Como bom prestidigitador seria capaz de erigir a água de um copo em uma tempestade intempestiva, ao que se seguiria uma carreada de raios e trovões verbais. Típico daqueles que tem uma opinião forte frente a tudo, e frente a qualquer coisa. No seu entre mundo a oralidade não é uma qualidade anódina. Mas sua poesia está escrita, também publicada amiúde, e é reveladora da sua veia espirituosa e, mais que isto, de sua espiritualidade. Na sua poesia ele aparece na completa nudez daqueles que só precisam do abrigo das palavras.

Como jornalista é um participativo contribuinte da crítica da cultura baiana. É defensor de suas devoções intimas. Gosta do velho, mas com o novo se compraz. Mas não é justamente o novo e o velho que separam a qualidade da circunstância em que ele se insere. Ele sempre está presente, seja lá onde for, seja a hora que der, seja como tiver de ser. Ele está tanto no espetáculo Cult, de algum artista quase subterrâneo, quanto no camarim do mais charmoso e chique dos mais cultuados dos mortais…

Como antropólogo é um aprendiz de feiticeiro. E a esta altura dos fatos ele, tão claramente quanto o Quesalid Lévi-straussiano, já sabe quão valioso e  mágico é este conhecimento que ele retém. Querer ser antropólogo é um encanto raro, que só toca profundo naqueles que são capazes da renúncia e da entrega como proezas. A verdadeira antropologia, sabe Marlon Marcos, é intestina e visceral, é uma espécie de embriaguez dilacerante, discursiva e textual, é uma obsessão sem cura, um eterno abismar-se consigo mesmo. Ao discernir algo em torno desta soberba abstração do que é o humano, nos explicamos a nós mesmos, mais que tudo.

*

Acredito que algumas palavras mais podem ser ditas para realçar a importância do livro que no momento Marlon Marcos disponibiliza para seus leitores. Em primeiro lugar é preciso notar que o autor reúne boa parte de seus escritos jornalísticos dedicado ao candomblé e, como tal, demonstra aqui quão informado ele está nos temas e problemas concernente a esta religião. Neste sentido, é preciso notar que são textos públicos, veiculados por importante jornal baiano – A TARDE, e que se traduzem em diálogo com o campo onde ele desenvolve suas pesquisas antropológicas. São crônicas, conforme o próprio autor esclarece, e, como tais, articulam o jornalismo e a poesia, e também a antropologia, que a esta altura tornou-se seu mister preferencial.

Sabemos que o autor está credenciado para sua obra. Está possuído, portanto, deste ímpeto que permite ver esta religião de um ponto de vista êmico, interno, intrínseco. Ele vê o que o candomblé tem de mais vibrante (a experiência do êxtase, da devoção, do axé, tudo que se resguarda na contingência dos segredos, dos interditos, do indizível) e, também, o que nele há de mais prosaico.

Assim sendo, tece o fio da memória dos cultos, das narrativas e das estórias, das trajetórias e dos itinerários, das famas, das lidas e das vidas. Faz mesura diante da lembrança dos que se foram e se posta diante da presença dos que cá estão. Escrevendo sobre eles o autor sabe que servirá de semente aos tantos que virão.

É assim, com esta incrível sensibilidade, que Marlon Marcos trata das mulheres que povoam este universo afro-brasileiro. São todas divas, divindades, entidades, deidades. Chamam-se Marias, ou Stelas, ou Zulmiras, ou Carmélias, ou Luizas e a suas designações de batismo se incorporam seus nomes de santo. São de Nanã, de Oxaguian, de Oxóssi… Todas elas mães guerreiras… mães de todo mundo, mães de uma humanidade que delas tanto carece.

E, mais que isto, o que se vê no livro, é o passar dos anos, entre 2007 e 2013, e tudo que vai acontecendo ao povo de santo. As mortes e os passamentos, a religião como fato da polis, as muitas dinâmicas com que o tempo corre e tudo devora. Escreve sobre as diversas nações, e as ações dos homens, também diversas. Através destes homens ele vislumbra os sonhos, as festas, as celebrações, as conquistas, os embates. E, como não, os debates que ele tanto acompanha quanto participa com interesse entusiasmado.

Conclusivamente, enquanto crônicas, os textos de Sob a égide das águas falam sempre de um tempo presente, e, desse modo, falam também de tudo que permanecerá eterno no mundo do Candomblé, para todo o sempre, e sempre… Axé, Marlon Marcos!

Cláudio Luiz Pereira é doutor em antropologia e diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia da Ufba

Serviço
Evento:  Lançamento do livro Sob a égide das águas, escritos jornalísticos sobre candomblé
Autor: Marlon Marcos
Editora: Kawo- Kabiyesile
Dia: 25 de abril, das 18:30  às 21 horas
Local: Katuka- mercado negro// 71 – 3321-0151
Preço sugerido: $ 20,00


Estudo revela força poética da obra de Abdias Nascimento

postado por Cleidiana Ramos @ 1:01 PM
13 de março de 2014
Dentre a vasta obra de Abdias Nascimento, o livro Axés do Sangue e da Esperança-Orikis é o único de poesia. Foto: Xando Pereira/Ag A TARDE/13.11.2002

Dentre a vasta obra de Abdias Nascimento, o livro Axés do Sangue e da Esperança-Orikis é o único de poesia. Foto: Xando Pereira/Ag A TARDE/13.11.2002

Lindinalva Barbosa é autora de As Encruzilhadas, o ferro e o espelho, estudo sobre a obra poética de Abdias. Foto: Lúcio Távora/Ag. A TARDE

Lindinalva Barbosa é autora de As encruzilhadas, o ferro e o espelho, estudo sobre a obra poética de Abdias. Foto: Lúcio Távora/Ag. A TARDE

Para quem não conseguiu ler no formato de imagem, texto sobre estudo da obra poética do grande Abdias, que tem centenário de nascimento comemorado amanhã. 

Cleidiana Ramos

Intelectual multifacetado, Abdias Nascimento (1914-2011) nasceu em 14 de março,  Dia da Poesia. A data foi escolhida para festejar esse gênero literário por conta do  aniversário de Castro Alves. Curiosamente, também é o  dia em que a escritora Carolina de Jesus nasceu.  Os três produziram uma arte saída da vivência ou da aproximação (no caso de Castro Alves) com o  universo negro. Embora pouca gente saiba, Abdias publicou Axés do Sangue e da Esperança-Orikis, único livro de poesias da sua vasta obra.

A surpresa de muitos quando se deparam com o livro, publicado em 1983, é por conta da imagem do combatente aguerrido de Abdias que, por vezes, acaba ofuscando a sua imensa sensibilidade.
“O  senso comum tem uma noção de  poesia como algo que está apenas  no campo do lirismo. É como se as posturas mais aguerridas e mais duras estivessem  distanciadas desse campo”, explica Lindinalva Barbosa, autora da dissertação As Encruzilhadas, o Ferro e o Espelho .

A pesquisa que resultou no texto apresentado para a obtenção do seu título de mestre em Estudo de Linguagens pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb) mostra as formas artísticas e discursivas do livro com característica diferenciada dentre a obra literária de Abdias.
Lindinalva conta que tomou contato com o livro em 1986, período inicial da sua trajetória como militante do Movimento Negro Unificado (MNU).

