Balaio de Ideias: Uma ressaca de alegria

postado por Cleidiana Ramos @ 2:54 PM
5 de março de 2014

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Maria Stella de Azevedo Santos

Quarta-feira de Cinzas”, dia de ressaca. O mar fica de ressaca quando a onda arrebenta nas pedras e recua sobre si mesma. O ser humano fica de ressaca quando após ingestão de grande quantidade de bebida alcoólica termina por sentir um grande mal estar. Eu espero que a ressaca que os foliões do carnaval estejam sentindo hoje seja aquela causada apenas por excesso de alegria. Pois é, até a alegria, quando é excessiva, deixa um gosto amargo na boca quando acaba. Um gosto de saudade que chega a causar dor: “a saudade é dor pungente”, é dor que dói. Afinal, a palavra ressaca tem origem na palavra norueguesa kveis, que significa “mal-estar depois da orgia”, acho que em nossa língua é melhor dizer: mal-estar depois da farra.

A bebida é um estimulante. É por isso que em um dos rituais do candomblé se canta: Oti wa ti xô fê rê, querendo dizer que a bebida nos anima, ela nos encoraja a encarar os dias difíceis de maneira renovada. Entretanto, “como tudo demais é sobra”, a bebida, a comida e até a alegria não deve ser vivida em excesso. Oti é a palavra yorubá que é usada para qualquer bebida que embriague a mente. As religiões, em sua maioria, não são contra as bebidas, e sim ao uso excessivo delas.

Nos rituais do candomblé, as bebidas que embriagam devem ser usadas de maneira comedida, com o intuito maior de despertar a alegria. Essa religião se utiliza de bebidas profanas e sagradas. O champagne e vinho do ritual de bori, a cachaça e vinho do ritual de axexe e a cachaça de Exu são consideradas profanas porque não foram preparadas em ambientes divinizados, nem foram preparadas por sacerdotes consagrados. A bebida sagrada do candomblé é o aluá, uma bebida fermentada que é oferecida aos deuses e homens com o objetivo de aumentar o axé de quem a ingere, seja de maneira concreta (humanos) ou simbólica (divindades).

O aluá é uma bebida fermentada tipicamente brasileira, uma vez que tem relação com os índios, os portugueses e os africanos. No Brasil do 1º Império era moda servir aluá na corte de D. Pedro I. Em Portugal, era uma bebida feita do bagaço da uva, por isto conhecida como bagaceira. Os índios da Amazônia faziam uma bebida com abacaxi que ficava durante três noites fermentando ao luar, razão pela qual o folclorista Luís da Câmara Cascudo sugere ser o nome aluá uma corruptela de “ao luar”.

Na verdade, aluá é uma palavra yorubá (lú, em yorubá, significa misturar) que é usada em um ritual onde se movimenta e mistura a água com a bebida aluá, visando agitar o que está parado, a fim de que a purificação seja favorecida e que o que está velho possa ser renovado através do movimento.

Esse ensinamento nos é transmitido através dos cânticos do Ritual das Folhas, mostrando para os sacerdotes do candomblé a importância de eles conhecerem a língua religiosa que fazem uso, assim como a simbologia dos elementos usados em todos os atos ritualísticos. O aluá que herdamos dos africanos, por exemplo, é feito de raspadura, milho branco e gengibre. O doce normalmente chamada de rapadura é um dos subprodutos da cana-de-açúcar (Ikesen), cujo nome correto é raspadura, pois esta espécie de doce é feita das raspas das crostas do açúcar da cana que ficam presas às paredes dos tachos.

A palavra yorubá que designa o gengibre é atale, planta que tem o poder de aquecer e iluminar, dando-nos alegria. O milho branco, relacionado aos orixá do branco, indica ainda paz, suavidade e proteção dos seres superiores. O aluá é uma bebida fermentada, por isto seus ingredientes aumentam o axé de doçura, através do açúcar feito de cana (raspadura); o axé de alegria, que é transmitido pelo gengibre; o axé de tranquilidade fornecido pelo milho branco.

Boa “Quarta-feira de Cinzas”, boa ressaca, palavra que na língua yorubá é ìbilù-oti. Interessante entender que ìbi é infortúnio, mal estar; lù é mistura e ìbilù significa multidão, o que indica que muita gente junta pode causar ressaca e mal estar. É por isso que digo que três pessoas para mim já é multidão e muita alma junta se perde. Se essa ideia é necessária para qualquer pessoa, para os iniciados ela é ainda mais.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, ela escreve para o jornal A TARDE, sempre às quartas-feiras.


Balaio de Ideias: De grão em grão…

postado por Cleidiana Ramos @ 7:20 PM
28 de fevereiro de 2014

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Maria Stella de Azevedo Santos

O artigo anterior, intitulado “Sucateiro, sucateiro”, foi construído através de uma mistura entre realidade e fantasia. Para minha surpresa não foram poucos os e-mails que recebi tecendo comentários sobre o referido artigo. Uns falavam com saudosismo sobre os antigos vendedores que caminhavam pelas ruas exaltando suas mercadorias; outros diziam o quanto sorriram naquele dia ao lembrar o texto; já muitos outros comentavam sobre a relação entre sonhos e ilusões.

Fiquei espantada com a surpresa que alguns leitores tiveram ao saber que eu ainda tinha sonhos. Transformei esse fato em um bom motivo para reflexão. Quando o corpo não nos dá condição de fazer uma boa faxina em uma casa, aproveita-se a cabeça para faxinar a alma e o espírito.

Por que será que algumas pessoas puderam pensar que eu não tenho mais sonhos? – perguntei-me. Achavam eles que eu já tinha conquistado tudo o que eu queria? Pensavam que o mundo já estava tão chato para mim, tão repetitivo, que eu mais nada queria?

Como não posso concluir o pensamento dos outros, não encontrei resposta para minhas indagações, mas espantei-me com a quantidade de sonhos (concretizáveis) que ainda guardo em meu interior.

Uma das proibições que nós recebemos enquanto iniciados no candomblé é ficar sentado com a mão segurando o queixo. O aprendizado embutido neste tabu é de que não devemos ficar apenas no mundo das ideias, devemos partir para a ação. Sendo assim, compartilharei com todos um dos muitos sonhos que ainda pretendo concretizar.

Todos os religiosos que sejam convictos de sua função na Terra, principalmente aqueles que são consagrados para o sacerdócio, têm consciência de que precisam fazer duas coisas aparentemente simples, mas que são complicadíssimas em seus fundamentos: dar e pedir. É a famosa lei universal da troca que insisto em repetir em muito do que escrevo na esperança que fixe de vez em meu coração, e que penetre nos corações daqueles que ainda não atentaram em cumprir tão importante lei.

A religiosa baiana Irmã Dulce foi um exemplo de cumprimento da lei em questão. Sua capacidade de doação é facilmente identificada através de suas obras, mas acredito que poucos conhecem o quanto ela precisou fazer uso da humildade para pedir o que necessitava, a fim de que seus sonhos se concretizassem. Quando crianças estudamos no mesmo colégio, assim pudemos acompanhar mesmo de longe a vida sacerdotal uma da outra. Eu sabia, por exemplo, que quando faltava algo que Irmã Dulce necessitava para ajudar aos menos favorecidos, ela simplesmente entrava em uma loja e pedia ao vendedor aquilo que precisava, carregava com suas próprias mãos e se despedia alegremente dizendo: “Deus lhe pague”.

Inspirando-me no exemplo que nos foi dado por Irmã Dulce, concluo este artigo revelando um de meus maiores sonhos que pretendo vê-lo concretizado estando eu ainda viva. Tenho a certeza que “sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só. Mas sonho que se sonha junto é realidade”. Por isso, busco em mim a humildade que me foi proporcionada pela vida religiosa para pedir, pedir muito, a ajuda de todos que, preocupados com a violência que aumenta cada dia mais, vejam no estímulo à busca por uma maior espiritualidade uma das saídas (mesmo sendo em longo prazo) para a diminuição de tanta agressividade.

Revelo agora meu sonho acompanhado dos pedidos que faço para os amigos e os amigos de meus amigos, no sentido de que eles usem a web como uma grande rede de pescar benefícios coletivos: gostaria de construir uma biblioteca ambulante, composta por livros voltados para o despertar da religiosidade inerente ao ser humano. Preciso de um ônibus que venha a ser adaptado.

Peço a ajuda de pessoas físicas, empresas particulares, governamentais, enfim, peço ajuda aos homens e mulheres de boa vontade, que sabem que não basta apenas reclamar, nem apenas sonhar, tem que concretizar. Sendo assim, espero agora receber muitos e-mails com oferecimento de ajuda (não importando a forma nem o valor a ser oferecido), para que eu possa dizer, parafraseando Irmã Dulce: Que os orixás lhes paguem com bênçãos de todos os tipos.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, ela escreve para o jornal A TARDE, sempre às quartas-feiras


Balaio de Ideias: Sucateiro, sucateiro…

postado por Cleidiana Ramos @ 2:50 PM
13 de fevereiro de 2014
Ilustração: Bruno Aziz

Ilustração: Bruno Aziz

Maria Stella de Azevedo Santos

Seis horas da manhã. Ouço vozes que vêm da movimentada rua que fica em frente ao quarto em que hoje estou dormindo. A casa está em reforma. Ai que saudade do meu quarto no fundo da casa… Em vez de vozes, eu escutava o lindo canto dos passarinhos, que de tão acostumados com o ambiente já penetravam casa adentro, entrando e saindo como se estivessem em seus próprios ninhos. Saudade do antigo quarto, e excitação com as novas experiências de amanhecer neste outro quarto.

Muita gente pode pensar que seis horas é um bom horário para acordar, eu também acho. Acordar às cinco horas é ainda melhor. É muito bom renascer a cada dia junto com o sol, sendo despertada pelo cantar de um galo. Entretanto, toda essa imagem romântica se transforma em uma realidade concreta quando, em vez do cantar do galo, ouço um alto-falante com um som de má qualidade anunciando a venda de pamonhas; quando o sol, tão preguiçoso quanto eu, teima em continuar adormecido em cima de uma acolchoada e fresca nuvem enegrecida. Confesso que a palavra pamonha me estimula a acordar mais rápido.

A imaginação foi tanta que cheguei até a sentir o cheiro inebriante de um bom café. Voltar a dormir estava fora de cogitação, o pregão da rua já tinha invadido minha mente: “Olha a pamonha, olha a pamonha, pamonha quentinha pro seu café da manhã”; “Acaçá de milho bem feito, tem de milho e tem de leite”; “Banana-da-terra, batata-doce, melão, melancia, ovos”. A essa altura, meu simples café imaginário com pamonha já se transformava em um banquete.

A imaginação fica solta quando o corpo está cansado e preso a uma cama. Hoje posso me dar a esse delicioso luxo, pois ontem varei a noite fazendo nascer para a vida espiritual mais um filho. Momento em que foram entoados muitos cânticos que atraíssem boa sorte, prosperidade, alegria, união, saúde, enfim, tudo de bom que uma pessoa precisa ter para caminhar com dignidade na vida. Enquanto minha imaginação vagava entre o passado recente de um ritual e o futuro próximo de um café da manhã, não foi pequeno o susto que levei ao ouvir uma voz que parecia querer ser ouvida por todo o universo:

“Sucateiro, sucateiro, compro sucata pra reciclagem”. A voz do sucateiro me assustou, mas o que ele queria comprar para reciclar me surpreendeu. “Quem tem ilusão pra vender? Quem precisa se desfazer de suas ilusões? Quem quer me entregar suas ilusões? Preciso de ilusões para reciclar, preciso de ilusões para transformar em sonhos! Olha o sucateiro…” – insistia o sucateiro.

Meu corpo se esqueceu de que estava exausto e deu um pulo da cama (ainda bem que ele não se esqueceu de pegar a bengala). Parece que a curiosidade é um grande despertador na vida e da vida. Sabendo que minhas pernas não tinham a rapidez necessária para alcançar o comprador de ilusões, precisei pedir a alguém que o trouxesse até minha presença. Ainda zonza de sono, não sabia se tinha alguma ilusão para vender, até porque não estava entendendo como era o funcionamento daquele comércio. Sabia apenas que precisava conhecer aquele estranho comerciante.

O sucateiro de ilusões aproximou-se de mim muito contente. Pensei que ele estava acreditando que iria fazer um excelente negócio comigo. Seu contentamento, segundo ele próprio, era simplesmente pelo fato de conhecer mais uma pessoa. Para meu espanto, fiquei sabendo que seu grande prazer era quando encontrava alguém que não tinha nenhuma ilusão para lhe vender e que o prazer era muito maior quando encontrava pessoas que já sabiam reciclar suas próprias ilusões em verdadeiros sonhos possíveis de serem concretizados, independentemente do tempo que eles precisassem para se realizarem.

Eu não sabia se alguma ilusão ainda estava viva em mim. Sonhos, eu sabia que ainda tinha muitos. Após uma longa e frutífera conversa, o sucateiro se despediu. Eu fiquei ponderando sobre a inusitada situação que acabava de vivenciar e relembrei do ritual da noite passada, cujos cânticos têm a função maior de reciclar as cabeças dos iniciados e do iniciante, que estava entregando sua cabeça ao comando de seu orixá.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, ela escreve em A TARDE, sempre às quartas-feiras


Mais um livro, mais um presente

postado por Cleidiana Ramos @ 1:11 PM
18 de dezembro de 2013
Mãe Stella lança novo livro hoje, quarta, na ALB. Foto: Margarida Neide. 07/12/2012

Mãe Stella lança novo livro hoje, quarta, na ALB. Foto: Margarida Neide. 07/12/2012

Maria Stella de Azevedo Santos

Foi assim que meus filhos escreveram no início do convite para o lançamento do próximo livro que estarei entregando ao público. Se permitir que a colocação da referida chamada fosse colocada, foi porque, na verdade, considero que editar mais um livro é, sim, um grande presente. Um grande presente para mim! Afinal, livros nos conectam uns aos outros, fazendo com que eu possa estar presente na vida de pessoas que nunca sonhei em trocar ideias.

Além do mais, continuar devolvendo ao mundo o que recebi dele faz com eu me mantenha presente no momento presente. Meu tempo será sempre o agora! Se escolho, geralmente, o mês de dezembro para lançar os livros que escrevo é exatamente porque neste período o desejo de conexão fica intensificado.

Sendo assim, convido a todos para estarem comigo hoje, quarta-feira, 18 de dezembro, na Academia de Letras da Bahia, para juntos celebrarmos o destino, tema sobre o qual trata a Coleção Odu Adajó: Coleção de Destinos, que pretende ser composta por 16 volumes.

