Arquivo da Categoria '2010'


Balaio de Ideias: A capoeira conjugada no feminino

postado por Cleidiana Ramos @ 8:45 AM
20 de novembro de 2010

A presença feminina na capoeira é analisada por Marlon Marcos. Foto: Gildo Lima| Ag. A TARDE

Marlon Marcos

“Que gira e faz girar a roda
Da vida que gira…” (Martinho da Vila)

A presença da mulher na cultura afro-brasileira narra as mais significativas histórias que contam os incontáveis exemplos de superação do povo negro no Brasil, originário das mais diversas etnias africanas. Foi a mulher, em seus construtos culturais, a marca fundante para reelaboração das estruturas familiares dos humanos extraídos de suas terras natais; reelaboração essa nascida do sentido religioso, erguido de práticas litúrgicas  que se convencionou  chamar candomblé. Em áreas do Terreiro, a mulher negra quase hegemonicamente ditou regras e formalizou abrigos sócio-familiares que tiraram da esquezofrenia social grande parte deste povo que, aqui, escapou da escravidão.

Além do mais, estas mulheres subvertaram lógicas machistas assumindo a liderança de suas casas, e como sacerdotisas, quituteiras, fateiras, comerciantes, lavadeiras, operárias, prostitutas, muitas delas  mães solteiras, redirecionaram o destino de suas crias, sustentando-as, educando-as, apoiando espiritualmente e oferecendo instrumentos culturais que as fizessem lutar contra as ferocidades do racismo e da pobreza para que hoje, 20 de novembro de 2010, pudéssemos parar o País para relembrar Zumbi e os desdobramentos históricos que pontuam avanços de todas as ordens e atentam para a longa caminhada que ainda devemos seguir para se erguer, se possível, uma sociedade brasileira alicerçada na ética da coesxistência, instrumentalizada pelo respeito e não pela tolerância.

E a mulher na capoeira? Por que ainda fazemos essa pergunta se em tantas áreas de expressão social da cultura afro-brasileira ela sempre esteve e está presente sem feições de figuração?

Há quem diga que as mulheres foram ( e ainda são) secundarizadas nas rodas da capoeira por não terem compleição física para tanto. E outros, mais cuidadosos, dizem que por serem o sexo frágil, devem ser protegidas da violência e da destreza do homem em ação nessa luta-dança que é uma das grandes invenções da cultura negra do Brasil. Os mais crédulos afirmam que as mulheres são co-partícipes desta trajetória e nas rodas elas levam leveza beleza delicadeza e cantam, cantam a favor desta luta que ensina aos homens a mágica da auto-proteção, o talento do belo movimento, o domínio de estratégias espaciais, a sabedoria,  o exercício da paciência e também, coragem e agressividade.

E como e por que ficar fora disso? Muitas mulheres não querem adornar rodas e tão somente cantar enquanto os homens se desenvolvem na prática do seu esporte luta dança cultura. Não querem se  sentir réfens da violência gratuita de muitos homens quando jogam com mulheres. Antes disso, a mulher quer a inteireza do seu aceite no grupo, o direito real e legítimo de se tornarem mestras, de não serem obrigadas a jogar só entre si.

Conquistar a roda da capoeira tem sido um exercício de evolução política e ideológica para a mulher do mesmo jeito que foi ( e ainda é) para os homens conquistarem  as rodas dos xirês nos candomblés tradicionais da Bahia e,  fora do transe, dançarem para seus orixás.

O feminino anda em desconstrução tal igual ao masculino. E nessa conjugação de direitos iguais entre as diferenças, nada mais positivo que deixar a mulher girar na roda também como autora; elas, as mulheres, que são guardadoras de alguns mistérios da vida.

Marlon Marcos é jornalista e antropólogo.

 


Balaio de Ideias: Zum zum zum Capoeira mata um! E preserva a vida de muitos

postado por Cleidiana Ramos @ 8:45 AM
20 de novembro de 2010

Maíra Azevedo salienta a simbologia da capoeira. Foto: Acervo pessoal

Maíra Azevedo

Ao som do berimbau, palmas e uma música que canta saudade e afirmação,  um grupo de jovens, todos eles com vestes brancas e simples, se reúnem em círculo para fazer uma festa e testar os movimentos  do seu corpo.  Essa cena  é atemporal, nos remete às senzalas do Brasil Colônia, mas também a uma cena cotidiana das academias luxuosas  e elitistas, das areias das praias e das ruas dos bairros populares de qualquer lugar do mundo. Assim é a capoeira, democrática por natureza.