De acordo com ela, embora o livro  traga poesia, ele reflete o espírito mais geral da produção de Abdias.

Luta e religião

“A obra de Abdias está inserida no campo da  literatura negra, conceito que uso. Esse tipo de literatura traz a mensagem capaz de comunicar a luta cotidiana que é travada contra o racismo”, acrescenta.

A religião afro-brasileira é a base dos poemas reunidos no livro. O título escolhido por Lindinalva faz referência aos três orixás que dominam a obra: Exu, Ogum e Oxum.

Exu é o senhor das encruzilhadas, ou seja, dos  vários caminhos que se encontram e exigem decisões; Ogum é o dono da tecnologia e arte de retirar do ferro os variados objetos, inclusive as armas; Oxum é a dona da fertilidade e da luta que combina paciência e inteligência.

“Em uma entrevista que fiz com Abdias, ele chegou a me dizer que Exu era o patrono da sua ação política, como aquele que não se conforma com  as situações que o racismo coloca e que entra e sai de encruzilhadas. Abdias era assim”, diz.

“Ogum prepara as armas e Abdias sempre disse que tudo o que fazia era  ferramenta para a luta contra o racismo;  Oxum é o orixá votivo de Abdias, que, de certa forma, contrabalançava seu espírito bélico, pois ela também é bélica, mas de uma forma mais maleável, engenhosa e sinuosa como as águas”, completa a pesquisadora.

O encontro de Abdias com as religiões afro-brasileiras aconteceu  na década de 1930, no terreiro de Joãozinho da Goméia, no Rio de Janeiro.

“Em uma de suas biografias, ele coloca que o  momento em que deu conta de si enquanto sujeito negro de uma forma mais plena e decisiva foi quando se aproximou do universo afro religioso”, afirma Lindinalva.

Uma amostra dessa arte pessoal e engajada é um dos trechos do poema intitulado Mucama-mor das estrelas: Não direi que isto é poesia/ talvez lembranças fantasia/ quem sabe murmurar de sonhos/ testemunho ou biografia.

O trabalho de Lindinalva Barbosa ainda não foi publicado em livro, mas pode ser conferido tanto no site do Programa de Pós Graduação em Estudo de Linguagens da Uneb, como no site do Ipeafro, que reúne produções sobre Abdias.


Mais um livro, mais um presente

postado por Cleidiana Ramos @ 1:11 PM
18 de dezembro de 2013
Mãe Stella lança novo livro hoje, quarta, na ALB. Foto: Margarida Neide. 07/12/2012

Mãe Stella lança novo livro hoje, quarta, na ALB. Foto: Margarida Neide. 07/12/2012

Maria Stella de Azevedo Santos

Foi assim que meus filhos escreveram no início do convite para o lançamento do próximo livro que estarei entregando ao público. Se permitir que a colocação da referida chamada fosse colocada, foi porque, na verdade, considero que editar mais um livro é, sim, um grande presente. Um grande presente para mim! Afinal, livros nos conectam uns aos outros, fazendo com que eu possa estar presente na vida de pessoas que nunca sonhei em trocar ideias.

Além do mais, continuar devolvendo ao mundo o que recebi dele faz com eu me mantenha presente no momento presente. Meu tempo será sempre o agora! Se escolho, geralmente, o mês de dezembro para lançar os livros que escrevo é exatamente porque neste período o desejo de conexão fica intensificado.

Sendo assim, convido a todos para estarem comigo hoje, quarta-feira, 18 de dezembro, na Academia de Letras da Bahia, para juntos celebrarmos o destino, tema sobre o qual trata a Coleção Odu Adajó: Coleção de Destinos, que pretende ser composta por 16 volumes.

A Coleção Odu Adajó tem a pretensão de ampliar e aprofundar os conhecimentos sobre o legado da cultura yorubá, que hoje é entendida por quem nos visita como cultura baiana. Por que, então, o povo da Bahia/Brasil estuda tanto a mitologia dos deuses gregos e romanos e não estuda a mitologia dos orixás? Por que se interessam apenas por oráculos que estão distantes de nós, como Cabala, Tarô, e não procuram conhecer aquele que atrai tanta gente de fora do estado (e do país) em busca de ajuda e apoio espiritual, que é o Jogo de Búzios?…

Foram essas as perguntas que durante muito tempo me fiz. Recusei-me a acreditar no “chavão” do preconceito e fui a “campo” pesquisar. Perguntei a uma “filha de santo” minha por que ela estava estudando Cabala e não os odus, que são os caminhos do destino indicados pelo oráculo da cultura à qual ela estava vinculada – o candomblé. A resposta foi simples: “Sobre Cabala encontro livros que ajudam em minha busca pelo autoconhecimento e pelo autoaperfeiçoamento, sobre a tradição africana nada ou pouca coisa  encontro”.

Ouvi a resposta e pensei: Se eu sou uma religiosa, preciso colaborar no sentido de facilitar a busca de conexão das pessoas com sua parcela divina, sua espiritualidade. E uma das importantes etapas desse processo é conhecer, aceitar e cumprir o destino. Resolvi, então, tentar cobrir a falta que me foi alertada pela minha filha, escrevendo e publicando livros que podem ser de interesse de muitos.

A Coleção Odu Adajó se destina, portanto, a qualquer pessoa que busque ter uma visão mais ampliada da existência, aos estudiosos de culturas diversas e, principalmente, aos iniciados da religião que é conhecida no Brasil pelo nome de candomblé.

Sendo eu uma iniciada, tenho a tendência de resguardar os mistérios, evitando retirar os véus que os encobrem. Por isso, não foi uma decisão nada fácil editar a coleção que agora chega ao conhecimento do público, assim como os livros anteriores. A ousadia vem sempre da necessidade e a coragem, sempre da permissão dos orixás. Diante da modernidade, da internet, essa ficou sendo a minha única alternativa de evitar deturpações da essência de uma religião milenar.

Quatro volumes da coleção em questão já estão escritos, mas apenas um já foi editado, com apoio da Assembleia Legislativa do Estado da Bahia. Optou-se por usar todas as palavras em yorubá com a grafia correta como forma de preservação da língua, mas isto não é motivo de preocupação, uma vez que a tradução das rezas, dos provérbios, etc. pode ser encontrada logo em seguida.

Conhecer a cultura africana não transforma ninguém em cultuador de orixás. Cada um tem sua crença, a qual deve sempre ser respeitada por todos. Entretanto, conhecer a cultura em que se vive é muito mais do que uma obrigação, pode ser um delicioso prazer. É apenas isso que pretendo oferecer: prazer com uma boa dose de ampliação de conhecimentos, que possa vir a colaborar com a diminuição do preconceito e uma melhor qualidade de presença na sociedade em que se vive.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente ela escreve para o jornal A TARDE, sempre às quartas-feiras


Mãe Stella lança novo livro

postado por Cleidiana Ramos @ 3:46 PM
13 de dezembro de 2013
Mãe Stella lança novo livro. Foto: Margarida Neide/Ag. A TARDE/ 29.11.2012

Mãe Stella lança novo livro. Foto: Margarida Neide/Ag. A TARDE/ 29.11.2012

Na próxima quarta-feira, às 18 horas, na Academia de Letras da Bahia (ALB),  Mãe Stella de Oxóssi dá mais um presente para a comunidade que dirige, o Ilê Axé Opô Afonjá, mas também a todos que professam o candomblé ou se interessam pelos temas que envlvem essa religião. Trata-se do primeiro volume da coleção Odu Àdájo, com tradução livre para o português como Coleção de Destinos. Com maestria, Mãe Stella apresenta toda a beleza que cerca um dos mais importantes pilares para essa tradição religiosa: o oráculo que, no Brasil, é conhecido como Jogo de Búzios e que se baseia nos odus, ou seja, o conhecimento sobre o destino.

