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Arte como voz de mulher

postado por Cleidiana Ramos @ 6:17 PM
25 de novembro de 2015
Ayeola Moore traz, em sua primeira exposição, um olhar sobre o universo das mulheres negras. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE

Ayeola Moore traz, em sua primeira exposição, um olhar sobre o universo das mulheres negras. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE

Cleidiana Ramos

A próxima sexta será um dia de descobertas para a artista plástica Ayeola Moore, 66 anos. Pela primeira vez, desde que começou a pintar há 12 anos, ela apresentará suas telas para um público que vai além de amigos e da família, no Museu Afro-brasileiro da Ufba (Mafro), localizado no prédio da Faculdade de Medicina, Terreiro de Jesus.

Ayeola nunca realizou uma exposição. O máximo que fez para expor seus quadros foi um site (http://www.ayeolamoore.com/pt/index.php), onde estão relacionados alguns depoimentos de quem os viu, mas em círculo restrito.

No início do que revela ser a primeira entrevista que concede no lugar de uma artista prestes a expor, ela afirma estar experimentando ansiedade e insegurança.
“Tenho medo de que o resultado não fique à altura de tudo o que ele produziu para chegar a esse momento”, afirma Ayeola. O “ele” refere-se ao escritor Carlos Moore, 73 anos, com quem vive um casamento de 32 anos feito de cumplicidade presente em cada gesto ou troca de olhares.

“Ayeola foi especial em momentos cruciais da minha vida”, contou Moore, em outra ocasião, quando Ayeola estava ausente. O brilho que toma seus olhos a cada vez que fala na companheira fica ainda maior quando estão juntos.

Encontro

A cumplicidade do casal parece existir também em relação à arte a que cada um se dedicou, mesmo que elas sejam diferentes. Em seus livros, Carlos Moore inquieta ao mostrar o quanto de dores os negros da diáspora precisam combater a partir da descoberta e reafirmação de uma identidade resistente. Em seus quadros, Ayeola faz o mesmo, mas usando a perspectiva feminina.

“Mulher é o que eu sou e percebo os desafios que trazemos conosco. São muitas de nós que precisam abrir mão de seus sonhos porque vivem em meio a vários tipo de exploração, seja no Caribe, nos EUA ou na Bahia”, diz.

Foi por isso que, em meio a uma centena de telas, ela escolheu um grupo formado por 24, onde fixou as formas variadas, delícias e cicatrizes que mulheres negras compartilham, conhecem, descobrem ou reconhecem.

“Os pintores, geralmente, são homens brancos e, portanto, nunca falam de mulheres, principalmente as negras. Eu falo sobre elas porque é muito do que sei”, completa.

O título da mostra já prepara para o que será exibido: Mulher, a força que move o mundo. Por meio das telas, Ayeola quer repartir suas inquietações. “Acho que consigo fazer isso por ter começado a pintar já em uma estágio em que esses pensamentos atingiram a maturidade”, completa.

Ayeola Moore traz, em sua primeira exposição, um olhar sobre o universo das mulheres negras. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE

Obra de Ayeola mostra harmonia entre formas e cores. Foto: Raul Spinassé/Ag. A TARDE

Acerto

O encontro com a pintura se deu por meio de uma conversa com Abdias Nascimento (1914-2011), de quem ela e Carlos Moore sempre estiveram muito próximos.
“Eu estava no momento em que desejava deixar minha marca no mundo. Carlos já fazia isso com a sua escrita. E a pintura surgiu. Abdias me disse que se eu queria pintar que o fizesse sem me abalar com críticas”, conta.

A conversa levou Ayeola a encontrar um novo mundo. Natural de Guadalupe, uma região integrada à França e que fica no Caribe, sua conexão com a arte começou por meio da dança, área em que tem graduação e experiência em pesquisa. Ayeola também trabalhou, durante muito tempo, no ministério da educação francês.

Em 2000, ao lado de Carlos Moore, fixou residência em Salvador. Quando estavam mobiliando a casa, fez um comentário que se revelou uma profecia.

“Eu disse a Carlos que não íamos comprar quadros para as paredes da nossa casa, pois ia enchê-las com os meus”.

Hoje, quando se chega à casa deles, no bairro de Nazaré, são os quadros de Ayeola que dão as boas vindas. A harmonia entre cores e formas que eles transmitem impressiona. Mesmo quem não tem intimidade com o universo da pintura consegue perceber as boas histórias que eles têm para contar.

Depois de ouvir sua narrativa cativante, é hora de encerrar a conversa. Carlos Moore se aproxima para participar da despedida. Ela diz para ele que conceder a primeira entrevista não foi tão difícil. A resposta dele é um sorriso, acompanhado da reafirmação do que já havia dito: “Eu nunca duvidei de que você iria vencer mais esse desafio”.

Serviço:

Exposição “Mulher, a força que move o mundo”/ Abertura sexta, das 18 às 22 horas / Mafro/Ufba- Faculdade de Medicina, Terreiro de Jesus

 


Em entrevista à jornalista Regina de Sá, o doutor em História pela Universidade de Minnesota (EUA) e professor do Departamento de História da Universidade Federal da Bahia, João José Reis faz uma reflexão sobre memória da escravidão e persistência do racismo.  

João José Reis faz uma profunda análise sobre a persistência dos impactos da escravidão. Foto: Walter de Carvalho/Ag. A TARDE/  17.11.2010

João José Reis faz uma profunda análise sobre a persistência dos impactos da escravidão. Foto: Walter de Carvalho/Ag. A TARDE/17.11.2010

Regina de Sá 

Em um documento redigido no dia 24 de outubro de 1985, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) apresentava uma lista de 38 localidades com potencial para serem reconhecidas como Patrimônio da Humanidade. Naquele ano, o Centro Histórico de Salvador, a primeira capital do Brasil (1549-1763), ganharia a atenção global com o título dado pela Unesco. No maior conjunto colonial urbano tombado do País, com cerca de três mil imóveis erguidos entre os séculos 17 e 19, desde o São Bento até Santo Antônio Além do Carmo, está o Pelourinho, um dos mais visitados cartões-postais da cidade. Porém, no coração do polígono do tombamento não se vê nenhum indício de que ali existiu, de fato, um pelourinho, símbolo máximo do poder da Colônia portuguesa que servia para castigar e marcar com açoites terríveis a pele das pessoas. Além disso, o pelourinho “passeou” pela cidade. Por volta do século 16, o primeiro local onde instalaram a coluna de pedra cantaria com argolas foi na Praça Municipal (por decreto, desde 1949 se chama Tomé de Souza). Depois, levaram o “símbolo da Justiça” para o Terreiro de Jesus, mas os gritos dos açoitados incomodavam os padres e quem mais participasse das cerimônias religiosas e, por Provisão Real de D. João V, acabou levado para as Portas de São Bento (próximo à Praça Castro Alves). O derradeiro destino seria o largo das Portas do Carmo, onde hoje é o Pelourinho. O instrumento de castigo seria retirado, definitivamente, em 1835. Em 1857, colocariam no lugar um chafariz, mas não se sabe que fim levou.

No Prospecto de Caldas, um minucioso trabalho cartográfico da Cidade do Salvador – elaborado entre os anos de 1756 e 1758 pelo engenheiro e militar baiano José Antônio Caldas (1725-1782) -, aparece a indicação da pedra nas Portas de São Bento. O pelourinho-instrumento, de fato, existiu no Pelourinho-bairro, daí a importância de se batizar o lugar com este nome. No entanto, se o pelourinho enquanto marco histórico da era do regime escravista fosse pauta mais frequente nas agendas culturais, turísticas, educacionais e, por que não, acadêmicas, não correria o risco de se apagar da memória a existência de um local público para castigo e tortura. Mas não é esta a opinião de João José Reis, doutor em História pela Universidade de Minnesota (EUA) e professor do Departamento de História da Universidade Federal da Bahia. Para Reis, autor, entre outros livros, de Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês, os demônios do Pelourinho são exorcizados hoje de uma forma positiva com os tambores do Olodum, por exemplo. Reis defende que este espaço de castigo público poderia ganhar muito mais como local de memória se fosse criado um museu da escravidão e da resistência escrava. O local, apesar do nome, reforça o historiador, em parte descolou sua identidade desse passado, sem que, por outro lado, esse passado esteja encoberto.

Há 30 anos, o Centro Histórico de Salvador foi reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como Patrimônio da Humanidade. No epicentro desta importante área da cidade, está o Pelourinho, local visitado por turistas de todas as partes do Brasil e do mundo. Ali, pessoas de várias partes do País e do mundo buscam um consumo cultural de massa, que abrange diversão, entretenimento e compras. Para o senhor, o Pelourinho perdeu sua identidade?

 

João José Reis – Não existe identidade fixa, “autêntica”, nem de indivíduos, de grupos ou lugares. O Pelourinho não é diferente. Apesar de voltado para o turismo em muitos aspectos, consegue-se ali observar muita manifestação da cultura popular, inclusive no ramo do entretenimento, o que ainda faz daquele um lugar especial. Acho positivo que os tambores do Olodum exorcizem os demônios locais, fazendo desse espaço de tortura pública – e não apenas de tortura de escravos – um ambiente de expressão da liberdade. Não é só de turismo que vive o Pelourinho, apesar de sua mercantilização.

Por que razão, atualmente, não se encontra nenhum resquício de que, durante um longo período, Salvador possuiu uma coluna de pedra com argolas de metal onde se amarravam escravos e criminosos para açoite e ou escárnio público? Ou seja, por que a área conhecida como Pelourinho deixou de possuir um pelourinho (artefato) como testemunho de um passado em que nossa sociedade submeteu seres humanos a castigos cruéis e ignominiosos?

 JJR – O “artefato” desapareceu muito antes de se ter desenvolvido uma política de memória adequada a uma sociedade mais democrática e inclusiva, que, apesar de tudo, o Brasil vem se tornando, aos trancos e barrancos, é verdade, com avanços e recuos – e, nos dias que correm, mais recuos do que avanços. Desconheço alguma imagem que pudesse servir para, por exemplo, reproduzir a coluna de tortura. E, aliás, não acho que seria o caso de se erguer coisa do tipo no atual largo do Pelourinho porque, como disse, o local, apesar do nome, em parte descolou sua identidade desse passado, sem que, por outro lado, esse passado esteja encoberto. Outras formas de lembrança da violência na era do antigo regime escravista poderiam ser criadas, como, por exemplo, um museu da escravidão e da resistência escrava, ou uma seção temática nos museus afros já existentes. Há quem, no movimento negro e na academia, discuta exatamente isso.

  O senhor julga que há, nessa ausência, uma sutil intenção de nossa sociedade em esconder, ou remeter ao esquecimento, este fato?

  JJR – A Bahia já não precisa esconder essas coisas para que os ricos e poderosos continuem a mandar, a usufruir de seus privilégios e a fechar os olhos às desigualdades sociais e raciais. Estamos numa era de cinismo galopante, por um lado, mas também de alguma conquista no que diz respeito a uma compreensão mais inteira do passado. Não é mais possível negar essa parte inconveniente da história. É perfeitamente possível para o Estado e a sociedade combinarem um repúdio à violência do passado, ao mesmo tempo em que toleram ou até promovem o racismo e a violência contra negros, índios, pobres no presente. Veja você que essa violência e o racismo ocorrem e até crescem paralelamente à obrigatoriedade do estudo da história do negro – que inclui o tráfico e a escravidão – nos currículos escolares (Lei 10.639/03). A juventude negra, na maioria pobre, está sendo massacrada pela violência, inclusive a policial, é o que apontam as estatísticas.

