Arquivo da Categoria 'Balaio de Ideias'


Balaio de Ideias: Precisamos de respeito

postado por Cleidiana Ramos @ 10:07 AM
18 de novembro de 2015
Mãe Valnizia analisa celebrações de novembro. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE/ 2.12.2014

Mãe Valnizia analisa celebrações de novembro. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE/ 2.12.2014

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre

Ao escrever este texto no mês de novembro não posso deixar de falar dos mortos, ou seja, dos espíritos e ancestrais, apesar de achar que eles podem ser homenageados em qualquer período. Diariamente, morrem milhares de pessoas, assim como nascem outras. Mas o comércio sempre aproveita datas comemorativas para vender mais. Com o Dia de Finados ocorre a oportunidade de usar a homenagem para se obter lucro. Acontece o mesmo com o Natal, São João e demais ocasiões festivas.
Portanto, em 2 de novembro os mortos são homenageados, mas eu, particularmente, não acredito que espíritos, ancestrais ou eguns fiquem presos em um caixão ou túmulo.
Imagino que as pessoas quando partem para o estado que considero de origem permanecem onde desejam ficar, inclusive no coração de parentes e amigos. Às vezes conversamos com eles, que nos escutam do lugar onde estamos. Daí que ir ao cemitério considerando que ali estão as pessoas que nos são queridas e partiram torna-se complicado, principalmente em um mundo repleto de fraudes.
São muitas as histórias de famílias que pagaram, anualmente, pelos serviços de limpeza dos túmulos onde deixaram os restos mortais de seus ancestrais, mas não ficaram sabendo quando eles foram transferidos de local para acomodar outros, diante da falta de espaço no cemitério. Infelizmente, coisas assim têm acontecido.
Mas ainda em novembro comemora-se a Proclamação da República, como aconteceu no último domingo. Esse dia foi o escolhido pelas comunidades dos terreiros de candomblé do bairro do Engenho Velho da Federação para realizarem uma caminhada reivindicando respeito às religiões afro-brasileiras. Digo respeito pois não gosto da expressão “tolerância”. Ninguém precisa aprender a nos “tolerar”, mas, sim, respeitar.
Respeito é algo que nós, povo de candomblé, aprendemos e ensinamos dentro dos nossos terreiros. Convivemos com a diversidade tranquilamente. Aliás, está escrito na Constituição brasileira que todo cidadão tem o direito de professar a religião que deseja. Nosso direito, portanto, é adquirido.
Além de reivindicar respeito pela nossa religião, pedimos também pela paz do mundo; do nosso país, estado, cidade e bairro. Estamos em um momento em que precisamos nos juntar como irmãos para trocarmos energia. Essa possibilidade de unir forças é um dos momentos mais importantes dessas caminhadas, como aconteceu agora em sua 11ª edição.
Na próxima sexta-feira estaremos comemorando o Dia Nacional da Consciência Negra. Tenho dúvidas se há muito para festejar com tanta desigualdade social e centenas de jovens negros morrendo, todos os dias, no Brasil.
Para a população negra, o acesso à saúde e segurança é precário. Nossas crianças passam metade do ano letivo sem ter aulas. As escolas que as acolhem seguem em reforma ou com os professores em greve reivindicando melhores salários, pois são muito mal remunerados. Portanto, são questões para refletir.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA


Balaio de Ideias: O poder da palavra e o mês das festas

postado por Cleidiana Ramos @ 1:10 PM
9 de setembro de 2015
Mãe Valnizia faz mais uma bela análise sobre o poder da palavra e as festas de setembro. Foto:  Joá Souza/ Ag. A TARDE Data: 20/03/2015

Mãe Valnizia faz mais uma bela análise sobre o poder da palavra e as festas de setembro. Foto: Joá Souza/ Ag. A TARDE
Data: 20/03/2015

Valnizia Pereira Bianch 

Ialorixá do Terreiro do Cobre

A palavra é muito poderosa. Ela pode criar, destruir, alegrar, entristecer, abrigar, desabrigar, aconselhar, trazer a felicidade, mas também infelicidade. A palavra também tem o poder de matar e salvar; de educar e alfabetizar. Aproveitando o cortejo, é bom ressaltar que, ontem, dia 8, comemoramos o Dia da Alfabetização, que é a base da vida, porque, sem educação, não se tem o poder da palavra nem um bom futuro. Infelizmente, no Brasil, a educação é muito precária. Vamos pedir a Deus que melhore, pois só com educação podemos formar cidadãos para um futuro melhor.

A palavra é tão importante quanto a primavera que está chegando e trazendo o verde das árvores, a beleza e o colorido das flores, além da calmaria das folhas. Elas param de cair com o vento do inverno, que só a poderosa Oyá pode conduzir, pois ela comanda o vento e as tempestades. Vamos pedir a ela que nos traga bons ventos para o nosso futuro.

Além dessas duas ocasiões que citei, setembro celebra o Dia da Juventude Brasileira, no dia 6; a Independência do Brasil, dia 7; a imprensa, dia 10; a paz – algo que o país está precisando muito –, no dia 16; e as árvores, no dia 21. Tem ainda o dia 27, quando se comemoram os santos Cosme e Damião, que, na cultura do sincretismo, simbolizam os Ibejis. Esta festa traz boas recordações da minha infância. Era época em que as pessoas ofereciam caruru, mesmo sem ser de candomblé.

Rezava-se também a ladainha de são Cosme e, quando terminava, tinha samba de viola a noite toda. Sete crianças sentavam em uma esteira estendida no meio da casa e no centro de onde elas estavam colocava-se uma bacia ou um alguidar com todas as comidas e um pedaço de frango para cada criança.

Era uma folia: cada um queria pegar a galinha do outro e, por isso, era o que se comia primeiro. Quando a gente acabava, bebia aruá e recebia doces. Era uma grande festa para as crianças. A dona da casa se vestia de branco e as crianças, depois de comer, limpavam as mãos na sua roupa. É pena que esse tipo de celebração está se perdendo. Hoje, as pessoas preferem dar doces ou colocam o caruru em quentinhas para ser distribuído às crianças ou a quem quiser comer, mas na rua.

Antigamente se colocava o caruru nas folhas de banana ou em uma folha que as pessoas chamavam de “prato de Oxum”, porque parecia com uma concha. Todos comiam com a ajuda das mãos e as limpavam nas pernas para atrair saúde.

Geralmente, nos terreiros de candomblé, se faz cerimônia para os Ibejis dentro do ciclo de festas e não necessariamente no mês de setembro. No Cobre, por exemplo, se comemora a Corda de Ibeji. Na festa, em uma corda que está no teto do barracão, desde o tempo de minha bisavó, são pendurados frutas e doces.Depois dos cantos rituais, as pessoas podem pular e pegar as frutas e doces e é distribuído o caruru. O engraçado é que as crianças chegam para a festa carregando os saquinhos onde vão guardar as frutas. Que os santos Cosme, Damião e os Ibejis protejam todas as crianças dando-lhes uma boa sorte.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA


Balaio de Ideias: Coisas da Vida

postado por Cleidiana Ramos @ 7:22 AM
1 de julho de 2015
Mãe Valnizia faz uma homenagem a Egbomi Cutu de Ogum. Foto: Raul Spinassé  / Ag. A TARDE: 2.12. 14

Mãe Valnizia faz uma homenagem a Egbomi Cutu de Ogum. Foto: Raul Spinassé / Ag. A TARDE: 2.12. 14

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre

As festas de Santo Antônio, São João e São Pedro passaram, e na vida continuo pulando fogueiras, lembrando de histórias e vivendo tantas emoções. Uma lembrança que trago dessa fase era o amanhecer do dia, com a fogueira já em chamas bem baixas e as pessoas assando milho verde e chouriça enrolada em papel pardo. Quando o papel pardo pegava fogo, a chouriça estava assada, e se fazia uma farofa com o café adoçado que tinha que estar frio para não embolar a farinha. Quando pronta, se comia a chouriça com essa farofa e um café quentinho.

Saímos dessas festividades e vamos para uma data histórica, o Dois de Julho, quando comemoramos a Independência da Bahia. Nesse dia ou em outra data deste mês, vários terreiros de candomblé fazem homenagem para os caboclos.

A influência dos caboclos é tão importante na religião de matriz africana que antigamente as pessoas que não tinham terreiro de candomblé faziam reunião para cultuá-los nas suas casas. Muitas não eram nem feitas de santo, mas trabalhavam com os caboclos. Eles atendiam e não cobravam nada, ensinavam até remédios e ebós. Na maioria das vezes só batiam palmas ou em tabuinhas. Hoje já não se veem mais cultos aos caboclos como esses.

Interrompi o texto que falava sobre essas festividades juninas e históricas quando uma importante egbomi, tia do meu terreiro, foi convidada por Iku para ir do Aiyê para o Orum. É difícil em tão poucas palavras falar de alguém como minha estimada tia e egbomi Cutu, que era uma pessoa tão alegre e partiu justamente num dia da festa de Xangô Ayrá, um dos orixás de que ela mais gostava.

Tia Cutu foi uma pessoa muito importante na minha vida religiosa e também na do terreiro Engenho Velho Ilê Axé Iyá Nassô Oká Casa Branca. Ao longo de 60 anos ou mais, ela contribuiu de forma séria e dedicada. Durante quatro décadas, tive o privilégio de vivenciar momentos ora alegres, ora tristes, de reflexão e de aprendizagem.

Eu costumava chamá-la de “sargento”. Era uma mulher de Ogum, um “sargento” alegre, que fará muita falta, pela dedicação incansável e pela resistência de manter uma hierarquia do tempo dela. Ela brigava como uma forma de zelar pelo axé. E, assim, continuava a sobreviver diante de todas as mudanças que as gerações trazem.

Guardo dessa mulher guerreira, além da minha história de irmandade do Engenho Velho, a relação com o Terreiro do Cobre. Há anos ela me contou que quando criança muitas vezes vinha andando da Curva Grande (região onde estão localizados o Instituto Médico Legal Nina Rodrigues e o 5º Centro de Saúde Clementino Fraga, na avenida Centenário) ao Engenho Velho da Federação, pois a avó, Hortência de Omolu, era filha de santo de Iyá Flaviana, ialorixá do Cobre e minha bisavó.
Tínhamos muitas coisas em comum. Essa mulher guerreira, festeira e que também era a líder religiosa do terreiro que dirigia em Mussurunga deixa a lembrança de muita alegria, traduzida nos festejos juninos e históricos desta época.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE  EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA


Cristofobia: a propósito de mais uma baboseira nacional

postado por meire.oliveira @ 5:25 PM
19 de junho de 2015
Antropólogo analisa a simulação de uma crucificação durante a Parada Gay de São Paulo

Antropólogo analisa a simulação de uma crucificação durante a Parada Gay de São Paulo

Diz-se, desde que me conheço por gente, que o Brasil é um país a ser observado. Somos um laboratório e, portanto, lugar de gestão do novo em velho, e do velho em novo. Assistimos agora, por exemplo, o embate entre sistema de crenças e sistemas de valores, fruto tardio de uma passagem crítica de um mundo rural limitado para um mundo urbano, amplo e inclusivo. Desta fricção erigimos possivelmente nossa nova paisagem moral, e dela decorrerá parte da dinâmica de nosso sistema cultural no futuro.

