Balaio de Ideias: Papo reto

postado por Cleidiana Ramos @ 6:48 PM
8 de fevereiro de 2013

Artigo discute ponte feita pelo samba entre Salvador e Rio de Janeiro. Foto: Marco Aurélio Martins/Ag. A TARDE/ 31.01.2013

Paulo Oliveira

O intercâmbio Bahia/Rio de Janeiro sempre deu bons frutos, principalmente, na área cultural. Foi na Pedra do Sal, na encosta do Morro da Conceição, que baianos cansados da perseguição religiosa em seu Estado e cariocas encontraram-se no final do século 19. Ali, João da Baiana, músico renomado, virou o nome do largo, onde negros, mestiços e brancos pobres reuniam-se para tentar trabalho no cais do porto. E também cantar, tocar e dançar.

Com o tempo e graças às quituteiras e mães de santo da Bahia – a mais famosa Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata –, o território expandiu-se em direção ao bairro do Estácio. Frequentemente, ao fim das sessões de candomblé e de umbanda, religião criada em 1920, eram realizadas as rodas que atraíam os bambas e as cabrochas. Em 1928, surgiu a Deixa Falar, a primeira escola de samba.

Nos anos 60 e 70, a mão se inverteu. Juventude do Garcia, Filhos do Tororó, Bafo da Onça, Diplomatas de Amaralina e outras escolas brilharam no Carnaval soteropolitano, inspiradas nas agremiações cariocas. Malandramente, militares e estivadores baianos que trabalhavam na Cidade Maravilhosa compravam fantasias do ano anterior na Portela para usarem em sua escola do coração na terra natal.

 Nessa época, surgiram excelentes compositores, como Nelson Rufino, mais tarde fornecedor de sucessos para Roberto Ribeiro e Zeca Pagodinho, e Alaor Macedo, autor de três sambas enredos que deram títulos ao Salgueiro. Com o ocaso das escolas em Salvador, surgiram os blocos de samba, formados por trabalhadores e estudantes que criaram diversão nos dias em que o movimento nas ruas era menor.

Nos anos 90, as agremiações profissionalizaram-se. A quinta-feira consolidou-se como o Dia do Samba na Avenida. O crescimento ocorreu, em boa parte, devido à vinda de artistas do Rio, em maior número, e São Paulo. Eles vinham por alguns trocados, estadia na casa de amigos e uma boa feijoada regada a cerveja. O negócio prosperou. O samba invadiu a sexta-feira e começou a fincar os pés no sábado.

Os artistas de fora se interessaram pelos lucros. Quem não criou o próprio bloco aumentou a tabela de preços e exagerou nas exigências para as apresentações. Passaram a querer cantar apenas com a própria banda, além de pedir passagens e estadia em bom hotel para duas dezenas de músicos, produtores e familiares. O valor do cachê pulou para cerca de R$ 80 mil por dia.

A relação azedou. Há quatro anos, os donos de blocos tentam mudar o norte do desfile e apostar no carnaval Prata da Casa, apenas com sambistas da terra. Lentamente conseguem adesões, mas ainda estão longe de virar o jogo. Motivos, segundo Luiz Cláudio, o Lula do bloco Proibido Proibir:

1) Não faz parte da cultura local valorizar cantores do Estado.

 2) É mais fácil vender ingressos tendo Dudu Nobre, Revelação ou Arlindo Cruz como atrações.

 3) Não há mais fidelidade à agremiação. O que atrai o folião é o artista.

Diante do impasse, a prática mais comum é mesclar gente de fora com os colegas baianos. Este ano há pelo menos nove grupos e cantores cariocas, incluindo Fundo de Quintal, cuja origem está no tradicional bloco Cacique de Ramos e na escola Imperatriz Leopoldinense, e a Velha Guarda da Mangueira.

Ao mesmo tempo, os blocos analisam estratégias para reduzir o espaço dos forasteiros, sem levar em conta que é uma briga em que todos perdem. Vale lembrar que cantores e compositores daqui também se beneficiam com a projeção que dão as parcerias e o apadrinhamento do pessoal do Rio.

O melhor é seguir a lição do mestre Ismael Silva (1905-1978), compositor de clássicos como Antonico, Me Faz Carinhos e Se Você Jurar e um dos fundadores da Deixa Falar: – Não há ninguém de quem eu não goste, eu não tenho tempo de reparar em gente que tem algum motivo para me desagradar. E mesmo quando acontece isso, de alguém fazer qualquer coisa que me desagrade, eu levo para o outro lado, fico pensando que não teria sido por mal. E vamos em frente que a Sapucaí e o circuito Osmar são longos.

Paulo Oliviera é jornalista, secretário de redação de A TARDE e apaixonado por samba

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