Arquivo da Categoria 'Cidadania'


Um abraço para todas as baianas

postado por Cleidiana Ramos @ 11:01 AM
25 de novembro de 2014
Baianas de acarajé são exemplos de liberdade. Foto: Raul Spinassé

Baianas de acarajé são exemplos de liberdade. Foto: Raul Spinassé

Hoje é o dia dedicado às baianas de acarajé. Trabalhos como o de Cecília Moreira Soares, historiadora e antropóloga, intitulado Mulher negra na Bahia no século XIXmostra o quanto essa atividade teve e tem de resistência. Por meio da sua perícia em fazer acará, que depois virou acarajé; abará, mingau (sim as vendedoras dessa iguaria também estão vinculadas a essa atividade de levar alimento barato, mas substancioso e gostoso  para as ruas), fato, peixe e outros alimentos essas mulheres revolucionaram o próprio papel feminino do seu tempo e dos que viriam depois.  

Algumas libertas outras escravas de ganho fizeram do seu trabalho a arma para ganhar liberdade e, em muitos casos a dos seus filhos e companheiros. Emanciparam-se e emanciparam. Chefiaram famílias e formaram sucessoras nesses e em outros ofícios.  Algumas até viraram “negras do partido alto”, um título para as que desafiaram todas as possibilidades e até enriqueceram.   Foram e são mulheres independentes e sábias na questão de gênero do ponto de vista político e empreendedor.

Como não se orgulhar dessas figuras que impõem um respeito enorme à frente dos seus tabuleiros, criam verdadeiras empresas familiares e não aceitam um passo atrás no que conquistaram? Assim fizeram as  guerreiras da Abam, com dona Rita Santos à frente, para obrigar a Fifa a deixar que vendessem seu acarajé dentro do estádio na Copa.  O acarajé é um patrimônio, mas as mulheres que o fizeram símbolo de liberdade mais do que isso. São exemplos de feminismo libertário antes que ele fosse articulado nos grandes centros ocidentais.


Mais boas notícias sobre o especial Infância da Resistência

postado por Cleidiana Ramos @ 1:57 PM
24 de novembro de 2014

capa do especial 2014 3

Coisa boa é para compartilhar. Portanto, estou agora socializando os parabéns que a equipe de A TARDE responsável pelo especial Infância da Resistência recebeu da Cipó, uma instituição pioneira na Bahia no trabalho de conscientização da mídia sobre os direitos da Infância e Juventude. Receber elogio dessa turma é mais do que especial. Segue a nota:  

A CIPÓ – Comunicação Interativa parabeniza o jornal A Tarde, com destaque para a editora Cleidiana Ramos, pelo caderno publicado neste 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. Essa postura da imprensa, de valorizar com seriedade e respeito uma data que é fruto da luta do movimento social, só ajuda a fortalecer a democracia e deve servir de exemplo para todos os veículos de comunicação.

A opção por abordar o assunto a partir do ponto de vista das crianças éoutro item que merece destaque. As crianças não são “o futuro”, elas vivem no presente e sofrem – ainda mais do que os adultos – as consequências do racismo. São portanto fontes qualificadas para falar sobre o assunto e devem ganhar espaço na imprensa, não como elemento “suavizador” da cobertura, mas como sujeitos de direitos que são.

 


O sonho de Mãe Stella

postado por Cleidiana Ramos @ 12:32 PM
24 de novembro de 2014
Animoteca está funcionando no estacionamento do Shopping Bela Vista, das 10 às 21 horas até o próximo dia 29

Animoteca está funcionando no estacionamento do Shopping Bela Vista, das 10 às 21 horas até o próximo dia 29

No último sábado no Shopping Bela Vista tive a sorte de participar de uma cerimônia marcante: a abertura  da “animoteca”. Trata-se de uma parte do projeto “Encontro Colorido da Encantada Espiritualidade Baiana”, concebido pela ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, Mãe Stella de Oxóssi.

A animoteca, instalada em um ônibus, pode ser visitada até o próximo dia 29, das 10 às 21 horas, no estacionamento do Shopping Bela Vista no Cabula.  Lá é possível encontrar livros, áudios e vídeos sobre as várias religiões.

O projeto é um sonho antigo de Mãe Stella que ela manifestou em um dos muitos artigos que escreveu para o jornal A TARDE. A partir do artigo, que foi desdobramento de um primeiro, onde misturando realidade e ficção ela falou sobre a importância de cultivar a possibilidade de sonhar, vários dos seus leitores se dispuseram a ajudar.

Infelizmente, na última quarta-feira, Mãe Stella se despediu, de forma continuada, do seu espaço cativo a cada 15 dias nas páginas de Opinião do jornal. Ela foi a primeira ialorixá a escrever de forma regular em um jornal de grande circulação. O  texto em que ela se despediu dos leitores foi publicado na quarta-feira passada,  mas a história que ela começou a construir nesse espaço logo terá continuidade.

Aqui segue o texto de Mãe Stella dando um até breve aos seus leitores do jornal:

Mudança de hábito

Maria Stella de Azevedo Santos

Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá

Quem não se lembra do filme Mudança de hábito, onde uma cantora de casino se vê obrigada a se esconder em um convento de freiras? Sem ser uma religiosa, ela conseguiu transformar positivamente o ambiente em que passou a morar. Nem toda pessoa boa é religiosa e nem todo religioso é, necessariamente, bom. No referido caso, o hábito (no sentido de vestimenta religiosa) fez a freira, confirmando o provérbio que diz: “O hábito faz o monge”.

Entretanto, esse provérbio tem outro significado quando dito da maneira completa e certa: “O hábito faz o monge apenas quando ele é visto longe”. Apesar dessa introdução, não escolhi o título “Mudança de hábito” para este artigo tendo como intenção falar de hábito enquanto vestimenta, mas sim enquanto prática costumeira.

Quando algo é difícil de ser dito, o preâmbulo fica sempre mais longo. É uma forma de preparar o interlocutor para ouvir ou ler o que vem pela frente. Sei que estou fazendo certo suspense. Coragem, Stella! – digo para mim. Então, lá vai:

As diversas atividades que minha vida religiosa pede e, é claro, a minha avançada idade estão fazendo com que se torne difícil continuar escrevendo quinzenalmente para este conceituado jornal, que acolheu meus pensamentos e minha cultura religiosa com muito desprendimento.

Não estou me despedindo do jornal A TARDE que, compreendendo minhas razões, deixou o espaço aberto para que eu escrevesse algum artigo quando assim pudesse e desejasse; muito menos estou me despedindo de meus leitores, pois continuarei escrevendo livros, mas no ritmo possível para meus 89 anos de idade.
Afinal, dividi a existência humana em três etapas: na primeira idade, que vai até os 40 anos (pelo menos para mim), as pessoas estão prontas para fazer filhos; a segunda idade, que vai dos 40 aos 80 anos, é para namorar; na terceira idade, que vai dos 80 aos 120 anos, é o momento propício para as pessoas sentarem e esperarem a velhice chegar. Este é o meu momento!

Escolhi com cuidado não só as palavras a serem escritas, como também a ocasião certa para realizar essa espécie de liberação. É que sábado, dia 22 de novembro, às 17 horas, na frente do Shopping Bela Vista, estarei realizando um sonho que só foi possível porque o expus nas páginas deste jornal e seus leitores ajudaram-me a concretizá-lo.

Parece-me que a sociedade já esta pronta para receber um ônibus, que ludicamente chamo de Animoteca, já que um de seus objetivos é despertar o ânimo dos seres que ainda se encontram adormecidos. Nesse ônibus estão guardadas em forma de livros, vídeos e áudios as sabedorias reveladas por mentes inspiradas, pertencentes a diferentes religiões e tradições filosóficas.

Não chamo a apresentação do ônibus de inauguração, porque prefiro, de maneira poética, denominá-la de “Encontro colorido da encantada espiritualidade baiana”, que tem como objetivo maior trabalhar no sentido de diminuir a violência através do despertar da espiritualidade.

Meus leitores, os quais espero encontrar no dia 22, sábado, percebem, assim, que não estou me despedindo, estou apenas mudando de hábito.


Jaime Sodré lança livro sobre combate ao racismo para crianças

postado por Cleidiana Ramos @ 12:28 PM
17 de outubro de 2014
Jaime Sodré lança novo livro no próximo domingo. Foto: Mila Cordeiro /Ag. A TARDE

Jaime Sodré lança novo livro no próximo domingo. Foto: Mila Cordeiro /Ag. A TARDE

Pais, educadores e crianças: no próximo domingo, dia 19, a partir das 10 horas, tem um programa imperdível para vocês na Biblioteca Infantil Monteiro Lobato, em Nazaré. Trata-se do lançamento do livro Mocri (Movimento de Conscientização contra o Racismo Infantil), assinado pelo professor Jaime Sodré e com ilutrações de Ila Muniz.

Além do lançamento do livro haverá debate entre o autor e as crianças. Para acompanhar a conversa  será servido um delicioso mugunzá.


Cena de novela sobre o racismo surpreendeu

postado por Cleidiana Ramos @ 11:24 AM
5 de agosto de 2014
Lázaro Ramos vive o guru Brian Benson em Gerão Brasil.  João Cotta/ TV Globo

Lázaro Ramos vive o guru Brian Benson em Gerão Brasil. João Cotta/ TV Globo

Mesmo com suas limitações as novelas já fazem parte da cultura cotidiana brasileira. Até  quem odeia o gênero não pode ficar completamente alheio a personagens, bordões e polêmicas que elas abordam. Daí que ver um tema espinhoso como o racismo abordado com leveza, mas de forma contundente em um produto do gênero na Globo realmente surpreende.

Foi o caso de Geração Brasil, exibida às 19 horas, em capítulo que foi ao ar há duas semanas. A cena gira em torno de uma reprogramação cerebral, capitaneada pelo guru Brian Benson vivido por Lázaro Ramos. O paciente do guru é  Matias (Danilo Santos Ferreira) membro da chamada geração nem nem (jovens que nem estudam nem trabalham).

Matias anda sem confiança. Na conversa entre os dois, aos poucos, o guru vai mostrando o quanto o racismo é violento ao desconstruir a confiança e levar um jovem negro a duvidar de si mesmo.

O barato foi a abordagem bem amarrada em mais um belo trabalho dos autores Filipe Miguez e Izabel de Oliveira. Os dois já haviam tratado do tema em Cheias de Charme, mas agora, em Geração Brasil, foi mais forte.

Para arrematar, Claudia Abreu, que vive Pamela Parker, apresenta dados que fundamentam o que foi mostrado. Um alento em ver algo sobre os efeitos danosos do racismo em um canal de audiência considerável com texto bem cuidado e o luxo de interpretações como a de Lázaro Ramos. Aliás, a cada dia, Lázaro mostra o grande serviço de um ator que sabe  usar os espaços possíveis da sua arte para denúncia social.

Vejam o vídeo no link abaixo:

http://gshow.globo.com/novelas/geracao-brasil/capitulo/2014/7/22/veronica-e-herval-se-esbarram-em-uma-viagem-de-aviao-e-se-interessam-um-pelo-outro.html


Salvador faz festapara sua majestade, Lamidi Olaywola II, alafim de Oyó

postado por Cleidiana Ramos @ 1:31 PM
31 de julho de 2014
Durante sua visita a Salvador, o alafim Lamidi Olayiwola Adeyemi III participou de seminário sobre patrimônio cultural e visitou terreiros de candomblé. Foto: Joá Souza | Ag. A TARDE

Durante sua visita a Salvador, o alafim Lamidi Olayiwola Adeyemi III participou de seminário sobre patrimônio cultural e visitou terreiros de candomblé. Foto: Joá Souza | Ag. A TARDE

Salvador está recebendo a visita de  Lamidi Olaywola Adeyemi III, o alafim de Oyó, estado nigeriano. De Oyó veio o culto ao orixá Xangô, patrono do Ilê Axé Iyá Nassô Oká, mais conhecido como Casa Branca, que é reconhecido como o mais antigo terreiro de nação Ketu do Brasil e que ele visitou na última terça-feira.  A Casa Branca e a sua história tem estreitas ligações com Oyó que foi um grande império na região onde hoje estão Nigéria e seu vizinho Benim, entre os séculos XVII e XVIII. Por uma questão cultural, Adeyemi III é reconhecido como um governante  local. Ele tem o título de alafin, o equivalente a um imperador ou rei.

