Balaio de Ideias: Manifesto por uma vida afetiva digna

postado por Cleidiana Ramos @ 10:33 AM
16 de julho de 2015
A jornalista Maíra Azevedo faz contundente análise sobre racismo e afetividade. Foto:  Edilson Lima/ Ag. A TARDE/ 29.1.2014

A jornalista Maíra Azevedo faz contundente análise sobre racismo e afetividade. Foto: Edilson Lima/ Ag. A TARDE/ 29.1.2014

Maíra Azevedo

Para a maioria, o 25 de julho é apenas mais uma data no calendário. Para nós, que fazemos o debate de gênero e raça, é momento de analisar as posturas sociais e como elas interferem nas vidas daquelas e daqueles que dizemos defender em nossos discursos. As pautas são diversas. Por isso optei em focar meu debate sobre algo que faz parte das conversas das mulheres negras: vida amorosa ou a falta dela. Por isso, resolvi fazer uma série de questionamentos e espero as respostas.

Quem faz manifestação pela morte afetiva e cotidiana das mulheres negras? Quem se importa quando as mulheres passam sozinhas pelas ruas? Quem se incomoda com o fato das mulheres negras serem sempre maltratadas por seus parceiros, seja fisicamente ou psicologicamente? Quem tenta buscar solução pela vida miserável que as mulheres negras levam, pois ou elas estão chorando pelos homens negros que morreram ou pelos que ajudam a tirar suas vidas? Porque a morte das mulheres negras é real. Quando não morrem fisicamente, estão mortas afetivamente. A solidão mata, entristece, deprime.

Hoje, peço a você um minuto de reflexão. Qual mulher negra que você conhece vive uma relação bacana, tranquila, com cumplicidade? Se lembrar de cinco, sem precisar puxar pela memória, então eu volto e digo que estou errada. As mulheres negras estão sozinhas, até mesmo quando tem alguém ao lado. Porque a maioria dos homens, quando estão ao lado de uma mulher negra acham que já fizeram o bastante por ela. Para muitos, o fato de terem assumido a relação com uma de nós é um plus, um bônus. Devemos agradecer, afinal estamos fora das estatísticas da solidão.

É preciso fazer um alerta, uma convocação. Temos obrigação moral de sermos mais companheiras uma das outras. Se somos mesmos comprometidas com o debate de empoderamento feminino, vamos aprender a não brigar por homens, a não permitir que eles nos dissolvam. Pois, quando eles partem, ficamos em frangalhos e eles fazem isso em série.

Não dá mais para aceitar as migalhas que muitos desses homens pensam em nos oferecer: levar para um quarto de hotel e ter uma noite de prazer ou se aproveitar do nosso status para ter um duplo prazer. Muitos deles querem gozar da nossa influência e acham que nos dar o gozo é a melhor forma de retribuir tudo que já fizemos por eles.

E a nós mulheres negras, cabe praticar mais a sororidade. Devemos ser mais cúmplices, não julgar a outra. Estender a mão e no momento de dor, nada de lembrar “EU BEM QUE TE AVISEI”. Esse sofrimento em busca de um homem legal, bacana, companheiro, que te respeite, parece ser incessante e isso é cobrado de todos os lados.

A hora de chorar pelos cantos já passou e não deveria nem ter chagado. Mas é preciso despertar e ser mais cofiante, rejeitar essas miudezas que eles nos oferecem por aí. Porque pra gente é sempre mais difícil. Queremos viver, bem viver e não sobreviver. Vamos protestar contra a miserabilidade afetiva a que somos submetidas e que ás vezes é praticada por aqueles que defendemos. Basta! Por uma vida afetiva verdadeira e digna.

Maíra Azevedo é jornalista do Grupo A Tarde e militante das causas que envolvem a questão étnico-racial, gênero e combate ao racismo e  a todas as formas de desigualdades

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3 Respostas to “Balaio de Ideias: Manifesto por uma vida afetiva digna”

  1. Maria Carollina Santos Carvalho  Says:

    O Racismo é um sistema de dominação que influencia bastante o campo afetivo na vida de nós mulheres negras. Sofremos nas mãos do homem branco que insiste em nos fazer de mero objeto sexual e nas mãos do homem negro que vive querendo nos trocar por uma branca ou nos explorar financeiramente. Sou de uma família de mulheres negras da Suburbana, na qual todas as mulheres criaram seus filhos sozinhas abandonadas pelo homem negro. Não quero com isso criar sentimento de oposição entre a mulher negra e o homem negro, mas precisamos discutir sempre o tratamento dispensado a mulher negra na nossa Sociedade em todos os aspectos, seja no campo afetivo, saúde, empregabilidade, nas Universidades e etc.

  2. Uiara Lopes  Says:

    Maíra lendo alguns textos de Bell Hooks ou Gloria Jean Watkins , ela escreve muito sobre esse tema e sinto que vira e volta ele é recorrente em varias rodas de dialogo que participo. Fico profundamente reflexiva sobre o tema, mas, penso que ainda precisamos de muitos afagos, estava falando outro dia que não lembro de um homem elogiando meu cabelo crespo e isso fere de morte nossa autoestima. O que lamento além de ter que concordar com você, é permitir que outros não negros precisem participar de mais essa mazela nossa. A fragilidade da vida de uma mulher negra é cruel, ou ela é eternamente a forte e que amedronta ou ela é aquela sexual. Vista deseja, mas não em tempo integral. Com ela vêm muitos problemas e pode ser que esse problemas sejam reais afinal o Racismo nos deixou com muitos problemas, inclusive esse de desagregação emocional.

  3. Vilma Reis  Says:

    O texto de Maíra Azevedo​ hoje em A Tarde, poderia vim seguido por uma canção de Nina Simone, pois tem a dor das divas-negras-cotidianas, que vagam nas noites de todas as cidades do mundo, que securlarmente experimentam as dores e evidenciam as marcas mais profundas da negação de um nós mulheres negras sujeitos afetivos, sujeitos de direitos, sujeitos de memória, obrigada Maira, coragem irmandade para seguirmos. Vamos ler, ela fez para todas e todos, pois como nos diz Chimamanda Adichie, escritora nigeriana da nova geração, “Sejamos todos feministas”, acrescento ao título da irmã da África Subsaariana, sejamos todas feministas negras sem medo de ser feliz, pois dos pântanos nascem os girassóis!!!

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