Que maus atos não quebrem vasos

postado por Cleidiana Ramos @ 11:16 AM
8 de outubro de 2014
Mãe Stella faz outra bela reflexão sobre política. Foto:  Mila Cordeiro | Ag. a TARDE

Mãe Stella faz outra bela reflexão sobre política. Foto: Mila Cordeiro | Ag. a TARDE

Maria Stella de Azevedo Santos
Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá

Assistimos muitos políticos serem carregados nos comícios, assim como as várias autoridades eleitas neste país foram carregadas nos ombros de seus correligionários no final do pleito eleitoral ocorrido no dia 5 de outubro. Esse gesto, repetido nos comícios e nos resultados dos pleitos, é cheio de simbolismos, os quais precisam e devem ser compreendidos, tanto por quem carrega, como por quem é carregado. Colocar alguém acima das cabeças dos outros é dizer que esta pessoa tem a capacidade e, consequentemente, a responsabilidade sobre tudo que implica na vida social daqueles que confiaram nele, isto é, tem por dever administrar e legislar bem sobre educação, saúde, segurança, lazer e, principalmente, respeitar o cumprimento da liberdade que rege a Carta Magna de um dos países mais democráticos deste planeta – o Brasil.

O catolicismo faz uso do andor, que no candomblé é conhecido como charola (palavra herdada dos portugueses), para colocar o sagrado acima do profano. Um provérbio bastante conhecido diz: “Cuidado com o andor, porque o santo é de barro”. E de barro também foram feitos, originalmente, os políticos a quem foi dado o poder, o direito e o dever de cuidar de seus irmãos. Portanto, se eles devem cuidar de nós, cabe também a nós cuidarmos deles, pois são seres humanos frágeis e fortes como o barro.

O barro é a mistura de água com terra. Uma autoridade precisa se moldar às circunstâncias diversas que a ela são impostas, com a flexibilidade da água e a solidez da terra. É a medida certa entre o sonho da alma com a realidade das ações materiais que faz com que um político seja um bom administrador e um bom legislador, pois recebe e aceita as orientações celestes. Ele é como um vaso, um pote de barro: artefato cuja abertura que possui simboliza a receptividade das orientações divinas.

No candomblé, vários são os objetos sagrados feitos de barro: pote, talha, quartinha, todos eles são utensílios ricos em simbolismos: guarda a água, símbolo de vida, que deve ser sempre renovada, pois os ensinamentos celestes, apesar de eternos, precisam ser sempre readaptados. Os sacerdotes do candomblé devem manter seus vasos cheios, comportamento que é explicado de uma forma clara e bela pelo budismo: Um pote cheio pela metade é emblema do tolo, uma vez que um sacerdote precisa estar pleno de sabedoria e de calma. É o que igualmente se espera de um político: que ele tenha sabedoria e calma para exercer sua missão.
A palavra pote na língua yorubá é odù, palavra que acentuada de maneira diferente significa destino.

O Terreiro de Candomblé que dirijo é sempre visitado por várias pessoas, entre elas os políticos, afinal são nossos irmãos, somos todos filhos de um Deus Supremo. É por isso que em época de eleição, peço aos orixás que dê a vitória àqueles que têm em seus destinos a missão de servir à humanidade através da política, naquele período. Uma missão tão árdua que merece orações constantes dos sacerdotes das diversas religiões e  dos não sacerdotes. Pois deus ouve a todos, indistintamente, basta que tenha “a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo

Mãe Stella escreve no jornal  A TARDE, quinzenalmente, sempre às quartas-feiras  


Balaio de Ideias: Por um paisagismo tipicamente baiana

postado por Cleidiana Ramos @ 11:06 AM
24 de setembro de 2014
O Parque São Bartolomeu é um dos espaços vegetais caros ao povo de santo de Salvador. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag. A TARDE | 18.07.2013

O Parque São Bartolomeu é um dos espaços vegetais caros ao povo de santo de Salvador. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag. A TARDE | 18.07.2013

Quando crianças, nossos professores tinham um trabalho imenso para realizar atividades educativas e informativas em equipe. Enquanto os alunos teimavam em fazer a tarefa com o mesmo grupo de colegas, os professores insistiam em desfazer as conhecidas “panelinhas”. Nesse verdadeiro cabo de guerra, normalmente os alunos eram “vencedores”. O que as crianças e adolescentes não sabiam, por lhes faltar experiência, é que vencer às vezes significa perder.

Na escola, as tarefas feitas em grupo objetivam fornecer informações, mas principalmente educar para o convívio em sociedade, já que, no futuro, os estudantes se tornarão profissionais que em vez de “panelinhas” precisarão formar imensos “caldeirões”, no qual estarão “juntas e misturadas” pessoas possuidoras de diferentes culturas e saberes, compartilhando seus conhecimentos variados, a fim de que as tarefas que lhes sejam dadas possam ser cumpridas com competência.

Estou relembrando o passado escolar para poder comentar sobre o presente, dia 12 de setembro, quando, redundantemente falando, recebi um grande presente na celebração dos meus 75 anos de iniciada. Não me refiro ao fato de ter lançado mais um livro e sim que, através desse livro, pude conhecer novas pessoas, as quais pertencem a grupos completamente diferentes daquele que tenho convivido até então. O livro O que as Folhas Cantam (para quem canta folhas) atraiu um grupo que nem de longe pensei em alcançar, exatamente pelo fato de eles não pertencerem ao meu grupo de convivência.

Os paisagistas e os arquitetos que compareceram ao lançamento me contagiaram com o entusiasmo que demonstraram sentir pelo livro. Um paisagista chegou a me falar que o trabalho dele estaria dividido no antes e no depois desse livro. Confesso, humildemente (pois pode existir humildade no orgulho), que fiquei orgulhosa com o que ouvi. Logo pensei: a Bahia é uma terra rica em sabedoria e, no que diz respeito ao reino vegetal, os negros escravos nos deixaram uma rica herança, que está mais no que na hora de usá-la para o bem de todos.

Este artigo é, pois, dirigido aos paisagistas e arquitetos, não só para agradecer a presença deles no lançamento do livro, como também para convidá-los a criar um tipo de paisagismo específico da Bahia, onde a grande sabedoria das plantas típicas do território baiano possa ser transmitida para os moradores de casas e condomínios, frequentadores de praças, etc.

Aqui seguem alguns exemplos de plantas possíveis de decorar casas e jardins, cujas energias transmitem poderes específicos para o corpo e a mente: folha-da-costa fornece o aprendizado do silêncio e do amadurecimento; batata-doce dá equilíbrio à cabeça; nativo abre os caminhos de quem busca purificação, coragem e liberdade; bambu desperta o deprimido, protegendo-o da excitação; cana-de-macaco nos torna mais maleáveis para que evitemos desavenças desnecessárias e desequilíbrios psíquicos.

Visando fazer com que nossa Bahia seja ainda mais conhecida pela sua criatividade e cultura própria, peço a meus leitores que conheçam algum paisagista, decorador, arquiteto que nos ajudem nesta nova empreitada.

Mãe Stella escreve para  o jornal A TARDE, quinzenalmente, às quartas-feiras   


Balaio de Ideias: Compreender não é aceitar

postado por Cleidiana Ramos @ 8:26 PM
21 de maio de 2014
Mãe Stella lança novo livro. Foto: Margarida Neide/Ag. A TARDE/ 29.11.2012

Mãe Stella faz bela reflexão sobre religião. Foto: Margarida Neide/Ag. A TARDE/ 29.11.2012

Maria Stella de Azevedo Santos

Mais uma polêmica para que possamos refletir e dar um passo rumo a um estágio evolutivo elevado que ajude a construir uma sociedade harmônica e equilibrada. O noticiário televisivo deu a seguinte manchete: “Juiz não reconhece manifestações afro-brasileiras como religiões. A decisão gerou polêmica e surpreendeu líderes do candomblé e da umbanda e o Ministério Público Federal.” Sou uma líder do candomblé e confesso que eu não fiquei nem um pouco surpreendida.

Venho de um tempo em que a referida religião era perseguida pela polícia, em virtude de na época o Brasil ter uma religião oficial – o catolicismo. A atitude do juiz precisa ser compreendida, porém jamais pode ser aceita. Optei por não dizer seu nome, pois o nome de uma pessoa é tão sagrado que não deve ser pronunciado quando o dono dele comete atos impensados e infelizes.

Um belo e significativo ensinamento da Ordem Rosa Cruz diz: “Eu te compreendo, mas em nome do verdadeiro amor não posso aceitar.” Podemos compreender uma atitude que tem por base o preconceito, que é fruto da ignorância sobre o tema que o juiz ousou julgar. O ignorante é assim mesmo: é insolente, “grosseiro nos gestos, nas palavras ou nas ações.”

Não fiquei surpresa, fiquei indignada. Senti repulsa, não pelo cidadão em si, mas pelo seu ato vergonhoso. Quanto a meu irmão que praticou tal ato, verdadeiramente, senti pena e, consequentemente, desejo de ajudá-lo. Afinal, ele é meu irmão, somos filhos de uma única energia, que para o candomblé é chamada de Olorum – o Deus Supremo, que vive no céu (no orum), o qual se expandiu e Dele fez surgir todos os seres vivos que habitam a Terra.

Essa é uma explicação que dou para ajudar meu irmão a entender que as religiões de matriz africana têm, sim, um texto base no qual se baseiam para realizar seus rituais, mas principalmente para ajudar seus adeptos a se tornarem cidadãos “assentados” no bem e na verdade. Esse texto base nos ensina que não basta sentir pena. O Código de Ifá, conjunto de ensinamentos no qual se baseia o candomblé, ensina a seus adeptos que a ignorância precisa ser perdoada, compreendida, mas nunca aceita, e que cabe àquele que conhece os mistérios, instruir aqueles que não os conhecem. Obedecendo, portanto, às orientações dadas pelos seres superiores, esclareço a meu irmão alguns detalhes do candomblé sobre o qual ele demonstra não ter o conhecimento necessário para realizar um julgamento.

A religião trazida para o Brasil por um povo possuidor de dignidade e generosidade inigualáveis tem um texto base, o qual é inclusive codificado através de códigos matemáticos. Não podemos, nem devemos esquecer-nos que um texto, em seu sentido amplo, é um conjunto de palavras expressas de maneira oral ou escrita, que pode ser longo ou breve, antigo ou moderno. Preciso pacientemente repetir que o texto base do candomblé é o Código de Ifá, pois um educador é educado para ser paciente. E nós, sacerdotes de qualquer religião, somos educadores de almas. Explicando ainda mais um pouco, o Código de Ifá é um sistema longo e antigo, considerado axiomático por revelar verdades universalmente dignas e válidas, ditas de maneira simples para expressar a complexa realidade da vida.

Também pacientemente repito que o candomblé possui um Deus Supremo, sendo os orixás divindades que servem como intermediárias entre Olorum e os humanos. Quanto à hierarquia, este é um dos grandes e fortes pilares dessa religião milenar, tanto no que se refere ao mundo das divindades quanto à comunidade dos “terreiros”.

No mundo sagrado se tem: Olorum, orixás funfun (descendente direto do hálito do Deus Supremo), orixás vinculados ao ar, água, fogo e terra, seres humanos, animais, vegetais e minerais. Nas comunidades do candomblé a hierarquia está em tudo: nos cargos (iyalorixá, iyakekere egbomi, yaô, abian); no respeito à idade de nascimento do corpo (os “nossos mais velhos”) e à idade de nascimento, na Terra, da essência divina de cada um. Encerrarei este texto com um provérbio contido no Código de ifá: “O tempo pode ser longo, mas uma mentira não cai em esquecimento.”

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, ela escreve para o jornal A TARDE, sempre às quartas-feiras.


Parabéns, Mãe Stella!

postado por Cleidiana Ramos @ 11:39 AM
2 de maio de 2014
Mãe Stella faz reflexão sobre capacidade de estar aberto a aprender. Foto: Diego Mascarenhas / Ag. A TARDE/ 09.07.2010

Mãe Stella festeja aniversário, hoje. Foto: Diego Mascarenhas / Ag. A TARDE/ 09.07.2010

Hoje é um dia muito especial: aniversário de nascimento da Iyalorixá Mãe Stella de Oxóssi. E, lembrando a todos que gostariam de dar um presente para agradecer por sua dedicação à religião que tantos brasileiros professam, ela sonha em montar uma biblioteca itinerante com livros sobre religião. Portanto, quem pode ajudar até mesmo enviando energias para o projeto, mãos na massa. Vivas a Mãe Stella.