Hoje à tarde, como último compromisso público na capital baiana, o alafim visita a pedra consagrada em Xangô, localizada em Cajazeiras.

A Nigéria é uma República, mas o título de alafim tem importância cultural e religiosa, pois ele é  representante de orixás na terra como Odudua, ancestral mítico de parte do povo iorubá.

O alafim veio à capital baiana em uma articulação de terreiros que inclui, além da Casa Branca, o Ilê Iyá Omi Àse Iyamassé (Terreiro do Gantois), o Ilê Axé Opô Afonjá, o Ilé Maroialaji (Alaketu) e Ilê Osùmàré Arákà Àse Ogodó (Casa de Oxumarê).

Todos esses terreiros são reconhecidos como bens culturais brasileiros pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Inclusive, a visista de Adeyemi III motivou a realização de um seminário sobre patrimônio afro-brasileiro e trocas de experiências entre Brasil e Nigéria.

Abaixo vocês tem acesso a um texto de Meire Oliviera, publicado na edição de terça-feira do jornal A TARDE:

Meire Oliveira

Promover o intercâmbio acerca da preservação de bens culturais e fortalecer os laços históricos é o foco do 1º Seminário para Preservação do Patrimônio Cultural Compartilhado entre o Brasil e a Nigéria, que segue até a próxima quinta-feira.

A abertura do encontro – ocorrida ontem (terça-feira) no Salão Nobre do Fórum Ruy Barbosa – contou com a presença do rei do Império de Oyó, Lamidi Olayiwola Adeyemi III, sua comitiva com 22 integrantes, além de lideranças religiosas do candomblé e autoridades políticas dos dois países.

“É lindo o trabalho de conservação feito aqui pelos templos religiosos, honrando a memória dos nossos antepassados, disseminando a religião tradicional e a identidade iorubá. Diante da ameaça constante, temos que nos unir no compromisso de preservar essa ancestralidade”, disse o rei de Oyó.

A iniciativa é promovida por cinco terreiros baianos, já reconhecidos no país como patrimônio cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan):  Ilê Axé Iyá Nassó Okà (Casa Branca), Ilê Axé Opo Àfonjá, Ilê Iyá Omi Àse Iyamassé (Terreiro do Gantois), Ilé Maroialaji (Alaketu) e Ilê Osùmàré Arákà Àse Ogodó (Casa de Oxumarê).

“A nossa meta é unir forças e fortalecer nossa cultura e religiosidade, além de preservar o culto na Nigéria e lutar pelo tombamento de Oyó pela Unesco”, disse Sivanilton Encarnação da Mata, o Babá Pecê, babalorixá da Casa de Oxumarê, que pretende realizar uma edição do seminário na Nigéria.

“O Brasil é guardião da nossa cultura. O objetivo é conhecer como se dá a preservação aqui e trocar experiências com a matriz, estreitando os laços”, disse o representante da Embaixada da Nigéria, Misah Wale Akanni.

Para a ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Luiza Bairros, o evento visa criar mecanismos de preservação.

“É uma oportunidade de revisitar o que temos em comum e discutir o que pode ser feito para salvaguardar a herança que deve ser entendida como parte integrante da formação social, econômica e cultural do Brasil”, afirmou.


Balaio de Ideias: Vozes d´África

postado por Cleidiana Ramos @ 7:35 PM
26 de maio de 2014
Jaime Sodré analisa atuaçaõ de mulheres na política de países da África.  Foto:  Mila Cordeiro/ Ag. A TARDE/  09.11.2011

Jaime Sodré analisa a atuação de mulheres na política de países da África. Foto: Mila Cordeiro/ Ag. A TARDE/
09.11.2011

Jaime Sodré

A África clama por um novo olhar. Mulheres Africanas – A Rede Invisível é um filme de Carlos Nascimbeni que aborda cinco mulheres marcantes na história deste continente:

Luiza Diogo ressalta a presença feminina na definição da agenda nacional; Graça Machel, ex-ministra da Educação de Moçambique, destaca que a presença feminina já atingiu uma massa crítica, faltando visibilidade; Sara Masasi conta como saiu da invisibilidade na Tanzânia muçulmana como empresária de sucesso; Leymam Gbowee, Prêmio Nobel, atuante pela paz na guerra civil da Libéria; Nadine Gordimer, escritora, vencedora do Nobel, argumenta da impossibilidade de falar de uma cultura africana única.

Luiza Diogo, primeira-ministra entre 2004 e 2010, diz que a mulher luta principalmente pela segurança alimentar; o trabalho da mulher africana na zona rural é extremamente duro, “imagine uma mulher de vários braços”, comenta. Para Luiza, a mulher está a construir uma agenda do desenvolvimento do país, por isso investir nas mulheres é importante.

Graça Machel, ministra da Educação e Cultura entre 1975 e 1989 em Moçambique, chama a atenção para as transformações que as mulheres africanas têm revelado: “Já há uma massa crítica no ambiente das mulheres africanas, em particular as jovens, altamente qualificadas, que exercem funções de grande responsabilidade, mas não tem havido um sistema que lhes permita ter visibilidade”.

Sara Masasi, da Tanzânia, é líder empresarial e diz: “Quando se tem um negócio, você precisa pensar, porque você não quer perder”; deve-se desfilar na avenida do sucesso, a que não se chega sem planejar. “Adoro trabalhar, os desafios me tornaram a pessoa que sou” – era a única africana a frequentar  uma escola europeia. Atua no mercado de placas para automóveis.

Carmeliza Rosário é antropóloga de Moçambique e assim se manifesta: “Não creio que a humanidade tenha se desenvolvido sem a existência da mulher… são elas que ficam grávidas, geram os filhos”, mas chama a atenção de que todos são importantes de alguma maneira. Alega que é preciso ter respeito pela África, afinal “somos o berço da humanidade”.

Nadine Gordimer, da África do Sul, branca, com Prêmio Nobel de Literatura, ressalta que o continente africano é enorme, sendo impossível falar a respeito de uma cultura unificada, porém as mulheres desempenharam um papel subjetivo. Até os dias de hoje há problemas de lidar com pessoas que vendem suas filhas de 14 ou 15 anos para homens mais velhos. A mulher negra tem que lutar contra isso, conclama.

Para Graça Machel, nos últimos dez anos o continente africano fez progresso quanto ao acesso das “raparigas” à educação, muitas no primário, mas o desafio é a passagem do primário para o secundário, e ainda maior deste para o “terciário”. Lembra que existe uma grave evasão da terceira para a quarta, quando a comunidade acredita que a menina está pronta para casar. Ela afirma que as tradições não são estáticas e acredita em mudanças.

Leymam Gbowee é uma personagem carismática, nascida na Libéria, Prêmio Nobel da Paz. A guerra civil na Libéria matou cerca de 200 mil pessoas, foram cometidas atrocidades por soldados de ambos os lados, milhares fugiram e Gbowee viveu em campos de refugiados em Gana. De 1909 a 2003 foram os anos mais cruéis, grupos inteiros foram dizimados, mulheres estupradas e alguns soldados diziam que suas genitálias eram boas demais para violentar as mulheres, por isso usavam facões na genitália feminina.

Quando vieram as conversações de paz, elas tiveram grande esperança, mas as discussões giravam em torno de quem iria controlar as minas de diamantes. Em revolta Gbowee e suas amigas bloquearam a saída do prédio, o segurança quis prendê-la, mas ela ameaçou tirar a roupa e disse: “A minha nudez será em protesto contra a miséria”. Duas semanas depois o acordo de paz foi assinado.

Luiza Diogo afirmou que “o substrato do funcionamento deste continente está nas mãos das mulheres, é aquele ditado que diz: a mulher sustenta metade do céu… mas se um dia ela largar, tudo rui”. Que continuem a sustentar!

Jaime Sodré é religioso do Candomblé, professor universitário, mestre em História da Arte e doutorando pela Uneb


Balaio de Ideias: Compreender não é aceitar

postado por Cleidiana Ramos @ 8:26 PM
21 de maio de 2014
Mãe Stella lança novo livro. Foto: Margarida Neide/Ag. A TARDE/ 29.11.2012

Mãe Stella faz bela reflexão sobre religião. Foto: Margarida Neide/Ag. A TARDE/ 29.11.2012

Maria Stella de Azevedo Santos

Mais uma polêmica para que possamos refletir e dar um passo rumo a um estágio evolutivo elevado que ajude a construir uma sociedade harmônica e equilibrada. O noticiário televisivo deu a seguinte manchete: “Juiz não reconhece manifestações afro-brasileiras como religiões. A decisão gerou polêmica e surpreendeu líderes do candomblé e da umbanda e o Ministério Público Federal.” Sou uma líder do candomblé e confesso que eu não fiquei nem um pouco surpreendida.

Venho de um tempo em que a referida religião era perseguida pela polícia, em virtude de na época o Brasil ter uma religião oficial – o catolicismo. A atitude do juiz precisa ser compreendida, porém jamais pode ser aceita. Optei por não dizer seu nome, pois o nome de uma pessoa é tão sagrado que não deve ser pronunciado quando o dono dele comete atos impensados e infelizes.

Um belo e significativo ensinamento da Ordem Rosa Cruz diz: “Eu te compreendo, mas em nome do verdadeiro amor não posso aceitar.” Podemos compreender uma atitude que tem por base o preconceito, que é fruto da ignorância sobre o tema que o juiz ousou julgar. O ignorante é assim mesmo: é insolente, “grosseiro nos gestos, nas palavras ou nas ações.”

Não fiquei surpresa, fiquei indignada. Senti repulsa, não pelo cidadão em si, mas pelo seu ato vergonhoso. Quanto a meu irmão que praticou tal ato, verdadeiramente, senti pena e, consequentemente, desejo de ajudá-lo. Afinal, ele é meu irmão, somos filhos de uma única energia, que para o candomblé é chamada de Olorum – o Deus Supremo, que vive no céu (no orum), o qual se expandiu e Dele fez surgir todos os seres vivos que habitam a Terra.

Essa é uma explicação que dou para ajudar meu irmão a entender que as religiões de matriz africana têm, sim, um texto base no qual se baseiam para realizar seus rituais, mas principalmente para ajudar seus adeptos a se tornarem cidadãos “assentados” no bem e na verdade. Esse texto base nos ensina que não basta sentir pena. O Código de Ifá, conjunto de ensinamentos no qual se baseia o candomblé, ensina a seus adeptos que a ignorância precisa ser perdoada, compreendida, mas nunca aceita, e que cabe àquele que conhece os mistérios, instruir aqueles que não os conhecem. Obedecendo, portanto, às orientações dadas pelos seres superiores, esclareço a meu irmão alguns detalhes do candomblé sobre o qual ele demonstra não ter o conhecimento necessário para realizar um julgamento.

A religião trazida para o Brasil por um povo possuidor de dignidade e generosidade inigualáveis tem um texto base, o qual é inclusive codificado através de códigos matemáticos. Não podemos, nem devemos esquecer-nos que um texto, em seu sentido amplo, é um conjunto de palavras expressas de maneira oral ou escrita, que pode ser longo ou breve, antigo ou moderno. Preciso pacientemente repetir que o texto base do candomblé é o Código de Ifá, pois um educador é educado para ser paciente. E nós, sacerdotes de qualquer religião, somos educadores de almas. Explicando ainda mais um pouco, o Código de Ifá é um sistema longo e antigo, considerado axiomático por revelar verdades universalmente dignas e válidas, ditas de maneira simples para expressar a complexa realidade da vida.

Também pacientemente repito que o candomblé possui um Deus Supremo, sendo os orixás divindades que servem como intermediárias entre Olorum e os humanos. Quanto à hierarquia, este é um dos grandes e fortes pilares dessa religião milenar, tanto no que se refere ao mundo das divindades quanto à comunidade dos “terreiros”.