A Coleção Odu Adajó tem a pretensão de ampliar e aprofundar os conhecimentos sobre o legado da cultura yorubá, que hoje é entendida por quem nos visita como cultura baiana. Por que, então, o povo da Bahia/Brasil estuda tanto a mitologia dos deuses gregos e romanos e não estuda a mitologia dos orixás? Por que se interessam apenas por oráculos que estão distantes de nós, como Cabala, Tarô, e não procuram conhecer aquele que atrai tanta gente de fora do estado (e do país) em busca de ajuda e apoio espiritual, que é o Jogo de Búzios?…

Foram essas as perguntas que durante muito tempo me fiz. Recusei-me a acreditar no “chavão” do preconceito e fui a “campo” pesquisar. Perguntei a uma “filha de santo” minha por que ela estava estudando Cabala e não os odus, que são os caminhos do destino indicados pelo oráculo da cultura à qual ela estava vinculada – o candomblé. A resposta foi simples: “Sobre Cabala encontro livros que ajudam em minha busca pelo autoconhecimento e pelo autoaperfeiçoamento, sobre a tradição africana nada ou pouca coisa  encontro”.

Ouvi a resposta e pensei: Se eu sou uma religiosa, preciso colaborar no sentido de facilitar a busca de conexão das pessoas com sua parcela divina, sua espiritualidade. E uma das importantes etapas desse processo é conhecer, aceitar e cumprir o destino. Resolvi, então, tentar cobrir a falta que me foi alertada pela minha filha, escrevendo e publicando livros que podem ser de interesse de muitos.

A Coleção Odu Adajó se destina, portanto, a qualquer pessoa que busque ter uma visão mais ampliada da existência, aos estudiosos de culturas diversas e, principalmente, aos iniciados da religião que é conhecida no Brasil pelo nome de candomblé.

Sendo eu uma iniciada, tenho a tendência de resguardar os mistérios, evitando retirar os véus que os encobrem. Por isso, não foi uma decisão nada fácil editar a coleção que agora chega ao conhecimento do público, assim como os livros anteriores. A ousadia vem sempre da necessidade e a coragem, sempre da permissão dos orixás. Diante da modernidade, da internet, essa ficou sendo a minha única alternativa de evitar deturpações da essência de uma religião milenar.

Quatro volumes da coleção em questão já estão escritos, mas apenas um já foi editado, com apoio da Assembleia Legislativa do Estado da Bahia. Optou-se por usar todas as palavras em yorubá com a grafia correta como forma de preservação da língua, mas isto não é motivo de preocupação, uma vez que a tradução das rezas, dos provérbios, etc. pode ser encontrada logo em seguida.

Conhecer a cultura africana não transforma ninguém em cultuador de orixás. Cada um tem sua crença, a qual deve sempre ser respeitada por todos. Entretanto, conhecer a cultura em que se vive é muito mais do que uma obrigação, pode ser um delicioso prazer. É apenas isso que pretendo oferecer: prazer com uma boa dose de ampliação de conhecimentos, que possa vir a colaborar com a diminuição do preconceito e uma melhor qualidade de presença na sociedade em que se vive.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente ela escreve para o jornal A TARDE, sempre às quartas-feiras


Mãe Stella lança novo livro

postado por Cleidiana Ramos @ 3:46 PM
13 de dezembro de 2013
Mãe Stella lança novo livro. Foto: Margarida Neide/Ag. A TARDE/ 29.11.2012

Mãe Stella lança novo livro. Foto: Margarida Neide/Ag. A TARDE/ 29.11.2012

Na próxima quarta-feira, às 18 horas, na Academia de Letras da Bahia (ALB),  Mãe Stella de Oxóssi dá mais um presente para a comunidade que dirige, o Ilê Axé Opô Afonjá, mas também a todos que professam o candomblé ou se interessam pelos temas que envlvem essa religião. Trata-se do primeiro volume da coleção Odu Àdájo, com tradução livre para o português como Coleção de Destinos. Com maestria, Mãe Stella apresenta toda a beleza que cerca um dos mais importantes pilares para essa tradição religiosa: o oráculo que, no Brasil, é conhecido como Jogo de Búzios e que se baseia nos odus, ou seja, o conhecimento sobre o destino.

Mas este conhecimento é muito mais complexo do que a ideia simplista de conhecer o futuro a partir da consulta a uma sacerdotisa ou sacerdote. Também não significa que conhecer o destino é poder evitar qualquer tipo de problema como os céticos gostam de dizer para diminuir a sabedoria sobre oráculos.

No universo afro religioso, ter informações sobre o “destino” é, antes de tudo, conquistar o auto conhecimento que abre os caminhos para uma vida de paz acima de tudo. São explicações como essa que a coleção, cuidadosamente preparada por Mãe Stella, vem trazer.

O primeiro livro, por exemplo, começa pelo 16º odu, que é Ofun Méji, no sistema oracular da divindade Ifá. No Merindinlogun, um dos nomes que se dá ao Jogo de Búzios, ele ocupa a décima posição.  “Ofún Méjì é, portanto, um odu de extrema complexidade, que como símbolo da síntese universal, carrega em Si a responsabilidade pela “Criação” e por todo tipo de criação, que acontece por oposição ou complementação dos opostos, enfim, através de permanente movimento”, diz a introdução do livro.

No prefácio, Mãe Stella explica que a sua iniciativa em abordar um tema tão complexo e ao mesmo tempo tão caro ao candomblé foi a forma que encontrou para suprir a necessidade de mostrar mais uma face da riqueza que a filsofia iorubá, a qual o Afonjá está vinculado, possui. Ela, inclusive, faz questão de ressaltar que o conhecimento que transmite na coleção é o que recebeu nesta comunidade específica, o que condiz com o respeito que sempre demonstrou e demonstra em seus livros diante das outras tradições religiosas de matrizes africanas.

Fiel a esse princípio da oralidade, Mãe Stella deu um toque diferente a essa coleção. É um livro que dialoga com a oralidade e a escrita. Dessa forma, Mãe Stella, assina o livro na parte de tradição oral. A tradição escrita ficou sob a responsabilidade de Graziela Domini,filha de Iemanjá da casa.

Essa é, portanto, mais uma inovação de uma sacerdotisa que fica muito à vontade para transitar entre as duas linguagens, mas que, neste caso, diante do caráter especial que tem o tema, preferiu repartir, desde a capa, o domínio dos dois códigos de linguagem. Mais uma atitude “ousada”, como ela define sua iniciativa em preparar esta coleção, mas que é mais uma amostra da sua maestria com a literatura a ponto de ter se tornado a primeira líder religiosa do candomblé a ocupar uma cadeira na Academia de Letras da Bahia (ALB).

Em tempos de Internet que ela reconhece a importância, mas que também entende como um meio que, devido a rapidez, não dá o tratamento adequado a temas tão complexos, Mãe Stella conta que optou por fazer o uso da parceria entre oralidade e escrita para transmitir sua reflexão sobre o oráculo de origem africana que continua preservado na Bahia.

É um passeio pelo meio dos mistérios mas sem a necessidade de revelar aquilo que se chama “fundamento”,  reservado apenas para quem conquistou o direito de ter acesso a ele, um dos pilares básicos do candomblé.

“Como iniciada que sou, tenho a tendência de resguardar os mistérios, evitando retirar os véus que os encobrem. Por isso, não foi uma decisão nada fácil editar a coleção que agora entrego ao público. A ousadia veio da necessidade, mas a coragem veio da permissão dos orixá. Diante da modernidade, essa ficou sendo minha única alternativa de evitar deturpações da essência de uma religião milenar. Quero deixar claro que o que aqui transmito tem como base o candomblé como é professado no Il]e Axé Opo Afonjá, na Bahia”, escreve Mãe Stella no prefácio.

A nós leitores cabe recohecer a profundidade deste presente e a generosidade de uma sacerdotisa que tem feito do seu conhecimento uma forma de diálogo tanto com aqueles que são da religião dos orixás,como também com os que se sentem próximos pelos mais variados caminhos.

Serviço:
O que: Lançamento de Ofun (Coleção Odu Àdájo- Coleção de Destinos)
Quando: Dia 18/12, quarta-feira, a partir das 18 horas
Onde: Academia de Letras da Bahia (ALB), Avenida Joana Angélica, 198, Nazaré


Ecos da posse de Mãe Stella na ALB

postado por Cleidiana Ramos @ 9:44 PM
15 de setembro de 2013

Pessoal: como não pude postar nada aqui sobre a posse de Mãe Stella, estou publicando abaixo o texto que elaborei para o editorial da edição de sexta-feira de A TARDE.

Lições da trajetória de Mãe Stella

MAE ESTELLA DE OXOSSI / TOMA POSSE MA ACADEMIA DE LETRAS

 

 

Fundadora do Ilê Axé Opô Afonjá, em 1910, Eugênia Anna dos Santos, carinhosamente chamada de Mãe Aninha, dizia que todo negro com um anel no dedo deveria colocá-lo aos pés de Xangô.

Simples, mas profundas, as palavras de Mãe Aninha evocam o quanto era difícil para um afrodescendente ter acesso à escola. Mas significa também que os vitoriosos deveriam agradecer à ancestralidade que, no caso de Xangô, governa coisas tão belas como a Justiça e a alegria. Ao voltar, o dono do anel reforça um ciclo, pois quem vence desafios, geralmente, inspira.

Coube, portanto, a Maria Stella de Azevedo Santos, uma filha do Afonjá e ocupante do posto que já foi de Mãe Aninha poder colocar aos pés de Xangô símbolos, que assim como o anel de formatura, significam a conquista do saber formal.

Formou-se em enfermagem numa época em que a habilitação era para poucos; é doutora honoris causa da Uneb; foi a primeira ialorixá a se tornar articulista de um jornal de grande circulação ao passar a escrever artigos em A TARDE e agora é membro da Academia de Letras da Bahia (ALB).

Mãe Stella não perseguiu nenhum destes títulos. Eles vieram como resultado da sua capacidade de mostrar como é possível absorver um código sem precisar abrir mão dos seus próprios.

Olhando a produção literária de Mãe Stella percebemos como a matriz oral, que é a base da sua formação religiosa, dialoga com a formalidade da escrita. Seu discurso é simples, mas profundo e próximo de quem o acessa , características tão presentes na oralidade.

A trajetória da filha de Oxóssi, orixá que é o provedor da comunidade, vira, no plano simbólico, alimento para novas gerações que descobrem o quanto o anel é necessário no mundo além dos terreiros. Mas o que não devem esquecer é a riqueza da ancestralidade preservada nestes espaços. Ela é a chave para não perder o caminho da origem, que permite lembrar quem se é de fato.


Escrever livros, ter livros, plantar árvores

postado por Cleidiana Ramos @ 4:56 PM
11 de setembro de 2013
A foto é para lembrar que amanhã, quinta-feira, é dia histórico com a posse de Mãe Stella na Academia de Letras da Bahia (ALB). Foto: ALB/Divulgação

A foto é para lembrar que, amanhã, quinta-feira, é dia histórico com a posse de Mãe Stella na Academia de Letras da Bahia (ALB). Foto: ALB/Divulgação

Maria Stella de Azevedo Santos

No  dia 22 de setembro começa uma nova estação. No hemisfério sul (onde se localiza o Brasil) é o início da Primavera, quando todos se vinculam à beleza colorida e passageira das flores. Geralmente, as árvores são esquecidas. Lembramos, então, que este ser vivo, tão fundamental para a existência da espécie humana, deverá ser comemorado, em 2013, no dia 21 de setembro.

Diferentemente das flores, algumas árvores são tão longevas que guardam segredos do início dos tempos. Tal é o caso de Baobá, uma das mais grandiosas árvores, que vive milênios, e foi imortalizada pelo francês Antoine de Saint-Exupéry, em seu famoso livro O Pequeno Príncipe. É dito, inclusive, que a inspiração surgiu quando, em visita ao Brasil, o escritor conheceu um exemplar de Baobá, na cidade de Natal-Rio Grande do Norte. Baobá, considerada mãe de todas as árvores, é originária do Continente Africano, existindo poucos exemplares em nosso país. Um deles é, exatamente, o que ainda vive em Natal.

Homenagearei todas as árvores através do seguinte mito africano, que como todos os mitos precisam de uma reflexão profunda, a fim de que seus importantes ensinamentos possam ser internalizados: No centro da África, habitava uma alta e frondosa árvore – Baobá. Foi nela  que Coelho encontrou o conforto que buscava. Exausto, ele se abrigou à sombra da árvore que mais parecia uma Grande Mãe. Extasiado, Coelho exclamou: “Que sombra acolhedora e amiga você tem, muito obrigado!”.

A árvore, que não costumava receber palavras de agradecimento, ficou muito alegre e confiante. Coelho procurou logo aproveitar-se do momento e disse: “Sua sombra é muito boa, mas seus frutos não me parecem tão bons”. Aquela foi uma forma indecente de Coelho fazer com que a árvore lhe desse seus frutos. Baobá sentiu em seu coração a desnecessária artimanha de Coelho, mas preferiu pensar que ele agia daquele jeito por inocência. Ela lhe deu seu delicioso e nutritivo fruto. Coelho voltou a usar uma fala doce para suas atitudes mesquinhas:

“Sua sombra é boa, seu fruto é bom, mas nada sei sobre seu coração. Será ele doce como o interior de seu fruto ou duro e seco como sua casca?”. A árvore hesitou em mostrar quão belo era seu coração. Abrir o coração para alguém é sempre perigoso, mas também é tão divino, que a árvore não resistiu: lentamente foi abrindo seu tronco, até deixar que fosse visto seu lindo coração; um tesouro, que a árvore transformou em moedas, joias, e ofereceu a seu “amigo” Coelho.

Foi para sua esposa que Coelho entregou o tesouro para ser guardado, mas ela preferiu usar as joias: ela queria matar de inveja suas amigas. A primeira que ela encontrou foi Hiena, que quis saber onde aquele tesouro tinha sido encontrado. Coelha, manifestando ostensivamente sua arrogância, disse a Hiena que fosse falar com seu marido. Com medo do agressivo animal, Coelho contou seu segredo. No dia seguinte, exatamente ao meio-dia, Hiena repetia passo a passo o que Coelho havia feito para conquistar o tesouro: deitou-se e elogiou a sombra da frondosa árvore; pediu-lhe um fruto e o elogiou; finalmente, pediu para ver seu coração. Contente, por pensar que tinha conseguido um outro amigo, a árvore, desta vez, nem hesitou: foi abrindo seu tronco lentamente, agora para poder saborear cada minuto de entrega.

