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Balaio de Ideias: Viva o meu pai Ayrá!

postado por Cleidiana Ramos @ 2:25 PM
7 de outubro de 2015
Mãe Valnizia fala da beleza de ser iniciada para o orixá Ayrá. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE/ 2.12.2014

Mãe Valnizia fala da beleza de ser iniciada para o orixá Ayrá. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE/ 2.12.2014

Valnizia Pereira Bianch- Ialorixá do Terreiro do Cobre

Escrever este artigo no mês de outubro é muito gratificante. É o mês em que fui iniciada no candomblé para o orixá Ayrá. Falar desse senhor para mim é uma honra. Costumo dizer que pode existir uma energia igual a ele, mas maior só a de Deus, o todo poderoso. Amo tanto meu pai Ayrá que tenho certeza de que ele me ama também. Ele me orienta, ensina, educa, protege e se faz presente nos momentos mais difíceis da minha vida. Aliás, ele está presente diariamente. Tanto que durmo e acordo me entregando a ele. Eu vivo para ele. Tenho tanta fé em Ayrá que, se isso for indício de fanatismo, posso dizer que sou fanática.

Quando meus filhos dizem que ele é lindo, fico muito feliz, mas com inveja de não poder também conhecê-lo quando está na terra. Já o vi em sonho, mas é diferente de ver como meus filhos o veem. Por coincidência, o aniversário do meu caboclo também é neste mês.

Quando fui iniciada, 12 de outubro não era feriado em homenagem à padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida. Também não era forte a lembrança do Dia das Crianças, mas eu sempre tive uma boa relação com elas. Quando trabalhava em uma escola, onde fazia a merenda, às vezes comprava ossos e verduras para incrementar a sopa e não deixá-las com fome. Há algum tempo, portanto, resolvi fazer no Terreiro do Cobre uma festa para a garotada.

A comemoração começou quando Ayrá recebeu um presente em forma de dinheiro de um filho de santo. Pensei: “Comprar um presente para Ayrá? O que eu vou comprar?”. Como é o aniversário dele e dia de festa para as crianças, resolvi adquirir lembrancinhas e docinhos. Fiz 50 kits, mas, mesmo sem divulgar, apareceram muitas, e algumas ficaram sem receber. Fiquei tão triste que até chorei.

No ano seguinte, comecei a pedir aos meus filhos de santo e amigos ajuda para fazer os kits, sempre contendo brinquedos, porque é o que toda criança, além de alimentação, gosta de ganhar. Sei que elas não conseguem entender por que não podem ter os caros e cheios de tecnologia que veem na televisão. Em muitos casos, seus pais não podem dar nem os mais simples. Aí é que está o perigo. Elas podem crescer e tentar possuir o que desejam de uma forma negativa. Mas graças a Deus e a Ayrá, com a ajuda de alguns filhos e amigos, a edição do ano passado teve pula-pula, piscina de bolinhas, escorregadeira, sorvetes, cachorro-quente e até uma animadora de festas profissional.

Distribuímos 250 kits de brinquedos. Isso para mim é muito gratificante, pois tenho a oportunidade de fazer crianças sorrirem. Na minha infância não ganhava brinquedos caros. Por isso sei o que uma criança sente em um dia como esse.

Portanto, que a Nossa Senhora dos católicos proteja todas as crianças do mundo. E que a bola de fogo, que é o meu pai Ayrá, aqueça o coração das pessoas; dono da Justiça, que ele a faça aos injustiçados; orixá da alegria, que a distribua ao mundo; que ele traga a paz, pois é quem carrega Oxalá quando este está presente em cerimônias; como é o Xangô mais velho, que dê sabedoria aos seres humanos. Viva a voz da experiência. Viva meu pai Ayrá!

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA


Câmara faz homenagem a Pai Air, herdeiro da família Bamboxê

postado por Cleidiana Ramos @ 6:00 PM
28 de setembro de 2015
Os 70 anos de iniciação religiosa de Pai Air é motivo de uma sessão especial na Câmara de Salvador. Foto: Fernando Vivas/ Ag. A TARDE

Os 70 anos de iniciação religiosa de Pai Air é motivo de uma sessão especial na Câmara de Salvador. Foto: Fernando Vivas | Ag. A TARDE

A Câmara de Salvador faz, amanhã, terça, às 19 horas, uma sessão especial para festejar os 70 anos de iniciação religiosa do babalorixá Air José, líder do Pilão de Prata. 

A homenagem celebra também a resistência de uma longa linhagem familiar que tem sido extremamente importante para a consolidação do candomblé no Brasil: a família Bamboxê Obitikô.

Pai Air, por exemplo, foi iniciado por sua tia biológica, Caetana Sowzer, sacerdotisa da Casa Branca e fundadora do terreiro Làjoumim , localizado no Engenho Velho da Federação. Foi ela também quem o auxiliou na fundação do Pilão de Prata.

“É raro que afrodescendentes baianos tenham a oportunidade de conhecer a árvore genealógica de sua família tão detalhadamente como acontece com pai Air José”, destaca o vereador Sílvio Humberto (PSB), autor do requerimento que possibilitou a realização da sessão.

Além disso, de acordo com o vereador, é uma ação importante na luta para combater a intolerância religiosa.

“No momento em que percebemos a persistência de casos de intolerância religiosa essa sessão é uma afirmação de respeito às religiões de matriz africana”, diz o vereador.

História

Pai Air José é descendente de Bamboxé Obitkô, título do africano Rodolfo Manoel Martins de Andrade. “Mais conhecido por seu nome iorubá, Bamboxê Obitikô, ele é um dos personagens históricos mais ilustres do candomblé”, afirma Lisa Earl Castillo, pesquisadora do curso de pós-doutorado do Centro de Pesquisa em História Social da Cultura da Unicamp.

Sacerdote de Xangô e babalaô – título dado aos iniciados no culto de Ifá, divindade dos oráculos – Bamboxê tem sua história ligada a terreiros como a Casa Branca, considerado o mais antigo dentre os de nação ketu (culto de orixás) no Brasil.

“Ele , é lembrado também no Recife e no Rio de Janeiro por seu papel na fundação de dois terreiros antigos, o Sitio de Pai Adão e o Ilê Axé Opô Afonjá no Rio de Janeiro”, completa a pesquisadora.

Lisa Castillo destaca que, além de iniciar várias pessoas, Bamboxé Obitikô deixou uma linhagem biológica que se manteve em evidência na consolidação do candomblé na Bahia. Ele deixou descendentes também em Lagos, na Nigéria.

Dentre os baianos estão seu neto biológico Felisberto Américo Sowzer e suas filhas Caetana América Sowzer, Regina Topázio Sowzer e Irenea Topázio Sowzer. “Todas as três se tornaram ilustres ialorixás”, completa Lisa.

No ramo nigeriano, outra descendente de Bamboxé é a política e radialista Erelu Lola Ayonrinde Bernardina Bamgbose Martins. Natural de Lagos, atualmente ela mora na Inglaterra.

“ Como Caetana, sua prima brasileira, Erelu é também apetebi , nome que se dá à sacerdotisa de adivinhação de Ifá”, acrescenta Lisa Castillo.


Balaio de Ideias: Não me deem motivos

postado por Cleidiana Ramos @ 4:48 PM
10 de setembro de 2015
Mãe Stella analisa os impactos da tristeza. Foto:  Mila Cordeiro/ Ag. A TARDE / 1.10.2014

Mãe Stella analisa os impactos da tristeza. Foto: Mila Cordeiro/ Ag. A TARDE / 1.10.2014

Maria Stella de Azevedo Santos

Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá

Tim Maia cantava: “Me dê motivos para ir embora.” Eu digo: Não me deem motivos para ir embora! Por favor, construam e exponham para mim argumentos suficientemente convincentes para que eu deseje permanecer em um mundo onde os seres humanos disputam sem nem mesmo saber pelo que estão disputando; onde creio que tantas pessoas estejam diariamente realizando “o bom combate”, mas os meios de comunicação insistem em mostrar o que de ruim a humanidade produz.
Não entrarei no lugar comum de culpar os meios de comunicação. Também não culparei a atração natural que nós humanos temos pela tragédia. Aliás, não culparei nada nem ninguém. Culpa não é um sentimento que tendo a imputar aos outros, muito menos a mim. Como costumo dizer, seriamente brincando com a gramática: somos o que somos em progressão crescente.
Pesquisamos e descobrimos o pedido que o cantor da banda Charlie Brown Jr. fazia cantando, também pedindo insistentemente: “Me Dê Motivos Pra Sonhar.” Chorão morreu, ou melhor, buscou o mundo de sonhos onde, provavelmente, jamais encontraria: nas drogas. Seu companheiro de banda, Champignon, também se matou, desta vez com um tiro, em 9 de setembro de 2013. Quando Champignon perdeu dois de seus companheiros de música e poesia, o vocalista Chorão e o guitarrista Peu Sousa, declarou:
“Os dois perderam a fé. Quando perdem a fé, perdem a vontade de viver. Foi mais um dia muito triste… Eu acho que as pessoas, em algum momento da vida, perdem a fé. Independentemente se morrem por droga, ou enforcadas. Se perdem a vida sem culpa de ninguém, acredito que em algum momento perderam a fé.”
O que estamos fazendo ou faremos para que outras pessoas sensíveis não mudem de dimensão porque esta daqui está insuportável para elas? Acordei no dia 8 de setembro de 2015 com uma imensa vontade de escrever sobre a insensibilidade com que são tratadas as pessoas mais sensíveis; com uma “querência” enorme de não viver em uma “sociedade de poetas mortos”. As palavras iam sendo escritas na mente quando me lembrei que, durante a noite, tinha recebido um aperto de mão de meu pai já falecido.
Compreendi que os seres de outra dimensão desejavam falar comigo. Quem seriam eles? – perguntei-me. Foi só no decorrer do texto que um nome surgiu em minha mente: Chorão. Pensei que esta palavra simbolizava o choro pelas perdas por morte, mas uma de minhas filhas lembrou-se do cantor acima referido e pesquisando na internet descobriu que no dia 9 de setembro de 2015 faria dois anos de morte de seu companheiro Champignon.
Minhas bênçãos, então, a todos que se foram por que não suportaram a dureza dos moradores de nosso planeta, acompanhada de um pedido, ou melhor, de uma súplica: Não permitamos que o mundo em que vivemos se transforme, sem retorno, em uma sociedade de poetas mortos. Cumprindo minha parte, encerro com um poema de Pablo Neruda: “Desde então, sou porque tu és. E desde então és sou e somos… E por amor Serei… Serás… Seremos…”


Balaio de Ideias: O poder da palavra e o mês das festas

postado por Cleidiana Ramos @ 1:10 PM
9 de setembro de 2015
Mãe Valnizia faz mais uma bela análise sobre o poder da palavra e as festas de setembro. Foto:  Joá Souza/ Ag. A TARDE Data: 20/03/2015

Mãe Valnizia faz mais uma bela análise sobre o poder da palavra e as festas de setembro. Foto: Joá Souza/ Ag. A TARDE
Data: 20/03/2015

Valnizia Pereira Bianch 

Ialorixá do Terreiro do Cobre

A palavra é muito poderosa. Ela pode criar, destruir, alegrar, entristecer, abrigar, desabrigar, aconselhar, trazer a felicidade, mas também infelicidade. A palavra também tem o poder de matar e salvar; de educar e alfabetizar. Aproveitando o cortejo, é bom ressaltar que, ontem, dia 8, comemoramos o Dia da Alfabetização, que é a base da vida, porque, sem educação, não se tem o poder da palavra nem um bom futuro. Infelizmente, no Brasil, a educação é muito precária. Vamos pedir a Deus que melhore, pois só com educação podemos formar cidadãos para um futuro melhor.

A palavra é tão importante quanto a primavera que está chegando e trazendo o verde das árvores, a beleza e o colorido das flores, além da calmaria das folhas. Elas param de cair com o vento do inverno, que só a poderosa Oyá pode conduzir, pois ela comanda o vento e as tempestades. Vamos pedir a ela que nos traga bons ventos para o nosso futuro.