Balaio de Ideias: Uma crônica para Marlon Marcos: neo-cronista do candomblé

postado por Cleidiana Ramos @ 2:13 PM
24 de abril de 2014
Lançamento de Sob a Égide das Águas será amanhã, das 18h30 às 21 horas, na Katuka (Praça da Sé, Edifício Themis)

Lançamento de Sob a Égide das Águas será amanhã, das 18h30 às 21 horas, na Katuka. Foto: Divulgação

Cláudio Luiz Pereira

É com júbilo imenso que recebi e li o livro Sob a égide das águas (Editora Kawo Kabiyesile, 2014) de Marlon Marcos Vieira Passos. Posso dizer a propósito do autor que é um homem único e, ao mesmo tempo, paradoxalmente múltiplo. Aqui e acolá, ele está em trânsito entre muitos mundos. Está sempre entre as coisas, é um elo, é ele o “e” do vai-e-vem. E sim, ele trafega o mundo da poesia, do jornalismo, da antropologia. E, como não, o mundo do candomblé, que é aquilo lhes dá força e equilíbrio, e onde ele encontra achego, afetos e aconchegos.

Como poeta suas virtudes são muitas e extraordinárias. Como bom prestidigitador seria capaz de erigir a água de um copo em uma tempestade intempestiva, ao que se seguiria uma carreada de raios e trovões verbais. Típico daqueles que tem uma opinião forte frente a tudo, e frente a qualquer coisa. No seu entre mundo a oralidade não é uma qualidade anódina. Mas sua poesia está escrita, também publicada amiúde, e é reveladora da sua veia espirituosa e, mais que isto, de sua espiritualidade. Na sua poesia ele aparece na completa nudez daqueles que só precisam do abrigo das palavras.

Como jornalista é um participativo contribuinte da crítica da cultura baiana. É defensor de suas devoções intimas. Gosta do velho, mas com o novo se compraz. Mas não é justamente o novo e o velho que separam a qualidade da circunstância em que ele se insere. Ele sempre está presente, seja lá onde for, seja a hora que der, seja como tiver de ser. Ele está tanto no espetáculo Cult, de algum artista quase subterrâneo, quanto no camarim do mais charmoso e chique dos mais cultuados dos mortais…

Como antropólogo é um aprendiz de feiticeiro. E a esta altura dos fatos ele, tão claramente quanto o Quesalid Lévi-straussiano, já sabe quão valioso e  mágico é este conhecimento que ele retém. Querer ser antropólogo é um encanto raro, que só toca profundo naqueles que são capazes da renúncia e da entrega como proezas. A verdadeira antropologia, sabe Marlon Marcos, é intestina e visceral, é uma espécie de embriaguez dilacerante, discursiva e textual, é uma obsessão sem cura, um eterno abismar-se consigo mesmo. Ao discernir algo em torno desta soberba abstração do que é o humano, nos explicamos a nós mesmos, mais que tudo.

*

Acredito que algumas palavras mais podem ser ditas para realçar a importância do livro que no momento Marlon Marcos disponibiliza para seus leitores. Em primeiro lugar é preciso notar que o autor reúne boa parte de seus escritos jornalísticos dedicado ao candomblé e, como tal, demonstra aqui quão informado ele está nos temas e problemas concernente a esta religião. Neste sentido, é preciso notar que são textos públicos, veiculados por importante jornal baiano – A TARDE, e que se traduzem em diálogo com o campo onde ele desenvolve suas pesquisas antropológicas. São crônicas, conforme o próprio autor esclarece, e, como tais, articulam o jornalismo e a poesia, e também a antropologia, que a esta altura tornou-se seu mister preferencial.

Sabemos que o autor está credenciado para sua obra. Está possuído, portanto, deste ímpeto que permite ver esta religião de um ponto de vista êmico, interno, intrínseco. Ele vê o que o candomblé tem de mais vibrante (a experiência do êxtase, da devoção, do axé, tudo que se resguarda na contingência dos segredos, dos interditos, do indizível) e, também, o que nele há de mais prosaico.

Assim sendo, tece o fio da memória dos cultos, das narrativas e das estórias, das trajetórias e dos itinerários, das famas, das lidas e das vidas. Faz mesura diante da lembrança dos que se foram e se posta diante da presença dos que cá estão. Escrevendo sobre eles o autor sabe que servirá de semente aos tantos que virão.

É assim, com esta incrível sensibilidade, que Marlon Marcos trata das mulheres que povoam este universo afro-brasileiro. São todas divas, divindades, entidades, deidades. Chamam-se Marias, ou Stelas, ou Zulmiras, ou Carmélias, ou Luizas e a suas designações de batismo se incorporam seus nomes de santo. São de Nanã, de Oxaguian, de Oxóssi… Todas elas mães guerreiras… mães de todo mundo, mães de uma humanidade que delas tanto carece.

E, mais que isto, o que se vê no livro, é o passar dos anos, entre 2007 e 2013, e tudo que vai acontecendo ao povo de santo. As mortes e os passamentos, a religião como fato da polis, as muitas dinâmicas com que o tempo corre e tudo devora. Escreve sobre as diversas nações, e as ações dos homens, também diversas. Através destes homens ele vislumbra os sonhos, as festas, as celebrações, as conquistas, os embates. E, como não, os debates que ele tanto acompanha quanto participa com interesse entusiasmado.

Conclusivamente, enquanto crônicas, os textos de Sob a égide das águas falam sempre de um tempo presente, e, desse modo, falam também de tudo que permanecerá eterno no mundo do Candomblé, para todo o sempre, e sempre… Axé, Marlon Marcos!

Cláudio Luiz Pereira é doutor em antropologia e diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia da Ufba

Serviço
Evento:  Lançamento do livro Sob a égide das águas, escritos jornalísticos sobre candomblé
Autor: Marlon Marcos
Editora: Kawo- Kabiyesile
Dia: 25 de abril, das 18:30  às 21 horas
Local: Katuka- mercado negro// 71 – 3321-0151
Preço sugerido: $ 20,00


São Jorge recebe homenagens

postado por Cleidiana Ramos @ 4:01 PM
23 de abril de 2014
São Jorge recebe hoje várias homenagens na capital baiana. Foto: Marco Aurélio Martins/ Ag. A TARDE

São Jorge recebe hoje várias homenagens na capital baiana. Foto: Marco Aurélio Martins/ Ag. A TARDE

Com uma festa forte, muitos seguidores e uma devoção repleta de significados e ressignificados, como a aproximação com Oxóssi na Bahia e Ogum no Rio de Janeiro, São Jorge continua soberano.

Nem a tranformação da sua festa em opcional, devido à reforma no calendário litúrgico, diminuiu seu prestígio popular. Portanto, saudações a Jorge, o que doma dragões de várias procedências.


Histórias de ebomi Cidália Soledade

postado por Cleidiana Ramos @ 11:17 AM
11 de abril de 2014
Hoje tem lançamento de livro sobre ebomi Cidália. Foto: Rejane Carneiro/Ag.A TARDE/ 19.10.2007

Hoje tem lançamento de livro sobre ebomi Cidália. Foto: Rejane Carneiro/Ag.A TARDE/
19.10.2007

Hoje, às 18 horas, no Terreiro Casa Branca, será lançado o livro Ebomi Cidália: a enciclopédia do candomblé – 80 anos. A publicação é assinada por mim e pelo historiador, designer, músico e religoiso do candomblé Jaime Sodré.  Ela é resultado de uma entrevista coletiva com a sacerdotisa feita por um grupo de jornalistas formado, além de mim, por Marlon Marcos, Meire Oliveira e Juliana Dias.

Conheci ebomi Cidália em 2006, quando o professor Jaime Sodré disse que tinha um presente de final de ano para mim.  A surpresa era me apresentar a ela, sacerdotisa do Ilê Iyá Omi Axé Iyamassê, mais conhecido como Gantois, consagrada ao orixá Iroko, aos 7 anos por Mãe Menininha.

Na primeira conversa já entendi porque a apresentação foi descrita como presente. Ebomi Cidália foi uma das pessoas mais fantásticas que já conheci até hoje.

Maestria
Até a sua passagem para o orum (o mundo sobrenatural no candomblé)  em 20 de março de 2012, mantive o hábito de visitá-la não apenas para entrevistas. Conversar com ela era aprender sobre cultura e religiosidade afro-brasileira e também sobre a vida.

Ebomi Cidália, leitora assídua de A TARDE,  foi uma mestra da oralidade. Aliás, usando um conceito explicado pelo doutor em antropologia da Ufba Ordep Serra, ela fazia “oralitura”, pois suas narrativas conseguiam hipnotizar as mais variadas plateias, além de vir recheadas de poesia, música e outros recursos.

“Por isso no livro buscamos manter uma transcrição o mais próxima possível de como era conversar com ela em um amostra do que foi o encontro realizado, além dos jornalistas, com vários dos seus amigos no Terreiro Oxumaré”, aponta Jaime Sodré.

Matéria publicada na edição de hoje do Caderno 2+ do jornal A TARDE/ Reprodução

Matéria publicada na edição de hoje do Caderno 2+ do jornal A TARDE/ Reprodução

Selo
O livro foi viabilizado pela Secretaria Estadual de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi). De acordo com Sodré, ele é um pedido da criação de  um selo para a memória das comunidades afro-brasileiras, proposta que foi entendida e executada como possível pelo ex-secretário da pasta, Elias Sampaio.

“Tentamos de vários formas fazer a publicação via editais e não conseguimos. Portanto, recorri ao titular da Sepromi que, dentro das suas possiblidades, teve a sensibilidade para entender a importância de um projeto como esse”.

O projeto também contou com o apoio da designer Lúcia Oliveira, da arte-educadora Mônica Silva e da Empresa Gráfica da Bahia (Egba).

No lançamento é necessário o uso do traje branco numa reverência a Oxalá, que, como dizia ebomi Cidália, é cultuado de um  modo muito próprio no Brasil. Segundo ela, o jeito merece respeito, afinal resistiu a obstáculos iniciados com uma travessia do Atlântico.


Balaio de Ideias: Uma ressaca de alegria

postado por Cleidiana Ramos @ 2:54 PM
5 de março de 2014

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Maria Stella de Azevedo Santos

Quarta-feira de Cinzas”, dia de ressaca. O mar fica de ressaca quando a onda arrebenta nas pedras e recua sobre si mesma. O ser humano fica de ressaca quando após ingestão de grande quantidade de bebida alcoólica termina por sentir um grande mal estar. Eu espero que a ressaca que os foliões do carnaval estejam sentindo hoje seja aquela causada apenas por excesso de alegria. Pois é, até a alegria, quando é excessiva, deixa um gosto amargo na boca quando acaba. Um gosto de saudade que chega a causar dor: “a saudade é dor pungente”, é dor que dói. Afinal, a palavra ressaca tem origem na palavra norueguesa kveis, que significa “mal-estar depois da orgia”, acho que em nossa língua é melhor dizer: mal-estar depois da farra.

A bebida é um estimulante. É por isso que em um dos rituais do candomblé se canta: Oti wa ti xô fê rê, querendo dizer que a bebida nos anima, ela nos encoraja a encarar os dias difíceis de maneira renovada. Entretanto, “como tudo demais é sobra”, a bebida, a comida e até a alegria não deve ser vivida em excesso. Oti é a palavra yorubá que é usada para qualquer bebida que embriague a mente. As religiões, em sua maioria, não são contra as bebidas, e sim ao uso excessivo delas.

Nos rituais do candomblé, as bebidas que embriagam devem ser usadas de maneira comedida, com o intuito maior de despertar a alegria. Essa religião se utiliza de bebidas profanas e sagradas. O champagne e vinho do ritual de bori, a cachaça e vinho do ritual de axexe e a cachaça de Exu são consideradas profanas porque não foram preparadas em ambientes divinizados, nem foram preparadas por sacerdotes consagrados. A bebida sagrada do candomblé é o aluá, uma bebida fermentada que é oferecida aos deuses e homens com o objetivo de aumentar o axé de quem a ingere, seja de maneira concreta (humanos) ou simbólica (divindades).

O aluá é uma bebida fermentada tipicamente brasileira, uma vez que tem relação com os índios, os portugueses e os africanos. No Brasil do 1º Império era moda servir aluá na corte de D. Pedro I. Em Portugal, era uma bebida feita do bagaço da uva, por isto conhecida como bagaceira. Os índios da Amazônia faziam uma bebida com abacaxi que ficava durante três noites fermentando ao luar, razão pela qual o folclorista Luís da Câmara Cascudo sugere ser o nome aluá uma corruptela de “ao luar”.

Na verdade, aluá é uma palavra yorubá (lú, em yorubá, significa misturar) que é usada em um ritual onde se movimenta e mistura a água com a bebida aluá, visando agitar o que está parado, a fim de que a purificação seja favorecida e que o que está velho possa ser renovado através do movimento.