Símbolo de resistência e da força do povo negro, a capoeira foi e é responsável pela sobrevivência de milhares de homens e mulheres que ousaram, em uma época não tão distante, desafiar  as leis e continuar seguindo em frente com os movimentos corporais que são definidos como uma mistura de dança e luta. E foi gingando que  derrubaram muitas estatísticas perversas.  Até 1943, a prática da capoeira era proibida no Brasil, considerada  violenta e subversiva. Qualquer um que estivesse em situação suspeita, poderia ser preso. A “alforria”,  chegou quando Mestre Bimba se encontrou com, o então presidente, Getúlio Vargas. Ao fim da apresentação, o presidente estava convecido. A capoeira era o esporte brasileiro.

Mas a capoeira é mais do que um esporte. É  a tradução livre, por meio do corpo,  de sentimentos  de um povo que ficou marcado por suas dores e anseios.  É um golpe profundo naqueles que insistem em nos deixar acorrentados. É uma das facetas da identidade dos milhares de africanos que foram trazidos como mercadoria para o novo continente.E resistiram, tiveram a luta ou dança como arma para sobreviver. Disseram não com as pernas e mãos.  Não vamos  permitir que nos coisifiquem, estamos lutando  e vamos conseguir. A capoeira diz isso. É rasteira nos opressores.

A capoeira se consagrou. Não se pode pensar no Brasil, na Bahia e não imaginar aquelas acrobacias feitas em grupo. São pernas no ar, mas sempre acompanhadas. Não se joga capoeira sozinho, precisamos do outro.  Por isso, é uma grande lição. Não são apenas golpes ao vento, mas uma série de movimentos que atesta que organizados vamos mais longe.  A luta que era crime, se transformou em esporte nacional e é responsável pela sobrevivência de muitos, não só por defender o seu corpo contra algum golpe, mas por preservar a sua história.

Iê, viva meu Deus, camará , Iê, viva meu mestre, camará, Iê, quem me ensinou, camará Iê, a Capoeira que me PRESERVOU camará. Essa também é ladainha.

Salve capoeira!

Maíra Azevedo, coordenadora de comunicação da Unegro, yaô do Ilê Axé Oxumarê e, capoerista do Grupo Gingando Sempre      


Balaio de Ideias:Din, Din, Dão, olha o dobrão na palma da mão, Oxalá !

postado por Cleidiana Ramos @ 8:44 AM
20 de novembro de 2010

Wilson Café destaca a importância da capoeira. Foto: Uran Rodrigues |Divulgação

Wilson Café

Mestres, senhores da natureza humana, sabedorias do gingar de cantos, contos e religiosidades!

Biriba, cabaça, angola, regional, cavalaria, São Bento, benguela, ladainha são acervos e, como sabemos, acervo é o conteúdo mágico e documental dessa grande arte. É o montão e o acúmulo do conjunto e a coleção dos bens de valor “sagrado”.

Capoeira, alma viva, nua e crua que resume, no presente,  o passado e a busca por um futuro digno e justo, da historicidade do desafio de décadas e tradições orais e escritas, contadas por mestres, alabês, estudiosos, pensadores, admiradores, formadores de opinião. Desse modo, entendemos o rito e a liturgia da capoeira como um admirável senso comum de beatificação de propósitos.

Com o tempo, essa arte se transformou em educação e da união entre os povos,raças e culturas do mundo se entrelaçaram – negros, brancos, mulatos, pardos, cafuzos, mamelucos, simbolizando o charme da Nação.

Hoje, quem não joga capoeira, parodiando Dorival Caymmi numa frase, “é ruim da cabeça ou doente do pé”. Modernizada e globalizada por muitos e discriminada por poucos, ela representa uma qualidade de vida usando o corpo e a mente como forma de expressão. Nela são dadas condições de adquirir movimentos através do tempo e do espaço que vão se relacionando e convivendo uns com os outros e com o meio social, muitas vezes em conflitos de interesses.

Para muitos jovens integrantes de comunidades e localidades em risco social e pessoal, a capoeira trabalha a individualidade e a noção do coletivo, melhorando a integração, o relacionamento, a harmonia e a busca pela boa convivência com os seus familiares e o universo ao seu redor, escolas e projetos sociais.

Na EEPI (Escola de Educação Percussiva Integral), por exemplo, que funciona desde 2003 na Estrada das Barreiras, no Conjunto Maestro Wanderley – Cabula II, a partir dos jogos lúdicos da arte da capoeira, vem se aplicando conteúdos didáticos e pedagógicos de forma interdisciplinar nas aulas teóricas e práticas,para a melhoria da aprendizagem nas disciplinas, através de textos e livros, como forma de conhecimento e reconhecimento dos heróis que contribuíram para a historia da resistência afro-brasileira.