Talvez por isto mesmo estejamos nos tornado um país que vive de permanentes casuísmos, de correções e erros, de retaliações, e de desinteligência com respeito ao povo que queremos no futuro. O mais recente destes casuísmos vem sendo resenhado pelos noticiosos e tem como estopim a passeata LGBT, realizada em São Paulo recentemente. Nela uma transexual vale-se de uma alegoria política, encarnado a mais chocante, terrível e fascinante cena cristã: a crucificação de Cristo.

Esta cena e o que ela resultou como reação no Congresso Nacional é um perfeito retrato de um Brasil em devir, com suas contradições, diferenças, divergências, mas que, a despeito de tudo, segue, não à deriva como pode parecer ao pessimista e aqueles que têm a temerária inclinação pelo “quanto pior melhor”, mas de acordo com um jogo de poder, político e simbólico, que são próprios a astuciosa construção de nossa realidade social e cultural.

Para quem analisa friamente nossa vida social a religião, qualquer que seja ela, se parece hoje, sobretudo, como um grande negócio. De forma caricata pode-se dizer que para os adeptos irremediavelmente é dispêndio e consumo, enquanto que para os gestores da religião é produção e comércio, ou seja, uma fonte de fortuna, poder e prestígio. A lógica de um mercado de bens simbólicos e de salvação – produtos e serviços – mais que visível atualmente através de canais midiáticos, faz-nos pensar que logo alguém se sentirá seguro para reivindicar um monopólio, assim como direitos, sobre a imagem de Cristo. Símbolos, não raramente, tornam-se produtos: técnicos, comerciais, estéticos, etc.

Mas, o que os símbolos devem significar? Ora, sabemos que os símbolos agem nas nossas disposições, nas nossas motivações e, também, nas nossas mais elementares noções de ordem. Isto em razão de que todos os atos culturais são construídos mediante apreensão e utilização de formas simbólicas. Neste sentido, os símbolos permeiam nossos acontecimentos sociais e políticos.

A regulamentação da imagem de Cristo se faz mais na cultura que nos tribunais, isto é certo. A maneira como ele foi consolidado no universo católico – por exemplo – foi cuidadosamente gestado no correr de séculos.  Neste processo Cristo se transmutou em muitas diferentes imagens, embora predomine como representação o momento crucial da crucificação.

Pode-se dizer que, em geral, os símbolos sagrados funcionam também para estabelecer uma síntese entre um ethos e a visão de mundo de um povo. Tais símbolos podem ser públicos ou privados e, sendo polissêmicos, podem transitar entre o político e o religioso, apresentando-se, a depender do contexto, como alegórico ou metafórico. Especialmente sendo símbolos sagrados estão sujeitos a incompreensões, a interpretações, a revalidações e a permanentes reavaliações.

Mas, que símbolo Cristo pode representar e representa? Quem é Cristo? Ninguém, de sã consciência, pode negar o valor simbólico de Cristo como símbolo fundante de nossa humanidade: de um lado o homem histórico, doutro o corpo místico, arquétipo. Mas, quem disse que Cristo crucificado não pode ser representado por uma travesti ou um gay? Por um negro, por um índio ou um cigano?  Quem, afinal, pode arrogar-se o direito de dizer o que Cristo pode significar?

Os bens simbólicos, inclusive os sagrados, não podem pertencer a nenhum segmento social em detrimento de outros, ainda mais quando estes símbolos são reconhecidamente universais, gestados no solo de uma história humana densa, adubada por sangue, sêmen e lágrimas.

O essencialismo da formulação política da “cristofobia”, no âmbito deste patético Congresso, nos parece de todo desmedido. Não deveria se tratar de censura e justiça retributiva quanto ao uso de um bem simbólico particular, o Cristo, mas de proteção aos símbolos sagrados religiosos em seu sentido mais amplo, considerando-se a diversidade brasileira, cultural e religiosa?

Vale lembrar que valores civis devem se contrapor a valores religiosos na consolidação da vida social e política. O Estado é laico, e logo não deve dar preferências, prerrogativas ou privilégios por esta ou aquela religião, mas garantir a todos os cidadãos o direito de livre escolha, inclusive a de não ser religioso, ou de simplesmente ter ou não ter religiosidade.

A proposição de uma legislação a propósito de uma “cristofobia” é uma asneira cultural sem precedentes, e urge que seus proponentes troquem seus recalques pessoais, e religiosos, pelo bom senso que possa redundar em tolerância religiosa, e na regulação equilibrada das relações de convivência, tão necessárias à nossa vida social.

 

Cláudio Luiz Pereira

Antropólogo – UFBA


Precisamos ajudar o meio ambiente

postado por meire.oliveira @ 2:54 PM
3 de junho de 2015
Mãe Valnizia fala sobre a importância de preservar o meio ambiente

Mãe Valnizia fala sobre a importância de preservar o meio ambiente

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre

 Vamos aproveitar o próximo dia 5, quando se comemora o Dia do Meio Ambiente, para fazer algumas reflexões sobre as agressões que temos feito a ele, talvez, mesmo sem perceber. Milhares de pessoas, ao não ter saneamento básico, coleta de lixo, luz elétrica e viver em condições muito precárias, acabam tomando medidas que o agridem.

São esses desfavorecidos, inclusive, que sofrem com os acidentes ambientais, embora nem sempre causem os maiores danos. Os mais pobres não têm fábricas para jogar produtos químicos nos rios e nos mares que matam os peixes e poluem o ar; nem fazendas que usam agrotóxicos nas grandes plantações; também não são eles que constroem mansões em cima de nascentes, embora paguem o preço e sofram bem mais quando vêm as tragédias e precisam reconstruir suas vidas.

Precisamos ensinar às nossas crianças práticas como jogar lixo no lugar devido, pois assim adultos conscientes e educados serão formados.

Nós, povo de candomblé, devemos ter uma preocupação ainda maior com o meio ambiente, pois cultuamos a natureza. Sem ela, nossa religião não existiria. Já está difícil, devido ao desmatamento, encontrar matas e outros locais ideais para fazer as nossas oferendas de uma forma que a própria natureza as absorva. Aliás, devemos ter cuidado com o que usamos para depositar nas ruas, no mar e nas matas para que não acabemos por fazer com que esses locais adoeçam.

Acredito que, com um pouco de consciência, cada um de nós vai ajudar a natureza. Não podemos desistir de plantar uma árvore e cuidar dos espaços em que vivemos. É importante, por exemplo, quando formos à praia, levar sacos para recolher o lixo, mesmo que não tenha um cesto por perto. Se cada um fizer a sua parte, o meio ambiente estará recebendo a ajuda que anda pedindo.

Como estamos perto das festas juninas, aproveito para lembrar sobre os riscos, para o meio ambiente, trazidos pelos balões. Na maioria das vezes, eles acabam provocando incêndios, assim como os fogos típicos dessa época, que ameaçam, principalmente, as crianças.

O São João tem coisas melhores para aproveitar como canjica, licor e o samba junino. É pena que muitas dessas tradições vêm perdendo espaço. Antigamente as pessoas saíam de porta em porta. Elas chegavam segurando pequenas tábuas que batiam enquanto cantavam: “Dona da casa, me dê licença/me dê seu salão para vadiar. E viva a São João”.

Quando a chama das fogueiras diminuía, saltava-se por cima delas acompanhado de alguém que se tornava a comadre ou o compadre de São João. Logo depois vinha o São Pedro, quando só as viúvas podiam fazer fogueiras na porta de suas casas.

Portanto, olha quanto coisa boa existe para se fazer durante as festas juninas sem soltar balões ou adotar práticas que agridem as pessoas e o meio ambiente. Portanto, já aproveitando o cortejo, felizes dias de festas.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA


Balaio de Ideias: Saudades da Semana Santa antiga

postado por Cleidiana Ramos @ 9:34 AM
8 de abril de 2015
Mãe Valnizia traz a memória de comemorações da Semana Santa no passado. Foto: Raul Spinassé | Ag. A TARDE | 2.12.2014

Mãe Valnizia traz a memória de comemorações da Semana Santa no passado. Foto: Raul Spinassé | Ag. A TARDE | 2.12.2014

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre

Acabamos de passar pela Semana Santa, uma festa do cristianismo que considero muito importante, pois, apesar das mudanças, ainda consegue unir famílias. Lembro-me de que, há alguns anos, nesse dia não se podia fazer barulho, as pessoas pediam perdão, não se falava alto nem se batia nas crianças.

O trabalho para o almoço da sexta tinha que ser adiantado na véspera: os cocos eram partidos e deixados em uma vasilha com água para não azedar até ser ralados, pois a maioria dos pobres não tinha geladeira para conservá-los e nem liquidificador.

Para ser moído, o camarão seco era colocado em uma toalha usada para enxugar prato, fechada e amarrada na ponta de uma mesa, ou usávamos o pilão. O feijão para o “feijão de leite” era partido em uma máquina manual. Já o peixe era limpo na sexta-feira porque esse trabalho não provoca muito barulho. Quem não tinha peixe preparava uma moqueca de ovo com chuchu de tronco, como era chamado o mamão verde.

Tudo isso para não se comer carne. Se bem que, com tanta gente ainda passando fome, acho que Cristo não liga para nada disso. São costumes da cultura que mulheres e homens criaram.

Eu gostava quando os vizinhos trocavam pratos de vatapá entre si. Além disso, ao entrar em uma casa, recebiam-se um pedaço de pão e um pouco de vinho. Era preciso aceitar esse agrado, mesmo que não se ficasse para almoçar.

Para as crianças, os adultos colocavam um dedo de vinho em um copo com água e açúcar e avisavam que isso era só para fazer a “obrigação”. À tarde, os irmãos mais velhos levavam os mais novos para tomar a bênção aos padrinhos, madrinhas, tios e tias.

Mas o melhor mesmo era o Sábado de Aleluia, porque a diversão estava garantida. As crianças guardavam latas e paus para fazer barulho quando chegasse as 10 horas. Nesse horário, os terreiros de candomblé abriam, queimava-se incenso, soltavam-se fogos e os atabaques eram tocados. À noite havia a Queima de Judas. As crianças iam dormir mais cedo para acordar à meia-noite e assistir ao espetáculo.

No domingo aconteciam brincadeiras, como pau de sebo. Um pedaço de madeira era ensebado e no seu alto colocavam-se balas e brinquedos. Quem conseguia fazer a escalada levava tudo.

Nessa época não eram comuns os ovos de Páscoa e, se existiam, nem todas as famílias podiam comprar para seus filhos. O máximo, nesse sentido, era uma caixa de bombons para ser dividida.

É uma pena que os jovens e crianças estejam perdendo esses valores que incentivavam as pessoas a ser solidárias umas com as outras, como na hora de trocar os pratos da ceia da Sexta-feira Santa ou as latas para saudar a Aleluia.

