Balaio de Ideias: O retempero de Daniela

postado por Cleidiana Ramos @ 6:09 PM
3 de janeiro de 2014
Daniela Mercury fez dueto com a Band´Aiyê do bloco Ilê Aiyê em show público no 1º dia do ano. Foto: Margarida Neide/Ag. A TARDE

Daniela Mercury fez dueto com a Band´Aiyê do bloco Ilê Aiyê em show público no 1º dia do ano. Foto: Margarida Neide/Ag. A TARDE

Marlon Marcos

Tem horas que Salvador assombra em surpresas bem agradáveis: o que fez , meu Deus, Daniela Mercury nessa versão 2014 no Projeto Pôr do Som? Por mais que empreendam negar a força artística desta mulher, muito por seu temperamento desencontrado, o que ela fez e faz na gente é inevitavelmente grande e importante em termos de criação individual e coletiva para atestar nossa tal “baianidade”. O que não se atesta enfim, se vive.

Muito de nos orgulhar da nossa vocação para a festa, mas banhado na criatividade selada em nossa negritude e em variantes do universo musical popular: isso é a Bahia! Daniela se retemperou para fazer vibrar uma cidade que há muito eu não via imersa na poesia típica do Ilê e do Olodum… Ao lado deles, mais Banda Didá, foi magistral.

Que noite, que ingresso quente e positivo nessas coisas do tempo fictício que praticamos. Do que vi nessas celebrações de fim de ano: foi o que mais me emocionou; e isso conta muito pra mim, quando no dia anterior, meus amores maiores ( Gal, Caetano, Gil)  também fizeram uma espécie de festa. E Daniela nem precisou sair do Carnaval para mostrar porque conquistou o Brasil e, de certa forma, o mundo.

Estava afiada, linda e consagrada como a branca que tem trânsito e voz no Ilê Aiyê. Deixou um pouco de lado o tom conferencista e realçou a cantora.  Ivete pode ganhar mais, cantar com Gil e Caetano, ser um fenômeno em carisma, vender como ninguém, ter uma voz mais bonita, mas artista é Daniela Mercury. Nem vou citar a do The Voice para não baixar o nível e ofender os anteriores.

Noite linda que queria dedicar à grandeza de Cláudio Marques pelo texto corajoso e procedente que escreveu no blog Teatro Nu,  uma narrativa imaginativa, proto-notícia, buscando momentos mais amplos e irrestritos para a cultura da Bahia; dedicar a Marques e pedir licença para expressar minha tristeza com a postura de Gilberto Gil, nosso mestre, recorrendo à polícia para afirmar censura à postura histórica, brincadeira séria, do cineasta. Confesso que fiquei um pouco envergonhado pelo amor-admiração que tenho por Gil. Tenho me pelado de medo com as retrancas que marcam censura a biografias, a críticas, a mobilizações intelectuais ou jornalísticas que nos façam querer um lugar melhor como cidade, como país, como planeta.

Mas Daniela, o assunto deste texto, muito me emocionou. Ilê e Olodum: a força viva do que somos capazes de fazer, magistrais aprendizes e professores de Gil Caê Gal, sendo conduzidos pela maestra do Canto da Cidade que, mesmo ao meio de tantos exageros, do canto por vezes preciosista, diz muito ao que veio fazer em palcos e trios à luz da sua arte. Ela reitera-se e faz no centro da cultura negra baiana. E, mesmo sem ser negra, merece aplausos.

 Isso é o Brasil.

 Daniela, obrigado.

Marlon Marcos é poeta, antropólogo e jornalista

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