A bela festa da Boa Morte começa amanhã

postado por Cleidiana Ramos @ 9:45 PM
12 de agosto de 2010

A festa de Nossa Senhora da Boa Morte vai até terça-feira em Cachoeira. Foto: Xando Pereira|Ag. A TARDE|15.8.2003

Amanhã, todos os caminhos levam à bela e histórica Cachoeira para a abertura dos festejos de Nossa Senhora da Boa Morte.

A irmandade, símbolo da resistência e do brio de mulheres negras, muitas das quais nascidas escravas e que ascenderam socialmente e compraram a liberdade com muito trabalho, a ponto de ostentar esta conquista nas vestes e joias que envergam, nasceu na Igreja da Barroquinha em Salvador, em meados do século XIX.

Porque a irmandade foi para a Cachoeria não se sabe ao certo. Alguns apostam em que elas decidiram proteger o culto católico visível, mas que também e, principalmente, envolve saberes ancestrais de origem africana, da perseguição que se abateu sobre os africanos e seus descendentes após a rebelião dos malês ocorrida na capital baiana em 1835.

Cachoeira se tornou então a sede dessa bela história de uma festa organizada e preservada por uma confraria de mulheres com critérios especiais, como o de ser aceita apenas na maturidade pós 40 anos.

Sabe-se muito da parte católica da festa que é a celebração da dormição, pois segundo a tradição católica, Maria apenas adormeceu enquanto se preparava a assunção do seu corpo e alma aos céus. É a lógica da teologia, afinal o corpo que carregou o próprio Deus encarnado não poderia ser decomposto como acontece com todas as mulheres e homens comuns.

A relembrar essa tradição, as irmãs também rezam para que elas e todos tenham uma “boa morte”, uma aspiração ainda mais desejada em tempos de tanta violência e desrespeito pela vida humana.

Da parte do candomblé que está envolvida na festa não se sabe quase nada, pois segredo é um dos princípios básicos desta confraria. Mas a importância do que se guarda é infinita, afinal entre as irmãs estão ocupantes da alta hierarquia do candomblé baiano.

Até a próxima terça-feira, pois após a festa do domingo ainda tem samba de roda e distribuição de comida, afinal a generosidade é uma marca do povo de santo, Cachoeira estará cheia de turistas novos e outros que retornam, pois é difícil resistir a tanto encanto e brilho.

Sinto, devido a várias circunstâncias, não poder presenciar esta edição da festa na minha Cachoeira natal e que, além do seu belo casario e as mágicas águas do Paraguaçu reúne tantas outras preciosidades: a sabedoria dos ogãs Boboso e Bernardino do Seja Hundé ou Roça do Ventura; a herança da força de Gaiaku Luiza; a resistência da Lira e da Minerva cachoeiranas; a beleza da Ponte Dom Pedro II e da estação ferroviária.

Para quem vai estar lá vale a pena brigar para achar um lugarzinho no que conheço como “restaurante do português”, ali bem pertinho do porto ou dar uma esticadinha até a Pousada Paraguaçu em São Félix, onde até hoje me intriga o filé de pititinga presente no cardápio, mas que não consegui provar pois estive lá durante a baixa estação do pescado.

Quem for retornar para Salvador pode dar uma passadinha em São Brás (no meio do caminho entre Cachoeira e Santo Amaro)  onde tem um restaurante com uma comida baiana deliciosa. Mas claro que essas sugestões culinárias só valem para quem não puder esperar a disribuição da comida preparada pela irmandade ou para os horários alternativos.

Vale, antes de conferir a programação da festa aí abaixo, dar uma olhada no blog do professor Cacau Nascimento, especialista na história e antropologia da Irmandade. Cliquem aqui para acessá-lo.

Agora, vejam a programação da festa:

Dia 13/08 – Sexta-feira
18h – Cortejo anunciando a morte de Maria
19h – Missa pelas almas das irmãs falecidas
21h – Sentinela, Ceia Branca na sede da Irmandade

Dia 14/08 – Sábado
19h – Missa simbólica de Corpo Presente de Nossa Senhora da Boa Morte e procissão do enterro..