No mundo sagrado se tem: Olorum, orixás funfun (descendente direto do hálito do Deus Supremo), orixás vinculados ao ar, água, fogo e terra, seres humanos, animais, vegetais e minerais. Nas comunidades do candomblé a hierarquia está em tudo: nos cargos (iyalorixá, iyakekere egbomi, yaô, abian); no respeito à idade de nascimento do corpo (os “nossos mais velhos”) e à idade de nascimento, na Terra, da essência divina de cada um. Encerrarei este texto com um provérbio contido no Código de ifá: “O tempo pode ser longo, mas uma mentira não cai em esquecimento.”

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, ela escreve para o jornal A TARDE, sempre às quartas-feiras.


Parabéns, Mãe Stella!

postado por Cleidiana Ramos @ 11:39 AM
2 de maio de 2014
Mãe Stella faz reflexão sobre capacidade de estar aberto a aprender. Foto: Diego Mascarenhas / Ag. A TARDE/ 09.07.2010

Mãe Stella festeja aniversário, hoje. Foto: Diego Mascarenhas / Ag. A TARDE/ 09.07.2010

Hoje é um dia muito especial: aniversário de nascimento da Iyalorixá Mãe Stella de Oxóssi. E, lembrando a todos que gostariam de dar um presente para agradecer por sua dedicação à religião que tantos brasileiros professam, ela sonha em montar uma biblioteca itinerante com livros sobre religião. Portanto, quem pode ajudar até mesmo enviando energias para o projeto, mãos na massa. Vivas a Mãe Stella.


Jamais fomos ou seremos macacos

postado por Cleidiana Ramos @ 3:59 PM
29 de abril de 2014
Daniel Alves resolveu comer banana atirada por torcedor na Espanha. Foto: Frame/reprodução

Daniel Alves resolveu comer banana atirada por torcedor na Espanha. Foto: Frame/reprodução

Se você é negro no Brasil– que tem uma história profundamente ligada ao sequestro de milhões de africanos despejados aqui como escravos durante três séculos– não pode se calar diante dessa nova insanidade nacional de nos reduzir a macacos.

Não. Nós, negros, não somos macacos. Somos gente. E homens e mulheres, há séculos, têm empreendido uma luta em várias fentes para afirmar isso e enfrentar quem tenta, de várias formas, nos dizer o contrário.

É a nossa missão de cada dia, pois milhões dos nossos morrem e engrossam as estatísticas das mais variadas formas de violência; são os nossos que estão mais submetidos ao desemprego; nossas crianças são as mais vulneráveis a doenças e ao péssimo atendimento em saúde e educação.

Isso tudo acontece exatamente  porque no passado disseram que nossos tataravós, bisavós e, assim sucessivamente, não eram humanos, mas pouco mais que esse animal que todo mundo agora diz ser imaginando, de forma simplória, que é uma forma de solidariedade ao jogador Daniel Alves que foi vítima de racismo na Espanha.

Sem falar que a tal campanha “somos todos macacos” aparentemente solidária ao jogador tinha por trás uma estratégia de marketing que já vende até uma camisa de péssimo gosto.

Mas voltemos à história. Sabe por que o macaco? Porque ele é o mais próximo dos humanos. Ora, se aqueles africanos escravizados faziam coisas de “gente” então o máximo que eles podiam ser eram os símios capazes de “imitar” os humanos.  É escandaloso hoje, mas esse foi o discurso que se sedimentou durante séculos por meio das teorias racistas construídas para sustentar a escravidão nas Américas. E se isso foi difundido durante séculos não vai desaparecer do imaginário em um passe de mágica.

Não, nós não somos macacos. Somos humanos. E achar  bonitinho quem está dizendo que é macaco porque foi sua celebridade preferida que o fez ou imaginar que quem está indignado e fulo da vida com essa estratégia ridícula é um mal humorado ou recalcado é demonstrar ignorância da sua própria história.

Quando Portugal resolveu explorar o Brasil, no século XVI os africanos usados para mão-de-obra aqui não eram trabalhadores gentilmente convidados a deixar suas terras. Eles foram retirados de sua vida social e condenados a uma vida brutal em uma terra desconhecida. Isso se sobrevivessem a uma viagem tenobrosa.

Foi com base em muito sangue africano que fortunas foram construídas e cidades erguidas nessa terra que agora celebra o samba e outras heranças ironicamenta originadas na resistência desses povos escravizados.

Para que a agora nação brasileira fosse possível essa escravidão foi justificada com a ajuda de várias ideologias, inclusive a científica. Uma delas foi construída no rastro das teorias de Darwin.

Um dos meios foi aplicar aos humanos a escala de evolução das espécies. Assim o topo era ocupado pelos caucasianos, ou seja, o biótipo dos dominadores europeus; os amarelos eram considerados inteligentes, mas avarentos com os quais se devia ter cuidado; os indígenas tinham até alma, mas eram cabeças de vento que mereciam tutela em tempo integral; e os de pele escura, que vinham de determinadas partes da África, eram um pouco mais que os macacos, pois pelo menos falavam.

Isso não é invenção, mas a história do chamado racismo científico que teve outros desdobramentos como as teses lombrosianas seguidas por Nina Rodrigues, um dos papas da medicina legal brasileira. Essa última proclamava os negros como mais propensos ao crime e a patologias mentais por apresentarem determinadas caracerísticas físicas como o formato do rosto e, claro, cor da pele. Eram uma espécie degenerada, segundo esse pensamento.

E tudo isso  foi apenas uma parte do jogo de se comparar negros a animais. Tratou-se de tirar a sua humanidade e assim os reduzirem facilmente ao status de coisas que podiam ser vendidas e submetidas ao que desejassem seus proprietários. Portanto, nós, negros, só podemos ficar indignados ao ver a banalização de algo que nos causou e causa tanto sofrimento.

Nesse país que ainda se debate para tentar consertar de alguma forma as cicatrizes profundas que o racismo ainda produz não dá para brincar com ele. Se somos tão conscientes de que já o superamos,  porque as celebridades, inclusive, as de pele clara, não apareceram em suas redes sociais dizendo “somos todos negros” ou “somos todos descendentes de africanos”?

A resposta: assumir que somos macaquinhos é bem mais fácil. Fica ainda mais viável para gente  que nunca soube o que é ser vítima do racismo ou faz de conta que não entende quando ele se materializa, inclusive do ponto de vista simbólico. Não é Neymar Jr,?


Balaio de Ideias: Uma crônica para Marlon Marcos: neo-cronista do candomblé

postado por Cleidiana Ramos @ 2:13 PM
24 de abril de 2014
Lançamento de Sob a Égide das Águas será amanhã, das 18h30 às 21 horas, na Katuka (Praça da Sé, Edifício Themis)

Lançamento de Sob a Égide das Águas será amanhã, das 18h30 às 21 horas, na Katuka. Foto: Divulgação

Cláudio Luiz Pereira

É com júbilo imenso que recebi e li o livro Sob a égide das águas (Editora Kawo Kabiyesile, 2014) de Marlon Marcos Vieira Passos. Posso dizer a propósito do autor que é um homem único e, ao mesmo tempo, paradoxalmente múltiplo. Aqui e acolá, ele está em trânsito entre muitos mundos. Está sempre entre as coisas, é um elo, é ele o “e” do vai-e-vem. E sim, ele trafega o mundo da poesia, do jornalismo, da antropologia. E, como não, o mundo do candomblé, que é aquilo lhes dá força e equilíbrio, e onde ele encontra achego, afetos e aconchegos.

Como poeta suas virtudes são muitas e extraordinárias. Como bom prestidigitador seria capaz de erigir a água de um copo em uma tempestade intempestiva, ao que se seguiria uma carreada de raios e trovões verbais. Típico daqueles que tem uma opinião forte frente a tudo, e frente a qualquer coisa. No seu entre mundo a oralidade não é uma qualidade anódina. Mas sua poesia está escrita, também publicada amiúde, e é reveladora da sua veia espirituosa e, mais que isto, de sua espiritualidade. Na sua poesia ele aparece na completa nudez daqueles que só precisam do abrigo das palavras.

Como jornalista é um participativo contribuinte da crítica da cultura baiana. É defensor de suas devoções intimas. Gosta do velho, mas com o novo se compraz. Mas não é justamente o novo e o velho que separam a qualidade da circunstância em que ele se insere. Ele sempre está presente, seja lá onde for, seja a hora que der, seja como tiver de ser. Ele está tanto no espetáculo Cult, de algum artista quase subterrâneo, quanto no camarim do mais charmoso e chique dos mais cultuados dos mortais…

Como antropólogo é um aprendiz de feiticeiro. E a esta altura dos fatos ele, tão claramente quanto o Quesalid Lévi-straussiano, já sabe quão valioso e  mágico é este conhecimento que ele retém. Querer ser antropólogo é um encanto raro, que só toca profundo naqueles que são capazes da renúncia e da entrega como proezas. A verdadeira antropologia, sabe Marlon Marcos, é intestina e visceral, é uma espécie de embriaguez dilacerante, discursiva e textual, é uma obsessão sem cura, um eterno abismar-se consigo mesmo. Ao discernir algo em torno desta soberba abstração do que é o humano, nos explicamos a nós mesmos, mais que tudo.

*

Acredito que algumas palavras mais podem ser ditas para realçar a importância do livro que no momento Marlon Marcos disponibiliza para seus leitores. Em primeiro lugar é preciso notar que o autor reúne boa parte de seus escritos jornalísticos dedicado ao candomblé e, como tal, demonstra aqui quão informado ele está nos temas e problemas concernente a esta religião. Neste sentido, é preciso notar que são textos públicos, veiculados por importante jornal baiano – A TARDE, e que se traduzem em diálogo com o campo onde ele desenvolve suas pesquisas antropológicas. São crônicas, conforme o próprio autor esclarece, e, como tais, articulam o jornalismo e a poesia, e também a antropologia, que a esta altura tornou-se seu mister preferencial.

Sabemos que o autor está credenciado para sua obra. Está possuído, portanto, deste ímpeto que permite ver esta religião de um ponto de vista êmico, interno, intrínseco. Ele vê o que o candomblé tem de mais vibrante (a experiência do êxtase, da devoção, do axé, tudo que se resguarda na contingência dos segredos, dos interditos, do indizível) e, também, o que nele há de mais prosaico.

Assim sendo, tece o fio da memória dos cultos, das narrativas e das estórias, das trajetórias e dos itinerários, das famas, das lidas e das vidas. Faz mesura diante da lembrança dos que se foram e se posta diante da presença dos que cá estão. Escrevendo sobre eles o autor sabe que servirá de semente aos tantos que virão.

É assim, com esta incrível sensibilidade, que Marlon Marcos trata das mulheres que povoam este universo afro-brasileiro. São todas divas, divindades, entidades, deidades. Chamam-se Marias, ou Stelas, ou Zulmiras, ou Carmélias, ou Luizas e a suas designações de batismo se incorporam seus nomes de santo. São de Nanã, de Oxaguian, de Oxóssi… Todas elas mães guerreiras… mães de todo mundo, mães de uma humanidade que delas tanto carece.

E, mais que isto, o que se vê no livro, é o passar dos anos, entre 2007 e 2013, e tudo que vai acontecendo ao povo de santo. As mortes e os passamentos, a religião como fato da polis, as muitas dinâmicas com que o tempo corre e tudo devora. Escreve sobre as diversas nações, e as ações dos homens, também diversas. Através destes homens ele vislumbra os sonhos, as festas, as celebrações, as conquistas, os embates. E, como não, os debates que ele tanto acompanha quanto participa com interesse entusiasmado.

Conclusivamente, enquanto crônicas, os textos de Sob a égide das águas falam sempre de um tempo presente, e, desse modo, falam também de tudo que permanecerá eterno no mundo do Candomblé, para todo o sempre, e sempre… Axé, Marlon Marcos!

