Balaio de Ideias: 25 de maio–Bênção, Mamãe África

postado por Cleidiana Ramos @ 4:46 PM
25 de maio de 2011

Em artigo, Mãe Stella celebra o Dia da África. Foto: Diego Mascarenhas | Ag. A TARDE | 09.07.2010

Maria Stella de Azevedo Santos

Ainda de pouco conhecimento da sociedade é o fato de no dia 25 de maio se comemorar o Dia da África. Data escolhida porque em 1963 a Organização de Unidade Africana, hoje com o nome de União Africana, foi fundada, com o objetivo de ser, internacionalmente, a voz dos africanos.

Hoje, dia 25 de maio de 2011, o Terreiro Ilê Axé Opo Afonjá está recebendo uma média de cinqüenta professores da rede municipal, juntamente com seu secretário, para conosco comemorar este dia, que se constitui em uma tentativa de que os olhos e os corações do mundo se preocupem e se ocupem de cuidar do povo desse continente, mas também de aprender e apreender sua sabedoria, que como neta de africana e iniciada em uma religião que tem em África sua matriz, foi a mim transmitida.

Oportunidade que tudo faço para não desperdiçar. Muitas sementes da sabedoria dos africanos, em mim plantadas, ainda não encontraram terreno fértil para germinar, mas não desisto e, por isso, cuido desse terreno em todo momento. Outras há, no entanto, que cresceram e até deram frutos.

Foi assim refletindo que resolvi homenagear o berço da humanidade – a África -, aproveitando esse precioso espaço de comunicação que a mim foi concedido para, humildemente, tentar espalhar essas sementes, na esperança que elas caiam em terrenos férteis.

Foi através da tradição oral, chamada na língua yorubá de ìpitan, que entrei em contato com a maravilhosa arte de viver do africano, que tem na alegria um de seus fundamentos. Entretanto, nós brasileiros, que temos nesse povo uma de nossas descendências, não devemos correr o risco de sermos megalomaníacos e considerar a filosofia africana a melhor.

Todo povo possui sua sabedoria, mas Sabedoria, assim como Deus, é uma só. A mesma base, os mesmos fundamentos, apenas transmitidos de acordo com a cultura e o lugar de viver correspondente. Se foi através da tradição oral que aprendi, é agora na escrita, ìwe-kikó, que encontro condições favoráveis para transmitir, para um maior número de pessoas possível, os ensinamentos absorvidos e os quais ainda pretendo assimilar, de maneira profunda.

Conheçamos, então, um pouco do muito que possui a filosofia do povo africano: É na alegria e na generosidade que se encontra a força que se precisa para enfrentar os obstáculos da vida: “Lé tutu lé tutu bó wá” = “Sigamos em frente alegremente, sigamos em frente iluminados, dividindo o alimento adquirido”.

A palavra tem o poder de materializar o que existe em potencial no universo, por isso os africanos falam muito e alto, quando precisam canalizar sua energia em direção ao que é essencial, mas silencia nas horas necessárias. Um orin nos faz entoar: “Tè rolè… Mã dé tè rolè. Báde tè role” = “Eu venero através do silêncio… Eu pretendo cobrir meus olhos e calar-me. Ser conveniente, respeitando através do silêncio”.

Nosso maior inimigo (como também nosso maior amigo) somos nós mesmos: “Dáààbòbò mi ti arami” = “Proteja-me de mim mesma”. O cuidado com o julgamento do outro e também com o instinto de perversidade: “Bí o ba ri o s’ikà bi o ba esè ta ìkà wà di méjì” = “Se vir o corpo de um perverso e chutá-lo, serão dois os perversos”. O respeito às diferenças: “Iká kò dógbà” = “Os dedos não são iguais”. A necessidade de um permanente contato com a Essência Divina que cada um possui: Eti èmí óré dé ìyàn. Àroyé èmí óré dé ìyà” = “Na dificuldade de decisão e no debate, a Essência Divina amplia a visão para argumentar”.

Como se vê, o corpo da tradição oral africana, que é composto de itan – mito, oriki – parte do mito que é recitada em forma de louvação e evocação, orin – cântico de louvação, adurá – reza, ówe – provérbio serve para nos disciplinar.

