Educaxé- O negro e a Política- Parte VIII

postado por Cleidiana Ramos @ 3:14 PM
1 de setembro de 2009
Tiradentes passou de rebelde a herói nacional e, na Bahia, patrono da Polícia Militar. Foto: Xando Pereira| AG. A TARDE

Tiradentes passou de rebelde a herói nacional e patrono da Polícia Militar. Foto: Xando Pereira| AG. A TARDE

Tiradentes e os Afrodescendentes

Jaime Sodré

Os feriados registram momentos históricos, outrora plenos de significados e reflexões. Hoje é, para alguns, um “domingo” de meio de semana. 21 de Abril de 1792 lembra o sacrifício de Tiradentes, feriado nacional. É interessante a sua evolução de herói sem rosto à imagem de Cristo, como aborda Maria Alice Milliet.  Os “inconfidentes” dividiam-se quanto ao tratamento da “questão da escravidão”. Historiadores dizem que apenas Gonzaga defendia a libertação dos cativos, desde que nascidos no Brasil. Deste modo, estaria inaugurada a categoria de “afro-brasileiros”, mas sem vantagens econômicas e sociais.

A questão da escravidão era um ponto contraditório. Como iriam libertar logo aqueles que geravam as suas riquezas?  Mais tarde, o movimento abolicionista incorpora Tiradentes no ideário libertário da escravatura. O reconhecimento dos negros viria na forma carnavalesca, através do Grêmio Recreativo Escola de Samba Império Serrano, gerando o inesquecível samba Exaltação a Tiradentes, de autoria de Mano Décio, Estanislau Silva e Penteado, uma pérola de síntese, se o elevarmos à “categoria de brevíssima tese acadêmica”: “Joaquim José da Silva Xavier morreu a 21 de Abril pela Independência do Brasil, foi traído e não traiu jamais a Inconfidência de Minas Gerais…” Breque.

Abortada a “conspiração”, presos e julgados os envolvidos, caberia a Tiradentes a culpa maior, revela os Autos da Devassa da Inconfidência de Minas e a sentença da Alçada. Ouviram-se graças a Deus pela descoberta da “conjura”, considerada uma injúria à soberana, pia e clemente, D. Maria.

Frei Raimundo de Penaforte, do convento franciscano de Santo Antonio, assistiu ao condenado, fervoroso católico, que foi enforcado e esquartejado diante de uma multidão que o viu passar sem queixume ou temor, “fronte de soldado que se sacrificara pela pátria”. Fatos relatados por um anônimo na  Memória do êxito que teve a Conjuração de Minas.

Louvores à Rainha por comutar as penas dos demais condenados. Quanto a Tiradentes, teria aceitado com serenidade o seu destino. Em sua beatitude, pede perdão aos companheiros, beija as mãos e os pés do carrasco e caminha para a forca com ar de resignado, faz solilóquios tendo às mãos um crucifixo.

Para os futuros republicanos, este ato não inaugurava um herói cívico e, sim, um mártir cristão. Disputas históricas resultam em antagonismos. As discussões giravam em torno do papel do alferes e do movimento revolucionário. Alguns alegavam que este acontecimento não passou de uma idéia generosa na sua essência, mas mesquinha enquanto à forma. Uma boa intenção abortada. Sobre Joaquim José este não passava de um homem que não morreu como um patriota, com olhar triunfante para os seus algozes, com coragem e sem culpa. Teria Tiradentes, devoto que fora da Santíssima Trindade, sugerido a incorporação do triângulo à bandeira dos inconfidentes? Ou seria uma referência maçônica?

O certo é que a fusão na figura do herói de civismo e religiosidade estaria bem ao gosto da empatia popular. O fato é que a Conjuração Mineira e o martírio de Tiradentes geraram consequências históricas, no mínimo, estimulando um crescente nacionalismo, desejo de liberdade, independência, e alerta quanto à exploração colonial. Tiradentes era o patriota consciente, “que dá a sua vida por uma ideal”. O cristão e o revolucionário não são incompatíveis, convivem na imagem do herói.

Surgiriam outros movimentos emancipacionistas, antagônicos aos poderosos e não simples agentes da discórdia. Castro Alves proclama: Ei-lo, o gigante da praça/ o Cristo da multidão/ é Tiradentes que passa, deixem passar o Titão… mais tarde pende no alto seu corpo a rodar, balançante, e no outro dia, a sua cabeça encima um poste, no centro da praça, e seu corpo dilacerado. Estava assim reduzido o idealista alferes.

Gradualmente, a comemoração do dia 21 de abril foi generalizando-se. Em Tiradentes reluz a aurora do sacrifício heróico, pela liberdade e república. Figura nos manuais de história. A lei 7.919, de dezembro de 1889, aprova  Tiradentes como herói nacional, mas Deodoro, por ter sido militar, encontra resistência entre os congressistas. Hoje, sobrevive, no Livro de Aço dos Heróis Nacionais, Tiradentes junto a Zumbi dos Palmares. 

Perguntas para aprofundar a pesquisa sobre o tema:

O que foi a Inconfidência Mineira?

Qual o contexto da Proclamação da República no Brasil?

Quem foi Zumbi dos Palmares?

Jaime Sodré é historiador, professor e religioso do candomblé.