Mas este conhecimento é muito mais complexo do que a ideia simplista de conhecer o futuro a partir da consulta a uma sacerdotisa ou sacerdote. Também não significa que conhecer o destino é poder evitar qualquer tipo de problema como os céticos gostam de dizer para diminuir a sabedoria sobre oráculos.

No universo afro religioso, ter informações sobre o “destino” é, antes de tudo, conquistar o auto conhecimento que abre os caminhos para uma vida de paz acima de tudo. São explicações como essa que a coleção, cuidadosamente preparada por Mãe Stella, vem trazer.

O primeiro livro, por exemplo, começa pelo 16º odu, que é Ofun Méji, no sistema oracular da divindade Ifá. No Merindinlogun, um dos nomes que se dá ao Jogo de Búzios, ele ocupa a décima posição.  “Ofún Méjì é, portanto, um odu de extrema complexidade, que como símbolo da síntese universal, carrega em Si a responsabilidade pela “Criação” e por todo tipo de criação, que acontece por oposição ou complementação dos opostos, enfim, através de permanente movimento”, diz a introdução do livro.

No prefácio, Mãe Stella explica que a sua iniciativa em abordar um tema tão complexo e ao mesmo tempo tão caro ao candomblé foi a forma que encontrou para suprir a necessidade de mostrar mais uma face da riqueza que a filsofia iorubá, a qual o Afonjá está vinculado, possui. Ela, inclusive, faz questão de ressaltar que o conhecimento que transmite na coleção é o que recebeu nesta comunidade específica, o que condiz com o respeito que sempre demonstrou e demonstra em seus livros diante das outras tradições religiosas de matrizes africanas.

Fiel a esse princípio da oralidade, Mãe Stella deu um toque diferente a essa coleção. É um livro que dialoga com a oralidade e a escrita. Dessa forma, Mãe Stella, assina o livro na parte de tradição oral. A tradição escrita ficou sob a responsabilidade de Graziela Domini,filha de Iemanjá da casa.

Essa é, portanto, mais uma inovação de uma sacerdotisa que fica muito à vontade para transitar entre as duas linguagens, mas que, neste caso, diante do caráter especial que tem o tema, preferiu repartir, desde a capa, o domínio dos dois códigos de linguagem. Mais uma atitude “ousada”, como ela define sua iniciativa em preparar esta coleção, mas que é mais uma amostra da sua maestria com a literatura a ponto de ter se tornado a primeira líder religiosa do candomblé a ocupar uma cadeira na Academia de Letras da Bahia (ALB).

Em tempos de Internet que ela reconhece a importância, mas que também entende como um meio que, devido a rapidez, não dá o tratamento adequado a temas tão complexos, Mãe Stella conta que optou por fazer o uso da parceria entre oralidade e escrita para transmitir sua reflexão sobre o oráculo de origem africana que continua preservado na Bahia.

É um passeio pelo meio dos mistérios mas sem a necessidade de revelar aquilo que se chama “fundamento”,  reservado apenas para quem conquistou o direito de ter acesso a ele, um dos pilares básicos do candomblé.

“Como iniciada que sou, tenho a tendência de resguardar os mistérios, evitando retirar os véus que os encobrem. Por isso, não foi uma decisão nada fácil editar a coleção que agora entrego ao público. A ousadia veio da necessidade, mas a coragem veio da permissão dos orixá. Diante da modernidade, essa ficou sendo minha única alternativa de evitar deturpações da essência de uma religião milenar. Quero deixar claro que o que aqui transmito tem como base o candomblé como é professado no Il]e Axé Opo Afonjá, na Bahia”, escreve Mãe Stella no prefácio.

A nós leitores cabe recohecer a profundidade deste presente e a generosidade de uma sacerdotisa que tem feito do seu conhecimento uma forma de diálogo tanto com aqueles que são da religião dos orixás,como também com os que se sentem próximos pelos mais variados caminhos.

Serviço:
O que: Lançamento de Ofun (Coleção Odu Àdájo- Coleção de Destinos)
Quando: Dia 18/12, quarta-feira, a partir das 18 horas
Onde: Academia de Letras da Bahia (ALB), Avenida Joana Angélica, 198, Nazaré


Ecos da posse de Mãe Stella na ALB

postado por Cleidiana Ramos @ 9:44 PM
15 de setembro de 2013

Pessoal: como não pude postar nada aqui sobre a posse de Mãe Stella, estou publicando abaixo o texto que elaborei para o editorial da edição de sexta-feira de A TARDE.

Lições da trajetória de Mãe Stella

MAE ESTELLA DE OXOSSI / TOMA POSSE MA ACADEMIA DE LETRAS

 

 

Fundadora do Ilê Axé Opô Afonjá, em 1910, Eugênia Anna dos Santos, carinhosamente chamada de Mãe Aninha, dizia que todo negro com um anel no dedo deveria colocá-lo aos pés de Xangô.

Simples, mas profundas, as palavras de Mãe Aninha evocam o quanto era difícil para um afrodescendente ter acesso à escola. Mas significa também que os vitoriosos deveriam agradecer à ancestralidade que, no caso de Xangô, governa coisas tão belas como a Justiça e a alegria. Ao voltar, o dono do anel reforça um ciclo, pois quem vence desafios, geralmente, inspira.

Coube, portanto, a Maria Stella de Azevedo Santos, uma filha do Afonjá e ocupante do posto que já foi de Mãe Aninha poder colocar aos pés de Xangô símbolos, que assim como o anel de formatura, significam a conquista do saber formal.

Formou-se em enfermagem numa época em que a habilitação era para poucos; é doutora honoris causa da Uneb; foi a primeira ialorixá a se tornar articulista de um jornal de grande circulação ao passar a escrever artigos em A TARDE e agora é membro da Academia de Letras da Bahia (ALB).

Mãe Stella não perseguiu nenhum destes títulos. Eles vieram como resultado da sua capacidade de mostrar como é possível absorver um código sem precisar abrir mão dos seus próprios.

Olhando a produção literária de Mãe Stella percebemos como a matriz oral, que é a base da sua formação religiosa, dialoga com a formalidade da escrita. Seu discurso é simples, mas profundo e próximo de quem o acessa , características tão presentes na oralidade.

A trajetória da filha de Oxóssi, orixá que é o provedor da comunidade, vira, no plano simbólico, alimento para novas gerações que descobrem o quanto o anel é necessário no mundo além dos terreiros. Mas o que não devem esquecer é a riqueza da ancestralidade preservada nestes espaços. Ela é a chave para não perder o caminho da origem, que permite lembrar quem se é de fato.