Sinto muita falta da Semana Santa antiga, pois a cada dia que passa essas características são perdidas. Meus netos, por exemplo, já não sabem que se tomava a bênção às pessoas mais velhas que encontrasse pela frente, inclusive dizendo assim: “Me perdoe alguns agravos”.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA


Balaio de Ideias: Mulheres lindas e guerreiras

postado por Cleidiana Ramos @ 9:53 AM
11 de março de 2015
Mãe Valnizia faz homenagem às mulheres. Foto:  Raul Spinassé | aul Spinassé / Ag. A TARDE: 2.12. 14

Mãe Valnizia faz homenagem às mulheres. Foto:  Raul Spinassé / Ag. A TARDE: 2.12. 14

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre 

No último domingo comemoramos o Dia Internacional da Mulher, embora, para mim, essa data seja diária. Quero, portanto, falar de mulheres como minha bisavó Flaviana Bianch. Ela veio da África ainda pequena com a mãe, Margarida de Xangô, que instalou na Barroquinha o Terreiro do Cobre. Lá ele funcionou até que Flaviana, há 127 anos, o trouxe para o Engenho Velho da Federação, onde permanece até hoje.

Foram guerreiras, como a minha mãe Moura ou Maura – seu nome de batismo. Ela teve 13 filhos e criou a metade deles sem o companheiro e nosso pai, pois ele morreu quando eu tinha 11 meses. Para ganhar dinheiro, minha mãe carregou água, trabalhou como lavadeira, doméstica e fazia bolachinhas de goma e sequilhos para vender e poder completar a renda.

Desse grupo de batalhadoras fazem parte Mãe Tatá, ialorixá do Terreiro do Engenho Velho Casa Branca, conhecida pelo amor, carinho, respeito e dedicação aos orixás e à comunidade; a linda e saudosa Iyá Nitinha de Oxum, que ajudou muito o candomblé, deixando centenas de filhos iniciados; Mãe Stella de Oxóssi, ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, que, com sua experiência e inteligência, enriquece a nossa tradição religiosa.

Vale também destacar: Lélia Gonzáles, que tanto lutou pelos movimentos negro e de direitos humanos; Vilma Reis, socióloga, que trabalha pela formação de mulheres jovens; Yeda Pessoa de Castro, sempre empenhada na construção de uma sociedade melhor; a professora Makota Valdina Pinto, educadora de tantos jovens do Engenho Velho da Federação e adjacências, que batalha pela valorização do candomblé de nação angola-banto; Alaíde do Feijão, que criou seus filhos vendendo sua deliciosa feijoada; professora Ana Célia da Silva, incansável militante do movimento negro; Ivone Lara e Clementina de Jesus, que com suas vozes lindas, fortes e únicas encantam os nossos ouvidos.

Quero homenagear ainda Olga Mettig, por sua luta pela valorização do magistério; santa Irmã Dulce, religiosa da Igreja Católica que dedicou a vida ao amparo dos mais pobres e doentes; Ana Alice Costa, fundadora do Neim-Ufba e militante pelos direitos das mulheres; Amabília Almeida, única mulher do grupo de parlamentares que redigiu a Constituição do nosso estado; e Lídice da Mata, primeira mulher a assumir a prefeitura de Salvador e ser eleita senadora pela Bahia.

Gostaria de citar outras, mas o texto tem limite. Portanto, a partir das citadas, parabenizo todas, em especial as mulheres do Engenho Velho Casa Branca, que são minhas irmãs, mãe e tias de santo, e as do Terreiro do Cobre, minhas lindas filhas. Peço a Deus que continue a fazer surgir mulheres como essas e que a sociedade reconheça os seus valores e dê o espaço que elas merecem. Imagino estar incluída nesse grupo de guerreiras, mas não posso ter a pretensão de falar sobre mim. Como acho que sou um ser humano do bem, vou deixar para que outros falem (risos). Que Deus abençoe essas mulheres e suas famílias, pois só Ele pode tomar conta dos filhos daquelas que, para trabalhar e estudar, precisam deixar suas crianças tomando conta umas das outras, em creches ou até sozinhas, à mercê dos perigos da vida.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA


Balaio de Ideias: A guerra segue

postado por Cleidiana Ramos @ 6:32 PM
27 de fevereiro de 2015
Uma tomada da audiência pública sobre as mortes na Vila Moisés no Cabula, realizada ontem na OAB. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag. A TARDE

Uma tomada da audiência pública sobre as mortes na Vila Moisés (Cabula) , realizada, ontem, na OAB. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag. A TARDE

Wlamyra Albuquerque 

Nunca se tinha ouvido falar da Vila Moisés antes da chacina. O lugar não existia no mapa da cidade, exceto nas escalas da RONDESP. Lá não tem qualquer sinal de presença do Estado, lá não tem iluminação pública, asfalto, rede de esgoto, escola nem creche. Na Vila Moisés, o Estado se faz presente com as patrulhas policiais. O Cabula é um bairro repleto de histórias de insurgência, revoltas e pobreza negra desde os primeiros tempos da escravidão. Quilombolas, escravidos fugidos, libertos, adeptos do candomblé e tantos outros insurgentes viveram lá. Nem por isto se trata de um lugar marginal na Salvador do século XXI. No Cabula estão a Universidade do Estado da Bahia, escolas públicas e particulares, condomínio pra classe média e shoppings center. Nada disso existe na Vila Moisés.

A chacina aconteceu pouco antes do carnaval, nem os fartos confetes do Momo baiano enterraram doze cadáveres de jovens, que tinham entre 15 e 24 anos. Assim que os camarotes e arquibancadas baixaram as cordas e acordes carnavalescos, o Movimento Reaja ou será morto! Reaja ou será morta! conseguiu mobilizar diversos setores da sociedade civil e instituições ligadas aos Direitos Humanos para uma audiência pública mediada pela Ordem dos Advogados da Bahia. A audiência publica fez a sede da OAB transbordar com cerca de duas mil num auditório onde só cabiam 150 pessoas. A tensão se espalhava até a Praça da Piedade, de onde se podia ver e ouvir as representações dos sindicatos dos policiais distribuindo panfletos, exibindo cartazes e amplificando com carro de som o protesto contra os protestos que têm se multiplicado desde a chacina do Cabula.

Foi trazida pra o centro da cidade a ação policial que vitimou, no último 6 de fevereiro, doze jovens negros na Vila Moisés, no bairro do Cabula.

Ficaram lado a lado no auditório apertado, militantes do movimento negro, muitos policiais a paisana,–  alguns deles, armados – familiares dos jovens mortos, representantes da OAB nacional, lideranças políticas, o secretário da Justiça do Estado da Bahia, estudantes, dois vereadores (apenas dois) e outros tantos oportunistas seduzidos com o emaranhado de tripés e lentes das Tvs. Não demorou muito e um militante gritou o que todas as estatísticas confirmam: a juventude negra tem sido condenada a pena de morte, sem qualquer julgamento. A dois passos dele estava um policial que reagiu erguendo o braço e dizendo “eu sou preto também e não sou criminoso”. Foi só o começo. Durante mais de três horas, a questão racial pôs em situações limites quem exigia a investigação isenta do que houve na Vila Moisés e os que inocentavam os policiais envolvidos na chacina enquanto defendiam a própria Polícia, como instituição militar.

Na voz de policiais exaltados na platéia e representados na mesa por lideranças da categoria, dois argumentos se repetiam: a “Polícia defende os cidadãos de bem contra os criminosos que estão no tráfico de drogas” e os policiais também são vítimas, também são mortos. Não há quem duvide que os policiais também estão em risco. Hamilton Borges , do Movimento Reajá ou será morto! Reaja ou será morta!, tentou apaziguar os ânimos quando militantes e policiais se enfrentaram, dizendo que nesta guerra só morrem negros. Pois é, em nome da luta contra o tráfico de drogas, cada vez mais, só morrem negros sejam eles descalços ou fardados.

Também se ouviu todo tipo de absurdo. Certo capitão aposentado e mulato se disse vítima de racismo às avesas por ser branco. Outro, negro retinto, desafiava os presentes a entrarem numa viatura e não apertarem o gatilho. Em meio a tanto racismo, foi ficando evidente que o Movimento Negro tem rumo e propostas para a tal questão da Segurança Pública que tanto aflige aos governantes e aos “ cidadãos de bem”. Como disse Vilma Reis, as balanças de precisão, os helicópteros recheados de cocaína não nascem nas comunidades, onde a maioria é negra. Se a justificativa é o combate às drogas, o endereço é outro. A defesa de investigação federal sobre os grupos de extermínio na Bahia, a desmilitarização das polícias, a extinção dos Autos de Resistência foram propostas que mostram o quanto os movimentos sociais estão maduros e cientes de que a Segurança Pública no Brasil e, principalmente na Bahia, é uma questão racial.

O Mapa da Violência no Brasil, divulgado em 2014, mostra o quanto a vitimização tem cor. Entre 2002 e 2012 morreram 146,5% mais negros do que brancos na guerra urbana. Não faltam números, nem cadáveres negros para serem somados aos jovens do Cabula. Quem atendeu ao chamado de protesto do Movimento Reaja ou será morto! Reaja ou será morta! estava de luto por muito outros sepultados em covas rasas. O luto era ainda mais visível na atitude das mães e avós dos jovens mortos. A maioria dos parentes das vítimas não foi. Estavam com medo. Quem sofre uma violência policial sabe que quanto maior a visibilidade maior é o risco. Nenhuma delas se pronunciou durante a audiência. Silêncio de luto e medo, afinal como disse um policial, enquanto se retirava da sala de audiência, “a resposta a isto a Polícia dá é na área”. Quem é da área sabe o que isto quer dizer.

Entre quem defende uma discussão honesta, democrática e sem metáforas futebolísticas sobre Segurança Pública, o Brasil dos tempos da escravidão aparece como a raiz dos nossos problemas. Foi o que disse João Jorge, presidente do Olodum, e Humberto Ádamo, representante da OAB nacional. Os discursos deles convergiam para entender as razões do problema. A criminalização e a vulnerabilidade da população negra no século XXI, quando os números apontam um crescimento do número de assassinatos de jovens negros, seria explicada pelo terrível passado escravista que ainda nos assombra. É consenso, a escravidão é abominável e nos marca até hoje. Mas, o que o genocídio negro nos diz sobre os nossos dias e expectativas de cidadania numa sociedade ultra consumista? Será que dá pra por só na conta da escravidão a Vila Moisés só existir no mapa da RONDESP?

Ainda somos herdeiros do passado escravista, concordo; entretanto, por que a expressão cidadãos de bem é cada vez mais usada para dizer quem são os supostos bandidos a nos ameaçar? Colocar na conta, já bem e devidamente avolumada do passado escravista, a responsabilidade pela tensão racial no Brasil, dramatizada  na audiência da OAB, não pode ser uma maneira de libertar o Estado Republicano, de livrar seus sucessivos governos, democráticos ou não, que ainda relutam em dizer com todas as letras a quem ele chama de cidadão de bem. Não cabe só ao Movimento Negro apostar na nossa juventude. Os mortos dos pelourinhos ainda nos cercam mas é sobre o futuro e as políticas que reeditam, sorrateiramente, o racismo institucional que tratamos ao gritarmos no auditório transbordando de raiva e ressentimentos recentes o mesmo coro: Povo negro livre, povo negro forte que não teme a luta, que não teme a morte!

E a guerra segue na Bahia.