Esse ensinamento nos é transmitido através dos cânticos do Ritual das Folhas, mostrando para os sacerdotes do candomblé a importância de eles conhecerem a língua religiosa que fazem uso, assim como a simbologia dos elementos usados em todos os atos ritualísticos. O aluá que herdamos dos africanos, por exemplo, é feito de raspadura, milho branco e gengibre. O doce normalmente chamada de rapadura é um dos subprodutos da cana-de-açúcar (Ikesen), cujo nome correto é raspadura, pois esta espécie de doce é feita das raspas das crostas do açúcar da cana que ficam presas às paredes dos tachos.

A palavra yorubá que designa o gengibre é atale, planta que tem o poder de aquecer e iluminar, dando-nos alegria. O milho branco, relacionado aos orixá do branco, indica ainda paz, suavidade e proteção dos seres superiores. O aluá é uma bebida fermentada, por isto seus ingredientes aumentam o axé de doçura, através do açúcar feito de cana (raspadura); o axé de alegria, que é transmitido pelo gengibre; o axé de tranquilidade fornecido pelo milho branco.

Boa “Quarta-feira de Cinzas”, boa ressaca, palavra que na língua yorubá é ìbilù-oti. Interessante entender que ìbi é infortúnio, mal estar; lù é mistura e ìbilù significa multidão, o que indica que muita gente junta pode causar ressaca e mal estar. É por isso que digo que três pessoas para mim já é multidão e muita alma junta se perde. Se essa ideia é necessária para qualquer pessoa, para os iniciados ela é ainda mais.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, ela escreve para o jornal A TARDE, sempre às quartas-feiras.


Balaio de Ideias: De grão em grão…

postado por Cleidiana Ramos @ 7:20 PM
28 de fevereiro de 2014

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Maria Stella de Azevedo Santos

O artigo anterior, intitulado “Sucateiro, sucateiro”, foi construído através de uma mistura entre realidade e fantasia. Para minha surpresa não foram poucos os e-mails que recebi tecendo comentários sobre o referido artigo. Uns falavam com saudosismo sobre os antigos vendedores que caminhavam pelas ruas exaltando suas mercadorias; outros diziam o quanto sorriram naquele dia ao lembrar o texto; já muitos outros comentavam sobre a relação entre sonhos e ilusões.

Fiquei espantada com a surpresa que alguns leitores tiveram ao saber que eu ainda tinha sonhos. Transformei esse fato em um bom motivo para reflexão. Quando o corpo não nos dá condição de fazer uma boa faxina em uma casa, aproveita-se a cabeça para faxinar a alma e o espírito.

Por que será que algumas pessoas puderam pensar que eu não tenho mais sonhos? – perguntei-me. Achavam eles que eu já tinha conquistado tudo o que eu queria? Pensavam que o mundo já estava tão chato para mim, tão repetitivo, que eu mais nada queria?

Como não posso concluir o pensamento dos outros, não encontrei resposta para minhas indagações, mas espantei-me com a quantidade de sonhos (concretizáveis) que ainda guardo em meu interior.

Uma das proibições que nós recebemos enquanto iniciados no candomblé é ficar sentado com a mão segurando o queixo. O aprendizado embutido neste tabu é de que não devemos ficar apenas no mundo das ideias, devemos partir para a ação. Sendo assim, compartilharei com todos um dos muitos sonhos que ainda pretendo concretizar.

Todos os religiosos que sejam convictos de sua função na Terra, principalmente aqueles que são consagrados para o sacerdócio, têm consciência de que precisam fazer duas coisas aparentemente simples, mas que são complicadíssimas em seus fundamentos: dar e pedir. É a famosa lei universal da troca que insisto em repetir em muito do que escrevo na esperança que fixe de vez em meu coração, e que penetre nos corações daqueles que ainda não atentaram em cumprir tão importante lei.

A religiosa baiana Irmã Dulce foi um exemplo de cumprimento da lei em questão. Sua capacidade de doação é facilmente identificada através de suas obras, mas acredito que poucos conhecem o quanto ela precisou fazer uso da humildade para pedir o que necessitava, a fim de que seus sonhos se concretizassem. Quando crianças estudamos no mesmo colégio, assim pudemos acompanhar mesmo de longe a vida sacerdotal uma da outra. Eu sabia, por exemplo, que quando faltava algo que Irmã Dulce necessitava para ajudar aos menos favorecidos, ela simplesmente entrava em uma loja e pedia ao vendedor aquilo que precisava, carregava com suas próprias mãos e se despedia alegremente dizendo: “Deus lhe pague”.

Inspirando-me no exemplo que nos foi dado por Irmã Dulce, concluo este artigo revelando um de meus maiores sonhos que pretendo vê-lo concretizado estando eu ainda viva. Tenho a certeza que “sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só. Mas sonho que se sonha junto é realidade”. Por isso, busco em mim a humildade que me foi proporcionada pela vida religiosa para pedir, pedir muito, a ajuda de todos que, preocupados com a violência que aumenta cada dia mais, vejam no estímulo à busca por uma maior espiritualidade uma das saídas (mesmo sendo em longo prazo) para a diminuição de tanta agressividade.

Revelo agora meu sonho acompanhado dos pedidos que faço para os amigos e os amigos de meus amigos, no sentido de que eles usem a web como uma grande rede de pescar benefícios coletivos: gostaria de construir uma biblioteca ambulante, composta por livros voltados para o despertar da religiosidade inerente ao ser humano. Preciso de um ônibus que venha a ser adaptado.

Peço a ajuda de pessoas físicas, empresas particulares, governamentais, enfim, peço ajuda aos homens e mulheres de boa vontade, que sabem que não basta apenas reclamar, nem apenas sonhar, tem que concretizar. Sendo assim, espero agora receber muitos e-mails com oferecimento de ajuda (não importando a forma nem o valor a ser oferecido), para que eu possa dizer, parafraseando Irmã Dulce: Que os orixás lhes paguem com bênçãos de todos os tipos.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, ela escreve para o jornal A TARDE, sempre às quartas-feiras


Candomblé se despede do alabê Erenilton

postado por Cleidiana Ramos @ 11:52 AM
17 de fevereiro de 2014
Ogã Erenilton em pose para especial premiado de A TARDE, "Os homens que chamam os deuses pra terra". Foto: Margarida Neide/ Ag. A TARDE/16.11.2012

Ogã Erenilton em pose para especial premiado de A TARDE, “Os homens que chamam os deuses pra terra”. Foto: Margarida Neide/ Ag. A TARDE/16.11.2012

A pedidos de pessoas que não conseguiram ler a matéria sobre a passagem para o orum do ogã Erenilton, publicada no último sábado em A TARDE, estou reproduzindo aqui o texto.

Cleidiana Ramos

Calou-se, no plano terrestre, a voz de um dos membros da grande escola dos sacerdotes músicos do candomblé: Erenilton Bispo dos Santos, 70 anos, foi sepultado ontem no Jardim da Saudade. Ele foi também um incansável defensor da sobrevivência dos afoxés por meio do grupo Filhos de Korin Efan, do qual era presidente.

Filho de Omolu, ogã Erenilton era alabê – título usado pelos sacerdotes músicos na tradição ketu – do Terreiro Oxumarê, localizado no bairro da Federação.

Dono de um vasto conhecimento sobre os cantos e ritmos do candomblé, era recebido com um toque especial dos atabaques nos terreiros das variadas nações.

“Ele tocava para o orixá. Era um prazer vê-lo cantar. Foi meu irmão, meu amigo, uma pessoa que dedicou sua vida ao candomblé e ao afoxé”, afirma Tânia Bispo. Ela é mayé do Terreiro Oxumarê, título para o mais alto posto no grupo das ekedes (sacerdotisas que não entram em transe) e irmã biológica do ogã Erenilton.

Ele gozava de um extremo respeito também entre os xicarangomas e huntós, como são chamados, respectivamente, os sacerdotes músicos nas nações angola e jeje.

Herança “Sabemos que ele está no outro plano junto com aqueles que já partiram para reforçar a nossa caminhada”, diz o tata Xuxuca Moxingoma, nome sagrado de Esmeraldo Emetério, xicarangoma do terreiro Tumba Junçara.

Segundo tata Xuxuca, ogã Erenilton será sempre lembrado pela insistência e luta para manter a coerência dos ritmos do candomblé e o comportamento elegante.

“Ele sempre esteve preocupado em marcar a diferença entre o toque religioso e o recreativo usado nos grupos musicais. Não aceitava a mistura”, diz.

Conhecido por, nos últimos anos, reger a orquestra do candomblé apenas com a voz – sentado em um banco e segurando uma toalha para enxugar o suor –, o sacerdote tinha um apreço especial pela correção tanto da melodia como da pronúncia.

“Meu mestre tinha uma marca especial que era a busca da perfeição. Cantar ou tocar errado era motivo para correção imediata. Ele pegava o gã e ensinava”, relata o historiador Jaime Sodré, xicarangoma do terreiro Tanuri Junçara e oloiê do Bogum.

Sodré também destaca o amor incondicional que ogã Erenilton tinha pelos afoxés. “Essa manifestação era a sua tentativa de mostrar como o povo de santo deve se portar no espaço carnavalesco”.

De acordo com Sodré, o ogã Erenilton formou uma grande dupla com o ogã Alcides, conhecido como Cidinho, também do Oxumarê. “Eles são representantes de um estilo típico dos mais antigos que tem um sonoridade cadenciada”, completa.

Alabê do terreiro Casa Branca, Edvaldo de Araújo Santos, conhecido como Papadinha, destaca as lições deixadas pelo ogã Erenilton.

“O orum deve estar cheio de alegria com a sua chegada. É o último dos grandes do passado, mas deixou discípulos. Tive a honra de vê-lo junto a outros dos antigos, como Cipriano e Jorge”, acrescenta.

Sacerdote ilustra especial de A TARDE

Ogã Erenilton Bispo dos Santos foi um dos personagens da capa do especial “Os homens que chamam os deuses pra terra”, publicado em 20 de novembro de 2012 por A TARDE, em comemoração ao Dia Nacional da Consciência Negra. O especial foi premiado na categoria mídia impressa, na edição do ano passado do Prêmio Abdias Nascimento. A premiação é uma das mais importantes do jornalismo brasileiro


Balaio de Ideias: Sucateiro, sucateiro…

postado por Cleidiana Ramos @ 2:50 PM
13 de fevereiro de 2014
Ilustração: Bruno Aziz

Ilustração: Bruno Aziz

Maria Stella de Azevedo Santos

Seis horas da manhã. Ouço vozes que vêm da movimentada rua que fica em frente ao quarto em que hoje estou dormindo. A casa está em reforma. Ai que saudade do meu quarto no fundo da casa… Em vez de vozes, eu escutava o lindo canto dos passarinhos, que de tão acostumados com o ambiente já penetravam casa adentro, entrando e saindo como se estivessem em seus próprios ninhos. Saudade do antigo quarto, e excitação com as novas experiências de amanhecer neste outro quarto.

Muita gente pode pensar que seis horas é um bom horário para acordar, eu também acho. Acordar às cinco horas é ainda melhor. É muito bom renascer a cada dia junto com o sol, sendo despertada pelo cantar de um galo. Entretanto, toda essa imagem romântica se transforma em uma realidade concreta quando, em vez do cantar do galo, ouço um alto-falante com um som de má qualidade anunciando a venda de pamonhas; quando o sol, tão preguiçoso quanto eu, teima em continuar adormecido em cima de uma acolchoada e fresca nuvem enegrecida. Confesso que a palavra pamonha me estimula a acordar mais rápido.

A imaginação foi tanta que cheguei até a sentir o cheiro inebriante de um bom café. Voltar a dormir estava fora de cogitação, o pregão da rua já tinha invadido minha mente: “Olha a pamonha, olha a pamonha, pamonha quentinha pro seu café da manhã”; “Acaçá de milho bem feito, tem de milho e tem de leite”; “Banana-da-terra, batata-doce, melão, melancia, ovos”. A essa altura, meu simples café imaginário com pamonha já se transformava em um banquete.

A imaginação fica solta quando o corpo está cansado e preso a uma cama. Hoje posso me dar a esse delicioso luxo, pois ontem varei a noite fazendo nascer para a vida espiritual mais um filho. Momento em que foram entoados muitos cânticos que atraíssem boa sorte, prosperidade, alegria, união, saúde, enfim, tudo de bom que uma pessoa precisa ter para caminhar com dignidade na vida. Enquanto minha imaginação vagava entre o passado recente de um ritual e o futuro próximo de um café da manhã, não foi pequeno o susto que levei ao ouvir uma voz que parecia querer ser ouvida por todo o universo:

“Sucateiro, sucateiro, compro sucata pra reciclagem”. A voz do sucateiro me assustou, mas o que ele queria comprar para reciclar me surpreendeu. “Quem tem ilusão pra vender? Quem precisa se desfazer de suas ilusões? Quem quer me entregar suas ilusões? Preciso de ilusões para reciclar, preciso de ilusões para transformar em sonhos! Olha o sucateiro…” – insistia o sucateiro.