Mas Hiena, impaciente, pulou com suas garras no tronco da árvore, gritando: “Abra logo esse coração, eu não aguento esperar! Eu quero todo esse tesouro para mim!”. A generosa árvore ficou apavorada, fechando imediatamente seu tronco, deixando Hiena de fora a uivar desesperada, sem conseguir pegar nenhuma joia. E por mais que ela arranhasse a árvore, ela nada conseguiu.

A partir desse dia é que a hiena ganhou o costume de vasculhar as entranhas dos animais mortos, pensando encontrar ali algum tesouro. Ela não conseguiu entender que esse tesouro só existe dentro dos corações puros, que batem forte por amor ao próximo. Baobá, a partir de então, só permite que entre em seu imenso tronco, pessoas sábias e íntegras, que conhecem seus mistérios e por isto podem respeitá-los.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, ela escreve em A TARDE, sempre às quartas-feiras


Balaio de Ideias: Por que não eu?

postado por Cleidiana Ramos @ 1:16 PM
28 de agosto de 2013
MÃE STELLA DE OXOSSI LANÇA LIVRO

Mãe Stella faz reflexão sobre o sofrimento. Foto: Margarida Neide/07.12.2012

Maria  Stella de Azevedo Santos

Sofrimento não é “minha praia”, mas é impossível negar que este sentimento, dolorido, faz parte da existência de absolutamente todos os seres humanos. Normalmente, quando uma pessoa se vê obrigada pelo destino a passar por intensos momentos de dor, tende a lançar para os seres superiores a seguinte pergunta: “Por que eu, Senhor?” Se essas pessoas refletissem melhor, perguntariam: “Por que não eu, Senhor?” Sobre isso, sabiamente, o ateu Christopher Hitchens diz: “À pergunta cretina ‘Por que eu?’, o cosmos mal tem o trabalho de responder: ‘Por que não?”.

O candomblé, apesar de ser uma religião extremamente lúdica, não se furta de ensinar aos seus adeptos que o sofrimento é inevitável para qualquer ser vivo. Essa religião milenar possui várias lendas através das quais ensina, entre outras coisas, que alguns dos sofrimentos pelos quais se passa na vida é uma questão de destino, enquanto outros são vivenciados por opção. Sobre o último caso, tem-se a narração que agora se encontra aqui escrita:

Quando Orunmilá, Ogun e Oxalá resolveram visitar o “mercado de sofrimento”, foram aconselhados a não ir logo, pois a ida ao mercado requeria, acima de tudo, que se tivesse paciência e resignação. Sabia-se que a pessoa que fosse capaz de suportar os sofrimentos existentes no mercado e que visitasse o local por três vezes receberia tesouros incomensuráveis.

O primeiro a tentar realizar essa difícil jornada foi Orunmilá. Muniu-se de búzios e quando chegou ao mercado, ajoelhou-se perante o porteiro, cujo nome era Cabra, e pagou o pedágio cobrado para que seu acesso fosse liberado. Orunmilá fez isso por três vezes e pôde receber o que tinha direito. Oxalá também quis fazer o mesmo que Orunmilá, só que este o aconselhou a não realizar tão difícil jornada, pois no mercado havia mesmo muito sofrimento. Oxalá reagiu afirmando: “Quem tem paciência para criar tantos filhos como eu, tem paciência para tudo!”

E assim seguiu Oxalá até o mercado. Ele pagou o pedágio a outro porteiro, chamado de Caracol. Oxalá fez isso mais duas vezes e recebeu o que lhe cabia. Chegando a vez de Ogun, este recebeu o alerta de que não poderia entrar no mercado portando sua faca e seu bastão. Por ser muito temperamental, e movido pela impulsividade,  lá se foi Ogun com a faca e o bastão escondidos sob a roupa.

Chegando ao mercado, encontrou o porteiro Cão que cobrou o pedágio a Ogun, que achou uma afronta pagar algo para Cão, seu inimigo/amigo. Ogun, então, usou sua faca para decaptar Cão. Exu, que era o proprietário do mercado, ameaçou tanto Ogun que terminou por fazer com que ele fugisse para o mato. Os galhos e espinhos das árvores rasgaram a roupa de Ogun que, para se proteger, retirou folhas de palmeira (màrìwò) para cobrir o corpo desnudo. Ogun não respeitou as regras do Mercado de Sofrimento; não respeitou o sofrimento, e por isto foi severamente punido.

O sofrimento tem normas que precisam ser aceitas e cumpridas. Duas delas são a resignação e a paciência. Entretanto, a mais importante de todas elas é o respeito a sua própria dor e, consequentemente, à dor do outro. Escrevi este artigo por necessidade: uma necessidade de alma; uma necessidade cidadã. A indignação foi quem me guiou.

É impossível para qualquer cidadão, seja ele um religioso ou não, calar-se diante do fato ocorrido com a coreógrafa Deborah Colker e sua família, no dia 19 de agosto, no aeroporto de Salvador. Em pleno século XXI, quando os meios de comunicação estão sempre notificando os problemas de saúde de ordem genética, nenhuma desculpa existe para o fato de alguém ser discriminado por ser portador de uma delas, usando-se o argumento de que os passageiros do avião corriam risco de contágio.

A ignorância é sempre muito atrevida! Para toda família Colker, desejo força e vitória na jornada, lembrando a sabedoria de um provérbio africano que diz: “Se não suportamos o sofrimento que enche um cesto, não receberemos os favores que enchem uma pequena cabaça de beber.” Garotinho encantador, que sua jornada seja encantada e iluminada; que as pedras e pedradas encontradas sejam, uma a uma, retiradas.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. A cada 15 dias seus artigos são publicados em  A TARDE, sempre às quartas-feiras


Um, dois, feijão com arroz

postado por Cleidiana Ramos @ 4:09 PM
14 de agosto de 2013
Mãe Stella faz reflexão sobre importância da oralidade e da memória. Foto: Fernando Amorim/ Ag. A TARDE/06.12.2012

Mãe Stella faz reflexão sobre importância da oralidade e da memória. Foto: Fernando Amorim/ Ag. A TARDE/06.12.2012

Maria Stella de Azevedo Santos

“Lá em cima do outeiro tem uma gata borralheira, quem falar primeiro, come tudo o que é porqueira Menos eu que sou rendeiro, que como carne de carneiro; menos eu que sou rainha, que como carne de galinha”.

Essa é uma parlenda, geralmente dita por um grupo de crianças, que vem sendo transmitida de geração para geração, com o intuito de treinar o ser humano para a importante capacidade de se manter em silêncio. O ato de silenciar-se, tão necessário na vida adulta, é também usado como forma disciplinar  através de um provérbio que diz: ” A palavra é de prata, mas o silêncio é de ouro”.

Parlendas, ditados populares, adivinhações, brincadeiras, lendas… tudo isso forma o conjunto de sabedoria popular, cuja importância é tão grande para a formação do indivíduo e da sociedade, que existe uma ciência específica para estudar este tipo de saber. Folclore é o nome dessa ciência. No dia 22 de agosto é comum encontrarmos as escolas em movimentação, festejando este dia e o que ele significa.

Quando pensei em falar sobre o folclore, neste artigo, eu tinha uma intenção muito séria, que era a de alertar as escolas e os professores sobre o pouco  aprofundamento que este setor da sociedade tem sobre o assunto e do quão pouco proveito está tirando dos valorosos saberes populares, na formação de seus alunos, tanto no aspecto intelectual, quanto emocional. Mesmo sabendo que apesar da pedagogia atual não incentivar a memorização dos conhecimentos, e sim a compreensão dos mesmos, não é possível negar a importância de exercícios de memorização em todas as fases da vida.

Aprendíamos na escola, por exemplo, a memorizar o nome e ordem dos planetas, recitando: “Minha velha, traga meu jantar, sopa, uva, nozes e pão”, onde a primeira letra de cada palavra coincidia com a primeira letra de um planeta. Hoje, é comprovado pela ciência que exercitar a memória é tão necessário quanto exercitar os músculos.

Infelizmente, ou felizmente, não possuo uma natureza doutrinadora; não consigo me sentir à vontade nem com direitos de chamar a atenção de quem quer que seja. Até mesmo porque minha experiência me diz que cada ser e cada instituição tem consciência do que precisa ser trabalhado no sentido de aperfeiçoar-se cada dia mais. Por todos os motivos anteriormente citados é que resolvi, mais uma vez, seguir minha natureza e também obedecer a minha mãe de santo que costumava orientar seus filhos espirituais dizendo: ” A vida é bela e gozá-la convém”.

Ao tomar essa decisão, minha memória começou a trazer à superfície de minha mente, alegres e sábios conhecimentos populares, que fizeram com que o fato de escrever este artigo se transformasse em uma grande diversão. Conhecimentos esses que, usando uma palavra típica da turma jovem, passarei agora a compartilhar com meus leitores, na esperança de que eles se divirtam tanto quanto eu.

Que forma interessante o povo escolheu para comunicar a sua família ou comunidade que está brigado com um irmão: “Éramos dois irmãos unidos, todos dois de uma cor; nunca eu fiquei sem missa, mas meu irmão ficou. Para festas e banquetes, a mim convidarão; para festas de cozinha, convidarão meu irmão”.

Na verdade, isso é uma adivinhação cuja resposta é vinho e vinagre. No momento atual da humanidade, ela já pode contar com as técnicas dos fonoaudiólogos para conseguir que as palavras sejam bem expressadas. Mas no passado, a sabedoria popular aperfeiçoava a fala humana através de trava-línguas, um poderoso exercício de dicção que incentiva, de maneira lúdica, o gosto das crianças pela pronúncia correta de palavras difíceis:

“Num ninho de mafagafos, seis mafagafinhos há; quem os desmafagafizar, bom desmafagatizador será”. A rapidez da fala também podia ser treinada: “Quero ver você dizer, sete vezes encarrilhado; sem errar, sem tomar fôlego, vaca  preta, boi pintado”. Vamos falar de maneira ligeira, tomando cuidado para não dizer besteira: “Pedro tem o peito preto, o peito de Pedro é preto; quem disser que o peito de Pedro não é preto, tem o peito mais preto que o peito de Pedro”.

Mãe Stella é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, sempre às quartas-feiras, ela escreve no Jornal A Tarde


Balaio de Ideias: Uma maleta sagrada

postado por Cleidiana Ramos @ 2:24 PM
1 de agosto de 2013
Mãe Stella faz reflexão sobre visita do papa ao Brasil. Foto: Marco Antonio Teixeira/UOL/Folhapress/22.07.2013

Mãe Stella faz reflexão sobre visita do papa ao Brasil. Foto: Marco Antonio Teixeira/UOL/Folhapress/22.07.2013

Maria Stella de Azevedo Santos

Eu não podia me furtar de falar da visita do papa Francisco ao Brasil. Reconheço que esse é um tema já bastante notificado pelos meios de comunicação. Não podia ser diferente. Não só é a visita do líder de uma religião que um dia foi a religião oficial de nosso País, mas principalmente pela figura carismática que é o papa Francisco. Para não ser cansativa nem repetitiva, opto por ter como base deste artigo um fato comentado, mas pouco refletido que é a maleta do papa.

Chamo-a de sagrada porque seu conteúdo, com certeza, não é apenas roupas e objetos de primeira necessidade. A maleta do papa é muito maior do que parece ser: todo o acúmulo de experiências em 76 anos de existência é transformado em sabedoria para ser vivida e transmitida, com a singeleza de um coração que tudo faz para se unir a muitos outros corações de boa vontade, para que juntos possam preencher o vazio de muitos outros corações carentes de amor, abraços, esperança, palavras de incentivo e reconhecimento… Enfim, na maleta que o papa carrega com tanto zelo estão guardados tesouros que podem tornar ricos os pobres de espírito.

Creio que quando um sacerdote insiste em orientar os seus fiéis para cuidarem dos pobres não está se referindo apenas a aqueles cujos corpos estão necessitando de comida e cujas casas não têm o necessário para uma sobrevivência digna. “Não só de pão vive o homem”. Há pouco tempo atrás os jovens cantavam: “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte. A gente não quer só comida, a gente quer saída para qualquer parte”. Eles deixavam uma pergunta solta no ar, para ser respondida por cada um de nós como melhor nos conviesse: “Você tem sede de quê? Você tem fome de quê?”

O papa Francisco é transparente como as nascentes das fontes que ainda não foram poluídas e obscurecidas pela inconsequência humana. Como humano que é, o papa Francisco nos pede que rezemos por ele. Tem sede que rezemos uns pelos outros; que cuidemos uns dos outros. Sua alma tem fome e precisa ser alimentada por amor vivido de maneira coletiva.

Os três milhões de católicos, e provavelmente não católicos também reunidos na famosa Praia de Copacabana, foi um importante alimento para a difícil jornada que o ser humano Jorge Mario Bergoglio começa a empreender enquanto representante maior do sagrado na terra, para os fiéis católicos. O sorriso encantado e encantador estampado no rosto do papa Francisco, seus olhos brilhantes de satisfação e seu semblante tranquilo lembravam uma criança que acaba de ser amamentada nos seios de uma mãe afetuosa. E você? “Você tem sede de quê? Você tem fome de quê?”

Nos dias em que fomos agraciados com a presença do papa em nosso País, um fato aparentemente corriqueiro tinha o poder de ao mesmo tempo destoar e harmonizar uma situação: o papa carregava sua própria maleta. Pode parecer para muitos um gesto forçado e midiático de demonstração de humildade. Os corações puros enxergam pureza de gestos e intenções no outro. O referido gesto pode ser analisado por diferentes ângulos.

Como religiosa que sou e sendo o papa também um religioso, optei por analisar esse ato de maneira espiritualista. Segurar sua própria maleta é um gesto que tem voz. Em alto e bom som, ele nos diz: mudei minha posição na hierarquia religiosa da igreja para qual prometi servir como sacerdote, mas não mudei minha essência divina; não mudei meu jeito de ser; não mudei a natureza que a mim foi dada por Deus para cumprir a missão que também a mim foi dada por Ele.

Esse gesto exemplar cochicha em nossos ouvidos para que não permitamos que fatos sociais nos obriguem a abrir mão de valores essenciais, abrir mão dos valores fundamentais para nossa essência. Se o papa Francisco deixar que hoje outras pessoas carreguem para ele sua maleta, corre o risco de que amanhã queiram carregar sua alma repleta de bons sentimentos, pensamentos e intenções. A maleta do papa é sagrada porque ao carregá-la ele nos faz refletir sobre o quão sagrado é o comportamento de respeitar a nossa própria natureza.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, às quartas-feiras, o jornal A Tarde publica seus artigos.


Balaio de Ideias: O que as folhas cantam

postado por Cleidiana Ramos @ 11:13 AM
2 de maio de 2013

O aniversário é de Mãe Stella, mas quem ganha o presente somos nós. Como estava fora na quarta-feira passada em que saiu seu artigo em A TARDE, aproveito que hoje é  o aniversário dessa fonte de sabedoria para publicar mais um de seus belos ensinamentos e desejar  saúde e mais muitos anos de vida entre nós. Axé, Mãe Stella.   