Além dessas duas ocasiões que citei, setembro celebra o Dia da Juventude Brasileira, no dia 6; a Independência do Brasil, dia 7; a imprensa, dia 10; a paz – algo que o país está precisando muito –, no dia 16; e as árvores, no dia 21. Tem ainda o dia 27, quando se comemoram os santos Cosme e Damião, que, na cultura do sincretismo, simbolizam os Ibejis. Esta festa traz boas recordações da minha infância. Era época em que as pessoas ofereciam caruru, mesmo sem ser de candomblé.

Rezava-se também a ladainha de são Cosme e, quando terminava, tinha samba de viola a noite toda. Sete crianças sentavam em uma esteira estendida no meio da casa e no centro de onde elas estavam colocava-se uma bacia ou um alguidar com todas as comidas e um pedaço de frango para cada criança.

Era uma folia: cada um queria pegar a galinha do outro e, por isso, era o que se comia primeiro. Quando a gente acabava, bebia aruá e recebia doces. Era uma grande festa para as crianças. A dona da casa se vestia de branco e as crianças, depois de comer, limpavam as mãos na sua roupa. É pena que esse tipo de celebração está se perdendo. Hoje, as pessoas preferem dar doces ou colocam o caruru em quentinhas para ser distribuído às crianças ou a quem quiser comer, mas na rua.

Antigamente se colocava o caruru nas folhas de banana ou em uma folha que as pessoas chamavam de “prato de Oxum”, porque parecia com uma concha. Todos comiam com a ajuda das mãos e as limpavam nas pernas para atrair saúde.

Geralmente, nos terreiros de candomblé, se faz cerimônia para os Ibejis dentro do ciclo de festas e não necessariamente no mês de setembro. No Cobre, por exemplo, se comemora a Corda de Ibeji. Na festa, em uma corda que está no teto do barracão, desde o tempo de minha bisavó, são pendurados frutas e doces.Depois dos cantos rituais, as pessoas podem pular e pegar as frutas e doces e é distribuído o caruru. O engraçado é que as crianças chegam para a festa carregando os saquinhos onde vão guardar as frutas. Que os santos Cosme, Damião e os Ibejis protejam todas as crianças dando-lhes uma boa sorte.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA


Reprodução de chamada na capa do jorna em edição do último domingo. Foto: Reprodução

Reprodução de chamada na capa do jornal. Foto: Reprodução

Cleidiana Ramos

Air José Souza é herdeiro de uma das grandes famílias do candomblé baiano, conhecida como Bamboxê Obitikô ou Bámgbósé Obítikó – em grafia original. No próximo mês, ele comemora, além dos 75 anos de idade, sete décadas de iniciação religiosa, uma marca significativa de longevidade e perseverança no culto aos orixás.
Em janeiro do próximo ano, a comunidade liderada por Pai Air tem mais uma celebração: os 55 anos de fundação do terreiro Pilão de Prata, outro integrante da rede de comunidades que são vinculadas à família Bamboxê.
Os outros são o terreiro Lajoumim, localizado no Engenho Velho da Federação, e o conhecido como Roça de Maria Júlia, situado em Luiz Anselmo. Além disso, a família tem fortes ligações com a Casa Branca do Engenho Velho da Federação, considerado o mais antigo terreiro de nação ketu do país (ver texto ao lado).
Tradição
Pai Air é sobrinho biológico de Caetana Sowzer, ebomi da Casa Branca e ialorixá que fundou o terreiro Lajoumim. Ela foi sua mãe de criação e quem o iniciou no candomblé para o orixá Oxaguian, que é conhecido como a face mais jovem e guerreira de Oxalá.
“Embora tenha nascido e crescido dentro de um ambiente de terreiro, na juventude acabei abandonando os estudos e fui para o Rio de Janeiro”, conta.
Quando voltou para a Bahia, ele trouxe algumas pessoas que pensava em deixar sob os cuidados religiosos de Mãe Caetana. Mal sabia que estava traçando o próprio caminho de volta ao candomblé, agora como líder.
“Lembro que ela disse que queria me ver com anel no dedo, mas já que eu não tinha conseguido seguir por essa linha era hora de reencontrar meu destino. Começou a tomar as providências para que eu abrisse o Pilão de Prata ”, conta.
De uma casa simples, coberta de palha, o Pilão de Prata evoluiu para uma bela construção, o que traduz, de certa forma, uma marca de Pai Air, afinal os filhos de Oxaguian são conhecidos pelo forte valor que dão à perfeição.
“Meu pai lembra um leão quando se propõe a realizar alguma coisa, pois não desiste e tem força para estar até o fim em tudo. É líder e muito carismático”, define Carlos Augusto Marques, 68 anos, iniciado para Oxum por Pai Air há 39 anos.
Confirmado há quatro anos como ogã de Xangô, Igor Barbosa, 33 anos, filho de Oxóssi, destaca a liderança participava de Pai Air.
“Ele é um exemplo para toda a comunidade. É o primeiro a se levantar quando o dia começa e o último a deitar. Tudo que acontece no terreiro ele acompanha numa atenção impressionante. Tem controle sobre tudo e passa uma energia enorme”, diz.
Além dessas qualidades, logo no primeiro contato com Pai Air fica patente a elegância dele. Voz pausada, gestos suaves e uma postura que emana força, também é conhecido pelo bom gosto, principalmente para os trajes rituais.
“Quando viajo, minha preocupação é sempre olhar um tecido para o meu orixá e, também, para os dos meus filhos”, relata.
A elegância, aliás, é uma marca dos herdeiros de Bamboxê. Professor e religioso de candomblé, Jaime Sodré costuma dizer que eles guardam a tradição da alta-costura do povo de santo: beleza sem exageros.
O terreiro, inclusive, mantém o memorial Lajoumim, que exibe essa estética de bom gosto em trajes, acessórios, joias e esculturas.
“O nosso esforço é para guardar a memória”, diz o babalorixá, afirmando ter a certeza de que preservá-la tem sido a melhor homenagem aos ancestrais.

Família tem papel relevante na origem do candomblé

Na história oral e em pesquisas recentes sobre a organização do candomblé realizadas por estudiosos como Lisa Earl Castillo e Renato da Silveira, Bamboxê Obitikô, o tataravô do babalorixá Air José, aparece com participação ativa nos ritos de sedimentação do terreiro Casa Branca.
No texto Vida e Viagens de Bamboxê Obitikô, Lisa Earl Castillo conta que, na cerimônia do padê, em uma das orações, ele é reverenciado como Essa Obitikô.
“É uma grande responsabilidade manter a herança dessa família”, diz Pai Air. Além de um alto sacerdote do culto a Xangô, Bamboxê – que tinha o nome civil de Rodolpho Martins de Andrade – era também babalaô, título usado pelos iniciados para Ifá, divindade dos oráculos, e esteve próximo a Mãe Aninha na fundação do Ilê Axé Opô Afonjá.
A filha Maria Júlia Martins Andrade manteve a tradição da família, principalmente na formação do filho Felisberto Américo Sowzer, conhecido como Benzinho, que, assim como o avô, tornou-se babalaô.
Na Casa Branca, a família Bamboxê se manteve com Caetana Sowzer, consagrada a Oxum e que fundou, em 1941, o terreiro Lajoumim bem próximo de onde está a Casa Branca. Mãe Caetana é tia e mãe de criação de Pai Air.
Aspectos dessa história serão detalhados em uma série de eventos que vão acontecer no próximo mês: seminário e sessões especiais na Câmara Municipal e na Assembleia Legislativa, além de um show cultural.
Em novembro, deve ocorrer mais um ciclo de palestras e, em janeiro, o lançamento de um livro.


Balaio de Ideias: Não dá para ser mais ou menos a favor da vida

postado por Cleidiana Ramos @ 10:21 AM
24 de agosto de 2015
Maíra Azevedo analisa debate sobre aborto. Foto: Arquivo pessoal/Divulgação

Maíra Azevedo analisa debate sobre aborto. Foto: Arquivo pessoal/Divulgação

Maíra Azevedo

Em defesa da vida! Esse é um dos primeiros argumentos utilizados pelas pessoas e grupos que se posicionam contra a legalização do aborto no país. Sim, é importante defender o direito a vida e assegurar que todas as pessoas tenham, de fato, a condição de manter-se vivo.

A cada dois dias, uma brasileira (pobre e ouso afirmar que seja também negra) morre por ter sido submetida a um aborto inseguro. Esse sim, um problema de saúde pública associado à criminalização da interrupção da gravidez e à violação dos direitos da mulher. São elas que são culpadas e responsabilizadas cada vez que um aborto é realizado. O nome dos seus parceiros, dos pais das crianças, não entram no processo. Por isso, criminalizar o aborto é condenar essas mulheres várias vezes, que já sofrem com o abandono dos homens, pelo atendimento nos hospitais públicos, pelo preconceito instaurado e pela dor de ter que escolher pela vida.

Outra situação que merece ser desmistificada é que nem todo aborto clandestino é inseguro. Existem clínicas especializadas em interromper gravidez instaladas em bairros nobres, que cobram caro pelos seus “serviços”. Afinal, fazem o procedimento com todas as condições de higiene, por médicos treinados, basta a mulher ter dinheiro para pagar. O aborto inseguro é aquele realizado sem nenhum tipo de higiene ou condição necessária, muitas vezes em locais insalubres. E é aí que novamente condenamos apenas as mulheres pobres.

E depois de condenar as mulheres pela prática do aborto, é chegado o momento de negar o direito de se manter vivo aos seus filhos. É no mínimo contraditório defender o direito de nascer e em seguida matar a nossa juventude. Sim, matam nossa juventude cotidianamente, eliminam-se talentos,quando se defende a redução da maioridade penal ou se cala diante ao genocídio da juventude negra.

É preciso ter coerência, defender um Estado que assegure todos os direitos. Acesso a saúde pública, a segurança, educação, cultura, lazer. Não se pode ser mais ou menos a favor da vida.

Maíra Azevedo é jornalista do grupo A TARDE


Curta auxilia educação e combate à intolerância

postado por Cleidiana Ramos @ 12:48 PM
21 de agosto de 2015
Uma das imagens do curta. Foto: Cristian Carvalho/ Divulgação

Uma das imagens do curta. Foto: Cristian Carvalho/ Divulgação

As cineastas Jamile Coelho e Cintia Maria preparam o lançamento de um atraente recurso que une ação educativa e combate à intolerância religiosa. Trata-se do curta Òrun Àiyê, que usa a técnica do stop motion, uma espécie de “fotografia animada”.

Diante da expectativa em torno do lançamento do filme elas decidiram fazer uma pré-estreia já em novembro, mas na página oficial do projeto no Facebook é possível ir acompanhando vários detalhes sobre a produção.

O material conta a trajetória de criação do mundo a partir da perspectiva dos povos de cultura iorubá. O protagonista é Oxalá que se une a outras divindades para cumprir a missão de formar o universo.

A narrativa com duração de 12 minutos é feita em libras e também está disponível em português, inglês, francês, espanhol e iorubá. As histórias são contadas com narrativa do saudoso historiador Ubiratan Castro de Araújo (1948-2013).

“Esse material paradidático permitirá às crianças e jovens a ampliação da noção de cultura negra trazida da África para o Brasil, proporcionando uma educação que reconheça e valorize a diversidade, comprometida com as origens do povo brasileiro”, afirma Jamile Coelho.

O projeto foi desenvolvido por meio da Estandarte Produções, que atua na criação e gestão de projetos culturais e pedagógicos como oficinas, mostras, festivais e publicações em áudio e vídeo e reúne profissionais de várias áreas.

O curta teve o financiamento, por meio de edital, da Secretaria de Audiovisual do Ministério da Cultura e Fundação Palmares, além do edital de patrocínio 2014 da Companhia de Gás da Bahia (Bahiagás).