Meu corpo se esqueceu de que estava exausto e deu um pulo da cama (ainda bem que ele não se esqueceu de pegar a bengala). Parece que a curiosidade é um grande despertador na vida e da vida. Sabendo que minhas pernas não tinham a rapidez necessária para alcançar o comprador de ilusões, precisei pedir a alguém que o trouxesse até minha presença. Ainda zonza de sono, não sabia se tinha alguma ilusão para vender, até porque não estava entendendo como era o funcionamento daquele comércio. Sabia apenas que precisava conhecer aquele estranho comerciante.

O sucateiro de ilusões aproximou-se de mim muito contente. Pensei que ele estava acreditando que iria fazer um excelente negócio comigo. Seu contentamento, segundo ele próprio, era simplesmente pelo fato de conhecer mais uma pessoa. Para meu espanto, fiquei sabendo que seu grande prazer era quando encontrava alguém que não tinha nenhuma ilusão para lhe vender e que o prazer era muito maior quando encontrava pessoas que já sabiam reciclar suas próprias ilusões em verdadeiros sonhos possíveis de serem concretizados, independentemente do tempo que eles precisassem para se realizarem.

Eu não sabia se alguma ilusão ainda estava viva em mim. Sonhos, eu sabia que ainda tinha muitos. Após uma longa e frutífera conversa, o sucateiro se despediu. Eu fiquei ponderando sobre a inusitada situação que acabava de vivenciar e relembrei do ritual da noite passada, cujos cânticos têm a função maior de reciclar as cabeças dos iniciados e do iniciante, que estava entregando sua cabeça ao comando de seu orixá.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, ela escreve em A TARDE, sempre às quartas-feiras


Balaio de Ideias: O futuro a Deus pertence

postado por Cleidiana Ramos @ 1:42 PM
2 de janeiro de 2014
Mãe Stella faz reflexão sobre o uso dos oráculos. Foto: Gildo Lima/ Ag. A TARDE/ 29.12.2010

Mãe Stella faz reflexão sobre o uso dos oráculos. Foto: Gildo Lima/ Ag. A TARDE/ 29.12.2010

Maria Stella de Azevedo Santos

Todo início de ano, que é entendido pela população como início de um novo ciclo, instiga as pessoas a consultarem oráculos. São muitas as artes divinatórias, todas elas baseadas em um completo, minucioso e complexo sistema filosófico. Aliás, só pode ser considerado verdadeiramente um oráculo o sistema divinatório que possua um código de interpretação simbólica, e até mesmo matemática. Não basta apenas ser uma pessoa intuitiva para que esta se coloque em posição de ler oráculos, é preciso que esteja inteiramente vinculada a uma tradição religiosa ou filosófica e conheça realmente seus fundamentos.

Apesar de diferentes tipos de materiais poderem ser usados para que se estabeleça uma conexão com o divino, é imprescindível um grande conhecimento da padronização do código do sistema divinatório em que o objeto está inserido. Assim são utilizados baralhos, pedras, varetas, e no caso da cultura africana vários tipos de sementes, além do objeto mais conhecido no Brasil que são os búzios.

Faço sempre a opção de falar em sistema divinatório e não adivinhatório, pois a utilização de um oráculo é uma oração realizada com o intuito de receber respostas reveladas pelas divindades, sejam elas as divindades maiores ou a divindade pessoal de cada um que busca esclarecimentos para suas dúvidas e orientações para seus atos futuros.

O jogo de búzios não adivinha o futuro, mostra o caminho presente, levando o consulente a refletir sobre as melhores atitudes a serem tomadas para que a caminhada a seguir seja mais fácil. Afinal, o milionésimo de segundo após o presente já é futuro. O que me inspirou a escrever sobre esse tema foi um simpático e-mail que recebi e que, depois de ter obtido a devida autorização, transcrevo-o na íntegra para meus leitores:

“Prezada Mâe Stella, permita-me inicialmente saudá-la com respeito e reverência. Sou seu leitor assíduo na segunda página do jornal A TARDE. Admiro muito os seus posicionamentos e as suas reflexões que muito têm me ensinado. Sou cristão e católico, assim fui batizado, porém interesso-me por todas as religiões, leio sobre as mesmas e as respeito. ‘Muitos são os caminhos que levem à casa de Deus’. A senhora realmente acredita que se possa saber o futuro através dos búzios? Continue escrevendo e me ensinando. Vida longa e próspera. Respeitosamente. Benigno Alves dos Santos Bruno Bacelar”.

O certo é o incerto. A certeza da vida está na dúvida. Quando procuramos entender, compreender a realidade, ela se transforma em torno de si mesma para gerar novo questionamento. E o futuro a Deus pertence. O futuro é o mistério que pertence ao maior de todos os mistérios – Deus. Espero ter respondido à pergunta do amigo Benigno, que como o próprio nome diz é uma pessoa do bem, assim como é do bem e para o bem devem ser utilizados os oráculos.

O hábito de se vestir de branco no primeiro dia do ano demonstra, de maneira talvez inconsciente, o desejo que têm as pessoas de praticarem o bem, afinal a cor branca é considerada a mais generosa de todas as cores do espectro, uma vez que, de acordo com o conceito de cor-energia, branca é a cor da luz, pois recebe todas as cores, mas não fica com nenhuma para si, reflete todas, iluminando assim o ambiente e a pessoa que a está usando. Branca é a cor de oxalá, considerado o mais puro dos orixás.

Este artigo será lido exatamente no dia em que se inicia um novo ano – 2014 –, momento em que muitos perguntam qual o odu (caminho) e o orixá que estará governando. Não me canso de repetir que quando a divinação é feita para uma coletividade, como é o caso do “jogo do ano” realizado pelos terreiros de candomblé, as respostas reveladas e interpretadas só são direcionadas às pessoas vinculadas àquela “casa de culto”.

Por exemplo: as orientações dadas pelo caminho e pelo orixá que se apresentar no jogo de búzios feito por mim, mãe Stella de Oxossi, são dirigidas às pessoas que, de uma maneira ou de outra, por religiosidade ou afeto, têm um vínculo espiritual com o Ilê Axé Opô Afonjá. Quem muito se mistura não consegue se encontrar.

Maria Stella de Azevedo Santos escreve, quinzenalmente, às quartas-feiras no jornal A TARDE


Feliz 2014 com um abraço afro-brasileiro!

postado por Cleidiana Ramos @ 4:25 PM
31 de dezembro de 2013

 

Foto: Arestides Baptista / Ag A TARDE/ 28.08.2010

Foto: Arestides Baptista / Ag A TARDE/ 28.08.2010

Um 2014 recheado das boas energias trazidas pelas forças do bem! Axé!


Mais um livro, mais um presente

postado por Cleidiana Ramos @ 1:11 PM
18 de dezembro de 2013
Mãe Stella lança novo livro hoje, quarta, na ALB. Foto: Margarida Neide. 07/12/2012

Mãe Stella lança novo livro hoje, quarta, na ALB. Foto: Margarida Neide. 07/12/2012

Maria Stella de Azevedo Santos

Foi assim que meus filhos escreveram no início do convite para o lançamento do próximo livro que estarei entregando ao público. Se permitir que a colocação da referida chamada fosse colocada, foi porque, na verdade, considero que editar mais um livro é, sim, um grande presente. Um grande presente para mim! Afinal, livros nos conectam uns aos outros, fazendo com que eu possa estar presente na vida de pessoas que nunca sonhei em trocar ideias.

Além do mais, continuar devolvendo ao mundo o que recebi dele faz com eu me mantenha presente no momento presente. Meu tempo será sempre o agora! Se escolho, geralmente, o mês de dezembro para lançar os livros que escrevo é exatamente porque neste período o desejo de conexão fica intensificado.

Sendo assim, convido a todos para estarem comigo hoje, quarta-feira, 18 de dezembro, na Academia de Letras da Bahia, para juntos celebrarmos o destino, tema sobre o qual trata a Coleção Odu Adajó: Coleção de Destinos, que pretende ser composta por 16 volumes.

A Coleção Odu Adajó tem a pretensão de ampliar e aprofundar os conhecimentos sobre o legado da cultura yorubá, que hoje é entendida por quem nos visita como cultura baiana. Por que, então, o povo da Bahia/Brasil estuda tanto a mitologia dos deuses gregos e romanos e não estuda a mitologia dos orixás? Por que se interessam apenas por oráculos que estão distantes de nós, como Cabala, Tarô, e não procuram conhecer aquele que atrai tanta gente de fora do estado (e do país) em busca de ajuda e apoio espiritual, que é o Jogo de Búzios?…

Foram essas as perguntas que durante muito tempo me fiz. Recusei-me a acreditar no “chavão” do preconceito e fui a “campo” pesquisar. Perguntei a uma “filha de santo” minha por que ela estava estudando Cabala e não os odus, que são os caminhos do destino indicados pelo oráculo da cultura à qual ela estava vinculada – o candomblé. A resposta foi simples: “Sobre Cabala encontro livros que ajudam em minha busca pelo autoconhecimento e pelo autoaperfeiçoamento, sobre a tradição africana nada ou pouca coisa  encontro”.

Ouvi a resposta e pensei: Se eu sou uma religiosa, preciso colaborar no sentido de facilitar a busca de conexão das pessoas com sua parcela divina, sua espiritualidade. E uma das importantes etapas desse processo é conhecer, aceitar e cumprir o destino. Resolvi, então, tentar cobrir a falta que me foi alertada pela minha filha, escrevendo e publicando livros que podem ser de interesse de muitos.

A Coleção Odu Adajó se destina, portanto, a qualquer pessoa que busque ter uma visão mais ampliada da existência, aos estudiosos de culturas diversas e, principalmente, aos iniciados da religião que é conhecida no Brasil pelo nome de candomblé.

Sendo eu uma iniciada, tenho a tendência de resguardar os mistérios, evitando retirar os véus que os encobrem. Por isso, não foi uma decisão nada fácil editar a coleção que agora chega ao conhecimento do público, assim como os livros anteriores. A ousadia vem sempre da necessidade e a coragem, sempre da permissão dos orixás. Diante da modernidade, da internet, essa ficou sendo a minha única alternativa de evitar deturpações da essência de uma religião milenar.

Quatro volumes da coleção em questão já estão escritos, mas apenas um já foi editado, com apoio da Assembleia Legislativa do Estado da Bahia. Optou-se por usar todas as palavras em yorubá com a grafia correta como forma de preservação da língua, mas isto não é motivo de preocupação, uma vez que a tradução das rezas, dos provérbios, etc. pode ser encontrada logo em seguida.

Conhecer a cultura africana não transforma ninguém em cultuador de orixás. Cada um tem sua crença, a qual deve sempre ser respeitada por todos. Entretanto, conhecer a cultura em que se vive é muito mais do que uma obrigação, pode ser um delicioso prazer. É apenas isso que pretendo oferecer: prazer com uma boa dose de ampliação de conhecimentos, que possa vir a colaborar com a diminuição do preconceito e uma melhor qualidade de presença na sociedade em que se vive.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente ela escreve para o jornal A TARDE, sempre às quartas-feiras


Mãe Stella lança novo livro

postado por Cleidiana Ramos @ 3:46 PM
13 de dezembro de 2013
Mãe Stella lança novo livro. Foto: Margarida Neide/Ag. A TARDE/ 29.11.2012

Mãe Stella lança novo livro. Foto: Margarida Neide/Ag. A TARDE/ 29.11.2012

Na próxima quarta-feira, às 18 horas, na Academia de Letras da Bahia (ALB),  Mãe Stella de Oxóssi dá mais um presente para a comunidade que dirige, o Ilê Axé Opô Afonjá, mas também a todos que professam o candomblé ou se interessam pelos temas que envlvem essa religião. Trata-se do primeiro volume da coleção Odu Àdájo, com tradução livre para o português como Coleção de Destinos. Com maestria, Mãe Stella apresenta toda a beleza que cerca um dos mais importantes pilares para essa tradição religiosa: o oráculo que, no Brasil, é conhecido como Jogo de Búzios e que se baseia nos odus, ou seja, o conhecimento sobre o destino.

Mas este conhecimento é muito mais complexo do que a ideia simplista de conhecer o futuro a partir da consulta a uma sacerdotisa ou sacerdote. Também não significa que conhecer o destino é poder evitar qualquer tipo de problema como os céticos gostam de dizer para diminuir a sabedoria sobre oráculos.

