Balaio de Ideias: Liturgia – ritos públicos

postado por Cleidiana Ramos @ 11:11 AM
13 de agosto de 2012

Mãe Stella traz reflexões sobre os ritos públicos do Candomblé. Foto: Arestides Baptista / Ag. A TARDE/ 28.08.2010

Maria Stella de Azevedo Santos

Tomei emprestado da língua grega a palavra liturgia para falar neste artigo sobre ritos públicos do candomblé e assim dar continuidade à série de artigos que trata do “corpo religioso” que fundamenta esta prática. A palavra liturgia, comumente usada por todos atualmente, quer significar o conjunto de funções oficiais de uma religião, como ritos, cerimônias, sacramentos, que é dirigido ao público em geral, e não apenas a seus sacerdotes. O catolicismo entende como litúrgico os atos religiosos que sejam não apenas públicos, mas que também constem dos livros oficiais da referida crença. No candomblé, como não existem livros oficiais, uma vez que esta é uma religião que tem origem no culto aos orixás, o qual é anterior ao surgimento da escrita, podem ser considerados litúrgicos os atos religiosos abertos ao público, cujos fundamentos foram transmitidos oralmente pelos escravos trazidos do continente africano aos seus descendentes que foram nascendo no Brasil.

Não são muitas as práticas públicas do candomblé, uma vez que essa é uma religião que tem como principal função fornecer condições para que a essência divina (orixá) de uma pessoa possa ser conhecida, conectada e fixada, o que só é possível acontecer através do processo iniciatório, que faz com que o iniciado se transforme em um sacerdote do orixá a cuja energia ele está vinculado. São poucas as práticas abertas ao público, mas não são inexistentes. O Xirê – Roda dos Orixás –, o Olubajé – Banquete de Obaluaiye – e a consulta ao oráculo – Jogo de Búzios – são alguns dos ritos onde os não sacerdotes podem estar presentes, sendo eles os escolhidos para serem comentados neste artigo.

Xirê é uma palavra normalmente entendida como festa, significando um momento onde se canta, dança e come. Essa é uma tradução que usamos na informalidade, para nos fazermos entender por aqueles que pouco conhecem ainda sobre o culto aos orixás; isto porque, literalmente traduzida, esta palavra yorubá – xirê – significa jogo, competição, esporte. Entretanto, quando falamos sobre o ritual Xirê de maneira mais profunda, traduzimos esta palavra como: abertura para as bênçãos e favores dos orixás. Apesar de em sua origem a palavra festa referir-se a dia santificado, de descanso e regozijo, ela se diferencia de cerimônia porque não tem regra fixa. Xirê, portanto, é uma cerimônia religiosa, com regras fixas e vestuário pré-fixado, cujo objetivo é louvar as divindades para que elas nos fortaleçam com suas graças.

O Jogo de Búzios – muito conhecido, mas muito mal entendido – é outra cerimônia aberta ao público. Esse oráculo é uma das maneiras pela qual os sacerdotes se comunicam com o divino. É a ponte entre o homem e o sagrado. Erroneamente se entende um oráculo com um processo de adivinhação, na verdade é um processo de divinação, onde se lê e interpreta o que os orixás orientam para que o destino possa ser cumprido.

O Olubajé também faz parte da liturgia do candomblé. Nesse ritual, o povo em geral participa do banquete que é oferecido por Obaluaiye – o médico dos orixás – a seus devotos, com a intenção de trazer saúde para todos que se alimentam da comida oferecida na folha de mamona, planta cuja semente é considerada a mais venenosa do mundo para os humanos. O Olubajé é um ritual de conciliação de quem é ridicularizado com aqueles que têm o hábito de discriminar o outro, onde Obaluaiye ensina, através de um banquete sem mesa e sem lugar especial, que ninguém é melhor que ninguém.

É comum ser dito sobre o candomblé que esta é uma religião sem doutrina. Não é verdade, pois não apenas em sua liturgia, mas em todo seu “corpo religioso”, ensinamentos são milenarmente transmitidos, a fim de ajudar o homem a construir-se de maneira sagrada. O que acontece é que não é objetivo primordial do candomblé doutrinar ninguém, mas sim permitir que cada um aprenda através de sua própria essência divina. Afinal, ensinamentos não podem ser impostos, uma vez que apenas o orí (cabeça) de cada um sabe o momento de absorver os aprendizados que necessita.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Ela escreve, quinzenalmente, artigos que são publicados em A TARDE, sempre às quartas-feiras 

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