A página especial do curta está no endereço: https://www.facebook.com/OrunFilme

 


Lições de fé, resistência e respeito

postado por Cleidiana Ramos @ 12:28 PM
17 de agosto de 2015

Que espetáculo incrível foi o encontro entre a 17ª Caminhada Azoany e a procissão de São Roque ocorrido ontem na esquina da Escola Politécnica da Ufba, na Federação. Duas manifestações religiosas diferentes, mas que demonstraram como se constrói e mantém o mútuo respeito religioso.

Ao se deparar com a procissão, a caminhada, que vem do Pelourinho, parou e seu carro de som começou a tocar a música Jesus Cristo, de Roberto Carlos. Os católicos aplaudiram. Em seguida, a imagem de São Roque, que seguia em um andor, foi saudada pelos clarins. Após as saudações mútuas, cada uma seguiu o seu roteiro.

A Caminhada Azoany é organizada por Albino Apolinário que ajudou a ampliar um evento iniciado por um morador do Pelourinho, seu Martin Fontes, 85 anos, como pagamento de promessa aos orixás Omolu e Obaluaê, senhores da cura e proteção contra as doenças e que dominam os mistérios sobre a vida e a morte.

Ainda hoje, durante a caminhada do Pelourinho ao Santuário de São Lázaro e São Roque, seu Martin segue firme com seu tabuleiro repleto de pipocas, em silêncio e concentrado em sua relação com seus deuses.

Seu Martin segue, concentrado, à frente da Caminhada Azoany. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag. A TARDE

Seu Martin segue, concentrado, à frente da Caminhada Azoany. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag. A TARDE

O culto a São Roque acontece em uma igreja que tem como marca amparar aqueles que sofrem por problemas de saúde e também pelo peso do passar dos anos. É uma história bonita de resistência de um culto em torno da solidariedade e que encontrou traços muito fortes da filosofia africana que o humanizou, sedimentou e ressignificou.

Chegada da Caminhada Azoany ao Santuário de São Lázaro e São Roque. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag. A TARDE

Chegada da Caminhada Azoany ao Santuário de São Lázaro e São Roque. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag. A TARDE

Esse ano, como repórter, tive o privilégio de cobrir a caminhada, mas também de conhecer o ogã Arivaldo Vivas que toma conta da Casa de Omolu e Obaluaê, uma gruta que fica na encosta atrás do hotel Othon Palace e que é ponto de romarias e agradecimento de gente que encontra na fé a força para cura. Lições preciosas, inclusive, para os dias de tanta intolerância.

O ogã Arivaldo Vivas toma conta da gruta que conserva o culto a Omolu e Obaluaê. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag.  A TARDE

O ogã Arivaldo Vivas toma conta da gruta que conserva o culto a Omolu e Obaluaê. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag. A TARDE

Vivas, portanto a São Roque, Omolu, Obaluâe, Azoany, Kavungo e todo a nossa força ancestral.


Sábado tem Varanda das Flores

postado por Cleidiana Ramos @ 1:59 PM
13 de agosto de 2015
Bom programa para o próximo sábado. Foto: Divulgação

Bom programa para o próximo sábado. Foto: Divulgação

Programa muito legal para o próximo sábado, dia 15.  Um coletivo de mulheres talentosas apresenta a Varanda das Flores, o primeiro evento do projeto da DidêManda.

Elas vão mostrar o resultado de suas ações artísticas e o domínio de suas técnicas de empreendedorismo em um misto de feira e apresentação artística.

Além da exposição fotográfica #Azulejodascores haverá a venda de artigos como biojóias, acessórios diversos, óculos de modelos exclusivos, além de oficina de turbante, sarau de poesia, atrações musicais e o que não pode faltar em eventos desse tipo: comida gostosa.

A Varanda das Flores vai acontecer a partir das 13 horas, em Ondina, na Rua Helvercio Carneiro Ribeiro, nº 21. O ponto de referência: após o monumento das Gordinhas, ao lado do Mercadinho Mini Preço.

 


A cura através da espiritualidade

postado por Cleidiana Ramos @ 11:11 AM
12 de agosto de 2015
Mãe Valnizia faz análise sobre  força da espiritualidade. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE/ 2.12.2014

Mãe Valnizia faz análise sobre força da espiritualidade. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE/ 2.12.2014

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre

Neste mês de agosto, os católicos homenageiam são Roque e também são Lázaro, que, no sincretismo, simbolizam Omolu ou Obaluaê, o orixá da cura. Mesmo quem não é de candomblé tem o costume de distribuir pipocas todas as segundas-feiras em casa e também pelas ruas com tabuleiros. Sei que no candomblé são Lázaro ou são Roque não são Omolu nem Obaluaê, mas os mais velhos não sabiam, mesmo porque foi o que impuseram a eles nas senzalas. Isto, de uma forma ou de outra, serviu como escudo durante muitos anos para que eles pudessem cultuar o sagrado em que acreditavam.

Com toda perseguição e dificuldades, mas com inteligência, usavam as imagens dos santos católicos e escondiam os elementos da natureza embaixo delas para poder cultuar sua crença ao longo dos anos, e a foram passando de pai para filho. Aí está o sincretismo.

Penso que, de uma forma ou de outra, acreditar ou cultuar a espiritualidade é importante para o ser humano, pois viver somente do material sempre deixa a sensação de que está faltando alguma coisa na vida. Seja qual for a religião, o importante é acreditar no sagrado, pois ele é que ajuda a nos curar.

Existem vários tipos de cura. Uma se adquire através da família, porque ela é equilíbrio por mais difícil que seja. Todo grupo familiar tem momentos bons de convivência. Mesmo quando não é com todos os parentes, sempre tem algum que dá alegria ao estar perto.

Existe a cura por meio do amor de amigos, porque a amizade é tão importante quanto a família. Às vezes, uma boa amizade em determinado momento da nossa vida ajuda a nos curar.

Tem a cura do amor no campo dos relacionamentos românticos, que dá equilíbrio e felicidade, e aquela que vem do trabalho, pois alguém que está profissionalmente realizado também fica curado. No candomblé, por exemplo, existem várias formas de cura, além das obrigações, porque às vezes basta chegar ao espaço sagrado e ficar um pouco com os orixás, inquices, voduns e caboclos, dependendo dos seus segmentos, e rezar para sair recuperado. Depende da fé de cada um, até mesmo porque a fé é algo muito individual. Ninguém pode inseri-la no coração ou na cabeça das pessoas. Cada um acredita por si mesmo.

A fé é uma das coisas que mais curam o ser humano. Eu tenho a minha própria experiência nesse sentido. Quando passei por momentos muito difíceis ao perder quase toda minha família em pouco tempo, se não tivesse uma religião e minha fé, não aguentaria. Posso dizer, tranquilamente, que, além da medicina, a fé também é capaz de curar.

Também acredito que todas as pessoas que trabalham com a cura acabam por também se curar. E a forma de recuperação que acho mais importante é a que fazemos com nós mesmos, ou seja, a da consciência, que envolve nossos atos.

A cura do retorno e também do bate-volta é o que acontece com a nossa vida todo o tempo.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA


Cinzas é apresentado em festival

postado por Cleidiana Ramos @ 3:07 PM
22 de julho de 2015
Cena do filme Cinzas que será lançado no festival Latinidades. Foto: Divulgação

Cena do filme Cinzas que será lançado no festival Latinidades. Foto: Divulgação

Cinzas, segundo filme da diretora baiana Larissa Fulana de Tal , será lançado na próxima sexta-feira, em Brasília, às 14 horas. A exibição acontecerá durante o Festival da Mulher Afro Latino-Americana e Caribenha (Latinidades).

A história do filme gira em torno de Toni, negro, que começa o dia de uma forma complicada: ônibus lotado, salário atrasado, descrença nos estudos, contas vencidas, temor da violência policial e solidão. Sua história, adaptada de um conto homônimo do escritor Davi Nunes, encontra outras semelhantes.

“Acreditamos que a temática racial no filme é tão importante quanto a autonomia da voz. Sabemos falar por nós mesmos, e isso é Cinzas. É uma felicidade muito grande para toda equipe lançarmos no Festival Latinidades”, destaca a diretora.

Cinzas é mais uma produção do coletivo Tela Preta, que luta por uma maior representatividade negra no campo do audiovisual.

O Festival da Mulher Afro Latino-Americana e Caribenha acontece há oito anos e já se sedimentou na agenda internacional das lutas do movimento de gênero. O tema desse ano é a produção realizadas por mulheres negras no cinema.

Pseudônimo

Larissa, diretora de Cinzas, escolheu o pseudônimo “Fulana de Tal” como complemento para o seu nome para fazer uma referência aos inúmeros mulheres e homens comuns. Bacharel em cinema e audiovisual pela UFRB é diretora do videoclipe Axé (2012), que recebeu menção honrosa no 3º FestClip realizado em São Paulo. Lápis de Cor (2014) foi o seu primeiro filme contemplado com o edital  Chamada de Curtas Universitários do Canal Futura.

O quê: Lançamento do filme Cinzas
Quando: 24 de julho, às 14 horas.
Onde: Festival da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha, no Cine Brasília. A entrada é gratuita.


Balaio de Ideias: Manifesto por uma vida afetiva digna

postado por Cleidiana Ramos @ 10:33 AM
16 de julho de 2015
A jornalista Maíra Azevedo faz contundente análise sobre racismo e afetividade. Foto:  Edilson Lima/ Ag. A TARDE/ 29.1.2014

A jornalista Maíra Azevedo faz contundente análise sobre racismo e afetividade. Foto: Edilson Lima/ Ag. A TARDE/ 29.1.2014

Maíra Azevedo

Para a maioria, o 25 de julho é apenas mais uma data no calendário. Para nós, que fazemos o debate de gênero e raça, é momento de analisar as posturas sociais e como elas interferem nas vidas daquelas e daqueles que dizemos defender em nossos discursos. As pautas são diversas. Por isso optei em focar meu debate sobre algo que faz parte das conversas das mulheres negras: vida amorosa ou a falta dela. Por isso, resolvi fazer uma série de questionamentos e espero as respostas.

Quem faz manifestação pela morte afetiva e cotidiana das mulheres negras? Quem se importa quando as mulheres passam sozinhas pelas ruas? Quem se incomoda com o fato das mulheres negras serem sempre maltratadas por seus parceiros, seja fisicamente ou psicologicamente? Quem tenta buscar solução pela vida miserável que as mulheres negras levam, pois ou elas estão chorando pelos homens negros que morreram ou pelos que ajudam a tirar suas vidas? Porque a morte das mulheres negras é real. Quando não morrem fisicamente, estão mortas afetivamente. A solidão mata, entristece, deprime.

Hoje, peço a você um minuto de reflexão. Qual mulher negra que você conhece vive uma relação bacana, tranquila, com cumplicidade? Se lembrar de cinco, sem precisar puxar pela memória, então eu volto e digo que estou errada. As mulheres negras estão sozinhas, até mesmo quando tem alguém ao lado. Porque a maioria dos homens, quando estão ao lado de uma mulher negra acham que já fizeram o bastante por ela. Para muitos, o fato de terem assumido a relação com uma de nós é um plus, um bônus. Devemos agradecer, afinal estamos fora das estatísticas da solidão.

É preciso fazer um alerta, uma convocação. Temos obrigação moral de sermos mais companheiras uma das outras. Se somos mesmos comprometidas com o debate de empoderamento feminino, vamos aprender a não brigar por homens, a não permitir que eles nos dissolvam. Pois, quando eles partem, ficamos em frangalhos e eles fazem isso em série.

Não dá mais para aceitar as migalhas que muitos desses homens pensam em nos oferecer: levar para um quarto de hotel e ter uma noite de prazer ou se aproveitar do nosso status para ter um duplo prazer. Muitos deles querem gozar da nossa influência e acham que nos dar o gozo é a melhor forma de retribuir tudo que já fizemos por eles.