Mãe Stella faz aniversário hoje. Foto: Margarida Neide/Ag. A TARDE/ 29.11.2012

Maria Stella de Azevedo Santos

O universo pulsa; o universo fala. Escutar o universo é escutar as batidas do próprio coração. Não as batidas físicas, mas o pulsar abstrato, entusiasmado, de um coração pleno. Quando falo pleno, provavelmente levo as pessoas a pensarem em cheio de alegria, prosperidade, beleza… Engano!  Quando falo pleno, refiro-me a um coração cheio de experiências vividas e absorvidas de maneira completa.

Tenham sido essas experiências sentidas como felizes ou dolorosas. O universo fala, as folhas falam, tanta para quem canta para encantá-las, quanto para as pessoas que conversam com elas ou simplesmente lhes dão um bom dia a cada dia que amanhece. As folhas, ou melhor, as plantas são seres vivos, como é vivo todo o universo.

É por isso que no candomblé temos um ritual para reverenciar as folhas e tudo o que elas nos ensinam. Nas folhas não existem apenas substâncias químicas usadas pelos laboratórios para curar nossas doenças físicas; nelas estão contidos ensinamentos ancestrais, que ao serem traduzidos por aqueles que se permitem escutar o universo são verdadeiros remédios para a alma, que ajudam a curar, mas também a prevenir feridas que retardem ou impeçam que a mesma encontre seu destino.

Transmitirei um pouco do que “escutei” de algumas das folhas para quem cantei durante setenta e quatro anos da minha vida sacerdotal.

Alfavaquinha-de-cobra – É a folha que acalma os olhos. A folha que nos faz “videntes”, que amplia a nossa visão, e ao mesmo tempo impede de vermos aquilo que não é necessário ou que não nos agrada. Folha que vem sempre em primeiro lugar, silenciosamente canta a serenidade, alertando a todos para a necessidade do falar pouco, para sofrer menos. A calma é sempre cantada, chamada, em primeiro lugar. Não se pode, ou melhor, não se deve entrar em um ambiente sem que seu olhar esteja manifestando calma, um olhar calmo o suficiente para enxergar as coisas com clareza e nitidez, sob todos os ângulos.

A calma é parceira inseparável do silêncio. Verdadeiros tratados podem ser escritos sobre o silêncio, porém, “silenciosamente” se pode dizer: silêncio é não falar o que não é necessário ser falado. Basta, portanto, não falar aquilo que não é preciso, que a pessoa pode considerar-se em estado de silêncio, passo fundamental para que se possa atingir o estado de calma. Estar calado não necessariamente é estar em silêncio. E o oposto é verdadeiro, no silêncio muito se diz.

Bilreiro – É desta árvore que são tirados os bilros usados pelas rendeiras para fazer um dos mais ricos artesanatos de nosso país. Folha de Xangô que ilumina do alto, nos protegendo e nos erguendo. É a folha do trovão que, como o forte grito de Xangô, acorda quem está dormindo. Afinal, “quem muito dorme nada aprende e nada vê”. E é Xangô, Deus do Trovão, orixá de “olhos de orogbo”, sempre abertos e atentos, que com sua voz rouca grita para que nos levantemos e, como guerreiros, enfrentemos a nossas lutas diárias.

Vassourinha-de-Oxum – Cultuamos com muita força a folha mais doce que o mel, para que ilumine nossos mistérios. O mel é símbolo da doçura natural, isto é, aquela que nos é oferecida pela natureza. Oxum, assim como o mel, representa a fala doce que nos embriaga.  A planta conhecida popularmente como vassourinha-de-oxum nos ensina a termos cuidado como as pessoas muito adocicadas, que podem estar usando a fala doce para nos deixar embriagados, conseguindo tirar de nós aquilo que desejam.

Bambu – Folha de vida longa, que é firme e escapa das tempestades, a quem suplicamos que nos torne  fortes e vigorosos.  O bambu segue em direção ao céu com a humildade e a sabedoria dos grandes mestres. No seu caminhar, reconhece a necessidade de se inclinar perante forças maiores, como a da tempestade. O Bambu é sábio: para não quebrar ele enverga.

Espada-de-Oxossi – Para a folhas com formato de espada pedimos que sejamos bastante fortes para que, rapidamente, possamos cortar o mal e as armadilhas que são feitas para atrapalhar a nossa existência. Afinal, a espada é símbolo de destruição da injustiça, da maleficência e da ignorância.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, ela escreve em A TARDE, sempre às quartas-feiras.


Mãe Stella na Academia

postado por Cleidiana Ramos @ 1:58 PM
26 de abril de 2013

Mãe Stella mais uma vez fazendo história: nova integrante da Academia de Letras da Bahia.  A simbologia dessa eleição me deixa sem palavras para um registro maior. A História realmente consegue dar guinadas surpreendentes. Toda a nossa luta e herança afro-brasileira ganharam mais energia. Axe!


Balaio de Ideias: “Embirrei compade”

postado por Cleidiana Ramos @ 12:09 AM
11 de abril de 2013

Pessoal: o Mundo Afro está em festa. Fomos um dos contemplados com o Prêmio Camélia da Liberdade. O prêmio é está em sua sétima edição e é organizado pelo O Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (CEAP), sediado no Rio de Janeiro. A ideia é destacar açoes afirmativas em várias áreas. Da Bahia ainda foram contemplados o Instituto Mídia Étnica e a  Companhaia Hidrelétrica do Vale do São Francisco. Vamos comemorar em grande estilo com um artigo de Mãe Stella.   

Bela reflexão de Mãe Stella para comemorar prêmio para o Mundo Afro. Foto: Margarida Neide / AG. A TARDE. 07/12/2012

Maria Stella de Azevedo Santos

Assim eram iniciados os artigos do jornal “Foia dos Rocêro”, que circulava pela capital da Bahia há muitos anos atrás. “Embirrei Compade com a permanente falta d’água em um dos bairros de nossa cidade”; “Embirrei Compade com a demora dos bondes em passar pelos pontos”; “Embirrei Compade ao chegar no Pelourinho e receber lixo pela cabeça, que foi jogado pela janela de um sobrado, devido à ausência de carroças de apanhar lixo”.

Com tantas denúncias não é de se estranhar que o referido jornal tenha caído na “malha grossa” da censura governamental da época. Relembro  “Foia dos Rocêro” não apenas como um singelo registro histórico, mas também para mostrar como existem formas leves de se denunciar situações sérias. Parece-me que estamos perdendo a capacidade de brincar com nossas incompetências, coletivas e individuais. Não existe nada melhor do que rirmos de nós mesmos. Essa é uma excelente forma de manter acesa a chama do bom humor, que pode iluminar todo um ambiente, por mais escuro que ele esteja.

Por falar em escuridão, veio-me à mente um bonito mito yorubá que aproveito a oportunidade para transmitir a vocês, meus “leitores-filhos”. Afinal, sou mãe e não quero nenhum filho meu traumatizado porque não lhe contei nenhuma estorinha: Sol, Lua e Escuridão eram irmãos. Eles queriam sair do céu e vir para a Terra.

Sol sugeriu que fossem pedir ajuda aos divinadores, a fim de que fossem honrados e respeitados quando aqui chegassem. Mesmo considerando desnecessário aquele pedido de ajuda, Lua e Escuridão optaram por não discordar do poderoso irmão. Os divinadores indicaram que oferendas fossem dadas por cada um deles. Lua, presunçosamente, não fez as oferendas. Muito bela e popular decidiu não dar ouvidos às orientações. Escuridão sabia que já era temida, o que, consequentemente, fazia com que fosse respeitada. Sol foi o único a fazer o sacrifício. O feixe de vassouras que ele ofertou se transformou nos raios do sol, que passaram a ser usados para impedir que qualquer um se atrevesse a olhar fixamente para Sol. Lua não foi totalmente desprezada porque tinha feito antes sacrifício para o amor, conquistando por isto a simpatia dos casais enamorados. Já Escuridão, que não fez sacrifício nenhum, quase nenhuma valia tem e por isto não conseguiu ser amada.

Ouvir estórias é gostoso e saudável, sentir-se criança também, mas comportar-se como tal quando se é adulto é ridículo. Não são poucas as vezes que tenho assistido a cenas desse tipo. O ridículo muitas vezes é cômico, mas não consigo achar graça nenhuma quando vejo um adulto embirrado como criança.

Com isso não quero dizer que o adulto não tem motivos para embirrar, mas tem que ser birra de adulto, que pode e deve ser traduzida como indignação. De nada adianta para o adulto bater os pés no chão ou fazer cara feia quando algo lhe desagrada. Sua indignação/birra deve servir para que ele encontre uma solução para seu problema.

“Embirro compade” quando vejo birras sem fundamento. Se o jornal “Foia dos Rocêro” ainda existisse, eu mandaria para seu editor um artigo na esperança que fosse publicado e que sobre ele houvesse uma reflexão por parte dos leitores.

O artigo diria o seguinte: Embirrei compade porque vi iniciados que não assumem o sacerdócio; Embirrei compade porque vi sacerdotes que não querem entender sua verdadeira vocação, que é a de servir; Embirrei compade porque vi pessoas trocarem religiosidade por fanatismo; Embirrei compade porque vi usarem as religiões, inclusive a que pratico, como meio de enriquecimento, esquecendo-se estas pessoas que o verdadeiro religioso não mede a riqueza pela quantidade de bens materiais que possui, mas sim pela quantidade de bem que conseguiu fazer a si mesmo e aos outros. Embirro compade quando vejo um dos fundamentos mais importantes do Candomblé – o feitiço, que é uma linguagem usada para ajudar o homem em sua caminhada na Terra – ser interpretado por leigos como algo pernicioso, ou pior, quando é usado pelos próprios religiosos como instrumento de amedrontamento e meio de enriquecimento.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Ela escreve, quinzenalmente, no jornal A TARDE sempre às quartas-feiras 


Vanda Machado lança “Pele da Cor da Noite”

postado por Cleidiana Ramos @ 7:41 PM
1 de abril de 2013

Livro traz relato de experiência em projeto pedagógico pioneiro. Foto: Haroldo Abrantes / Ag. A TARDE/ 26.05.2010

Amanhã, terça-feira, dia 2, tem um evento ótimo na Faculdade de Comunicação da Ufba (Facom): o lançamento do livro “Pele da cor da noite”, da doutora em Educação, Vanda Machado.

O livro conta as experiências pessoais da autora responsável pelo projeto Irê Ayô que é desenvolvido na Escola Eugênia Anna dos Santos, localizada no Ilê Axé Opô Afonjá. O projeto se tornou uma referência no ensino de História da África e Cultura Afro-Brasileira muito antes da chegada da Lei 10.639/2003.

Quem conhece a escola sabe o quanto ele é bonito, eficiente e capaz de transformar trajetórias.Um exemplo: a escola não tem sequer um rabisco nas paredes e, mesmo funcionando em um terreiro de candomblé, não faz nenhum proselitismo religoso e abriga crianças das mais variadas crenças.

É uma lição do que deve ser o processo educativo em sua forma mais ampla. O lançamento é uma ação coletiva de autores da Edufba que está comemorando 20 anos de fundação. Será das 17h30 às 20h30, pois ainda tem uma mesa redonda que permite a interação com os autores. O acesso é gratuito.

A Facom fica na área do PAF I. Há o famoso acesso pela Faculdade de Arquitetura, situada na Rua Caetano Moura, Federação, mas também pelo PAF II com entrada na Avenida Ademar de Barros.


Balaio de Ideias: Uma donzela arisca: a perfeição

postado por Cleidiana Ramos @ 3:26 PM
26 de março de 2013

Imagem do livro “O candomblé da Barroquinha” do antropólogo e professor da Ufba, Renato da Silveira. Foto: AG. A TARDE

 

Car@s: na semana passada, não pude publicar o artigo de Mãe Stella. Então vai aqui um aperitivo com um lembrete: amanhã, quarta-feira, tem mais.

 

Maria Stella de Azevedo Santos

Oxaguiã é um orixá guerreiro. Sua maior luta é pela perfeição: de si mesmo, dos outros e das coisas. Odeia a preguiça, que ele considera o inimigo número um da perfeição. Da união de Oxaguiã com Iyemanjá, nasceu Ogum, orixá guerreiro como o pai. Ogum guerreia para destruir o que precisa ser renovado, enquanto Oxaguiã luta para construir o que foi destruído. Neste vai e vem de batalhas, Oxaguiã foi um dia à cidade de Ogum para buscar munição e encontrou o povo em festa. A comemoração era pelo término da construção do novo palácio do rei Ogum. Tudo parecia perfeito. Não para Oxaguiã! Ele bateu sua poderosa espada no palácio, que ruiu imediatamente. O povo ficou irado! “Tanto trabalho jogado fora, por um capricho de Oxaguiã”.

O pai de Ogum então falou: “O rei de vocês está em guerra e não voltará tão cedo. Por que entregar este palácio para ele, quando um muito melhor pode ser construído?”. Passado um tempo, Oxaguiã retornou à cidade e encontrou o palácio reconstruído. Entretanto, tudo se repetiu: O pai de Ogum destruiu o novo palácio e ordenou que o povo construísse outro, ainda mais perfeito.

Aconteceu que o dia da volta de Ogum se aproximava, só restando para Oxaguiã contentar-se com o último palácio construído, que para todos estava mais do que perfeito. De tanto reconstruírem o palácio, os moradores daquela cidade passaram a ser conhecidos como “os construtores quase perfeitos”. O povo não gostou daquele “quase” e ousou reclamar com a divindade. Oxaguiã disse: “A perfeição é como uma donzela arisca, ela se compraz em ser buscada, mas nunca permite ser encontrada e muito menos ser cultuada”.

Esse itan (estória narrada de geração para geração) fala sobre a importância da busca pela perfeição. Outro dia ouvi o seguinte comunicado: “Não basta fazer, é preciso fazer com amor”. Eu completo esse lindo comunicado, dizendo: Não basta fazer, é preciso fazer com amor, mas fazer bem feito. E ninguém faz nada bem feito se não tiver tempo. Se a preguiça é o inimigo número um da perfeição, a falta de eficiência para lidar com o tempo é o número dois. É por isso que se diz: “Quem tem tempo faz a colher e borda o cabo”.

Quem tem tempo faz arte. E a arte é uma das importantes formas de aproximação com o sagrado. Não é preciso ser artista para se fazer arte, é preciso apenas se tentar fazer as coisas da melhor maneira possível. Tanto nas coisas mais simples, como nas mais complexas; tanto nos assuntos sociais, quanto nos assuntos religiosos.