Tão nobre e respeitada com suas cores verde, amarelo, azul e branco e com os berimbaus– viola, médio, gunga ou berra- boi–; com os outros instrumentos – pandeiro atabaque e caxixi, a capoeira está na língua de diversos jovens de países de todos os continentes, levando a sua filosofia de amar e respeitar o próximo, independente da condição social e espiritual em que se encontre.

Na roda de capoeira é onde o jogador aprende as maneiras de sobrevivência, ou seja, as táticas do jogo de cintura, de ganhar e perder, principalmente no perder. Porque nem todo mundo está acostumado a perder. Estamos numa sociedade onde fomos levados a aprender a ganhar e quando perdemos entramos em conflito. Portanto, o pensar, o agir e o desenvolver são ferramentas essenciais do fundamento da capoeira, independente de ser regional ou angola.

Lamentavelmente, muita gente usa essa arte como propagadora da violência. Ainda bem que outros benditos a utilizam como terapia ou defesa pessoal. Entretanto, o melhor é que a capoeira se tornou um grande exemplo a ser seguido como simbologia da paz. Os Mestres Pastinha e Bimba deixaram de herança para o Brasil o seu fundamento enquanto filosofia de vida e não como arte marcial.

O mundo gira, a roda é cíclica, viver é uma arte. Hoje a capoeira,  patrimônio cultural do Brasil, representa a alma viva da nação, reconhecida em sua contribuição africana no país.

Viva Bimba ! Viva Pastinha! Que Vivam esses heróis e seus conhecimentos que vem educando e transformando jovens carentes em Mestres e dando empregabilidade e sustento no Brasil e no mundo.

Wilson Café é músico e diretor da Escola de Educação Percussiva Integral (EEPI)


Construindo o caminho

postado por Cleidiana Ramos @ 8:44 AM
20 de novembro de 2010

Ideias circularam amplamente na reuniã preparatória para o caderno. Foto: Gildo Lima

Uma das grandes conquistas dos especiais publicados  no Dia Nacional da Consciência Negra produzidos por A TARDE é a sua faceta de construção coletiva.

Desde 2008 recebemos convidados para trocar ideias sobre a pauta e dessa vez o rendimento, como sempre, foi significativo. 

 Os convidados deste ano foram o Tata de Inquice e conselheiro espiritual do Grupo Nzinga, Tata Mutá Imê; o historiador, xicarangoma e contramestre de capoeira, Jaime Sodré; o Contramestre Tico; o jornalista e antropólogo Marlon Marcos; a jornalista da assessoria de comunicação da Secretaria Estadual de Promoção da Igualdade (Sepromi), Camila França; e a professora e especialista em planejamento educacional Josiane Clímaco que, mais uma vez, elaborou as dicas para usar as reportagens em sala de aula.


Mulheres na roda

postado por Cleidiana Ramos @ 8:44 AM
20 de novembro de 2010

Confiram que belo o vídeo do jogo entre as mestres Paulinha e Janja do Grupo de Capoeira Nzinga. É a força feminina na capoeira.


Ê, Camará!

postado por Cleidiana Ramos @ 6:53 PM
19 de novembro de 2010

Capoeira é tema de caderno especial de A TARDE. Foto: Gildo Llima| Ag. A TARDE

Com muita correria, mas uma dedicação que faz mágica, aprontamos a 8ª edição do caderno da Consciência Negra que sai amanhã encartado no jornal A TARDE. Dessa vez fomos beber na bela fonte da capoeira.

Denominado Ê Camará! o especial passeia pela faceta inclusiva da capoeira, sua história de resistência e luta para vencer a marginalização e o encanto que lançou sobre as várias linguagens artíticas. O nosso destaque é para os mestres Bimba e Pastinha que, ao decodficarem os movimentos, criaram as duas grandes escolas: regional e angola, respectivamente. A relação próxima entre candomblé e capoeira, os intrumentos que formam sua orquestra, a chegada das mulheres, a batalha para conservar a forma tradicional de transmitir conhecimento e toda a riqueza simbólica de um jogo também estão contemplados.

Além disso, o caderno traz dicas de como usar as reportagens em sala de aula, o que configura um reforço para a aplicação da Lei 11.645/08, nova identifcação da Lei 10.639/03, que estabelece o ensino de História da África e Cultura Afro-Brasileira. A modificação foi para incluir também o ensino de História e Cultura Indígenas.

Cada página do especial traz dicas de livros, filmes, mas também de artigos que serão publicados aqui no Mundo Afro para enriquecer a discussão sobre o tema.