Cláudio Luiz Pereira é doutor em antropologia e diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia da Ufba

Serviço
Evento:  Lançamento do livro Sob a égide das águas, escritos jornalísticos sobre candomblé
Autor: Marlon Marcos
Editora: Kawo- Kabiyesile
Dia: 25 de abril, das 18:30  às 21 horas
Local: Katuka- mercado negro// 71 – 3321-0151
Preço sugerido: $ 20,00


Histórias de ebomi Cidália Soledade

postado por Cleidiana Ramos @ 11:17 AM
11 de abril de 2014
Hoje tem lançamento de livro sobre ebomi Cidália. Foto: Rejane Carneiro/Ag.A TARDE/ 19.10.2007

Hoje tem lançamento de livro sobre ebomi Cidália. Foto: Rejane Carneiro/Ag.A TARDE/
19.10.2007

Hoje, às 18 horas, no Terreiro Casa Branca, será lançado o livro Ebomi Cidália: a enciclopédia do candomblé – 80 anos. A publicação é assinada por mim e pelo historiador, designer, músico e religoiso do candomblé Jaime Sodré.  Ela é resultado de uma entrevista coletiva com a sacerdotisa feita por um grupo de jornalistas formado, além de mim, por Marlon Marcos, Meire Oliveira e Juliana Dias.

Conheci ebomi Cidália em 2006, quando o professor Jaime Sodré disse que tinha um presente de final de ano para mim.  A surpresa era me apresentar a ela, sacerdotisa do Ilê Iyá Omi Axé Iyamassê, mais conhecido como Gantois, consagrada ao orixá Iroko, aos 7 anos por Mãe Menininha.

Na primeira conversa já entendi porque a apresentação foi descrita como presente. Ebomi Cidália foi uma das pessoas mais fantásticas que já conheci até hoje.

Maestria
Até a sua passagem para o orum (o mundo sobrenatural no candomblé)  em 20 de março de 2012, mantive o hábito de visitá-la não apenas para entrevistas. Conversar com ela era aprender sobre cultura e religiosidade afro-brasileira e também sobre a vida.

Ebomi Cidália, leitora assídua de A TARDE,  foi uma mestra da oralidade. Aliás, usando um conceito explicado pelo doutor em antropologia da Ufba Ordep Serra, ela fazia “oralitura”, pois suas narrativas conseguiam hipnotizar as mais variadas plateias, além de vir recheadas de poesia, música e outros recursos.

“Por isso no livro buscamos manter uma transcrição o mais próxima possível de como era conversar com ela em um amostra do que foi o encontro realizado, além dos jornalistas, com vários dos seus amigos no Terreiro Oxumaré”, aponta Jaime Sodré.

Matéria publicada na edição de hoje do Caderno 2+ do jornal A TARDE/ Reprodução

Matéria publicada na edição de hoje do Caderno 2+ do jornal A TARDE/ Reprodução

Selo
O livro foi viabilizado pela Secretaria Estadual de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi). De acordo com Sodré, ele é um pedido da criação de  um selo para a memória das comunidades afro-brasileiras, proposta que foi entendida e executada como possível pelo ex-secretário da pasta, Elias Sampaio.

“Tentamos de vários formas fazer a publicação via editais e não conseguimos. Portanto, recorri ao titular da Sepromi que, dentro das suas possiblidades, teve a sensibilidade para entender a importância de um projeto como esse”.

O projeto também contou com o apoio da designer Lúcia Oliveira, da arte-educadora Mônica Silva e da Empresa Gráfica da Bahia (Egba).

No lançamento é necessário o uso do traje branco numa reverência a Oxalá, que, como dizia ebomi Cidália, é cultuado de um  modo muito próprio no Brasil. Segundo ela, o jeito merece respeito, afinal resistiu a obstáculos iniciados com uma travessia do Atlântico.


Livro traz histórias de Ebomi Cidália de Iroko

postado por Cleidiana Ramos @ 7:13 PM
7 de abril de 2014
Livro traz biografia de Ebomi Cidália. Foto: Thiago Teixeira / Ag. A TARDE/ 17.06.2010

Livro traz biografia de Ebomi Cidália. Foto: Thiago Teixeira / Ag. A TARDE/ 17.06.2010

Na próxima, sexta-feira, dia 11, a partir das 18 horas, no terreiro Casa Branca (Avenida Vasco da Gama) acontecerá o lançamento do livro Ebomi Cidália-A Enciclopédia do Candomblé- 80 anos. O livro é uma grande homenagem à sacerdotisa do Ilê Axé Iyamassê (Terreiro do Gantois). Por sua imensa sabedoria ela ganhou o título de “Enciclopédia do Candomblé”, dado pelo professor Jaime Sodré que assina a publicação em conjunto comigo.

O texto é resultado de uma entrevista que foi feita com Ebomi Cidália no Terreiro Oxumarê. Além de mim, participaram da entrevista os jornalistas Marlon Marcos, Meire Oliveira e Juliana Dias. Foi um dia inesquecível e uma experiência fantástica  ouvir as histórias de uma persongaem que dedicou a vida ao candomblé, religião que abraçou aos 7 anos quando foi consagrada a Iroko por Mãe Menininha.

Dona da maestria no uso da oralidade, Ebomi Cidália era extremamente carismática e viveu cercada dos amigos que conquistava com seu carisma impessionante. A iniciativa tem o apoio da Secretaria Estadual de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi). Para participar do lançamento é necessário usar traje branco.


Das teorias de Nina Rodrigues à bárbarie contra Claudia da Silva Ferreira

postado por Cleidiana Ramos @ 12:41 PM
19 de março de 2014

Filhos mostram farda da mãe trabalhadora que foi baleada e teve o corpo arrastado por uma viatura policial. Foto:  Carlos Moraes/Ag. O Dia/Estadão Conteúdo

Filhos mostram farda da mãe trabalhadora que foi baleada e teve o corpo arrastado por uma viatura policial. Foto: Carlos Moraes/Ag. O Dia/Estadão Conteúdo

Perto do final do século XIX, da Faculdade de Medicina da Bahia, que funcionava naquele imponente prédio situado ainda hoje no Terreiro de Jesus, saiam os estudos que praticamente fundamentaram a prática da Polícia Científica. O autor era o professor Nina Rodrigues, maranhense e discípulo de um italiano chamado Lombroso.

Lombroso defendia que características físicas como formato do nariz, do queixo e tamanho do cerébro interferiam em virtudes e defeitos morais. Nina via nos negros os traços físicos que davam uma predisposição para seguir o caminho do crime e até reivindicou que existissem dois códigos penais: um para negros e outros para brancos.

Hoje pode parecer absurdo, mas teoria científica elaborada dentro de uma instituição de prestígio não é algo que se apaga tão facilmente. Afirmação científica carrega consigo o status de algo verdadeiro, comprovado e, portanto, que merece ser defendido até a exaustão. Quantos membros da polícia tanto civil como militar receberam formação com base nesse pensamento e as transmitiram com uma ou outra modificação, mas sem perder sua essência?

O que tudo isso tem a ver com esses dois jovens e a criança da foto aí acima? Não é preciso fazer uma equação muito difícil para imaginar o estrago que as teorias racistas disseminadas pelas academias de policia Brasil afora fizeram e fazem no campo da segurança pública. De subordinados, inclusive negros, a chefes, mesmo que não assumam, predomina o pensamento de que o crime tem sempre o preto como cor da pele.

O Brasil não pode ficar calado diante da barbárie que matou Claudia da Silva Ferreira,   mãe desses meninos da imagem acima. Depois de baleada quando saía para comprar pão,  Claudia foi jogada no porta-malas de uma viatura policial e arrastada por cerca de 250 metros. Chegou ao hospital morta e o seu corpo dilacerado.

O monstro do racismo sempre esteve no ataque, mas parece que nesse começo de 2014 resolveu mostrar sua força em dobro. Só no futebol foram quatro episódios em apenas duas semanas. O Brasil precisa combater o preconceito de ter preconceito racial, como dizia Florestan Fernandes.

Esse país necessita, tanto como Estado como sociedade civil, reconhecer-se  como racista o mais rápido possível, pois é do silêncio sobre o racismo ou considerá-lo fantasia de radicais que ele tem se alimentado e ficado cada vez pior.


Estudo revela força poética da obra de Abdias Nascimento

postado por Cleidiana Ramos @ 1:01 PM
13 de março de 2014
Dentre a vasta obra de Abdias Nascimento, o livro Axés do Sangue e da Esperança-Orikis é o único de poesia. Foto: Xando Pereira/Ag A TARDE/13.11.2002

Dentre a vasta obra de Abdias Nascimento, o livro Axés do Sangue e da Esperança-Orikis é o único de poesia. Foto: Xando Pereira/Ag A TARDE/13.11.2002

Lindinalva Barbosa é autora de As Encruzilhadas, o ferro e o espelho, estudo sobre a obra poética de Abdias. Foto: Lúcio Távora/Ag. A TARDE

Lindinalva Barbosa é autora de As encruzilhadas, o ferro e o espelho, estudo sobre a obra poética de Abdias. Foto: Lúcio Távora/Ag. A TARDE

Para quem não conseguiu ler no formato de imagem, texto sobre estudo da obra poética do grande Abdias, que tem centenário de nascimento comemorado amanhã. 

Cleidiana Ramos

Intelectual multifacetado, Abdias Nascimento (1914-2011) nasceu em 14 de março,  Dia da Poesia. A data foi escolhida para festejar esse gênero literário por conta do  aniversário de Castro Alves. Curiosamente, também é o  dia em que a escritora Carolina de Jesus nasceu.  Os três produziram uma arte saída da vivência ou da aproximação (no caso de Castro Alves) com o  universo negro. Embora pouca gente saiba, Abdias publicou Axés do Sangue e da Esperança-Orikis, único livro de poesias da sua vasta obra.

A surpresa de muitos quando se deparam com o livro, publicado em 1983, é por conta da imagem do combatente aguerrido de Abdias que, por vezes, acaba ofuscando a sua imensa sensibilidade.
“O  senso comum tem uma noção de  poesia como algo que está apenas  no campo do lirismo. É como se as posturas mais aguerridas e mais duras estivessem  distanciadas desse campo”, explica Lindinalva Barbosa, autora da dissertação As Encruzilhadas, o Ferro e o Espelho .

A pesquisa que resultou no texto apresentado para a obtenção do seu título de mestre em Estudo de Linguagens pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb) mostra as formas artísticas e discursivas do livro com característica diferenciada dentre a obra literária de Abdias.
Lindinalva conta que tomou contato com o livro em 1986, período inicial da sua trajetória como militante do Movimento Negro Unificado (MNU).

De acordo com ela, embora o livro  traga poesia, ele reflete o espírito mais geral da produção de Abdias.

Luta e religião

“A obra de Abdias está inserida no campo da  literatura negra, conceito que uso. Esse tipo de literatura traz a mensagem capaz de comunicar a luta cotidiana que é travada contra o racismo”, acrescenta.

A religião afro-brasileira é a base dos poemas reunidos no livro. O título escolhido por Lindinalva faz referência aos três orixás que dominam a obra: Exu, Ogum e Oxum.

Exu é o senhor das encruzilhadas, ou seja, dos  vários caminhos que se encontram e exigem decisões; Ogum é o dono da tecnologia e arte de retirar do ferro os variados objetos, inclusive as armas; Oxum é a dona da fertilidade e da luta que combina paciência e inteligência.

“Em uma entrevista que fiz com Abdias, ele chegou a me dizer que Exu era o patrono da sua ação política, como aquele que não se conforma com  as situações que o racismo coloca e que entra e sai de encruzilhadas. Abdias era assim”, diz.

“Ogum prepara as armas e Abdias sempre disse que tudo o que fazia era  ferramenta para a luta contra o racismo;  Oxum é o orixá votivo de Abdias, que, de certa forma, contrabalançava seu espírito bélico, pois ela também é bélica, mas de uma forma mais maleável, engenhosa e sinuosa como as águas”, completa a pesquisadora.

O encontro de Abdias com as religiões afro-brasileiras aconteceu  na década de 1930, no terreiro de Joãozinho da Goméia, no Rio de Janeiro.

“Em uma de suas biografias, ele coloca que o  momento em que deu conta de si enquanto sujeito negro de uma forma mais plena e decisiva foi quando se aproximou do universo afro religioso”, afirma Lindinalva.