Wlamyra Albuquerque é doutora em História, professora de História do Brasil na Ufba e autora, dentre outros livros, de O Jogo da Dissimulação: abolição e cidadania negra no Brasil,  São Paulo: Companhia das Letras, 2009

 


Balaio de Ideias: Tá boa santa?

postado por Cleidiana Ramos @ 1:10 PM
14 de fevereiro de 2015
Um grupo dos irreverentes membros de "As coisinha" mantendo tradição dos travestidos no Carnaval baino. Foto: Divulgação

Um grupo dos irreverentes membros de “As coisinha”  que mantêm a tradição dos travestidos no Carnaval baiano. Foto: Divulgação

Jaime Sodré

Quem não gostaria de viver ao menos um dia o universo feminino? O Carnaval está aí para isso. Pouco se sabe a respeito das vestimentas dos Pitecantropus erectus, presume-se que não haveria distinção de vestimentas baseadas na questão de gênero, bastava uma pele para proteção. Em algumas civilizações africanas era comum uma túnica longa, indistinta. A calça trouxera com os colonizadores a proposta de “civilidade”, definindo o masculino.

Os negros na condição de escravos, para fugirem sem ser notados, vestiam os trajes das senhoras brancas. Nos primórdios da escola de samba os homens vestiam-se de baianas, inaugurando esta ala, ponto alto da escola. Item obrigatório e uma justa homenagem à nossa baiana Tia Ciata. Louvem-se os escoceses que vestem um saiote, elemento cultural.

A roupa e a interpretação feminina em corpo masculino é o que caracteriza o Teatro Noh japonês, em contrapartida temos outro teatro onde só as mulheres interpretam os papéis masculinos. Vem à lembrança a marcha carnavalesca de outrora: “O sonho do Juvenal/ É desfilar no Municipal// Mandou buscar em Paris/ Uma peça de lamê/ Pra fazer a fantasia/ Bordada de paetê// Chegou Juvenal na passarela/ Ninguém sabe se é ele/ Ninguém sabe se é ela”.

Carnaval é o mesmo que festa, criatividade, humor, glamour, alegria, música, espaço onde os foliões ou as folionas expõem todas as suas fantasias. Muitos assumem o seu lado feminino, alegre e descontraído fazendo a festa. Homens vestidos de mulheres no Carnaval é um fenômeno nacional, formando blocos “divinos e maravilhosos”, muitos estudiosos já opinaram sobre o tema, mas sem alcançar um consenso a respeito do fenômeno. Na verdade, sem erudição científica, Carnaval é pra soltar a franga.

Eles são heteros, mas nos dias de Momo querem se desinibir “assumindo o seu lado feminino”. Em oposição, desconheço bloco de mulheres vestidas de homem (Lembrei-me da nossa heroína Maria Quitéria). Em discurso elaborado chama-se esse comportamento de “crossdresser”, textualmente “vestir-se ao contrário”. Como na música de Pierre Onassis, “deixa de lero-lero e vem pra cá meu bem…”. Isso tudo é para louvar o cinquentenário da alegria irreverente do Carnaval, As Muquiranas.

Em texto de Ronaldo Jacobina, acompanhado das excelentes fotos de Fernando Vivas, a revista Muito registrara: “os cílios, postiços, claro, ganham ainda mais destaques com leves pinceladas de rímel. Para arrematar, o batom rosa-carmim”, colares e, com mais outros elementos, está “montada” a tão sonhada Muquirana, na versão de 2015, em homenagem às baianas.

Neste espaço saúdo o casal criador desse fenômeno do Carnaval, com doses de criatividade e belas fantasias, os sempre lembrados Charita e sua esposa D. Flor. Lindolfo Araújo de Carvalho, Charita, já fora “Nega Maluca”, onde só um homem se vestia de mulher. No início a proposta gerou polêmica, mas eles seguiram em frente, o apoio era sólido. D. Florisa, a esposa, sua mãe D. Aidê e suas primas Lícia e Léia estavam a costurar fantasias, temáticas e irreverentes, garantia do sucesso.

Aplausos e parabéns “às nossas meninas cinquentonas” e ao trio que não deixará este sonho se acabar, os herdeiros Luciano, Nenê e Washington.

Jaime Sodré é professor universitário, doutorando em História Social e religioso do candomblé


Balaio de Ideias: Ano novo e novas esperanças

postado por Cleidiana Ramos @ 7:00 AM
14 de janeiro de 2015
Mãe Valnizia analisa expectativas comuns ao início do ano. Foto: Raul Spinassé | Ag. A TARDE

Mãe Valnizia analisa expectativas comuns ao início do ano. Foto: Raul Spinassé | Ag. A TARDE

Valnizia Pereira Bianch, ialorixá do Terreiro do Cobre

Quando chega o ano novo, as pessoas têm expectativas e esperança de alcançar dias melhores. A espera é por conseguir realizar todos os objetivos que não foram alcançados no período que passou. Infelizmente, nem sempre tudo sai do jeito que cada pessoa quer ou acha que precisa. Às vezes o destino já colocou outras coisas em nossos caminhos ou aquilo que realmente estamos necessitados e não sabemos. Só não podemos desistir dos nossos sonhos. Temos que ter desejos e esperanças até mesmo porque os sonhos alimentam o futuro. Se deixarmos de sonhar como será que ficaremos? Só Deus sabe.

É necessário ter fé, paciência e determinação para lutar por aquilo que desejamos como se o amanhã fosse hoje. E, realmente, ele é. Dormimos e não sabemos se acordaremos. Nós sempre achamos que está faltando algo na nossa vida porque não temos o costume de andar olhando para trás. Mas se a nossa atenção estivesse voltada para o lado veríamos pessoas com problemas que não possuímos e aí iríamos agradecer o que conquistamos.

Se acordamos enxergando, andando, falando já estamos ganhando, pois existem outras pessoas que são cegas, surdas, cadeirantes e às vezes conseguem ser mais felizes do que aquelas que vivem sem nenhuma dessas deficiências, mas que reclamam de tudo e até de Deus ou do sagrado, dependendo da religião que seguem.

Claro que não podemos nos acomodar, sem luta não há vitória. Temos que lutar seja pelo que for – saúde, trabalho, amor – para que, quando chegar o ano seguinte, possamos realizar os nossos desejos porque onde há vida há esperança. O problema é que mantemos o costume de só lembrar das coisas ruins; as boas lembranças conservamos por poucos dias. Já as más passamos o ano todo remoendo.

Devido a essa angústia de querer que todos os problemas sejam resolvidos no novo ano, as pessoas, normalmente, querem saber qual é o orixá que vai governar os 365 dias, em busca de proteção. No candomblé, cada dia da semana simboliza um orixá, vodun, inquice ou caboclo. Às vezes, tem até dois no mesmo dia. Tudo isso é muito relativo, pois não é só o dia da semana que informa qual orixá é o comandante. Tem a numerologia, por exemplo, que diz alguma coisa.

Por isso eu prefiro não fazer jogo sobre essa questão, afinal cada pessoa vê de uma forma diferente. Mas diferente não é errado. É, simplesmente, diferente. O importante mesmo é cada um fazer o melhor que puder, até mesmo porque tudo na vida é bate e volta. Eu costumo dizer que ninguém planta abacaxi para colher banana. Então vamos plantar o que queremos colher.

Que todos os orixás, inquices, voduns e caboclos, portanto, nos deem um ano repleto de saúde e paz. Para o resto a gente corre de lado, porque atrás não alcança e na frente quem corre por nós é Exu, pois ele é o mensageiro e pode levar os nossos pedidos que devem ser bons e positivos. Costumam dizer que Exu faz isso ou aquilo, mas, na verdade, ele só leva o que as pessoas pedem e não tem culpa de nada. Nunca devemos esquecer que Exu é só um mensageiro. Axé.

Mãe Valnizia escreve mensalmente em dia de Xangô, quarta-feira


Balaio de Ideias: o Natal e suas diversas famílias

postado por Cleidiana Ramos @ 10:43 AM
17 de dezembro de 2014

MÃE VALNIZIA DE AYRÁ / TERREIRO DO COBRE

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre

Começo a colaborar com este jornal no período próximo ao Natal, festa cristã que reúne as famílias. Quando eu era criança, Papai Noel quase nunca passava pela minha janela. Infelizmente, quando se comemora o nascimento de Cristo é alegria para uns e tristeza para outros, principalmente as crianças menos privilegiadas, que não entendem o que é o Natal e por que Papai Noel não passou pelas suas janelas para deixar presentes.
Como eu sabia que Papai Noel não ia passar na minha janela, eu e outras crianças da comunidade do Engenho Velho da Federação íamos pegar fichas para retirar os brinquedos distribuídos em uma garagem de ônibus na Vasco da Gama. Ficávamos em filas quilométricas debaixo do sol e tinha muita confusão. No dia seguinte, íamos buscar os brinquedos: para as meninas era uma boneca pequena que, no segundo dia, mesmo com todos os cuidados que eu e minhas amiguinhas tínhamos, perdia os cabelos. As bolas dadas aos meninos também esvaziavam no segundo dia, assim como os carros soltavam as rodas. Mas ainda assim éramos felizes.
As famílias se reuniam e os vizinhos eram considerados parte delas: era a comadre, o compadre. Cada um levava um prato para a casa do outro. Lembro que minha mãe fazia rabanada com pão duro passado em leite e ovos, fritava e depois colocava açúcar e canela em pó. Era uma delícia.
As casas, nessa época, tinham um cheiro que trazia a lembrança de que era Natal por conta das folhas de pitanga, são-gonçalinho e flores de angélica, que comprávamos na horta de Seu Lídio. O cheiro se misturava ao das frutas – abacaxi, manga, melancia e umbu. O chão de barro batido era molhado no dia anterior. Então colocávamos folhas de banana para deixar liso. À tarde tirávamos as folhas de banana e colocávamos areia, as folhas de pitanga e de são-gonçalinho.
Os vizinhos criavam juntos, durante o ano inteiro, um peru que, por isso, era chamado de “peru de meia”. Na véspera de Natal dava-se cachaça ao peru para então matá-lo. As crianças tinham que ficar no quarto para que não vissem a morte, mas sabiam o que estava acontecendo. No outro dia, ele era servido com farofa.
Mesmo com dificuldades, o Natal é um momento solene. Com muita comida, bebidas e presentes ou até mesmo sem nada disso, as famílias se reúnem e isso é muito importante. Quando estamos reunidos, como família, trocamos coisas boas, energias, saúde, alegria e até mesmo tristezas. Família é uma das coisas mais importantes da vida, pois só ela nos dá a base dos valores que servem para o resto da vida.
O povo de santo, ou seja, de candomblé, é privilegiado porque tem duas famílias: a consanguínea e a religiosa. Assim tem mais oportunidades para a confraternização familiar. Os que não têm a família consaguínea têm a outra. Muitas vezes, meus filhos de santo não têm parentes por perto, mas a qualquer necessidade têm seus irmãos religiosos para ajudar nos momentos de alegria e tristeza. Também temos mais oportunidades para confraternizar com ou sem Papai Noel deixando presentes nas janelas. Feliz Natal para todos com muita saúde, que é o bem maior da vida. Axé.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA


Balaio de Ideias: Uma donzela arisca: a perfeição

postado por Cleidiana Ramos @ 3:26 PM
26 de março de 2013

Imagem do livro “O candomblé da Barroquinha” do antropólogo e professor da Ufba, Renato da Silveira. Foto: AG. A TARDE

 

Car@s: na semana passada, não pude publicar o artigo de Mãe Stella. Então vai aqui um aperitivo com um lembrete: amanhã, quarta-feira, tem mais.