No universo afro religioso, ter informações sobre o “destino” é, antes de tudo, conquistar o auto conhecimento que abre os caminhos para uma vida de paz acima de tudo. São explicações como essa que a coleção, cuidadosamente preparada por Mãe Stella, vem trazer.

O primeiro livro, por exemplo, começa pelo 16º odu, que é Ofun Méji, no sistema oracular da divindade Ifá. No Merindinlogun, um dos nomes que se dá ao Jogo de Búzios, ele ocupa a décima posição.  “Ofún Méjì é, portanto, um odu de extrema complexidade, que como símbolo da síntese universal, carrega em Si a responsabilidade pela “Criação” e por todo tipo de criação, que acontece por oposição ou complementação dos opostos, enfim, através de permanente movimento”, diz a introdução do livro.

No prefácio, Mãe Stella explica que a sua iniciativa em abordar um tema tão complexo e ao mesmo tempo tão caro ao candomblé foi a forma que encontrou para suprir a necessidade de mostrar mais uma face da riqueza que a filsofia iorubá, a qual o Afonjá está vinculado, possui. Ela, inclusive, faz questão de ressaltar que o conhecimento que transmite na coleção é o que recebeu nesta comunidade específica, o que condiz com o respeito que sempre demonstrou e demonstra em seus livros diante das outras tradições religiosas de matrizes africanas.

Fiel a esse princípio da oralidade, Mãe Stella deu um toque diferente a essa coleção. É um livro que dialoga com a oralidade e a escrita. Dessa forma, Mãe Stella, assina o livro na parte de tradição oral. A tradição escrita ficou sob a responsabilidade de Graziela Domini,filha de Iemanjá da casa.

Essa é, portanto, mais uma inovação de uma sacerdotisa que fica muito à vontade para transitar entre as duas linguagens, mas que, neste caso, diante do caráter especial que tem o tema, preferiu repartir, desde a capa, o domínio dos dois códigos de linguagem. Mais uma atitude “ousada”, como ela define sua iniciativa em preparar esta coleção, mas que é mais uma amostra da sua maestria com a literatura a ponto de ter se tornado a primeira líder religiosa do candomblé a ocupar uma cadeira na Academia de Letras da Bahia (ALB).

Em tempos de Internet que ela reconhece a importância, mas que também entende como um meio que, devido a rapidez, não dá o tratamento adequado a temas tão complexos, Mãe Stella conta que optou por fazer o uso da parceria entre oralidade e escrita para transmitir sua reflexão sobre o oráculo de origem africana que continua preservado na Bahia.

É um passeio pelo meio dos mistérios mas sem a necessidade de revelar aquilo que se chama “fundamento”,  reservado apenas para quem conquistou o direito de ter acesso a ele, um dos pilares básicos do candomblé.

“Como iniciada que sou, tenho a tendência de resguardar os mistérios, evitando retirar os véus que os encobrem. Por isso, não foi uma decisão nada fácil editar a coleção que agora entrego ao público. A ousadia veio da necessidade, mas a coragem veio da permissão dos orixá. Diante da modernidade, essa ficou sendo minha única alternativa de evitar deturpações da essência de uma religião milenar. Quero deixar claro que o que aqui transmito tem como base o candomblé como é professado no Il]e Axé Opo Afonjá, na Bahia”, escreve Mãe Stella no prefácio.

A nós leitores cabe recohecer a profundidade deste presente e a generosidade de uma sacerdotisa que tem feito do seu conhecimento uma forma de diálogo tanto com aqueles que são da religião dos orixás,como também com os que se sentem próximos pelos mais variados caminhos.

Serviço:
O que: Lançamento de Ofun (Coleção Odu Àdájo- Coleção de Destinos)
Quando: Dia 18/12, quarta-feira, a partir das 18 horas
Onde: Academia de Letras da Bahia (ALB), Avenida Joana Angélica, 198, Nazaré


Terreiros do Engenho Velho marcham contra a violência e a intolerância religiosa e pedem paz

postado por Cleidiana Ramos @ 6:26 PM
14 de novembro de 2013

Caminhada reúne comunidades religiosas do Engenho Velho da Federação. Foto:Fernando Vivas 15.11.2011

Caminhada reúne comunidades religiosas do Engenho Velho da Federação. Foto:Fernando Vivas 15.11.2011

Pelo nono ano consecutivo cerca de 30 comunidades religiosas de matrizes africanas, sediadas no Engenho Velho da Federação,  vão realizar a marcha pelo fim da violência e da intolerância religiosa e pedirem paz. A caminhada será na próxima sexta-feira, dia 15 de novembro, a partir das 14 horas.

O ponto de encontro para a saída da caminhada é o fim de linha do bairro, onde fica o busto em homenagem a Doné Ruinhó, uma das sacerdotisas que lideraram o Terreiro Bogum, situado no bairro.

O Engenho Velho da Federação tem como marca característica a valorização de sua identidade negra. O bairro reúne terreiros das mais variadas tradições das religiões afro-brasileiras, como candomblé, umbanda e culto aos caboclos. Além disso, no bairro estão sediados grupos de samba junino, capoeira  e outras manifestações que formam a herança de vários povos de origem africana.

A caminhada começou em 2004 como repúdio a ataques promovidos contra os terreiros por grupos representantes de confissões evangélicas. A partir da mobilização das comunidades religiosas de matrizes africanas os registros de desrespeito praticamente desapareceram, mas suas lideranças decidiram manter a luta como lição e alerta para que atos desrespeitosos não voltem a acontecer.

Além de lideranças das religiões afro-brasileiras, a caminhada reúne representantes de organizações da sociedade civil e do poder público que atuam no combate às desigualdades sociais e simpatizantes da causa.

 


Praguer Fróes escrevia com sacrifício

postado por Cleidiana Ramos @ 3:05 PM
10 de outubro de 2013
Mãe Stella faz reflexão sobre importância da oralidade e da memória. Foto: Fernando Amorim/ Ag. A TARDE/06.12.2012

Mãe Stella divulga mais um trecho do seu discurso de posse na ALB. Foto:  Ag. A TARDE/06.12.2012

Maria Stella de Azevedo Santos

Continuando a cumprir meu compromisso de tornar cada vez mais pública a vida e a obra dos ilustres baianos que me antecederam na cadeira que hoje ocupo na Academia de Letras da Bahia, transcrevo uma parte de meu discurso de posse que fala sobre Heitor Praguer Fróes. Com humildade e alegria confesso que precisei pesquisar, para me aprofundar, sobre a vida dos acadêmicos. É uma delícia saber que aos 88 anos de idade ainda tenho muito, muito, muito a aprender. Inteirando-me sobre a vida de meu confrade Praguer Fróes, descobri e agora revelo pérolas ditas pelos seus pais, por ele e sobre ele. Espero, com esse meu gesto, não apenas emocionar os leitores, mas reafirmar meu pedido para que as livrarias instaladas na Bahia tenham uma estante específica para os livros dos escritores baianos.

Filho da histórica e cultural cidade de Cachoeira, nascido no dia 25 de setembro de 1900, Praguer Fróes foi poeta, tradutor, médico e professor. Foi membro não apenas da Academia de Letras da Bahia, mas também de inúmeras outras instituições científicas e culturais, como a Academia de Medicina da Bahia.
Praguer Fróes escrevia com sacrifício. Eu faço uso dessa palavra não no sentido comum que ela possui, como sinônimo de dificuldade, mas em seu sentido original. Escrever para Praguer Fróes era um ofício sagrado, sobre o qual ele dizia: “Quem escreve um livro e o revê e publica passa pelo paraíso e pelo inferno: Pelo paraíso, quando compõe; pelo purgatório, quando retoca; pelo inferno, quando imprime. Pelo paraíso, quando compõe, porque nada é mais agradável do que criar; pelo purgatório, quando retoca, porque nada é tão fastidioso quanto modificar; pelo inferno, quando imprime, porque nada é mais enervante que estar interminavelmente a corrigir”.
E foi pensando e sentindo assim que Praguer Fróes somou em sua biografia livros de poemas, contos, contrafábulas e inúmeras obras científicas. Sacralizar um ofício é um comportamento típico de quem se preocupa e se ocupa com a humanidade. Tanto que Praguer Fróes chegou a abdicar dos direitos autorais de seu livro Lições de Medicina Tropical, em benefício do então futuro Hospital das Clínicas. Praguer Fróes era um humanista nato, pois herdou de seus pais a consciência cidadã.
Não se pode nem se deve falar de Heitor Praguer Fróes, sem falar de sua família. Pai, mãe e filho, todos eles médicos que dedicaram a vida a salvar vidas. Sua mãe, Francisca Praguer Fróes, foi uma das primeiras mulheres formadas em Medicina no Brasil, pioneira em todas as áreas em que atuou, principalmente na defesa dos direitos femininos. Ela dizia: “Eu sou feminista por herança e convicção”. O pai de Heitor Praguer Fróes, João Américo Garcez Fróes, foi tão singular figura humana que quando precisava interferir no comportamento de um estudante de Medicina, de modo a impedir que este fizesse o doente sofrer desnecessariamente, delicadamente dizia em latim: Non vi, sed arte! (“Não pela força, sim pela arte!”).
O que nosso confrade o jornalista Jorge Calmon diz sobre o pai de Heitor Praguer Fróes é o princípio que faz de um membro da Academia de Letras da Bahia um imortal; é o principio que faz de qualquer pessoa, letrada ou não, um imortal. Ele diz: “Efetivamente, há homens que se tornam instituições. São poucos. Constituem exceções. A regra geral é o bitolamento medíocre dos inumeráveis componentes do rebanho humano, que a lei da vida vai tangendo, em marcha entre o nascimento e a morte. Nessa indistinta mediania, as inteligências não brilham, o esforço não avulta, o caráter não logra atingir forma, consistência. É a grande planície dos homens comuns. Vez por outra, desse solo rasteiro sobressai uma eminência. O talento, a virtude, o mérito rompem a vulgaridade e projetam de entre a massa os indivíduos bem dotados, ou que a si mesmo se dotam, e cuja ascensão proclama as faculdades superiores da pessoa humana. Foi Garcez Fróes um desses raros indivíduos”.
Em 25 de outubro de 1987, Heitor Praguer Fróes seguiu seu caminho rumo ao reino divinal, para encontrar esta linda família que deixou para todos nós um exemplo de vida registrado em livros.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, ela publica artigos no jornal A TARDE e, sempre, às quartas-feiras


Balaio de Ideias: Um Adeus ao Alapini

postado por Cleidiana Ramos @ 9:47 AM
8 de outubro de 2013
Mestre Didi é homenageado em belo texto de Emanoel Araújo. Foto: Divulgação

Mestre Didi é homenageado em belo texto de Emanoel Araújo. Foto: Divulgação

Emanoel Araujo

Há poucos dias visitei o meu querido amigo e irmão Deoscóredes Maximiliano dos Santos, que estava deitado, meio adormecido. Beijei sua mão longa e delicada. Ele me sussurrou algumas palavras pela surpresa da minha aparição sem anunciar. Por momentos estive com Juana dos Santos, sua inseparável companheira de tantos e tantos anos, sua fiel e apaixonada mulher como foram as do rei Xangô. Ela organizava, como fruto desse amor, a grande homenagem que lhe seria prestada no dia 2 de dezembro nos seus 96 anos, o siré dos 96 anos do Mestre Didi, e me mostrava a lista dos amigos que seriam convidados para a festa. Disse-lhe também que, em novembro, o Museu Afro Brasil, em São Paulo, lhe prestaria uma homenagem para celebrar os 25 anos do livro “A mão afro-brasileira”. Qual a minha surpresa com a sua morte.

Mestre Didi sempre foi um homem voltado para a cultura e a vida afro-brasileira, desde os muitos livros que publicou sobre o culto dos ancestrais, no qual tinha o honroso cargo de Alapini. Foi um artista escultor de lindas obras, cuja temática falava desse extraordinário universo das coisas da África mítica, onde os deuses estão na terra, e por isso suas esculturas eram totêmicas, saíam do chão para alcançar o infinito. Ele sabia desafiar o espaço com a linha que se desdobrava em volutas encimadas por pássaros, numa alusão a Oxalá, ou se desdobrava em formas triangulares como os oxês de Xangô ou as palmas forradas de dores fortes de tecidos protegendo a natureza. Os fios de palmas se transformavam em xaxarás, ibiris, paxorôs com miçangas coloridas, adornadas com fatias de couro de muitas cores.