Entretanto, nenhuma sabedoria tem mais valor do que a filosofia do ìwà, palavra que pode ser traduzida como conduta, natureza, enfim, caráter. Devemos estar atentos aos nossos comportamentos. Pois, como falam os africanos após enterrar um amigo, “ó kù ó, ó kù ó ìwà ré”, querendo dizer, “não podemos lhe acompanhar no resto de sua viagem, agora só fica você e seus comportamentos”.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá

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7 Respostas to “Balaio de Ideias: 25 de maio–Bênção, Mamãe África”

  1. Clodoaldo Barboza  Says:

    Muito enriqquecedora e sublimes a filosofia africana aqui exposta por Mâe Stela, grande patrimônio da Bahia; vejo algumas semelhanças entre essa fislosofia e os ensinamentos de Cristo, a essência vem da mesam fonte, o amor, respeito, carater, DEUS. Infelizmente a intolerância não tem a capacidade sublime de perceber a essência espiritual das coisas e do universo.

  2. jorge ribeiro  Says:

    bença mae

    é sempre um grande momento de reflexao, seus pensamentos sua historia, contibuem para uma vida melhor para todos independente de sua etnia.

    ase

  3. Jamile  Says:

    Lindo texto!!

  4. Adeoguian - Helmuth  Says:

    Mãe,

    Em nosso dia-a-dia e no reflexo de seu espelho começo a entender o valor de ser reto e a impossibilidade de estar feliz sem retidão de espírito. Como na nossa cultura e nossas influências, como na capoeira e em nossa religião tudo que vem de África traz impresso o valor da alegria. Na capoeira o coqueiro que dança com o vento deve ser manter reto e firme para crescer e o coqueiro é um fruto da terra e exemplo de ginga. O africano desenvolveu um ritmo de coqueiro ao se esquivar dançando, nós aprendemos com a senhora a ser firmes sem despediçar felicidade.

    Modupé

  5. Sérgio Bahialista  Says:

    Querida mãe Stella,

    É com muito encanto que venho aqui expressar minha comoção diante do seu artigo sobre Bença, mãe África, publicado no Opinião do Jornal A Tarde, no dia 25/05/2011. Retratou de forma sensivel a coragem que sustenta a magia e força do povo africano.

    Envio abaixo, cordel sobre Um cantinho da África encantada em Salvador/BA – 100 anos de Ilê Axé Opó Afonjá, que fiz para homenagear os 100 anos do terreiro e a sua bravura! Sou educador e tenho profunda responsabilidade em contribuir com novas dinamicas de educação que sirvam de instrumento de encantamento e de busca da ética da co-existência!

    Aceite este cordel como um presente que possa contribuir com o aprendizado dos belos meninos e meninas da escola que vive e pulsa dentro dessa comunidade-terreiro.

    Saudações com muitas admirações!

    Sérgio Ricardo Santos da Silva (Sérgio Bahialista)
    Mestrando em Educação e Contemporaneidade – UNEB; Pedagogo; Psicopedagogo; músico; Coordenador Pedagógico de EJA do NETI – Núcleo de Educação do Trabalhador da Indústria, no SESI – Serviço Social da Indústria; pesquisador do Programa Descolonização e Educação – PRODESE/UNEB; Cordelista; integrante da Rede de Arte-Educação Ser-tão Brasil.

    Um cantinho da África encantada em Salvador/BA

    100 anos de Ilê Axé Opô Afonjá

    Autor: Sérgio Bahialista

    Cordel banhado em dendê

    Te convida a pendurar

    Todo seu imaginário

    Sua força e seu encantar

    Nesse pedacinho da África

    Que começarei a versar

    Primeiramente inicio

    Dizendo para vocês

    Que aqui cumpro uma missão

    Assumida de uma vez

    Com nossa ancestralidade

    Todo dia, ano e mês

    1

    Falar do lugar encantado

    Do São Gonçalo do Retiro

    É adentrar selva encantada

    Linda que sempre me refiro.

    Opó Afonjá tira o pano

    Em suas Iyalorixás me miro

    Tudo começou pela

    Resistência à intolerância

    O Terreiro da Casa Branca

    Na luta contra ignorância

    Criou a Eugênia Anna

    Dos Santos que conclama

    Seu povo à sua bonança.

    E em 1910

    Fundou o belo Terreiro

    Ketu do Ilê Axé

    Opô Afonjá, guerreiro.