 

Maria Stella de Azevedo Santos

Oxaguiã é um orixá guerreiro. Sua maior luta é pela perfeição: de si mesmo, dos outros e das coisas. Odeia a preguiça, que ele considera o inimigo número um da perfeição. Da união de Oxaguiã com Iyemanjá, nasceu Ogum, orixá guerreiro como o pai. Ogum guerreia para destruir o que precisa ser renovado, enquanto Oxaguiã luta para construir o que foi destruído. Neste vai e vem de batalhas, Oxaguiã foi um dia à cidade de Ogum para buscar munição e encontrou o povo em festa. A comemoração era pelo término da construção do novo palácio do rei Ogum. Tudo parecia perfeito. Não para Oxaguiã! Ele bateu sua poderosa espada no palácio, que ruiu imediatamente. O povo ficou irado! “Tanto trabalho jogado fora, por um capricho de Oxaguiã”.

O pai de Ogum então falou: “O rei de vocês está em guerra e não voltará tão cedo. Por que entregar este palácio para ele, quando um muito melhor pode ser construído?”. Passado um tempo, Oxaguiã retornou à cidade e encontrou o palácio reconstruído. Entretanto, tudo se repetiu: O pai de Ogum destruiu o novo palácio e ordenou que o povo construísse outro, ainda mais perfeito.

Aconteceu que o dia da volta de Ogum se aproximava, só restando para Oxaguiã contentar-se com o último palácio construído, que para todos estava mais do que perfeito. De tanto reconstruírem o palácio, os moradores daquela cidade passaram a ser conhecidos como “os construtores quase perfeitos”. O povo não gostou daquele “quase” e ousou reclamar com a divindade. Oxaguiã disse: “A perfeição é como uma donzela arisca, ela se compraz em ser buscada, mas nunca permite ser encontrada e muito menos ser cultuada”.

Esse itan (estória narrada de geração para geração) fala sobre a importância da busca pela perfeição. Outro dia ouvi o seguinte comunicado: “Não basta fazer, é preciso fazer com amor”. Eu completo esse lindo comunicado, dizendo: Não basta fazer, é preciso fazer com amor, mas fazer bem feito. E ninguém faz nada bem feito se não tiver tempo. Se a preguiça é o inimigo número um da perfeição, a falta de eficiência para lidar com o tempo é o número dois. É por isso que se diz: “Quem tem tempo faz a colher e borda o cabo”.

Quem tem tempo faz arte. E a arte é uma das importantes formas de aproximação com o sagrado. Não é preciso ser artista para se fazer arte, é preciso apenas se tentar fazer as coisas da melhor maneira possível. Tanto nas coisas mais simples, como nas mais complexas; tanto nos assuntos sociais, quanto nos assuntos religiosos.

Lavar os pratos e estar atento para não deixar na pia nem um grão de arroz, de modo que a harmonia e pureza externas ajudem a harmonizar o interior de quem penetre naquele recinto, é arte. Quem me ouve ou lê o que escrevo está acostumado a ouvir a frase “estou sempre correndo atrás da perfeição”. Acontece que quanto mais eu corro atrás da perfeição, mais parece que a perfeição corre de mim. É como um gostoso jogo de “picula”, onde não tem vencido nem vencedor. E a graça consiste exatamente nisso: tentar, incansavelmente, domar essa virgem rebelde. Sim, acredito ser realmente virgem, a perfeição.

Não conheci ninguém que conseguiu casar-se com ela, apesar de não lhe faltar pretendentes. Entretanto, todos nós gostamos de crer que existem pessoas perfeitas. Gostamos de criar ídolos. Um grande risco, tanto para quem idolatra, quanto para quem é idolatrado. Parece que precisamos de ídolos para seguirmos, como se a “perfeição” (ou o axé) do outro pudesse ser por nós absorvida.

O caminho para a perfeição não é reto, ele é cheio de saliências e reentrâncias. É um caminho individual, como individual é o encontro que cada um tem com sua própria forma de construir e reconstruir seus palácios, sejam eles de areia ou de cristal.  A perfeição, como o próprio nome indica, é um movimento em direção a: alguma coisa, algum lugar, alguém… Aperfeiçoar-se é simplesmente manter-se em movimento; é buscar sempre o que lhe parece faltar a cada dia, a cada momento. E é Oxaguiã o orixá que nos auxilia a manter acesa essa chama. É Oxaguiã o orixá que estimula o progresso.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, seus artigos são publicados em A TARDE, sempre às quartas-feiras 


Balaio de Ideias: O cardeal sem carisma virou um papa pop

postado por Cleidiana Ramos @ 10:25 AM
1 de março de 2013

Pessoal: estou republicando aqui o artigo que saiu hoje em A TARDE sobre as  impressões que tenho sobre a renúncia de Bento XVI .

A renúncia de Bento XVI abre caminho para várias reflexões. Foto: Nat Geo/ Divulgação

Cleidiana Ramos

Quando o cardeal Joseph Ratzinger tornou-se o papa Bento XVI, em 2005, o sentimento de católicos praticantes e de quem gosta de acompanhar as coisas da Igreja, como eu, misturou surpresa e desagrado.  Isso porque o sucessor do carismático João Paulo II  era o homem que passou décadas à frente da Congregação para a Doutrina da Fé com a missão de defender com garras de leão os dogmas católicos e a doutrina moral que causam tanta polêmica no mundo contemporâneo.

Para os brasileiros, a  antipatia a Bento XVI era mais forte, pois uma das suas mais conhecidas cruzadas foi contra a Teologia da Libertação, que teve como um dos expoentes o frei franciscano Leonardo Boff.

Mas o que se viu nestes oito anos de pontificado de Bento XVI foi uma versão light do cardeal Ratzinger. Foram poucas as polêmicas de Sua Santidade diante do que se esperava. Não se reconheceu neste papa, por exemplo, o homem que jogou por terra um esforço de anos do diálogo entre a Igreja Católica e outras denominações cristãs. Como chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, Ratzinger divulgou um documento afirmando que a Igreja Católica era o único veículo  da salvação, o que causou um rebuliço entre as outras vertentes do cristianismo.

Também não se viram pronunciamentos vindos de Bento XVI mais fortes do que sempre foi a toada da Igreja contra o aborto, o sexo antes do casamento ou a homossexualidade. O seu pontificado, inclusive, andava muito discreto, mesmo diante de escândalos como o  Vatileaks, produzido após o vazamento de documentos importantes tornados públicos por um homem da corte papal: o mordomo Paolo Gabriele.

Daí que até agora não se encontrou aquela resposta que é capaz de satisfazer todo mundo sobre os motivos reais dessa renúncia. Bento XVI está muito doente e por isso renunciou? Difícil concluir isso quando seu antecessor, João Paulo II, praticamente definhou diante das lentes de cinegrafistas e fotógrafos de todo o mundo.

Os escândalos sobre corrupção e deslizes sexuais de sacerdotes o obrigaram a abrir mão do Trono de Pedro? Talvez, mas ainda assim é difícil imaginar o combustível desses acontecimentos para o gesto extremo da renúncia, pois nada disso é novo na história da Igreja.

Penso  que há uma soma das duas coisas, pois não tenho dúvidas de que calçar as Sandálias do Pescador, como se diz de quem vira papa, modificou Joseph Ratzinger. Ele deve ter descoberto que este calçado martiriza mais do que o manto vermelho que é símbolo da disposição dos cardeais em dar o sangue pela Igreja.

Um homem que ocupou a Congregação para a Doutrina da Fé deve ter adversários poderosos. A Igreja vive a partir de um alicerce de fé, mas é construída por homens e mulheres com todas as contradições de que é feito o ser humano.

As brigas internas de poder nem sempre podem ser vencidas por quem tem a autoridade máxima. E o Vaticano também é um poder temporal, pois não é à toa que o papa é considerado chefe de Estado. Diante de tantos desafios, não há saúde que aguente, ainda mais para um homem que vai completar 86 anos.

Como papa, Bento XVI deve ter chegado mais perto do entendimento do que significa o universalismo do catolicismo e os desafios de tentar conduzi-lo. A Igreja declara-se una, mas em cada canto do mundo tem uma face.

Durante a visita a São Paulo, em 2007, Bento XVI estava claramente entusiasmado com o calor da  Igreja Latina a ponto de sorrir e fazer questão de anunciar  que ia mudar de idioma durante a missa em Aparecida.

A renúncia talvez tenha sido a sua forma de mostrar ao mundo que a  Igreja vive uma crise muito mais profunda do que se imaginava. Se não conseguiu conter os dramas que atormentam a instituição por meio da política ou pelo exercício da autoridade, Ratzinger apelou para o que, à primeira vista, parece um gesto de fraqueza, mas demandou muita coragem.

Ele não virou um mártir por questões de saúde, como seu antecessor, mas entra para a história como o homem que vai fazer do silêncio e da vida trancada em um convento as últimas armas da sua cruzada pela renovação que ao menos imagina ser necessária para a Igreja. Se o seu gesto vai funcionar ou não, é outra história.

Cleidiana Ramos é editora do Grupo A TARDE, especializada  em assuntos sobre religião


Balaio de Ideias: E o mundo não se acabou

postado por Cleidiana Ramos @ 6:18 PM
27 de fevereiro de 2013

Mãe Stella faz reflexão sobre o comportamento das pessoas diante do mundo que nos cerca. Foto: Gildo Lima/Ag. A TARDE/ 18.03;2011

Maria Stella de Azevedo Santos

A ciência, entretanto, pesquisa e já chega até a afirmar que nosso planeta pode, sim, findar-se um dia. O planeta Terra é um ser vivo, e como todo ser vivo está sujeito a vários tipos de transformações. Esse é um assunto tão sério e profundo que me parece ser específico dos cientistas. A nós, “pobres mortais”, resta-nos viver. Se algo temos que pensar é o que fazer com a vida que nos resta e que tipo de pessoa queremos ser nesta vida.

São muitas as opções. O ser queixoso, que faz de um pequeno incidente uma tragédia; o eterno insatisfeito, que por mais que receba sente-se como um saco vazio incapaz de ser preenchido; o “palpiteiro”, que parece entender de tudo, mas pouco sabe e o que sabe é superficial; o carente, o adulto infantil que insiste em não crescer para poder estar sempre pedindo colo, esquecendo-se que já está na idade de oferecer o seu; o misterioso, que faz de seu simples dia a dia uma arca de segredos profundos, facilmente decifráveis.

Outros tipos de opções também existem: o ser disponível, cuja presença é traduzida como atuação positiva; o grato, que ao valorizar os favores recebidos ajuda a não desestimular as pessoas doadoras; o flexível, que absorvendo a diversidade permite que o colorido possa ser apreciado; o alegre, que torna os fardos leves como plumas; os guerreiros, que mesmo perdendo as batalhas entendem que têm guerras a serem vencidas.

Será uma atitude esperada que o leitor se veja em uma dessas opções, e ainda procure encaixar nelas seus conhecidos. Creio ser essa uma atitude saudável, caso o leitor consiga fugir da tendência de se ver como um tipo considerado positivo, enquanto seus pares são colocados no lado oposto. É uma grande tentação, da qual se deve procurar sempre escapar. Não é só a culpa que colocamos nos outros, os defeitos também. Quando não temos como culpar ninguém, o sistema, os governos e até os deuses passam a ser os vilões.