Lavar os pratos e estar atento para não deixar na pia nem um grão de arroz, de modo que a harmonia e pureza externas ajudem a harmonizar o interior de quem penetre naquele recinto, é arte. Quem me ouve ou lê o que escrevo está acostumado a ouvir a frase “estou sempre correndo atrás da perfeição”. Acontece que quanto mais eu corro atrás da perfeição, mais parece que a perfeição corre de mim. É como um gostoso jogo de “picula”, onde não tem vencido nem vencedor. E a graça consiste exatamente nisso: tentar, incansavelmente, domar essa virgem rebelde. Sim, acredito ser realmente virgem, a perfeição.

Não conheci ninguém que conseguiu casar-se com ela, apesar de não lhe faltar pretendentes. Entretanto, todos nós gostamos de crer que existem pessoas perfeitas. Gostamos de criar ídolos. Um grande risco, tanto para quem idolatra, quanto para quem é idolatrado. Parece que precisamos de ídolos para seguirmos, como se a “perfeição” (ou o axé) do outro pudesse ser por nós absorvida.

O caminho para a perfeição não é reto, ele é cheio de saliências e reentrâncias. É um caminho individual, como individual é o encontro que cada um tem com sua própria forma de construir e reconstruir seus palácios, sejam eles de areia ou de cristal.  A perfeição, como o próprio nome indica, é um movimento em direção a: alguma coisa, algum lugar, alguém… Aperfeiçoar-se é simplesmente manter-se em movimento; é buscar sempre o que lhe parece faltar a cada dia, a cada momento. E é Oxaguiã o orixá que nos auxilia a manter acesa essa chama. É Oxaguiã o orixá que estimula o progresso.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, seus artigos são publicados em A TARDE, sempre às quartas-feiras 


Balaio de Ideias: E o mundo não se acabou

postado por Cleidiana Ramos @ 6:18 PM
27 de fevereiro de 2013

Mãe Stella faz reflexão sobre o comportamento das pessoas diante do mundo que nos cerca. Foto: Gildo Lima/Ag. A TARDE/ 18.03;2011

Maria Stella de Azevedo Santos

A ciência, entretanto, pesquisa e já chega até a afirmar que nosso planeta pode, sim, findar-se um dia. O planeta Terra é um ser vivo, e como todo ser vivo está sujeito a vários tipos de transformações. Esse é um assunto tão sério e profundo que me parece ser específico dos cientistas. A nós, “pobres mortais”, resta-nos viver. Se algo temos que pensar é o que fazer com a vida que nos resta e que tipo de pessoa queremos ser nesta vida.

São muitas as opções. O ser queixoso, que faz de um pequeno incidente uma tragédia; o eterno insatisfeito, que por mais que receba sente-se como um saco vazio incapaz de ser preenchido; o “palpiteiro”, que parece entender de tudo, mas pouco sabe e o que sabe é superficial; o carente, o adulto infantil que insiste em não crescer para poder estar sempre pedindo colo, esquecendo-se que já está na idade de oferecer o seu; o misterioso, que faz de seu simples dia a dia uma arca de segredos profundos, facilmente decifráveis.

Outros tipos de opções também existem: o ser disponível, cuja presença é traduzida como atuação positiva; o grato, que ao valorizar os favores recebidos ajuda a não desestimular as pessoas doadoras; o flexível, que absorvendo a diversidade permite que o colorido possa ser apreciado; o alegre, que torna os fardos leves como plumas; os guerreiros, que mesmo perdendo as batalhas entendem que têm guerras a serem vencidas.

Será uma atitude esperada que o leitor se veja em uma dessas opções, e ainda procure encaixar nelas seus conhecidos. Creio ser essa uma atitude saudável, caso o leitor consiga fugir da tendência de se ver como um tipo considerado positivo, enquanto seus pares são colocados no lado oposto. É uma grande tentação, da qual se deve procurar sempre escapar. Não é só a culpa que colocamos nos outros, os defeitos também. Quando não temos como culpar ninguém, o sistema, os governos e até os deuses passam a ser os vilões.

Hoje, ao assistirmos e lermos os jornais, gostamos de comentar sobre a violência que assola o mundo. Entretanto, esses mesmos meios de comunicação já noticiaram pesquisas científicas comprovando que o período que vivemos é o menos violento pelo qual passa a humanidade. Parece incrível, mas é verdade, basta dar um passeio pelos livros de História Universal que encontraremos barbaridades.

A diferença parece estar clara, é que hoje tomamos conhecimento diariamente do que acontece no mundo. Não comento esse fato para nos conformarmos com a violência, mas sim para que ao entendermos que ela já foi muito pior, possamos ter a esperança que ela continuará diminuindo, caso cada parcela da sociedade e cada indivíduo faça a parte que lhe é devida.

Os seres vivos, todos, carregam em si o instinto da agressividade. Podemos ver isso em nós mesmos, nos animais, nas plantas e na natureza como um todo. Raios, tufões, vulcões não podem ficar invisíveis aos nossos olhos. A agressividade sempre existiu e sempre existirá na natureza, e é claro no homem. Afinal, não existe a natureza e o homem, e sim “a natureza” da qual o homem faz parte.

É interessante observarmos que essa “agressividade” varia de intensidade não só de pessoa para pessoa, como até mesmo entre os vulcões, por exemplo. Quando o instinto já é forte e o meio ainda o estimula, a situação fica pior. Aos cientistas cabe a tarefa de criar mecanismos para prever as tragédias naturais, a fim de que a destruição causada por elas sejam minimizadas, além de ampliar os estudos sobre cérebro e comportamento humanos; os governos precisam concentrar esforços para aprender a não apenas coibir, mas fornecer condições favoráveis para que a agressividade não domine o homem.

Digo e repito, todos os instintos com os quais nascemos devem ser usados para nossa sobrevivência. Devemos ter controle sobre eles, e não o contrário. Não podemos nem devemos permitir que nada nem ninguém nos domine, nem mesmo nossos instintos. O inverso também é uma verdade: não podemos, nem devemos desejar dominar nada nem ninguém, nem mesmo nossos instintos. A permanente busca pela convivência harmônica é a chave.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonja. Quinzenalmente, ela escreve em A TARDE, sempre às quartas-feiras


Balaio de Ideias: A vida é um circo

postado por Cleidiana Ramos @ 6:12 PM
30 de janeiro de 2013

Mãe Stella faz mais uma bela reflexão em artigo. Foto:  Fernando Amorim/ Ag. A TARDE/ 06.12. 2012

 

Maria Stella de Azevedo Santos

Quando criança, eu tinha a sensação que o mundo era um grande parque de diversões: a vassoura, um lindo cavalo de carrossel que corria, corria, corria, mas não chegava a lugar nenhum; as árvores eram como paus-de-sebo, onde eu fazia um imenso esforço, para depois de tê-lo escalado poder ser recompensada com prêmios saborosíssimos, que não eram apenas os frutos colhidos, mas principalmente a corrida que tínhamos que dar para fugir do vizinho que nos ameaçava, sem nenhum intento de cumprir a ameaça; a preparação para dormir era como entrar em um trem fantasma, cada estória de terror que nos era contada nos excitava tanto que, ao corpo cansado e apavorado, só restava dormir.

Já na juventude, o mundo me parecia uma praça de guerra. Éramos “senhores do mundo”. Cheios de certezas e convicções, nós tínhamos muitas coisas para consertar, então nos reuníamos solenes para projetar as mudanças desejadas: os problemas dos transportes coletivos, que permanecem até hoje (imaginem: naquela época eram os bondes!); as cabeças de nossos mais velhos que, é lógico, serão sempre ultrapassadas para os jovens de qualquer época… Somos todos revolucionários na juventude, afinal os hormônios de nossos corpos estão em revolução.

A maturidade chega, e o mundo fica parecendo um hospício, com muitos loucos e poucos, pouquíssimos, médicos e enfermeiros: é uma corrida incessante sem nenhum objetivo aparente a ser alcançado; um sentimento de perseguição, que mais parece uma grande alucinação coletiva (muitos, muitos mesmo, costumam dizer que estão sendo vítimas de inveja, injustiças, incompreensões e até feitiços); o poder sobre os outros querendo ultrapassar o poder sobre si mesmo (muitos, muitos mesmo, querem comandar, mas não aceitam serem comandados). Um mundo cheio de mestres, repletos de “sábios” para ensinar e carentes de discípulos para aprender. É um hospício com muita gente para ser cuidada e pouca querendo cuidar.

Quando a maturidade chega, o mundo também se assemelha a uma creche, com muitas crianças e poucos, pouquíssimos adultos: crianças que fazem “birra” e desejam que a vida transcorra de acordo com seus desejos; que se apegam aos “brinquedinhos” que possuem, esquecendo-se que o gostoso é estar sempre aberto para novos “brinquedos” (que, como mandam os órgãos de proteção ao consumidor, devem ser sempre de acordo com a idade do usuário).

Entretanto, quando a fundamental, mas não tão desejada, velhice chega, o mundo deixa de ser tudo isso e passa a ser um divertido circo. Somos palhaços e precisamos rir e fazer os outros rirem, pois para a maioria dos problemas humanos de nada adianta chorar; tem os trapezistas que se arriscam e os outros que utilizam sua grande força física e mental para segurar aqueles que, por instinto ou necessidade de destino, precisam “jogar-se”, independentemente do risco que corram; tem o globo da morte, lembrando-nos a inevitável certeza da vida; tem os equilibristas que, com os braços levantados como se quisessem alcançar o céu, nos ensinam que para alcançarmos um estado de descanso, diminuindo a instabilidade que tanto gera desarmonia física e mental, é preciso igualar as forças opostas existentes em nós.

Somos todos equilibristas andando na corda bamba da vida. Somos instáveis por natureza. E como manter-se em equilíbrio é muito difícil, melhor pedir uma ajudinha aos deuses, cantando: Igbãni bàbà, igbãni yèyè, ibà pa ràn tán asô dá mã aro, a fi dà wa rá àÿç êkö ma Oriÿá, Oriÿá wa baba alaye = Pai ancestral, mãezinha ancestral, apague o fogo, o calor que se alastra, termine com as muitas discussões e tristezas criadas, nós somos instáveis, transforme-nos, imploramos sempre pelas suas instruções, sua doutrina Orixá, seja nosso mestre, o dono de nosso modo de viver.

Pedir socorro aos deuses é importante, mas precisamos fazer a nossa parte: aprendendo a focar o olhar em um único ponto, concentrando e energizando o centro de nosso corpo – o abdômen – e, principalmente, aprendendo a dobrar sempre os joelhos (em todos sentidos falando) para que os pés fiquem bem plantados.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, ela escreve em A TARDE, sempre às quartas-feiras


Balaio de Ideias: Mãe Stella acadêmica

postado por Cleidiana Ramos @ 11:42 AM
23 de janeiro de 2013

José Medrado defende vaga para Mãe Stella na Academia de Letras da Bahia (ALB). Foto: Marco Aurélio Martins/Ag. A TARDE/ 03.09.2010

José Medrado

Na última segunda-feira, o Brasil registrou o seu Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, em lei proposta pelo deputado federal Daniel Almeida, lembrando a queda de Mãe Gilda com o dissabor que teve em ver a sua imagem com uma tarja preta nos olhos, sendo chamada de charlatã e macumbeira por um jornal evangélico. Essa reverberação nasceu da iniciativa da então vereadora Olívia Santana, que, incansável no tema, sempre buscou fazer chegar esta discussão à sociedade baiana, tendo, naturalmente, na filha de mãe Gilda, Mãe Jaciara, outra incansável neste processo.

Vemos, agora, uma grande oportunidade de a Bahia mostrar ao resto do Brasil que aqui se tenta conciliar as diferenças, principalmente no campo religioso, com a eleição e posse de Mãe Stella de Oxóssi na Academia de Letras da Bahia. Autora de inúmeros livros, ensaios e artigos com grande repercussão, tendo, ainda, entre outros títulos o de Doutor Honoris Causa da Universidade da Bahia, a sacerdotisa reúne peso de cultura e de representatividade social para bem se emparelhar com os letrados que ali têm assento.

A oportunidade se fez pela infelicidade de uma inestimável perda, a do professor, historiador, escritor e acadêmico Ubiratan Castro. Não guardo dúvidas de que o mestre Ubiratan, que foi presidente do Conselho para o Desenvolvimento das Comunidades Negras de Salvador, apoiaria e pediria votos para a sacerdotisa do Ilê Axé Opô Afonjá. Em verdade, eu creio que ele já esteja pedindo, esperando que os homens sensíveis da Academia de Letras da Bahia o ouçam.

Não tenho titubeio algum de que a eleição de Mãe Stella seria um marco social de repercussão nacional que daria destaque àquela Academia, cujo embrião vem desde as Academias dos Esquecidos e dos Renascidos do século XVIII, com grande sentido histórico para esta proposição. Em se tratando de reconhecimento, de ideal, a palavra de um dos sócios-fundadores da Academia, Ruy Barbosa, seria um pedido: “Dilatai a fraternidade cristã, e chegareis das afeições individuais às solidariedades coletivas, da família à nação, da nação à humanidade”.

José Medrado escreve, quinzenalmente, no jornal A TARDE, às quartas-feiras


Balaio de Ideias: Verão é movimento e inspiração

postado por Cleidiana Ramos @ 9:11 PM
16 de janeiro de 2013

Mãe Stella destaca importância do movimento para o Candomblé. Foto: Margarida Neide/ Ag. A TARDE/ 07.12.2012

Maria Stella de Azevedo Santos

Corpo físico ou concreto, corpo espiritual ou abstrato; ambos precisam de movimento para aumentar e conservar as energias. Sem exercício físico nosso corpo fica pesado e enfraquecido, atuando com muita dificuldade, executando tarefas simples como se carregasse terríveis cargas. O movimento serve para limpar nossos corpos, concreto e abstrato, das energias negativas que concentramos em torno deles, vindas não só do mundo externo, como também do nosso mundo interior. Do exterior vêm as pragas, calúnias, infâmias, “olho gordo”; do interior emitimos vibrações de ganância, inveja, má “querência”. Todos esses sentimentos, naturalmente humanos, nos deixam carregados, pesados e sujos.

Para nos sentirmos leves a ponto de nosso espiritual poder conectar-se com as parcelas abstratas do universo, é preciso então movimentar-se. Na religião dos orixás, o movimento é uma constante nos rituais: cozinhamos, dançamos, ajoelhamos e levantamos diversas vezes em um único momento. Nossos exercícios de concentração são realizados quando cortamos quiabo para o amalá; quando tiramos a casca de cada grão do feijão para fazer o beguiri; quando colamos uma por uma das bandeirolas que enfeitam o barracão; quando, pacientemente, tiramos pena por pena das aves que serão oferecidas aos deuses.