Ceao recebe Ogum´s Toques

postado por Cleidiana Ramos @ 10:46 AM
21 de agosto de 2013
Limeira e Semog

Os escritores Limeira e Éli Semog prometem noite de homenagem à literatura e música. Foto: Divulgação/Ceao

Na próxima sexta-feira, a partir das 18 horas, no Centro de Estudos Afro Orientais da Ufba (Ceao/Ufba) os escritores Éle Semog e Limeira comandam o evento chamado de “Ogum´s Toques”.

A dupla promete muita poesia, diálogo e música.

O Ceao fica no Largo 2 de Julho, no centro da cidade. É uma excelente opção de programa para a sexta-feira.


Carlos Moore lança nova edição de seu livro na Casa de Angola

postado por Cleidiana Ramos @ 2:27 PM
24 de setembro de 2012

Hoje tem lançamento de nova edição da obra de Carlos Moore na Casa de Angola. Foto: Divulgação

Hoje, a partir das 18 horas, na Casa de Angola (Barroquinha) tem atração de peso. O lançamento do livro “Racismo e Sociedade” de Carlos Moore encerra o III Encontro de Estudantes Guineenses em Salvador.

Moore é um dos mais brilhantes intelecutais do mundo contemporâneo. Sua análise sobre o racismo, um mal que insiste em persistir no mundo moderno é contudente.

O lançamento é um investimento da Editora Nandyala, da Casa de Angola, e do espaço cultural Katuka- Mercado Negro.

SERVIÇO
Evento: Lançamento da 2ª edição de Racismo e Sociedade: novas bases epistemológicas para se entender o racismo, de Carlos Moore.
Promoção: Editora Nandyala, Casa de Angola na Bahia, Katuka – Mercado Negro.
Quando: 24 de setembro de 2012, às 18h, na Casa de Angola, encerrando o IIIº Encontro de Estudantes Guineenses na Bahia.
Local: Praça dos Veteranos, Gravatá, na Casa de Angola ( Barroquinha – r, frente ao Corpo de Bombeiros), tel.: 3321-4495.
Mais informações:
Katuka – Mercado Negro: (71) 3321-0151


Novo livro de Mãe Valnizia já está pronto

postado por Cleidiana Ramos @ 5:08 PM
27 de setembro de 2011

Mãe Valnizia lança novo livro no próximo dia 12. Foto: João Alvarez/Divulgação

Mãe é sempre motivo de orgulho e quando elas ultrapassam as nossas expectativas ainda mais. Assim é com a minha mãe espiritual, a ialorixá Valnizia de Ayrá, que não para de supreender.

Quando ainda estamos em festa com o lançamento de sua bela autobiografia intitulada Resistência e fé, eis que ela nós dá outro presente: Aprendo ensinando: experiências num espaço religioso.

No novo livro, ela conta as historias originadas da sua relação com os seus filhos espirituais do Terreiro do Cobre e também da sua vivência na Casa Branca do Engenho Velho, o mais antigo terreiro de nação ketu do Brasil, onde fez sua consagração religiosa.

O lançamento será no dia 12 de outubro, a partir das 18 horas, na Praça de Oxum no Terreiro Casa Branca.

Volto, claro, a falar mais do livro, logo, logo.    


CEF retira vídeo com Machado de Assis representado por branco

postado por Cleidiana Ramos @ 5:48 PM
21 de setembro de 2011

A Caixa Econômica Federal (CEF) anunciou a retirada de um comercial sobre a sua caderneta de poupança por conta de um erro histórico. O escritor Machado de Assis, que era negro, foi representado no vídeo por um ator branco. Além disso, a instituição pediu desculpa aos movimentos negros.

Durante muito tempo cogitou-se que o escritor foi omisso em relação à escravidão e às relações interraciais do Brasil no período em que viveu, mas estudos como o intitulado Machado de Assis afro-descendente: escritos de caramujo (antologia), de autoria de Eduardo de Assis Duarte, traz elementos para reavaliar esse tipo de ideia sobre um dos grandes nomes da literatura brasileira.

Confiram o vídeo com a propaganda da CEF cliando no link:
watch?v=10P8fZ5I1Wk.

Para saber mais sobre a decisão da Caixa clique aqui.


Diálogo duplo com Mãe Stella

postado por Cleidiana Ramos @ 6:03 PM
25 de abril de 2011

Mãe Stella participa do projeto Com a Palavra o Escritor da Fundação Jorge Amado. Foto: Xando Pereira |Ag. A TARDE|26.08.2010

Na próxima quarta-feira, Mãe Stella será a convidada do projeto Com a Palavra o Escritor, desenvolvido pela Fundação Casa de Jorge Amado. O encontro será às 17 horas na sede da institutição, localizada na Ladeira do Pelourinho.

Além disso, quarta-feira é o dia da publicação quinzenal do artigo da yalorixá na página de Opinião de A TARDE. Eu já tive o privilégio de ler o dessa semana, gentileza do editor Jary Cardoso, e, para não estragar a surpresa, só posso dizer a vocês: não o percam. Está maravilhoso como tem sido todos.

Para só refrescar a memória, aqui vai a lista dos cinco livros publicados por Mãe Stella: E Daí Nasceu o Encanto (em co-autoria com Cléo Martins ); Meu Tempo é Agora; Oxóssi – O Caçador de Alegrias; Òwe – Provérbios;  e Epé Laiyé – Terra Viva, que é dirigido ao público infanto-juvenil, principalmente. Um programa imperdível.


Beleza de livro

postado por Cleidiana Ramos @ 10:33 AM
19 de abril de 2011

Livro é recheado de informações preciosas. Foto: Divulgação

O livro Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves, veio para as minha mãos com o compromisso de fazer uma resenha para o caderno cultural de A TARDE há cinco anos .  Quando peguei o livro fiquei assustada diante do tamanho: 952 páginas. Ainda mais para fazer um texto pequeno sobre o que achei da leitura.

Mas ao abrir o livro eu não conseguia mais parar. A história de Kehinde, uma criança africana capturada por traficantes de escravos que vem parar na Bahia é o ponto de partida para uma viagem por vários dos meandros do horror que foi o tráfico de gente.

É possível também conhecer muito de Salvador e do Rio de Janeiro do século XIX; as relações raciais e o cotidiano dos retornados para a África. Embora não seja mencionado explicitamente, a personagem é inspirada em Luiza Mahin, apontada como a mãe do poeta e jornalista Luís Gama.

O livro é uma preciosidade por sua riqueza de informações. A narrativa só perde um pouquinho a força na parte final.

Ana Maria Gonçalves é mineira e já ganhou prêmios prestigiosos como o o Casa de las Américas exatamente por esse livro.

O texto é denso, mas consegue ser agradável, o que é uma excelente qualidade da obra. Como eu tinha perdido o primeiro exemplar, comprei outro (que, para não repetir o  erro, não empresto de jeito nenhum..rssrsrr).  Outra boa surpresa é que a edição mais nova veio com o prefácio de Millôr Fernandes. Fica então a sugestão para começar a leitura nesse feriadão.