Hoje, ao assistirmos e lermos os jornais, gostamos de comentar sobre a violência que assola o mundo. Entretanto, esses mesmos meios de comunicação já noticiaram pesquisas científicas comprovando que o período que vivemos é o menos violento pelo qual passa a humanidade. Parece incrível, mas é verdade, basta dar um passeio pelos livros de História Universal que encontraremos barbaridades.

A diferença parece estar clara, é que hoje tomamos conhecimento diariamente do que acontece no mundo. Não comento esse fato para nos conformarmos com a violência, mas sim para que ao entendermos que ela já foi muito pior, possamos ter a esperança que ela continuará diminuindo, caso cada parcela da sociedade e cada indivíduo faça a parte que lhe é devida.

Os seres vivos, todos, carregam em si o instinto da agressividade. Podemos ver isso em nós mesmos, nos animais, nas plantas e na natureza como um todo. Raios, tufões, vulcões não podem ficar invisíveis aos nossos olhos. A agressividade sempre existiu e sempre existirá na natureza, e é claro no homem. Afinal, não existe a natureza e o homem, e sim “a natureza” da qual o homem faz parte.

É interessante observarmos que essa “agressividade” varia de intensidade não só de pessoa para pessoa, como até mesmo entre os vulcões, por exemplo. Quando o instinto já é forte e o meio ainda o estimula, a situação fica pior. Aos cientistas cabe a tarefa de criar mecanismos para prever as tragédias naturais, a fim de que a destruição causada por elas sejam minimizadas, além de ampliar os estudos sobre cérebro e comportamento humanos; os governos precisam concentrar esforços para aprender a não apenas coibir, mas fornecer condições favoráveis para que a agressividade não domine o homem.

Digo e repito, todos os instintos com os quais nascemos devem ser usados para nossa sobrevivência. Devemos ter controle sobre eles, e não o contrário. Não podemos nem devemos permitir que nada nem ninguém nos domine, nem mesmo nossos instintos. O inverso também é uma verdade: não podemos, nem devemos desejar dominar nada nem ninguém, nem mesmo nossos instintos. A permanente busca pela convivência harmônica é a chave.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonja. Quinzenalmente, ela escreve em A TARDE, sempre às quartas-feiras


Balaio de Ideias: Verão é movimento e inspiração

postado por Cleidiana Ramos @ 9:11 PM
16 de janeiro de 2013

Mãe Stella destaca importância do movimento para o Candomblé. Foto: Margarida Neide/ Ag. A TARDE/ 07.12.2012

Maria Stella de Azevedo Santos

Corpo físico ou concreto, corpo espiritual ou abstrato; ambos precisam de movimento para aumentar e conservar as energias. Sem exercício físico nosso corpo fica pesado e enfraquecido, atuando com muita dificuldade, executando tarefas simples como se carregasse terríveis cargas. O movimento serve para limpar nossos corpos, concreto e abstrato, das energias negativas que concentramos em torno deles, vindas não só do mundo externo, como também do nosso mundo interior. Do exterior vêm as pragas, calúnias, infâmias, “olho gordo”; do interior emitimos vibrações de ganância, inveja, má “querência”. Todos esses sentimentos, naturalmente humanos, nos deixam carregados, pesados e sujos.

Para nos sentirmos leves a ponto de nosso espiritual poder conectar-se com as parcelas abstratas do universo, é preciso então movimentar-se. Na religião dos orixás, o movimento é uma constante nos rituais: cozinhamos, dançamos, ajoelhamos e levantamos diversas vezes em um único momento. Nossos exercícios de concentração são realizados quando cortamos quiabo para o amalá; quando tiramos a casca de cada grão do feijão para fazer o beguiri; quando colamos uma por uma das bandeirolas que enfeitam o barracão; quando, pacientemente, tiramos pena por pena das aves que serão oferecidas aos deuses.

É por essa e outras razões que não é interessante comprarmos e usarmos máquinas para cortar quiabo e depenar galinhas. Exercícios de concentração fazem com que a energia adquirida com a manifestação da divindade, com os banhos de folhas e ebó não seja perdida, fique concentrada em nós, fazendo com que sejamos pessoas mais fortalecidas para enfrentarmos as tarefas e guerras diárias. Sem exercício físico nosso corpo padece com dores diversas. Sem exercícios respiratórios, de concentração, reflexão e de meditação nosso espiritual fica sem forças para cumprir a principal Lei Universal: a Lei da Evolução.

 Não faz parte das obrigações dos iniciantes e iniciados no candomblé realizarem exercícios respiratórios, pois estes são executados, naturalmente, durante a dança ritualística, quando inspiramos e emanamos o ar de maneira intensa. A meditação no candomblé se faz desde o carregar silencioso da água para encher quartinhas e talhas, passando pela também silenciosa limpeza da manifestação concreta da divindade, chegando até o jogo de obi, quando o iniciado pode estabelecer um “diálogo” espiritual com a sua própria essência divina.

O movimento corporal, mental e espiritual deve ser começado logo que se acorda. Se começamos um dia na inércia, passamos um péssimo dia e uma noite ruim. A natureza é sábia. Gastamos gradativamente a nossa energia. Pela manhã estamos com uma energia renovada, pronta para ser usada. Ao meio-dia estamos plenos. No decorrer da tarde já nos desgastamos e à noite precisamos dormir para recompô-la (isto é a regra geral, não nos esqueçamos das exceções). Assim também quando a nossa infância e mocidade são sedentárias, temos uma velhice precoce e sem graça, sem força espiritual.

O movimento é fundamental, porém com equilíbrio, como tudo na vida. Às vezes fico a assistir aos omorixá (filhos de santo) andando apressadamente, para executar tarefas que têm tempo de sobra para serem executadas com tranquilidade. Isso é desperdício de energia! É queima desnecessária do combustível que adquiriram através da concentração, respiração, meditação. Por que e para que correm tanto? – pergunto-me. Para provar aos outros ou para si mesmo que estão em atividade? Para que esgotando o corpo físico, a mente não possa refletir sobre os comunicados enviados pelos deuses e ancestrais… As perguntas ficam sem respostas, pois creio que cada caso é um caso.

De repente, é o desejo intenso de servir ao sagrado. O importante é que cada um aprenda a movimentar-se e aquietar-se com equilíbrio. A quietude necessita do movimento e o movimento da quietude. Tanto que cantamos para a folha rinrin: Rinrin là bexê, wa gbejê ni ki wa bexê hu bó, querendo dizer: Rinrin que é puro vem na frente, nós ficamos quietos para não incorrermos em erro e chorarmos alto.

Mãe Stella é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Ela escreve, quinzenalmente, às quartas-feiras, em A TARDE


Balaio de Ideias: É bom ser mãe. Desde que meu filho esteja vivo

postado por Cleidiana Ramos @ 12:23 PM
8 de maio de 2010

Maíra Azevedo

Mãe é tudo igual! Quem nunca ouviu essa expressão? Mas agora que faço parte deste conjunto sei o quanto essa frase é falsa. E digo isso com propriedade de uma mulher negra que pariu uma criança negra em uma sociedade racista como é a brasileira.  Toda mãe pede em suas preces, seja para qual deus for, que seus filhos estejam em segurança. A mãe negra não. Ela pede ao seu deus que seu filho não seja abordado pela segurança de qualquer lugar e entre para as estatísticas.

Estatísticas essas que nos acompanham desde cedo. Pesquisas do Núcleo de Estudos de População da Universidade Estadual de Campinas – NEP/UNICAMP identificaram uma diferença sistemática na mortalidade de crianças menores de um ano. Os estudos constataram que houve no Brasil uma redução nos níveis das taxas de mortalidade infantil, entre a década de 70 e fim dos anos 90. Porém, ao introduzir na análise o quesito raça/cor declarado pelas mães, observou-se que a redução se deu de forma desigual entre as raças.  Enquanto o índice de mortalidade das crianças declaradas brancas foi reduzido em 43%, o número das crianças declaradas negras foi sensivelmente menor, apenas 25%.

E quando consegue a façanha de sobreviver, tem em frente um novo desafio. Manter-se vivo. Tudo bem,  eu sei que o destino de todos nós é a morte. Todos, independente de cor. Mas, para nós negros esse destino sempre tenta chegar mais cedo.

Sei que pode parecer mórbido escrever sobre isso quando se aproxima o Dia das Mães, uma data que as lojas capitalistas aproveitam para nos entupir com suas quinquilharias e com isso fazer com que a gente concorde que ser mãe é bom. É bom mesmo, aliás, maravilhoso, mas quando temos o nosso filho perto da gente e nem precisa trazer presente. Mas essa é uma realidade que nós mulheres negras, que tivemos a ousadia de parir, cada vez mais não temos.  Mórbido mesmo é rezar o tempo todo para o filho não ser vítima de uma chacina, não ser apontado como um provável marginal e a mãe ter que ir ao Instituto Médico Legal (IML) para reconhecer os restos mortais, porque nem sempre nos resta o corpo.

Sei que muitos vão afirmar que essa dor não é um “privilégio” apenas  das mulheres negras  e que  a dor de uma mãe que perdeu um filho, seja por qual motivo for, é insuperável. E eu digo categoricamente que concordo. Aí sim, na dor somos muito parecidos, mas também sofremos de forma diferente  e em posições distintas, cada uma no seu quadrado.  E olhe que digo isso, apenas como uma jovem e nova mãe.

Meu filho é um sobrevivente das estatísticas, tem um ano e 11 meses. Mas, desde já, o meu maior medo é que algum dia a polícia ou um grupo de extermínio execute o aborto que eu não tive coragem de realizar. E os episódios não aconteçam na ordem natural, pois, o maior presente para uma mãe é acreditar que ela vai embora antes do seu filho e não o contrário. É bom ser mãe, né?

Maíra Azevedo é  jornalista e militante da União de Negros pela Igualdade (Unegro)


Balaio de Ideias: Inserção ou Intolerância?

postado por Cleidiana Ramos @ 4:55 PM
10 de setembro de 2009

Capitão Marinho

No próximo dia 20 de setembro, na cidade do Rio de Janeiro, haverá a II Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa. Entre os fatores que ensejaram a criação da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, que já está promovendo a segunda caminhada, houve o fato de uma mãe perder, provisoriamente, a guarda do filho caçula porque a juíza – leia-se ESTADO – entendeu que ela não tinha condições morais de criar a criança por ser candomblecista. Ou seja, por ter uma religião, indubitavelmente, diferente da religião da juíza, em um País Laico, a mãe pagou com a perda do filho.

Infelizmente, não gostaria de escrever sobre estes assuntos, entretanto não posso me furtar e permanecer calado diante de tantos insultos ao próximo pelo simples fato da pigmentação da pele ser escura, o cabelo ser encarapinhado ou a religião ser de matriz africana. Não acredito no fato de que as benesses para os negros surgem naturalmente, sem que haja qualquer tipo de intervenção; por isso, vamos adiante!

É comum no Exército, por ocasião das datas festivas (dia do Exército, dia do Soldado, aniversário de batalhão e, mais recentemente, na semana da Pátria), haver cultos religiosos para os militares. E como os cultos são feitos para os militares, todos são obrigados a participar. Não só sou a favor, como incentivo às práticas religiosas dentro dos quartéis. Todavia, o descaso para com muitos militares é estarrecedor.