É por essa e outras razões que não é interessante comprarmos e usarmos máquinas para cortar quiabo e depenar galinhas. Exercícios de concentração fazem com que a energia adquirida com a manifestação da divindade, com os banhos de folhas e ebó não seja perdida, fique concentrada em nós, fazendo com que sejamos pessoas mais fortalecidas para enfrentarmos as tarefas e guerras diárias. Sem exercício físico nosso corpo padece com dores diversas. Sem exercícios respiratórios, de concentração, reflexão e de meditação nosso espiritual fica sem forças para cumprir a principal Lei Universal: a Lei da Evolução.

 Não faz parte das obrigações dos iniciantes e iniciados no candomblé realizarem exercícios respiratórios, pois estes são executados, naturalmente, durante a dança ritualística, quando inspiramos e emanamos o ar de maneira intensa. A meditação no candomblé se faz desde o carregar silencioso da água para encher quartinhas e talhas, passando pela também silenciosa limpeza da manifestação concreta da divindade, chegando até o jogo de obi, quando o iniciado pode estabelecer um “diálogo” espiritual com a sua própria essência divina.

O movimento corporal, mental e espiritual deve ser começado logo que se acorda. Se começamos um dia na inércia, passamos um péssimo dia e uma noite ruim. A natureza é sábia. Gastamos gradativamente a nossa energia. Pela manhã estamos com uma energia renovada, pronta para ser usada. Ao meio-dia estamos plenos. No decorrer da tarde já nos desgastamos e à noite precisamos dormir para recompô-la (isto é a regra geral, não nos esqueçamos das exceções). Assim também quando a nossa infância e mocidade são sedentárias, temos uma velhice precoce e sem graça, sem força espiritual.

O movimento é fundamental, porém com equilíbrio, como tudo na vida. Às vezes fico a assistir aos omorixá (filhos de santo) andando apressadamente, para executar tarefas que têm tempo de sobra para serem executadas com tranquilidade. Isso é desperdício de energia! É queima desnecessária do combustível que adquiriram através da concentração, respiração, meditação. Por que e para que correm tanto? – pergunto-me. Para provar aos outros ou para si mesmo que estão em atividade? Para que esgotando o corpo físico, a mente não possa refletir sobre os comunicados enviados pelos deuses e ancestrais… As perguntas ficam sem respostas, pois creio que cada caso é um caso.

De repente, é o desejo intenso de servir ao sagrado. O importante é que cada um aprenda a movimentar-se e aquietar-se com equilíbrio. A quietude necessita do movimento e o movimento da quietude. Tanto que cantamos para a folha rinrin: Rinrin là bexê, wa gbejê ni ki wa bexê hu bó, querendo dizer: Rinrin que é puro vem na frente, nós ficamos quietos para não incorrermos em erro e chorarmos alto.

Mãe Stella é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Ela escreve, quinzenalmente, às quartas-feiras, em A TARDE


Balaio de Ideias: A culpa é sempre do outro

postado por Cleidiana Ramos @ 1:02 PM
12 de setembro de 2012

Mãe Stella faz aniversário de iniciação religiosa e presenteia seus leitores com um texto belíssimo. Foto: Fernando Vivas/ Ag. A TARDE

Maria Stella de Azevedo Santos

Conta-se que um histórico governante visitou uma importante prisão do país que estava sob seu comando. Curioso sobre o que tinha motivado aqueles prisioneiros a cometerem diferentes tipos de crime, o governante resolveu perguntar aos homens por que eles estavam naquela situação. Um dos criminosos argumentou que estava ali por ter caído em uma armadilha preparada por falsos amigos; outro disse que tinha sido injustamente preso devido a um erro da polícia; já o outro explicou que o juiz tinha cometido um imenso engano ao condená-lo.

O governante olhava para todos eles com um sorriso irônico no rosto, mas nada comentava. Resolveu indagar a um quarto homem sobre as razões para ele estar preso. Para surpresa do governador, esse último disse que foi preso por ter cometido um grave delito e por isto era justa sua prisão. Só nesse momento o governante se dispôs a tecer algum comentário. Ele disse para o administrador da prisão: “Tire logo este homem da prisão, pois senão ele vai contaminar os outros, que são uns pobres inocentes”. O prisioneiro que assumiu sua culpa foi o único que adquiriu a liberdade.

Raríssimas são as pessoas que têm por hábito assumir seus erros. A culpa é sempre do outro. Estou à frente do terreiro/templo Ilê Axé Opô Afonjá, como todos sabem, há muito tempo. Foram muitas expectativas, muitas realizações e, claro, muitas frustrações. Afinal, elas fazem parte da vida. Insisto em não desistir. Por isso, ainda me disponho a fazer reuniões, com filhos e irmãos espirituais, não só para organizar a comunidade da melhor forma possível, mas principalmente para sentir como está a evolução espiritual daqueles que foram confiados a mim por Olorum. É gratificante saber que, apesar de muito trabalho e desgaste, ainda existe nos seres humanos o desejo de continuar trabalhando no sentido de lapidar seus instintos, para que eles possam transformar-se em puras intenções e ações. É frustrante e tedioso, entretanto, perceber que uma característica inerente ao ser humano teima em não se purificar: a permanente atitude de não assumir suas falhas e, pior, gostar de apontar as dos outros. Esse instinto, quando purificado, dá lugar ao sentimento de responsabilidade. Quem não vivenciou as seguintes situações?

Uma mãe pergunta por que os irmãos estão brigando, um aponta para o outro e diz: “Ele me bateu!” Dois coleguinhas de escola vão fazer queixa para a professora e os dois falam ao mesmo tempo: “Foi ele quem começou, pró”. Quando esses comportamentos são infantis, menos mal. O problema é que eles, normalmente, mantêm-se vivos na idade adulta. É realmente um tédio, os anos se passarem, as gerações mudarem e o comportamento de culpar os outros permanecer inalterado.

O ato de “se confessar” sempre foi sagrado para os católicos. Dizer em voz alta os seus próprios erros é uma forma de ouvir suas falhas, poder arrepender-se e, assim, encontrar forças para modificar suas atitudes. A culpa dá, então, lugar à responsabilidade: uma palavra que pode ser definida como um comportamento através do qual se busca enxergar os próprios erros cometidos, para que eles possam ser consertados. Uma pessoa responsável é livre de culpas.

Hoje, dia 12 de setembro, é meu aniversário de iniciada. Completo 73 anos como sacerdotisa de Oxossi. É ao “meu” orixá que imploro que dê força e coragem aos seres humanos para que passem a assumir os seus erros, deixando de escondê-los na figura de outros. É a Oxossi – o caçador de uma flecha só – que peço que com sua única flecha, repleta de amor e compreensão, seja capaz de atingir o coração de muitos homens, para que estes transformem a culpa em responsabilidade; a fraqueza, em consciência; a punição, em piedade. É também a esse orixá provedor, dono de minha cabeça, meu eledá, que rogo que me abasteça de sabedoria para entender a fraqueza de muitos de meus filhos, que ainda não sabem ou não conseguem transformar o complexo em simples, isto é, assumir seus erros, ao invés de transferi-los para o outro. Seria esse o meu melhor presente de aniversário sacerdotal.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Seus artigos são publicados no jornal A TARDE, quinzenalmente, às quartas-feiras


Balaio de Ideias: Ritual e sacrifício

postado por Cleidiana Ramos @ 8:03 PM
31 de agosto de 2012

A bela ilustração de Bruno Aziz homenageia as reflexões de Mãe Stella

Maria Stella de Azevedo Santos

Este é o último artigo que comenta sobre o “corpo religioso” do candomblé, da maneira como ele é professado no terreiro/templo Ilê Axé Opô Afonjá, onde fui iniciada e me tornei iyalorixá. Já foram feitas observações sobre cosmogonia – origem do mundo segundo o povo yorubá; liturgia – cerimônias abertas ao público; dogmas – verdades reveladas pelos orixás, que são aceitas usando-se o critério da fé. Hoje o tema é ritual: cerimônias que se baseiam em mitos que foram sendo transmitidos pelos ancestrais. Nos rituais revivemos passagens importantes dos orixás aqui na Terra e, assim, conectamo-nos com o comportamento deles. Os rituais, através dos mitos, ensinam para nós os comportamentos que devem ser seguidos e os que devem ser evitados. Muitos desses rituais são repetidos em épocas específicas, pois têm que estar em conexão com os ciclos da natureza. É de fundamental importância que os sacerdotes busquem e adquiram esse conhecimento, pois só assim os rituais alcançam todo seu potencial.

A grande polêmica que fazem com a religião dos orixás é o fato de em alguns de seus rituais animais serem sacrificados. Uma prática que existe desde quando o homem precisa alimentar-se. Sempre foram realizados por muitas religiões, mas que aos poucos foram deixando de existir em algumas. A pergunta é, então, por que o candomblé ainda faz o que, para muitos, é considerado uma barbaridade?

A resposta é simples: essa religião tem uma profunda relação com o planeta Terra, tanto que suas danças são feitas com os pés totalmente plantados no chão, diferente do balé, que parece demonstrar que os bailarinos, dançando nas pontas dos pés, desejam alcançar o céu. Essa ligação com a terra não poderia excluir a necessidade que o homem tem de se alimentar para sobreviver. Oferecemos aos deuses tudo aquilo que nos mantém vivos e alegres: alimentos, flores, perfumes, água limpa e fresca. Tranquilizo os leitores dizendo que no dia em que os homens deixarem de ter na mesa galinha, galo, carneiro, porco, boi… naturalmente esses animais deixarão de ser ofertados aos deuses. Se um dia o sacrifício humano existiu foi porque as tribos se alimentavam de seus semelhantes. Se a desculpa para crítica de sacrifício de animais se deve ao fato de eles serem seres vivos, gostaria de lembrar que laranja, alface, couve também são seres vivos.

Afinal, quando arrancamos uma raiz de inhame para que ela faça parte da nossa farta mesa de café da manhã, nem lembramos que sacrificamos um ser vivo. Neste caso é para nos servir de alimento, e quando arrancamos uma flor pelo simples prazer de curtir sua beleza? Gostaria, apenas, que as pessoas que criticam os nossos rituais refletissem sobre o que foi dito anteriormente, com o coração e a mente aber ta, e chegassem às suas próprias conclusões. Não é nosso interesse forçar alguém a crer em nossas verdades, mas é nossa obrigação fornecer subsídios para ajudar as pessoas a ampliarem o conhecimento de suas mentes, a fim de que seus corações possam ficar cada vez mais livres de preconceitos, o que faz com que eles se tornem mais purificados.

Caso tudo o que falei ainda não tenha servido para que o sacrifício de animais no candomblé possa ser compreendido, quero lembrar que os animais de que o povo se alimenta no seu dia a dia são mortos em série, de maneira cruel, nos abatedouros. Os nossos animais são reverenciados desde que são escolhidos nas feiras livres, até o momento em que são oferecidos aos orixás, quando cobrimos seus olhos com folhas específicas de calma e cantamos a fim de diminuir o estresse que eles possam estar sentindo. Além disso, eles não são animais quaisquer, são escolhidos aqueles que o sacerdote consagrado para esta função percebe que já estão no momento de passar para outro estágio evolutivo. Não matamos o animal, damos a ele um novo nascimento, por isso cantamos: Bi ewe yeje para lala ie, Ògún pere pa = Demos-lhes um novo nascimento, você resistiu à prova, ultrapassou seguramente privações e sofrimentos, você não está morto, está vivo. Somente Ogun mata.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente ela escreve para o jornal A TARDE, sempre às quartas-feiras


Balaio de Ideias: A palavra é: “dogmas”

postado por Cleidiana Ramos @ 3:52 PM
15 de agosto de 2012

Mito de Oxóssi ganha destaque em artigo de Mãe Stella. Foto: Gildo Lima/ Ag. A TARDE/ 27.12.2003

Maria Stella de Azevedo Santos

Nos dois últimos escritos que fiz para este quase centenário jornal, os assuntos abordados foram a cosmogonia e a liturgia do candomblé. Continuando a série de artigos que trata do “corpo religioso” que fundamenta essa religião, hoje o tema é dogmas: “verdades” reveladas pelos orixás, as quais são usadas pelos adeptos como bússolas que norteiam o caminho a ser vivenciado por eles, até que seja atingida a completa união. Toda religião possui seus dogmas; possui suas próprias verdades que são aceitas usando-se apenas o critério da fé. No caso específico da religião dos orixás, os dogmas foram revelados, mas não legitimados por nenhum codificador. Eles são transmitidos pelos mais velhos aos mais novos, que devem simplesmente aceitá-los. A opinião pessoal do “filho de santo” não é levada em conta no que diz respeito à modificação dos dogmas, mas deve ser vista como fator importante para clareá-los e elaborá-los.

Em um artigo, é impossível falar de todos os dogmas que orientam os sacerdotes da religião dos orixás, por isto optei por um que é específico do candomblé da nação ketu: a interdição do mel como alimento para os filhos de Oxossi e seus descendentes. Conta um mito:

No dia em que Oxossi estava indo caçar, ele procurou Orumilá a fim de fazer jogo divinatório. Oxossi deveria fazer oferendas para que ele não se perdesse na floresta. Ele disse que conhecia a floresta muito bem e que nunca se perderia dentro dela. Oxossi não fez as oferendas e foi para a floresta caçar. Ele viu um rastro no chão e começou a segui-lo. Quando Oxossi parou para olhar o rastro, ele colocou seu arco e flecha no chão, mas quando foi pegá-lo não o encontrou. Cansado, com fome, sem arma para providenciar alimento, ele ficou perdido na floresta. De repente, Oxossi viu uma jaqueira com o chão forrado de folhas e se deitou sobre elas. As abelhas que estavam na árvore fabricaram o mel, que começou a pingar sobre sua boca. Ele ficou ali por quatro dias, quando o único alimento que recebeu foi mel. Oxossi se recuperou e já sabia como voltar para casa. O caçador voltou a procurar Orumilá, querendo agora fazer as oferendas que ele não tinha feito. Orumilá disse: “A partir de agora, Oxossi e todos seus descendentes não comerão mais mel, somente em casos de extrema necessidade”.

Como pode ser visto, os mitos ajudam no sentido de fazer com que os dogmas possam ser mais bem entendidos e, assim, cumpridos sem maiores resistências. É por não entender o fundamento que está na base dos dogmas de cada religião que muitos deles são criticados. É, portanto, uma insensatez o seguidor de uma crença criticar os dogmas de quem segue outra religião que não a sua. O provérbio ensina: cada terra tem seu uso, cada uso um parafuso. O aprofundamento do dogma também ajuda para que ele possa ser adaptado à realidade de local e tempo, sem que ele seja maculado e, assim, corra o risco de perder sua função de orientador para o grupo ao qual ele está vinculado.