Novo livro de Jaime Sodré

postado por Cleidiana Ramos @ 5:13 PM
14 de dezembro de 2010

O complexo campo das representações sociais e a sua consolidação no senso comum é o ponto de partida de uma análise criteriosa sobre a influência da imprensa baiana na construção de uma imagem distorcida do candomblé. Essa construção centrada não só em uma ideia de que a religião de matriz africana é um símbolo do mal ou só pode ser tratada de forma jocosa aparece desvendada no livro Da Diabolização à Divinização- a criação do senso comum, do pesquisador Jaime Sodré, que será lançado amanhã, no restaurante Aconchego da Zuzu (Garcia), às 18 horas.

Dominando uma metodologia múltipla que se aproxima da Antropologia e da História, o mestre em design, professor universitário e religioso do candomblé, desvenda também como essa própria imprensa é capaz de dissolver essa imagem negativa que construiu das religiões afro, embora essa ação tenha se dado numa dimensão menor.

“Para o desenvolvimento da análise desse trabalho sobre a imprensa soteropolitana em relação ao noticiário referente ao Candomblé, achei por bem delinear como se construiu essa relação, bem como as ações históricas responsáveis pelo crédito de tais conotações, e que, atravessando séculos, ainda interagem no cotidiano”, explica Sodré.

O autor aposta, com base em sua experiência de análise, que ainda é possível mudar  esse comportamento da imprensa. “A criação de um senso comum de representações negativas chamadas de diabolização, desfavorável à religião do Candomblé, poderia evoluir para uma situação que denominamos divinização. A divinização servirá para configurar situações de representações sociais positivas, veiculadas pela imprensa, que impliquem numa transformação do senso comum”, acrescenta.

O livro traz exemplos de matérias consideradas negativas, mas também das positivas. O levantamento é capaz de levar à reflexão sobre o comportamento de um importante segmento social, a imprensa, em relação à religiosidade afro-brasileira, um dos mais fortes elementos representantivos da identidade baiana.

O quê: Lançamento do livro Da Diabolização à Divinização- a criação do senso Comum, de Jaime Sodré
Quando: 15/12, 2010 (amanhã), às 18 horas
Onde: Restaurante Aconchego da Zuzu- Rua Quintino Bocayuva nº 18 (fim de linha do Garcia)
Editora: Edufba


Literatura negra em destaque

postado por Cleidiana Ramos @ 2:15 PM
26 de novembro de 2010

A escritora Myriam Fraga é uma das participantes do seminário. Foto: Rejane Carneiro | Ag. A TARDE| 13.08.2008

Na terça-feira tem mais uma edição do Seminários Novas Letras, organizado pelo Núcleo do Livro, Leitura e Literatura (NLLL) da Fundação Pedro Calmon/Secult. O encontro terá palestras sobre escritores negros, além do lançamento do livro Encontro com o Escritor e um recital de poesias com José Carlos Limeira.

A atividade começa às 14h30 no auditório da Biblioteca Pública do Estado, localizada nos Barris. A entrada é gratuita.

O seminário vai contar com uma palestra sobre Luiz Gama, proferida pela escritora Myriam Fraga; outra sobre o espaço da poética, ministrada pela professora Edilene Matos;  e mais uma sobre Cruz e Sousa, realizada pela professora Florentina Silva. 
 


Letras sobre cultura negra

postado por Cleidiana Ramos @ 12:00 PM
18 de novembro de 2010

Evento terá lançamento de três publicações. Foto: Reprodução

Olha só pessoal: num mercado que ainda precisa de mais títulos sobre cultura negra hoje tem um lançamento de peso.

 A partir das 18 horas no museu Carlos Pinto tem o lançamento dos livros: Candomblé da Bahia (Resistência e identidade de um povo de fé) e Cacimbo (uma experiência em Angola), de José de Jesus Barreto; e Imagens da Diáspora, de Goya Lopes e Gustavo Falcón.

O lançamento inclui mesa redonda com os autores.

A publicação é da Solisluna Editora com o apoio da Fundação Pedro Calmon.


Educaxé: um giro pela poesia de combate ao racismo

postado por Cleidiana Ramos @ 5:09 PM
18 de outubro de 2010

Wole Soyinka é um dos poetas citados na dica pedagógica do professor Jaime Sodré. Foto: AFP PHOTO/Pius Utomi Ekpei

Jaime Sodré

Landê Onawale. Brasil. Genocídio do negro na Bahia: o que a poesia tem a ver com isso?”

O que pode a minha poesia contra isso:

três jovens assassinadas lado a lado?

O que pode a minha poesia

contra esse costume brasileiro

de matar negros como moscas.

Nossos cupidos sendo brancamente mortos…
……………………………………………………….

Ouologue Yambo – Mali. Quando os dentes dos negros falam

Todos pensam que eu sou canibal
Mas bem sabem o que são as línguas
Todos vêem as minhas gengivas rubras
Mas quem as tem brancas
Vivam os tomates

Todos dizem que agora virão
Menos turistas
Mas bem sabem
Não estamos na América e de qualquer maneira
Somos todos tesos

Todos dizem que a culpa é minha e que têm medo
Mas vejam

Os meus dentes são brancos não rubros
Eu não comi ninguém

As pessoas são más e dizem que eu engulo
Os turistas assados
Ou talvez grelhados

Assados ou grelhados perguntei
Ficaram calados e olham com medo para as
Minhas gengivas

Vivam os tomates

Todos sabem que um país arável tem agricultura
Vivam os vegetais

Todos garantem que os vegetais
Não alimentam bem o agricultor
E que eu sou forte demais para um subdesenvolvido
Miserável insecto vivendo dos turistas
Abaixo os meus dentes

Todos de repente me cercaram
Prenderam
Prostaram
Aos pés da justiça

Canibal ou não canibal
Fala
Ah julgas que és muito esperto
E pões-te todo orgulhoso

Agora vamos ver o que te acontece
Qual é a tua última palavra
Pobre homem condenado
Eu gritei vivam os tomates

Os homens eram cruéis e as mulheres curiosas sabem
Havia uma no círculo que espreitava
Que com a sua voz raspante como a tampa duma panela
Gritava
Chiava
Abram-no ao meio
Estou certa de que o papá ainda está lá dentro

Como as facas estavam rombas
O que é compreensível entre vegetarianos
Como os Ocidentais
Pegaram numa lâmina Gillette
E pacientemente
Crisss
Crasss
Floccc
Abriram-me a barriga

Encontraram lá uma plantação de tomates
Irrigada por riachos de vinho de palma
Vivam os tomates

…………………………………………………..

