Balaio de Ideias: Ônus e Bônus

postado por Cleidiana Ramos @ 12:52 PM
10 de abril de 2012

Uma das demandas apresentadas pelo professor Jaime é a campanha em prol da sede do Instituto Steve Biko. Foto: Edson Ruiz / Ag. A TARDE/ 01. 03. 2005

Jaime Sodré

Evidente que as alianças serão sempre bem vindas, pois é sabido que a solidariedade seria um fator característico da condição humana. É comovente observar gestos generosos daqueles que erguem o seu braço amigo e a sua voz, incorporando nas suas preocupações o problema do outro.
A situação de desigualdade experimentada pela população brasileira, em especial a afrodescendente, fruto de fatores históricos de uma evidência inquestionável, experimentará recuo, pelos esforços deste segmento aliado, na superação do quadro deficitário de oportunidades e políticas públicas se apoiados por amigos sinceros.

Um bom observador presencia manifestações no espaço cultural, em especial no campo da música baiana, de pessoas não necessariamente negras, desfrutando do capital simbólico negro, identificando-se com o mesmo, aproximando-se de forma concreta e utilizando o potencial afro em suas ações artísticas.

Este desfrute, esta proximidade, gera significativo capital financeiro e prestígio, este último dividido com a comunidade inspiradora. Assim é que, nesta bem vinda aliança, cabe retornos mais concretos para a comunidade inspiradora, o segmento afrodescendente, em desvantagem sócio-econômica evidente. Não se trata de pedágio, é claro, mas de contrapartida real e experimentável, cujo usufruto anseia os afrosdescendentes.

Artistas talentosos e solidários, nossos aliados, devem como sugestão, utilizar o seu prestígio para postar-se na linha de frente da nossa pauta de luta, para a superação das nossas demandas. Logo, apresentamos aqui, de forma seletiva, uma listagem das nossas aspirações, que julgamos ser do conhecimento, mas aqui cabe como oportuna lembrança.

Além do natural posicionamento rígido contra o racismo, devem pronunciar-se claramente contra a intolerância religiosa que atinge o Candomblé, este fruto de inspiração, geradora de direitos autorais aos compositores que buscam nesta referência cultural a sua inspiração, alicerce do seu sucesso.

Exercer o seu prestígio e possibilidades junto aos órgãos de saúde para a concretude ou ampliação de programas para o tratamento das manifestações da anemia falciforme.

Posicionar-se claramente e sem subterfúgios, favoráveis à adoção de cotas para negros nas universidades, estimular os nossos jovens a freqüentar a escola, realizar campanhas que resultem na inibição do uso de drogas, estímulos e posicionamentos para oportunização de empregos para os jovens negros.

Uma solicitação especial me ocorre. Seria uma intensa campanha para arrecadação de fundos ou efetivar doações, objetivando a instalação da sede da Steve Biko, entidade que realiza cursos para a inclusão de negros na universidade, cujo imóvel, cedido pelo governo do estado, localizado em um trecho no qual as atrações carnavalescas passam bem à sua porta, tem hoje  um painel grafitado no seu muro que, pela beleza desta arte, não acreditamos que os nossos astros não tenham visto. Quem sabe um grande show, onde a arrecadação do mesmo seja destinada as obras naquele prédio.

Para aqueles sensíveis astros afrodescendentes ou não, seria oportuna uma campanha para a conclusão das obras que se arrastam na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, localizada no Pelourinho.

Na verdade não cabe aqui uma listagem extensa, pois acreditamos que os atores artísticos e sociais, se apurada a observação, poderão se incorporar às inúmeras iniciativas de ações que resultem em efetivo apoio.

Na condição de outra e importante sugestão, esta inquestionável, seria a observação das necessidades das nossas crianças. Escolas, creches e adoções devem ser prioridades neste gesto solidário de bem fazer. Apoio às ações sociais empreendidas pelas unidades populares de matriz africana que se preocupam na formação das crianças, através de doações de livros, equipamentos e alimentação.

Volto à TV, vejo uma atriz branca, rainha da bateria de uma escola de samba, agradecendo aos instrumentistas negros, que repercutem os tambores para o seu sucesso midiático. Que haja uma reciprocidade verdadeira.

Jaime Sodré é historiador, escritor e religioso do Candomblé

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