 A questão da preservação do patrimônio não estaria também ligada à memória e ao registro da História? Como as gerações futuras vão poder entender o que, de fato, ocorreu onde hoje se conhece como Pelourinho se não são mais visíveis as marcas da escravidão? 

 JJR – Talvez não seja correto dizer que inexistam marcas materiais da escravidão no Pelourinho, porque ali estão casas e igrejas construídas por escravos, e com os lucros da escravidão no Recôncavo e na cidade; lá estão as antigas senzalas urbanas (as chamadas lojas, subsolos dos sobrados e casas), e como contraponto uma igreja erigida por escravos e libertos para abrigar uma irmandade negra, a do Rosário dos Pretos. Existem santos negros nos altares de outras igrejas (por exemplo, São Benedito na Igreja de São Francisco), a Sociedade Protetora dos Desvalidos, fundada por negros livres e libertos em plena vigência da escravidão etc. Não falta então “patrimônio” preservado para se pensar a escravidão, mas também a negociação e a resistência escravas, que estão consignadas por toda parte. O que precisa é passar adiante essas informações. Entenda: não sou contra o Pelourinho ser lembrado e vinculado à violência escravista, mas não vejo necessidade de se repor ali um poste para significar isso. Tente pensar por outro ângulo. O nome do lugar já constitui um componente imaterial do significado histórico, ele substituiu de maneira forte a materialidade da coisa, mais forte, por exemplo, do que naquelas cidades onde o pelourinho sobreviveu enquanto artefato ou monumento histórico. Não há nessas cidades toda uma área da cidade chamada Pelourinho como temos na Bahia. Isso aqui na Bahia é muito forte. Que se entenda isso, que se aproveite isso numa política de memória. Se essa sociedade quisesse realmente “esquecer” a escravidão, teria mudado o nome daquele espaço há muito tempo. Mas o nome está lá a lembrar do que ali acontecia. É coisa que só se vê na Bahia, e é preciso entender por que é assim.

 Estudos recentes apontam para o esvaziamento do Pelourinho como lugar de moradia de camadas mais pobres. Entre os anos 1980 e 2000, 67% da população residente deixou o Pelourinho, em virtude da forma como a intervenção do Estado atuou na região, com vistas a revitalizá-la, ou “restaurá-la”. O processo, conhecido como “gentrificação”, contribuiu para a regeneração da área e reatribuiu significados a esses marcos de memória da sociedade soteropolitana? Apagar por completo a existência do pelourinho também colaborou para afastar dali os “habitantes indesejáveis” do bairro?

 JJR – O que você chama de “gentrificação” (um anglicismo que se poderia evitar) aconteceu muito depois de desaparecido o poste de castigo. Portanto, uma coisa não levou necessariamente a outra. Nas cidades onde o poste se mantem em pé até hoje, como em algumas cidades mineiras, aconteceu o mesmo fenômeno de “requalificação”, o termo burocrático usado pelo Estado não só no Brasil. Nas chamadas cidades históricas brasileiras, gente com dinheiro compra casas para morar ou para segunda residência, assim como residências se tornam lojinhas e restaurantes para servirem à indústria do turismo. Ou seja, com ou sem o poste, o nosso Pelourinho estava destinado a ser parte do circuito turístico e da especulação imobiliária, e essa especulação é um câncer espalhado por toda a cidade. Num sentido mais amplo, o que ali aconteceu com a população se repetiu, antes e depois, em várias áreas de Salvador fora do chamado Centro Histórico. Comunidades de pescadores, por exemplo, foram arrancadas da orla para a construção de praças, estacionamentos, hotéis, edifícios e condomínios. 

Em uma entrevista, o jornalista e escritor Laurentino Gomes, que deverá lançar em 2019 uma trilogia enfocando o tráfico de escravos no Brasil, afirmou que “a escravidão é um cadáver insepulto, um fantasma que nos assombra até hoje porque nos recusamos a encará-lo”. Simbolicamente falando, é possível que ainda exista um fantasma insepulto no Largo do Pelourinho justamente porque há quem prefira passar uma borracha no nosso passado, selecionando o que deve ou não ser rememorado, e manter apenas o nome como atração turística?

 JJR – Laurentino Gomes poderá escrever sua versão da história da escravidão porque, nos últimos 20, 30 anos, esse é um dos temas mais estudados pela historiografia brasileira, talvez o mais estudado. O número de teses, livros e artigos é enorme e não para de crescer. Depois da publicação do livro de Laurentino, depois da comissão da verdade da escravidão, organizada pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), o fantasma de que fala aquele autor continuará nos rondando. Já se sabe o suficiente sobre a escravidão para que esse passado passe, mas ele não passará inteiramente enquanto houver o racismo e a desigualdade baseada no perfil racial. É sempre bom que se tenha mais um livro sobre a escravidão, mas já se sabe o suficiente sobre o assunto, e há muito tempo, para inspirar políticas públicas de reparação, as quais, aliás, estão em curso ultimamente, embora muito mais seja necessário nesse aspecto, eu acho. Para lhe ser franco, acho que se devia falar menos de escravidão e mais sobre racismo e desigualdade racial na atualidade. Às vezes escravidão vira ponto de fuga. O racismo tem pernas próprias, tem uma capacidade enorme de se reproduzir em nossa sociedade, e nos dias que correm se reproduz de uma maneira cada vez mais aberta exatamente porque o negro brasileiro deixou de assumir aquele lugar subalterno que lhe tinha sido destinado desde sempre. O avanço da consciência negra e a ocupação negra de espaços antes quase exclusivamente brancos – como a universidade -, por exemplo, hoje explicam o racismo muito mais do que a escravidão.


Balaio de Ideias: Precisamos de respeito

postado por Cleidiana Ramos @ 10:07 AM
18 de novembro de 2015
Mãe Valnizia analisa celebrações de novembro. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE/ 2.12.2014

Mãe Valnizia analisa celebrações de novembro. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE/ 2.12.2014

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre

Ao escrever este texto no mês de novembro não posso deixar de falar dos mortos, ou seja, dos espíritos e ancestrais, apesar de achar que eles podem ser homenageados em qualquer período. Diariamente, morrem milhares de pessoas, assim como nascem outras. Mas o comércio sempre aproveita datas comemorativas para vender mais. Com o Dia de Finados ocorre a oportunidade de usar a homenagem para se obter lucro. Acontece o mesmo com o Natal, São João e demais ocasiões festivas.
Portanto, em 2 de novembro os mortos são homenageados, mas eu, particularmente, não acredito que espíritos, ancestrais ou eguns fiquem presos em um caixão ou túmulo.
Imagino que as pessoas quando partem para o estado que considero de origem permanecem onde desejam ficar, inclusive no coração de parentes e amigos. Às vezes conversamos com eles, que nos escutam do lugar onde estamos. Daí que ir ao cemitério considerando que ali estão as pessoas que nos são queridas e partiram torna-se complicado, principalmente em um mundo repleto de fraudes.
São muitas as histórias de famílias que pagaram, anualmente, pelos serviços de limpeza dos túmulos onde deixaram os restos mortais de seus ancestrais, mas não ficaram sabendo quando eles foram transferidos de local para acomodar outros, diante da falta de espaço no cemitério. Infelizmente, coisas assim têm acontecido.
Mas ainda em novembro comemora-se a Proclamação da República, como aconteceu no último domingo. Esse dia foi o escolhido pelas comunidades dos terreiros de candomblé do bairro do Engenho Velho da Federação para realizarem uma caminhada reivindicando respeito às religiões afro-brasileiras. Digo respeito pois não gosto da expressão “tolerância”. Ninguém precisa aprender a nos “tolerar”, mas, sim, respeitar.
Respeito é algo que nós, povo de candomblé, aprendemos e ensinamos dentro dos nossos terreiros. Convivemos com a diversidade tranquilamente. Aliás, está escrito na Constituição brasileira que todo cidadão tem o direito de professar a religião que deseja. Nosso direito, portanto, é adquirido.
Além de reivindicar respeito pela nossa religião, pedimos também pela paz do mundo; do nosso país, estado, cidade e bairro. Estamos em um momento em que precisamos nos juntar como irmãos para trocarmos energia. Essa possibilidade de unir forças é um dos momentos mais importantes dessas caminhadas, como aconteceu agora em sua 11ª edição.
Na próxima sexta-feira estaremos comemorando o Dia Nacional da Consciência Negra. Tenho dúvidas se há muito para festejar com tanta desigualdade social e centenas de jovens negros morrendo, todos os dias, no Brasil.
Para a população negra, o acesso à saúde e segurança é precário. Nossas crianças passam metade do ano letivo sem ter aulas. As escolas que as acolhem seguem em reforma ou com os professores em greve reivindicando melhores salários, pois são muito mal remunerados. Portanto, são questões para refletir.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA


Balaio de Ideias: O poder da palavra e o mês das festas

postado por Cleidiana Ramos @ 1:10 PM
9 de setembro de 2015
Mãe Valnizia faz mais uma bela análise sobre o poder da palavra e as festas de setembro. Foto:  Joá Souza/ Ag. A TARDE Data: 20/03/2015

Mãe Valnizia faz mais uma bela análise sobre o poder da palavra e as festas de setembro. Foto: Joá Souza/ Ag. A TARDE
Data: 20/03/2015

Valnizia Pereira Bianch 

Ialorixá do Terreiro do Cobre

A palavra é muito poderosa. Ela pode criar, destruir, alegrar, entristecer, abrigar, desabrigar, aconselhar, trazer a felicidade, mas também infelicidade. A palavra também tem o poder de matar e salvar; de educar e alfabetizar. Aproveitando o cortejo, é bom ressaltar que, ontem, dia 8, comemoramos o Dia da Alfabetização, que é a base da vida, porque, sem educação, não se tem o poder da palavra nem um bom futuro. Infelizmente, no Brasil, a educação é muito precária. Vamos pedir a Deus que melhore, pois só com educação podemos formar cidadãos para um futuro melhor.

A palavra é tão importante quanto a primavera que está chegando e trazendo o verde das árvores, a beleza e o colorido das flores, além da calmaria das folhas. Elas param de cair com o vento do inverno, que só a poderosa Oyá pode conduzir, pois ela comanda o vento e as tempestades. Vamos pedir a ela que nos traga bons ventos para o nosso futuro.

Além dessas duas ocasiões que citei, setembro celebra o Dia da Juventude Brasileira, no dia 6; a Independência do Brasil, dia 7; a imprensa, dia 10; a paz – algo que o país está precisando muito –, no dia 16; e as árvores, no dia 21. Tem ainda o dia 27, quando se comemoram os santos Cosme e Damião, que, na cultura do sincretismo, simbolizam os Ibejis. Esta festa traz boas recordações da minha infância. Era época em que as pessoas ofereciam caruru, mesmo sem ser de candomblé.

Rezava-se também a ladainha de são Cosme e, quando terminava, tinha samba de viola a noite toda. Sete crianças sentavam em uma esteira estendida no meio da casa e no centro de onde elas estavam colocava-se uma bacia ou um alguidar com todas as comidas e um pedaço de frango para cada criança.

