Balaio de Ideias: A palavra é: “dogmas”

postado por Cleidiana Ramos @ 3:52 PM
15 de agosto de 2012

Mito de Oxóssi ganha destaque em artigo de Mãe Stella. Foto: Gildo Lima/ Ag. A TARDE/ 27.12.2003

Maria Stella de Azevedo Santos

Nos dois últimos escritos que fiz para este quase centenário jornal, os assuntos abordados foram a cosmogonia e a liturgia do candomblé. Continuando a série de artigos que trata do “corpo religioso” que fundamenta essa religião, hoje o tema é dogmas: “verdades” reveladas pelos orixás, as quais são usadas pelos adeptos como bússolas que norteiam o caminho a ser vivenciado por eles, até que seja atingida a completa união. Toda religião possui seus dogmas; possui suas próprias verdades que são aceitas usando-se apenas o critério da fé. No caso específico da religião dos orixás, os dogmas foram revelados, mas não legitimados por nenhum codificador. Eles são transmitidos pelos mais velhos aos mais novos, que devem simplesmente aceitá-los. A opinião pessoal do “filho de santo” não é levada em conta no que diz respeito à modificação dos dogmas, mas deve ser vista como fator importante para clareá-los e elaborá-los.

Em um artigo, é impossível falar de todos os dogmas que orientam os sacerdotes da religião dos orixás, por isto optei por um que é específico do candomblé da nação ketu: a interdição do mel como alimento para os filhos de Oxossi e seus descendentes. Conta um mito:

No dia em que Oxossi estava indo caçar, ele procurou Orumilá a fim de fazer jogo divinatório. Oxossi deveria fazer oferendas para que ele não se perdesse na floresta. Ele disse que conhecia a floresta muito bem e que nunca se perderia dentro dela. Oxossi não fez as oferendas e foi para a floresta caçar. Ele viu um rastro no chão e começou a segui-lo. Quando Oxossi parou para olhar o rastro, ele colocou seu arco e flecha no chão, mas quando foi pegá-lo não o encontrou. Cansado, com fome, sem arma para providenciar alimento, ele ficou perdido na floresta. De repente, Oxossi viu uma jaqueira com o chão forrado de folhas e se deitou sobre elas. As abelhas que estavam na árvore fabricaram o mel, que começou a pingar sobre sua boca. Ele ficou ali por quatro dias, quando o único alimento que recebeu foi mel. Oxossi se recuperou e já sabia como voltar para casa. O caçador voltou a procurar Orumilá, querendo agora fazer as oferendas que ele não tinha feito. Orumilá disse: “A partir de agora, Oxossi e todos seus descendentes não comerão mais mel, somente em casos de extrema necessidade”.

Como pode ser visto, os mitos ajudam no sentido de fazer com que os dogmas possam ser mais bem entendidos e, assim, cumpridos sem maiores resistências. É por não entender o fundamento que está na base dos dogmas de cada religião que muitos deles são criticados. É, portanto, uma insensatez o seguidor de uma crença criticar os dogmas de quem segue outra religião que não a sua. O provérbio ensina: cada terra tem seu uso, cada uso um parafuso. O aprofundamento do dogma também ajuda para que ele possa ser adaptado à realidade de local e tempo, sem que ele seja maculado e, assim, corra o risco de perder sua função de orientador para o grupo ao qual ele está vinculado.

Na Bahia, o culto aos orixás é entendido como candomblé da nação ketu, jeje, angola… Eu professo o candomblé vinculado à nação ketu, cujo fundador é Oxossi. Essa nação, heroicamente, soube adaptar-se ao mundo moderno, sem permitir que seus fundamentos fossem abalados. Já para a nação jeje, tudo fica mais difícil, pois seus dogmas e liturgia encontram dificuldades de serem flexibilizados e readaptados. Por isso, peço às autoridades constituídas, tanto religiosas quanto civis, que se lembrem de que a união faz a força.

A sabedoria jeje corre um grande risco de desaparecer. Não podemos permitir que isso aconteça. Se é preciso preservar as espécies animais, vegetais e minerais, é também preciso preservar o conhecimento cultural e religioso que ajuda os homens a serem mais humanos. Nós, religiosos, pedimos que as autoridades civis a nós se unam para realizar esse difícil, mas não impossível, resgate. É o país Benin, em África, o berço da nação jeje. Tenho conhecimento que um grupo deseja ir para Benin em busca dos conhecimentos que lá ainda vivem. Quero crer que ele não estará sozinho, os homens e os deuses estarão sempre com eles.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, ela escreve artigos para o jornal A TARDE, publicados sempre às quartas-feiras

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