Balaio de Ideias: Je suis candomblé

postado por Cleidiana Ramos @ 8:34 PM
27 de janeiro de 2015
Jaime Sodré analisa necessidade do respeito à diversidade religiosa.  Foto:  Mila Cordeiro/ Ag. A TARDE/  09.11.2011

Jaime Sodré analisa necessidade do respeito à diversidade religiosa. Foto: Mila Cordeiro/ Ag. A TARDE/
09.11.2011

Jaime Sodré

Imponente, merecido e belo ergue-se o busto a Mãe Gilda, obra de arte a sacralizar e embelezar o espaço sagrado da Lagoa do Abaeté. Este monumento escultural é um símbolo contra a intolerância religiosa. A reverendíssima Yalorixá Gildásia dos Santos, nome de batismo desta dedicada religiosa, morreu no ano 2000 vitimada por um infarto após visualizar, com desgosto profundo, a sua foto em um jornal a ilustrar uma matéria intitulada “Macumbeiros e charlatões lesam a vida e o bolso de clientes”. Em relação a monumentos que louvam os feitos de mulheres religiosas negras, temos o de Mãe Caetana na Boca do Rio e Mãe Runhó no fim de linha do Engenho Velho da Federação. O de Mãe Gilda localiza-se no Abaeté pela proximidade ao seu Terreiro, o Ilê Axé Abassá, hoje liderado pela competência de Mãe Jaciara.

A repressão àqueles que não sabem conviver, tem como marco legislativo a Lei 7.716/89 (Lei Caó), produto do eminente baiano, jornalista, parlamentar e advogado Carlos Alberto dos Santos (Caó). O artigo 20 desta lei assim define a intolerância religiosa: “é um termo que descreve a atitude mental caracterizada pela falta de habilidade ou vontade em reconhecer e respeitar as diferenças ou crenças religiosas de terceiros. Poderá ter origem nas próprias crenças religiosas de alguém ou ser motivada pela intolerância contra as crenças e práticas religiosas de outrem”. Em Salvador existe uma mobilização vigilante e constante contra esta prática por parte de uma maioria de pessoas comprometidas com a liberdade religiosa, incluindo os fiéis do Candomblé. Louvemos a iniciativa da ex-vereadora Olívia Santana, autora da Lei Municipal n. 6.464/04 que instituiu o dia 21 de janeiro como a oportunidade de reflexão, conscientização e combate a intolerância religiosa.

Inspirado na lei criada por Olívia, o deputado federal Daniel Almeida foi o autor da lei federal n. 11.635/07 que inclui a data de 21 de janeiro no Calendário Cívico da União, pois, segundo o parlamentar, é necessário que dediquemos cotidianamente a nossa ação para a convivência com a diferença, de forma harmônica. Sensibilizados por esta proposta de convivência, inúmeros sujeitos lançam-se num empenho contra a intolerância religiosa, eis alguns: o Dr. Wellington Cesar Lima e Silva. Afirma que, mais que medidas judiciais, o que importa é o sentimento de que estamos juntos nesta caminhada, logo, ao respeitarmos as diferenças nos aproximamos do verdadeiro significado de um ato religioso. Louvemos aqui a promotora de Justiça Márcia Virgens.

O pastor Djalma Torres assegura que a diversidade religiosa é uma riqueza e a intolerância é inaceitável, e conclui que somos filhos de um mesmo pai e precisamo-nos respeitar. Já o padre Adriano Portela lembra que conviver em sociedade é encontrar pessoas que pensam diferente e respeitá-las. O ilustre médium espírita José Medrado esclarece que tolerância muitas vezes pode significar apenas “eu suporto”, queremos respeito! Algumas entidades merecem destaques especiais, como é o caso de Koinonia que há 21 anos luta contra a intolerância religiosa e contra todas as formas de violação dos Direitos Humanos, e agora se empenha no apoio ao Caso Mãe Rosa.

Jaime Sodré é professor universitário, mestre em História da Arte, doutorando em História Social e religioso do candomblé

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