Uma amostra dessa arte pessoal e engajada é um dos trechos do poema intitulado Mucama-mor das estrelas: Não direi que isto é poesia/ talvez lembranças fantasia/ quem sabe murmurar de sonhos/ testemunho ou biografia.

O trabalho de Lindinalva Barbosa ainda não foi publicado em livro, mas pode ser conferido tanto no site do Programa de Pós Graduação em Estudo de Linguagens da Uneb, como no site do Ipeafro, que reúne produções sobre Abdias.


Lições da narrativa de Solomon

postado por Cleidiana Ramos @ 8:43 PM
10 de março de 2014
Capa do livro que traz a biografia de Solomon Northup. Foto: Divulgação

Capa do livro que traz a biografia de Solomon Northup. Foto: Divulgação

De cinema como técnica e linguagem artística não entendo absolutamente nada. Os poucos filmes que vi até hoje me seduziram no plano mais intuitivo mesmo. Com a literatura minha relação é mais próxima, embora minha escolha sempre recaia em livros que me façam viajar para outras épocas e mundos e me levem a rir, sentir raiva em determinados trechos, chorar ou ficar com uma saudade imensa do personagem quando chego ao fim da última página. Tudo isso é para dizer um pouco da minha sensação após ter lido 12 anos de escravidão, o relato biográfico de Solomon Northup que deu nome ao filme  ganhador em categorias dos prêmios de prestígio como Oscar e Globo de Ouro.

Ganhei o livro de presente da colega em A TARDE, Regina de Sá, depois de comentar com ela que fui ver e gostei do filme, primeiro passo para uma matéria que precisava fazer. O filme é impactante não apenas pelo que diz de forma explícita, mas pelas nuances. Está lá, nas entrelinhas, mas não menos eloquente, a violência da escravidão em sua vileza crua e detalhista atingindo em níveis diferentes e  impactantes também crianças e mulheres.

Ele também aborda a perda da humanidade à beira da patologia de quem estava em cada peça de comando do sistema. Afinal, o que fica de humano em alguém que engana e sequestra um homem ou mulher para condená-lo ao trabalho forçado? Onde está a humanidade de alguém, que considera o outro algo que pode ser espancado, queimado, amarrado e violentado das mais diversas formas? O cinema tem o recurso da imagem, que torna tudo ainda mais forte.

É exatamente por isso que o livro me impressionou mais ainda. A narrativa feita em primeira pessoa por Solomon Northup é objetiva, descritva nas paisagens e até econômica nas emoções, mas é daquelas capazes de atingir o fundo da alma. Não há como ficar indiferente a um relato feito por alguém que viveu aquele horror de forma real. O drama de Solomon não é ficção, mas um relato de alguém de carne e osso que viveu os extremos de uma experiência humana.

Em pouco mais de 200 páginas, o horror de um sistema que vitimou mulheres e homens livres de variadas partes da África, arrasou civilizações e dispersou povos inteiros para terras que nem sequer imaginavam conhecer, além de escravizar seus descendentes, ganha cores, formas e concretude. Torna-se, no mínimo incômodo, conhecer detalhes de como seres humanos foram tranquilamente submetidos à bárbarie e encarados como nada por tantos que levavam a consciência do ápice do que é ser gente.

Solomon Northup rasga o véu que a passagem do tempo pode estender sobre o entendimento do que foi esse horror e nos ajuda a entender porque questões como o racismo continuam tão presentes até em algo tão lúdico como deveria ser o futebol. Por que será que ainda, hoje, não é difícil encontrar gente que acha legal contar uma piada que compara negros a macacos ou que considera discussão sobre racismo coisa de gente que gosta de confusão?

Que bom que o filme e  livro vão ser usados como ferramenta didática nas escolas americanas.Seria ótimo que histórias como a de Luiz Gama, conhecida e recontada em várias obras literárias fossem mais abordadas no Brasil. Li recentemente que ela vai chegar à TV pela parceria de Ana Maria Gonçalves,autora do fabuloso livro Defeito de Cor, e Fernando Meireles.

Mas, além de Gama tem outras figuras como Manoel Grave, cuja história vem sendo remontada pela pesquisadora do curso de história da Ufba, Cida Gonzaga, que, gentilmente, me relatou em detalhes para a matéria que saiu na edição do último dia 2. (Inclusive, aproveito para pedir desculpas a Cida, pois na nossa conversa por telefone entendi o sobrenome como “Graze” e é “Grave”).

Quem sabe com mais produção artística capaz de não apenas narrar, mas problematizar a questão da escravidão em aspectos que andem além do já conhecido as pessoas comecem a entender que questão racial não é assunto que se resolve numa conversa trival na roda de amigos ou com o sentimento de quem entende como “a cultura negra é linda!”

Por isso, ao  ver o sucesso de obras como o livro e o filme sobre Solomon Northup prefiro me deixar levar bem mais pela emoção do que entrar em discussões sobre tecnicidade ou armadilhas de indústria cultural.

Digo isso porque essas duas obras conseguiram reavivar o sentimento, que já carrego, de responsabilidade com meus ancestrais negros. Foi a sua firmeza e coragem para descobrir estratégias de resistência às várias brutalidades– que lhes infligiram com o silêncio e o apoio de religiões, Estado, governos e homens e mulheres de boa fé– que me trouxeram até aqui para que possa, no mínimo, a cada dia, fazer uma prece agradecida e reconhecida em sua memória.

Em tempo: no Brasil, o livro foi publicado pela Editora Seoman e custa em média R$ 19. Tem 232 páginas.


Balaio de Ideias: Uma ressaca de alegria

postado por Cleidiana Ramos @ 2:54 PM
5 de março de 2014

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Maria Stella de Azevedo Santos

Quarta-feira de Cinzas”, dia de ressaca. O mar fica de ressaca quando a onda arrebenta nas pedras e recua sobre si mesma. O ser humano fica de ressaca quando após ingestão de grande quantidade de bebida alcoólica termina por sentir um grande mal estar. Eu espero que a ressaca que os foliões do carnaval estejam sentindo hoje seja aquela causada apenas por excesso de alegria. Pois é, até a alegria, quando é excessiva, deixa um gosto amargo na boca quando acaba. Um gosto de saudade que chega a causar dor: “a saudade é dor pungente”, é dor que dói. Afinal, a palavra ressaca tem origem na palavra norueguesa kveis, que significa “mal-estar depois da orgia”, acho que em nossa língua é melhor dizer: mal-estar depois da farra.

A bebida é um estimulante. É por isso que em um dos rituais do candomblé se canta: Oti wa ti xô fê rê, querendo dizer que a bebida nos anima, ela nos encoraja a encarar os dias difíceis de maneira renovada. Entretanto, “como tudo demais é sobra”, a bebida, a comida e até a alegria não deve ser vivida em excesso. Oti é a palavra yorubá que é usada para qualquer bebida que embriague a mente. As religiões, em sua maioria, não são contra as bebidas, e sim ao uso excessivo delas.

Nos rituais do candomblé, as bebidas que embriagam devem ser usadas de maneira comedida, com o intuito maior de despertar a alegria. Essa religião se utiliza de bebidas profanas e sagradas. O champagne e vinho do ritual de bori, a cachaça e vinho do ritual de axexe e a cachaça de Exu são consideradas profanas porque não foram preparadas em ambientes divinizados, nem foram preparadas por sacerdotes consagrados. A bebida sagrada do candomblé é o aluá, uma bebida fermentada que é oferecida aos deuses e homens com o objetivo de aumentar o axé de quem a ingere, seja de maneira concreta (humanos) ou simbólica (divindades).

O aluá é uma bebida fermentada tipicamente brasileira, uma vez que tem relação com os índios, os portugueses e os africanos. No Brasil do 1º Império era moda servir aluá na corte de D. Pedro I. Em Portugal, era uma bebida feita do bagaço da uva, por isto conhecida como bagaceira. Os índios da Amazônia faziam uma bebida com abacaxi que ficava durante três noites fermentando ao luar, razão pela qual o folclorista Luís da Câmara Cascudo sugere ser o nome aluá uma corruptela de “ao luar”.

Na verdade, aluá é uma palavra yorubá (lú, em yorubá, significa misturar) que é usada em um ritual onde se movimenta e mistura a água com a bebida aluá, visando agitar o que está parado, a fim de que a purificação seja favorecida e que o que está velho possa ser renovado através do movimento.

Esse ensinamento nos é transmitido através dos cânticos do Ritual das Folhas, mostrando para os sacerdotes do candomblé a importância de eles conhecerem a língua religiosa que fazem uso, assim como a simbologia dos elementos usados em todos os atos ritualísticos. O aluá que herdamos dos africanos, por exemplo, é feito de raspadura, milho branco e gengibre. O doce normalmente chamada de rapadura é um dos subprodutos da cana-de-açúcar (Ikesen), cujo nome correto é raspadura, pois esta espécie de doce é feita das raspas das crostas do açúcar da cana que ficam presas às paredes dos tachos.

A palavra yorubá que designa o gengibre é atale, planta que tem o poder de aquecer e iluminar, dando-nos alegria. O milho branco, relacionado aos orixá do branco, indica ainda paz, suavidade e proteção dos seres superiores. O aluá é uma bebida fermentada, por isto seus ingredientes aumentam o axé de doçura, através do açúcar feito de cana (raspadura); o axé de alegria, que é transmitido pelo gengibre; o axé de tranquilidade fornecido pelo milho branco.

Boa “Quarta-feira de Cinzas”, boa ressaca, palavra que na língua yorubá é ìbilù-oti. Interessante entender que ìbi é infortúnio, mal estar; lù é mistura e ìbilù significa multidão, o que indica que muita gente junta pode causar ressaca e mal estar. É por isso que digo que três pessoas para mim já é multidão e muita alma junta se perde. Se essa ideia é necessária para qualquer pessoa, para os iniciados ela é ainda mais.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, ela escreve para o jornal A TARDE, sempre às quartas-feiras.


Balaio de Ideias: De grão em grão…

postado por Cleidiana Ramos @ 7:20 PM
28 de fevereiro de 2014

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Maria Stella de Azevedo Santos

O artigo anterior, intitulado “Sucateiro, sucateiro”, foi construído através de uma mistura entre realidade e fantasia. Para minha surpresa não foram poucos os e-mails que recebi tecendo comentários sobre o referido artigo. Uns falavam com saudosismo sobre os antigos vendedores que caminhavam pelas ruas exaltando suas mercadorias; outros diziam o quanto sorriram naquele dia ao lembrar o texto; já muitos outros comentavam sobre a relação entre sonhos e ilusões.

Fiquei espantada com a surpresa que alguns leitores tiveram ao saber que eu ainda tinha sonhos. Transformei esse fato em um bom motivo para reflexão. Quando o corpo não nos dá condição de fazer uma boa faxina em uma casa, aproveita-se a cabeça para faxinar a alma e o espírito.

Por que será que algumas pessoas puderam pensar que eu não tenho mais sonhos? – perguntei-me. Achavam eles que eu já tinha conquistado tudo o que eu queria? Pensavam que o mundo já estava tão chato para mim, tão repetitivo, que eu mais nada queria?

Como não posso concluir o pensamento dos outros, não encontrei resposta para minhas indagações, mas espantei-me com a quantidade de sonhos (concretizáveis) que ainda guardo em meu interior.

Uma das proibições que nós recebemos enquanto iniciados no candomblé é ficar sentado com a mão segurando o queixo. O aprendizado embutido neste tabu é de que não devemos ficar apenas no mundo das ideias, devemos partir para a ação. Sendo assim, compartilharei com todos um dos muitos sonhos que ainda pretendo concretizar.

Todos os religiosos que sejam convictos de sua função na Terra, principalmente aqueles que são consagrados para o sacerdócio, têm consciência de que precisam fazer duas coisas aparentemente simples, mas que são complicadíssimas em seus fundamentos: dar e pedir. É a famosa lei universal da troca que insisto em repetir em muito do que escrevo na esperança que fixe de vez em meu coração, e que penetre nos corações daqueles que ainda não atentaram em cumprir tão importante lei.

