Pequen@s guerreir@s: Abdias, o aprendiz de Ekó Ilê

postado por Cleidiana Ramos @ 6:30 AM
20 de novembro de 2014
Bruno Aziz

Bruno Aziz

 

 

Um dia, um griot* nascido nas terras africanas da Nigéria, em Ilê Ifé – a cidade sagrada dos nossos ancestrais yorubás –, nos falou sobre Ekó Ilê. Ele disse que Ekó Ilê é aquela primeira lição que aprendemos em casa, com nossos mais velhos, antes mesmo de irmos pra escola.

Pois bem. Hoje vamos falar sobre a primeira lição que o nosso menino Abdias aprendeu com sua mãe, a linda e doce dona Josina, conhecida na cidade de Franca pela sabedoria em fazer as folhas virarem remédios que curavam de um tudo; e as frutas virarem doces de deixar todo mundo com água na boca… E olha que o que não faltava naquela cidade eram ervas e frutas de todo tipo, principalmente as jabuticabas, pretinhas e doces como mel!

Quando o pequeno Abdias tinha assim entre sete e oito anos, aconteceu uma coisa que o marcou para o resto da vida, tanto é que, quase noventa anos depois, ele sempre lembrava do acontecido quando conversava com alguém sobre as coisas da infância. É que ele tinha um coleguinha do grupo escolar que se chamava Filisbino, e era um menino bonito, parecido com Abdias e seus irmãos, pretinho como a jabuticaba doce que dava nas árvores que rodeavam a cidade de Franca.

Porém, Filisbino era também muito triste, pois vivia com muitas dificuldades, já que tinha perdido o pai e a mãe bem cedinho e sobrevivia graças à solidariedade de alguns vizinhos. Pois bem, havia na cidade de Franca uma mulher que não era generosa, nem sábia, nem doce como a mãe de Abdias… Na verdade ela era bem amarga. Tão amarga que, um dia, só por ignorância e crueldade, maltratou muito o coleguinha de Abdias.

E aí, a dona Josina, que não se conformava com esse tipo de maldade, e gostava do menino como se fosse seu filho, não deixou por menos: disse poucas e boas para a mulher amarga e disse mais, que não ia permitir que ela fizesse mal ao menino e a nenhuma outra criança que se parecesse com ele.

O pequeno Abdias, vendo tudo aquilo, aprendeu a lição para o resto da vida: “Não se deve deixar uma ofensa racial sem resposta”. E aí está, a Ekó Ilê aprendida, e nunca esquecida, de sua mãe. Pelo resto da vida, em todo lugar do mundo, Abdias reproduziu a ação de sua mãe, defendendo os direitos das pessoas negras, dos pobres, dos índios, das mulheres e de todas aquelas que fossem desrespeitadas ou vítimas de qualquer tipo de violência.

Lindinalva Barbosa é educadora, mestre em Estudos de Linguagens/Uneb e omorixá Oyá do Terreiro do Cobre.

Foto: Arquivo pessoal

Foto: Arquivo pessoal

*Griot , nas culturas mandês da África Ocidental (Senegal, Guiné e países próximos), é o contador de histórias (“artesão das palavras”) que preserva e transmite a sabedoria e a história do povo. A palavra griot é francesa ; o termo nas línguas locais é djeli ou djali. (Fonte: Semog e Nascimento, Éle e Abdias. O griot e as muralhas, Rio de Janeiro, Pallas, 2006, p. 63.).

Fonte bibliográfica consultada: Semog e Nascimento, Éle e Abdias. O griot e as muralhas, Rio de Janeiro, Pallas, 2006, pgs. 29-51).

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