Esse era o artista no seu pequeno atelier, dando forma e vida à mitologia, às lendas dos orixás, às complexidades dessa cultura milenar: do sofrimento, da alma, do espírito, da dor e das raízes encravadas na memória do tempo e do espaço, diante da incompreensão dos ignorantes. Ele foi um sábio e um homem voltado para o sagrado, talvez ensinado pela sua madrinha Dona Aninha, por sua mãe Dona Senhora, talvez até na atmosfera verde e selvagem do Ilê Axé Opô Afonjá, com todas aquelas ebames num coro uníssono para Xangô, o justiceiro. Mas houve um outro Mestre Didi, amigo de Lídio, de Camafeu, de Waldeloir Rego, de Carybé, de Jorge Amado, de Vivaldo Costa Lima, de Tibúrcio Barreiros, de Dorival Caymmi, e de muitos amigos pelo Brasil afora, pelo mundo afora, pela África afora.

Deoscóredes Maximiliano dos Santos, sacerdote do culto dos Egunguns, Alapini do Ilê Asipa, mestre sagrado do culto dos ancestrais, artista escultor cuja obra encantou brasileiros e estrangeiros no “Magiciens de la Terre”, em Paris, na sala especial da Bienal internacional de São Paulo, na grande exposição no Museu Afro Brasil, no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira em Salvador. Comendador da ordem do mérito da cultura nacional, foram muitos os degraus de sua obra artística e sacerdotal. Pairou por esse mundo de Olodumare e, como o deus Oxalá, transformou o barro e a palha com miçangas coloridas em seres vivos que falam da eterna e milenar cultura de um povo, e também a cultura viva, que pulsa no espírito do novo mundo. Adeus, Alapini, vá ao encontro de suas outras mulheres, que lhe amaram como um filho pródigo: Dona Aninha e sua mãe, Dona Senhora, verdadeiras rainhas do Ilê Axé Opô Afonjá. Kaô Kabecilê.

Emanoel Araujo é escultor e diretor-curador do Museu Afro Brasil, em São Paulo


Lembranças de Mestre Didi

postado por Cleidiana Ramos @ 6:18 PM
6 de outubro de 2013
Na foto: Mestre Didi Foto: Divulgação

Mestre Didi faleceu na manhã de hoje em Salvador. Foto: Divulgação

Devia ter mais ou menos um ano de profissional do jornalismo, mas era ainda “foca”, o nome que se dá aos repórteres iniciantes. Acho que o apelido é porque, nesse período, nossos gestos são completamente afoitos, estabanados e desajeitados.

Minha missão era entrevistar Mestre Didi para um “freela” que, no jargão do jornalismo, a  gente usa para chamar um trabalho temporário.

Como uma “foca” aplicada fiz o dever de casa: pesquisei, li alguns textos sobre ele e me lembrei muito bem da recomendação dos coordenadores do trabalho: “Não grave a entrevista porque a voz dele não pode ser desvirtuada, devido à sua posição sacerdotal”.

Fiquei tão presa à recomendação que me supreendi quando vi o Mestre frente a frente: sorriso aberto, gestos elegantes e uma extrema simpatia. E aí o lado atrapalhado da foca falou mais alto. Ataboalhadamente disse: “Eu sei que o senhor não fala, mas preciso de uma declaração”. Ele deu uma gargalhada e retrucou: “Falar eu falo. O que não costumo fazer é dar entrevista, principalmente gravada”.

Logo em seguida a conversa foi entabulada com a intermediação da sua esposa, a antropóloga Juana Elbein. Infelizmente, esse foi meu único contato pessoal com Mestre Didi. Passei a conhecer mais sobre ele apenas por meio dos seus livros, obras e notícias sobre o afoxé Pai Burokô.

Hoje, diante da sua partida para a dimensão ancestral que, por meio do seu sacerdócio como alapeni conectava com o mundo terreno, no culto aos Babás (a energia de origem), percebo o quanto de multifacetada foi a trajetória do Mestre: escultor, escritor e sacerdote.

Cada uma dessas dimensões sempre estiveram dialogando juntas e preservando as tradições também do culto de orixás, afinal era filho biológico da grande Mãe Senhora. Mestre Didi deixa hoje o espaço terreno, mas cumpriu a missão de eternizar a herança ancestral a qual devotou seu sacerdócio.


Salve Iroko!

postado por Cleidiana Ramos @ 10:20 AM
30 de setembro de 2013
SEMINÁRIO PARA IROKO

Iroko fica na entrada do DPT. Foto: Welton Araújo/ Ag. A TARDE/ 01.09.2008

Manter a memória é fundamental. A saudosa ebomi Cidália partiu para a reunião ancestral, mas o rito em honra de Iroko que ela comandava todos os anos no Departamento de Polícia Técnica (DPT) consegue se manter. A liderança sacerdotal agora é do babalorixá Air José, líder religioso do Terreiro Pilão de Prata. O rito aconteceu na manhã de ontem.  A árvore sagrada também é uma lembrança ao terreiro de Júlia Bugã que funcionou no local até a chegada do DPT.


Infância sagrada

postado por Cleidiana Ramos @ 2:22 PM
27 de setembro de 2013
Os santos católicos adultos viram meninos. Foto: Agência A TARDE/

Os santos católicos adultos são representados como meninos. Foto: Agência A TARDE/25.09.2012

Hoje é dia de São Cosme e São Damião, os santos médicos e, portanto, adultos da Igreja Católica. Mas a gente lembra mesmo é das divindades meninas, um efeito da ressignificação resultante do encontro entre as religiões afro-brasileiras e o catolicismo.

Assim, os santos adultos são um pretexto para comemorar os deuses e encantados crianças que gostam de caruru, comida dos ibejis e dos vunjis das tradições ketu e angola, respectivamente, e de doces.

É uma manifestação bela que consegue nos lembrar de forma mágica e lúdica o quanto a infância é sagrada, pura, alegre e forte o bastante para nos fazer esquecer, pelo menos por alguns momentos,  as agruras do dia-a-dia.

Festejar a infância é de certa forma lembrar o quanto as crianças precisam de respeito e atenção e mais uma prova de como os africanos e seus descendentes entendiam dos mistérios da vida.


“Exu é ideal para esse debate. É mensageiro e é movimento”. Entrevista: Vagner Gonçalves

postado por Cleidiana Ramos @ 10:36 AM
23 de setembro de 2013
Vagner Gonçalves fará palestra de abertura do I Simpósio de Estudos da Religião Afro-Brasileira. Foto: Divulgação

Vagner Gonçalves fará palestra de abertura do I Simpósio de Estudos da Religião Afro-Brasileira. Foto: Divulgação

Cleidiana Ramos

Um dos principais pesquisadores das religiões afro-brasileiras no Brasil, Vagner Gonçalves vai fazer a conferência de abertura do I Simpósio de Estudos da Religião Afro- Brasileira, que começa em Salvador, na próxima terça-feira. Professor da Universidade de São Paulo (USP), ele escolheu falar sobre as diversas dimensões de Exu na África negra e em países da diáspora, como o Brasil.

Qual a principal linha de abordagem da sua palestra na abertura do simpósio?

A figura de Exu e a circularidade cultural. As religiões afro-brasileiras são muito impactadas por um diálogo transantlântico. Não dá para entendê-las se não percebemos as diversas redes que interligam Brasil, países da África, Haiti e Cuba. Valores e conhecimentos circulam por essas rede. Esses processos resultam numa cultura afro-atlântica que extravasa o plano local.  Exu é ideal para discutir essa questão, pois é o mensageiro e o  movimento.

Exu é uma figura controversa mesmo no âmbito das religiões afro-brasileiras.

Sim e a minha fala com certeza vai ser bem controversa também (risos). O que aconteceu no Brasil e também nos outros espaços do Atlântico negro foi uma demonização de Exu. Mas ao mesmo tempo isso provoca uma humanização do demônio. É um processo complexo que vou tentar  explicar.  Quando duas culturas entram em contato, ambas saem modificadas. No caso brasileiro, por exemplo, o Exu associado à umbanda  tem sua imagem mais próxima da ideia de mal. No candomblé, ele é mais puro, mais autêntico.

Como a ideia de Exu transforma a ideia de demônio?

Veja bem. O demônio é sempre relativizado com a ideia de mal. Mas com este mal não se faz um pacto. Mesmo na umbanda, onde Exu se aproxima mais da ideia de mal do que no candomblé, você pode conversar com ele, fazer um pacto e conseguir coisas boas. Na concepção cristã o demônio é um anjo caído. Ora, se você pode convencê-lo a fazer  uma coisa boa, ele volta a vestir, de certa forma, sua pele de anjo. Há, portanto, a inversão da lógica do argumento original.

O candomblé já foi perseguido, depois passou a ser até marca identitária de um povo, como é na Bahia. Em que fase ele está agora ?

Na verdade, acho que ele não tem fases cronológicas tão divididas. O candomblé, desde o seu surgimento, tem várias características ao mesmo tempo. Foi perseguido pelo Estado, tanto na monarquia, como na república, mas agora é perseguido por igrejas evangélicas. Sabemos que no século XIX, várias pessoas da elite frequentavam o candomblé. Além disso, o  povo de santo está presente na cultura nacional. Os grandes ícones da cultura brasileira como o Carnaval e a capoeira são espaços de sociabilidade dos negros que formaram o candomblé. Portanto, ele sempre foi perseguido, mas exerceu atração. Hoje em dia, ele não está sendo perseguido pelo Estado, mas por adversários que vêm do próprio campo religioso popular. É o vizinho que se tornou  evangélico; o filho que tem pais de candomblé, mas se tornou evangélico. O Estado, em alguns casos, passou de perseguidor  à condição de quem ajuda com os tombamentos e outros apoios.

Recentemente, o jornal Extra, do Rio de Janeiro, publicou uma matéria denunciando a perseguição a religiosos do candomblé feita por traficantes de drogas  evangélicos. Este é um fenômeno recente?

Sim e é um fenômeno bastante complexo. Os evangélicos acabam fornecendo um tipo de proteção política ao mundo do tráfico. Essa proteção também é entendida pelo traficante na dimensão religiosa. Esses mundos acabam ficando muito confusos, divididos e dificíeis de entender. Mas o fenômeno mostra que os evangélicos têm feito alianças em várias dimensões: com o mundo político; com o tráfico e  elas sempre se refletem de forma muito negativa para o candomblé.


Ecos da posse de Mãe Stella na ALB

postado por Cleidiana Ramos @ 9:44 PM
15 de setembro de 2013

Pessoal: como não pude postar nada aqui sobre a posse de Mãe Stella, estou publicando abaixo o texto que elaborei para o editorial da edição de sexta-feira de A TARDE.

Lições da trajetória de Mãe Stella

MAE ESTELLA DE OXOSSI / TOMA POSSE MA ACADEMIA DE LETRAS

 

 

Fundadora do Ilê Axé Opô Afonjá, em 1910, Eugênia Anna dos Santos, carinhosamente chamada de Mãe Aninha, dizia que todo negro com um anel no dedo deveria colocá-lo aos pés de Xangô.

Simples, mas profundas, as palavras de Mãe Aninha evocam o quanto era difícil para um afrodescendente ter acesso à escola. Mas significa também que os vitoriosos deveriam agradecer à ancestralidade que, no caso de Xangô, governa coisas tão belas como a Justiça e a alegria. Ao voltar, o dono do anel reforça um ciclo, pois quem vence desafios, geralmente, inspira.

Coube, portanto, a Maria Stella de Azevedo Santos, uma filha do Afonjá e ocupante do posto que já foi de Mãe Aninha poder colocar aos pés de Xangô símbolos, que assim como o anel de formatura, significam a conquista do saber formal.

Formou-se em enfermagem numa época em que a habilitação era para poucos; é doutora honoris causa da Uneb; foi a primeira ialorixá a se tornar articulista de um jornal de grande circulação ao passar a escrever artigos em A TARDE e agora é membro da Academia de Letras da Bahia (ALB).

Mãe Stella não perseguiu nenhum destes títulos. Eles vieram como resultado da sua capacidade de mostrar como é possível absorver um código sem precisar abrir mão dos seus próprios.

Olhando a produção literária de Mãe Stella percebemos como a matriz oral, que é a base da sua formação religiosa, dialoga com a formalidade da escrita. Seu discurso é simples, mas profundo e próximo de quem o acessa , características tão presentes na oralidade.

A trajetória da filha de Oxóssi, orixá que é o provedor da comunidade, vira, no plano simbólico, alimento para novas gerações que descobrem o quanto o anel é necessário no mundo além dos terreiros. Mas o que não devem esquecer é a riqueza da ancestralidade preservada nestes espaços. Ela é a chave para não perder o caminho da origem, que permite lembrar quem se é de fato.