Já como aperitivo vão abaixo o destaque para personagens que prestam um grande serviço para a expansão da capoeira, uma criação brasileira que já ultrapassou as fronteiras nacionais. Os textos têm a colaboração de Meire Oliveira.

Fiquem atentos pois no Portal A TARDE On Line e em A TARDE TV tem também cobertura especial amanhã.

 


Mestre Pelé da Bomba

postado por Cleidiana Ramos @ 6:52 PM
19 de novembro de 2010

Foto: Gildo Lima| Ag. A TARDE

Discípulo de Mestre Bugalho, com quem aprendeu capoeira nas rodas realizadas no Mercado Modelo, Mestre Pelé da Bomba sabe tudo sobre instrumentos usados para a acompanhar o jogo. O complemento Bomba é devido a sua passagem poelo Corpo de Bombeiros. É uma figura que conhece todos os campinhos da capoeira angola. Lançou este mês sua autobiografia intitulada Natalício Neves da Silva, O Pelé da Capoeira. Coordena ao lado do seu filho, Mestre Couro Seco, o Grupo de Capoeira Angola Pai e Filho, sediado na Alemanha. Mestre Pelé vende instrumentos, livros e Cds na Associação de Capoeira Angola,no Pelourinho. É também conhecido como Mestre Gogó de Ouro por já ter lançado Cds de samba de roda, samba de viola e de capoeira.


Contramestre Tico

postado por Cleidiana Ramos @ 6:51 PM
19 de novembro de 2010

Foto: Gildo Lima| Ag. A TARDE

Coordenador do Centro Cultural  Capoeira Obírin Dúdú, é um jovem apegado à tradição. Praticante da capoeira regional, o contramestre quer preservar a sabedoria que aprendeu. Foi de uma gentileza e contribuição mais do que preciosas para a elaboração do especial Ê, Camará!.Tudo pelo amor e respeito à capoeira 


Mestre Moraes

postado por Cleidiana Ramos @ 6:51 PM
19 de novembro de 2010

Foto: Rejane Carneiro| Ag. A TARDE| 28.04.2009

Acredita que é necessário viver a capoeira para poder praticá-la. Presidente e fundador do GCAP – Grupo de Capoeira Angola Pelourinho, ele também é professor de inglês, mestre em História Social pela Universidade Federal da Bahia (Ufba) e doutorando em Cultura e Sociedade pela mesma instituição. Discípulo de Mestre Pastinha, mantém o blog http://mestremoraes-gcap.blogspot.com/, onde discute os vários aspectos da arte-luta. Compositor de amplo repertório de música de capoeira, Mestre Moraes foi indicado ao Grammy, em 1984, com o Cd Brincando na Roda.


Mestre Gildo Alfinete

postado por Cleidiana Ramos @ 6:50 PM
19 de novembro de 2010

Foto: Gildo Lima| Ag. A TARDE

Na casa onde reside, Mestre Gildo Alfinete possui o acervo mais completo sobre Mestre Pastinha. A coleção conta com objetos pessoais como bengala, fotografias, o livro de registros dos alunos, a bandeira do Brasil que ficava afixada na parede da academia, vídeos e um painel escrito e pintado pelo Mestre. Dentre as raridades estão dois manuscritos de Mestre Pastinha relatando sua vivência na capoeira, sua história e uma espécie de manual da arte-luta com descrição de golpes em texto e pintura. Da época de aluno, ainda guarda o famoso uniforme amarelo e preto e a carteira da academia.


Mestre Curió

postado por Cleidiana Ramos @ 6:49 PM
19 de novembro de 2010

Foto: Marco Aurélio Martins| Ag. A TARDE| 06.01.2010

“Divagar para o angoleiro ainda é pressa”. É assim que Jaime Martins dos Santos, 73 anos, comanda os alunos que chegam ao Ponto de Cultura Irmãos Gêmeos, no Forte da Capoeira. O local onde ensina é cercado de referências do candomblé. Mestre Curió, que herdou o apelido do avô também capoeirista,é discípulo de Mestre Pastinha e acredita na sensibilidade, respeito e hierarquia como base da prática   que preserva como lhe foi ensinada. Os alunos chegam ao espaço lhe dando Salve!, lhe tomam a bênção e cuidam da limpeza e organização do espaço. Em toda a trajetória da capoeira se orgulha de só ter formado três mestres e dois contramestres.


Mestre Nenel

postado por Cleidiana Ramos @ 6:49 PM
19 de novembro de 2010

Foto: Gildo Lima

 

Filho biológico de Mestre Bimba, Mestre Nenel é um guardião da tradição do saber deixada por seu pai. Ele protege a tradição e memória de Mestre Bimba, na Fundação Mestre Bimba, localizada no Pelourinho.