A religiosa baiana Irmã Dulce foi um exemplo de cumprimento da lei em questão. Sua capacidade de doação é facilmente identificada através de suas obras, mas acredito que poucos conhecem o quanto ela precisou fazer uso da humildade para pedir o que necessitava, a fim de que seus sonhos se concretizassem. Quando crianças estudamos no mesmo colégio, assim pudemos acompanhar mesmo de longe a vida sacerdotal uma da outra. Eu sabia, por exemplo, que quando faltava algo que Irmã Dulce necessitava para ajudar aos menos favorecidos, ela simplesmente entrava em uma loja e pedia ao vendedor aquilo que precisava, carregava com suas próprias mãos e se despedia alegremente dizendo: “Deus lhe pague”.

Inspirando-me no exemplo que nos foi dado por Irmã Dulce, concluo este artigo revelando um de meus maiores sonhos que pretendo vê-lo concretizado estando eu ainda viva. Tenho a certeza que “sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só. Mas sonho que se sonha junto é realidade”. Por isso, busco em mim a humildade que me foi proporcionada pela vida religiosa para pedir, pedir muito, a ajuda de todos que, preocupados com a violência que aumenta cada dia mais, vejam no estímulo à busca por uma maior espiritualidade uma das saídas (mesmo sendo em longo prazo) para a diminuição de tanta agressividade.

Revelo agora meu sonho acompanhado dos pedidos que faço para os amigos e os amigos de meus amigos, no sentido de que eles usem a web como uma grande rede de pescar benefícios coletivos: gostaria de construir uma biblioteca ambulante, composta por livros voltados para o despertar da religiosidade inerente ao ser humano. Preciso de um ônibus que venha a ser adaptado.

Peço a ajuda de pessoas físicas, empresas particulares, governamentais, enfim, peço ajuda aos homens e mulheres de boa vontade, que sabem que não basta apenas reclamar, nem apenas sonhar, tem que concretizar. Sendo assim, espero agora receber muitos e-mails com oferecimento de ajuda (não importando a forma nem o valor a ser oferecido), para que eu possa dizer, parafraseando Irmã Dulce: Que os orixás lhes paguem com bênçãos de todos os tipos.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, ela escreve para o jornal A TARDE, sempre às quartas-feiras


Força Tinga!

postado por Cleidiana Ramos @ 7:06 PM
13 de fevereiro de 2014
Tinga é mais uma vítima do racismo no mundo do futebol. Episódio ocorreu no jogo de ontem, no Peru, entre Cruzeiro e Real Garcilazo Foto: Karel Navarro

Tinga é mais uma vítima do racismo no mundo do futebol. Episódio ocorreu no jogo de ontem, no Peru, entre Cruzeiro e Real Garcilazo Foto: Karel Navarro

Foto: reprodução

Foto: reprodução

Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

O país está indignado, a CBF mudou as cores da sua logomarca para preto e branco, mas o episódio Tinga vem lembrar mais uma vez que o mundo do futebol precisar parar de fazer de conta que o racismo não existe. Só para lembrar: não foi à toa que tratamos desse tema no nosso especial do 20 de novembro de 2013.


Feliz 2014 com um abraço afro-brasileiro!

postado por Cleidiana Ramos @ 4:25 PM
31 de dezembro de 2013

 

Foto: Arestides Baptista / Ag A TARDE/ 28.08.2010

Foto: Arestides Baptista / Ag A TARDE/ 28.08.2010

Um 2014 recheado das boas energias trazidas pelas forças do bem! Axé!


Mais um livro, mais um presente

postado por Cleidiana Ramos @ 1:11 PM
18 de dezembro de 2013
Mãe Stella lança novo livro hoje, quarta, na ALB. Foto: Margarida Neide. 07/12/2012

Mãe Stella lança novo livro hoje, quarta, na ALB. Foto: Margarida Neide. 07/12/2012

Maria Stella de Azevedo Santos

Foi assim que meus filhos escreveram no início do convite para o lançamento do próximo livro que estarei entregando ao público. Se permitir que a colocação da referida chamada fosse colocada, foi porque, na verdade, considero que editar mais um livro é, sim, um grande presente. Um grande presente para mim! Afinal, livros nos conectam uns aos outros, fazendo com que eu possa estar presente na vida de pessoas que nunca sonhei em trocar ideias.

Além do mais, continuar devolvendo ao mundo o que recebi dele faz com eu me mantenha presente no momento presente. Meu tempo será sempre o agora! Se escolho, geralmente, o mês de dezembro para lançar os livros que escrevo é exatamente porque neste período o desejo de conexão fica intensificado.

Sendo assim, convido a todos para estarem comigo hoje, quarta-feira, 18 de dezembro, na Academia de Letras da Bahia, para juntos celebrarmos o destino, tema sobre o qual trata a Coleção Odu Adajó: Coleção de Destinos, que pretende ser composta por 16 volumes.

A Coleção Odu Adajó tem a pretensão de ampliar e aprofundar os conhecimentos sobre o legado da cultura yorubá, que hoje é entendida por quem nos visita como cultura baiana. Por que, então, o povo da Bahia/Brasil estuda tanto a mitologia dos deuses gregos e romanos e não estuda a mitologia dos orixás? Por que se interessam apenas por oráculos que estão distantes de nós, como Cabala, Tarô, e não procuram conhecer aquele que atrai tanta gente de fora do estado (e do país) em busca de ajuda e apoio espiritual, que é o Jogo de Búzios?…

Foram essas as perguntas que durante muito tempo me fiz. Recusei-me a acreditar no “chavão” do preconceito e fui a “campo” pesquisar. Perguntei a uma “filha de santo” minha por que ela estava estudando Cabala e não os odus, que são os caminhos do destino indicados pelo oráculo da cultura à qual ela estava vinculada – o candomblé. A resposta foi simples: “Sobre Cabala encontro livros que ajudam em minha busca pelo autoconhecimento e pelo autoaperfeiçoamento, sobre a tradição africana nada ou pouca coisa  encontro”.

Ouvi a resposta e pensei: Se eu sou uma religiosa, preciso colaborar no sentido de facilitar a busca de conexão das pessoas com sua parcela divina, sua espiritualidade. E uma das importantes etapas desse processo é conhecer, aceitar e cumprir o destino. Resolvi, então, tentar cobrir a falta que me foi alertada pela minha filha, escrevendo e publicando livros que podem ser de interesse de muitos.

A Coleção Odu Adajó se destina, portanto, a qualquer pessoa que busque ter uma visão mais ampliada da existência, aos estudiosos de culturas diversas e, principalmente, aos iniciados da religião que é conhecida no Brasil pelo nome de candomblé.

Sendo eu uma iniciada, tenho a tendência de resguardar os mistérios, evitando retirar os véus que os encobrem. Por isso, não foi uma decisão nada fácil editar a coleção que agora chega ao conhecimento do público, assim como os livros anteriores. A ousadia vem sempre da necessidade e a coragem, sempre da permissão dos orixás. Diante da modernidade, da internet, essa ficou sendo a minha única alternativa de evitar deturpações da essência de uma religião milenar.

Quatro volumes da coleção em questão já estão escritos, mas apenas um já foi editado, com apoio da Assembleia Legislativa do Estado da Bahia. Optou-se por usar todas as palavras em yorubá com a grafia correta como forma de preservação da língua, mas isto não é motivo de preocupação, uma vez que a tradução das rezas, dos provérbios, etc. pode ser encontrada logo em seguida.

Conhecer a cultura africana não transforma ninguém em cultuador de orixás. Cada um tem sua crença, a qual deve sempre ser respeitada por todos. Entretanto, conhecer a cultura em que se vive é muito mais do que uma obrigação, pode ser um delicioso prazer. É apenas isso que pretendo oferecer: prazer com uma boa dose de ampliação de conhecimentos, que possa vir a colaborar com a diminuição do preconceito e uma melhor qualidade de presença na sociedade em que se vive.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente ela escreve para o jornal A TARDE, sempre às quartas-feiras


Lições da Festa de Santa Bárbara

postado por Cleidiana Ramos @ 2:59 PM
4 de dezembro de 2013
Após a missa, devotos acompanharam a profissão. Foto: Mila Cordeiro/Ag. A TARDE

Após a missa, devotos acompanharam a profissão. Foto: Mila Cordeiro/Ag. A TARDE

O encontro entre experiências religiosas diferentes, mas com semelhanças, permitiu a celebração que hoje coloriu a Ladeira do Pelourinho de vermelho e branco. Reverências a Oyá/Iansã, Bamburecema, Matamba e Kayongo do candomblé encontram-se na festa dedicada à Santa Bárbara dos católicos.

É um acontecimento muito complexo e que conta uma bela história de resistência. A narrativa possível sobre essa festa vai além da explicação simplista como o sincretismo foi muitas vezes encarado. Trata-se, na verdade, de uma ressignificação a partir do outro. Não é que Santa Bárbara vire Iansã ou Kayongo porque o povo sempre soube separar as coisas muito bem.

Na verdade, a virgem Bárbara se encontrou com a impetuosa divindade de matriz africana  que, independentemente da língua e da origem, rege raios, trovões e assume uma face feminina forte e determinada . Bárbara ao bater o pé contra a vontade paterna e até morrer para defender o seu ponto de vista também não é guerreira do seu jeito? A resistência de uma história de fé reforçou a persistência da outra num diálogo contínuo.

Enfim, o belo é ver um encontro que vira respeito também no rito. A festa cuidadosamente preparada pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos às Portas do Carmo, que tem a guarda da imagem secular de Santa Bárbara, foi belíssima.

Um dos pontos altos foi a missa presidida pelo padre Lázaro Muniz. É  muito bonito ver um padre católico conseguir entender esse encontro da forma como hoje ele tem sido debatido em vários espaços, inclusive na academia.

É a visão que compreende este encontro como o resultado da ressignificação que deixou marcas culturais e, para entendê-las, não há necessidade de colocar duas ou mais experiências religiosas em confronto ou anular uma via em detrimento de outra. Trata-se de uma bela lição num mundo de tantas disputas e intolerância, inclusive no campo religioso.

A condução da festa, como resultado do esforço, tanto dessa irmandade de tantas lutas e resistência, como da arquidiocese, tem permitido que católicos, povo de santo, turistas e curiosos sintam-se em casa, rezem embalados pelo samba e pelo ijexá num clima de profunda religiosidade.

Observando este espaço deu para entender porque essa festa tinha que ser realmente reconhecida como um patrimônio do Estado por meio da iniciativa do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC).

Vivas, portanto, à resistência da sabedoria do povo que, ao seu modo, cuida de preservar o que considera importante pelos mais variados caminhos.