Na Bahia, o culto aos orixás é entendido como candomblé da nação ketu, jeje, angola… Eu professo o candomblé vinculado à nação ketu, cujo fundador é Oxossi. Essa nação, heroicamente, soube adaptar-se ao mundo moderno, sem permitir que seus fundamentos fossem abalados. Já para a nação jeje, tudo fica mais difícil, pois seus dogmas e liturgia encontram dificuldades de serem flexibilizados e readaptados. Por isso, peço às autoridades constituídas, tanto religiosas quanto civis, que se lembrem de que a união faz a força.

A sabedoria jeje corre um grande risco de desaparecer. Não podemos permitir que isso aconteça. Se é preciso preservar as espécies animais, vegetais e minerais, é também preciso preservar o conhecimento cultural e religioso que ajuda os homens a serem mais humanos. Nós, religiosos, pedimos que as autoridades civis a nós se unam para realizar esse difícil, mas não impossível, resgate. É o país Benin, em África, o berço da nação jeje. Tenho conhecimento que um grupo deseja ir para Benin em busca dos conhecimentos que lá ainda vivem. Quero crer que ele não estará sozinho, os homens e os deuses estarão sempre com eles.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, ela escreve artigos para o jornal A TARDE, publicados sempre às quartas-feiras


Balaio de Ideias: Liturgia – ritos públicos

postado por Cleidiana Ramos @ 11:11 AM
13 de agosto de 2012

Mãe Stella traz reflexões sobre os ritos públicos do Candomblé. Foto: Arestides Baptista / Ag. A TARDE/ 28.08.2010

Maria Stella de Azevedo Santos

Tomei emprestado da língua grega a palavra liturgia para falar neste artigo sobre ritos públicos do candomblé e assim dar continuidade à série de artigos que trata do “corpo religioso” que fundamenta esta prática. A palavra liturgia, comumente usada por todos atualmente, quer significar o conjunto de funções oficiais de uma religião, como ritos, cerimônias, sacramentos, que é dirigido ao público em geral, e não apenas a seus sacerdotes. O catolicismo entende como litúrgico os atos religiosos que sejam não apenas públicos, mas que também constem dos livros oficiais da referida crença. No candomblé, como não existem livros oficiais, uma vez que esta é uma religião que tem origem no culto aos orixás, o qual é anterior ao surgimento da escrita, podem ser considerados litúrgicos os atos religiosos abertos ao público, cujos fundamentos foram transmitidos oralmente pelos escravos trazidos do continente africano aos seus descendentes que foram nascendo no Brasil.

Não são muitas as práticas públicas do candomblé, uma vez que essa é uma religião que tem como principal função fornecer condições para que a essência divina (orixá) de uma pessoa possa ser conhecida, conectada e fixada, o que só é possível acontecer através do processo iniciatório, que faz com que o iniciado se transforme em um sacerdote do orixá a cuja energia ele está vinculado. São poucas as práticas abertas ao público, mas não são inexistentes. O Xirê – Roda dos Orixás –, o Olubajé – Banquete de Obaluaiye – e a consulta ao oráculo – Jogo de Búzios – são alguns dos ritos onde os não sacerdotes podem estar presentes, sendo eles os escolhidos para serem comentados neste artigo.

Xirê é uma palavra normalmente entendida como festa, significando um momento onde se canta, dança e come. Essa é uma tradução que usamos na informalidade, para nos fazermos entender por aqueles que pouco conhecem ainda sobre o culto aos orixás; isto porque, literalmente traduzida, esta palavra yorubá – xirê – significa jogo, competição, esporte. Entretanto, quando falamos sobre o ritual Xirê de maneira mais profunda, traduzimos esta palavra como: abertura para as bênçãos e favores dos orixás. Apesar de em sua origem a palavra festa referir-se a dia santificado, de descanso e regozijo, ela se diferencia de cerimônia porque não tem regra fixa. Xirê, portanto, é uma cerimônia religiosa, com regras fixas e vestuário pré-fixado, cujo objetivo é louvar as divindades para que elas nos fortaleçam com suas graças.

O Jogo de Búzios – muito conhecido, mas muito mal entendido – é outra cerimônia aberta ao público. Esse oráculo é uma das maneiras pela qual os sacerdotes se comunicam com o divino. É a ponte entre o homem e o sagrado. Erroneamente se entende um oráculo com um processo de adivinhação, na verdade é um processo de divinação, onde se lê e interpreta o que os orixás orientam para que o destino possa ser cumprido.

O Olubajé também faz parte da liturgia do candomblé. Nesse ritual, o povo em geral participa do banquete que é oferecido por Obaluaiye – o médico dos orixás – a seus devotos, com a intenção de trazer saúde para todos que se alimentam da comida oferecida na folha de mamona, planta cuja semente é considerada a mais venenosa do mundo para os humanos. O Olubajé é um ritual de conciliação de quem é ridicularizado com aqueles que têm o hábito de discriminar o outro, onde Obaluaiye ensina, através de um banquete sem mesa e sem lugar especial, que ninguém é melhor que ninguém.

É comum ser dito sobre o candomblé que esta é uma religião sem doutrina. Não é verdade, pois não apenas em sua liturgia, mas em todo seu “corpo religioso”, ensinamentos são milenarmente transmitidos, a fim de ajudar o homem a construir-se de maneira sagrada. O que acontece é que não é objetivo primordial do candomblé doutrinar ninguém, mas sim permitir que cada um aprenda através de sua própria essência divina. Afinal, ensinamentos não podem ser impostos, uma vez que apenas o orí (cabeça) de cada um sabe o momento de absorver os aprendizados que necessita.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Ela escreve, quinzenalmente, artigos que são publicados em A TARDE, sempre às quartas-feiras 


Balaio de Ideias: Somos muitos sendo um só

postado por Cleidiana Ramos @ 1:01 PM
5 de julho de 2012

Mãe Stella nos traz mais uma bela reflexão sobre o candomblé. Foto: Haroldo Abrantes / Ag. A TARDE/ 18.11.2009

Maria Stella de Azevedo Santos

Muitas moram em mim. E são essas muitas que se unem em uma só a fim de escrever quinzenalmente para o jornal A TARDE. Às vezes quem escreve é uma mulher de 87 anos, cuja experiência vivida deseja transmitir aos leitores; outras vezes é a mãe espiritual, que aproveita a ocasião para “puxar as orelhas” dos filhos; algumas poucas vezes é a “poetisa” que mora escondida e que só se expressa quando sente não mais suportar a dureza da vida; dias há que quem escreve é a mulher responsável e comprometida com um jornal, e que mesmo sem inspiração faz sua mente esforçar-se para que o prazo de entrega do artigo não expire. O artigo de hoje foi escrito pela iyalorixá que lutou, e luta, para que o trabalho de suas antecessoras não tenha sido em vão; para que o candomblé, religião professada por elas e por mim, não seja temido e sim respeitado. Entendendo que o respeito advém do entendimento, optei por escrever uma sequência de artigos que colaborem para um melhor entendimento do instinto religioso, o qual é inerente aos seres humanos, e como o candomblé lida com esta parcela da grandiosa, complexa e inalcançável natureza humana.

Nem o grande e importante avanço da ciência, para quem a comprovação de dados é fundamental, impediu ou diminuiu a necessidade que tem o homem de conexão com o misterioso mundo divino, que se acostumou a denominar de processo religioso. Muito se discute se uma corrente religiosa é seita ou religião, como se um simples termo pudesse definir um estado de ser. Isso só ocorre porque a humanidade ainda opta pela rivalidade, concorrendo com pessoas que pretendem a mesma coisa: comungar com o divino. Eu mesma, como humana que sou, quando sinto em alguém a tentativa de desvalorizar a religião que professo, esqueço-me que ela não precisa de defesa e termino por cair no jogo da rivalidade entre as religiões: um sentimento vaidoso me toma e afirmo que o candomblé é uma religião constitucional, composta de cosmogonia, dogmas, liturgia, rituais, blá, blá, blá… Esses termos são úteis, sim, quando o intuito é apresentar as diferentes formas que cada grupo encontra para manifestar sua relação com o mundo divino. É uma maneira didática de transmitir conhecimentos de modo que estes possam ser entendidos com uma maior facilidade.

É comum conceituar-se seita usando-se como critério a etimologia da palavra. Isso implica dizer que seita é um segmento, uma facção independente, de uma religião já organizada. Não creio estar o problema no fato de um grupo religioso ser uma seção de outro, mas, sim, no fato de um líder religioso, seja ele iyalorixá, padre, pastor, monge, etc., tentar neutralizar o livre pensar de seus liderados, além de excitar a rivalidade entre membros de crenças aparentemente diferentes da sua. Afinal, não existe “o meu deus” e, sim, a ideia de deus. Respeitar o pensar do outro talvez seja a principal característica de um verdadeiro religioso, pois esta é uma das formas de se estar conectado com o divino que existe em cada filho de Deus, consequentemente com Deus. Respeitar até o direito do grupo de pessoas que não acredita em Deus – os ateus, que de tanto preconceito sofrido, perceberam a necessidade de fundar uma associação – ATEA –, que busca diminuir o desconhecimento sobre esta forma de pensar.

De maneira variada, as religiões ou seitas encontram a forma própria de exercitar sua crença. É, entretanto, possível perceber elementos comuns a todas elas, que são, exatamente, a cosmogonia, a liturgia… Nesses elementos estão guardados os pensamentos subjetivos de cada grupo religioso, os quais independem de comprovação científica e servem para estruturar o ser humano consigo e com a comunidade em que vive. Somos muitos em um só. Serei professora na série de artigos que se seguirá, tentando transmitir aos leitores como os adeptos do candomblé entendem o surgimento do cosmo (cosmogonia); realizam sua liturgia (rituais públicos); aceitam seus dogmas (verdades inquestionáveis de um grupo) e praticam seus rituais (cerimônias realizadas em momentos específicos).

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente ela publica artigos em A TARDE, sempre às quartas-feiras.


Balaio de Ideias: 6+12=5

postado por Cleidiana Ramos @ 2:39 PM
21 de junho de 2012

Mãe Stella explica o sentido da prosperidade na visão do Candomblé. Foto: Edmar Melo/Ag. A TARDE/ 30.07.2003

Maria Stella de Azevedo Santos

Para quem tem como prática religiosa o culto aos orixás, o dia 6 do mês 6 foi, e continuará sendo, de extrema importância. Afinal, no profundo sistema numérico do jogo de búzios, o número 6 foi o responsável por trazer a prosperidade para a Terra. Para o povo africano, de quem herdamos uma boa parcela de nossa filosofia de vida, ser próspero é uma obrigação. Por isso, nessa data, o “povo de santo” fica todo ouriçado: põe suas melhores joias, sai para fazer compras e faz oferendas. Tudo para atrair prosperidade. O alcance dessa graça é um dos maiores desejos do ser humano. Mas quem é essa tão desejada prosperidade?…

Diferente do que normalmente se costuma pensar, a filosofia yorubá não relaciona prosperidade, apenas, a dinheiro. A referida palavra quer indicar uma reunião de circunstâncias que precisam ser buscadas, para que se vá alcançando, continuamente, um estado mais elevado do ser, em seus diferentes aspectos: físico, emocional, social, espiritual e, é claro, financeiro. Até mesmo porque de nada adianta se ter muito dinheiro sem a tranquilidade necessária para saber usá-lo com sabedoria.

Quando elevamos nossos pensamentos aos orixás, dizemos: Olu wá mi, fún mi ni ekun fún mi ni owo = Venha meu senhor e me traga força pura para que eu possa ter dinheiro. Força pura é o axé que permite que os obstáculos sejam vencidos. É um grande risco, então, pedir dinheiro aos deuses, sem que se tenha antes pedido e alcançado o axé necessário para que ele seja um aliado e não um inimigo. Dinheiro, sexo e poder são como “faca de dois gumes”: tanto podem levar à ascensão como ao fracasso.

Este artigo é fruto da vivência que tive com dois filhos meus. Um pela empolgação e outro pela curiosidade demonstraram interesse de conhecer mais profundamente, e de acordo com a tradição que os guia, um tema a que outras tradições também se dedicam com afinco – a prosperidade, que na cultura yorubá é simbolizada pelo número seis. É através da leitura dos números que esse povo e seus descendentes encontram soluções para as dificuldades diárias. Os números falam e os mitos nos ajudam a entender o que eles dizem. Sem o conhecimento das histórias míticas nunca entenderíamos o porquê de ser dito: 6 + 12 = 5:

O número 6 e o número 12 surgiram de um bloco de ouro. Eles se apaixonaram, perdidamente. Dessa união nasceu Ajé – orixá símbolo da riqueza –, irmã de Oxum – a dona da pérola e de outras pedras preciosas, orixá que tem no número 5 uma de suas formas de se comunicar. Do número seis, portanto, nasceram a riqueza e o costume de usar joias; mas também com ele vieram a vaidade e o orgulho, que podem levar à destruição de tudo que se conquistou. Esse número lembra-nos que o destino das criaturas é a prosperidade e que a humildade é uma das condições fundamentais para a aquisição desta graça.

O número 6 nos conta, através de um de seus mitos:

Todos os anos, Olorum fazia uma festa e convidava os números 1 a 16, a fim de que eles prestassem conta de seus atos na Terra. Encerrada a reunião, todos eram presenteados de acordo com o valor de seus méritos. Naquele ano, porém, a Divindade Suprema resolveu que daria um presente igual para todos. O número 6 era muito pobre e por isto seus irmãos foram até sua casa, antes da festa, para almoçar. A real intenção era humilhar o dono da casa, que mal tinha como alimentar sua própria família. Seis deu tudo que tinha guardado para a alimentação do mês. Nem assim deixou de sofrer gozação. Já cansado de tanta humilhação, ele desistiu de ir à tal reunião. Olorum sentiu sua falta, mas nada comentou.  No final da festa, os números, de 1 a 16 (menos 6), receberam uma abóbora. Todos ficaram revoltados com um presente tão simples e despejaram todas as abóboras na casa de 6. Eles só não sabiam que os frutos estavam recheados com ouro e joias. No ano seguinte, todos se surpreenderam ao ver que o mais pobre dos irmãos era agora muito rico. Olorum, então, disse-lhes: Vocês todos têm riqueza, mas 6 tem prosperidade.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. A cada 15 dias seus artigos são publicados no jornal A TARDE, sempre às quartas-feiras.


