Balaio de Ideias: Zum zum zum Capoeira mata um! E preserva a vida de muitos

postado por Cleidiana Ramos @ 8:45 AM
20 de novembro de 2010

Maíra Azevedo salienta a simbologia da capoeira. Foto: Acervo pessoal

Maíra Azevedo

Ao som do berimbau, palmas e uma música que canta saudade e afirmação,  um grupo de jovens, todos eles com vestes brancas e simples, se reúnem em círculo para fazer uma festa e testar os movimentos  do seu corpo.  Essa cena  é atemporal, nos remete às senzalas do Brasil Colônia, mas também a uma cena cotidiana das academias luxuosas  e elitistas, das areias das praias e das ruas dos bairros populares de qualquer lugar do mundo. Assim é a capoeira, democrática por natureza.

Símbolo de resistência e da força do povo negro, a capoeira foi e é responsável pela sobrevivência de milhares de homens e mulheres que ousaram, em uma época não tão distante, desafiar  as leis e continuar seguindo em frente com os movimentos corporais que são definidos como uma mistura de dança e luta. E foi gingando que  derrubaram muitas estatísticas perversas.  Até 1943, a prática da capoeira era proibida no Brasil, considerada  violenta e subversiva. Qualquer um que estivesse em situação suspeita, poderia ser preso. A “alforria”,  chegou quando Mestre Bimba se encontrou com, o então presidente, Getúlio Vargas. Ao fim da apresentação, o presidente estava convecido. A capoeira era o esporte brasileiro.

Mas a capoeira é mais do que um esporte. É  a tradução livre, por meio do corpo,  de sentimentos  de um povo que ficou marcado por suas dores e anseios.  É um golpe profundo naqueles que insistem em nos deixar acorrentados. É uma das facetas da identidade dos milhares de africanos que foram trazidos como mercadoria para o novo continente.E resistiram, tiveram a luta ou dança como arma para sobreviver. Disseram não com as pernas e mãos.  Não vamos  permitir que nos coisifiquem, estamos lutando  e vamos conseguir. A capoeira diz isso. É rasteira nos opressores.

A capoeira se consagrou. Não se pode pensar no Brasil, na Bahia e não imaginar aquelas acrobacias feitas em grupo. São pernas no ar, mas sempre acompanhadas. Não se joga capoeira sozinho, precisamos do outro.  Por isso, é uma grande lição. Não são apenas golpes ao vento, mas uma série de movimentos que atesta que organizados vamos mais longe.  A luta que era crime, se transformou em esporte nacional e é responsável pela sobrevivência de muitos, não só por defender o seu corpo contra algum golpe, mas por preservar a sua história.

Iê, viva meu Deus, camará , Iê, viva meu mestre, camará, Iê, quem me ensinou, camará Iê, a Capoeira que me PRESERVOU camará. Essa também é ladainha.

Salve capoeira!

Maíra Azevedo, coordenadora de comunicação da Unegro, yaô do Ilê Axé Oxumarê e, capoerista do Grupo Gingando Sempre      

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