Caderno da Consciência Negra disponibilizado

postado por Cleidiana Ramos @ 3:29 PM
20 de novembro de 2013

 

Especial debate persistência do racismo no mundo do futebol. Foto: Raul Spinassé/Ag. A TARDE

Especial debate persistência do racismo no mundo do futebol. Foto: Raul Spinassé/Ag. A TARDE

O nosso especial deste ano discutiu um tema bem pertinente, principalmente, quando o Brasil prepara-se para sediar a Copa do Mundo de Futebol: o racismo que ainda teima em reinar nos campos e também fora deles. Cliquem aqui para conferir

 

 

 

 


Especial aborda relações raciais no futebol

postado por Cleidiana Ramos @ 12:34 PM
18 de novembro de 2013
Caderno especial discute o racismo no futebol. Foto: Raul Spinassé/Ag. A TARDE

Caderno especial discute o racismo no futebol. Foto: Raul Spinassé/Ag. A TARDE

Da Redação

Em 1947, o jornalista Mário Filho lançou O negro no futebol brasileiro. O livro abordou, de forma pioneira, as  relações raciais no esporte mais popular do país . O caderno  de A TARDE,  comemorativo  ao Dia Nacional da Conceição Negra,  que vai circular na próxima quarta-feira, segue os passos de Mário Filho.
A  inserção dos primeiros negros nos times de futebol e a dificuldade para assumir postos de comando são alguns dos temas abordados.
O caderno será a 11ª edição dos especiais. O do ano passado intitulado Os homens que chamam os deuses pra terra, recebeu, na última segunda-feira, o Prêmio Abdias Nascimento, na categoria mídia impressa.
Criatividade
Para Jaime Sodré,  historiador, professor e religioso do candomblé, os especiais da  Consciência Negra de A TARDE estão consolidados por  trazerem, em linguagem acessível, mas  de forma aprofundada, aspectos importantes da história e cultura do povo negro.
“É muito interessante observar como esses especiais resgatam elementos da história, mas de uma forma completamente contemporânea”, afirma.
Outro acerto dos especiais, na avaliação de Sodré, é o cuidado com a qualidade gráfica e a publicação das dicas pedagógicas que são formuladas pela professora Josiane Clímaco desde 2008.
A ideia das dicas pedagógicas é fornecer conteúdo de auxílio aos professores para aplicação da Lei 10.639/2003 que estabelece o ensino de História da África e Cultura Afro-Brasileira.
Consultor dos dois primeiros especiais (Qual a sua cor? A vida em um mundo racista, 2003,  e África, Povo do Sol, 2004,  o antropólogo Roberto Albergaria aponta três conceitos que, em sua análise, sustentam os cadernos: coragem, criatividade e ousadia.
“Desde o primeiro número é visível a ousadia de tratar  de forma sistemática as relações raciais e racismo, temas que sempre foram abordados  com um certo melindre na Bahia”, aponta Albergaria.
De acordo com ele, isso é feito com criatividade. “É outro ponto interessante conseguir colocar uma discussão cercada de complexidade no formato jornalístico”.
A  ousadia de inaugurar um modelo que sempre segue temas para o antropólogo é outro acerto. “Dessa forma  temos uma possibilidade de explorar várias facetas das questões vinculadas às relações raciais”, diz.
O antropólogo também aponta que A TARDE criou um modelo próprio e  único em todo o país. “Não há outro tipo de iniciativa que dedique o espaço de um caderno inteiro para falar deste temas”, completa o antropólogo.
Novidade
O primeiro especial foi publicado em 2003. A partir de uma pauta sobre a persistência do racismo em Salvador, o caderno intitulado Qual a sua cor ? A vida em um mundo racista mostrou a complexidade das relações raciais na Bahia.
O especial foi finalista do Prêmio Imprensa Embratel. Em 2004 foi a vez de.  África Povo do Sol . A formação de uma classe média negra foi abordada em Gente de Raça (2005).
A herança das religiões africanas e a sua luta contra o preconceito inspirou Sou de Santo e Raça (2006). A organização política foi abordada em Lutas de Ontem e de Sempre (2007).
A variedade de linguagens artísticas  sustentou  Arte da Resistência (2008). Negócios inspirados na cultura afro-brasileira compuseram Produtores de Owó(2009).
Este especial venceu o Prêmio Banco do Nordeste, nas categorias Mídia Impressa Regional I e Nacional. A capoeira foi o tema de 2010 com Ê, Camará.
Em 2011 foi a vez de abordar como o dendê inspira aspectos da vida sócio-cultural baiana com o caderno intitulado Epo Pupa,  finalista do Prêmio Abdias Nascimento em 2012. A saga dos sacerdotes músicos das religiões afro-brasileiras, premiado na última segunda-feira, foi o tema do ano passado.


Terreiros do Engenho Velho marcham contra a violência e a intolerância religiosa e pedem paz

postado por Cleidiana Ramos @ 6:26 PM
14 de novembro de 2013

Caminhada reúne comunidades religiosas do Engenho Velho da Federação. Foto:Fernando Vivas 15.11.2011

Caminhada reúne comunidades religiosas do Engenho Velho da Federação. Foto:Fernando Vivas 15.11.2011

Pelo nono ano consecutivo cerca de 30 comunidades religiosas de matrizes africanas, sediadas no Engenho Velho da Federação,  vão realizar a marcha pelo fim da violência e da intolerância religiosa e pedirem paz. A caminhada será na próxima sexta-feira, dia 15 de novembro, a partir das 14 horas.

O ponto de encontro para a saída da caminhada é o fim de linha do bairro, onde fica o busto em homenagem a Doné Ruinhó, uma das sacerdotisas que lideraram o Terreiro Bogum, situado no bairro.

O Engenho Velho da Federação tem como marca característica a valorização de sua identidade negra. O bairro reúne terreiros das mais variadas tradições das religiões afro-brasileiras, como candomblé, umbanda e culto aos caboclos. Além disso, no bairro estão sediados grupos de samba junino, capoeira  e outras manifestações que formam a herança de vários povos de origem africana.

A caminhada começou em 2004 como repúdio a ataques promovidos contra os terreiros por grupos representantes de confissões evangélicas. A partir da mobilização das comunidades religiosas de matrizes africanas os registros de desrespeito praticamente desapareceram, mas suas lideranças decidiram manter a luta como lição e alerta para que atos desrespeitosos não voltem a acontecer.

Além de lideranças das religiões afro-brasileiras, a caminhada reúne representantes de organizações da sociedade civil e do poder público que atuam no combate às desigualdades sociais e simpatizantes da causa.

 


Festa para os especiais do 20 de novembro

postado por Cleidiana Ramos @ 5:09 PM
12 de novembro de 2013
Ancelmo Gois, colunista de O Globo, eu, Maíra Azevedo e Meire Oliveira no momento de receber o troféu no Prêmio Abdias Nascimento. Foto: Carlos Júnior / Divulgação Data: 11.11.2013

Ancelmo Gois, colunista de O Globo, eu, Maíra Azevedo e Meire Oliveira no momento de receber o troféu no Prêmio Abdias Nascimento. Foto: Carlos Júnior / Divulgação
Data: 11.11.2013

Pessoal: esse é um post muito especial. Quero celebrar aqui com vocês a grande conquista que foi o reconhecimento do caderno especial “Os deuses que chamam os homens pra terra” com o Prêmio Abdias Nascimento 2013, na categoria mídia imprensa.

O caderno, que circulou em 20 de novembro do ano passado, fez um passeio pela técnica e saber dos sacerdotes músicos das religiões afro-brasileiras- alabês, huntós e xicarangomas. Mais que isso foi a décima edição do especial da Consciência Negra, como a gente chama, e que nasceu em 2003.

Parece que foi ontem que o Qual a sua cor? A vida em um mundo racista foi publicado mostrando pra gente um caminho de fazer cobertura étnico-racial especializada sem perder uma certa leveza na forma e no conteúdo.

O Qual a sua cor? foi indicado ao Prêmio Imprensa Embratel 2004 e foi seguido pelo África, povo do sol (2004);Gente de Raça (2005); Sou de santo e Raça (2006), também indicado ao Prêmio Embratel 2007; Lutas de ontem e de sempre (2007); Arte da Resistência (2008); Produtores de Owó (2009); Ê, Camará (2010) e Epo Pupá (2011), finalista do Prêmio Abdias Nascimento (2012).

Para nós, que fazemos os especiais, esse prêmio veio como reconhecimento de dez anos de trabalho. Aqui no post não vou citar o nome da equipe da edição 2013 como uma forma de estender a homenagem a todos que nestes dez anos transformaram os cadernos em referência que só nos ensina a fazer jornalismo de qualidade, mas acima de tudo com responsabilidade social.

VEJAM O CADERNO ACESSANDO O LINK ABAIXO:

http://www.premioabdiasnascimento.org.br/w/finalista/281-os-homens-que-chamam-os-deuses-pra-terra-midia-impressa


Praguer Fróes escrevia com sacrifício

postado por Cleidiana Ramos @ 3:05 PM
10 de outubro de 2013
Mãe Stella faz reflexão sobre importância da oralidade e da memória. Foto: Fernando Amorim/ Ag. A TARDE/06.12.2012

Mãe Stella divulga mais um trecho do seu discurso de posse na ALB. Foto:  Ag. A TARDE/06.12.2012

Maria Stella de Azevedo Santos

Continuando a cumprir meu compromisso de tornar cada vez mais pública a vida e a obra dos ilustres baianos que me antecederam na cadeira que hoje ocupo na Academia de Letras da Bahia, transcrevo uma parte de meu discurso de posse que fala sobre Heitor Praguer Fróes. Com humildade e alegria confesso que precisei pesquisar, para me aprofundar, sobre a vida dos acadêmicos. É uma delícia saber que aos 88 anos de idade ainda tenho muito, muito, muito a aprender. Inteirando-me sobre a vida de meu confrade Praguer Fróes, descobri e agora revelo pérolas ditas pelos seus pais, por ele e sobre ele. Espero, com esse meu gesto, não apenas emocionar os leitores, mas reafirmar meu pedido para que as livrarias instaladas na Bahia tenham uma estante específica para os livros dos escritores baianos.

Filho da histórica e cultural cidade de Cachoeira, nascido no dia 25 de setembro de 1900, Praguer Fróes foi poeta, tradutor, médico e professor. Foi membro não apenas da Academia de Letras da Bahia, mas também de inúmeras outras instituições científicas e culturais, como a Academia de Medicina da Bahia.
Praguer Fróes escrevia com sacrifício. Eu faço uso dessa palavra não no sentido comum que ela possui, como sinônimo de dificuldade, mas em seu sentido original. Escrever para Praguer Fróes era um ofício sagrado, sobre o qual ele dizia: “Quem escreve um livro e o revê e publica passa pelo paraíso e pelo inferno: Pelo paraíso, quando compõe; pelo purgatório, quando retoca; pelo inferno, quando imprime. Pelo paraíso, quando compõe, porque nada é mais agradável do que criar; pelo purgatório, quando retoca, porque nada é tão fastidioso quanto modificar; pelo inferno, quando imprime, porque nada é mais enervante que estar interminavelmente a corrigir”.
E foi pensando e sentindo assim que Praguer Fróes somou em sua biografia livros de poemas, contos, contrafábulas e inúmeras obras científicas. Sacralizar um ofício é um comportamento típico de quem se preocupa e se ocupa com a humanidade. Tanto que Praguer Fróes chegou a abdicar dos direitos autorais de seu livro Lições de Medicina Tropical, em benefício do então futuro Hospital das Clínicas. Praguer Fróes era um humanista nato, pois herdou de seus pais a consciência cidadã.
Não se pode nem se deve falar de Heitor Praguer Fróes, sem falar de sua família. Pai, mãe e filho, todos eles médicos que dedicaram a vida a salvar vidas. Sua mãe, Francisca Praguer Fróes, foi uma das primeiras mulheres formadas em Medicina no Brasil, pioneira em todas as áreas em que atuou, principalmente na defesa dos direitos femininos. Ela dizia: “Eu sou feminista por herança e convicção”. O pai de Heitor Praguer Fróes, João Américo Garcez Fróes, foi tão singular figura humana que quando precisava interferir no comportamento de um estudante de Medicina, de modo a impedir que este fizesse o doente sofrer desnecessariamente, delicadamente dizia em latim: Non vi, sed arte! (“Não pela força, sim pela arte!”).
O que nosso confrade o jornalista Jorge Calmon diz sobre o pai de Heitor Praguer Fróes é o princípio que faz de um membro da Academia de Letras da Bahia um imortal; é o principio que faz de qualquer pessoa, letrada ou não, um imortal. Ele diz: “Efetivamente, há homens que se tornam instituições. São poucos. Constituem exceções. A regra geral é o bitolamento medíocre dos inumeráveis componentes do rebanho humano, que a lei da vida vai tangendo, em marcha entre o nascimento e a morte. Nessa indistinta mediania, as inteligências não brilham, o esforço não avulta, o caráter não logra atingir forma, consistência. É a grande planície dos homens comuns. Vez por outra, desse solo rasteiro sobressai uma eminência. O talento, a virtude, o mérito rompem a vulgaridade e projetam de entre a massa os indivíduos bem dotados, ou que a si mesmo se dotam, e cuja ascensão proclama as faculdades superiores da pessoa humana. Foi Garcez Fróes um desses raros indivíduos”.
Em 25 de outubro de 1987, Heitor Praguer Fróes seguiu seu caminho rumo ao reino divinal, para encontrar esta linda família que deixou para todos nós um exemplo de vida registrado em livros.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, ela publica artigos no jornal A TARDE e, sempre, às quartas-feiras


Ecos da posse de Mãe Stella na ALB

postado por Cleidiana Ramos @ 9:44 PM
15 de setembro de 2013

Pessoal: como não pude postar nada aqui sobre a posse de Mãe Stella, estou publicando abaixo o texto que elaborei para o editorial da edição de sexta-feira de A TARDE.

