Balaio de Ideias: Uma ressaca de alegria

postado por Cleidiana Ramos @ 2:54 PM
5 de março de 2014

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Maria Stella de Azevedo Santos

Quarta-feira de Cinzas”, dia de ressaca. O mar fica de ressaca quando a onda arrebenta nas pedras e recua sobre si mesma. O ser humano fica de ressaca quando após ingestão de grande quantidade de bebida alcoólica termina por sentir um grande mal estar. Eu espero que a ressaca que os foliões do carnaval estejam sentindo hoje seja aquela causada apenas por excesso de alegria. Pois é, até a alegria, quando é excessiva, deixa um gosto amargo na boca quando acaba. Um gosto de saudade que chega a causar dor: “a saudade é dor pungente”, é dor que dói. Afinal, a palavra ressaca tem origem na palavra norueguesa kveis, que significa “mal-estar depois da orgia”, acho que em nossa língua é melhor dizer: mal-estar depois da farra.

A bebida é um estimulante. É por isso que em um dos rituais do candomblé se canta: Oti wa ti xô fê rê, querendo dizer que a bebida nos anima, ela nos encoraja a encarar os dias difíceis de maneira renovada. Entretanto, “como tudo demais é sobra”, a bebida, a comida e até a alegria não deve ser vivida em excesso. Oti é a palavra yorubá que é usada para qualquer bebida que embriague a mente. As religiões, em sua maioria, não são contra as bebidas, e sim ao uso excessivo delas.

Nos rituais do candomblé, as bebidas que embriagam devem ser usadas de maneira comedida, com o intuito maior de despertar a alegria. Essa religião se utiliza de bebidas profanas e sagradas. O champagne e vinho do ritual de bori, a cachaça e vinho do ritual de axexe e a cachaça de Exu são consideradas profanas porque não foram preparadas em ambientes divinizados, nem foram preparadas por sacerdotes consagrados. A bebida sagrada do candomblé é o aluá, uma bebida fermentada que é oferecida aos deuses e homens com o objetivo de aumentar o axé de quem a ingere, seja de maneira concreta (humanos) ou simbólica (divindades).

O aluá é uma bebida fermentada tipicamente brasileira, uma vez que tem relação com os índios, os portugueses e os africanos. No Brasil do 1º Império era moda servir aluá na corte de D. Pedro I. Em Portugal, era uma bebida feita do bagaço da uva, por isto conhecida como bagaceira. Os índios da Amazônia faziam uma bebida com abacaxi que ficava durante três noites fermentando ao luar, razão pela qual o folclorista Luís da Câmara Cascudo sugere ser o nome aluá uma corruptela de “ao luar”.

Na verdade, aluá é uma palavra yorubá (lú, em yorubá, significa misturar) que é usada em um ritual onde se movimenta e mistura a água com a bebida aluá, visando agitar o que está parado, a fim de que a purificação seja favorecida e que o que está velho possa ser renovado através do movimento.

Esse ensinamento nos é transmitido através dos cânticos do Ritual das Folhas, mostrando para os sacerdotes do candomblé a importância de eles conhecerem a língua religiosa que fazem uso, assim como a simbologia dos elementos usados em todos os atos ritualísticos. O aluá que herdamos dos africanos, por exemplo, é feito de raspadura, milho branco e gengibre. O doce normalmente chamada de rapadura é um dos subprodutos da cana-de-açúcar (Ikesen), cujo nome correto é raspadura, pois esta espécie de doce é feita das raspas das crostas do açúcar da cana que ficam presas às paredes dos tachos.

A palavra yorubá que designa o gengibre é atale, planta que tem o poder de aquecer e iluminar, dando-nos alegria. O milho branco, relacionado aos orixá do branco, indica ainda paz, suavidade e proteção dos seres superiores. O aluá é uma bebida fermentada, por isto seus ingredientes aumentam o axé de doçura, através do açúcar feito de cana (raspadura); o axé de alegria, que é transmitido pelo gengibre; o axé de tranquilidade fornecido pelo milho branco.

Boa “Quarta-feira de Cinzas”, boa ressaca, palavra que na língua yorubá é ìbilù-oti. Interessante entender que ìbi é infortúnio, mal estar; lù é mistura e ìbilù significa multidão, o que indica que muita gente junta pode causar ressaca e mal estar. É por isso que digo que três pessoas para mim já é multidão e muita alma junta se perde. Se essa ideia é necessária para qualquer pessoa, para os iniciados ela é ainda mais.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, ela escreve para o jornal A TARDE, sempre às quartas-feiras.

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