Balaio de Ideias: Omi-as Águas Lustrais

postado por Cleidiana Ramos @ 11:43 AM
12 de setembro de 2011

Jaime Sodré faz alerta sobre poluição das águas em Salvador. Foto: Gildo Lima| Ag. A TARDE| 01.11.2010

Jaime Sodré

O professor Manoelito, homem bom e velejador, avisou-me: “Nem passe lá, ela está uma fera”. Não era nada comigo, Diolinda Santana da Conceição Soares e Souza é a nossa querida Dona Dió, fervorosa na fé e na prática. Estatura magra e miúda, mas de temperamento forte, que o Caboclo, certa feita, a fez fechar a mão, rígida, com uma nota de cem e ninguém conseguiu abri-la ou arrancá-la.

Nesta cidade pouca coisa lhe interessava, nada de VLT, BRT, Metrô, Modal, Via Exclusiva, Copa… o negócio dela são as águas.

Aborrecida estava, pois o sacerdote consultado receitou flores amarelas, postas respeitosamente em um riacho, caudaloso, limpo e vivo em Salvador. A sua ira se justificava: onde encontrar tal relíquia aquática? Preparara o belo e vistoso arranjo sob a supervisão de Binho, sobrinho e militante ecológico, que advertira: “Tia, tudo biodegradável, viu?”. Veio o impasse, onde “arriar”? O tempo de águas límpidas era só lembrança.

Dona Dió é assim, uma espécie de mãe de “nós todos”, aconselha-nos desde as sequelas da “espinhela caída”, como na atuação no campo da “psicanálise popular” a desvendar os nossos intricados sonhos, inclusive com sugestões lotéricas, deixando-nos pilotar uma xícara esmaltada do seu saboroso café.

Um filho desta solidária senhora “não foge à luta”, decide buscar ajuda com os “universitários”, os professores Bete Santos, Luiz Roberto Moraes e José Antonio Pinho. Mergulhei no livro Caminhos das Águas em Salvador, elaborado levantamento das bacias hidrográficas e fontes urbanas, mapeando e delimitando os bairros soteropolitanos.

O principal objetivo desta publicação consiste em caracterizar a qualidade das “doces águas” daqui, alertando para barrar urgentemente o processo de degradação, este a olhos vistos.

A pesquisa abordou várias bacias e em 60 pontos foram realizadas coletas, inclusive nas ilhas, e encaminhadas para o laboratório da Embasa analisando-se coliformes, termo tolerantes, condutividade, fósforo total, nitrato, óleos, graxas etc. Atribuindo notificação de péssimo, ruim, regular, aceitável e bom. Salvador tem hoje 12 bacias hidrográficas (ver livro).

Ao longo do tempo foram lançados esgotos, fonte principal de poluição, e resíduos tóxicos nestas águas mortificando a fauna e a flora. É fácil constatar que estamos perdendo uma riqueza natural fantástica. Esgotos, resíduos industriais indiscriminadamente lançados além da urbanização depredatória, parecem indicar a ausência de uma política para as águas somada à insensibilidade dos maus cidadãos.

Na Europa, rios foram recuperados o que, guardando as devidas realidades, nos serve de exemplo. A eficiente repórter Camila França nos fornece subsídios para analisarmos a possibilidade do enfretamento do problema, informando que a Sucom tem apenas “99 fiscais para cerca de três milhões de habitantes”, e aponta como uma das regiões mais degradadas e críticas da cidade de Salvador a Bacia do Mané Dendê. Considerado espaço sagrado das religiões de matrizes africanas, de importância histórica e cultural, conhecida como Parque de São Bartolomeu, uma área de proteção ambiental com seus rios e cachoeiras poluídos.

O trabalho aqui mencionado preocupou-se com as fontes dos terreiros de uso ritual, que também apresentou problemas. Aucimaia Tourinho, da Escola de Engenharia da UFBA, merece honrosa citação, pois fora responsável pelo trabalho de caracterização das fontes, defendendo tese.  Munido de argumentos fui enfrentar a “fera D. Dió”.

“Nosso Senhor mandou bom dia”. “Vá entrando, que Deus te abençoe, vou preparar o café”. Informei-lhe da tragédia das águas e a impossibilidade dela realizar a oferenda aqui na Capital, mas trouxe-lhe uma boa notícia, os rios da Ilha de Maré e Ilha dos Frades estão com boa qualidade de água.

Disse-me, alegre: “É pra lá que vou, o santo está em todo lugar. Mas nós, que cultuamos as águas, precisamos defendê-la. Eu agora só arreio presente bio… ah, com esse negócio aí que Binho falou”. Exaltada, D. Dió intimou-me a entrar na luta ecológica. Já estou dentro.

Jaime Sodré é professor universitário, doutorando em História Social e religioso do Candomblé

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Uma Resposta to “Balaio de Ideias: Omi-as Águas Lustrais”

  1. Marcio A. Couto  Says:

    Há algum tempo foi feita uma pesquisa à respeito do desperdício de água no nosso dia a dia; tomaram como exemplo o estado de São Paulo. Somente o hábito de deixar a torneira aberta no momento de escovar os dentes é equivalente a nove segundos ininterruptos das cataratas do Iguaçu.

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