Wole Soyinka – Nigéria. Conversa ao telefone

O preço parecia razoável, locação
Indiferente. A dona da casa jurou
Que não vivia lá. Faltava só
A confissão. ‘Minha senhora,’ avisei,
‘Detesto ir lá em vão – sou africano.’
Silêncio. Transmissão silenciosa
De boa educação pressurizada. A voz, quando veio,
Com baton, como através de
Uma boquilha dourada. Apanho estupidamente.
‘MUITO ESCURO?’… Não ouvi mal.  … ‘É CLARO
OU MUIRO ESCURO?’ Botão B. Botão A. Cheiro
De hálito rançoso de conversa pública.
Cabina telefônica. Marco postal. Autocarro
De dois andares com cheiro de alcatrão. Era real!
Envergonhado
Por um silêncio mal-educado, a rendição
Avançou espantada a pedir simplificação.
Foi atenciosa, variando de ênfase –
‘É ESCURO? MUITO CLARO?’ A revelação chegou.
‘quer dizer – chocolate ou chocolate de leite?’
A sua aprovação era clínica, esmagadora na sua leve
Impersonalidade. Rapidamente, sintonizando-a,
Escolhi. ‘Sépia oeste-africana’ – e para tranqüilizar,
‘Vem  no passaporte.’ Silêncio para um espectroscópico
Voo da imaginação, até que a verdade retiniu no seu sotaque
Duro no bocal. ‘O QUE É ISSO?’ Confessando
‘NÃO SEI O QUE É ISSO?’ ‘Nem por isso.
Facialmente, sou moreno, mas devia ver
O resto de mim. As palmas das minhas mãos, as plantas
Dos meus pés são de um louro peróxido. Da fricção, -
No entanto, de me sentar, o eu
Tornou-se preto – Um momento, minha senhora!’ – sentindo
O seu telefone preparando a tempestade
Aos meus ouvidos – ‘Minha senhora,’ pedi, ‘não seria melhor
Ver por si?’

Sugestão pedagógica:

Interpretar texto dos poemas

Levantar com os alunos a biografia dos três poetas citados e seus locais de origem, listando a característica destes países.

Jaime Sodré é historiador, professor universitário e religioso do candomblé


Educaxé na área

postado por Cleidiana Ramos @ 5:09 PM
18 de outubro de 2010

Olhem o Educaxé aí. Dessa vez a dica pedagógica do professor Jaime Sodré mergulha no universo da poesia feita por poetas negros de três países diferentes: Brasil, Mali e Nigéria. Mas o tema é comum aos três: o racismo. Educadores, aproveitem.


Visitante Indesejado(Conto do Livro Sete Histórias de Negro-II)

postado por Cleidiana Ramos @ 7:11 PM
13 de agosto de 2010

No santuário de São Lázaro e São Roque em Salvador duas tradições religiosas se encontram: candomblé e catolicismo. Foto: Xando Pereira|Ag A TARDE| 05.08.2002

Ubiratan Castro de Araújo

Outro caso doloroso era o da Tia Zefinha. Nossa tia-avó tinha mais de 80 anos, a mais velha da família. Ela era magrinha, de cabelos lisos e grisalhos, penteados em uma rodilha presa por longos grampos, atrás da cabeça. Exímia costureira, tinha o dom de transformar roupa velha em roupa nova. Costurava para fora, mas também costurava em domicílio. Por força de sua profissão, passava longas temproadas nas casas das brancas da Barra. Justiça seja feita, ela sempre foi fascinada pela Casa Grande. Nascida ainda no tempo da escravidão, absorveu todos os preconceitos contra os negros. Ela discriminava ostensivamente as irmãs, sobrinhas e sobrinhos netos de pele mais escura.

Racismo à parte, era uma velhinha fascinante. Viúva sem filhos, desenvolveu a arte de contar histórias da carochinha e histórias do tempo antigo, o tempo da escravidão. A pequena loja de subsolo em que morava, na Rua do Desterro, era um verdadeiro baú de preciosidades. Para as meninas, as grande tentações eram as caixinhas de costura, muito arrumadinhas, delicadamente enfeitadas, cheias de miudezas. Também faziam sucesso as antigas revistas de moda, em sua maioria francesas, com fotos de manequinas e “debuxos” de vestidos. Par aos meninos, a paixão eram livros de contos de fadas e a fabulosa coleção dos fascículos de uma revista chamada Eu Sei Tudo, tradução brasileira da Que Sais-je? Ela também guardava uma coleção completa do Tesouro da Juventude.

Era uma velha sábia. Mesmo asism Bernardo a perseguia. Desde a morte de seu marido, o marceneiro João Guarani, criou uma relação de clientela com uma família da Barra.  Pssava dias e mais dias remontando, encurtando e ajustando velhas roupas a novas modas e a novos corpos. O pagamento variava sempre em função da sorte do dono da casa, no jogo. Segundo O DIVA, a casa dele vivia sempre aberta à jogatina. Até a honra da filha foi jogada na mesa do carteado. Apesar de tudo, nunca lhe faltou o sustento, nem a pose de rico. Para Tia Josefina, faltava.

Muito orgulhosa, ela jamais pedia nada, apenas recolhia-se à sua casinha. Os parentes procuravam visitá-la com frequência para detectar os sinais da visita de Bernardo. De vez em quando, ela era sequetrada por algum sobrinho, para a alegria das crianças. Quando menos se esperava, ela fugia, sempre alegando o chamado de sua vasta freguesia. Um outro caso provocava uma verdadeira guerra fria na assembléia feminina, as simpatizantes dos russos comunistas contra as fascinadas habituês do cinema americano.

João da Cruz era um grnade militante sindicalista, membro filiado e dirigente do Partido Comunista. Era um negro alto, cabelo cortado à escovinha. Orador de verve tão empolgante quanto o Padre Sadoc, se admitirmos a verdade sociológica que Stalin representava para um o que Jesus Cristo representava para o outro. Estava sempre à frente da greves do sindicato e dos comícios e pichações de paredes organizadas pelo Partido. Nos anos da Aliança Nacional Libertadora, era o intrépido lançador de galinhas pintadas de verde nos comícios dos integralistas. Por sua militância, era um homem marcado pelo Dops e conhecido de todos os secretas do bairro.

A segurança para tanto arrojo era a certeza que o Partido cuidava do sustento e do bem estar de sua mulher e de sua filha, nas eventualidades de prisão ou de cladestinidade. Pois bem, essa não era a experiência de sua mulher Alzira e de sua filha Olga.

Lá um dia, João da Cruz sumiu de casa. Isto aconteceu logo depois do bate-boca entre Juraci e Prestes no Congresso Nacional. O presidente Dutra aproveitou a oportunidade para cassar o registro do Partido Cominista. Iniciava-se um novo ciclo de perseguições, que incidiram imediatamente sobre João, que era muito visado. Logo no primeira dia, apareceu um companheiro de partido, de codinome Berto. Disse que fora designado para dar assistência à família de João. Falou, falou, falou. Para não perder a viagem, foi logo dando uma entradas meio ousadas para o lado de Alzira, que o repeliu na tampa.

– Onde já se viu? Procurar ousadia com a mulher de um revolucionário! Não sou eu que vou dar o pretexto a nenhum burguês reacionário chamar meu marido de corno!

– Que é isso camarada! Você entendeu mal. E nunca mais apareceu.

Também os vizinhos e conhecidos se afataram, com medo de ficarem visados. Os investigadores de política, conhecidos como secretas, vigiavam permanentemente a casa, de tal forma que mãe e filha se sentiam em prisão domiciliar.

Um visitante conseguia furar o bloqueio policial: Bernardo. Nos três primeiros dias, acabaram-se o feijão, a farinha e a carne do sertão. sobrou um pouco de café e um saco demilho-alho, bom de fazer pipoca. E durante sete dias elas tomaram chafé com pipoca. Olguinha choramingava muito.

