Balaio de Ideias:Din, Din, Dão, olha o dobrão na palma da mão, Oxalá !

postado por Cleidiana Ramos @ 8:44 AM
20 de novembro de 2010

Wilson Café destaca a importância da capoeira. Foto: Uran Rodrigues |Divulgação

Wilson Café

Mestres, senhores da natureza humana, sabedorias do gingar de cantos, contos e religiosidades!

Biriba, cabaça, angola, regional, cavalaria, São Bento, benguela, ladainha são acervos e, como sabemos, acervo é o conteúdo mágico e documental dessa grande arte. É o montão e o acúmulo do conjunto e a coleção dos bens de valor “sagrado”.

Capoeira, alma viva, nua e crua que resume, no presente,  o passado e a busca por um futuro digno e justo, da historicidade do desafio de décadas e tradições orais e escritas, contadas por mestres, alabês, estudiosos, pensadores, admiradores, formadores de opinião. Desse modo, entendemos o rito e a liturgia da capoeira como um admirável senso comum de beatificação de propósitos.

Com o tempo, essa arte se transformou em educação e da união entre os povos,raças e culturas do mundo se entrelaçaram – negros, brancos, mulatos, pardos, cafuzos, mamelucos, simbolizando o charme da Nação.

Hoje, quem não joga capoeira, parodiando Dorival Caymmi numa frase, “é ruim da cabeça ou doente do pé”. Modernizada e globalizada por muitos e discriminada por poucos, ela representa uma qualidade de vida usando o corpo e a mente como forma de expressão. Nela são dadas condições de adquirir movimentos através do tempo e do espaço que vão se relacionando e convivendo uns com os outros e com o meio social, muitas vezes em conflitos de interesses.

Para muitos jovens integrantes de comunidades e localidades em risco social e pessoal, a capoeira trabalha a individualidade e a noção do coletivo, melhorando a integração, o relacionamento, a harmonia e a busca pela boa convivência com os seus familiares e o universo ao seu redor, escolas e projetos sociais.

Na EEPI (Escola de Educação Percussiva Integral), por exemplo, que funciona desde 2003 na Estrada das Barreiras, no Conjunto Maestro Wanderley – Cabula II, a partir dos jogos lúdicos da arte da capoeira, vem se aplicando conteúdos didáticos e pedagógicos de forma interdisciplinar nas aulas teóricas e práticas,para a melhoria da aprendizagem nas disciplinas, através de textos e livros, como forma de conhecimento e reconhecimento dos heróis que contribuíram para a historia da resistência afro-brasileira.

Tão nobre e respeitada com suas cores verde, amarelo, azul e branco e com os berimbaus– viola, médio, gunga ou berra- boi–; com os outros instrumentos – pandeiro atabaque e caxixi, a capoeira está na língua de diversos jovens de países de todos os continentes, levando a sua filosofia de amar e respeitar o próximo, independente da condição social e espiritual em que se encontre.

Na roda de capoeira é onde o jogador aprende as maneiras de sobrevivência, ou seja, as táticas do jogo de cintura, de ganhar e perder, principalmente no perder. Porque nem todo mundo está acostumado a perder. Estamos numa sociedade onde fomos levados a aprender a ganhar e quando perdemos entramos em conflito. Portanto, o pensar, o agir e o desenvolver são ferramentas essenciais do fundamento da capoeira, independente de ser regional ou angola.

Lamentavelmente, muita gente usa essa arte como propagadora da violência. Ainda bem que outros benditos a utilizam como terapia ou defesa pessoal. Entretanto, o melhor é que a capoeira se tornou um grande exemplo a ser seguido como simbologia da paz. Os Mestres Pastinha e Bimba deixaram de herança para o Brasil o seu fundamento enquanto filosofia de vida e não como arte marcial.

O mundo gira, a roda é cíclica, viver é uma arte. Hoje a capoeira,  patrimônio cultural do Brasil, representa a alma viva da nação, reconhecida em sua contribuição africana no país.

Viva Bimba ! Viva Pastinha! Que Vivam esses heróis e seus conhecimentos que vem educando e transformando jovens carentes em Mestres e dando empregabilidade e sustento no Brasil e no mundo.

Wilson Café é músico e diretor da Escola de Educação Percussiva Integral (EEPI)

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