E a nós mulheres negras, cabe praticar mais a sororidade. Devemos ser mais cúmplices, não julgar a outra. Estender a mão e no momento de dor, nada de lembrar “EU BEM QUE TE AVISEI”. Esse sofrimento em busca de um homem legal, bacana, companheiro, que te respeite, parece ser incessante e isso é cobrado de todos os lados.

A hora de chorar pelos cantos já passou e não deveria nem ter chagado. Mas é preciso despertar e ser mais cofiante, rejeitar essas miudezas que eles nos oferecem por aí. Porque pra gente é sempre mais difícil. Queremos viver, bem viver e não sobreviver. Vamos protestar contra a miserabilidade afetiva a que somos submetidas e que ás vezes é praticada por aqueles que defendemos. Basta! Por uma vida afetiva verdadeira e digna.

Maíra Azevedo é jornalista do Grupo A Tarde e militante das causas que envolvem a questão étnico-racial, gênero e combate ao racismo e  a todas as formas de desigualdades


Balaio de Ideias: Coisas da Vida

postado por Cleidiana Ramos @ 7:22 AM
1 de julho de 2015
Mãe Valnizia faz uma homenagem a Egbomi Cutu de Ogum. Foto: Raul Spinassé  / Ag. A TARDE: 2.12. 14

Mãe Valnizia faz uma homenagem a Egbomi Cutu de Ogum. Foto: Raul Spinassé / Ag. A TARDE: 2.12. 14

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre

As festas de Santo Antônio, São João e São Pedro passaram, e na vida continuo pulando fogueiras, lembrando de histórias e vivendo tantas emoções. Uma lembrança que trago dessa fase era o amanhecer do dia, com a fogueira já em chamas bem baixas e as pessoas assando milho verde e chouriça enrolada em papel pardo. Quando o papel pardo pegava fogo, a chouriça estava assada, e se fazia uma farofa com o café adoçado que tinha que estar frio para não embolar a farinha. Quando pronta, se comia a chouriça com essa farofa e um café quentinho.

Saímos dessas festividades e vamos para uma data histórica, o Dois de Julho, quando comemoramos a Independência da Bahia. Nesse dia ou em outra data deste mês, vários terreiros de candomblé fazem homenagem para os caboclos.

A influência dos caboclos é tão importante na religião de matriz africana que antigamente as pessoas que não tinham terreiro de candomblé faziam reunião para cultuá-los nas suas casas. Muitas não eram nem feitas de santo, mas trabalhavam com os caboclos. Eles atendiam e não cobravam nada, ensinavam até remédios e ebós. Na maioria das vezes só batiam palmas ou em tabuinhas. Hoje já não se veem mais cultos aos caboclos como esses.

Interrompi o texto que falava sobre essas festividades juninas e históricas quando uma importante egbomi, tia do meu terreiro, foi convidada por Iku para ir do Aiyê para o Orum. É difícil em tão poucas palavras falar de alguém como minha estimada tia e egbomi Cutu, que era uma pessoa tão alegre e partiu justamente num dia da festa de Xangô Ayrá, um dos orixás de que ela mais gostava.

Tia Cutu foi uma pessoa muito importante na minha vida religiosa e também na do terreiro Engenho Velho Ilê Axé Iyá Nassô Oká Casa Branca. Ao longo de 60 anos ou mais, ela contribuiu de forma séria e dedicada. Durante quatro décadas, tive o privilégio de vivenciar momentos ora alegres, ora tristes, de reflexão e de aprendizagem.

Eu costumava chamá-la de “sargento”. Era uma mulher de Ogum, um “sargento” alegre, que fará muita falta, pela dedicação incansável e pela resistência de manter uma hierarquia do tempo dela. Ela brigava como uma forma de zelar pelo axé. E, assim, continuava a sobreviver diante de todas as mudanças que as gerações trazem.

Guardo dessa mulher guerreira, além da minha história de irmandade do Engenho Velho, a relação com o Terreiro do Cobre. Há anos ela me contou que quando criança muitas vezes vinha andando da Curva Grande (região onde estão localizados o Instituto Médico Legal Nina Rodrigues e o 5º Centro de Saúde Clementino Fraga, na avenida Centenário) ao Engenho Velho da Federação, pois a avó, Hortência de Omolu, era filha de santo de Iyá Flaviana, ialorixá do Cobre e minha bisavó.
Tínhamos muitas coisas em comum. Essa mulher guerreira, festeira e que também era a líder religiosa do terreiro que dirigia em Mussurunga deixa a lembrança de muita alegria, traduzida nos festejos juninos e históricos desta época.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE  EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA


Precisamos ajudar o meio ambiente

postado por meire.oliveira @ 2:54 PM
3 de junho de 2015
Mãe Valnizia fala sobre a importância de preservar o meio ambiente

Mãe Valnizia fala sobre a importância de preservar o meio ambiente

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre

 Vamos aproveitar o próximo dia 5, quando se comemora o Dia do Meio Ambiente, para fazer algumas reflexões sobre as agressões que temos feito a ele, talvez, mesmo sem perceber. Milhares de pessoas, ao não ter saneamento básico, coleta de lixo, luz elétrica e viver em condições muito precárias, acabam tomando medidas que o agridem.

São esses desfavorecidos, inclusive, que sofrem com os acidentes ambientais, embora nem sempre causem os maiores danos. Os mais pobres não têm fábricas para jogar produtos químicos nos rios e nos mares que matam os peixes e poluem o ar; nem fazendas que usam agrotóxicos nas grandes plantações; também não são eles que constroem mansões em cima de nascentes, embora paguem o preço e sofram bem mais quando vêm as tragédias e precisam reconstruir suas vidas.

Precisamos ensinar às nossas crianças práticas como jogar lixo no lugar devido, pois assim adultos conscientes e educados serão formados.

Nós, povo de candomblé, devemos ter uma preocupação ainda maior com o meio ambiente, pois cultuamos a natureza. Sem ela, nossa religião não existiria. Já está difícil, devido ao desmatamento, encontrar matas e outros locais ideais para fazer as nossas oferendas de uma forma que a própria natureza as absorva. Aliás, devemos ter cuidado com o que usamos para depositar nas ruas, no mar e nas matas para que não acabemos por fazer com que esses locais adoeçam.

Acredito que, com um pouco de consciência, cada um de nós vai ajudar a natureza. Não podemos desistir de plantar uma árvore e cuidar dos espaços em que vivemos. É importante, por exemplo, quando formos à praia, levar sacos para recolher o lixo, mesmo que não tenha um cesto por perto. Se cada um fizer a sua parte, o meio ambiente estará recebendo a ajuda que anda pedindo.

Como estamos perto das festas juninas, aproveito para lembrar sobre os riscos, para o meio ambiente, trazidos pelos balões. Na maioria das vezes, eles acabam provocando incêndios, assim como os fogos típicos dessa época, que ameaçam, principalmente, as crianças.

O São João tem coisas melhores para aproveitar como canjica, licor e o samba junino. É pena que muitas dessas tradições vêm perdendo espaço. Antigamente as pessoas saíam de porta em porta. Elas chegavam segurando pequenas tábuas que batiam enquanto cantavam: “Dona da casa, me dê licença/me dê seu salão para vadiar. E viva a São João”.

Quando a chama das fogueiras diminuía, saltava-se por cima delas acompanhado de alguém que se tornava a comadre ou o compadre de São João. Logo depois vinha o São Pedro, quando só as viúvas podiam fazer fogueiras na porta de suas casas.

Portanto, olha quanto coisa boa existe para se fazer durante as festas juninas sem soltar balões ou adotar práticas que agridem as pessoas e o meio ambiente. Portanto, já aproveitando o cortejo, felizes dias de festas.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA


Não quero conversa com “13 de maio”

postado por Cleidiana Ramos @ 4:03 PM
28 de maio de 2015
Jaime Sodré analisa o Bembé do Mercado.  Foto: Rejane Carneiro | AG. A TARDE

Jaime Sodré analisa o Bembé do Mercado. Foto: Rejane Carneiro | AG. A TARDE

Jaime Sodré

Dona Tidinha recordava: “Meu filho, antigamente no dia 13 de maio tinha até missa para a princesa Isabel”. A liberdade é um bem gratificante, imagine experimentada por um negro escravo naquele contexto, mesmo carente de ver este gesto acompanhado das vantagens da cidadania.

Um agradecimento especial pensou João de Obá, ao atribuir, à graça dos orixás, a concretização desta alforria coletiva. Ousado pensou o “BEMBÉ DO MERCADO”.

A competente Luzia Moraes traz esta historia em seu livro “Bembé do Mercado – 13 de maio em Santo Amaro”, o qual, recomendo.

Ao completar um ano da assinatura da Lei Áurea, João Obá, preto malê, escravo forro e Babalorixá, “botou o pau de standard”, que consistia da bandeira Branca de Orumilá, divindade da adivinhação, na Ponte do Xaréu e trouxe, em um ato de desafio, o seu candomblé para o Mercado da Cidade de Santo Amaro, seguido de fiéis do culto e fez a festa, com oferenda a Yemanjá. Exu, o senhor dos mercados, também “comeu”.

A continuidade foi o empenho de muitos; do Babalorixá Menininho, que não tocava o Bembé na sexta feira, em respeito a Oxalá; Noca de Jacó que passou para Tidú, que manteve entendimento com a Prefeitura; Mãe Lídia do Terreiro Ilê Yá Onã, (na Sub estação); Mãe Iara do Terreiro de Oiá (no Trapiche de Baixo) e José Raimundo Lima Chaves – Pai Pote do Terreiro Ilê Axé Ojú Oniré.

D. Canô era uma alegre entusiasta da festa do Bembé e colocava a sua oferenda no Balaio em nome dos “Velosos”; a doce Mabel sabe disso, aliás quando criança a Mabel era dito que “Bembé” era a saudação a Isabel (Isabé).

D. Zilda Paim assegurava que o ano do começo do Bembé era 1889 e nos anos 40 e 50 necessitava de autorização policial. Batia-se nos dias 11, 12, e 13 que era feriado.

Para a Dra. Yeda Castro, Bembé pode ser uma palavra Fon (yoruba/nagô) ou Banto, de Imbembé, mas alguns afirmam que tratava-se de uma corruptela de Candomblé.

Os preparativos para a festa iniciam-se com a oferenda a Exu realizada no Mercado, pois a casa responsável pelo evento religioso instala-se ali em um caramanchão e o Balaio de Yemanjá é levado à praia de Itapema, em caravana e colocado com maré cheia; para Mãe Lídia o Bembé “é mais o presente”.

Historicamente, para o nosso Professor Dr. Ubiratan Castro, o Bembé: “É o candomblé da Liberdade”, de grande significado na afirmação da cidadania negra, amenizando a “subserviência agradecida” à princesa. Os ex-senhores de escravos estavam injuriados com esta ideia de liberdade, afirmando que a lei seria revogada pelos seus parlamentares e mobilizaram o aparelho policial para inibir as manifestações dos negros.

O povo negro, esperançoso, dizia: “Yô Yô Carigé, Dá cá meu Papé” numa alusão a carta de alforria, prometida pelo ilustre abolicionista Eduardo Carigé.

No dia 13 de maio de 1889, as pessoas foram ao Mercado festejar em praça pública o primeiro aniversário da abolição. Não teve parada cívica nem discurso, lembrava o professor Bira. Agradecendo aos orixás, jogaram as oferendas no mar, até hoje.

Os escravos libertos eram chamados pejorativamente de “13 de Maio” e diziam isto em verso popular: “Nasceu periquito, Morreu papagaio, Não quero conversa com treze de maio”. Eu quero. 


E o racismo atinge mais um atleta: o garoto Angelo Assumpção

postado por Cleidiana Ramos @ 12:52 PM
21 de maio de 2015
Angelo Assumpção foi vítima de racismo em vídeo divulgado em rede social por colega da Seleção de Ginástica Artística. Foto: Arquivo Pessoal/ Facebook

Angelo Assumpção foi vítima de racismo em vídeo divulgado por colega da Seleção de Ginástica Artística. Foto: Arquivo Pessoal/ Facebook

Eu comecei a gostar de ginástica artística em meados da década de 1990, quando a Rede Bandeirantes era especializada em esportes. Às vezes, acordava de madrugada para acompanhar as competições.