    E fincou sua Arkhé

    Iniciando Bela fé

    Na roça foi pioneiro

    2

    As Religiões tão belas

    De Matriz Africana

    Sempre nos ensinam a cuidar

    Da Natureza tão bacana

    O único verde de lá

    Está no belo “Afonjá”

    Nessa Salvador tão sacana

    No seu templo principal

    O Santuário de Oxalá

    Reina ao lado da nossa

    Querida Mãe Iemanjá

    E a casa de Xangô

    Espalha justiça e amor

    Para todos que vão lá

    Lá também foi fundada

    A primeira escola-Terreiro

    A escola municipal encantada

    Acolheu seus filhos guerreiros

    Valorizou seu mundo ancestral

    Com o nome tão genial

    Da Mãe Aninha, tão pioneiro

    3

    Nessa Comunidade Obá Biyi

    O encanto negro foi regado

    Pelo Mestre que assumiu

    Missão de regar o legado

    Do Povo da sua África

    Para os pequenos chegados

    Este forte é Mestre Didi

    Que trouxe nos seus contos

    Todo encanto dos orixás.

    Para as aulas, mais pontos

    Trazendo o mundo mítico

    Africano em seus recontos

    As nossas crianças negras

    Sempre quiseram ser

    Reconhecidas pela negritude

    Que carregam em seu viver

    Graças a Oba Biyi o sonho

    Concretizou-se nesse querer

    4

    Na Oba Biyi todos querem

    Seus filhos de anel no dedo

    E aos pés de Xangô

    Revelando seu segredo

    E da escola terreiro serem

    Guerreiros e viverem

    Sua África sem medo

    Suas sacerdotisas nesses

    100 anos de história

    Construíram força e beleza

    Que ficarão na memória

    De quem preza pelo sagrado

    Africano, seu legado

    De honra e muita glória.

    Até 1938

    Mãe Aninha comandou

    Mãe Bada de Oxalá

    Tomou após a que passou

    Até 41 foi a hora (1941)

    Depois a Mãe Senhora

    O reinado carregou

    5

    Logo depois Mãe Ondina

    De Oxalá assumiu

    Consolidando toda força

    Que o ancestral ali construiu

    Abrindo “caminhos d`Áfricas”

    Encantos míticos e mágicas

    Que todo povo negro viu

    A missão de levar adiante

    O legado magistral

    Depois que Mãe Ondina

    Foi para o Orum ancestral

    Foi passada para ela

    A guerreira Mãe Stella

    De Oxossi, a missão tal.

    Mãe Stella foi quem usou

    As armas do escrever

    Para defender seu povo,

    O canto d`África do viver.

    Escreveu com brilhantismo

    Afrontando o sincretismo

    Firmando a fé que tanto crê

    6

    Assim Mãe Stella pregou

    A necessidade do registro

    Pra combater os lapsos

    De memória tão sinistro

    Firmar que o candomblé

    Segue só a sua fé

    Afirmando o ser bonito

    E com espírito lutador

    Mãe Stella criou o Museu

    Ilê Ohun Lailai

    A Maravilha que nasceu

    Tradução disso? Sem briga:

    (Casa das coisas antigas)

    Guarda o Axé que ali cresceu

    Paz, beleza e sagrado

    São palavras que reinam lá

    O Palácio de Xangô

    Senhor da Justiça, já!

    Reúne aos seus pés os filhos

    Da grande Mãe Iyá

    7

    Aqui só deixei um pouquinho

    Daquele lugar encantado

    Pra te deixar curiosa (o)

    Para conhecer aquele lado

    E viver uma das Áfricas

    Que aqui tem chão marcado

    Como uma missão dada

    Pra mim é missão cumprida

    Saio mais leve dos versos

    Dessa escrita merecida

    Pois Afonjá vive pra dizer

    Como é que faz pra viver

    Nessa vida tão sofrida

    Oke Arô e aquele Axé

    Para todo ser vivente

    Do Orum e do Ayie

    Que vive tão plenamente.

    Usem esse Cordel no educar

    Para assim logo acabar,

    Com intolerância indecente.

    Inté + v!

    8

  6. Cleidiana Ramos  Says:

    Valeu Sérgio. E já lhe peço licença para publicar como post, assim todo mundo pode compartilhar melhor. Um grande abraço e parabéns pela obra, Cleidiana.

  7. Anderson Oliveira  Says:

    Fico feliz por saber que aumenta a cada dia o número de irmãos que compatilham do memso ideal de que somos iguais na diferença e podemos viver com respeito.Tive a grande satisfação de assistir a uma palestra sua Sérgio, na UNEB e é novamente com esta satisfação que deixo aqui este comentário.

    Abraços,

    AndersonOliveira

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