A partida do mestre Saramago

postado por Cleidiana Ramos @ 11:15 AM
18 de junho de 2010

Saramago morreu aos 87 anos. Foto: AFP PHOTO / Pierre- Philippe Marcou

O mundo acaba de perder o escritor português José Saramago. Saramago foi uma das pessoas que não fazem falta apenas aos que o conhecem de perto, mas a toda a humanidade. O que dizia e escrevia era pra ser eternizado, uma virtude, infelizmente, de poucos.

Dono de uma prosa filosófica e ácida, Saramago não se debruçou sobre questões étnico-raciais, mas a homenagem do Mundo Afro fica aqui por conta de suas posições veementes contra qualquer tipo de intolerância, principalmente a religosa.

Ao lado de Gárcia Márquez, Saramago aumentou o meu amor pela literatura com o livro  O Evangelho Segundo Jesus Cristo uma obra belíssima que não jusitifca toda a polêmica que o cercou e o fez esfriar suas relações com Portugal, seu país de origem.

Nunca considerei o seu ateísmo declarado desrespeitoso com aqueles que tinham fé. Ele apenas transformava em letras aquilo que lhe passava na alma, com questionamentos próprios inclusive de quem tem crença em um poder transcendental .

Numa destas incursões por este terreno saiu uma perfeita síntese sobre aqules que acham que possuem a verdade absoluta em questões de religião. É um trecho de In Nomine Dei, uma peça que escreveu, e que a transcrição abaixo fica como uma homenagem a este grande escritor, que soube também ser uma grande figura humana:

Entre o homem, com a sua razão, e os animais, com o seu instinto quem afinal, estará mais bem dotado para o governo da vida? Se os cães tivessem inventado um deus, brigariam por diferenças de opinião quanto ao nome e dar-lhe, Perdigueiro fosse, ou Lobo-d’Alsácia? E, no caso de estarem de acordo quanto ao apelativo, andariam, gerações após gerações, a morder-se mutuamente por causa da forma das orelhas ou do tufado da cauda do seu canino deus?

Que não sejam estas palavras tomadas como uma nova falta de respeito às coisas da religião, a juntar à Segunda Vida de Francisco de Assis e ao Evangelho segundo Jesus Cristo. Não é culpa minha nem do meu discreto ateísmo se em Münster, no século XVI, como em tantos outros tempos e lugares, católicos e protestantes andaram a trucidar-se uns aos outros em nome do mesmo Deus – In Nomine Dei- para virem a alcançar, na eternidade, o mesmo Paraíso. Os acontecimentos descritos nesta peça representam, tão-só, um trágico capítulo da longa e, pelos vistos, irremediável história da intolerância humana. Que leiam assim, e assim o entendam, crentes e não crentes, e farão, talvez, um favor a si próprios. Os animais, claro está, não precisam.

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