– Atotô, meu pai Omolu, não me abandone!

Em um sábado de manhã, bateram na porta. Era Pezão, filho de Abigail, a irmã mais velha de Alzira. Tinha vindo da feira de São MIguel, onde comprara os aviamentos para uma obrigção de orixá. Ele foi logo comentando:

- Cadê Tio João? Não estou gostando nada da cara de vocês. Vocês estão de Bernardo?

As duas não disseram nem que sim, nem que não. Sorrindo sem jeito, não escondiam a vergonha.

Pezão foi embora muito constrangido. Lá pelas 4 horas da tarde, ele apareceu de novo.

– Minha mãe está precisando de ajuda, pra festa de Omolu. Ela sabe que Tio João não gosta de Candomblé, mas ele nem está aí, não é? Olhe, minha tia, lá na roça não tem luxo não. É comida braba. Tem o Sobe-e-desce! É água, carne de sertão, quiabo e abóbora, subiu, desceu, comeu!

Olguinha riu muito. Alzira juntou os panos, pegaram o bonde do Retiro e deixaram Bernardo sozinho em casa.

Na minha infância, nunca tive medo de diabo nem de inferno. Medo mesmo era de Bernardo. Por isto, saía das rezas muito confiante e vitorioso. Afinal, quando o francês  São Roque se juntava com o nagô Omolu, botavam o tal Bernardo pra correr.

Ubiratan Castro de Araújo é doutor em História, membro da Academia de Letras da Bahia (ALB) e diretor da Fundação Pedro Calmon


Visitante Indesejado (Conto do livro Sete Histórias de Negro- I)

postado por Cleidiana Ramos @ 7:10 PM
13 de agosto de 2010

Conto faz referência a Obaluaê, divindade que tem seus "tabuleiros" levados às ruas de Salvador em agosto. Foto: Haroldo Abrantes| AG. A TARDE| 5.8.2010

Ubiratan Castro de Araújo

As rezas eram uma folia. A novena de São Roque da Tia Do Carmo rivalizava-se com a trezena de SAnto Antônio da Tia Nininha. Cada noite de reza tinha um padrinho que financiava o mingau. Tia Do Carmo era viciosamente prmissiva. Antes mesmo da reza, ela liberava generosos canecos de mungunzá para a garotada. Tia Nininha era, em oposição, opressivamente mandona. No Santantônio dela, quem não berrasse com fé: -Glo-ri-ô-ôso Sant-an-tant-tô-nio, não tinha direito a mingau.

Depois da reza, tias, parentas e vizinhas, se reuniam para o salutar exercício de resenha da vida alheia. Elas cortavam, costuravam e bordavam desventuras, fraquezas e malfeitos de amigos e de inimigos. Só os presentes escapavam, esquanto aí estivessem. Para não serem entendidas, ou mesmo por pudor e superstição, usavam palavras e expressões estranhas ao nosso vocabulário. Ao invés de “botar chifre no marido”, elas falavam “serrar as canelas”. Por isso, todas as vezes que eu entrava na casa do vizinho, ficava olhando para as canelas dele, intrigado com a falta de cicatrizes. Dos frescos, dizia-se que eram “falsos ao corpo”. Os órgãos sexuais tinham nomes diferentes. O feminino era conhecido como “a perseguida” e o aparelho masculino completo era denominado de “berloques de São Brás”.

Quando uma sobrinha grávida entrava na roda, todas riam muito e exclamavam:

– Menina, comeu feijão azedo!

A assembléia do DIVA ( Departamento de Investigação da Vida Alheia) ficava triste, quando o assunto era a visita de Bernardo à caasa de um parente ou conhecido.

– Bernardo está na casa de fulano há três dias.

Todas tremiam.

Bernardo era o substitutitvo da palavra que não se podia pronunciar: fome. Este era o grande terror de todas as famílias. Ela era epidêmica, como na crise de 1929. Ela era sazonal, no tempo do paradeiro, meses em que não se exportava cacau em Salvador. Ela era terrível em momentos de doença e morte nas famílias.

Bernardo também andava mancomunado com os maus procedimentos. Maridos cachaceiros, que se desempregavam para cair na gandaia, deixavam a família aos cuidados do Bernardo. Homens mulheristas, espécies de mulherengos militantes, gastavam o dinheiro com as raparigas e não levavam pra casa senão seus próprios “berloques”. Nestes casos, algumas não se continham e saía o palavrão:

– Pica pura dá gastura!

Alguns casos mereciam atenção especial. As frequentes viitas de Bernardo à casa do Tio Bené eram o motivo de debates apaixonados. Esta era a principal bandeira de luta do temido PCC, o Partido Contra Cunhadas. A culpada de tudo era Vilma, coitada. Era uma mulher muito educada, muito atenciosa com todos,  mas chegada a dindinha, ou seja, preguiçosa. Ela, a cunhada, tinha transformado o valoroso ex-sargento do Corpo de Bombeiros. Ela o obrigou a dar baixa da Bomba, porque chorava o tempo inteiro, com medo que o seu amado se acidentasse em algum incêndio. Tudo fingimento, diziam as militantes do PCC. O que as cunhadas não podiam esconder era o grande carinho que um demonstrava pelo outro. Eles formavam um belo casal. Ambos de boa altura, de pele bem escura e lustrosa, cabelo preto, bem liso como o dos cabolcos, eram da qualidade que o povo chama de Cabo Verde. Mas nem isso escapava da língua das cunhadas.

–De que adianta tanto amor sem responsabilidade?

-Fizeram 10 filhos que não podem criar.

–E, mais a mais, Bené não se compreende que é preto–dizia a feroz tia Nininha. Pensa que está em Roliúde pra viver de romance….

Depois de trabalhar com a sogra, em uma barraca de comida, no Mercado Modelo, tio Bené voltou a viver do seu ofício de carpinteiro, trabalhando em domicílio. Levantava cumieiras, consertava móveis, repregava assoalhos e escadas. Sua fraqueza era a clientela. Trabalhava para um público pobre e de renda instável. Recebia muitos calotes e os fregueses demoravam de pagar. Esta incerteza o tornava um cliente indesejado para os agiotas. A única salvação eram as irmãs.

De vez em quando aparecia uma prima, meio excitada e muito envergonhada, chamava minha mãe no canto, e murmurava:

– Tia, Bernardo está lá, há dois dias.

Essa notícias colocava a família em xeque. Como descobrir sobra em um orçamento tão regrado e todo comprometido? A solução mais frequente era a gavetinha da máquina Singer. Parecia mesmo que a única utilidade das costurinhas que minha mãe fazia era socorrer os irmãos.

Aquelas visitas dóiam muito. Havia um sentimento de revolta e solidariedade com os queridos primos, que não podia se manifestar por meio de nenhum gesto ou atitude pública. Afinal, os vizinhos não deviam perceber nada. Aquilo era um segredo de família. Ficava também, um sentimento de culpa. Porque eu era tão gordo e os meus primos recebiam tantas visitas de Bernardo?