Era uma folia: cada um queria pegar a galinha do outro e, por isso, era o que se comia primeiro. Quando a gente acabava, bebia aruá e recebia doces. Era uma grande festa para as crianças. A dona da casa se vestia de branco e as crianças, depois de comer, limpavam as mãos na sua roupa. É pena que esse tipo de celebração está se perdendo. Hoje, as pessoas preferem dar doces ou colocam o caruru em quentinhas para ser distribuído às crianças ou a quem quiser comer, mas na rua.

Antigamente se colocava o caruru nas folhas de banana ou em uma folha que as pessoas chamavam de “prato de Oxum”, porque parecia com uma concha. Todos comiam com a ajuda das mãos e as limpavam nas pernas para atrair saúde.

Geralmente, nos terreiros de candomblé, se faz cerimônia para os Ibejis dentro do ciclo de festas e não necessariamente no mês de setembro. No Cobre, por exemplo, se comemora a Corda de Ibeji. Na festa, em uma corda que está no teto do barracão, desde o tempo de minha bisavó, são pendurados frutas e doces.Depois dos cantos rituais, as pessoas podem pular e pegar as frutas e doces e é distribuído o caruru. O engraçado é que as crianças chegam para a festa carregando os saquinhos onde vão guardar as frutas. Que os santos Cosme, Damião e os Ibejis protejam todas as crianças dando-lhes uma boa sorte.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA


Reprodução de chamada na capa do jorna em edição do último domingo. Foto: Reprodução

Reprodução de chamada na capa do jornal. Foto: Reprodução

Cleidiana Ramos

Air José Souza é herdeiro de uma das grandes famílias do candomblé baiano, conhecida como Bamboxê Obitikô ou Bámgbósé Obítikó – em grafia original. No próximo mês, ele comemora, além dos 75 anos de idade, sete décadas de iniciação religiosa, uma marca significativa de longevidade e perseverança no culto aos orixás.
Em janeiro do próximo ano, a comunidade liderada por Pai Air tem mais uma celebração: os 55 anos de fundação do terreiro Pilão de Prata, outro integrante da rede de comunidades que são vinculadas à família Bamboxê.
Os outros são o terreiro Lajoumim, localizado no Engenho Velho da Federação, e o conhecido como Roça de Maria Júlia, situado em Luiz Anselmo. Além disso, a família tem fortes ligações com a Casa Branca do Engenho Velho da Federação, considerado o mais antigo terreiro de nação ketu do país (ver texto ao lado).
Tradição
Pai Air é sobrinho biológico de Caetana Sowzer, ebomi da Casa Branca e ialorixá que fundou o terreiro Lajoumim. Ela foi sua mãe de criação e quem o iniciou no candomblé para o orixá Oxaguian, que é conhecido como a face mais jovem e guerreira de Oxalá.
“Embora tenha nascido e crescido dentro de um ambiente de terreiro, na juventude acabei abandonando os estudos e fui para o Rio de Janeiro”, conta.
Quando voltou para a Bahia, ele trouxe algumas pessoas que pensava em deixar sob os cuidados religiosos de Mãe Caetana. Mal sabia que estava traçando o próprio caminho de volta ao candomblé, agora como líder.
“Lembro que ela disse que queria me ver com anel no dedo, mas já que eu não tinha conseguido seguir por essa linha era hora de reencontrar meu destino. Começou a tomar as providências para que eu abrisse o Pilão de Prata ”, conta.
De uma casa simples, coberta de palha, o Pilão de Prata evoluiu para uma bela construção, o que traduz, de certa forma, uma marca de Pai Air, afinal os filhos de Oxaguian são conhecidos pelo forte valor que dão à perfeição.
“Meu pai lembra um leão quando se propõe a realizar alguma coisa, pois não desiste e tem força para estar até o fim em tudo. É líder e muito carismático”, define Carlos Augusto Marques, 68 anos, iniciado para Oxum por Pai Air há 39 anos.
Confirmado há quatro anos como ogã de Xangô, Igor Barbosa, 33 anos, filho de Oxóssi, destaca a liderança participava de Pai Air.
“Ele é um exemplo para toda a comunidade. É o primeiro a se levantar quando o dia começa e o último a deitar. Tudo que acontece no terreiro ele acompanha numa atenção impressionante. Tem controle sobre tudo e passa uma energia enorme”, diz.
Além dessas qualidades, logo no primeiro contato com Pai Air fica patente a elegância dele. Voz pausada, gestos suaves e uma postura que emana força, também é conhecido pelo bom gosto, principalmente para os trajes rituais.
“Quando viajo, minha preocupação é sempre olhar um tecido para o meu orixá e, também, para os dos meus filhos”, relata.
A elegância, aliás, é uma marca dos herdeiros de Bamboxê. Professor e religioso de candomblé, Jaime Sodré costuma dizer que eles guardam a tradição da alta-costura do povo de santo: beleza sem exageros.
O terreiro, inclusive, mantém o memorial Lajoumim, que exibe essa estética de bom gosto em trajes, acessórios, joias e esculturas.
“O nosso esforço é para guardar a memória”, diz o babalorixá, afirmando ter a certeza de que preservá-la tem sido a melhor homenagem aos ancestrais.

Família tem papel relevante na origem do candomblé

Na história oral e em pesquisas recentes sobre a organização do candomblé realizadas por estudiosos como Lisa Earl Castillo e Renato da Silveira, Bamboxê Obitikô, o tataravô do babalorixá Air José, aparece com participação ativa nos ritos de sedimentação do terreiro Casa Branca.
No texto Vida e Viagens de Bamboxê Obitikô, Lisa Earl Castillo conta que, na cerimônia do padê, em uma das orações, ele é reverenciado como Essa Obitikô.
“É uma grande responsabilidade manter a herança dessa família”, diz Pai Air. Além de um alto sacerdote do culto a Xangô, Bamboxê – que tinha o nome civil de Rodolpho Martins de Andrade – era também babalaô, título usado pelos iniciados para Ifá, divindade dos oráculos, e esteve próximo a Mãe Aninha na fundação do Ilê Axé Opô Afonjá.
A filha Maria Júlia Martins Andrade manteve a tradição da família, principalmente na formação do filho Felisberto Américo Sowzer, conhecido como Benzinho, que, assim como o avô, tornou-se babalaô.
Na Casa Branca, a família Bamboxê se manteve com Caetana Sowzer, consagrada a Oxum e que fundou, em 1941, o terreiro Lajoumim bem próximo de onde está a Casa Branca. Mãe Caetana é tia e mãe de criação de Pai Air.
Aspectos dessa história serão detalhados em uma série de eventos que vão acontecer no próximo mês: seminário e sessões especiais na Câmara Municipal e na Assembleia Legislativa, além de um show cultural.
Em novembro, deve ocorrer mais um ciclo de palestras e, em janeiro, o lançamento de um livro.


Curta auxilia educação e combate à intolerância

postado por Cleidiana Ramos @ 12:48 PM
21 de agosto de 2015
Uma das imagens do curta. Foto: Cristian Carvalho/ Divulgação

Uma das imagens do curta. Foto: Cristian Carvalho/ Divulgação

As cineastas Jamile Coelho e Cintia Maria preparam o lançamento de um atraente recurso que une ação educativa e combate à intolerância religiosa. Trata-se do curta Òrun Àiyê, que usa a técnica do stop motion, uma espécie de “fotografia animada”.

Diante da expectativa em torno do lançamento do filme elas decidiram fazer uma pré-estreia já em novembro, mas na página oficial do projeto no Facebook é possível ir acompanhando vários detalhes sobre a produção.

O material conta a trajetória de criação do mundo a partir da perspectiva dos povos de cultura iorubá. O protagonista é Oxalá que se une a outras divindades para cumprir a missão de formar o universo.

A narrativa com duração de 12 minutos é feita em libras e também está disponível em português, inglês, francês, espanhol e iorubá. As histórias são contadas com narrativa do saudoso historiador Ubiratan Castro de Araújo (1948-2013).

“Esse material paradidático permitirá às crianças e jovens a ampliação da noção de cultura negra trazida da África para o Brasil, proporcionando uma educação que reconheça e valorize a diversidade, comprometida com as origens do povo brasileiro”, afirma Jamile Coelho.

O projeto foi desenvolvido por meio da Estandarte Produções, que atua na criação e gestão de projetos culturais e pedagógicos como oficinas, mostras, festivais e publicações em áudio e vídeo e reúne profissionais de várias áreas.

O curta teve o financiamento, por meio de edital, da Secretaria de Audiovisual do Ministério da Cultura e Fundação Palmares, além do edital de patrocínio 2014 da Companhia de Gás da Bahia (Bahiagás).

A página especial do curta está no endereço: https://www.facebook.com/OrunFilme

 


Lições de fé, resistência e respeito

postado por Cleidiana Ramos @ 12:28 PM
17 de agosto de 2015

Que espetáculo incrível foi o encontro entre a 17ª Caminhada Azoany e a procissão de São Roque ocorrido ontem na esquina da Escola Politécnica da Ufba, na Federação. Duas manifestações religiosas diferentes, mas que demonstraram como se constrói e mantém o mútuo respeito religioso.

Ao se deparar com a procissão, a caminhada, que vem do Pelourinho, parou e seu carro de som começou a tocar a música Jesus Cristo, de Roberto Carlos. Os católicos aplaudiram. Em seguida, a imagem de São Roque, que seguia em um andor, foi saudada pelos clarins. Após as saudações mútuas, cada uma seguiu o seu roteiro.

A Caminhada Azoany é organizada por Albino Apolinário que ajudou a ampliar um evento iniciado por um morador do Pelourinho, seu Martin Fontes, 85 anos, como pagamento de promessa aos orixás Omolu e Obaluaê, senhores da cura e proteção contra as doenças e que dominam os mistérios sobre a vida e a morte.

Ainda hoje, durante a caminhada do Pelourinho ao Santuário de São Lázaro e São Roque, seu Martin segue firme com seu tabuleiro repleto de pipocas, em silêncio e concentrado em sua relação com seus deuses.

Seu Martin segue, concentrado, à frente da Caminhada Azoany. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag. A TARDE

Seu Martin segue, concentrado, à frente da Caminhada Azoany. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag. A TARDE

O culto a São Roque acontece em uma igreja que tem como marca amparar aqueles que sofrem por problemas de saúde e também pelo peso do passar dos anos. É uma história bonita de resistência de um culto em torno da solidariedade e que encontrou traços muito fortes da filosofia africana que o humanizou, sedimentou e ressignificou.

Chegada da Caminhada Azoany ao Santuário de São Lázaro e São Roque. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag. A TARDE

Chegada da Caminhada Azoany ao Santuário de São Lázaro e São Roque. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag. A TARDE

Esse ano, como repórter, tive o privilégio de cobrir a caminhada, mas também de conhecer o ogã Arivaldo Vivas que toma conta da Casa de Omolu e Obaluaê, uma gruta que fica na encosta atrás do hotel Othon Palace e que é ponto de romarias e agradecimento de gente que encontra na fé a força para cura. Lições preciosas, inclusive, para os dias de tanta intolerância.

O ogã Arivaldo Vivas toma conta da gruta que conserva o culto a Omolu e Obaluaê. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag.  A TARDE

O ogã Arivaldo Vivas toma conta da gruta que conserva o culto a Omolu e Obaluaê. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag. A TARDE

Vivas, portanto a São Roque, Omolu, Obaluâe, Azoany, Kavungo e todo a nossa força ancestral.