Escrever livros, ter livros, plantar árvores

postado por Cleidiana Ramos @ 4:56 PM
11 de setembro de 2013
A foto é para lembrar que amanhã, quinta-feira, é dia histórico com a posse de Mãe Stella na Academia de Letras da Bahia (ALB). Foto: ALB/Divulgação

A foto é para lembrar que, amanhã, quinta-feira, é dia histórico com a posse de Mãe Stella na Academia de Letras da Bahia (ALB). Foto: ALB/Divulgação

Maria Stella de Azevedo Santos

No  dia 22 de setembro começa uma nova estação. No hemisfério sul (onde se localiza o Brasil) é o início da Primavera, quando todos se vinculam à beleza colorida e passageira das flores. Geralmente, as árvores são esquecidas. Lembramos, então, que este ser vivo, tão fundamental para a existência da espécie humana, deverá ser comemorado, em 2013, no dia 21 de setembro.

Diferentemente das flores, algumas árvores são tão longevas que guardam segredos do início dos tempos. Tal é o caso de Baobá, uma das mais grandiosas árvores, que vive milênios, e foi imortalizada pelo francês Antoine de Saint-Exupéry, em seu famoso livro O Pequeno Príncipe. É dito, inclusive, que a inspiração surgiu quando, em visita ao Brasil, o escritor conheceu um exemplar de Baobá, na cidade de Natal-Rio Grande do Norte. Baobá, considerada mãe de todas as árvores, é originária do Continente Africano, existindo poucos exemplares em nosso país. Um deles é, exatamente, o que ainda vive em Natal.

Homenagearei todas as árvores através do seguinte mito africano, que como todos os mitos precisam de uma reflexão profunda, a fim de que seus importantes ensinamentos possam ser internalizados: No centro da África, habitava uma alta e frondosa árvore – Baobá. Foi nela  que Coelho encontrou o conforto que buscava. Exausto, ele se abrigou à sombra da árvore que mais parecia uma Grande Mãe. Extasiado, Coelho exclamou: “Que sombra acolhedora e amiga você tem, muito obrigado!”.

A árvore, que não costumava receber palavras de agradecimento, ficou muito alegre e confiante. Coelho procurou logo aproveitar-se do momento e disse: “Sua sombra é muito boa, mas seus frutos não me parecem tão bons”. Aquela foi uma forma indecente de Coelho fazer com que a árvore lhe desse seus frutos. Baobá sentiu em seu coração a desnecessária artimanha de Coelho, mas preferiu pensar que ele agia daquele jeito por inocência. Ela lhe deu seu delicioso e nutritivo fruto. Coelho voltou a usar uma fala doce para suas atitudes mesquinhas:

“Sua sombra é boa, seu fruto é bom, mas nada sei sobre seu coração. Será ele doce como o interior de seu fruto ou duro e seco como sua casca?”. A árvore hesitou em mostrar quão belo era seu coração. Abrir o coração para alguém é sempre perigoso, mas também é tão divino, que a árvore não resistiu: lentamente foi abrindo seu tronco, até deixar que fosse visto seu lindo coração; um tesouro, que a árvore transformou em moedas, joias, e ofereceu a seu “amigo” Coelho.

Foi para sua esposa que Coelho entregou o tesouro para ser guardado, mas ela preferiu usar as joias: ela queria matar de inveja suas amigas. A primeira que ela encontrou foi Hiena, que quis saber onde aquele tesouro tinha sido encontrado. Coelha, manifestando ostensivamente sua arrogância, disse a Hiena que fosse falar com seu marido. Com medo do agressivo animal, Coelho contou seu segredo. No dia seguinte, exatamente ao meio-dia, Hiena repetia passo a passo o que Coelho havia feito para conquistar o tesouro: deitou-se e elogiou a sombra da frondosa árvore; pediu-lhe um fruto e o elogiou; finalmente, pediu para ver seu coração. Contente, por pensar que tinha conseguido um outro amigo, a árvore, desta vez, nem hesitou: foi abrindo seu tronco lentamente, agora para poder saborear cada minuto de entrega.

Mas Hiena, impaciente, pulou com suas garras no tronco da árvore, gritando: “Abra logo esse coração, eu não aguento esperar! Eu quero todo esse tesouro para mim!”. A generosa árvore ficou apavorada, fechando imediatamente seu tronco, deixando Hiena de fora a uivar desesperada, sem conseguir pegar nenhuma joia. E por mais que ela arranhasse a árvore, ela nada conseguiu.

A partir desse dia é que a hiena ganhou o costume de vasculhar as entranhas dos animais mortos, pensando encontrar ali algum tesouro. Ela não conseguiu entender que esse tesouro só existe dentro dos corações puros, que batem forte por amor ao próximo. Baobá, a partir de então, só permite que entre em seu imenso tronco, pessoas sábias e íntegras, que conhecem seus mistérios e por isto podem respeitá-los.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, ela escreve em A TARDE, sempre às quartas-feiras


Balaio de Ideias: Por que não eu?

postado por Cleidiana Ramos @ 1:16 PM
28 de agosto de 2013
MÃE STELLA DE OXOSSI LANÇA LIVRO

Mãe Stella faz reflexão sobre o sofrimento. Foto: Margarida Neide/07.12.2012

Maria  Stella de Azevedo Santos

Sofrimento não é “minha praia”, mas é impossível negar que este sentimento, dolorido, faz parte da existência de absolutamente todos os seres humanos. Normalmente, quando uma pessoa se vê obrigada pelo destino a passar por intensos momentos de dor, tende a lançar para os seres superiores a seguinte pergunta: “Por que eu, Senhor?” Se essas pessoas refletissem melhor, perguntariam: “Por que não eu, Senhor?” Sobre isso, sabiamente, o ateu Christopher Hitchens diz: “À pergunta cretina ‘Por que eu?’, o cosmos mal tem o trabalho de responder: ‘Por que não?”.

O candomblé, apesar de ser uma religião extremamente lúdica, não se furta de ensinar aos seus adeptos que o sofrimento é inevitável para qualquer ser vivo. Essa religião milenar possui várias lendas através das quais ensina, entre outras coisas, que alguns dos sofrimentos pelos quais se passa na vida é uma questão de destino, enquanto outros são vivenciados por opção. Sobre o último caso, tem-se a narração que agora se encontra aqui escrita:

Quando Orunmilá, Ogun e Oxalá resolveram visitar o “mercado de sofrimento”, foram aconselhados a não ir logo, pois a ida ao mercado requeria, acima de tudo, que se tivesse paciência e resignação. Sabia-se que a pessoa que fosse capaz de suportar os sofrimentos existentes no mercado e que visitasse o local por três vezes receberia tesouros incomensuráveis.

O primeiro a tentar realizar essa difícil jornada foi Orunmilá. Muniu-se de búzios e quando chegou ao mercado, ajoelhou-se perante o porteiro, cujo nome era Cabra, e pagou o pedágio cobrado para que seu acesso fosse liberado. Orunmilá fez isso por três vezes e pôde receber o que tinha direito. Oxalá também quis fazer o mesmo que Orunmilá, só que este o aconselhou a não realizar tão difícil jornada, pois no mercado havia mesmo muito sofrimento. Oxalá reagiu afirmando: “Quem tem paciência para criar tantos filhos como eu, tem paciência para tudo!”

E assim seguiu Oxalá até o mercado. Ele pagou o pedágio a outro porteiro, chamado de Caracol. Oxalá fez isso mais duas vezes e recebeu o que lhe cabia. Chegando a vez de Ogun, este recebeu o alerta de que não poderia entrar no mercado portando sua faca e seu bastão. Por ser muito temperamental, e movido pela impulsividade,  lá se foi Ogun com a faca e o bastão escondidos sob a roupa.

Chegando ao mercado, encontrou o porteiro Cão que cobrou o pedágio a Ogun, que achou uma afronta pagar algo para Cão, seu inimigo/amigo. Ogun, então, usou sua faca para decaptar Cão. Exu, que era o proprietário do mercado, ameaçou tanto Ogun que terminou por fazer com que ele fugisse para o mato. Os galhos e espinhos das árvores rasgaram a roupa de Ogun que, para se proteger, retirou folhas de palmeira (màrìwò) para cobrir o corpo desnudo. Ogun não respeitou as regras do Mercado de Sofrimento; não respeitou o sofrimento, e por isto foi severamente punido.

O sofrimento tem normas que precisam ser aceitas e cumpridas. Duas delas são a resignação e a paciência. Entretanto, a mais importante de todas elas é o respeito a sua própria dor e, consequentemente, à dor do outro. Escrevi este artigo por necessidade: uma necessidade de alma; uma necessidade cidadã. A indignação foi quem me guiou.

É impossível para qualquer cidadão, seja ele um religioso ou não, calar-se diante do fato ocorrido com a coreógrafa Deborah Colker e sua família, no dia 19 de agosto, no aeroporto de Salvador. Em pleno século XXI, quando os meios de comunicação estão sempre notificando os problemas de saúde de ordem genética, nenhuma desculpa existe para o fato de alguém ser discriminado por ser portador de uma delas, usando-se o argumento de que os passageiros do avião corriam risco de contágio.

A ignorância é sempre muito atrevida! Para toda família Colker, desejo força e vitória na jornada, lembrando a sabedoria de um provérbio africano que diz: “Se não suportamos o sofrimento que enche um cesto, não receberemos os favores que enchem uma pequena cabaça de beber.” Garotinho encantador, que sua jornada seja encantada e iluminada; que as pedras e pedradas encontradas sejam, uma a uma, retiradas.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. A cada 15 dias seus artigos são publicados em  A TARDE, sempre às quartas-feiras


Ceao recebe Ogum´s Toques

postado por Cleidiana Ramos @ 10:46 AM
21 de agosto de 2013
Limeira e Semog

Os escritores Limeira e Éli Semog prometem noite de homenagem à literatura e música. Foto: Divulgação/Ceao

Na próxima sexta-feira, a partir das 18 horas, no Centro de Estudos Afro Orientais da Ufba (Ceao/Ufba) os escritores Éle Semog e Limeira comandam o evento chamado de “Ogum´s Toques”.

A dupla promete muita poesia, diálogo e música.

O Ceao fica no Largo 2 de Julho, no centro da cidade. É uma excelente opção de programa para a sexta-feira.


Um, dois, feijão com arroz

postado por Cleidiana Ramos @ 4:09 PM
14 de agosto de 2013
Mãe Stella faz reflexão sobre importância da oralidade e da memória. Foto: Fernando Amorim/ Ag. A TARDE/06.12.2012

Mãe Stella faz reflexão sobre importância da oralidade e da memória. Foto: Fernando Amorim/ Ag. A TARDE/06.12.2012

Maria Stella de Azevedo Santos

“Lá em cima do outeiro tem uma gata borralheira, quem falar primeiro, come tudo o que é porqueira Menos eu que sou rendeiro, que como carne de carneiro; menos eu que sou rainha, que como carne de galinha”.

Essa é uma parlenda, geralmente dita por um grupo de crianças, que vem sendo transmitida de geração para geração, com o intuito de treinar o ser humano para a importante capacidade de se manter em silêncio. O ato de silenciar-se, tão necessário na vida adulta, é também usado como forma disciplinar  através de um provérbio que diz: ” A palavra é de prata, mas o silêncio é de ouro”.

Parlendas, ditados populares, adivinhações, brincadeiras, lendas… tudo isso forma o conjunto de sabedoria popular, cuja importância é tão grande para a formação do indivíduo e da sociedade, que existe uma ciência específica para estudar este tipo de saber. Folclore é o nome dessa ciência. No dia 22 de agosto é comum encontrarmos as escolas em movimentação, festejando este dia e o que ele significa.

Quando pensei em falar sobre o folclore, neste artigo, eu tinha uma intenção muito séria, que era a de alertar as escolas e os professores sobre o pouco  aprofundamento que este setor da sociedade tem sobre o assunto e do quão pouco proveito está tirando dos valorosos saberes populares, na formação de seus alunos, tanto no aspecto intelectual, quanto emocional. Mesmo sabendo que apesar da pedagogia atual não incentivar a memorização dos conhecimentos, e sim a compreensão dos mesmos, não é possível negar a importância de exercícios de memorização em todas as fases da vida.

Aprendíamos na escola, por exemplo, a memorizar o nome e ordem dos planetas, recitando: “Minha velha, traga meu jantar, sopa, uva, nozes e pão”, onde a primeira letra de cada palavra coincidia com a primeira letra de um planeta. Hoje, é comprovado pela ciência que exercitar a memória é tão necessário quanto exercitar os músculos.

Infelizmente, ou felizmente, não possuo uma natureza doutrinadora; não consigo me sentir à vontade nem com direitos de chamar a atenção de quem quer que seja. Até mesmo porque minha experiência me diz que cada ser e cada instituição tem consciência do que precisa ser trabalhado no sentido de aperfeiçoar-se cada dia mais. Por todos os motivos anteriormente citados é que resolvi, mais uma vez, seguir minha natureza e também obedecer a minha mãe de santo que costumava orientar seus filhos espirituais dizendo: ” A vida é bela e gozá-la convém”.

