Balaio de Ideias:Após o tremor, ai de ti, pobre e devastado país chamado Haiti

postado por Cleidiana Ramos @ 12:17 PM
19 de janeiro de 2010
 

 

 

Professor Ubiratan Castro analisa situação do Haiti. Foto: Marco Aurélio Martins | AG. A TARDE

Professor Ubiratan Castro analisa situação do Haiti. Foto: Marco Aurélio Martins | AG. A TARDE

 

 

Ubiratan Castro

O mundo ficou estarrecido com o terremoto que destruiu Porto Príncipe. Os terremotos não têm qualquer relação com os regimes políticos, com características socioculturais ou mesmo com os credos religiosos praticados pelos povos.

Os movimentos das placas tectônicas provocam terremotos na Itália, nos EUA e no Haiti. No entanto, no Haiti, o país mais pobre das Américas, os efeitos são devastadores.

Conheci o Haiti por sua história de luta contra a escravidão de africanos e seus descendentes. Com o nome de São Domingos foi a mais importante colônia francesa, maior produtora de açúcar das Américas no século XVIII.

Em uma superfície comparável ao Recôncavo baiano, os colonizadores apinharam mais de 500 mil escravos, em sua maioria africanos.

A violência da escravidão desencadeou uma resistência escrava, que antecedeu a grande revolução negra, a partir de 1789, com a eclosão da Revolução Francesa, até 1804, data da Independência nacional haitiana.

Foi a única revolução escrava vitoriosa nas Américas. A escravidão foi erradicada, os senhores foram expulsos ou mortos, as terras e engenhos distribuídos com os trabalhadores e proclamou-se a república dos africanos e seus descendentes.

O nacionalismo negro foi consagrado na constituição do país. Ainda hoje, na linguagem coloquial, o tratamento de neg (negro) é sinônimo de cidadão.

A república negra do Haiti foi considerada o grande perigo para a escravidão imperante nas Américas. Estabeleceu-se um rigoroso cordão sanitário em torno daquela meia-ilha, de modo a impedir a propagação da revolução escrava em outros países.

Longe de Deus e perto dos EUA, como dizem os mexicanos, o Haiti foi vítima de várias invasões militares americanas. A mais longa durou de 1915 a 1934, quando os EUA sequestraram as rendas da alfândega haitiana a título de pagamento da dívida externa.

A mais recente intervenção foi o apoio ao deposto presidente Aristides, que seguiu ao pé da letra as lições americanas sobre o Estado mínimo. Ele praticamente destruiu o Estado haitiano, suprimindo serviços de saúde, obras públicas e, sobretudo, extinguindo o exército nacional. Oficiais e praças foram mandados para casa, sem salários e com as armas na mão. O resultado foi a formação de bandos paramilitares.

Estive no Haiti em quatro missões oficiais. Algumas evidências foram muito fortes para mim. A primeira foi a miséria mais generalizada e mais aguda, sem referência comparativa com qualquer favela brasileira ou musseque africano.

A segunda foi a insuficiência grave de serviços públicos básicos. A terceira foi a atuação do Exército Brasileiro no comando da força de paz da ONU, um exemplo de respeito aos direitos humanos.

Constatei também o valor do povo haitiano. Apesar da pobreza, vi um povo trabalhador, orgulhoso de sua negritude e de sua história revolucionária, a sua afeição pelo Brasil e a esperança com a pacificação comandada pela ONU.
 
Ubiratan Castro é doutor em história e presidente da Fundação Pedro Calmon

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2 Respostas to “Balaio de Ideias:Após o tremor, ai de ti, pobre e devastado país chamado Haiti”

  1. Capitao Marinho  Says:

    Do querido professor “Bira” nada é diferente de extraordinário!
    Aproveito o ensejo para tecer comentários sobre o “Mundo Afro”. Cleidiana, com a mesma naturalidade que recebe meus elogios, espero que receba minhas sugestões. Gostaria muito de ver o “Mundo Afro” abordando questões relevantes para o desenvolvimento da população negra, como: educação, saúde, emprego, saneamento básico e segurança. Explico, sugiro que traga mais matérias relevantes, como os artigos dos professores Bira e Jaimé Sodré, aborde mais a política de segurança genocida que é desenvolvida em Salvador, a dificuldade da população Afro de ter acesso à saúde e a saneamento básico, a vida desumana e a perda de nossos jovens para o famigerado tráfico de drogas, sem qualquer intervenção de políticas públicas para evitar isso. O racismo institucional que existe nas repartições públicas de Salvador e que se estende para todo o Estado. Ou seja, não conheço o limite dado pelo seu editorial, mas acho que você tem competência de sobra para transformar o “Mundo Afro” um espaço muito mais atraente, de debates, sugestões e informações, em prol de oportunidades e igualdade, a fim de que os negros, um dia, sejam realmente tratados como CIDADÃOS!!!
    Com meu apreço,
    Marinho.

  2. Cleidiana Ramos  Says:

    Sugestões anotadas companheiro. Obrigada.

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