Sábado tem Varanda das Flores

postado por Cleidiana Ramos @ 1:59 PM
13 de agosto de 2015
Bom programa para o próximo sábado. Foto: Divulgação

Bom programa para o próximo sábado. Foto: Divulgação

Programa muito legal para o próximo sábado, dia 15.  Um coletivo de mulheres talentosas apresenta a Varanda das Flores, o primeiro evento do projeto da DidêManda.

Elas vão mostrar o resultado de suas ações artísticas e o domínio de suas técnicas de empreendedorismo em um misto de feira e apresentação artística.

Além da exposição fotográfica #Azulejodascores haverá a venda de artigos como biojóias, acessórios diversos, óculos de modelos exclusivos, além de oficina de turbante, sarau de poesia, atrações musicais e o que não pode faltar em eventos desse tipo: comida gostosa.

A Varanda das Flores vai acontecer a partir das 13 horas, em Ondina, na Rua Helvercio Carneiro Ribeiro, nº 21. O ponto de referência: após o monumento das Gordinhas, ao lado do Mercadinho Mini Preço.

 


Cinzas é apresentado em festival

postado por Cleidiana Ramos @ 3:07 PM
22 de julho de 2015
Cena do filme Cinzas que será lançado no festival Latinidades. Foto: Divulgação

Cena do filme Cinzas que será lançado no festival Latinidades. Foto: Divulgação

Cinzas, segundo filme da diretora baiana Larissa Fulana de Tal , será lançado na próxima sexta-feira, em Brasília, às 14 horas. A exibição acontecerá durante o Festival da Mulher Afro Latino-Americana e Caribenha (Latinidades).

A história do filme gira em torno de Toni, negro, que começa o dia de uma forma complicada: ônibus lotado, salário atrasado, descrença nos estudos, contas vencidas, temor da violência policial e solidão. Sua história, adaptada de um conto homônimo do escritor Davi Nunes, encontra outras semelhantes.

“Acreditamos que a temática racial no filme é tão importante quanto a autonomia da voz. Sabemos falar por nós mesmos, e isso é Cinzas. É uma felicidade muito grande para toda equipe lançarmos no Festival Latinidades”, destaca a diretora.

Cinzas é mais uma produção do coletivo Tela Preta, que luta por uma maior representatividade negra no campo do audiovisual.

O Festival da Mulher Afro Latino-Americana e Caribenha acontece há oito anos e já se sedimentou na agenda internacional das lutas do movimento de gênero. O tema desse ano é a produção realizadas por mulheres negras no cinema.

Pseudônimo

Larissa, diretora de Cinzas, escolheu o pseudônimo “Fulana de Tal” como complemento para o seu nome para fazer uma referência aos inúmeros mulheres e homens comuns. Bacharel em cinema e audiovisual pela UFRB é diretora do videoclipe Axé (2012), que recebeu menção honrosa no 3º FestClip realizado em São Paulo. Lápis de Cor (2014) foi o seu primeiro filme contemplado com o edital  Chamada de Curtas Universitários do Canal Futura.

O quê: Lançamento do filme Cinzas
Quando: 24 de julho, às 14 horas.
Onde: Festival da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha, no Cine Brasília. A entrada é gratuita.


Ângelo Flávio participa de episódio da série Tapas e Beijos

postado por Cleidiana Ramos @ 10:46 AM
13 de julho de 2015
Ângelo Flávio exercita sua faceta de ator, amanhã, em Tapas e Beijos, na Globo. Foto: Divulgação

Ângelo Flávio exercita sua faceta de ator, nesta terça, em Tapas e Beijos, na Globo. Foto: Divulgação

Amanhã, Tapas e Beijos, ganha um toque mais que especial: o ator e diretor Ângelo Flávio participa do episódio do seriado de sucesso que está em sua última temporada. Ângelo vai interpretar o gerente do Hotel Bariloche.

A participação já lhe rendeu, nos bastidores, vários elogios da atriz Fernanda Torres, que estrela o programa ao lado de Andréa Beltrão, e de outros integrantes da equipe.

A atuação de Ângelo promete assim como aconteceu quando protagonizou um episódio de A Grande Família.

Inquieto e criativo, Ângelo Flávio é um dos grandes nomes do teatro baiano. Premiado, no ano passado aceitou o desafio e brilhou ao levar para os palcos Sortilégio: Mistério Negro de  Zumbi Redivivo II, um texto inédito de Abdias  Nascimento, que até então só havia sido encenado como leitura dramática.

Tapas e Beijos vai ao ar após a novela Babilônia, na Globo.


Não quero conversa com “13 de maio”

postado por Cleidiana Ramos @ 4:03 PM
28 de maio de 2015
Jaime Sodré analisa o Bembé do Mercado.  Foto: Rejane Carneiro | AG. A TARDE

Jaime Sodré analisa o Bembé do Mercado. Foto: Rejane Carneiro | AG. A TARDE

Jaime Sodré

Dona Tidinha recordava: “Meu filho, antigamente no dia 13 de maio tinha até missa para a princesa Isabel”. A liberdade é um bem gratificante, imagine experimentada por um negro escravo naquele contexto, mesmo carente de ver este gesto acompanhado das vantagens da cidadania.

Um agradecimento especial pensou João de Obá, ao atribuir, à graça dos orixás, a concretização desta alforria coletiva. Ousado pensou o “BEMBÉ DO MERCADO”.

A competente Luzia Moraes traz esta historia em seu livro “Bembé do Mercado – 13 de maio em Santo Amaro”, o qual, recomendo.

Ao completar um ano da assinatura da Lei Áurea, João Obá, preto malê, escravo forro e Babalorixá, “botou o pau de standard”, que consistia da bandeira Branca de Orumilá, divindade da adivinhação, na Ponte do Xaréu e trouxe, em um ato de desafio, o seu candomblé para o Mercado da Cidade de Santo Amaro, seguido de fiéis do culto e fez a festa, com oferenda a Yemanjá. Exu, o senhor dos mercados, também “comeu”.

A continuidade foi o empenho de muitos; do Babalorixá Menininho, que não tocava o Bembé na sexta feira, em respeito a Oxalá; Noca de Jacó que passou para Tidú, que manteve entendimento com a Prefeitura; Mãe Lídia do Terreiro Ilê Yá Onã, (na Sub estação); Mãe Iara do Terreiro de Oiá (no Trapiche de Baixo) e José Raimundo Lima Chaves – Pai Pote do Terreiro Ilê Axé Ojú Oniré.

D. Canô era uma alegre entusiasta da festa do Bembé e colocava a sua oferenda no Balaio em nome dos “Velosos”; a doce Mabel sabe disso, aliás quando criança a Mabel era dito que “Bembé” era a saudação a Isabel (Isabé).

D. Zilda Paim assegurava que o ano do começo do Bembé era 1889 e nos anos 40 e 50 necessitava de autorização policial. Batia-se nos dias 11, 12, e 13 que era feriado.

Para a Dra. Yeda Castro, Bembé pode ser uma palavra Fon (yoruba/nagô) ou Banto, de Imbembé, mas alguns afirmam que tratava-se de uma corruptela de Candomblé.

Os preparativos para a festa iniciam-se com a oferenda a Exu realizada no Mercado, pois a casa responsável pelo evento religioso instala-se ali em um caramanchão e o Balaio de Yemanjá é levado à praia de Itapema, em caravana e colocado com maré cheia; para Mãe Lídia o Bembé “é mais o presente”.

Historicamente, para o nosso Professor Dr. Ubiratan Castro, o Bembé: “É o candomblé da Liberdade”, de grande significado na afirmação da cidadania negra, amenizando a “subserviência agradecida” à princesa. Os ex-senhores de escravos estavam injuriados com esta ideia de liberdade, afirmando que a lei seria revogada pelos seus parlamentares e mobilizaram o aparelho policial para inibir as manifestações dos negros.

O povo negro, esperançoso, dizia: “Yô Yô Carigé, Dá cá meu Papé” numa alusão a carta de alforria, prometida pelo ilustre abolicionista Eduardo Carigé.

No dia 13 de maio de 1889, as pessoas foram ao Mercado festejar em praça pública o primeiro aniversário da abolição. Não teve parada cívica nem discurso, lembrava o professor Bira. Agradecendo aos orixás, jogaram as oferendas no mar, até hoje.

Os escravos libertos eram chamados pejorativamente de “13 de Maio” e diziam isto em verso popular: “Nasceu periquito, Morreu papagaio, Não quero conversa com treze de maio”. Eu quero. 


Amanhã tem “Literatura negra uterina” no Pelourinho

postado por Cleidiana Ramos @ 11:55 AM
27 de maio de 2015
Encontro vai reunir as escritoras Cristiane Sobral, Livia Natalia e Mel Adún. Foto: Reprodução/Divulgação

Encontro vai reunir as escritoras Cristiane Sobral, Livia Natalia e Mel Adún. Foto: Reprodução/Divulgação

Amanhã, quinta (28), a partir das 18h30, tem sessão especial do Ogum´s Toques, projeto totalmente voltado para a literatura negra. A noite será das escritoras Cristiane Sobral, Livia Natalia e Mel Adún.

Denominado “Literatura Negra Uterina” o encontro vai debater o conceito que vem sendo trabalhado pela Ogum´Toques envolvendo a produção intelectual e literária feminina.

O evento acontecerá na unidade do Sesc/Senac localizada no Pelourinho.


Vércia apresenta show com base na cultura afro-brasileira

postado por Cleidiana Ramos @ 9:50 AM
25 de maio de 2015
A cantora Vércia faz apresentação única no Pelourinho. Foto: Divulgação

A cantora Vércia faz apresentação única no Pelourinho. Foto: Divulgação

Quem curte uma música feita com base nas raízes culturais da Bahia não pode perder o show da cantora Vércia, no próximo dia 29, na Praça Pedro Archanjo, Pelourinho.

O show intitulado Vércia & Muriquins vai das 21 às 23 horas. A banda Muriquins é formada por Gabriel Barros (guitarra); Alex Ferreira (baixo);Ricardo Cara de Rato (percussão); Marcus Santos (bateria) e Artur Costa (backing vocal).

Com direção musical de Marcus Santos e direção cênica de Maria Prado de Oliveira, o show vai contar com as participações especiais de Carlos Barros, Dão e Viviam Caroline.

No repertório,  Iansã, composta por Hugo de Castro Alves, Lua Marina e Bruno Ribeiro, concorrente ao Prêmio Caymmi de Música; Brilho de Beleza (Nego Tenga), dentre outras. Por todo o show estarão presentes referências à herança afro-brasileira, além de repertório do cancioneiro popular.

SERVIÇO:
Show: Vércia & Muriquins
Quando: 29 de maio de 2015, às 21 horas
Onde: Praça Pedro Archanjo, Pelourinho
Participações especiais: Carlos Barros, Dão e Viviam Caroline
Ingresso: 10 reais ( valor único)


Que pena! Windeck chega ao fim

postado por Cleidiana Ramos @ 5:03 PM
27 de abril de 2015

Será que Ana Maria (Nádia da Silva), finalmente, vai se acertar com Kiluanji (Celso Roberto)?

Será que Ana Maria (Nádia da Silva), finalmente, vai se acertar com Kiluanji (Celso Roberto)?