Nos quartéis, existem os cultos: católicos, evangélicos e espíritas. Logo, quem é ateu já ouve, de imediato, a seguinte frase do seu superior hierárquico: quem é ateu tem que escolher uma religião para assistir o culto, pois só pode haver um destes três destinos – culto católico, evangélico ou espírita – para o militar. Você que está lendo, neste momento, pode está pensando que não há nada de mais em um ateu ser obrigado a freqüentar um culto religioso. Apesar do ateu não poder ser obrigado a freqüentar nenhum tipo de culto religioso, pois é inviolável a liberdade de consciência e de crença (Art. 5º, VI da CF/88), o fato em questão é outro: e quem é do candomblé ou da umbanda faz o que diante de uma ordem emanada de um superior hierárquico dentro do quartel? Não cumpre e vai preso?

Os cultos religiosos dentro dos quartéis são imprescindíveis, entretanto o candomblé e a umbanda são religiões e seus adeptos não podem ser relegados e, muito menos, obrigados a participar de outros cultos religiosos. Será que os comandantes não sabem que existem religiões de matrizes africanas? Ou será que eles acham que no Exército não existem pessoas de religião distinta da católica, evangélica e espírita?

Já passou da hora dos Babalorixás e Yalorixás ocuparem posição de autoridade – igual ocupam os Bispos da Igreja Católica – nas cerimônias militares do Exército. Quando debato sobre políticas afirmativas dentro dos quartéis, meus superiores me dizem que a nossa Nação não tem brancos e negros, mas sim brasileiros. Eu agora afirmo: há brasileiros na umbanda e no candomblé. Logo, tem que haver a inserção destas religiões nos quartéis. Caso contrário, é intolerância religiosa.

O capitão Marinho é membro do Exército brasileiro e mestre em Direito.


Seção em formato especial

postado por Cleidiana Ramos @ 11:04 AM
30 de abril de 2009

Como vocês vão notar aí abaixo o artigo da nossa seção Balaio de Ideias (desculpem, mas só agora percebi que estava usando a grafia anterior ao famigerado acordo ortográfico e, portanto, com acento, mas já corrigi) está maior do que de costume. A expcepcionalidade é porque o autor do artigo, o professor Jaime Sodré, disponibilizou um texto com base histórica sobre Mãe Menininha e que, como ele mesmo indicou, pode servir de base para conteúdos relacionados à aplicação da Lei 10.639/03.  O final do texto, inclusive, tem referências da origem das informações. Aproveitem então.  


Balaio de Ideias: Mãe Menininha do Gantois- Iyá Mi Oxum*

postado por Cleidiana Ramos @ 10:57 AM
30 de abril de 2009
Sacerdotisa inspirava a doçura característica de Oxum, orixá a qual era consagrada. Foto: Arquivo A TARDE

Sacerdotisa inspirava a doçura característica de Oxum, orixá a qual era consagrada. Foto: Arquivo A TARDE

Jaime Sodré

Para ser aplicado no uso da Lei 10.639/08.

“Os candomblés estão batendo/Foguetes explodem no ar/Em louvor a Menininha/Senhora Mãe e Rainha do Gantois/ Pelo seu aniversário/ De cinquentenário de iyalorixá/ Oh,oh,oh. Salve Mamãe Oxum/ Salve meu Pai Xangô/Cinquentenário de Batalha/Cinquentenário de fé/ Desde quando recebeu/ Os poderes de Maria dos Prazares Nazaré/ Sua vidência se alastrou Iyaô, Iyaô, Iyaô/Sacerdotisa de uma raça/Rainha de uma nação/Na luta em defesa dos descrentes/Ela sempre estendeu suas mãos/Hoje os candomblés estão batendo/Pra seu nome venerar/Iyami Modijubá/Salve o seu axé/seu candomblé/no alto do Gantois. .[1]

Ederaldo Gentil, inspirado compositor baiano, sintetizou, neste belíssimo samba, um acontecimento que mobilizou os diversos segmentos da Cidade de Salvador em 1972: o centenário de sacerdócio de Maria Escolástica Nazaré, a festejada Mãe Menininha do Gantois, a “Oxum mais bonita”, como afirmaram os versos de outro compositor famoso, Dorival Caymmi. Assim era Menininha, cantada em verso e prosa mas, acima de tudo, respeitada e reverenciada. Vamos nos valer de um depoimento efetivado por Mãe Menininha, junto ao etnólogo Valdeloir Rego, para nossas acertivas.

Nascida a 10 de fevereiro de 1894, na Rua da Assembléia, entre a Rua do Tira Chapéu e a Rua da Ajuda, no Centro Histórico de Salvador, Menininha teve como pais Joaquim e Maria da Glória Assunção. A sua família era dedicada ao culto dos Orixás, possuindo linhagem nobre, com raízes localizadas em Agbeokuta, na Nigéria, de onde vieram os pais de Maria Júlia da Conceição Nazaré, fundadora do Terreiro de “nação” Keto na Bahia, esse Terreiro que, da Barroquinha, zona central de Salvador, transferiu-se para um terreno, arrendado à família Gantois, localizado no bairro da Federação.[2]

Maria Escolástica, nascida no dia de Santa Escolástica, foi iniciada nos ritos africanos com a idade tenra de oito meses de nascida, oportunidade em que sua tia e antecessora, Pulcheria da Conceição Nazaré, conhecida como Kekerê, numa alusão à sua titulação hierárquica ocupando o cargo de Iya kekerê (Mãe pequena), vaticinou: “É filha de Oxum”, e a profecia concretizou-se. Oxum é a Deusa da beleza e do rio. Oxum, na Nigéria, é um Orixá muito popular e é cultuado em Salvador com extrema devoção.

A 18 de fevereiro de 1922, “a estrela mais linda do Alto do Gantois” inicia a sua trajetória religiosa, tendo recebido o poder místico diretamente de Oxóssi, Deus da Caça, rei de Keto, e de Xangô, Deus do Fogo e do Trovão, rei de Oyo, secular capital do povo yoruba.

Assumir a liderança do Ilê Iya Omin Axé Iyamassé, o Terreiro do Gantois, com pouca idade não se daria sem a natural polêmica. Além do mais, normalmente, o Axé, ou seja, o poder místico para exercer o cargo de Mãe-de-santo, é passado por outra Mãe-de-santo, qualificada para tal. Os ânimos foram apaziguados porque foram os Orixás que realizaram a escolha: “Os Orixás quiseram logo escolher quem ficaria tomando conta da Casa. E eles mesmos me deram posse, não foram pessoas não. Primeiro foi Oxóssi, depois Xangô, Oxum e Obaluaê. Eles me deram esse cargo de felicidade que estou ocupando até o dia em que Deus quiser,”[3]  comentava.

Menininha sucedeu Maria Pulchéria, que havia falecido, um grande nome, merecedor de um estudo aprofundado.De um candomblé situado no Barroquinha, fundado pelos africanos Babá Assiká, Babá Adetá e Iya Nassô, nasceu o Ilê Iya Nassô, conhecido como candomblé do Engenho Velho, a famosa Casa Branca, e o Axé Iyamassé, titulação litúrgica do também famoso Candomblé de Menininha. Maria Júlia da Conceição Nazaré, que carregava orgulhosamente sobre sua cabeça o Orixá Bayani, irmão de Xangô, foi a fundadora deste respeitado templo da religiosidade afro-brasileira.

O nome de Maria Júlia, em nagô, era Omonikê; sua mãe chamava-se Akalá e o seu pai Okanrindê, nascidos em Akê, local onde fica o Palácio do rei de Agbeokuta, na Nigéria. Akalá tinha como orixá (dono de sua cabeça) Nanã Buruku, e Okanrindê possuia como orixá Aganju e ocupava, junto ao rei, um alto cargo intitulado Assolu Obá.

Reafirmando sua qualidade de estar sempre integrada aos fatos do seu tempo, Mãe Menininha abordava diversos aspectos que interagiam com seu cotidiano, o que deslumbrava sua visão de mundo e o contexto social circundante às suas atividades de sacerdotisa.

A respeito de seu carinhoso apelido, dizia: “Não sei quem pôs em mim o nome de Menininha… Minha infância não tem muito o que contar… Agora, dançava o candomblé com todos desde os seis anos”, o que revela uma precocidade bem vinda e um acúmulo de conhecimentos, revelados importantes em sua idade madura, no exercício do cargo de Iyalorixá.

Referindo-se aos tempos sombrios do violento preconceito e perseguições ao culto afro-brasileiro, assim expressava-se: “Eu tinha 22 anos no tempo da perseguição violenta da polícia aos candomblés, não era Orixá nem Mãe-de-santo. Foi uma época dura.” Identificando os algozes deste período brutal, e caracterizando sua atuação, dizia: “Um delegado que conhecemos muito, Dr. Pedro de Azevedo Gordilho, incomodou muitos pequenos candomblés.”

Mais tarde, recebe a convocação para o exercício de sua vida de liderança religiosa: “Quando os Orixás me escolheram, não recusei porque respeito muito a seita… Esta obrigação é árdua, não é uma coisa que se pegue com uma mão só… Isso é uma coisa de grande responsabilidade”. Dizia, consciente da grande missão que os Orixás lhe reservaram.

Contemporânea de figuras memoráveis do candomblé, Mãe Menininha respeitava-as, porém sabia da sua capacidade e conhecimentos para uma tarefa tão importante: “Conheci os grandes candomblés da Bahia…  Conheci as grandes Mães-de-santo: a do Engenho Velho, Ursulina; a outra, Senhora Marcelina; dona Aninha do Axé Opo Afonjá… Apesar de ter sido escolhida pelos Orixás muito nova, nunca precisei pedir conselhos às outras Iyalorixás”, dizia com uma discreta ponta de orgulho, porém sem perder a humildade, sua maior característica.

Em reconhecimento à dedicação integral à sua missão sagrada, caracterizada pela solidariedade aos que a procuravam em busca de auxílio, pessoas de todos os níveis sociais eram atendidas em suas aflições e incertezas, seus amigos registraram os seus 50 anos de sacerdócio com uma placa de bronze, com a seguinte inscrição: “Nesta casa de Candomblé da Sociedade São Jorge do Gantois, Ilê Iya Omin Axé Iymassê, situado no Largo da Pulchéria, no Alto do Gantois, há 50 anos, Dona Maria Escolástica da Conceição Nazaré, Mãe–de-santo Menininha do Gantois, zela do alto do seu posto de Ialorixá, com exemplar dedicação e perene bondade, pelos orixás e pelo povo da Bahia”. Estava registrada em metal nobre, o bronze de Oxum, uma história de dedicação ao próximo, à tradição afro-brasileira e aos Orixás.

As atividades e responsabilidades decorrentes do cargo assumido alteraram, sobretudo, sua vida particular: “Meu marido, quando me conheceu, sabia que eu era do candomblé… A gente viveu em paz porque ele passou a gostar de Candomblé. Mas, quando fui feita Iyalorixá, passamos a morar separados. No meu terreiro, eu e minhas filhas. Marido não. Elas nasceram aqui mesmo”.

Mãe Menininha, como líder espiritual e pessoa sociável, conviveu com pessoas das mais diversas opções religiosas, num relacionamento respeitoso, no qual os pontos de vista sobre o mundo, observado de formas diferentes, não causavam nenhuma dificuldade para uma amizade sincera. O ex-Abade do Mosteiro de São Bento, Dom Timóteo Amoroso Anastácio, figura de destaque da vida social e religiosa e respeitadíssimo na comunidade baiana, expressou, por diversas vezes, sua admiração pela Iyalorixá, ressaltando a amizade de ambos, do que não pedia reservas e declarava publicamente, como exemplo de convivência a ser seguido no combate às intolerâncias.