A primeira referência brasileira no esporte que conheci foi a atleta Luiza Parente que brilhava mesmo com ginástica em uma fase ainda desconhecida no País.

Aí veio a geração de 2000 com Daiane dos Santos. Fiquei extremamente triste quando ela perdeu a medalha, principalmente por saber que seria a primeira atleta negra a conquistar o ouro no esporte em uma Olimpíada.

Imaginem! Em um esporte clássico em Jogos Olímpicos só na década de 2000 uma negra, mesmo com os EUA sendo uma potência, chegou perto de subir ao lugar mais alto do pódio.

Isso é um indício de como a ginástica é um esporte que integra o grupo dos que são mais difíceis  para os negros acessarem. Ela requer treinamento especial desde muito cedo, inclusive nos movimentos de balé clássico. Sem falar nos aparelhos caros. É diferente do futebol, quando  uma bola de meia já dá para começar a treinar. 

Daiane, inclusive, dançava pouco, pois começou a treinar tarde, o que prejudicava seu desempenho com a parte do balé. Fazia apenas o básico e exigido. Suas séries eram todas baseadas na força. Vale ressaltar que foram dois ucranianos, à frente da Seleção Brasileira, que “descobriram” Daiane no banco de reservas.E mais: ela precisou fazer movimentos espetaculares para que ganhasse holofotes e saísse da reserva na seleção nacional. Não à toa batizou movimentos com seu nome.

Agressão
Essas reminiscências são para falar do “caso Angelo Assumpção”, 18 anos, a mais nova vítima de crime racista no esporte. Assim como Daiane, ele era reserva. Ganhou a vaga na etapa da Copa do Mundo de Ginástica, disputada no Brasil de 1º a 3 deste mês,  porque um dos titulares se machucou. Saiu do banco para ganhar uma medalha de ouro no salto desbancando a experiência da “eterna estrela” Diego Hypolito e outros favoritos.

Fiquei emocionada quando a transmissão na TV mostrou a família de Angelo na arquibancada. Todos negros. A mãe, dona Magali Dias Assumpção, estava extremamente feliz. Dias depois, nas matérias que surgem após uma conquista “surpresa”, dá para entender o motivo: a família praticamente “ousou” ao deixar o menino correr atrás do sonho mesmo com as dificuldades típicas de transporte e dificuldades financeiras. Um exemplo: a agora “revelação da ginástica nacional” ainda está sem patrocínio.

O mês que poderia acabar de forma perfeita para Angelo trouxe  um pesadelo. Ele está no epicentro de uma história que de tão absurda chega a parecer  inacreditável.

O ginasta Arthur Nory postou numa rede social um vídeo onde, durante uma refeição coletiva – a seleção masculina está concentrada para competições- o campeão Angelo é provocado. É Nory quem pergunta:”Seu celular quebrou: a tela quando funciona é branca..quando ele estraga é de cor?”. Um coro dos outros atletas responde: “Preto”. E continua: “O saquinho do supermercado é branco. E o do lixo? É preto! “. Tudo isso diante de um Angelo constrangido.

O vídeo foi assunto de uma matéria do jornal O Globo o que transformou, ainda bem, o episódio em um escândalo. Aliás, uma curiosidade: Arthur Nory foi exatamente o atleta que Angelo substituiu na etapa da Copa do Mundo de Ginástica realizada no Brasil, porque estava machucado.

Ontem, quarta-feira, a Confederação de Ginástica afastou Arthur Nory, Fellipe Arakawa e Henrique Flores. Os três apareceram em um segundo vídeo onde Angelo está ao lado, aparentemente constrangido, e Nory desculpas dizendo que “tudo foi uma brincadeira”. A típica desculpa cínica nos casos de racismo.

Outra curiosidade na história: o ginasta Angelo Flores é enteado de Marcos Goto, técnico de todos os envolvidos, quando estão na Seleção Brasileira, e do campeão nas argolas Arthur Zanetti.  Goto, vale registrar, é negro.

Punição

A suspensão dos três ginastas é por 30 dias. A pena, diante da gravidade do caso, pode ser considerada leve, mas o que me agradou foi  que ela veio da  CBG e rapidamente, diferentemente de Fifa e CBF que costumam empurrar com a barriga o quanto podem posições diante de casos que envolvem racismo.

A CBG também afirma que está dando o apoio psicológico necessário a Angelo e não deixa que ele se pronuncie sobre o caso.

Imagino o sofrimento desse menino. Deve estar passando por uma pressão imensa, sem falar nos possíveis  olhares atravessados em sua direção , típicos dos que tentam transformar as vítimas de racismo em “gente sem humor”, “complexadas”, que não toleram uma “brincadeirinha inocente”. E é nesse clima que o ele vai ter que disputar uma prova importante: mais uma etapa da Copa Mundial rumo à sua batalha por uma vaga nas Olímpiadas 2016, que o Rio de Janeiro vai sediar.

Aliás, o ginasta Diego Hypolito que, durante o Mundial, se disse um fã de Angelo e grande amigo dele se apressou rapidamente em caracterizar o episódio no “campo da brincadeira”.

A meu ver, “pisou fora do tablado” para usar um expressão do esporte. Com racismo não se brinca, assim como não se desafia o fogo. O resultado pode ser um acidente que deixa sequelas perigosas.


Balaio de Ideias: Mulheres lindas e guerreiras

postado por Cleidiana Ramos @ 9:53 AM
11 de março de 2015
Mãe Valnizia faz homenagem às mulheres. Foto:  Raul Spinassé | aul Spinassé / Ag. A TARDE: 2.12. 14

Mãe Valnizia faz homenagem às mulheres. Foto:  Raul Spinassé / Ag. A TARDE: 2.12. 14

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre 

No último domingo comemoramos o Dia Internacional da Mulher, embora, para mim, essa data seja diária. Quero, portanto, falar de mulheres como minha bisavó Flaviana Bianch. Ela veio da África ainda pequena com a mãe, Margarida de Xangô, que instalou na Barroquinha o Terreiro do Cobre. Lá ele funcionou até que Flaviana, há 127 anos, o trouxe para o Engenho Velho da Federação, onde permanece até hoje.

Foram guerreiras, como a minha mãe Moura ou Maura – seu nome de batismo. Ela teve 13 filhos e criou a metade deles sem o companheiro e nosso pai, pois ele morreu quando eu tinha 11 meses. Para ganhar dinheiro, minha mãe carregou água, trabalhou como lavadeira, doméstica e fazia bolachinhas de goma e sequilhos para vender e poder completar a renda.

Desse grupo de batalhadoras fazem parte Mãe Tatá, ialorixá do Terreiro do Engenho Velho Casa Branca, conhecida pelo amor, carinho, respeito e dedicação aos orixás e à comunidade; a linda e saudosa Iyá Nitinha de Oxum, que ajudou muito o candomblé, deixando centenas de filhos iniciados; Mãe Stella de Oxóssi, ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, que, com sua experiência e inteligência, enriquece a nossa tradição religiosa.

Vale também destacar: Lélia Gonzáles, que tanto lutou pelos movimentos negro e de direitos humanos; Vilma Reis, socióloga, que trabalha pela formação de mulheres jovens; Yeda Pessoa de Castro, sempre empenhada na construção de uma sociedade melhor; a professora Makota Valdina Pinto, educadora de tantos jovens do Engenho Velho da Federação e adjacências, que batalha pela valorização do candomblé de nação angola-banto; Alaíde do Feijão, que criou seus filhos vendendo sua deliciosa feijoada; professora Ana Célia da Silva, incansável militante do movimento negro; Ivone Lara e Clementina de Jesus, que com suas vozes lindas, fortes e únicas encantam os nossos ouvidos.

Quero homenagear ainda Olga Mettig, por sua luta pela valorização do magistério; santa Irmã Dulce, religiosa da Igreja Católica que dedicou a vida ao amparo dos mais pobres e doentes; Ana Alice Costa, fundadora do Neim-Ufba e militante pelos direitos das mulheres; Amabília Almeida, única mulher do grupo de parlamentares que redigiu a Constituição do nosso estado; e Lídice da Mata, primeira mulher a assumir a prefeitura de Salvador e ser eleita senadora pela Bahia.

Gostaria de citar outras, mas o texto tem limite. Portanto, a partir das citadas, parabenizo todas, em especial as mulheres do Engenho Velho Casa Branca, que são minhas irmãs, mãe e tias de santo, e as do Terreiro do Cobre, minhas lindas filhas. Peço a Deus que continue a fazer surgir mulheres como essas e que a sociedade reconheça os seus valores e dê o espaço que elas merecem. Imagino estar incluída nesse grupo de guerreiras, mas não posso ter a pretensão de falar sobre mim. Como acho que sou um ser humano do bem, vou deixar para que outros falem (risos). Que Deus abençoe essas mulheres e suas famílias, pois só Ele pode tomar conta dos filhos daquelas que, para trabalhar e estudar, precisam deixar suas crianças tomando conta umas das outras, em creches ou até sozinhas, à mercê dos perigos da vida.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA


Ilê Axé Opô Afonjá sedia homenagem ao Dia da Poesia

postado por Cleidiana Ramos @ 11:11 AM
7 de março de 2015
Mãe Stella, ialorixá do Opô Afonjá, é anfitriã do encontro que celebra dia dedicado a Castro Alves. Foto:  Margarida Neide / AG. A TARDE Data: 07/12/2012

Mãe Stella, ialorixá do Opô Afonjá, é anfitriã do encontro que celebra dia dedicado a Castro Alves. Foto: Margarida Neide / AG. A TARDE
Data: 07/12/2012

No dia 14 de março nasceu Castro Alves e, por isso, é quando se celebra a poesia. Ocupante da cadeira que homenageia o mais conhecido poeta baiano na Academia de Letras da Bahia (ABL), a ialorixá Mãe Stella de Oxóssi preparou uma programação especial para festejar uma data tão mágica para as letras.

A partir das 17 horas do dia 14, próximo sábado, no Ilê Axé Opô Afonjá, o projeto Encontro Colorido da Encantada Espiritualidade Baiana vai celebrar o Dia da Poesia com o evento intitulado Três toques: poesia, amor e alegria.

O projeto, que foi inaugurado com a Animoteca, uma biblioteca itinerante, foi pensado para promover o diálogo entre as diferentes tradições religiosas.  A ação é voltada para a construção de uma cultura de paz e combate às variadas formas de violência.

A celebração vai começar com a apresentação da Camerata Castro Alves, criada em 1997 por Marcos Santana e que é especializada na interpretação do repertório do poeta.

“Poesia é ritmo, é toque, é música e é por isso que nos sensibilizaremos com a apresentação deste grupo cultural e artístico”, explica Graziela Domini, coordenadora do projeto Encontro Colorido da Encantada Espiritualidade Baiana.

O amor, que é o segundo toque, vai trazer poemas que cantam esse sentimento como os reunidos no livro Nazaré- das farinhas e poesias, uma coletânea das criações de poetas do município homônimo do período de 1831 a 1963.

A coletânea foi organizada por Carla Domini Peixoto e teve o seu lançamento como uma das atividades da visita da Animoteca a Nazaré.

O terceiro toque é a alegria celebrada no nome sagrado de Mãe Stella – Odé Kayodê –, que numa tradução do iorubá para o português significa Caçador de Alegria.

“ Quem convive com ela sente o encontro da alegria com a responsabilidade em seus pequenos e grandes atos. E é por isso que a cultura brejeira pedirá licença à seriedade do ambiente religioso para encerrar a apresentação com poemas do livro Prosa Morena, onde Jessier Quirino reescreve uma fala sertaneja que diz: ‘O mundo é uma bodega pequena e sortida. Mais dias menos dias a gente se encontra’”, completa Graziela Domini.

