Balaio de Ideias: Cosmogonia yorubá

postado por Cleidiana Ramos @ 12:08 PM
20 de julho de 2012

Mãe Stella traz reflexão sobre cosmogonia na visão do Candomblé. Foto: Marco Aurélio Martins / Ag A TARDE/ 21.05.2010

Maria Stella de Azevedo Santos

Este escrito, assim como alguns que se seguirão a ele, visa levar ao conhecimento dos leitores o “corpo religioso” em que se fundamenta o candomblé: sua cosmogonia, dogmas, liturgia e rituais. O artigo de hoje fala sobre cosmogonia, que é a explicação que as religiões, culturas e até mesmo a ciência – teoria do “Big Bang” – dão para esclarecer a origem do universo. A intenção é diminuir os conceitos preconcebidos de maneira errada que alguns têm sobre essa religião iniciatória. Ela é misteriosa, sim! Não porque a base em que se sustenta não possa ser transmitida, mas pelo fato de seus adeptos serem iniciados e por isto mesmo vivenciarem uma experiência com o sagrado que é individual, portanto, difícil, ou melhor, impossível de ser transmitida. Aqui será relatada uma parte da cosmogonia do candomblé, que conta a seguinte história mítica para demonstrar como a Terra foi criada:

“No Orum, Oduduwa unida a Oxalá formavam um só orixá – Obatalá –, símbolo do casal mítico primordial, propulsor da ‘Criação’, existente nas cosmogonias de diferentes culturas. No princípio de tudo, quando não havia separação entre o que está em cima e o que está embaixo, Oxalá e Oduduwa viviam juntos dentro da Cabaça-da-Existência. Eles viviam muito apertados naquele local, tendo que dormir um em cima do outro. O que determinava quem dormiria por cima ou por baixo eram os sete anéis que eles possuíam. Oxalá sempre conseguia colocar quatro anéis e por isto tinha o privilégio de ficar por cima. Oduduwa se conformou com aquela situação por muito tempo, mas um dia ela disse que usaria os quatro anéis. Oxalá não aceitou e a luta entre o casal/irmão foi tão grande que a ‘Cabaça’ se rompeu em duas metades, ficando Oxalá na parte superior e Oduduwa na parte inferior. Estava rompida a união do casal primordial. O Orum (Céu) já não podia mais ser a ‘residência’ dos dois orixás. Outro local precisava ser criado. Olorum resolveu, assim, criar o Aiye (Terra).

O oráculo de Ifá foi consultado e determinou que a missão de criar a Terra deveria ser realizada por Oxalá. Para que a missão tivesse êxito, Exu precisaria receber sua oferenda. A divindade suprema, Olorum, entregou a Oxalá a Cabaça-da-Existência, contendo nela o germe de tudo que há no mundo. Devido à grande ansiedade de realizar a tarefa, Oxalá se esqueceu de dar oferenda a Exu. Assim, Ele não pôde contar com o apoio do orixá símbolo da existência diferenciada, o princípio dinâmico de propulsão, mobilização, transformação e crescimento que conduz à criação. Oxalá se esqueceu da importância de Exu Yangí, a primeira matéria criada, formada de água e terra; a primeira matéria que daria forma a todas as outras subsequentes, inclusive daria forma à humanidade.

“A ansiedade de Oxalá lhe causou grandes problemas. Olorum tinha dito a Oxalá que durante sua missão ele estava proibido de ingerir vinho-de-palma: bebida que possui alto teor alcoólico. Aconteceu que a ansiedade sentida por Oxalá fez com que sua necessidade de beber água aumentasse. Em pouco tempo de viagem, todo o suprimento de água que Oxalá tinha levado foi logo consumido. Sentindo uma sede insuportável, Oxalá se viu forçado a ingerir a seiva do tronco do dendezeiro que Exu, cumprindo sua tarefa de fazer com que não fossem negligenciadas as ordens de Ifá, tinha colocado em seu caminho. Oxalá tomou uma bebedeira e caiu no sono. Sua esposa/irmã, Oduduwa, ao vê-lo naquele sono profundo, recolheu a Cabaça-da-Existência e foi devolvê-la a Olorum, que a passou, então, para Oduduwa – contraparte feminina de Oxalá – a importante missão de criar a Terra.”

A história mítica acima descrita é muito maior e mais profunda. Nela os adeptos do candomblé encontram importantes lições que os ajudam a compreender o mundo. Uma delas é o fato de que todas as tarefas precisam ser executadas com concentração, sem ansiedade, e com a cabeça livre de qualquer substância entorpecente, inclusive pensamentos que adormecem a mente. Outra lição é que fazer oferendas, dar presentes, é um ato mágico que ajuda na obtenção de simpatizantes para nossas causas.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, ela escreve para o jornal A TARDE, sempre às quartas-feiras.

Tags: , , ,

Deixe seu comentário