Balaio de Ideias: O que as folhas cantam

postado por Cleidiana Ramos @ 11:13 AM
2 de maio de 2013

O aniversário é de Mãe Stella, mas quem ganha o presente somos nós. Como estava fora na quarta-feira passada em que saiu seu artigo em A TARDE, aproveito que hoje é  o aniversário dessa fonte de sabedoria para publicar mais um de seus belos ensinamentos e desejar  saúde e mais muitos anos de vida entre nós. Axé, Mãe Stella.   

Mãe Stella faz aniversário hoje. Foto: Margarida Neide/Ag. A TARDE/ 29.11.2012

Maria Stella de Azevedo Santos

O universo pulsa; o universo fala. Escutar o universo é escutar as batidas do próprio coração. Não as batidas físicas, mas o pulsar abstrato, entusiasmado, de um coração pleno. Quando falo pleno, provavelmente levo as pessoas a pensarem em cheio de alegria, prosperidade, beleza… Engano!  Quando falo pleno, refiro-me a um coração cheio de experiências vividas e absorvidas de maneira completa.

Tenham sido essas experiências sentidas como felizes ou dolorosas. O universo fala, as folhas falam, tanta para quem canta para encantá-las, quanto para as pessoas que conversam com elas ou simplesmente lhes dão um bom dia a cada dia que amanhece. As folhas, ou melhor, as plantas são seres vivos, como é vivo todo o universo.

É por isso que no candomblé temos um ritual para reverenciar as folhas e tudo o que elas nos ensinam. Nas folhas não existem apenas substâncias químicas usadas pelos laboratórios para curar nossas doenças físicas; nelas estão contidos ensinamentos ancestrais, que ao serem traduzidos por aqueles que se permitem escutar o universo são verdadeiros remédios para a alma, que ajudam a curar, mas também a prevenir feridas que retardem ou impeçam que a mesma encontre seu destino.

Transmitirei um pouco do que “escutei” de algumas das folhas para quem cantei durante setenta e quatro anos da minha vida sacerdotal.

Alfavaquinha-de-cobra – É a folha que acalma os olhos. A folha que nos faz “videntes”, que amplia a nossa visão, e ao mesmo tempo impede de vermos aquilo que não é necessário ou que não nos agrada. Folha que vem sempre em primeiro lugar, silenciosamente canta a serenidade, alertando a todos para a necessidade do falar pouco, para sofrer menos. A calma é sempre cantada, chamada, em primeiro lugar. Não se pode, ou melhor, não se deve entrar em um ambiente sem que seu olhar esteja manifestando calma, um olhar calmo o suficiente para enxergar as coisas com clareza e nitidez, sob todos os ângulos.

A calma é parceira inseparável do silêncio. Verdadeiros tratados podem ser escritos sobre o silêncio, porém, “silenciosamente” se pode dizer: silêncio é não falar o que não é necessário ser falado. Basta, portanto, não falar aquilo que não é preciso, que a pessoa pode considerar-se em estado de silêncio, passo fundamental para que se possa atingir o estado de calma. Estar calado não necessariamente é estar em silêncio. E o oposto é verdadeiro, no silêncio muito se diz.

Bilreiro – É desta árvore que são tirados os bilros usados pelas rendeiras para fazer um dos mais ricos artesanatos de nosso país. Folha de Xangô que ilumina do alto, nos protegendo e nos erguendo. É a folha do trovão que, como o forte grito de Xangô, acorda quem está dormindo. Afinal, “quem muito dorme nada aprende e nada vê”. E é Xangô, Deus do Trovão, orixá de “olhos de orogbo”, sempre abertos e atentos, que com sua voz rouca grita para que nos levantemos e, como guerreiros, enfrentemos a nossas lutas diárias.

Vassourinha-de-Oxum – Cultuamos com muita força a folha mais doce que o mel, para que ilumine nossos mistérios. O mel é símbolo da doçura natural, isto é, aquela que nos é oferecida pela natureza. Oxum, assim como o mel, representa a fala doce que nos embriaga.  A planta conhecida popularmente como vassourinha-de-oxum nos ensina a termos cuidado como as pessoas muito adocicadas, que podem estar usando a fala doce para nos deixar embriagados, conseguindo tirar de nós aquilo que desejam.

Bambu – Folha de vida longa, que é firme e escapa das tempestades, a quem suplicamos que nos torne  fortes e vigorosos.  O bambu segue em direção ao céu com a humildade e a sabedoria dos grandes mestres. No seu caminhar, reconhece a necessidade de se inclinar perante forças maiores, como a da tempestade. O Bambu é sábio: para não quebrar ele enverga.

Espada-de-Oxossi – Para a folhas com formato de espada pedimos que sejamos bastante fortes para que, rapidamente, possamos cortar o mal e as armadilhas que são feitas para atrapalhar a nossa existência. Afinal, a espada é símbolo de destruição da injustiça, da maleficência e da ignorância.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, ela escreve em A TARDE, sempre às quartas-feiras.

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