Segundo a coordenadora, esse também será o momento de entrega ao prazer da boa comida acompanhada de uma boa prosa. A atividade também vai reservar uma surpresa para os que aceitarem o desafio de declamar poemas autorais ou de outros poetas a partir dos temas amor e alegria.


Balaio de Ideias: A guerra segue

postado por Cleidiana Ramos @ 6:32 PM
27 de fevereiro de 2015
Uma tomada da audiência pública sobre as mortes na Vila Moisés no Cabula, realizada ontem na OAB. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag. A TARDE

Uma tomada da audiência pública sobre as mortes na Vila Moisés (Cabula) , realizada, ontem, na OAB. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag. A TARDE

Wlamyra Albuquerque 

Nunca se tinha ouvido falar da Vila Moisés antes da chacina. O lugar não existia no mapa da cidade, exceto nas escalas da RONDESP. Lá não tem qualquer sinal de presença do Estado, lá não tem iluminação pública, asfalto, rede de esgoto, escola nem creche. Na Vila Moisés, o Estado se faz presente com as patrulhas policiais. O Cabula é um bairro repleto de histórias de insurgência, revoltas e pobreza negra desde os primeiros tempos da escravidão. Quilombolas, escravidos fugidos, libertos, adeptos do candomblé e tantos outros insurgentes viveram lá. Nem por isto se trata de um lugar marginal na Salvador do século XXI. No Cabula estão a Universidade do Estado da Bahia, escolas públicas e particulares, condomínio pra classe média e shoppings center. Nada disso existe na Vila Moisés.

A chacina aconteceu pouco antes do carnaval, nem os fartos confetes do Momo baiano enterraram doze cadáveres de jovens, que tinham entre 15 e 24 anos. Assim que os camarotes e arquibancadas baixaram as cordas e acordes carnavalescos, o Movimento Reaja ou será morto! Reaja ou será morta! conseguiu mobilizar diversos setores da sociedade civil e instituições ligadas aos Direitos Humanos para uma audiência pública mediada pela Ordem dos Advogados da Bahia. A audiência publica fez a sede da OAB transbordar com cerca de duas mil num auditório onde só cabiam 150 pessoas. A tensão se espalhava até a Praça da Piedade, de onde se podia ver e ouvir as representações dos sindicatos dos policiais distribuindo panfletos, exibindo cartazes e amplificando com carro de som o protesto contra os protestos que têm se multiplicado desde a chacina do Cabula.

Foi trazida pra o centro da cidade a ação policial que vitimou, no último 6 de fevereiro, doze jovens negros na Vila Moisés, no bairro do Cabula.

Ficaram lado a lado no auditório apertado, militantes do movimento negro, muitos policiais a paisana,–  alguns deles, armados – familiares dos jovens mortos, representantes da OAB nacional, lideranças políticas, o secretário da Justiça do Estado da Bahia, estudantes, dois vereadores (apenas dois) e outros tantos oportunistas seduzidos com o emaranhado de tripés e lentes das Tvs. Não demorou muito e um militante gritou o que todas as estatísticas confirmam: a juventude negra tem sido condenada a pena de morte, sem qualquer julgamento. A dois passos dele estava um policial que reagiu erguendo o braço e dizendo “eu sou preto também e não sou criminoso”. Foi só o começo. Durante mais de três horas, a questão racial pôs em situações limites quem exigia a investigação isenta do que houve na Vila Moisés e os que inocentavam os policiais envolvidos na chacina enquanto defendiam a própria Polícia, como instituição militar.

Na voz de policiais exaltados na platéia e representados na mesa por lideranças da categoria, dois argumentos se repetiam: a “Polícia defende os cidadãos de bem contra os criminosos que estão no tráfico de drogas” e os policiais também são vítimas, também são mortos. Não há quem duvide que os policiais também estão em risco. Hamilton Borges , do Movimento Reajá ou será morto! Reaja ou será morta!, tentou apaziguar os ânimos quando militantes e policiais se enfrentaram, dizendo que nesta guerra só morrem negros. Pois é, em nome da luta contra o tráfico de drogas, cada vez mais, só morrem negros sejam eles descalços ou fardados.

Também se ouviu todo tipo de absurdo. Certo capitão aposentado e mulato se disse vítima de racismo às avesas por ser branco. Outro, negro retinto, desafiava os presentes a entrarem numa viatura e não apertarem o gatilho. Em meio a tanto racismo, foi ficando evidente que o Movimento Negro tem rumo e propostas para a tal questão da Segurança Pública que tanto aflige aos governantes e aos “ cidadãos de bem”. Como disse Vilma Reis, as balanças de precisão, os helicópteros recheados de cocaína não nascem nas comunidades, onde a maioria é negra. Se a justificativa é o combate às drogas, o endereço é outro. A defesa de investigação federal sobre os grupos de extermínio na Bahia, a desmilitarização das polícias, a extinção dos Autos de Resistência foram propostas que mostram o quanto os movimentos sociais estão maduros e cientes de que a Segurança Pública no Brasil e, principalmente na Bahia, é uma questão racial.

O Mapa da Violência no Brasil, divulgado em 2014, mostra o quanto a vitimização tem cor. Entre 2002 e 2012 morreram 146,5% mais negros do que brancos na guerra urbana. Não faltam números, nem cadáveres negros para serem somados aos jovens do Cabula. Quem atendeu ao chamado de protesto do Movimento Reaja ou será morto! Reaja ou será morta! estava de luto por muito outros sepultados em covas rasas. O luto era ainda mais visível na atitude das mães e avós dos jovens mortos. A maioria dos parentes das vítimas não foi. Estavam com medo. Quem sofre uma violência policial sabe que quanto maior a visibilidade maior é o risco. Nenhuma delas se pronunciou durante a audiência. Silêncio de luto e medo, afinal como disse um policial, enquanto se retirava da sala de audiência, “a resposta a isto a Polícia dá é na área”. Quem é da área sabe o que isto quer dizer.

Entre quem defende uma discussão honesta, democrática e sem metáforas futebolísticas sobre Segurança Pública, o Brasil dos tempos da escravidão aparece como a raiz dos nossos problemas. Foi o que disse João Jorge, presidente do Olodum, e Humberto Ádamo, representante da OAB nacional. Os discursos deles convergiam para entender as razões do problema. A criminalização e a vulnerabilidade da população negra no século XXI, quando os números apontam um crescimento do número de assassinatos de jovens negros, seria explicada pelo terrível passado escravista que ainda nos assombra. É consenso, a escravidão é abominável e nos marca até hoje. Mas, o que o genocídio negro nos diz sobre os nossos dias e expectativas de cidadania numa sociedade ultra consumista? Será que dá pra por só na conta da escravidão a Vila Moisés só existir no mapa da RONDESP?

Ainda somos herdeiros do passado escravista, concordo; entretanto, por que a expressão cidadãos de bem é cada vez mais usada para dizer quem são os supostos bandidos a nos ameaçar? Colocar na conta, já bem e devidamente avolumada do passado escravista, a responsabilidade pela tensão racial no Brasil, dramatizada  na audiência da OAB, não pode ser uma maneira de libertar o Estado Republicano, de livrar seus sucessivos governos, democráticos ou não, que ainda relutam em dizer com todas as letras a quem ele chama de cidadão de bem. Não cabe só ao Movimento Negro apostar na nossa juventude. Os mortos dos pelourinhos ainda nos cercam mas é sobre o futuro e as políticas que reeditam, sorrateiramente, o racismo institucional que tratamos ao gritarmos no auditório transbordando de raiva e ressentimentos recentes o mesmo coro: Povo negro livre, povo negro forte que não teme a luta, que não teme a morte!

E a guerra segue na Bahia.

Wlamyra Albuquerque é doutora em História, professora de História do Brasil na Ufba e autora, dentre outros livros, de O Jogo da Dissimulação: abolição e cidadania negra no Brasil,  São Paulo: Companhia das Letras, 2009

 


Homenagem a Tata Anselmo e Jaime Sodré e uma lembrança à memória de Ebomi Cidália

postado por Cleidiana Ramos @ 10:54 AM
20 de fevereiro de 2015

Com as desculpas pelo atraso, mas é que ontem eu ainda estava fora de rede. Os  parabéns a essas duas figuras queridas, que fizeram aniversário ontem, e que são extremamente importantes na defesa da liberdade de expressão religiosa. Eles estão sempre a postos para defender os interesses do povo de santo: o tata de inquice do Terreiro Mokambo, Anselmo dos Santos, filho de Dandalunda; e Jaime Sodré, xicarangoma do terreiro Tanuri Junçara, filho de Lemba, e oloiê do Bogum.

Tata Anselmo e Jaime Sodré, aniversariantes de ontem. Foto: Marco Aurélio Martins/ Ag. A TARDE 3.6.2005; Margaridade Neide/ Ag. A TARDE 16.11.2012

Tata Anselmo e Jaime Sodré, aniversariantes de ontem. Foto: Marco Aurélio Martins/ Ag. A TARDE 3.6.2005; Margaridade Neide/ Ag. A TARDE 16.11.2012

Vai aqui também uma  homenagem à memória da Ebomi Cidália de Iroko, aniversariante também do dia 19  de fevereiro. Saudades imensas da grande enciclopédia do candomblé.

Saudação à memória de Ebomi Cidália  de Iroko. Foto: Margarida Neide / Ag. A TARDE/   7.7.2006

Saudação à memória de Ebomi Cidália de Iroko. Foto: Margarida Neide / Ag. A TARDE/ 7.7.2006


Uma grande mulher: Telinha de Iemanjá

postado por Cleidiana Ramos @ 10:16 AM
11 de fevereiro de 2015
Mãe Valnizia faz homenagem a Ebomi Telinha de Iemanjá. Foto: João Alvarez/ Divulgação

Mãe Valnizia faz homenagem a Ebomi Telinha de Iemanjá. Foto: João Alvarez/ Divulgação

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre

Este texto é sobre uma pessoa muito especial: Aristotelina Fiuza, conhecida como ebomi Telinha de Iemanjá. O que me leva a essa homenagem é o seu aniversário de 90 anos e a comida que ofereceu a Iemanjá, um momento único para o Terreiro do Cobre, onde ela tem uma história muito bonita. Telinha nasceu e cresceu no Cobre. É uma das poucas do tempo da minha bisavó Flaviana Bianch que ainda vive.

Conheço Telinha desde que me entendo como gente, e ela me ajudou muito com sua sabedoria quando cheguei para reabrir o terreiro. É uma pessoa muito respeitada no Cobre e pela comunidade do bairro do Engenho Velho da Federação.

Quando eu era criança, no mês de junho, Telinha tirava reza de santo Antônio em várias casas do bairro. Acabada a reza, servia-se comida, principalmente para as rezadeiras, licor e amendoins. Ela tomava o seu licorzinho e dizia: “Não posso demorar, pois ainda vou tirar outras rezas”.

Durante o Carnaval, ia para o Terreiro de Jesus esperar a saída do afoxé Filhos de Gandhy, pois seu marido, Claudio, era um dos diretores. Acompanhava o bloco até o Campo Grande. No domingo, ela só ia embora depois que as escolas de samba desfilavam. Tinha as famosas, como Juventude do Garcia e Diplomatas de Amaralina. Naquele tempo não havia preocupação com transporte porque quem morava perto do circuito do Carnaval, como nós, ia andando. Não aconteciam assaltos nem mortes. Até os caretas, que saíam com o rosto coberto, após brincar tinham a obrigação de tirar a máscara e mostrar o rosto.

Outra lembrança que tenho de Telinha é da sua ida à praia de Armação com minha mãe e tias para a puxada de rede, onde pescadores, adultos e crianças pegavam o xaréu em meio a muitas cantorias. Após a puxada de rede, elas ganhavam os peixes. Aí preparavam um escaldado com quiabo, abóbora, maxixe, jiló e o molho nagô que era feito com as pimentas raladas, limão, quiabo, coentro, cebola, tomate e camarão seco, e degustavam tudo bebendo uma cachacinha. Era só alegria.