Amanhã, terça, a partir das 23 horas, a novela Windeck, de produção  angolana, chega ao fim. Exibida pela TV Brasil desde novembro do ano passado, a trama foi um acerto e premiou a ousadia da emissora.
Partindo do que são capazes pessoas que ambicionam poder e dinheiro –”windecks”- na gíria angolana, a novela é de uma ousadia impressionante desde os temas que abordou– relações homoafetivas, violência doméstica, homofobia, dependência de álcool e cicatrizes do colonialismo– até a linguagem escancaradamente exagerada que faz lembrar, às vezes, as tramas mexicanas.
Além disso, é gratificante assistir negras e negros em papéis de protagonismo social (executivos, modelos, jornalistas e médicos), além de apresentar uma Luanda moderna, mesmo que em processo de reconstrução, o que apaga vários dos estereótipos que mantemos sobre cidades da África Negra.
Sem pudor, a sinopse usou e abusou dos clichês clássicos da teledramaturgia (golpe da barriga; vilania pura, sem nuances psicológicas e mocinha e mocinho ingênuos), com doses de humor, mas muito bem costurados.
A trilha musical foi outra boa surpresa com ritmos angolanos variados que iam do semba ao kuduro passando também por estilos que lembram a nossa MPB.
Mesmo o que poderia ser uma barreira– a diferença do português falado em Angola do que é usado no Brasil- acabou em acerto. Passado o estranhamento inicial foi divertido aprender o significado de palavras como cumbu e bazeza. O recurso do glossário, que aparecia em meio às cenas, foi eficiente.
Windeck termina alcançando médias de audiência surpreendentes para uma novela estrangeira em um canal que não tem tradição em teledramaturgia e em um horário ingrato (23 horas): em Salvador, a média foi 0,7 no Ibope com dias de pico de um ponto. Porto Alegre foi outro lugar com boas marcas.
Vamos torcer para que a TV Brasil volte a apostar em ações parecidas.

Confira abaixo a sinopse do último capítulo:

Ofélia telefona para Wilson e marca um encontro com urgência. Ela também convoca Isaura, Luena e Kiluanji para fazer uma revelação a todos. Vitória decide assaltar o cofre dos Voss no dia do casamento de Kiluanji e Ana Maria. Vitória e Henda se disfarçam de empregados do bufê e entram na mansão. A vilã consegue chegar ao escritório e tenta abrir o cofre. Será que ela vai conseguir?


São Jorge das muitas faces

postado por Cleidiana Ramos @ 5:28 PM
23 de abril de 2015
Em Salvador, São Jorge foi festejado hoje na paróquia localizada no Jardim Cruzeiro, Cidade Baixa. Foto: Gildo Lima| Ag. A TARDE | 30.04.2011

Em Salvador, São Jorge foi festejado hoje na paróquia localizada no Jardim Cruzeiro, Cidade Baixa. Foto: Gildo Lima| Ag. A TARDE | 30.04.2011

Não sou mais católica, mas há elementos dessa prática religiosa que continuam a me inspirar um imenso carinho. Um deles é São Jorge que possui a capacidade de transcendência e ressignificação a partir da perspectiva de seus devotos e assim seu culto vai resistindo desde o século IV. É muito tempo de persistência diante de tantas reviravoltas. Um exemplo: a perda do status de “obrigatória” por sua festa no calendário litúrgico católico.

Hoje as homenagens a ele são “opcionais” no catolicismo. Um dos principais problemas foi a fama de “matador de dragão” que o cerca e faz, inclusive, parte da sua iconografia.

Na década de 1970 a Igreja Católica fez uma reforma em seu calendário litúrgico. A ideia foi dar preferência à historiografia, ou seja: os santos que tinham biografias com dados, digamos, mais difíceis de comprovar historicamente, passaram a ser festejados de forma mais discreta. 

Além de ter entre os seus feitos o enfrentamento a um dragão, Jorge da Capadócia, na devoção popular, ganhou como endereço a lua, pelo menos no Brasil. Lembro que ainda criança já cansei de olhar para o céu e ver a forma como ele aparecia nas imagens em meio as nuvens que passavam pela lua. Fui crescendo e pressionada, em nome do cartesianismo, a perder o  fascínio por aquele fenômeno definido  como autosugestão. Mas de vez em quando expulso a racionalidade e consigo ainda (sucumbindo à imaginação, oras), enxergar São Jorge montado, elegantemente, no seu cavalo em  meio a um belo luar.

Com a reforma do calendário, sua festa, portanto, foi tornada opcional e não se fez mais oficialmente consagrações específicas a ele de igrejas, dioceses ou o escolheram  como o padroeiro de paróquia. Em Salvador, por exemplo, só há uma igreja dedicada a ele: a situada no Jardim Cruzeiro, na Cidade Baixa. Mas o impressionante é que essa questão oficial parece não ter tido impactos significativos sobre o culto a São Jorge.

O santo guerreiro e matador de dragões ( animal que, para muitos, na representação clássica de São Jorge é apenas um símbolo do mal curvado diante da coragem e da santidade) é padroeiro da Inglaterra, via a Igreja Anglicana; no catolicismo brasileiro ganhou fama de intercessor poderoso e para completar, nas religiões de matrizes africanas brasileiras foi associado a divindades ligadas à fartura e proteção.

Na Bahia, São Jorge foi aproximado do Oxóssi ketu ou Mutalambô do povo angola, nome para as divindades definidas como caçadores guerreiros e provedores da sua comunidade; no Rio a relação é com Ogum ou Nkossi, os guerreiros invencíveis, sem falar nas várias associações com encantados que a umbanda lhe deu.

É importante destacar que, no fundo, no fundo, o povo sabe muito bem que São Jorge é São Jorge, Oxóssi é Oxóssi, Ogum é Ogum, mas não se pode impedir as ressignificações ou negá-las, pois isso é próprio da diversidade,  da liberdade religiosa e da dinâmica dos símbolos e interpretações culturais.

Do ponto de vista teológico vamos fazer debates intermináveis sobre a necessidade de separar em partes o que é de cada religião, mas, hoje, vou ficar com a devoção popular e celebrar a licença poética. Portanto, Salve Jorge e reverências a Ogum, Oxóssi e aos encantados das florestas.


Balaio de Ideias: Saudades da Semana Santa antiga

postado por Cleidiana Ramos @ 9:34 AM
8 de abril de 2015
Mãe Valnizia traz a memória de comemorações da Semana Santa no passado. Foto: Raul Spinassé | Ag. A TARDE | 2.12.2014

Mãe Valnizia traz a memória de comemorações da Semana Santa no passado. Foto: Raul Spinassé | Ag. A TARDE | 2.12.2014

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre

Acabamos de passar pela Semana Santa, uma festa do cristianismo que considero muito importante, pois, apesar das mudanças, ainda consegue unir famílias. Lembro-me de que, há alguns anos, nesse dia não se podia fazer barulho, as pessoas pediam perdão, não se falava alto nem se batia nas crianças.

O trabalho para o almoço da sexta tinha que ser adiantado na véspera: os cocos eram partidos e deixados em uma vasilha com água para não azedar até ser ralados, pois a maioria dos pobres não tinha geladeira para conservá-los e nem liquidificador.

Para ser moído, o camarão seco era colocado em uma toalha usada para enxugar prato, fechada e amarrada na ponta de uma mesa, ou usávamos o pilão. O feijão para o “feijão de leite” era partido em uma máquina manual. Já o peixe era limpo na sexta-feira porque esse trabalho não provoca muito barulho. Quem não tinha peixe preparava uma moqueca de ovo com chuchu de tronco, como era chamado o mamão verde.

Tudo isso para não se comer carne. Se bem que, com tanta gente ainda passando fome, acho que Cristo não liga para nada disso. São costumes da cultura que mulheres e homens criaram.

Eu gostava quando os vizinhos trocavam pratos de vatapá entre si. Além disso, ao entrar em uma casa, recebiam-se um pedaço de pão e um pouco de vinho. Era preciso aceitar esse agrado, mesmo que não se ficasse para almoçar.

Para as crianças, os adultos colocavam um dedo de vinho em um copo com água e açúcar e avisavam que isso era só para fazer a “obrigação”. À tarde, os irmãos mais velhos levavam os mais novos para tomar a bênção aos padrinhos, madrinhas, tios e tias.

Mas o melhor mesmo era o Sábado de Aleluia, porque a diversão estava garantida. As crianças guardavam latas e paus para fazer barulho quando chegasse as 10 horas. Nesse horário, os terreiros de candomblé abriam, queimava-se incenso, soltavam-se fogos e os atabaques eram tocados. À noite havia a Queima de Judas. As crianças iam dormir mais cedo para acordar à meia-noite e assistir ao espetáculo.

No domingo aconteciam brincadeiras, como pau de sebo. Um pedaço de madeira era ensebado e no seu alto colocavam-se balas e brinquedos. Quem conseguia fazer a escalada levava tudo.

Nessa época não eram comuns os ovos de Páscoa e, se existiam, nem todas as famílias podiam comprar para seus filhos. O máximo, nesse sentido, era uma caixa de bombons para ser dividida.

É uma pena que os jovens e crianças estejam perdendo esses valores que incentivavam as pessoas a ser solidárias umas com as outras, como na hora de trocar os pratos da ceia da Sexta-feira Santa ou as latas para saudar a Aleluia.

Sinto muita falta da Semana Santa antiga, pois a cada dia que passa essas características são perdidas. Meus netos, por exemplo, já não sabem que se tomava a bênção às pessoas mais velhas que encontrasse pela frente, inclusive dizendo assim: “Me perdoe alguns agravos”.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA


Entrevista: “A memória da Bahia não pode ser seletiva”, Zulu Araújo, diretor da FPC

postado por Cleidiana Ramos @ 4:38 PM
16 de março de 2015
Zulu Araújo expõe suas ideias de gestão para a Fundação Pedro Calmon. Foto: Margarida Neide / Ag. A TARDE/ 28. 9.  2010

Zulu Araújo expõe suas ideias de gestão para a Fundação Pedro Calmon. Foto: Margarida Neide / Ag. A TARDE/ 28. 9. 2010

O arquiteto e gestor cultural  Zulu Araújo é o novo diretor da Fundação Pedro Calmon (FPC), órgão que integra a Secretaria Estadual de Cultura (Secult). Durante algum tempo, a instituição era vista, pelo senso comum, apenas como a guardiã da memória dos ex-governadores. Mas a a partir das últimas gestões, com destaque para a do professor Ubiratan Castro de Araújo (1948-2013), iniciada em 2006, a FPC e o seu trabalho em outras linhas ganhou maior visibilidade. Em entrevista que concedeu ao jornal A TARDE há nove anos, o professor Ubiratan chegou a afirmar que iria fazer do órgão o “instituto do Jacaré”, numa referência ao orador popular que, do alto de um improvisado tablado feito com caixa de madeira para guardar maçãs, fazia discursos contra o governador Octávio Mangabeira. A citação do professor Ubiratan era para lembrar que a fundação, então sediada no Palácio Rio Branco, também estava aberta para o povo, afinal ela é  a responsável pela guarda de bibliotecas, do arquivo público e de projetos como o de valorização e divulgação dos eventos relacionados à Independência da Bahia, comemorado anualmente em 2 de julho. Nessa entrevista, o novo diretor, Zulu Araújo, destaca a continuidade, em sua gestão, das ações para aproximar ainda mais a fundação dos variados segmentos da população baiana. Ele também afirma que dará continuidade aos projetos que encontrou e providenciará a implantação de novos, além de realizar um esforço para resolver o crônico problema de uma sede mais adequada para o Arquivo Público. A ideia é transferi-lo da Baixa de Quintas para garantir o tratamento mais adequado para o acervo de documentos.