Ao tomar essa decisão, minha memória começou a trazer à superfície de minha mente, alegres e sábios conhecimentos populares, que fizeram com que o fato de escrever este artigo se transformasse em uma grande diversão. Conhecimentos esses que, usando uma palavra típica da turma jovem, passarei agora a compartilhar com meus leitores, na esperança de que eles se divirtam tanto quanto eu.

Que forma interessante o povo escolheu para comunicar a sua família ou comunidade que está brigado com um irmão: “Éramos dois irmãos unidos, todos dois de uma cor; nunca eu fiquei sem missa, mas meu irmão ficou. Para festas e banquetes, a mim convidarão; para festas de cozinha, convidarão meu irmão”.

Na verdade, isso é uma adivinhação cuja resposta é vinho e vinagre. No momento atual da humanidade, ela já pode contar com as técnicas dos fonoaudiólogos para conseguir que as palavras sejam bem expressadas. Mas no passado, a sabedoria popular aperfeiçoava a fala humana através de trava-línguas, um poderoso exercício de dicção que incentiva, de maneira lúdica, o gosto das crianças pela pronúncia correta de palavras difíceis:

“Num ninho de mafagafos, seis mafagafinhos há; quem os desmafagafizar, bom desmafagatizador será”. A rapidez da fala também podia ser treinada: “Quero ver você dizer, sete vezes encarrilhado; sem errar, sem tomar fôlego, vaca  preta, boi pintado”. Vamos falar de maneira ligeira, tomando cuidado para não dizer besteira: “Pedro tem o peito preto, o peito de Pedro é preto; quem disser que o peito de Pedro não é preto, tem o peito mais preto que o peito de Pedro”.

Mãe Stella é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, sempre às quartas-feiras, ela escreve no Jornal A Tarde


Balaio de Ideias: Uma maleta sagrada

postado por Cleidiana Ramos @ 2:24 PM
1 de agosto de 2013
Mãe Stella faz reflexão sobre visita do papa ao Brasil. Foto: Marco Antonio Teixeira/UOL/Folhapress/22.07.2013

Mãe Stella faz reflexão sobre visita do papa ao Brasil. Foto: Marco Antonio Teixeira/UOL/Folhapress/22.07.2013

Maria Stella de Azevedo Santos

Eu não podia me furtar de falar da visita do papa Francisco ao Brasil. Reconheço que esse é um tema já bastante notificado pelos meios de comunicação. Não podia ser diferente. Não só é a visita do líder de uma religião que um dia foi a religião oficial de nosso País, mas principalmente pela figura carismática que é o papa Francisco. Para não ser cansativa nem repetitiva, opto por ter como base deste artigo um fato comentado, mas pouco refletido que é a maleta do papa.

Chamo-a de sagrada porque seu conteúdo, com certeza, não é apenas roupas e objetos de primeira necessidade. A maleta do papa é muito maior do que parece ser: todo o acúmulo de experiências em 76 anos de existência é transformado em sabedoria para ser vivida e transmitida, com a singeleza de um coração que tudo faz para se unir a muitos outros corações de boa vontade, para que juntos possam preencher o vazio de muitos outros corações carentes de amor, abraços, esperança, palavras de incentivo e reconhecimento… Enfim, na maleta que o papa carrega com tanto zelo estão guardados tesouros que podem tornar ricos os pobres de espírito.

Creio que quando um sacerdote insiste em orientar os seus fiéis para cuidarem dos pobres não está se referindo apenas a aqueles cujos corpos estão necessitando de comida e cujas casas não têm o necessário para uma sobrevivência digna. “Não só de pão vive o homem”. Há pouco tempo atrás os jovens cantavam: “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte. A gente não quer só comida, a gente quer saída para qualquer parte”. Eles deixavam uma pergunta solta no ar, para ser respondida por cada um de nós como melhor nos conviesse: “Você tem sede de quê? Você tem fome de quê?”

O papa Francisco é transparente como as nascentes das fontes que ainda não foram poluídas e obscurecidas pela inconsequência humana. Como humano que é, o papa Francisco nos pede que rezemos por ele. Tem sede que rezemos uns pelos outros; que cuidemos uns dos outros. Sua alma tem fome e precisa ser alimentada por amor vivido de maneira coletiva.

Os três milhões de católicos, e provavelmente não católicos também reunidos na famosa Praia de Copacabana, foi um importante alimento para a difícil jornada que o ser humano Jorge Mario Bergoglio começa a empreender enquanto representante maior do sagrado na terra, para os fiéis católicos. O sorriso encantado e encantador estampado no rosto do papa Francisco, seus olhos brilhantes de satisfação e seu semblante tranquilo lembravam uma criança que acaba de ser amamentada nos seios de uma mãe afetuosa. E você? “Você tem sede de quê? Você tem fome de quê?”

Nos dias em que fomos agraciados com a presença do papa em nosso País, um fato aparentemente corriqueiro tinha o poder de ao mesmo tempo destoar e harmonizar uma situação: o papa carregava sua própria maleta. Pode parecer para muitos um gesto forçado e midiático de demonstração de humildade. Os corações puros enxergam pureza de gestos e intenções no outro. O referido gesto pode ser analisado por diferentes ângulos.

Como religiosa que sou e sendo o papa também um religioso, optei por analisar esse ato de maneira espiritualista. Segurar sua própria maleta é um gesto que tem voz. Em alto e bom som, ele nos diz: mudei minha posição na hierarquia religiosa da igreja para qual prometi servir como sacerdote, mas não mudei minha essência divina; não mudei meu jeito de ser; não mudei a natureza que a mim foi dada por Deus para cumprir a missão que também a mim foi dada por Ele.

Esse gesto exemplar cochicha em nossos ouvidos para que não permitamos que fatos sociais nos obriguem a abrir mão de valores essenciais, abrir mão dos valores fundamentais para nossa essência. Se o papa Francisco deixar que hoje outras pessoas carreguem para ele sua maleta, corre o risco de que amanhã queiram carregar sua alma repleta de bons sentimentos, pensamentos e intenções. A maleta do papa é sagrada porque ao carregá-la ele nos faz refletir sobre o quão sagrado é o comportamento de respeitar a nossa própria natureza.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, às quartas-feiras, o jornal A Tarde publica seus artigos.


Povo de santo faz a Câmara lhe ouvir

postado por Cleidiana Ramos @ 11:28 PM
7 de maio de 2013
Ebomi Nice da Casa Branca exige do vereador Marcell Moraes retirada de projeto polêmico. Foto: Fernando Amorim

Ebomi Nice da Casa Branca exige do vereador Marcell Moraes retirada de projeto polêmico. Foto: Fernando Amorim

Essa é uma imagem que mostra como elas realmente podem substituir um texto longo. O registro é do  repórter fotográfico de A TARDE, Fernando Amorim, sobre a batalha do povo de santo contra a tentativa do vereador Marcell Moraes (PV) de legislar sobre seus ritos religiosos.

O vereador apresentou um projeto de lei  querendo proibir oferenda de animais em cultos religiosos.  O projeto foi construído sem referência, discussão ou qualquer outro tipo de cuidado.

Espanta que, 37 anos após o governador Roberto Santos ter assinado um decreto reconhecendo que o Estado não podia tratar o Candomblé como caso de polícia, um vereador que diz defender a vanguarda, ou seja, a defesa dos direitos animais, não entenda conceitos constitucionais básicos como liberdade de crença, laicidade do Estado e respeito a quem pensa diferente.

Mas espantoso ainda é um membro da casa legislativa da capital do Estado imaginar que pode resolver com uma caneta princípios litúrgicos de uma religião milenar e que se confunde com a própria história e cultura da Bahia.

Hoje o projeto foi devidamente derrotado pelo voto de 29 vereadores. Amanhã posto aqui matéria de Meire Oliveira com os detalhes do último round da batalha.


Balaio de Ideias: O que as folhas cantam

postado por Cleidiana Ramos @ 11:13 AM
2 de maio de 2013

O aniversário é de Mãe Stella, mas quem ganha o presente somos nós. Como estava fora na quarta-feira passada em que saiu seu artigo em A TARDE, aproveito que hoje é  o aniversário dessa fonte de sabedoria para publicar mais um de seus belos ensinamentos e desejar  saúde e mais muitos anos de vida entre nós. Axé, Mãe Stella.   

Mãe Stella faz aniversário hoje. Foto: Margarida Neide/Ag. A TARDE/ 29.11.2012

Maria Stella de Azevedo Santos

O universo pulsa; o universo fala. Escutar o universo é escutar as batidas do próprio coração. Não as batidas físicas, mas o pulsar abstrato, entusiasmado, de um coração pleno. Quando falo pleno, provavelmente levo as pessoas a pensarem em cheio de alegria, prosperidade, beleza… Engano!  Quando falo pleno, refiro-me a um coração cheio de experiências vividas e absorvidas de maneira completa.

Tenham sido essas experiências sentidas como felizes ou dolorosas. O universo fala, as folhas falam, tanta para quem canta para encantá-las, quanto para as pessoas que conversam com elas ou simplesmente lhes dão um bom dia a cada dia que amanhece. As folhas, ou melhor, as plantas são seres vivos, como é vivo todo o universo.

É por isso que no candomblé temos um ritual para reverenciar as folhas e tudo o que elas nos ensinam. Nas folhas não existem apenas substâncias químicas usadas pelos laboratórios para curar nossas doenças físicas; nelas estão contidos ensinamentos ancestrais, que ao serem traduzidos por aqueles que se permitem escutar o universo são verdadeiros remédios para a alma, que ajudam a curar, mas também a prevenir feridas que retardem ou impeçam que a mesma encontre seu destino.

Transmitirei um pouco do que “escutei” de algumas das folhas para quem cantei durante setenta e quatro anos da minha vida sacerdotal.

Alfavaquinha-de-cobra – É a folha que acalma os olhos. A folha que nos faz “videntes”, que amplia a nossa visão, e ao mesmo tempo impede de vermos aquilo que não é necessário ou que não nos agrada. Folha que vem sempre em primeiro lugar, silenciosamente canta a serenidade, alertando a todos para a necessidade do falar pouco, para sofrer menos. A calma é sempre cantada, chamada, em primeiro lugar. Não se pode, ou melhor, não se deve entrar em um ambiente sem que seu olhar esteja manifestando calma, um olhar calmo o suficiente para enxergar as coisas com clareza e nitidez, sob todos os ângulos.

A calma é parceira inseparável do silêncio. Verdadeiros tratados podem ser escritos sobre o silêncio, porém, “silenciosamente” se pode dizer: silêncio é não falar o que não é necessário ser falado. Basta, portanto, não falar aquilo que não é preciso, que a pessoa pode considerar-se em estado de silêncio, passo fundamental para que se possa atingir o estado de calma. Estar calado não necessariamente é estar em silêncio. E o oposto é verdadeiro, no silêncio muito se diz.

Bilreiro – É desta árvore que são tirados os bilros usados pelas rendeiras para fazer um dos mais ricos artesanatos de nosso país. Folha de Xangô que ilumina do alto, nos protegendo e nos erguendo. É a folha do trovão que, como o forte grito de Xangô, acorda quem está dormindo. Afinal, “quem muito dorme nada aprende e nada vê”. E é Xangô, Deus do Trovão, orixá de “olhos de orogbo”, sempre abertos e atentos, que com sua voz rouca grita para que nos levantemos e, como guerreiros, enfrentemos a nossas lutas diárias.

Vassourinha-de-Oxum – Cultuamos com muita força a folha mais doce que o mel, para que ilumine nossos mistérios. O mel é símbolo da doçura natural, isto é, aquela que nos é oferecida pela natureza. Oxum, assim como o mel, representa a fala doce que nos embriaga.  A planta conhecida popularmente como vassourinha-de-oxum nos ensina a termos cuidado como as pessoas muito adocicadas, que podem estar usando a fala doce para nos deixar embriagados, conseguindo tirar de nós aquilo que desejam.

Bambu – Folha de vida longa, que é firme e escapa das tempestades, a quem suplicamos que nos torne  fortes e vigorosos.  O bambu segue em direção ao céu com a humildade e a sabedoria dos grandes mestres. No seu caminhar, reconhece a necessidade de se inclinar perante forças maiores, como a da tempestade. O Bambu é sábio: para não quebrar ele enverga.

Espada-de-Oxossi – Para a folhas com formato de espada pedimos que sejamos bastante fortes para que, rapidamente, possamos cortar o mal e as armadilhas que são feitas para atrapalhar a nossa existência. Afinal, a espada é símbolo de destruição da injustiça, da maleficência e da ignorância.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, ela escreve em A TARDE, sempre às quartas-feiras.