Balaio de Ideias: Vivaldo, sabedor de coisas

postado por Cleidiana Ramos @ 8:21 PM
24 de setembro de 2010

Antropólogo celebra Vivaldo da Costa Lima, morto na última quarta-feira. Na imagem, Mestre Didi, Pierre Verger e Vivaldo. Foto: Arquivo| Ag. A TARDE

Cláudio  Pereira

Vivaldo era um homem laborioso. Ele sabia que “Deus está nos detalhes” e, por isto mesmo, em sua labuta foi um artesão minucioso.  Sua trajetória intelectual é impar. Nasceu em Feira de Santana, em 1925, foi jovem prodígio da odontologia, largou tudo e quis ser antropólogo, num tempo em que tornar-se isto requeria um gesto heróico.  Tornou-se, qual  Hamlet, como ele costumava dizer,  um “louco com método”, e disto nunca se arrependeu.

Também pudera sendo Vivaldo um homem dotado de uma memória extraordinária, aliada de uma inteligência sofisticada, diligente e crítica. A combinação disto, aliás, fez dele uma personalidade forte e digna, portadora de uma sinceridade desconcertante. Ninguém, assim, passava indiferente ao seu convívio, e sua presença era transformadora.

Vivaldo ensinou gerações de cientistas sociais. Sua definição do que era antropologia era ampla, geral e enigmática: “antropologia é tudo aquilo que a gente quiser chamar de antropologia”. E talvez seja, por isso mesmo, que  em suas mãos os livros corriam em um fluxo contínuo, caudal, eclético. Isto o tornava um sabedor de coisas, funcionário das palavras e da língua, fazedor de sínteses.  Enciclopédico inventor de sentidos, como os verdadeiros interpretes do mundo e do espírito dos tempos.

Vivaldo escreveu de maneira profícua. Não movido por um vago sentido banal de que escrever dá publicidade e notoriedade, mas certo de que as verdades bem ditas são econômicas, justas, exatas. A Família de Santo nos Candomblés da Bahia, por exemplo, é obra de posição impar na etnologia brasileira, o que o coloca como autor no patamar de Nina Rodrigues, Édison Carneiro e todos os grandes cientistas sociais brasileiros. E tão valiosos foram seus textos dispersos, no qual ele descortinou o mundo afro-brasileiro, debruçando-se sobre o candomblé, as línguas africanas, a religiosidade popular, a valor do negro na cultura nacional.  Sua contribuição intelectual através de suas obras e orientações acadêmicas alicerça as bases do mundo afro-baiano atual. Intérprete da cultura por excelência, se tornou seminal nesta cultura mesma.

Vivaldo era um mestre da conversação fluente. Com o mesmo élan com que dialogava com sacerdotes e sacerdotisas, anônimos ou famosos, do candomblé da Bahia, tornando-se protegido e protetor destes e destas, dialogava com sumidades do mundo intelectual moderno, com artistas, literatos e cientistas.

Curioso, Vivaldo explorou temas como quem desbrava continentes perdidos. Era astucioso ao inventar ideias. Tinha fome de leitura, sede de verdades. Tinha gosto por coisas insólitas, por assuntos desafiantes, pelo diferente só por ser diferente. Tinha obsessão por autores (queixava-se que no mundo hoje faltam leitores para Proust), por gêneros literários (consumia literatura policial com fervor), e tanto por coisas novas que podem ser ditas por serem novas, como por coisas que sendo antigas, precisam continuar a ser ditas.

Vivaldo foi amiúde um reformador social, e pretendeu construir mundos como quem sonha utopias. Arquitetou planos que, seguramente, não viu realizados. Foi cosmopolita e, como tal, sabia que mesmo o nosso pequeno mundo, esta província em que somos náufragos, se encontra em expansão inevitável em direção ao futuro.

Vivaldo foi obsequioso. Prova disto é que seus verdadeiros amigos eram amigos fiéis. Ele acreditava piamente na  generosidade, na reciprocidade e naquilo que vagamente podemos indicar como o “dom” humano. Por isso mesmo sofria com os tempos modernos, em que já não há mais a cortesia das relações pessoais, dos gestos desinteressados de simpatia, do gosto por aquilo que ele aprendeu como sendo as boas coisas da vida.

Vivaldo, nas últimas semanas, sabia também que “a mais indesejada das gentes”, como ele costuma falar da morte, evocando Bandeira, estava para chegar. Disse-me, divertido, em uma das nossas últimas conversas que ele seria absolvido pela providência divina por duas razões: era ele que, quando criança, conduzia de mãos dadas Irmã Dulce até o escritório do pai, Paulo Costa Lima, quando ela, mensalmente, passava na Fábrica da Jurubeba Leão do Norte para pegar as ofertas para suas obras de caridade; e, também, porque ele compartilhara, num congresso Eucarístico, do mesmo aposento do jovem Karol Wojtyla, que depois se tornaria o Papa João Paulo II. Vê-se como se torna doce a ironia contida na lógica da vida e da morte para um agnóstico convicto, como ele de fato era.

Com 85 anos bem vividos Vivaldo da Costa Lima se foi vitorioso na primeira manhã desta primavera.

Cláudio Pereira é doutor em antropologia e professor da Ufba

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