Cleidiana Ramos: Muita gente ainda imagina que a Fundação Pedro Calmon (FPC) é apenas o local da guarda de memória dos ex-governadores. Seria interessante o sr. resumir quais as funções do órgão.

Zulu Araújo: A Fundação Pedro Calmon é uma instituição da Secretária de Cultura (Secult) que trabalha com memória, arquivo público, livro e leitura, além das bibliotecas públicas. Ela é o órgão responsável por formular e implantar políticas públicas nessas áreas.

CR: O Arquivo Público sediado na Baixa de Quintas vem passando há anos por problemas na estrutura física. A instalação elétrica já chegou a ficar desligada por prevenção contra incêndios. Quais as suas ideias para resolver essa questão?

ZA: Assumi o compromisso público e estou convocando outros setores para me ajudar a realizar a transferência do arquivo para um espaço mais adequado. O prédio onde ele está atualmente, apesar da importância arquitetônica, não possui condições para abrigar o acervo. Não há também como adequá-lo. Tenho essa certeza não só como arquiteto mas também por conversas que já mantive com técnicos do Ipac. Estamos, portanto, estudando a transferência para outros locais como o Centro Histórico, o Instituto do Cacau, no Comércio, e até mesmo a construção de um prédio adequado. Claro que isso depende da articulação com outros setores, verbas públicas e também sensibilização nesse sentido. Confio que vamos conseguir esse objetivo. Já na minha posse (no último dia 9), vários parlamentares se dispuseram a nos ajudar com emendas nesse sentido. Quero ressaltar que os gestores anteriores a mim fizeram todo o esforço que lhes foi possível, inclusive uma reforma no telhado. Mas o tempo já comprovou que reformas não resolvem o problema do Arquivo Público.

CR: Sob a guarda da FPC também estão os centros de memória que administram o acervo de arquivos privados. Não só na capital, mas também no interior há muitas coleções desse tipo. 

ZA: Sim. Os arquivos privados são de pessoas físicas que os adquiriram ao longo da vida e os conservaram como foi possível. Mas até mesmo para adquirir novos arquivos temos que ter espaço adequado. Atualmente, o centro de memória para esse fim funciona em duas salas da Biblioteca dos Barris. Estamos estudando outras possibilidades para a sua ampliação como a antiga sede do Inema, localizada em Monte Serrat. Também estamos avaliando, com a ajuda do Ipac, a opção do Palácio da Aclamação que passando por uma reforma será um espaço bem adequado afinal foi a morada oficial dos governadores. Ali é um complexo que também envolve o Passeio Público. Teremos uma reunião essa semana para tratar desse assunto. Mas vamos discutir não apenas a melhoria física do prédio, mas a possibilidade para dotá-lo das condições necessárias à manutenção e aquisição de novos acervos.

CR: O professor Ubiratan Castro,que foi um dos seus antecessores na FPC, dizia que queria fazer do órgão o “instituto do Jacaré” numa alusão a torná-lo mais próximo do povo. O sr. acha que a FPC caminha nesse sentido?

ZA: Quero render minhas homenagens ao professor Ubiratan pelo excelente trabalho na Fundação Pedro Calmon. Aqui ele ampliou e implantou projetos criativos como o denominado “Independência do Brasil na Bahia”, além de a ter aproximado mais da população, com certeza. Meu compromisso é dar continuidade a esse trabalho e nunca retroagir nem sair desse rumo. A FPC pretende, de maneira objetiva, aprofundar o trabalho que o professor Ubiratan vinha fazendo. Estamos também pensando em memória da Bahia no sentido mais amplo, ou seja, com as contribuições cigana, indígena, negra e européia. A memória da Bahia não pode ser seletiva para dar conta e respeitar a sua diversidade.


Ilê Axé Opô Afonjá sedia homenagem ao Dia da Poesia

postado por Cleidiana Ramos @ 11:11 AM
7 de março de 2015
Mãe Stella, ialorixá do Opô Afonjá, é anfitriã do encontro que celebra dia dedicado a Castro Alves. Foto:  Margarida Neide / AG. A TARDE Data: 07/12/2012

Mãe Stella, ialorixá do Opô Afonjá, é anfitriã do encontro que celebra dia dedicado a Castro Alves. Foto: Margarida Neide / AG. A TARDE
Data: 07/12/2012

No dia 14 de março nasceu Castro Alves e, por isso, é quando se celebra a poesia. Ocupante da cadeira que homenageia o mais conhecido poeta baiano na Academia de Letras da Bahia (ABL), a ialorixá Mãe Stella de Oxóssi preparou uma programação especial para festejar uma data tão mágica para as letras.

A partir das 17 horas do dia 14, próximo sábado, no Ilê Axé Opô Afonjá, o projeto Encontro Colorido da Encantada Espiritualidade Baiana vai celebrar o Dia da Poesia com o evento intitulado Três toques: poesia, amor e alegria.

O projeto, que foi inaugurado com a Animoteca, uma biblioteca itinerante, foi pensado para promover o diálogo entre as diferentes tradições religiosas.  A ação é voltada para a construção de uma cultura de paz e combate às variadas formas de violência.

A celebração vai começar com a apresentação da Camerata Castro Alves, criada em 1997 por Marcos Santana e que é especializada na interpretação do repertório do poeta.

“Poesia é ritmo, é toque, é música e é por isso que nos sensibilizaremos com a apresentação deste grupo cultural e artístico”, explica Graziela Domini, coordenadora do projeto Encontro Colorido da Encantada Espiritualidade Baiana.

O amor, que é o segundo toque, vai trazer poemas que cantam esse sentimento como os reunidos no livro Nazaré- das farinhas e poesias, uma coletânea das criações de poetas do município homônimo do período de 1831 a 1963.

A coletânea foi organizada por Carla Domini Peixoto e teve o seu lançamento como uma das atividades da visita da Animoteca a Nazaré.

O terceiro toque é a alegria celebrada no nome sagrado de Mãe Stella – Odé Kayodê –, que numa tradução do iorubá para o português significa Caçador de Alegria.

“ Quem convive com ela sente o encontro da alegria com a responsabilidade em seus pequenos e grandes atos. E é por isso que a cultura brejeira pedirá licença à seriedade do ambiente religioso para encerrar a apresentação com poemas do livro Prosa Morena, onde Jessier Quirino reescreve uma fala sertaneja que diz: ‘O mundo é uma bodega pequena e sortida. Mais dias menos dias a gente se encontra’”, completa Graziela Domini.

Segundo a coordenadora, esse também será o momento de entrega ao prazer da boa comida acompanhada de uma boa prosa. A atividade também vai reservar uma surpresa para os que aceitarem o desafio de declamar poemas autorais ou de outros poetas a partir dos temas amor e alegria.


Balaio de Ideias: Tá boa santa?

postado por Cleidiana Ramos @ 1:10 PM
14 de fevereiro de 2015
Um grupo dos irreverentes membros de "As coisinha" mantendo tradição dos travestidos no Carnaval baino. Foto: Divulgação

Um grupo dos irreverentes membros de “As coisinha”  que mantêm a tradição dos travestidos no Carnaval baiano. Foto: Divulgação

Jaime Sodré

Quem não gostaria de viver ao menos um dia o universo feminino? O Carnaval está aí para isso. Pouco se sabe a respeito das vestimentas dos Pitecantropus erectus, presume-se que não haveria distinção de vestimentas baseadas na questão de gênero, bastava uma pele para proteção. Em algumas civilizações africanas era comum uma túnica longa, indistinta. A calça trouxera com os colonizadores a proposta de “civilidade”, definindo o masculino.

Os negros na condição de escravos, para fugirem sem ser notados, vestiam os trajes das senhoras brancas. Nos primórdios da escola de samba os homens vestiam-se de baianas, inaugurando esta ala, ponto alto da escola. Item obrigatório e uma justa homenagem à nossa baiana Tia Ciata. Louvem-se os escoceses que vestem um saiote, elemento cultural.

A roupa e a interpretação feminina em corpo masculino é o que caracteriza o Teatro Noh japonês, em contrapartida temos outro teatro onde só as mulheres interpretam os papéis masculinos. Vem à lembrança a marcha carnavalesca de outrora: “O sonho do Juvenal/ É desfilar no Municipal// Mandou buscar em Paris/ Uma peça de lamê/ Pra fazer a fantasia/ Bordada de paetê// Chegou Juvenal na passarela/ Ninguém sabe se é ele/ Ninguém sabe se é ela”.

Carnaval é o mesmo que festa, criatividade, humor, glamour, alegria, música, espaço onde os foliões ou as folionas expõem todas as suas fantasias. Muitos assumem o seu lado feminino, alegre e descontraído fazendo a festa. Homens vestidos de mulheres no Carnaval é um fenômeno nacional, formando blocos “divinos e maravilhosos”, muitos estudiosos já opinaram sobre o tema, mas sem alcançar um consenso a respeito do fenômeno. Na verdade, sem erudição científica, Carnaval é pra soltar a franga.

Eles são heteros, mas nos dias de Momo querem se desinibir “assumindo o seu lado feminino”. Em oposição, desconheço bloco de mulheres vestidas de homem (Lembrei-me da nossa heroína Maria Quitéria). Em discurso elaborado chama-se esse comportamento de “crossdresser”, textualmente “vestir-se ao contrário”. Como na música de Pierre Onassis, “deixa de lero-lero e vem pra cá meu bem…”. Isso tudo é para louvar o cinquentenário da alegria irreverente do Carnaval, As Muquiranas.

Em texto de Ronaldo Jacobina, acompanhado das excelentes fotos de Fernando Vivas, a revista Muito registrara: “os cílios, postiços, claro, ganham ainda mais destaques com leves pinceladas de rímel. Para arrematar, o batom rosa-carmim”, colares e, com mais outros elementos, está “montada” a tão sonhada Muquirana, na versão de 2015, em homenagem às baianas.

Neste espaço saúdo o casal criador desse fenômeno do Carnaval, com doses de criatividade e belas fantasias, os sempre lembrados Charita e sua esposa D. Flor. Lindolfo Araújo de Carvalho, Charita, já fora “Nega Maluca”, onde só um homem se vestia de mulher. No início a proposta gerou polêmica, mas eles seguiram em frente, o apoio era sólido. D. Florisa, a esposa, sua mãe D. Aidê e suas primas Lícia e Léia estavam a costurar fantasias, temáticas e irreverentes, garantia do sucesso.

Aplausos e parabéns “às nossas meninas cinquentonas” e ao trio que não deixará este sonho se acabar, os herdeiros Luciano, Nenê e Washington.