Lições da trajetória de Mãe Stella

MAE ESTELLA DE OXOSSI / TOMA POSSE MA ACADEMIA DE LETRAS

 

 

Fundadora do Ilê Axé Opô Afonjá, em 1910, Eugênia Anna dos Santos, carinhosamente chamada de Mãe Aninha, dizia que todo negro com um anel no dedo deveria colocá-lo aos pés de Xangô.

Simples, mas profundas, as palavras de Mãe Aninha evocam o quanto era difícil para um afrodescendente ter acesso à escola. Mas significa também que os vitoriosos deveriam agradecer à ancestralidade que, no caso de Xangô, governa coisas tão belas como a Justiça e a alegria. Ao voltar, o dono do anel reforça um ciclo, pois quem vence desafios, geralmente, inspira.

Coube, portanto, a Maria Stella de Azevedo Santos, uma filha do Afonjá e ocupante do posto que já foi de Mãe Aninha poder colocar aos pés de Xangô símbolos, que assim como o anel de formatura, significam a conquista do saber formal.

Formou-se em enfermagem numa época em que a habilitação era para poucos; é doutora honoris causa da Uneb; foi a primeira ialorixá a se tornar articulista de um jornal de grande circulação ao passar a escrever artigos em A TARDE e agora é membro da Academia de Letras da Bahia (ALB).

Mãe Stella não perseguiu nenhum destes títulos. Eles vieram como resultado da sua capacidade de mostrar como é possível absorver um código sem precisar abrir mão dos seus próprios.

Olhando a produção literária de Mãe Stella percebemos como a matriz oral, que é a base da sua formação religiosa, dialoga com a formalidade da escrita. Seu discurso é simples, mas profundo e próximo de quem o acessa , características tão presentes na oralidade.

A trajetória da filha de Oxóssi, orixá que é o provedor da comunidade, vira, no plano simbólico, alimento para novas gerações que descobrem o quanto o anel é necessário no mundo além dos terreiros. Mas o que não devem esquecer é a riqueza da ancestralidade preservada nestes espaços. Ela é a chave para não perder o caminho da origem, que permite lembrar quem se é de fato.


Escrever livros, ter livros, plantar árvores

postado por Cleidiana Ramos @ 4:56 PM
11 de setembro de 2013
A foto é para lembrar que amanhã, quinta-feira, é dia histórico com a posse de Mãe Stella na Academia de Letras da Bahia (ALB). Foto: ALB/Divulgação

A foto é para lembrar que, amanhã, quinta-feira, é dia histórico com a posse de Mãe Stella na Academia de Letras da Bahia (ALB). Foto: ALB/Divulgação

Maria Stella de Azevedo Santos

No  dia 22 de setembro começa uma nova estação. No hemisfério sul (onde se localiza o Brasil) é o início da Primavera, quando todos se vinculam à beleza colorida e passageira das flores. Geralmente, as árvores são esquecidas. Lembramos, então, que este ser vivo, tão fundamental para a existência da espécie humana, deverá ser comemorado, em 2013, no dia 21 de setembro.

Diferentemente das flores, algumas árvores são tão longevas que guardam segredos do início dos tempos. Tal é o caso de Baobá, uma das mais grandiosas árvores, que vive milênios, e foi imortalizada pelo francês Antoine de Saint-Exupéry, em seu famoso livro O Pequeno Príncipe. É dito, inclusive, que a inspiração surgiu quando, em visita ao Brasil, o escritor conheceu um exemplar de Baobá, na cidade de Natal-Rio Grande do Norte. Baobá, considerada mãe de todas as árvores, é originária do Continente Africano, existindo poucos exemplares em nosso país. Um deles é, exatamente, o que ainda vive em Natal.

Homenagearei todas as árvores através do seguinte mito africano, que como todos os mitos precisam de uma reflexão profunda, a fim de que seus importantes ensinamentos possam ser internalizados: No centro da África, habitava uma alta e frondosa árvore – Baobá. Foi nela  que Coelho encontrou o conforto que buscava. Exausto, ele se abrigou à sombra da árvore que mais parecia uma Grande Mãe. Extasiado, Coelho exclamou: “Que sombra acolhedora e amiga você tem, muito obrigado!”.

A árvore, que não costumava receber palavras de agradecimento, ficou muito alegre e confiante. Coelho procurou logo aproveitar-se do momento e disse: “Sua sombra é muito boa, mas seus frutos não me parecem tão bons”. Aquela foi uma forma indecente de Coelho fazer com que a árvore lhe desse seus frutos. Baobá sentiu em seu coração a desnecessária artimanha de Coelho, mas preferiu pensar que ele agia daquele jeito por inocência. Ela lhe deu seu delicioso e nutritivo fruto. Coelho voltou a usar uma fala doce para suas atitudes mesquinhas:

“Sua sombra é boa, seu fruto é bom, mas nada sei sobre seu coração. Será ele doce como o interior de seu fruto ou duro e seco como sua casca?”. A árvore hesitou em mostrar quão belo era seu coração. Abrir o coração para alguém é sempre perigoso, mas também é tão divino, que a árvore não resistiu: lentamente foi abrindo seu tronco, até deixar que fosse visto seu lindo coração; um tesouro, que a árvore transformou em moedas, joias, e ofereceu a seu “amigo” Coelho.

Foi para sua esposa que Coelho entregou o tesouro para ser guardado, mas ela preferiu usar as joias: ela queria matar de inveja suas amigas. A primeira que ela encontrou foi Hiena, que quis saber onde aquele tesouro tinha sido encontrado. Coelha, manifestando ostensivamente sua arrogância, disse a Hiena que fosse falar com seu marido. Com medo do agressivo animal, Coelho contou seu segredo. No dia seguinte, exatamente ao meio-dia, Hiena repetia passo a passo o que Coelho havia feito para conquistar o tesouro: deitou-se e elogiou a sombra da frondosa árvore; pediu-lhe um fruto e o elogiou; finalmente, pediu para ver seu coração. Contente, por pensar que tinha conseguido um outro amigo, a árvore, desta vez, nem hesitou: foi abrindo seu tronco lentamente, agora para poder saborear cada minuto de entrega.

Mas Hiena, impaciente, pulou com suas garras no tronco da árvore, gritando: “Abra logo esse coração, eu não aguento esperar! Eu quero todo esse tesouro para mim!”. A generosa árvore ficou apavorada, fechando imediatamente seu tronco, deixando Hiena de fora a uivar desesperada, sem conseguir pegar nenhuma joia. E por mais que ela arranhasse a árvore, ela nada conseguiu.

A partir desse dia é que a hiena ganhou o costume de vasculhar as entranhas dos animais mortos, pensando encontrar ali algum tesouro. Ela não conseguiu entender que esse tesouro só existe dentro dos corações puros, que batem forte por amor ao próximo. Baobá, a partir de então, só permite que entre em seu imenso tronco, pessoas sábias e íntegras, que conhecem seus mistérios e por isto podem respeitá-los.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, ela escreve em A TARDE, sempre às quartas-feiras


Balaio de Ideias: Por que não eu?

postado por Cleidiana Ramos @ 1:16 PM
28 de agosto de 2013
MÃE STELLA DE OXOSSI LANÇA LIVRO

Mãe Stella faz reflexão sobre o sofrimento. Foto: Margarida Neide/07.12.2012

Maria  Stella de Azevedo Santos

Sofrimento não é “minha praia”, mas é impossível negar que este sentimento, dolorido, faz parte da existência de absolutamente todos os seres humanos. Normalmente, quando uma pessoa se vê obrigada pelo destino a passar por intensos momentos de dor, tende a lançar para os seres superiores a seguinte pergunta: “Por que eu, Senhor?” Se essas pessoas refletissem melhor, perguntariam: “Por que não eu, Senhor?” Sobre isso, sabiamente, o ateu Christopher Hitchens diz: “À pergunta cretina ‘Por que eu?’, o cosmos mal tem o trabalho de responder: ‘Por que não?”.

O candomblé, apesar de ser uma religião extremamente lúdica, não se furta de ensinar aos seus adeptos que o sofrimento é inevitável para qualquer ser vivo. Essa religião milenar possui várias lendas através das quais ensina, entre outras coisas, que alguns dos sofrimentos pelos quais se passa na vida é uma questão de destino, enquanto outros são vivenciados por opção. Sobre o último caso, tem-se a narração que agora se encontra aqui escrita:

Quando Orunmilá, Ogun e Oxalá resolveram visitar o “mercado de sofrimento”, foram aconselhados a não ir logo, pois a ida ao mercado requeria, acima de tudo, que se tivesse paciência e resignação. Sabia-se que a pessoa que fosse capaz de suportar os sofrimentos existentes no mercado e que visitasse o local por três vezes receberia tesouros incomensuráveis.

O primeiro a tentar realizar essa difícil jornada foi Orunmilá. Muniu-se de búzios e quando chegou ao mercado, ajoelhou-se perante o porteiro, cujo nome era Cabra, e pagou o pedágio cobrado para que seu acesso fosse liberado. Orunmilá fez isso por três vezes e pôde receber o que tinha direito. Oxalá também quis fazer o mesmo que Orunmilá, só que este o aconselhou a não realizar tão difícil jornada, pois no mercado havia mesmo muito sofrimento. Oxalá reagiu afirmando: “Quem tem paciência para criar tantos filhos como eu, tem paciência para tudo!”

E assim seguiu Oxalá até o mercado. Ele pagou o pedágio a outro porteiro, chamado de Caracol. Oxalá fez isso mais duas vezes e recebeu o que lhe cabia. Chegando a vez de Ogun, este recebeu o alerta de que não poderia entrar no mercado portando sua faca e seu bastão. Por ser muito temperamental, e movido pela impulsividade,  lá se foi Ogun com a faca e o bastão escondidos sob a roupa.

Chegando ao mercado, encontrou o porteiro Cão que cobrou o pedágio a Ogun, que achou uma afronta pagar algo para Cão, seu inimigo/amigo. Ogun, então, usou sua faca para decaptar Cão. Exu, que era o proprietário do mercado, ameaçou tanto Ogun que terminou por fazer com que ele fugisse para o mato. Os galhos e espinhos das árvores rasgaram a roupa de Ogun que, para se proteger, retirou folhas de palmeira (màrìwò) para cobrir o corpo desnudo. Ogun não respeitou as regras do Mercado de Sofrimento; não respeitou o sofrimento, e por isto foi severamente punido.

O sofrimento tem normas que precisam ser aceitas e cumpridas. Duas delas são a resignação e a paciência. Entretanto, a mais importante de todas elas é o respeito a sua própria dor e, consequentemente, à dor do outro. Escrevi este artigo por necessidade: uma necessidade de alma; uma necessidade cidadã. A indignação foi quem me guiou.

É impossível para qualquer cidadão, seja ele um religioso ou não, calar-se diante do fato ocorrido com a coreógrafa Deborah Colker e sua família, no dia 19 de agosto, no aeroporto de Salvador. Em pleno século XXI, quando os meios de comunicação estão sempre notificando os problemas de saúde de ordem genética, nenhuma desculpa existe para o fato de alguém ser discriminado por ser portador de uma delas, usando-se o argumento de que os passageiros do avião corriam risco de contágio.

A ignorância é sempre muito atrevida! Para toda família Colker, desejo força e vitória na jornada, lembrando a sabedoria de um provérbio africano que diz: “Se não suportamos o sofrimento que enche um cesto, não receberemos os favores que enchem uma pequena cabaça de beber.” Garotinho encantador, que sua jornada seja encantada e iluminada; que as pedras e pedradas encontradas sejam, uma a uma, retiradas.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. A cada 15 dias seus artigos são publicados em  A TARDE, sempre às quartas-feiras