Ubiratan Castro de Araújo é doutor em História, membro da Academia de Letras da Bahia (ALB) e diretor da Fundação Pedro Calmon


A partida do mestre Saramago

postado por Cleidiana Ramos @ 11:15 AM
18 de junho de 2010

Saramago morreu aos 87 anos. Foto: AFP PHOTO / Pierre- Philippe Marcou

O mundo acaba de perder o escritor português José Saramago. Saramago foi uma das pessoas que não fazem falta apenas aos que o conhecem de perto, mas a toda a humanidade. O que dizia e escrevia era pra ser eternizado, uma virtude, infelizmente, de poucos.

Dono de uma prosa filosófica e ácida, Saramago não se debruçou sobre questões étnico-raciais, mas a homenagem do Mundo Afro fica aqui por conta de suas posições veementes contra qualquer tipo de intolerância, principalmente a religosa.

Ao lado de Gárcia Márquez, Saramago aumentou o meu amor pela literatura com o livro  O Evangelho Segundo Jesus Cristo uma obra belíssima que não jusitifca toda a polêmica que o cercou e o fez esfriar suas relações com Portugal, seu país de origem.

Nunca considerei o seu ateísmo declarado desrespeitoso com aqueles que tinham fé. Ele apenas transformava em letras aquilo que lhe passava na alma, com questionamentos próprios inclusive de quem tem crença em um poder transcendental .

Numa destas incursões por este terreno saiu uma perfeita síntese sobre aqules que acham que possuem a verdade absoluta em questões de religião. É um trecho de In Nomine Dei, uma peça que escreveu, e que a transcrição abaixo fica como uma homenagem a este grande escritor, que soube também ser uma grande figura humana:

Entre o homem, com a sua razão, e os animais, com o seu instinto quem afinal, estará mais bem dotado para o governo da vida? Se os cães tivessem inventado um deus, brigariam por diferenças de opinião quanto ao nome e dar-lhe, Perdigueiro fosse, ou Lobo-d’Alsácia? E, no caso de estarem de acordo quanto ao apelativo, andariam, gerações após gerações, a morder-se mutuamente por causa da forma das orelhas ou do tufado da cauda do seu canino deus?

Que não sejam estas palavras tomadas como uma nova falta de respeito às coisas da religião, a juntar à Segunda Vida de Francisco de Assis e ao Evangelho segundo Jesus Cristo. Não é culpa minha nem do meu discreto ateísmo se em Münster, no século XVI, como em tantos outros tempos e lugares, católicos e protestantes andaram a trucidar-se uns aos outros em nome do mesmo Deus – In Nomine Dei- para virem a alcançar, na eternidade, o mesmo Paraíso. Os acontecimentos descritos nesta peça representam, tão-só, um trágico capítulo da longa e, pelos vistos, irremediável história da intolerância humana. Que leiam assim, e assim o entendam, crentes e não crentes, e farão, talvez, um favor a si próprios. Os animais, claro está, não precisam.


Sugestão para aplicação didática

postado por Cleidiana Ramos @ 6:52 PM
27 de outubro de 2009
Livro traz belas ilustrações. Foto: Divulgação

Livro traz belas ilustrações. Foto: Divulgação

Recebi a notícia sobre um livro que pode ser bem interessante para professores que aplicam a Lei 10.639/03: ABC Afro-Brasileiro. De autoria da baiana Carolina Cunha, o livro está sendo publicado pelas Edições SM.

Com base em informações sobre a influência dos povos africanos na formação da identidade brasileira, a obra traz ilustrações feitas pela própria autora, com técnicas como uso de lápis, guache e aquarela. O livro é recomendado para crianças a partir de oito anos.   

Ela já tem outros livros publicados como Aguemon- Um mito yorubá da criação do mundo, Caminhos de Exu, dentre outros.  O livro tem 48 páginas e o preço sugerido pela editora  é R$ 30.


Ideias em Palavra: Alerta contra os males da Intolerância

postado por Cleidiana Ramos @ 12:18 AM
14 de outubro de 2009
Umberto Eco escreveu o fascinante O Nome da Rosa. Foto: AFP PHOTO DDP/Marcus Brandt

Umberto Eco escreveu o fascinante O Nome da Rosa. Foto: AFP PHOTO DDP| Marcus Brandt

Um dos livros mais fantásticos que já li é  O Nome da Rosa, do italiano Umberto Eco. Esqueçam o filme homônimo inspirado na obra, pois ele não chega nem perto da grandiosidade do livro apesar da interpretação irretocável de Sean Conery que faz o frei detetive.

O que mais me encanta em O Nome da Rosa é que ele pode ser lido de várias maneiras: um romance policial; um ensaio sobre semiologia- como o próprio Eco já sugeriu-; um apanhado sobre História Medieval, principalmente a Inquisição, e sobre a revolução que a ordem fundada por São Francisco causou na Igreja Católica. Mas o livro é, sobretudo, a meu ver, um grande recado contra as várias formas de intolerância.

E em tempos de tantos crimes contra a cidadania e até a vida por conta do fanatismo que alguns insistem em chamar de fé e os levam a atacar a liberdade de crença, a história contada por Eco é uma grande lição. Pena que isto não é um antídoto contra todos os  fanáticos porque eles o são exatamente por abdicar da extraordinária capacidade dada aos humanos que é a de exercitar o raciocínio e assim compreender no sentido mais abrangente desta palavra. Mas para os que ainda tem chance de salvação em relação à ignorância que está na base de todos os crimes contra a liberdade O Nome da Rosa pode ser uma boa cartilha.

A sinopse é a seguinte: a morte de um monge, em condições misteriosas num convento beneditino, na Itália medieval, tira a paz da comunidade. Aproveitando a chegada de Guilherme de Baskerville, um sábio frei francisano  que vai até lá para  participar de um debate com representantes do papa onde serão discutidas algumas questões que estão colocando a Ordem Franciscana em choque com hierarquia da Igreja, o abade do convento pede que ele investigue a morte.

À medida que a investigação avança percebe-se que tudo gira em torno de um segredo sobre a biblioteca do convento, que de tão importante é considerada uma das maravilhas do mundo cristão. Embora o mistério sobre os crimes ocorridos no convento e a fascinante trajetória do embate teológico sobre a pobreza sugerido pela ordem fundada por São Francisco fascinem, o livro traz uma discussão sobre a Verdade, com letras maiúsculas. Esta questão filosófica que, segundo os evangelhos, Jesus e Pilatos debateram mesmo em meio à toda dramaticidade do julgamento do primeiro, é a mola propulsora do romance.

Isto porque vários dos personagens agem impulsionados pela certeza de que são os donos da Verdade. Uma frase de frei Guilherme de Baskerville,  resume a meu ver o livro. Logo no início ele dá um conselho ao seu jovem discípulo, Adso, que é mais ou menos assim:

-Teme sobretudo aqueles que estão dispostos a morrer pela Verdade. São esses os capazes dos piores crimes.

Como eu disse, o filme ficou muito aquém de toda a complexidade do livro de Eco. Também não dá para cobrar muito do estilo Hollywood e aí foram feitas várias alterações, além de não ter ficado muito clara a discussão sobre os males da intolerância contra quem pensa diferente, presente em toda a obra. O Nome da Rosa foi publicado em 1980 e ainda é fácil de ser encontrado em qualquer livraria. Embora eu goste de outros livros escritos por Eco, este  para mim é inigualável.