Jaime Sodré é professor universitário, doutorando em História Social e religioso do candomblé


O tempo de ouro de Maria Bethânia

postado por Cleidiana Ramos @ 11:30 AM
13 de fevereiro de 2015
O antropólogo e poeta Marlon Marcos ao lado de sua musa, Maria Bethãnia. Foto: Margarida Neide / Ag. A TARDE

O antropólogo e poeta Marlon Marcos ao lado de sua musa, Maria Bethãnia. Foto: Margarida Neide / Ag. A TARDE

Marlon Marcos

De lá, 1965, o grito do carcará; daqui, 2015, o doce entoar em pronúncias perfeitas sobre etnias indígenas que civilizam o território nacional. Hoje, o Brasil celebra os 50 anos de carreira da matriarca da canção brasileira. A senhora franzina que pauta beleza e simplicidade no cenário cultural deste país. A mulher que ensina com o canto minúcias e delicadezas que estão em nós e, muitas vezes, bem esquecidas.

Hoje a Iara dança desguarnecida, livre, desatenta, em nome da festa que a canção popular nos traz. E sem vontade de ser destemida. Hoje é um tempo vermelho dourado da beleza nascida em Santo Amaro, na Bahia, mas que na forma de raio e pássaro conquistou o Brasil. As águas remontam uma história que revigora o estar de um mito. Um gênio feminino atirado ao campo artístico, ao educativo, ao antropológico.

A memória negríssima no poema de Fernando Pessoa, nos estimulando a ler, nos convidando a ver, nos fazendo agir, nos permitindo gozar. A memória guarida da palavra eleita para os sonhos que, como fogo, se obriga a transformar este país. E pra melhor. A história do impossível sonho que rasga o chão para que brote a rosa vermelha do deserto.

Cinquenta anos de esmerada carreira movida a paixão. Do teatro show Opinião até o centro do nosso Castro Alves, Maria Bethânia é o ouro que faz amanhecer este país, como se ela fosse a rosa do deserto de Cecília: “Eu vi a rosa do deserto/ ainda de estrelas orvalhada/ era a alvorada”.

A alvorada é Bethânia recomeçando. Frente ao disco Ciclo dedicando a Seu Zezinho. Ela tocando o chão para saudar mãe Menininha. Ela reaprendendo Pessoa aos cuidados de dona Cléo. Ela sendo analisada em um congresso todo seu feito pela Associação Rosa dos Ventos Bahia. Ela vista menina irmã mulher artista nas narrativas de Mabel. Ela derretendo-se de saudade de dona Canô, de Nicinha, de Fauzi Arap. E nunca desistindo.

Antropólogo, jornalista e poeta, autor da dissertação Oyá-Bethãnia os mitos de um orixá nos ritos de uma estrela para obtenção do título de mestre em estudos étnicos e africanos pela Ufba

Uma das canções que viram encantamento na voz melodiosa e poderosa de Maria Bethânia


A obra de Maria Bethânia é tema central de congresso

postado por Cleidiana Ramos @ 6:05 PM
5 de fevereiro de 2015
Congresso faz homenagem aos 50 anos da arte de cantora baiana. Foto: Alexandre Moreira/ Divulgação

Congresso faz homenagem aos 50 anos da arte de cantora baiana. Foto: Alexandre Moreira/ Divulgação

Marlon Marcos

Para celebrar os 50 anos de carreira da mais importante cantora brasileira da atualidade, a instituição cultural Rosa dos Ventos Bahia realiza o II Congresso brasileiro sobre a arte e o canto de Maria Bethânia.

O primeiro Congresso aconteceu em fevereiro de 2010 e serviu para celebrar os 45 anos de carreira da cantora santo-amarense e para marcar a importância que ela desempenha ao fazer do seu oficio instrumento de fomento e reflexões sobre a produção cultural brasileira, destacando o povo do interior do nosso país.

Agora, são 50 anos! E a Bahia oferece, via o Rosa dos Ventos, outras possibilidades acadêmicas e artísticas para que intelectuais como Júlio Diniz, Jorge Portugal, Carlos Barros, Aninha Franco, entre outros, homenageiem a grande artista pensando o Brasil através desta obra coerente e única que Maria Bethânia logrou à nossa história ao longo de meio século.

Uma história que se inscreve na memória da pele brasileira e nos tecidos labirínticos da nossa audição. O congresso se inclina, reiteradamente, a promover uma socioantropologia da beleza que se ergue daquela voz e que compõe retratos do Brasil que nos ajudam a dimensionar a riqueza da cultura popular deste país.

Um encontro para festa. E que preserve a memória desta biografia feminina, ativa, baiana, criativa, religiosa, profana, forte, lítero-musical e silenciosa: a presença viva da diva que tanto orgulha os que torcem por um Brasil mais exigente, mais diverso, mais bonito, mais tranquilo e bem bem bem brasileiro!

Em tempo: segue o serviço

Será hoje , 5, a partir das 19  horas a Sessão de Abertura do Congresso, inclusive com o Lançamento do selo Personalizado em Homenagem a Artista .

Nos dias 6 e 7 daremos seguimento à programação a partir das 8 horas
Local de todo o evento: Hotel Sol Barra
Maiores informações (71) 9982-5805 – Neide de Jesus

Marlon Marcos é jornalista, antropólogo, poeta e escritor. É autor da dissertação Oyá-Bethânia: os mitos de um orixá nos ritos de uma estrela


Que 2015 venha sob as bençãos da água e da pureza e brilho das crianças

postado por Cleidiana Ramos @ 8:52 AM
30 de dezembro de 2014

(Oro mimá-Bantos do Iguape- YouTube)

O Mundo Afro teve um ano de longa pausa, mas retornou em uma dia muito especial – 20 de novembro – na torcida para que tenha sido na direção de ficar atualizado de forma mais constante. O objetivo (que pretendo me esforçar para cumprir)  é que em 2015 possamos estar mais perto para debater informações variadas sob a perspectiva da herança que possuímos das mais diversas culturas e civilizações africanas.

Vamos fazer uma parada a partir de hoje, para um pequeno descanso e, na primeira segunda-feira do ano, estaremos de volta. Obrigada a todas e a todos pelo compartilhamento de conteúdo, críticas, elogios e sugestões.

E, para iniciar esse recesso, nada melhor que ficar na companhia da energia da água e do brilho das crianças com um gostinho de releitura de um belo canto para Oxum feito pela banda Bantos do Iguape, de Cachoeira. E que 2015 venha puro para ser grande!


Pérolas negras

postado por Cleidiana Ramos @ 12:29 PM
29 de dezembro de 2014

Fechando as despedidas de dias tão especiais como últimos sexta , sábado, domingo e segunda do ano de 2014 segue essa bela leitura sobre a música do Ilê Aiyê, Pérola Negra, na voz de Daniela Mercury. Uma homenagem a tudo que as culturas de matrizes africanas inspiram.


Ogum´s Toques tem campanha para publicar obras de autores negros

postado por Cleidiana Ramos @ 12:59 PM
10 de dezembro de 2014
O editor Marcus Guellwaar Adun ao lado do poeta José Carlos Limeira. Foto: Arquivo pessoal

O editor Marcus Guellwaar Adun ao lado do poeta José Carlos Limeira. Foto: Antonio Terra/ Divulgação

Uma campanha criativa e pioneira na Bahia promete movimentar o mundo de quem produz literatura com enfoque no combate ao racismo. Trata-se da campanha de crowdfunding, um nome técnico para a famosa “vaquinha” realizada pela editora Ogum´s Toques.

O objetivo é arrecadar U$ 30 mil dólares o que vai permitir a publicação de 10 livros de autoras e autores negros. Os gêneros incluem poesia, infanto-juvenil, contos e também trabalhos acadêmicos.

“O mercado editorial no Brasil, assim como a sociedade brasileira, pratica o racismo institucional de maneira extremamente sofisticada, prestigiando autorias brancas, masculinas, heterossexuais, burguesas,  sulistas esudestinas”, analisa Marcus Guellwaar Adún, escritor, educador e editor.

De acordo com ele, no lugar de apenas constatar as dificuldades para publicação, a ideia é abrir espaço para autores que têm uma forma peculiar de produzir conhecimento, afinal têm experiências variadas na constatação e formas de combate ao racismo.

“As pessoas doadoras terão seus nomes mencionados entre os reconhecimentos contidos nos livros”, explica Adún.

As doações podem ser feitas em qualquer quantia . As que ficarem acima de U$ 100 dólares receberão uma camisa da editora.

Para acessar o site de doação é só clicar aqui.

A doação é feita por meio da pressão no botão CONTRIBUTE NOW.  Para doar é necessário usar cartão de crédito e o valor é automaticamente convertido em dólar.

Por isso é importante você lembrar que o faturamento em moeda estrangeira no cartão de crédito, geralmente, é feito com a cotação do dia de fechamento da fatura. É importante checar com a sua operadora esses detalhes para não se atrapalhar nas contas.

A boa notícia é que os organizadores já estão elaborando  uma ferramenta da campanha em português para tornar mais fácil a contribuição com a iniciativa.

Leilões

A ação também inclui a realização de leilões de obras de arte. Fique por dentro dos lances da campanha também via a página no Facebook . 

Abaixo você confere um dos vídeos da campanha.


Maurício Pestana lança livro com entrevistas de enfoque na questão étnico-racial

postado por Cleidiana Ramos @ 1:13 PM
27 de novembro de 2014
Capa do livro do jornalista Maurício Pestana que será lançado hoje. Foto: Divulgação

Capa do livro do jornalista Maurício Pestana que será lançado hoje. Foto: Divulgação

Hoje, quinta-feira, tem lançamento do livro Racismo: Cotas e Ações Afirmativas, no Palacete das Artes Rodin-Bahia, na Graça, a partir das 18h30. De autoria do jornalista e cartunista Maurício Pestana, a obra reúne 46 entrevistas realizadas pelo autor com artistas, intelectuais e religiosos para a Revista Raça Brasil, onde atuou como editor e diretor executivo.

Dentre os entrevistados estão os ex-presidentes Lula e José Sarney, o cantor Gilberto Gil, a ialorixá Mãe Stella de Oxóssi, dentre outros.

As entrevistas foram conduzidas a partir de experiências pessoais em relação ao racismo e ações afirmativas como as cotas nas universidades. O livro é publicado pela Editora Anita Garibaldi com o apoio da Fundação Maurício Grabois.

Serviço: Lançamento do livro Racismo: Cotas e Ações Afirmativas

Onde: Palacete das Artes- Rodin-Bahia (Rua da Graça, 289, Graça)

Quando: Hoje, a partir das 18h30. Entrada franca.


Um abraço para todas as baianas

postado por Cleidiana Ramos @ 11:01 AM
25 de novembro de 2014
Baianas de acarajé são exemplos de liberdade. Foto: Raul Spinassé

Baianas de acarajé são exemplos de liberdade. Foto: Raul Spinassé

Hoje é o dia dedicado às baianas de acarajé. Trabalhos como o de Cecília Moreira Soares, historiadora e antropóloga, intitulado Mulher negra na Bahia no século XIXmostra o quanto essa atividade teve e tem de resistência. Por meio da sua perícia em fazer acará, que depois virou acarajé; abará, mingau (sim as vendedoras dessa iguaria também estão vinculadas a essa atividade de levar alimento barato, mas substancioso e gostoso  para as ruas), fato, peixe e outros alimentos essas mulheres revolucionaram o próprio papel feminino do seu tempo e dos que viriam depois.  

Algumas libertas outras escravas de ganho fizeram do seu trabalho a arma para ganhar liberdade e, em muitos casos a dos seus filhos e companheiros. Emanciparam-se e emanciparam. Chefiaram famílias e formaram sucessoras nesses e em outros ofícios.  Algumas até viraram “negras do partido alto”, um título para as que desafiaram todas as possibilidades e até enriqueceram.   Foram e são mulheres independentes e sábias na questão de gênero do ponto de vista político e empreendedor.