Dia 15/08 – Domingo
09h – Missa festiva da assunção da Nossa Senhora da Glória seguida de procissão
12h – Almoço das irmãs e convidados, na sede da Irmandade.
14h – Samba de roda no Largo da Ajuda

Dia 16/08- Segunda-feira
20h – Cozido – seguido de samba-de-roda no Largo d’ Ajuda

Dia 17/08 – Terça-feira
20h – Caruru – seguido de samba de roda no Largo d’Ajuda

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6 Respostas to “A bela festa da Boa Morte começa amanhã”

  1. Lafayette C.M.  Says:

    Já em Cachoeira para as minhas anônimas e sinceras homenagens. Atravessei a ponte andando e já chegando no lado de Cachoeira as táboas não oferecem nenhuma segurança para quem atravessa, atravessaram os séculos? sem serem notadas? Achei que o visual da pedra do cavalo podia ser melhor arrumado, árvores? alguma coisa que quebrasse um pouco a violência daquele cimento no horizonte. Ver as cidades gêmeas(?) quando se começa a descer os precipícios, os abismos? que levam a elas, lá embaixo, tão história e fora da história e do tempo presente, é como ver Lisboa de longe, atrás da névoa que se abre…um mundo perdido, digo, conservado, intacto?
    que aceitou ou incorporou com infinita gentileza, as coisas mudernas…mas já fui lesado por um motoboy ao não entregar o dinheiro exato da passagem (3 reais), dei 10 para receber troco e só recebi , com a desculpa que ‘me esperou do lado de fora do banco’, 5. Subiram-me as iras,
    Parei em frente a rodoviária ( de Cachoeira) para perguntar num bar estiloso, sobre pousadas baratas, já que não recebo de Wagner nem de ACM nem de ninguém, e o cara me disse que Cachoeira estava lotada, que não tinha vaga, que é festa, que eu fosse embora ou fosse para S. Felix. Mas eu achei uma pousadinha na beira do rio que também aceita estadias ‘por períodos’,
    e morro de felicidade.

  2. Olivia  Says:

    Domingo estarei na procissão, a festa é belíssima.

  3. Hélio Mendes Cazuquel  Says:

    Sabes Cleidiana:
    Cachoeira é minha terra natal. Quanto orgulho de ter nascido em Cachoeira. Quantas lembranças.
    Cachoeira da Igualdade, da Liberdade, da Irmandade !
    Costuma-se não definir verdadeiramente o que seja o amor. Erra-se. Seja filho ou criado na Cidade de Cachoeira que aí está a definição. Essa Cidade é simplesmente a bondade da Natureza. O seu Povo. A sua Negritude. A sua Africanidade. A sua História. O seu Heroismo. A sua Cultura. A sua Educação. O sua Política. Quanto e quantos exemplos.
    Bom! Até mais Cachoeira.

  4. suelen  Says:

    cleidiana,

    pelo contexto historicamente falando CACHOEIRA é linda demais em todos os sentidos. a ponte o rio, tudo tudo encanta-nos mas o que me encanta mais á a sua mais pura sintonia e definição da cidade – do amor por Cachoeira, quanto a festa – apesar da beleza e de unir o povo por alguns instantes – dias até – na sua religiosidade é pura e bonita a historia do sagrado – o fundamento da religiao afro embora discorde de algumas coisas porem vejo o quanto é grandioso para o seu povo e a sua gente a beleza e a historia do lugar. estarei la bisbilhotando também e curtindo o clima do lugar que nestees dias e especial………Parabens escritora.

  5. Marcos Couto  Says:

    Quero mais uma vez parabenizar a Cleidiana ( Pati, como a chamamos) por nos brindar com seus excelentes textos. É prazeroso saber que um jornalista tem a sensibilidade de elaborar textos simples, mas substanciais, que realmente agregam valor.
    Ao ler um texto sobre a Festa da Boa Morte na coluna ” Jeito Baiano” do Jornal A Tarde, o autor citou seu nome e falou que você é cachoeirana. Isso é verdade?
    Um grande beijo e, mais uma vez, parabéns.

  6. Cleidiana Ramos  Says:

    Oi Marcos. Que bom que você gosta dos textos. É bom quando a gente tem retorno do público a que nos dirigimos e se ele é elogioso é melhor ainda (risos). Pois é, companheiro, pouca gente sabe, mas eu nasci em Cachoeira. Passei os primeiros 17 dias da minha vida por lá. Sou cidadão soteropolitana por forma honorária (título concedido pela Câmara de Vereadores) e iaçuense de coração e alma. Beijos.

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