Ela também acompanhava a Romaria de São Lázaro, um evento que acontece no Engenho Velho da Federação há mais de 75 anos. Hoje fica na porta de sua casa segurando um prato de arroz perfumado para quando o santo passar jogar sobre ele. É compromisso.

Telinha foi criada por minha bisavó como uma neta, e tive a felicidade de encontrá-la para me orientar no terreiro. Costumo dizer a ela: “Tem que ficar comigo para tudo”, porque várias vezes foi até a minha casa chorando e pedindo para que eu fosse ver o terreiro quando ele estava fechado e a sua estrutura desmoronando.

Enfim, conviver com Telinha tem sido um dos melhores aprendizados que tive. Ela é uma mulher determinada e realiza o que quer. Lava, passa, cozinha e inspira os mais jovens, que dizem não aguentar fazer a metade das coisas que ela faz. Está sempre me dizendo que quando chegar a sua hora quer dormir, pois não consegue imaginar viver em uma cama dependendo de outras pessoas. Que Deus a ouça, Telinha de Iemanjá Ogunté.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA


Balaio de Ideias: Em Defesa da Promoção da Igualdade no Legislativo Baiano

postado por Cleidiana Ramos @ 9:43 AM
9 de fevereiro de 2015
Bira Corôa defende status permanente para a Comissão de Promoção da Igualdade. Foto: Edilson Lima / Ag. A TARDE/ 11.11.2014

Bira Corôa defende status permanente para a Comissão de Promoção da Igualdade. Foto: Edilson Lima / Ag. A TARDE/ 11.11.2014

Bira Corôa

biracoroa@alba.ba.gov.br

Nos últimos anos assistimos a intensos debates em torno do tema da igualdade em nosso País. Cada vez mais, grupos que historicamente foram submetidos a diversas formas de exclusão se organizam e buscam espaços institucionais para denunciar as iniquidades que os afligem no dia a dia.

A Assembleia Legislativa da Bahia atenta a esse debate criou em 2001 a Comissão Especial para Assuntos Afrodescendente – CECAD. Na reforma das comissões do Legislativo baiano, ocorrida em 2006, a proposta era a de extinção dessa Comissão, fato que não ocorreu graças a articulação das organizações sociais e de deputados baianos comprometidos com o tema da igualdade. Foi desta forma que conseguimos a manutenção da CECAD, inclusive, transformando-a em Comissão Especial da Promoção da Igualdade – CEPI, atribuindo-lhe assim, um caráter mais amplo.

Nos últimos quatro anos, os membros do legislativo baiano que compõem a referida Comissão, têm contribuído muito com a luta pela construção de políticas afirmativas em nosso estado. Defesa dos Povos e Comunidades Tradicionais (quilombolas, índios, ciganos, fundo e fecho de pasto, dentre outros), do segmento LGBT na luta contra a homofobia, na luta das mulheres, pelo respeito à diversidade religiosa e contra o racismo, dentre outros bandeiras.

Embora a importância dessa Comissão, em virtude do seu caráter provisório sempre que se inicia uma nova legislatura ela corre o risco de não ser reinstalada. O que representaria um retrocesso no debate em torno das lutas de diversos segmentos sociais.

A Comissão Especial da Promoção da Igualdade da Assembleia Legislativa da Bahia é uma conquista da sociedade baiana. E quando mais uma vez, ao iniciarmos uma nova legislatura reaparece o debate em torno da sua extinção, a nossa proposição é pela garantia da sua reinstalação e, futuramente, transformá-la em permanente. Para isso, precisamos da mobilização da sociedade baiana e do apoio dos deputados comprometidos com o tema da igualdade.

Bira Coroa é deputado estadual.


Balaio de Ideias: Je suis candomblé

postado por Cleidiana Ramos @ 8:34 PM
27 de janeiro de 2015
Jaime Sodré analisa necessidade do respeito à diversidade religiosa.  Foto:  Mila Cordeiro/ Ag. A TARDE/  09.11.2011

Jaime Sodré analisa necessidade do respeito à diversidade religiosa. Foto: Mila Cordeiro/ Ag. A TARDE/
09.11.2011

Jaime Sodré

Imponente, merecido e belo ergue-se o busto a Mãe Gilda, obra de arte a sacralizar e embelezar o espaço sagrado da Lagoa do Abaeté. Este monumento escultural é um símbolo contra a intolerância religiosa. A reverendíssima Yalorixá Gildásia dos Santos, nome de batismo desta dedicada religiosa, morreu no ano 2000 vitimada por um infarto após visualizar, com desgosto profundo, a sua foto em um jornal a ilustrar uma matéria intitulada “Macumbeiros e charlatões lesam a vida e o bolso de clientes”. Em relação a monumentos que louvam os feitos de mulheres religiosas negras, temos o de Mãe Caetana na Boca do Rio e Mãe Runhó no fim de linha do Engenho Velho da Federação. O de Mãe Gilda localiza-se no Abaeté pela proximidade ao seu Terreiro, o Ilê Axé Abassá, hoje liderado pela competência de Mãe Jaciara.

A repressão àqueles que não sabem conviver, tem como marco legislativo a Lei 7.716/89 (Lei Caó), produto do eminente baiano, jornalista, parlamentar e advogado Carlos Alberto dos Santos (Caó). O artigo 20 desta lei assim define a intolerância religiosa: “é um termo que descreve a atitude mental caracterizada pela falta de habilidade ou vontade em reconhecer e respeitar as diferenças ou crenças religiosas de terceiros. Poderá ter origem nas próprias crenças religiosas de alguém ou ser motivada pela intolerância contra as crenças e práticas religiosas de outrem”. Em Salvador existe uma mobilização vigilante e constante contra esta prática por parte de uma maioria de pessoas comprometidas com a liberdade religiosa, incluindo os fiéis do Candomblé. Louvemos a iniciativa da ex-vereadora Olívia Santana, autora da Lei Municipal n. 6.464/04 que instituiu o dia 21 de janeiro como a oportunidade de reflexão, conscientização e combate a intolerância religiosa.

Inspirado na lei criada por Olívia, o deputado federal Daniel Almeida foi o autor da lei federal n. 11.635/07 que inclui a data de 21 de janeiro no Calendário Cívico da União, pois, segundo o parlamentar, é necessário que dediquemos cotidianamente a nossa ação para a convivência com a diferença, de forma harmônica. Sensibilizados por esta proposta de convivência, inúmeros sujeitos lançam-se num empenho contra a intolerância religiosa, eis alguns: o Dr. Wellington Cesar Lima e Silva. Afirma que, mais que medidas judiciais, o que importa é o sentimento de que estamos juntos nesta caminhada, logo, ao respeitarmos as diferenças nos aproximamos do verdadeiro significado de um ato religioso. Louvemos aqui a promotora de Justiça Márcia Virgens.

O pastor Djalma Torres assegura que a diversidade religiosa é uma riqueza e a intolerância é inaceitável, e conclui que somos filhos de um mesmo pai e precisamo-nos respeitar. Já o padre Adriano Portela lembra que conviver em sociedade é encontrar pessoas que pensam diferente e respeitá-las. O ilustre médium espírita José Medrado esclarece que tolerância muitas vezes pode significar apenas “eu suporto”, queremos respeito! Algumas entidades merecem destaques especiais, como é o caso de Koinonia que há 21 anos luta contra a intolerância religiosa e contra todas as formas de violação dos Direitos Humanos, e agora se empenha no apoio ao Caso Mãe Rosa.

Jaime Sodré é professor universitário, mestre em História da Arte, doutorando em História Social e religioso do candomblé


Ministério e secretarias começam ano com novos gestores

postado por Cleidiana Ramos @ 11:39 AM
5 de janeiro de 2015
Nilma Gomes é a nova titular da Seppir; Vera Lúcia dirige a Sepromi; Olívia Santa é secretária de Política para as Mulheres e Jorge Portugal assumiu a Secult. Fotos: Divulgação; Carol Garcia / GovBa; Edilson Lima / Ag. A TARDE/ 02.03. 2014; Claudionor Junior / Ag. A TARDE/ 23.02.2010

Nilma Gomes é a nova titular da Seppir; Vera Lúcia dirige a Sepromi; Olívia Santana é secretária de Política para as Mulheres e Jorge Portugal assumiu a Secult. Fotos: Divulgação; Carol Garcia / GovBa; Edilson Lima / Ag. A TARDE/ 02.03. 2014; Claudionor Junior / Ag. A TARDE/ 23.02.2010

As gestões públicas federal e estadual começam o ano com novos titulares no ministério e secretarias que são cruciais nas  políticas voltadas para a população negra.

A nova titular da Secretaria Especial de Políticas para a Promoção da Igualdade Racial (Seppir), que tem status de ministério, é a mineira Nilma Lino Gomes. A ministra é pedagoga, mestra em educação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), doutora em antropologia social pela Universidade de São Paulo (USP)  e pós-doutora em sociologia pela Universidade de Coimbra, Portugal.

Professora da UFMG e pesquisadora da área de relações étnico-raciais, Nilma foi a primeira mulher negra a chefiar uma universidade federal brasileira: a Unilab (Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira), que, inclusive, tem um campus na Bahia, em São Francisco do Conde.

A Secretaria Estadual de Promoção da Igualdade (Sepromi) tem como nova titular a ex-dirigente nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), Vera Lúcia Barbosa. Natural de Eunapólis, cidade localizada no extremo sul da Bahia, Lucinha como também é chamada pelos movimentos sociais, foi titular da Secretaria Estadual de Políticas para as Mulheres (SPM), durante o governo Wagner.

A SPM será dirigida por Olívia Santana, que vem da militância histórica do movimento negro. Fundadora da Unegro e filiada ao PCdoB, Olívia já foi secretária municipal de Educação, quando adotou como principal política a operacionalização da Lei 10.639/2003, que estabelece o ensino de História da África e Cultura Afro-Brasileira;  ocupou também uma vaga na Câmara de Salvador e em 2012 concorreu como vice na chapa encabeçada por Nelson Pelegrino para prefeito da capital baiana.

Já a pasta estadual de Cultura (Secult) tem Jorge Portugal. Professor conhecido por suas aulas lúdicas, o novo secretário tem dito que sua principal missão será fazer uma interação entre as ações culturais e  educacionais.

Boa sorte aos novos gestores e que eles tenham uma atuação que renda bastante conteúdo positivo para o Mundo Afro, ou seja, notícias que a gente publica com o coração em festa.


Que 2015 venha sob as bençãos da água e da pureza e brilho das crianças

postado por Cleidiana Ramos @ 8:52 AM
30 de dezembro de 2014

(Oro mimá-Bantos do Iguape- YouTube)

O Mundo Afro teve um ano de longa pausa, mas retornou em uma dia muito especial – 20 de novembro – na torcida para que tenha sido na direção de ficar atualizado de forma mais constante. O objetivo (que pretendo me esforçar para cumprir)  é que em 2015 possamos estar mais perto para debater informações variadas sob a perspectiva da herança que possuímos das mais diversas culturas e civilizações africanas.

Vamos fazer uma parada a partir de hoje, para um pequeno descanso e, na primeira segunda-feira do ano, estaremos de volta. Obrigada a todas e a todos pelo compartilhamento de conteúdo, críticas, elogios e sugestões.

E, para iniciar esse recesso, nada melhor que ficar na companhia da energia da água e do brilho das crianças com um gostinho de releitura de um belo canto para Oxum feito pela banda Bantos do Iguape, de Cachoeira. E que 2015 venha puro para ser grande!


