As histórias que moram em acervos privados

postado por Cleidiana Ramos @ 3:17 PM
26 de julho de 2010

História da escravidão continua a ser escrita e revista. Foto: Reprodução| Arquivo A TARDE

Fazer estudos sobre escravidão no Brasil ainda é um desafio por conta da pouca documentação disponível. Pois, durante o último final de semana que passei em Iaçu tive mais uma vez uma certeza do quanto de informação sobre este e outros assuntos deve está contida nos chamados arquivos privados.

Lá na minha cidade foi feito um trabalho brilhante por Valdemar Ferraro, agora com 90 anos. Por mais de 40 anos, como procurador de uma família em disputa por posse de terras no município ele colecionou documentos que contam a cadeia sucessória da área onde Iaçu se formou.

Vale ressaltar que ele não só conservou, mas descobriu e até traduziu documentos como uma carta de donatária que estava em português antigo.

No meio destes papéis estão informações preciosas como a que coloca o principal distrito de Iaçu, João Amaro, como uma vila formada ainda no final do século XVII.

E não fica por aí. Um documento da década de 30 do século XIX conta a história de Francisco José Simplicío e sua relação com “uma parda” de nome Joana com quem teve quatro filhos. O texto é o seu testamento.

Nele, Simplício diz, em meio a todas as nuances de uma redação jurídica do século XIX, que não quer deixar os quatro  filhos pobres e desamparados e transfere bens, mas também dá informações sobre escravos que trabalham em sua fazenda e os de ganho.

Em um outro documento da coleção, Simplício divide com a esposa oficial os seus bens, incluindo escravos, colocando ao lado os nomes e relacionando os que tem “crias” e o seu valor.

Isso me fez ficar pensando o quanto João Amaro, atualmente uma localidade de pouco mais de dez mil habitantes, deve ter sido vibrante neste período, afinal se tinha escravos de ganho era porque existia uma forte atividade urbana.

Além disso, o quanto de cultura africana também herdou devido a esta presença negra que a gente ainda percebe em meio a uma parte significativa da sua população.  Dá para começar a imaginar o porque da presença de cultos que são diferentes, mas tem também semelhanças com o candomblé da capital e do recôncavo.  Imaginem o quanto faz falta que essas histórias se façam presentes nas escolas municipais.

Em João Amaro,  ainda resistem construções que encantam como a igreja dedicada a Santo Antônio que há sete anos foi tombada pelo Ipac e outra que ainda consegue manter a sua beleza, mesmo sem nenhum tipo de proteção ou conservação como a estação ferroviária que é a mais antiga da Chapada Diamantina.

Enfim, imaginem historiadores quantos acervos deste tipo estão espalhados por esta Bahia prontos para revelar detalhes da história negra também nos sertões baianos.

Foi, aliás, essa coleção que sustentou boa parte do livro Os Caminhos da Água Grande, publicado por mim em 1998 e que é resultado do meu trabalho de conclusão do curso em jornalismo.

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2 Respostas to “As histórias que moram em acervos privados”

  1. Missione Marques de Moura  Says:

    Cleidiana, bom dia!!!! Há um tempo não posto comentários, mas não deixo de acompanhar seus trabalhos.
    Como você é uma menina que sabe das coisas, me salve!!!! Nos próximos dias, entre 30 julho e 01 de agosto acontece um Seminário no Opô Afonjá, em comemoração aos 100 anos da Casa. Não consigo, encontrar informações sobre a programação bem como se é possivel a participação de pessoas que não pertencem a Casa.
    Um abraço,
    Missione

  2. Cleidiana Ramos  Says:

    Oi Missione: a programação é aberta sim. Ainda esta semana eu vou colocá-la aqui no blog. Ela já saiu na edição de 11/07 do jornal A TARDE. Mas logo, logo coloco aqui. Abraços, Cleidiana.

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