Balaio de Ideias: Tesouros para reflexão

postado por Cleidiana Ramos @ 10:43 PM
15 de abril de 2011

Professor Jaime Sodré compartilha preciosidade histórica. Foto: Gildo Lima | Ag. A TARDE| 01.11.2010

Jaime Sodré

O maior fascinio do pesquisador é encontrar verdadeiras pérolas, tradutoras de um passado a desvendar, o passado no presente, porque não um régio presente? Peço licença para transcrever na integra o que segue abaixo, fruto da garimpagem nos arquivos. Nestes ambientes de memórias, defrontamos com dias férteis, comandados pela sorte, e de aridez, dias de rede vazia. Mas a busca é continua e solitária ou por vezes em grupo. Deste modo, economizando o vosso deslocamento, dias frustantes e exposição arriscada  à poeira do passado, é que ponho à disposição este “achado”  possibilitando a vocês análises e conclusões, missão da atividade do historiador. Para preservar estes personagens históricos, seus nomes estão cautelosamente omitidos.

“Estado da Bahia no. 549 – Secretaria de Segurança Pública Polícia Preventiva – Delegacia da 2ª. Circunscrição Policial Bahia, 23 de novembro de 1940.

Ilmo. Sr. Dr. delegado de Jogos e Costumes, em exercício. Ba   24.11.940

Comunico-vos, para os devidos fins, que nesta Delegacia foram mandados apresentar o indivíduo M. P. residente à Ilha do Rato, no. 31, e A. S. à Rua do Céu, no. 14, desta Circunscrição, o soldado eletricista do 1º. B.C., de no. 445, L. B. e o guarda D. S. da Guarda Noturna do Distrito de Santo Antônio, relativamente a um fato ocorrido à madrugada de 17 do corrente.

Disseram M. e A. que na casa à Ilha do Rato, no. 31, já citada, às duas horas da manhã de 17, quando várias pessoas estavam contando “histórias” que, ao terminar, recebiam salvas de palmas, bateram à porta e sendo esta aberta deram entrada na casa o soldado L. B. e outro de nome A., também do 1º. B.C., da Polícia Militar, os quais trataram de abrir as gavetas dos móveis, procurando dinheiro ou algo de valor, sendo que o soldado L. experimentou um par de sapatos e uma roupa que não lhe serviram – levando entretanto um chapéu de feltro marrom; que os dois soldados ameaçaram de prizão o dono da casa e os presentes, dizendo entretanto que tal não lhe fariam si lhes fosse dado dinheiro, ficando de irem buscá-lo no dia seguinte, quando todavia foi entregue a M. o chapéu que fora apanhado em sua residência, o que contestou o soldado L. e o caso já era do conhecimento das autoridades. Disse M. que também esteve na sua casa o guarda noturno D. S. Ouvido o soldado L. B., por este foi dito, de logo, que M. P. é “macumbeiro”, bastante conhecido nas rodas de “candomblé”, dando sempre festas na sua casa, com o maior escândalo e sobressalto para a vizinhança, e A. S. é viciada com outras mulheres e “filhas de santo”, pessôa obrigatória nas festas de M. que efetivamente, em companhia do soldado A., estivera na residência de M. afim de pedir-lhe que fizesse menos barulho com sua festa, pois morava na vizinhança e não podia dormir com semelhante algazarra, sendo mal-tratado logo à entrada, o que o obrigou a verificar as dependências a casa afim de descobrir onde se achavam algumas pessoas que correram, escondendo-se, pois quando entrára vira logo várias mulheres fazendo contorções como se estivessem no “santo” e uma criança com a cabeça raspada; que, ao abrir um quarto de “peji”, deparou três mulheres deitadas sobre camas de folhas, tendo as cabeças raspadas, e junto a elas um aguidar contendo azeite e farófia misturados com cabelos, e encontrando outros vazilhâmes pela casa; que nesta mais tarde esteve o capitão A. Comandante da Guarda Noturna de Sto. Antônio, verificando o que fica exposto.

Esta Delegacia providenciou a ida, ao local, de um investigador, o qual verificou a existência de vazilhâmes apontados e do quarto de “peji”.

Cordiais saudações. A. – Delegado”

Importante: O documento é constituído de duas (2) folhas e está na cx – 42 / PC – 01: Delegacia da 2ª. Circunscrição Policial – Correspondência Expedida / recebida – SSP. título Candomblé

Revelando retratos de uma época, o documento escrito ou oral, alem de ser testemunha das ações que a vida articula e  proporciona, permite reflexões, alem de aperfeiçoar as nossas ações no presente.

Jaime Sodré é historiador, professor universitário e religioso do candomblé

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