Balaio de Ideias : Entre o passado e o futuro

postado por Cleidiana Ramos @ 6:11 PM
19 de novembro de 2009
Sérgio São Bernardo: reflexões sobre identidade. Foto: Walter de Carvalho| AG. A TARDE

Sérgio São Bernardo: reflexões sobre identidade. Foto: Walter de Carvalho| AG. A TARDE

Sérgio São Bernardo

Somos um rosto com identidades multi-facetadas, algumas faces aparentemente mais visíveis que outras. E isso nos levou a uma busca frenética por modelos filosóficos e jurídicos, com forte apelo etnocêntrico, como a salvação do mesmo e da negação do outro, ou a sublimação do outro no eu, o que acarretou a hibridez física e a hegemonia ideológica e material no Brasil.

O movimento negro baiano tem se reunido para vários motivos e interesses. Uma nova etapa tem surgido, sem que saibamos ao certo se isso tudo é fruto do que se pretendeu no passado ou se é um desvio programático do que se pretendia para o futuro. No entanto, é preciso lembrar que somos cria de nosso tempo e não apresentamos apenas dados e reclamamos utopias. A ocupação de espaços já é uma realidade presente. Mas, paradoxalmente, a ausência de espaços parece existir para nos lembrar de um passado que nos remete a uma luta incansável.

O Novembro Negro é um lugar de presença, não de utopia. A utopia é um não lugar. Os africanos não nos legaram a utopia. A presença é fundada num passado que se constrói em espirais que se reinventam como futuro. O futuro nasce de lutas que se afirmam na existência do aqui e agora. Esta é uma passagem que nos ajuda na afirmação como diferentes e que se projeta na luta pela igualdade.

O esforço de parte expressiva da inteligência brasileira tem sido no sentido de provar a generosidade do colonizador e a inferioridade, ou o atraso, dos povos colonizados e escravizados. Enquanto isso, uma nova narrativa histórica surge dos movimentos sociais negros. A segregação material e simbólica desses segmentos da população brasileira acusa uma invisibilidade construída à luz de uma doutrina de simulação do mesmo em relação ao outro.

A formação do pensamento no Brasil serviu a propósitos colonizatórios e a criação autoritária do Estado português logrou uma deliberada conformação societária composta de negros e indígenas enquanto “coletivo humano inferior”, segundo Kabenguele Munanga . Valem ser destacadas, algumas práticas sociais projetadas negativamente e criminalizadas pelo poder de Estado, a partir dos processos estruturantes da colonização, da escravidão e do racismo institucionalizado. Mesmo assim, o ideário da identidade negra perpetua-se enquanto projeto de poder e resiste baseado nos valores de igualdade dentro da racionalidade moderna e até mesmo de identidade numa perspectiva pluralista de justiça.

O outro nunca existiu como eu mesmo para o eu eurocêntrico. O outro é uma invenção do eu próprio. E este “eu” reificado funda a nacionalidade e a brasilidade. Mas, só serei reconhecidamente o outro radical se me assumir enquanto eu em minha integralidade onto-social, dirá Husserl. Essa tradição filosófica e jurídica se assenta fielmente ao modelo europeu de vida social e de organização estatal de uma mesmidade com atributos padronizados de cor, sexo e origem. É desse modo que se configura nosso ethos original – a cidadania é negra e indígena nos momentos de afirmação cultural, mas nossa cidadania é perversamente européia e branca nos momentos de afirmação da cidadania através dos mecanismos de obtenção e exercício dos direitos, oportunidades e condições de vida.

O espectro do estado democrático de direito, do qual o Brasil é corolário, encontra graves contradições em sua pretensão democrática e identitária. Enquanto isso, Tais Araújo, que protagoniza uma personagem negra da novela das oito, apanha, confirmando a desconfiança de muitos de qual é o lugar da mulher negra na teledramaturgia brasileira. Temos muito a fazer: reconstruirmos nosso próprio sonho até que velhas narrativas sejam recontadas para que os novembros não mais existam e tenhamos o ano todo! 

Sérgio São Bernardo é advogado, professor da Uneb, presidente do Instituto Pedra de Raio

 

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3 Respostas to “Balaio de Ideias : Entre o passado e o futuro”

  1. Marília Vasconcelos  Says:

    Sérgio,
    Concordo com você em quase todos os aspectos; discordo no que se refere à citação da personagem de Taís Araújo que, por sinal tem gerado muita polêmica. E se a personagem fosse branca, como as pessoas reagiriam? E quando a personagem negra esbofeteou a branca?Analisei a estória da novela e cheguei a conclusão que a conquista da atriz como protagonista no horário nobre representa uma vitória para os negros. Vivemos em uma sociedade onde o padrão de beleza e de sucesso cultuado é da pessoa branca, bonita, magra e de olhos claros. E, uma pessoa negra ascender nesse espaço é realmente louvável. Sei que ainda estamos engatinhando no processo de igualdade racial, sei que existe uma máscara de hipocrisia na nossa sociedade e que os negros ainda são deixados de fora nas oportunidades de trabalho e de estudo. Realmente, o 20 de novembro é uma data para se repensar…
    Um grande abraço,
    Marília

  2. Capitão Marinho  Says:

    Cleidiana,
    Muito obrigado por nos brindar com o texto do Dr. Sérgio São Bernardo. Aproveito o ensejo para pedir – como fiel e assíduo leitor do mundo afro – textos desta estirpe com mais frequencia. Nós, negros, precisamos de informações e, principalmente, de conhecimento. Este é que produz PODER!
    Dr. Sérgio, sou seu fã incondicional. Obrigado por nos proporcionar seus conhecimentos!

  3. Juliana Sao Bernardo  Says:

    Muito bom o Texto do meu Primo Serginho! não tennho palavras para descrever o quanto ele é inteligente e esforçado. e concordo com Clediana
    textos desta estirpe devemos ler com mais frequência Sou fã nº 02 do Doutor Sergio.

    Primo parabéns!! tenho orgulho de você.

    bjs

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