Como não se orgulhar dessas figuras que impõem um respeito enorme à frente dos seus tabuleiros, criam verdadeiras empresas familiares e não aceitam um passo atrás no que conquistaram? Assim fizeram as  guerreiras da Abam, com dona Rita Santos à frente, para obrigar a Fifa a deixar que vendessem seu acarajé dentro do estádio na Copa.  O acarajé é um patrimônio, mas as mulheres que o fizeram símbolo de liberdade mais do que isso. São exemplos de feminismo libertário antes que ele fosse articulado nos grandes centros ocidentais.


Que maus atos não quebrem vasos

postado por Cleidiana Ramos @ 11:16 AM
8 de outubro de 2014
Mãe Stella faz outra bela reflexão sobre política. Foto:  Mila Cordeiro | Ag. a TARDE

Mãe Stella faz outra bela reflexão sobre política. Foto: Mila Cordeiro | Ag. a TARDE

Maria Stella de Azevedo Santos
Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá

Assistimos muitos políticos serem carregados nos comícios, assim como as várias autoridades eleitas neste país foram carregadas nos ombros de seus correligionários no final do pleito eleitoral ocorrido no dia 5 de outubro. Esse gesto, repetido nos comícios e nos resultados dos pleitos, é cheio de simbolismos, os quais precisam e devem ser compreendidos, tanto por quem carrega, como por quem é carregado. Colocar alguém acima das cabeças dos outros é dizer que esta pessoa tem a capacidade e, consequentemente, a responsabilidade sobre tudo que implica na vida social daqueles que confiaram nele, isto é, tem por dever administrar e legislar bem sobre educação, saúde, segurança, lazer e, principalmente, respeitar o cumprimento da liberdade que rege a Carta Magna de um dos países mais democráticos deste planeta – o Brasil.

O catolicismo faz uso do andor, que no candomblé é conhecido como charola (palavra herdada dos portugueses), para colocar o sagrado acima do profano. Um provérbio bastante conhecido diz: “Cuidado com o andor, porque o santo é de barro”. E de barro também foram feitos, originalmente, os políticos a quem foi dado o poder, o direito e o dever de cuidar de seus irmãos. Portanto, se eles devem cuidar de nós, cabe também a nós cuidarmos deles, pois são seres humanos frágeis e fortes como o barro.

O barro é a mistura de água com terra. Uma autoridade precisa se moldar às circunstâncias diversas que a ela são impostas, com a flexibilidade da água e a solidez da terra. É a medida certa entre o sonho da alma com a realidade das ações materiais que faz com que um político seja um bom administrador e um bom legislador, pois recebe e aceita as orientações celestes. Ele é como um vaso, um pote de barro: artefato cuja abertura que possui simboliza a receptividade das orientações divinas.

No candomblé, vários são os objetos sagrados feitos de barro: pote, talha, quartinha, todos eles são utensílios ricos em simbolismos: guarda a água, símbolo de vida, que deve ser sempre renovada, pois os ensinamentos celestes, apesar de eternos, precisam ser sempre readaptados. Os sacerdotes do candomblé devem manter seus vasos cheios, comportamento que é explicado de uma forma clara e bela pelo budismo: Um pote cheio pela metade é emblema do tolo, uma vez que um sacerdote precisa estar pleno de sabedoria e de calma. É o que igualmente se espera de um político: que ele tenha sabedoria e calma para exercer sua missão.
A palavra pote na língua yorubá é odù, palavra que acentuada de maneira diferente significa destino.

O Terreiro de Candomblé que dirijo é sempre visitado por várias pessoas, entre elas os políticos, afinal são nossos irmãos, somos todos filhos de um Deus Supremo. É por isso que em época de eleição, peço aos orixás que dê a vitória àqueles que têm em seus destinos a missão de servir à humanidade através da política, naquele período. Uma missão tão árdua que merece orações constantes dos sacerdotes das diversas religiões e  dos não sacerdotes. Pois deus ouve a todos, indistintamente, basta que tenha “a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo

Mãe Stella escreve no jornal  A TARDE, quinzenalmente, sempre às quartas-feiras  


Balaio de Ideias: Por um paisagismo tipicamente baiana

postado por Cleidiana Ramos @ 11:06 AM
24 de setembro de 2014
O Parque São Bartolomeu é um dos espaços vegetais caros ao povo de santo de Salvador. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag. A TARDE | 18.07.2013

O Parque São Bartolomeu é um dos espaços vegetais caros ao povo de santo de Salvador. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag. A TARDE | 18.07.2013

Quando crianças, nossos professores tinham um trabalho imenso para realizar atividades educativas e informativas em equipe. Enquanto os alunos teimavam em fazer a tarefa com o mesmo grupo de colegas, os professores insistiam em desfazer as conhecidas “panelinhas”. Nesse verdadeiro cabo de guerra, normalmente os alunos eram “vencedores”. O que as crianças e adolescentes não sabiam, por lhes faltar experiência, é que vencer às vezes significa perder.

Na escola, as tarefas feitas em grupo objetivam fornecer informações, mas principalmente educar para o convívio em sociedade, já que, no futuro, os estudantes se tornarão profissionais que em vez de “panelinhas” precisarão formar imensos “caldeirões”, no qual estarão “juntas e misturadas” pessoas possuidoras de diferentes culturas e saberes, compartilhando seus conhecimentos variados, a fim de que as tarefas que lhes sejam dadas possam ser cumpridas com competência.

Estou relembrando o passado escolar para poder comentar sobre o presente, dia 12 de setembro, quando, redundantemente falando, recebi um grande presente na celebração dos meus 75 anos de iniciada. Não me refiro ao fato de ter lançado mais um livro e sim que, através desse livro, pude conhecer novas pessoas, as quais pertencem a grupos completamente diferentes daquele que tenho convivido até então. O livro O que as Folhas Cantam (para quem canta folhas) atraiu um grupo que nem de longe pensei em alcançar, exatamente pelo fato de eles não pertencerem ao meu grupo de convivência.

Os paisagistas e os arquitetos que compareceram ao lançamento me contagiaram com o entusiasmo que demonstraram sentir pelo livro. Um paisagista chegou a me falar que o trabalho dele estaria dividido no antes e no depois desse livro. Confesso, humildemente (pois pode existir humildade no orgulho), que fiquei orgulhosa com o que ouvi. Logo pensei: a Bahia é uma terra rica em sabedoria e, no que diz respeito ao reino vegetal, os negros escravos nos deixaram uma rica herança, que está mais no que na hora de usá-la para o bem de todos.

Este artigo é, pois, dirigido aos paisagistas e arquitetos, não só para agradecer a presença deles no lançamento do livro, como também para convidá-los a criar um tipo de paisagismo específico da Bahia, onde a grande sabedoria das plantas típicas do território baiano possa ser transmitida para os moradores de casas e condomínios, frequentadores de praças, etc.

Aqui seguem alguns exemplos de plantas possíveis de decorar casas e jardins, cujas energias transmitem poderes específicos para o corpo e a mente: folha-da-costa fornece o aprendizado do silêncio e do amadurecimento; batata-doce dá equilíbrio à cabeça; nativo abre os caminhos de quem busca purificação, coragem e liberdade; bambu desperta o deprimido, protegendo-o da excitação; cana-de-macaco nos torna mais maleáveis para que evitemos desavenças desnecessárias e desequilíbrios psíquicos.

Visando fazer com que nossa Bahia seja ainda mais conhecida pela sua criatividade e cultura própria, peço a meus leitores que conheçam algum paisagista, decorador, arquiteto que nos ajudem nesta nova empreitada.

Mãe Stella escreve para  o jornal A TARDE, quinzenalmente, às quartas-feiras   


Terreiro Santa Bárbara celebra Tempo

postado por Cleidiana Ramos @ 12:05 PM
8 de agosto de 2014
O terreiro Santa Bárbara, comandado por Pai Valdemir, celebra Tempo no próximo domingo. Foto: Fernando Vivas/Ag. A TARDE/ 22.06.2009

O terreiro Santa Bárbara, comandado por Pai Valdemir, celebra Tempo no próximo domingo. Foto: Fernando Vivas/Ag. A TARDE/ 22.06.2009

No próximo domingo, dia 10, os terreiros de nação angola estarão em festa para celebrar Tempo. No Terreiro de Santa Bárbara, localizado em Lauro de Freitas, a movimentação começa a partir das 8 horas com um café da manhã.

Durante a tarde vai ter churrasco e à noite a celebração solene. As comemorações são feitas em sua maior parte ao ar livre.

“Tempo é o patrono da nação angola e que costuma ser cultuado no dia 10 de agosto. Ele usa branco e sua festa é feita com muita comida, pois ele é rei e rege a prosperidade”, explica Valdemir Melo, tata de inquice- título usado quando um homem ocupa o mais alto posto numa comunidade  de nação angola- do Terreiro Santa Bárbara.

O terreiro, um dos mais conhecidos na Região Metropolitana de Salvador (RMS), fica na Rua Araqui, 22.


Cena de novela sobre o racismo surpreendeu

postado por Cleidiana Ramos @ 11:24 AM
5 de agosto de 2014
Lázaro Ramos vive o guru Brian Benson em Gerão Brasil.  João Cotta/ TV Globo

Lázaro Ramos vive o guru Brian Benson em Gerão Brasil. João Cotta/ TV Globo

Mesmo com suas limitações as novelas já fazem parte da cultura cotidiana brasileira. Até  quem odeia o gênero não pode ficar completamente alheio a personagens, bordões e polêmicas que elas abordam. Daí que ver um tema espinhoso como o racismo abordado com leveza, mas de forma contundente em um produto do gênero na Globo realmente surpreende.

Foi o caso de Geração Brasil, exibida às 19 horas, em capítulo que foi ao ar há duas semanas. A cena gira em torno de uma reprogramação cerebral, capitaneada pelo guru Brian Benson vivido por Lázaro Ramos. O paciente do guru é  Matias (Danilo Santos Ferreira) membro da chamada geração nem nem (jovens que nem estudam nem trabalham).

Matias anda sem confiança. Na conversa entre os dois, aos poucos, o guru vai mostrando o quanto o racismo é violento ao desconstruir a confiança e levar um jovem negro a duvidar de si mesmo.

O barato foi a abordagem bem amarrada em mais um belo trabalho dos autores Filipe Miguez e Izabel de Oliveira. Os dois já haviam tratado do tema em Cheias de Charme, mas agora, em Geração Brasil, foi mais forte.

Para arrematar, Claudia Abreu, que vive Pamela Parker, apresenta dados que fundamentam o que foi mostrado. Um alento em ver algo sobre os efeitos danosos do racismo em um canal de audiência considerável com texto bem cuidado e o luxo de interpretações como a de Lázaro Ramos. Aliás, a cada dia, Lázaro mostra o grande serviço de um ator que sabe  usar os espaços possíveis da sua arte para denúncia social.

Vejam o vídeo no link abaixo:

http://gshow.globo.com/novelas/geracao-brasil/capitulo/2014/7/22/veronica-e-herval-se-esbarram-em-uma-viagem-de-aviao-e-se-interessam-um-pelo-outro.html