Assim pensava, sobre o tema, Mãe Menininha: “Para mim, todas as religiões são verdadeiras, agora cada um na sua… Antigamente, as pessoas pensavam tantas coisas ruins do candomblé, mas ele é bom e não faz mal a ninguém. Os padres deveriam entender isso… África conhece o nosso Deus tanto quanto nós o conhecemos, com nome diferente, mas é o mesmo Deus com o nome de Olorum”, e acrescentava, numa postura sincrética, indiferente às posições contrárias a essa opinião: “Tenho um pouco da religião católica porque encontrei na minha família muita crença no catolicismo. Fiz minha primeira comunhão e ouvi missa.” [4]

Mãe Menininha não acreditava na possibilidade do candomblé desaparecer, perdendo suas características fundamentais, porém admitia que o mesmo sofrera transformações: “Antigamente, nós tínhamos mais fé nos Orixás, mais respeito também.” Sobre o perfil dos novos frequentadores do candomblé, observava: “O povo do candomblé é mais pobre, mas de uns tempos para cá muita gente rica tem aparecido… para mim, essa gente vem com mais curiosidade do que fé… Acho que as pessoas como eu, zeladoras do culto, devem ter o máximo de cuidado… Essas pessoas querem ver tudo, sem pertencer à seita.”

Sobre sua postura ética, assim expressava-se: “Eu aqui me meto em certos apuros porque só trabalho para a linha do bem” e diagnosticava: “sabe por que as pessoas têm mais problemas hoje? É a falta de Deus (Olorum).” Sua fama extrapolava a cidade de Salvador, na plenitude de sua dedicação e percorria o mundo. Muitos queriam vê-la, ouvi-la, e eram atendidos, ultimamente na medida de sua disponibilidade e estado de saúde. Porque ela fazia questão de atender, num grande esforço e dedicação.

No dia 13 de agosto de 1986, na plenitude de sua fé e perfeita intimidade com os Orixás, aos 92 anos de uma vida voltada à preservação e expansão do legado sagrado, herança deixada pelos nossos ancestrais africanos, Maria Escolástica Nazaré retorna ao Orum. Falece Mãe Menininha do Gantois e sobrevive sua obra. Segundo o antropólogo Júlio Braga, em função de viver permanentemente no “Lessé Orixá”, ou seja, aos pés ou na companhia da sua entidade protetora, a natureza da divindade passa a ser a natureza da pessoa, sendo que, para os adeptos das nações Keto, Angola, Jeje etc., Mãe Menininha era um Orixá que viveu no meio de nós. “Ela era um Orixá”, afirmava convicto o rei de Ijebu Ore, supremo sacerdote da religião na Nigéria, quando da sua visita à Iyalorixá, em julho de 1983.[5]

Legítima filha de Oxum e uma das sacerdotisas mais respeitadas do culto afro-brasileiro, essa era a opinião de intelectuais, políticos, artistas e o povo em geral, em especial dos adeptos do candomblé. No seu longo reinado de 64 anos à frente do Terreiro do Gantois, impôs respeito e admiração à religião dos Orixás: “Os integrantes do movimento negro, de caráter político, espalhado em todo Brasil, interpretam a fidelidade da Mãe Menininha à religião africana como um exemplo de resistência negra.”[6]

No dia 10 de fevereiro de 1991, em Salvador, na Bahia, local onde viveu e praticou sua fé, foi inaugurado o Memorial Menininha do Gantois, situado no Terreiro onde exerceu suas atividades, espaço que traduz, na exposição dos objetos que lhe pertenciam, as virtudes enquanto mulher e sacerdotisa.

Nesta oportunidade, assim expressou-se, entre outros ilustres, o escritor Jorge Amado: “Quando jogava ao búzios sobre a toalha rendada, os Orixás atendiam ao seu chamado, vinham das lonjuras para ela conversar em intimidade… Aqui continuas a zelar pelos Orixás e pelo povo da Bahia, Mãe Menininha do Gantois, aqui resplandece tua memória imortal.”

Caetano Veloso afirmara: “A memória de Mãe Menininha projeta-se para o futuro de um Brasil que há de merecer uma vida à altura dos deuses que vieram, pelo destino trágico do seu povo, habitar nossas florestas, nossas ruas, nossa língua e nossos sonhos… A memória de Mãe Menininha é a memória do que há de mais profundo  e mais denso em nossa formação cultural.” E sintetiza Nizan Guanaes: “Nem todo o Brasil conhece candomblé, mas todo mundo conhece Mãe Menininha.”[7]

No dia 3 de fevereiro de 1994, a prefeita de Salvador, Lídice da Mata, inaugurou, no Alto do Gantois, a Praça Pulchéria, em homenagem ao centenário de nascimento de Mãe Menininha. Participaram  artistas, intelectuais e o povo. Após o ato de inauguração, houve a bênção do padre Rubens, vigário da Paróquia do Divino Espírito Santo, à qual pertence a comunidade do Gantois, simbolizando a união de  culturas religiosas tão ao gosto da filha de Oxum, batizada Maria Escolástica. O governador Antônio Carlos Magalhães compareceu às vésperas da inauguração, sendo recebido por integrantes do Terreiro, tendo à frente Mãe Cleuza, sucessora, filha espiritual e de sangue de Mãe Menininha.

Zeno Millet, filho de Mãe Cleuza, afirmava: “Isso era desejo do marido de Mãe Menininha (também já falecido) homenagear a sua antecessora, tia Pulchéia,” e acrescentava: “O aniversário de minha avó não contará com cerimônias sagradas e restritas. Todas as atividades até o dia 10 serão abertas ao público.”[8]

Como se observa, o Terreiro Ilê Iya Omin, Terreiro do Gantois, tem a sua continuidade, zelando pelos mesmos parâmetros traçados pelas ilustres antecessoras. Foi e continua sendo um poço de sabedoria e acervo importante das tradições afro-brasileiras e exercício de tradição e negritude, superando suas dificuldades ou conflitos inerentes a qualquer vivência coletiva, administrado sob inspiração dos orixás e capacidade de suas lideranças, cultuando as suas memórias, patrimônio que inspirou Caymmi a dizer, em sinceros versos, amparados por uma bela melodia; “Ai, minha Mãe, minha Mãe Menininha, Ai, minha Mãe, Menininha do Gantois… Olorum quem mandou essa  filha de Oxum tomar conta da gente e de tudo cuidar, Olorum quem mandou ê ô, Ora yeyê ô.”

Jaime Sodré é doutorando em História Social,professor, poeta, compositor e religioso do candomblé.

Referências:

* Minha Mãe Oxum

[1] Música composta por Ederaldo Gentil e Aniso Felix para o enredo da Escola de Samba Filhos do Tororó, em 1972.

[2] Especula-se muito sobre a propriedade territorial dos Terreiros baianos, sendo, portanto, matéria merecedora de estudos.

[3] Revista Viver Bahia p. 3 a 8, s.n.t.

[4] VIEIRA, Hamilton. Jornal A Tarde. Suplemento Mulher, In Mãe Menininha – Os 100 Anos de uma Orixá , 28/5/1977, 2 Cad. P. 1.

[5] BRITO, Edvaldo. Jornal A Tarde, op. Cit.

[6] Jornal A Tarde p. 1 Cad. 2, op. Cit.

[7] Memorial Mãe Menininha do Gantois, Salvador, 1991

[8]  Tribuna da Bahia, Salvador, 1/2/1994, 3 Cad. P. 1.


Análise de Jorge Portugal

postado por Cleidiana Ramos @ 4:57 PM
28 de abril de 2009

Está reproduzido aí abaixo, na nossa seção “Balaio de Idéias”, o artigo do professor Jorge Portugal, publicado hoje na página de opinião de A TARDE. Trata-se de uma reflexão sobre a polêmica discussão entre o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, e o ministro da Casa, Joaquim Barbosa. Aproveitem que o texto é uma delícia e foi gentilmente cedido ao Mundo Afro pelo editor de Opinião Jary Cardoso, que também tem um blog onde discute questões ligadas à idéia de baianidade (Jeito Baiano) , cujo link vou adicionar na seção Outros Mundos.   


Balaio de Idéias: Supremo Ministro!

postado por Cleidiana Ramos @ 4:53 PM
28 de abril de 2009

Jorge Portugal

Naquele 22 de abril de 2009, nenhum nobre navegante português ousaria nos “descobrir”. Descobertos fomos pelos olhos e pela voz do primeiro negro que, com altivez e coragem, no topo da nau capitânia do judiciário, admoestou o pretenso comandante.

Naquele 22 de Abril de 2009, não caberia um 7 de setembro em que o filho do rei, futuro imperador do país, daria gritos de independência às margens de um riacho qualquer; ali, ouvimos o brado da liberdade e da insubmissão da voz abafada do povo, silenciada por séculos pelos donos do poder, através de sucessivos crimes de lesa-cidadania: “respeite, ministro! Vossa Excelência não tem condições de dar lição de moral em ninguém!”.

Naquele 22 de Abril de 2009, nenhuma princesa “bondosa”, assinaria uma vaga lei que nos concedia liberdade, mas nos cassava a condição de cidadãos, proibindo-nos o voto, a escola de qualidade e o trabalho digno; presenciamos sim, a abolição proclamada em nossas almas, 121 anos depois, pela voz corajosa de um Luís Gama redivivo, encarnando todos os quilombos massacrados e abrindo os portões de todas as senzalas: “Vossa Excelência não está nas ruas; está na mídia destruindo a credibilidade de nossa justiça!”.

Naquele 22 de Abril de 2009, nenhum marechal, de pijama, ousaria proclamar república nenhuma; o pacto de poder que condenou a maioria de nossa gente a ser um povo de segunda classe, viu-se desmascarado pela indignação patriótica de um João Cândido reeditado, que fez a chibata girar em movimento contrário, açoitando o lombo dos que se acostumaram a bater, por séculos a fio:”respeite, ministro! Vossa Excelência não está falando com seus capangas do Mato Grosso!”.

Naquele dia, Ogum, Xangô e Oxóssi desceram os três num corpo só, e reafirmaram a presença arquetípica da África dentro de nós.Todos os movimentos aparentemente derrotados dos nossos heróis anônimos puseram-se de pé, vitoriosos, mesmo que não tivessem vencido uma só batalha.A Revolta dos Búzios, a Revolução dos Malês, o Quilombo dos Palmares, todos, reencenaram seus teatros de operação e puderam, séculos depois, derrotar simbolicamente o inimigo.

Naquele dia, saíram às ruas todas as escolas de samba, de jongo, todos os blocos-afros; bateram os candomblés e as giras de umbanda, a procissão da Boa Morte , o Bembé do Mercado de Santo Amaro; brilharam os pequenos olhos da criança negra recém-nascida ao descortinar a luz azul de um futuro melhor.

Naquele dia, materializando todos os nossos sonhos e desejos secularmente negados, Vossa Excelência deixou de ser apenas um ministro do Supremo Tribunal Federal para tornar-se o Supremo Ministro de todos os brasileiros.

Jorge Portugal é educador, poeta e membro do Conselho Nacional de Política Cultural.