Balaio de Ideias: o Natal e suas diversas famílias

postado por Cleidiana Ramos @ 10:43 AM
17 de dezembro de 2014

MÃE VALNIZIA DE AYRÁ / TERREIRO DO COBRE

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre

Começo a colaborar com este jornal no período próximo ao Natal, festa cristã que reúne as famílias. Quando eu era criança, Papai Noel quase nunca passava pela minha janela. Infelizmente, quando se comemora o nascimento de Cristo é alegria para uns e tristeza para outros, principalmente as crianças menos privilegiadas, que não entendem o que é o Natal e por que Papai Noel não passou pelas suas janelas para deixar presentes.
Como eu sabia que Papai Noel não ia passar na minha janela, eu e outras crianças da comunidade do Engenho Velho da Federação íamos pegar fichas para retirar os brinquedos distribuídos em uma garagem de ônibus na Vasco da Gama. Ficávamos em filas quilométricas debaixo do sol e tinha muita confusão. No dia seguinte, íamos buscar os brinquedos: para as meninas era uma boneca pequena que, no segundo dia, mesmo com todos os cuidados que eu e minhas amiguinhas tínhamos, perdia os cabelos. As bolas dadas aos meninos também esvaziavam no segundo dia, assim como os carros soltavam as rodas. Mas ainda assim éramos felizes.
As famílias se reuniam e os vizinhos eram considerados parte delas: era a comadre, o compadre. Cada um levava um prato para a casa do outro. Lembro que minha mãe fazia rabanada com pão duro passado em leite e ovos, fritava e depois colocava açúcar e canela em pó. Era uma delícia.
As casas, nessa época, tinham um cheiro que trazia a lembrança de que era Natal por conta das folhas de pitanga, são-gonçalinho e flores de angélica, que comprávamos na horta de Seu Lídio. O cheiro se misturava ao das frutas – abacaxi, manga, melancia e umbu. O chão de barro batido era molhado no dia anterior. Então colocávamos folhas de banana para deixar liso. À tarde tirávamos as folhas de banana e colocávamos areia, as folhas de pitanga e de são-gonçalinho.
Os vizinhos criavam juntos, durante o ano inteiro, um peru que, por isso, era chamado de “peru de meia”. Na véspera de Natal dava-se cachaça ao peru para então matá-lo. As crianças tinham que ficar no quarto para que não vissem a morte, mas sabiam o que estava acontecendo. No outro dia, ele era servido com farofa.
Mesmo com dificuldades, o Natal é um momento solene. Com muita comida, bebidas e presentes ou até mesmo sem nada disso, as famílias se reúnem e isso é muito importante. Quando estamos reunidos, como família, trocamos coisas boas, energias, saúde, alegria e até mesmo tristezas. Família é uma das coisas mais importantes da vida, pois só ela nos dá a base dos valores que servem para o resto da vida.
O povo de santo, ou seja, de candomblé, é privilegiado porque tem duas famílias: a consanguínea e a religiosa. Assim tem mais oportunidades para a confraternização familiar. Os que não têm a família consaguínea têm a outra. Muitas vezes, meus filhos de santo não têm parentes por perto, mas a qualquer necessidade têm seus irmãos religiosos para ajudar nos momentos de alegria e tristeza. Também temos mais oportunidades para confraternizar com ou sem Papai Noel deixando presentes nas janelas. Feliz Natal para todos com muita saúde, que é o bem maior da vida. Axé.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA


Ogum´s Toques tem campanha para publicar obras de autores negros

postado por Cleidiana Ramos @ 12:59 PM
10 de dezembro de 2014
O editor Marcus Guellwaar Adun ao lado do poeta José Carlos Limeira. Foto: Arquivo pessoal

O editor Marcus Guellwaar Adun ao lado do poeta José Carlos Limeira. Foto: Antonio Terra/ Divulgação

Uma campanha criativa e pioneira na Bahia promete movimentar o mundo de quem produz literatura com enfoque no combate ao racismo. Trata-se da campanha de crowdfunding, um nome técnico para a famosa “vaquinha” realizada pela editora Ogum´s Toques.

O objetivo é arrecadar U$ 30 mil dólares o que vai permitir a publicação de 10 livros de autoras e autores negros. Os gêneros incluem poesia, infanto-juvenil, contos e também trabalhos acadêmicos.

“O mercado editorial no Brasil, assim como a sociedade brasileira, pratica o racismo institucional de maneira extremamente sofisticada, prestigiando autorias brancas, masculinas, heterossexuais, burguesas,  sulistas esudestinas”, analisa Marcus Guellwaar Adún, escritor, educador e editor.

De acordo com ele, no lugar de apenas constatar as dificuldades para publicação, a ideia é abrir espaço para autores que têm uma forma peculiar de produzir conhecimento, afinal têm experiências variadas na constatação e formas de combate ao racismo.

“As pessoas doadoras terão seus nomes mencionados entre os reconhecimentos contidos nos livros”, explica Adún.

As doações podem ser feitas em qualquer quantia . As que ficarem acima de U$ 100 dólares receberão uma camisa da editora.

Para acessar o site de doação é só clicar aqui.

A doação é feita por meio da pressão no botão CONTRIBUTE NOW.  Para doar é necessário usar cartão de crédito e o valor é automaticamente convertido em dólar.

Por isso é importante você lembrar que o faturamento em moeda estrangeira no cartão de crédito, geralmente, é feito com a cotação do dia de fechamento da fatura. É importante checar com a sua operadora esses detalhes para não se atrapalhar nas contas.

A boa notícia é que os organizadores já estão elaborando  uma ferramenta da campanha em português para tornar mais fácil a contribuição com a iniciativa.

Leilões

A ação também inclui a realização de leilões de obras de arte. Fique por dentro dos lances da campanha também via a página no Facebook . 

Abaixo você confere um dos vídeos da campanha.


Mãe Valnizia é nova articulista do jornal A TARDE

postado por Cleidiana Ramos @ 9:44 AM
3 de dezembro de 2014
Mãe Valnizia de Ayrá escreverá artigos para A TARDE, mensalmente. Foto: Raul Spinassé | Ag. A TARDE

Mãe Valnizia de Ayrá escreverá artigos para A TARDE, mensalmente. Foto: Raul Spinassé | Ag. A TARDE

A partir do próximo dia 17, a ialorixá Valnízia Pereira de Oliveira passa a assinar, mensalmente, artigos nas páginas de Opinião de A TARDE. Dessa forma fica mantido o espaço para a abordagem de questões diversas sob o ponto de vista do candomblé, que, desde maio de 2011, eram apresentadas nos artigos de mãe Maria Stella de Azevedo Santos, ialorixá do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá.

“Será uma experiência nova e que dá continuidade à história iniciada nesse espaço por mãe Stella, uma pessoa muito experiente e sábia. Em nossa religião temos por base o respeito aos mais velhos por entender que isso significa também avanço em mais sabedoria”, diz mãe Valnízia.

De acordo com ela, escrever é uma forma de manter o diálogo entre as artes de aprender e ensinar. “Quando a gente escreve, coloca o que está pensando para a opinião de outras pessoas. Então escrever é aprender e ensinar. Eu, por exemplo, aprendi muito com os textos de mãe Stella”, completa mãe Valnízia.

Mãe Stella deixou a publicação regular dos seus artigos em A TARDE, que eram veiculados quinzenalmente, sempre às quartas-feiras. O último foi há 15 dias.

A decisão de interromper a colaboração foi por conta de suas muitas atividades religiosas e coordenação de projetos, como o denominado “Encontro Colorido da Encantada Espiritualidade Baiana”. O projeto mantém uma biblioteca móvel audiovisual denominada “Animoteca” e especializada em diversidade religiosa.

O projeto foi sendo construído a partir de reflexões realizadas por mãe Stella também nos artigos publicados em A TARDE.

Trajetória

Líder do Terreiro do Cobre, localizado no Engenho Velho da Federação e que tem Xangô como patrono, mãe Valnízia, 55 anos, foi iniciada no candomblé no terreiro da Casa Branca para o orixá Ayrá. Ela é autora dos livros Resistência e Fé, publicado em 2009, e Aprendo Ensinando, de 2011.

Há 26 anos mãe Valnízia dirige o Cobre, fundado no fim do século XIX pela africana Margarida de Xangô, que iniciou a linhagem sacerdotal da família.

Mãe Valnízia é bisneta de Flaviana Bianchi, chamada por intelectuais como Jorge Amado e Édison Carneiro de “Flaviana, a grande”.

Consagrada a Oxum, mãe Flaviana é uma das personagens do livro Cidade das mulheres, escrito pela antropóloga americana Ruth Landes, publicado em 1947, e que é um dos clássicos da etnografia sobre o candomblé baiano.

Boas-vindas

Usando a palavra “difícil” para definir sua decisão de deixar de contribuir regularmente com os artigos em  A TARDE, mãe Stella explicou em texto, publicado dia 19, que está deixando essa atividade por conta de seus outros compromissos.

“Tomar decisões é sempre muito difícil, principalmente quando esta decisão implica deixar uma atividade que nos dá prazer e alegria. Foi o que aconteceu comigo quando precisei deixar de escrever artigos para este conceituado jornal. Foi no treinamento do desapego, que todo sacerdote precisa fazer, que encontrei a força que precisava”, diz.

A ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá diz que ficou tranquila quando soube que a ialorixá Valnízia Pereira vai escrever artigos para a seção de Opinião de A TARDE.

“A tranquilidade veio quando fiquei sabendo que o espaço do jornal que era utilizado por mim passará a receber, agora, os conhecimentos de outra líder religiosa. Que a ialorixá Valnízia Pereira tenha muita alegria ao empreender esta nova jornada e conte, como sei que sempre contou, com as bênçãos dos orixás”, acrescentou.


Livro traz homenagem a Mãe Tatá de Oxum

postado por Cleidiana Ramos @ 5:00 PM
28 de novembro de 2014
Mãe Tatá de Oxum recebe homenagem em forma de livro. Foto: Divulgação

Mãe Tatá de Oxum recebe homenagem em forma de livro. Foto: Divulgação

Domingo, dia 30,  tem lançamento de livro no Terreiro da Casa Branca (Avenida Vasco da Gama). Trata-se de uma obra muito especial: uma coletânea de relatos, mensagens e depoimentos sobre Mãe Tatá de Oxum, a ialorixá da comunidade de candomblé, que é considerada a mais antiga, dentre as de nação ketu, do Brasil.

Mãe Tatá segue uma linhagem de grandes sacerdotisas do terreiro fundado por Iyá Nassô e que foi o primeiro reconhecido como patrimônio do Brasil pelo Iphan há 30 anos.

Intitulado Mãe Tatá- uma dádiva de Òsum, a coletânea, organizada por Ana Rita Santiago, traça a trajetória de uma ialorixá conhecida pela sabedoria e elegância nos gestos. O lançamento será a partir das 19 horas.


Maurício Pestana lança livro com entrevistas de enfoque na questão étnico-racial

postado por Cleidiana Ramos @ 1:13 PM
27 de novembro de 2014
Capa do livro do jornalista Maurício Pestana que será lançado hoje. Foto: Divulgação

Capa do livro do jornalista Maurício Pestana que será lançado hoje. Foto: Divulgação

Hoje, quinta-feira, tem lançamento do livro Racismo: Cotas e Ações Afirmativas, no Palacete das Artes Rodin-Bahia, na Graça, a partir das 18h30. De autoria do jornalista e cartunista Maurício Pestana, a obra reúne 46 entrevistas realizadas pelo autor com artistas, intelectuais e religiosos para a Revista Raça Brasil, onde atuou como editor e diretor executivo.

Dentre os entrevistados estão os ex-presidentes Lula e José Sarney, o cantor Gilberto Gil, a ialorixá Mãe Stella de Oxóssi, dentre outros.

As entrevistas foram conduzidas a partir de experiências pessoais em relação ao racismo e ações afirmativas como as cotas nas universidades. O livro é publicado pela Editora Anita Garibaldi com o apoio da Fundação Maurício Grabois.

Serviço: Lançamento do livro Racismo: Cotas e Ações Afirmativas

Onde: Palacete das Artes- Rodin-Bahia (Rua da Graça, 289, Graça)

Quando: Hoje, a partir das 18h30. Entrada franca.