Balaio de Ideias: Nem todo mundo é Cartola ou Brown

postado por Cleidiana Ramos @ 11:10 AM
12 de abril de 2012

A bela ilustração é de Gentil

Gildeci de Oliveira Leite

Na década de 1980, durante o estouro das bandas baianas, sinto saudades de muitas delas, havia, inicialmente, quase que uma obrigatoriedade de inserir-se nas letras de músicas refrões que contemplassem os desgastados iê, iê, iô, iô. Vários compositores usaram a fórmula de sucesso espalhada aos quatro cantos do mundo baiano.

Discursos alegavam que os encontros vocálicos eram imprescindíveis às letras, pois do contrário não fariam sucesso. O principal argumento para a imposição do empobrecimento de letras de músicas baianas na década de 1980, pasmem, era o de que ficariam muito difíceis e os ouvintes não entenderiam. Então, se já nos indignamos com outras formas de racismos e de preconceitos, coloquemos mais esta em nossa lista.

Iaiá e ioiô são sinônimos, respectivamente, de sinhá e de senhor em variação linguística daqueles que foram obrigados a não frequentar a escola. Também uma forma carinhosa de chamar o seu dengo, seu amor. Que não surjam risos de canto de boca, dizendo impropérios sobre os falares dos escravos. Pessoas de variadas nacionalidades e etnias tendem a pronunciar palavras de um idioma estrangeiro fora da norma-padrão culta. Quando for conversar com estrangeiros, veja que alguns deles cometem aquilo que denominaríamos erro. Isso acontece com todo falante, principalmente estrangeiro, e com um escravo submetido a 16 horas diárias de trabalho não seria diferente. Qual tempo e oportunidade teriam para aulas? O eito era o único caminho.

Voltando ao iê, iê, iô, iô ou ainda iá, iá, há músicas que utilizam estas palavras como referências a falares negros. Lembro-me do cantor Virgílio fazendo isso ao gravar Yáyá Maravilha, de Carlinhos Brown. Desinformados, outros compositores e alguns empresários/produtores devem ter usado as fórmulas (antes ou depois de Brown) de forma indiscriminada, talvez aqueles por garantia de espaço e os outros dois por pensarem nas cifras nada musicais.

Eis o verdadeiro problema: informação, digo formação. Acredito que o excesso de iê, iê, iô, iô em músicas baianas da década de 1980 é, também, o espelho da escola com pouco ou quase nenhum incentivo à leitura e ao pensamento crítico. Apesar das melhorias da educação, ainda acontece o mesmo hoje. Basta ouvir letras de nossas músicas, carentes de poeticidade, como determinados funks cariocas, inspiradores de pagodes baianos, que pena. Não acho que devemos crucificar as pessoas que criam de forma empobrecida.

Ao invés do olhar que deprecia aqueles que levam ao público aquilo que muitos de nós falamos e fazemos protegidos pelas paredes de nossas casas e por isolamentos acústicos dos motéis, poderíamos apostar em uma reeducação. Que a educação não castre a sensualidade, contudo deixe-a mais criativa, multifacetada. Vi e vejo na academia doutores e doutoras descendo até o chão, pondo a culpa na segunda cerveja. Alguns por notória limitação física não ousam as sensuais descidas e subidas, mas seus rostos ficam ensopados de felicidade endorfinática (de endorfina, o hormônio do prazer). Guardadas as proporções dos poderes da cerveja, coitadinha sempre culpada, há algo de atrativo nas músicas que fazem descer e subir.

É preciso pensar em uma escola que eduque também para o exercício das diversidades criativas da linguagem. A capacidade inventiva e inspiradora pouco se qualifica sem os 99% de transpiração, trabalho. Uma formação crítica voltada para as artes, em especial a literatura, criaria autores preocupados com a qualidade de seus trabalhos e leitores de mundo mais competentes. Precisamos de mais aulas de artes (incluindo a arte literária) e de consequente encantamento em todas as séries do ensino básico. Afinal, poucos poderão fazer bons trabalhos sem uma qualificada e duradoura ajuda da escola, pois nem todo mundo é Cartola ou Carlinhos Brown! O primeiro só estudou até o primário. Brown “teve pouco estudo”. Os dois grandes compositores aprendizes de espaços não formais do saber.

Gildeci de Oliviera Leite é mestre em Letras e professor de Lieratura Baiana na Uneb

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