Balaio de Ideias: Ouvi, vi, li,aprendi, transmiti

postado por Cleidiana Ramos @ 2:35 PM
8 de junho de 2012

Mãe Stella faz reflexão sobre capacidade de estar aberto a aprender. Foto: Diego Mascarenhas / Ag. A TARDE/ 09.07.2010

Maria Stella de Azevedo Santos

OUVI: Os meus mais velhos me contavam que no início dos tempos os homens não admitiam ter um líder entre eles. Ôlôrun, então, determinou que fizessem a primeira eleição na Terra, a fim de que um líder fosse escolhido para dar fim à anarquia existente. A ordem foi dada no sentido de que todos, independente de sexo, idade e cor, participassem da disputa. Enfim, que a disputa fosse democrática. Contrariando as ordens de Ôlôrun, os mais velhos decidiram que o líder seria escolhido entres eles, optando-se por aquele que tivesse mais cabelos brancos. Ôlôrun não admitiu mais aquela desobediência e disse que todo velho merece respeito, mas que nem todos são dignos dele, pois os ladrões, assassinos e canalhas também envelhecem.

VI: Eu estava passando por uma rua estreita, quando vi um homem relativamente forte ameaçando outro que era deficiente físico. Fiquei atenta, pois se houvesse agressão física a luta seria desigual. Mas alguém chamou a polícia e tudo ficou resolvido. Fui, então, estar com o homem aparentemente mais frágil, a fim de confortá-lo, quando ele me disse: “só agora entendi porque deus me fez com dificuldades físicas, pois se eu não as tivesse seria um valentão, provavelmente estaria perdido no caminho, e ao invés de estar em uma cadeira, eu estaria agora em uma prisão”.

LI: “Era uma vez um rei que vivia sempre acompanhado por um sacerdote. Todas as vezes que o rei se queixava com o sacerdote, este dizia: ‘Tudo que Deus faz é certo’. Um dia, os dois saíram para caçar. Por acidente, o sacerdote arrancou um dedo do rei com o machado. O rei esbravejou com o sacerdote, que disse: ‘Tudo que Deus faz é certo’. Mais enraivecido ainda, o rei mandou prender o sacerdote. Tranquilamente, este disse: ‘Tudo que Deus faz é certo’. Mesmo sem um dedo, o rei retornou às caçadas, quando foi atacado por uma tribo de canibais. No momento de ser comido pelos canibais, um deles percebeu a falta do dedo no rei e o libertou, pois naquela tribo pessoas mutiladas não serviam como alimento. Só então o rei percebeu o significado das palavras usadas pelo sacerdote. Agradecido à providência divina e ao sacerdote, já que graças à falta do dedo sua vida tinha sido salva, o rei ordenou que o sacerdote fosse libertado. O rei já tinha compreendido que tudo que deus faz é certo, mas uma coisa ainda o intrigava. O rei, então, foi conversar com o sacerdote e lhe perguntou: ‘Como Deus permitiu que um homem tão bom como Vossa Reverendíssima ficasse preso? Ao que o sacerdote respondeu: ‘Tudo que Deus faz é certo. Se eu não estivesse preso, seria caçado junto com Vossa Majestade. Como não sou mutilado, estaria morto neste momento’.”

APRENDI: Eu aprendi com o que ouvi, vi e li que por mais idade que se tenha ninguém é sábio suficiente para que não continue sendo um permanente aprendiz. Tanto que o provérbio yorubá diz: “Ôlôgbön kan ò ta kókó omi sétí aÿö” = “Não há sábio que consiga prender com um nó a água na roupa”. Por isso, mesmo que com o passar da idade os órgãos do sentido não funcionem como antes, é preciso continuar ouvindo, vendo e usando a língua com sabedoria para transmitir aos mais novos as permanentes novas lições que se recebe a todo dia, a todo instante. Viver é aprender! Aprender é ensinar! Ensinar é reaprender!

TRANSMITI: A vida deu para mim a oportunidade de poder transmiti os muitos ensinamentos que recebi de deuses e homens. Sendo um dos mais úteis a noção de que nem todo mau é mal e nem tudo que parece bom seria para nosso bem. Afinal, tudo que deus faz é certo, até quando nos parece errado. Mas não sou a única a poder transmiti aprendizados. A todos é dado o direito e principalmente o DEVER de buscar aprender constantemente e revelar, da maneira que lhe for possível, os conhecimentos adquiridos, mesmo quando estes ainda não foram incorporados em sua personalidade. Pois, o exemplo é muito importante, mas não necessariamente tudo. Ninguém precisa, por exemplo, deixar de comer açúcar, para ensinar aos filhos o mal que esta substância faz ao corpo físico, quando ingerida em excesso.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá


Balaio de Ideias: Na encruzilhada da vida

postado por Cleidiana Ramos @ 5:26 PM
23 de maio de 2012

Mais um belo artigo de Mãe Stella. Foto: Fernando Vivas/ Ag. A TARDE/ 31.07.2010

Maria Stella de Azevedo Santos

Quando se fala em encruzilhada, imediatamente surge na cabeça dos brasileiros a ideia de Exu e de “bozó”, nome pelo qual o povo gosta de designar as oferendas que o povo de candomblé faz fora do terreiro-templo. Claro que a referida divindade está, sim, ligada aos entrecruzamentos de caminhos. Mas o simbolismo da encruzilhada e, consequentemente, da cruz está presente em muitas religiões, sendo, assim, universal. O catolicismo soube enaltecer e ao mesmo tempo popularizar a imagem da cruz, mostrando Jesus sacrificando-se pela humanidade, momento em que ultrapassou seu estágio humano. A cruz, com seus quatro “braços” que apontam para os quatro pontos cardeais, é símbolo de orientação no espaço, para que a jornada humana não seja perdida.

A encruzilhada, portanto, é um lugar de pausa, um momento parado no tempo, que leva à mudança de um estágio a outro ou, simplesmente, de uma situação a outra. Quando, portanto, oferendas nas encruzilhadas são depositadas, está se pedindo inspiração para o novo caminho que se deseja trilhar. Está se pedindo a quem? A Exu, que é, na crença nos orixás, a divindade orientadora dos caminhos, responsável por mostrar a direção correta a ser tomada, tendo em vista que as dúvidas e incertezas possam, por fim, dar o descanso necessário à mente. Exu é a nossa bússola, aquele que nos protege para que não fiquemos desnorteados. Afinal, enquanto seres humanos, nós somos muito instáveis.

Em rituais celebrados pelo candomblé, a característica de instabilidade do ser humano é cantada: Pákun aboìxá; Ibà pa ràn tán axó dá ma aro; a fi dà wa rá àxé akó ma orixá; orixá wa baba alaye = Apague o fogo dos incêndios e nos proteja do aguaceiro; apague o fogo, o calor que se alastra; termine com as muitas discussões e tristezas criadas; nós somos instáveis, transforme-nos, imploramos sempre pelas suas instruções e sua doutrina, orixá. Seja nosso mestre, o dono do nosso modo de viver. Cecília Meireles, em seu poema Ou isto ou aquilo, também nos lembra dessa particularidade, que tanto desgaste dá à mente humana:

“Ou se tem chuva e não se tem sol/ ou se tem sol e não se tem chuva!// Ou se calça a luva e não se põe o anel/ ou se põe o anel e não se calça a luva!// Quem sobe nos ares não fica no chão,/ quem fica no chão não sobe nos ares.// É uma grande pena que não se possa/ estar ao mesmo tempo em dois lugares!// Ou guardo o dinheiro e não compro o doce/ ou compro o doce e gasto o dinheiro.// Ou isto ou aquilo… ou isto ou aquilo…/ e vivo escolhendo o dia inteiro!// Não sei se brinco, não sei se estudo/ se saio correndo ou fico tranquilo// Mas não consegui entender ainda/ qual é melhor, se é isto ou aquilo.”

A vida nos coloca sempre em encruzilhadas, onde somos obrigados a escolher que atitude tomar, por isto se diz que é na encruzilhada que se encontra o destino. É que as encruzilhadas, isto é, os cruzamentos de caminhos, são espaços sagrados, daí a responsabilidade que se deve ter com os rituais e, consequentemente, os pedidos feitos nestes locais. Por exemplo, é comum o hábito de se depositar oferendas para determinadas “entidades”, com o objetivo de conseguir um amor. Inocentes pessoas que, sem o conhecimento devido, não sabem que os amores assim conseguidos são passageiros, tanto que em latim a palavra encruzilhada é conhecida como trivium, significando aquilo que é trivial, que é efêmero.

Repetindo, as encruzilhadas são lugares sagrados onde se pede ajuda aos deuses para que tenhamos critérios nas escolhas feitas, a fim de não nos perdermos no caminho. São também nesses locais que pessoas que possuem o devido preparo espiritual, com muita responsabilidade e respeito, realizam rituais cuja finalidade é despachar, no sentido de expulsar, as energias negativas, que o sagrado consegue transmutar em energias positivas, para depois serem devolvidas aos homens, já livre de todas as impurezas. Pois as encruzilhadas são lugares, e momentos, de reflexão para escolha do caminho a seguir, mas também são lugares naturais para que possamos nos desvencilhar das negatividades por nós criadas ou em nós respingadas.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, seus artigos são publicados no jornal A TARDE, sempre às quartas-feiras.


Balaio de Ideias: Feliz “Dia das Corujas”, mamães

postado por Cleidiana Ramos @ 12:00 PM
10 de maio de 2012

Mãe Stella faz reflexão sobre o papel das mães. Foto: Antonio Queirós/Ag. A TARDE/ 09.04.2004

Maria Stella de Azevedo Santos

O Dia das Mães serve para homenagearmos aquelas que fazem da vida delas uma permanente homenagem aos filhos. A minha mãe, que trouxe meu corpo físico para a Terra, faleceu quando eu tinha apenas seis anos de idade, mas a memória de meu corpo guarda até hoje os carinhos recebidos. É costume dizer que mãe é aquela que “dá a luz”, no sentido de que dá o nascimento, mas também é mãe toda aquela que ilumina o caminho de alguém, orientando, educando, aquecendo o filho com mimos e afetos. Foi assim que fui criada e principalmente educada não só por minha tia, mas também por Joaninha, uma das muitas outras filhas de criação de minha saudosa tia, que no candomblé que hoje está sob os meus cuidados tinha o cargo de Sobaloju.

Se eu fui educada socialmente por todas essas pessoas queridas, espiritualmente contei com mais uma mãe: Oxum Miwa – minha Mãe Senhora, que foi para mim uma senhora mãe. A doce filha das águas que, vaidosa, cuidava para que sua aparência física expressasse, de maneira mais límpida possível, seu interior. Como o espelho usado por Oxum, era através da contemplação de seus atos que buscávamos formar nossa realidade e refletir sobre a realidade da vida. Mãe Senhora se confundia com sua própria essência – a água, que tem na capacidade de adaptação ao recipiente ao qual está contida uma de suas principais características.

É um desafio falar de um tema que nasceu junto com a humanidade, tendo sido, portanto, já comentado por muitos, sob os mais diversos aspectos e os mais diferentes estilos. Já comentado inclusive por mim, em maio de 2011, neste mesmo jornal. Preocupada em ser repetitiva, cheguei a pensar em não abordar mais este tema. Meu coração não permitiu. Como aprendi que “manda quem pode e obedece quem tem juízo”, simplesmente resolvi obedecer. Que seja, então, o que meu coração ordena, que é o mesmo que dizer: “seja o que deus quiser”, pois também aprendi, com os longos anos de vida, que deus mora na cabeça, mas reside no coração. Uso aqui o verbo residir não como sinônimo de morar, mas sim como verbo transitivo indireto, significando manifestar-se. Pois, se deus habita nossa cabeça, é através de nosso coração que ele se declara e se expressa.

No caso específico deste artigo, imploro às deusas que usem meu coração para iluminar os corações de todas as mães que, assim como eu, devem viver em estado constante de inquietação a se perguntarem: será que estou sendo uma boa mãe? Compartilho com minhas colegas mães a fórmula mágica que a mim foi dada pela sabedoria popular, tendo em vista aplacar estes momentos de crise: “pé de galinha não mata pinto”. Ufa! Pensar assim é o mesmo que dar ao coração um chá de erva cidreira: ele fica calminho, calminho. Como mãe que sou, posso usar e abusar do direito de aconselhar. Ainda mais que já sou uma mãe agbá – uma mãe velha. E sendo a semana do Dia das Mães, então, melhor ainda. Portanto, segue o que creio ser o maior conselho que posso dar às minhas coleguinhas “corujas”: vivam com toda a intensidade e profundidade possível cada etapa da vida de seus filhos, pois nenhuma fase é melhor do que a outra, em todas vocês encontrarão alegrias e dificuldades.

Talvez vocês não queiram pensar nisso, mas essas fases passam, deixando uma saudade que só pode ser preenchida caso entendam que filhos são para sempre. E se não existem ex-filhos, as dificuldades nunca deixarão de existir, mas, para a nossa alegria, as alegrias também não. Se um dia foi gostoso forrar os cadernos que os filhos iriam levar para um novo ano letivo, delicioso também será vê-los vibrar porque passaram no vestibular ou conseguiram o primeiro emprego. Abusando do direito de aconselhar, finalizo pedindo a vocês, mães, que tenham cuidado para não fazerem da bela missão da maternidade um drama penoso de ser vivido e enfrentado. Observem que peço apenas que não façam da maternidade um drama, nunca que não sejam dramáticas, pois uma mãe que não é dramática nem parece que é mãe. Beijos e bênçãos para todas vocês, “mamães corujas”, e para seus, com certeza, lindos filhotes.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, seus artigos são publicados no jornal A TARDE, sempre às quartas-ferias


Balaio de Ideias: Há sacerdotes e sacerdotes

postado por Cleidiana Ramos @ 5:20 PM
2 de maio de 2012

Hoje, no dia do aniversário de Mãe Stella, quem ganha um presente somos nós: os leitores dos seus sábios e profundos artigos. Como na quarta-feira passada não foi possível fazer a publicação, deixei para fazê-la hoje e aproveitar para dar os  parabéns a Mãe Stella.

Mãe Stella faz hoje 87 anos. Foto: Margarida Neide / Ag. A TARDE/ 11.09.2009

Maria Stella de Azevedo Santos

O povo brasileiro, por ter vivido séculos vinculado a uma religião dominante – o catolicismo, entendeu como sendo sacerdotes apenas os padres. Na verdade, é sacerdote todo aquele que ministra um culto divino e dá instruções religiosas, com o objetivo de servir de ponte entre o sagrado e o profano.

No Dicionário de Aurélio, também encontramos que sacerdote é um “feiticeiro que oficia nas sessões de catimbó”. Catimbó é uma palavra geralmente usada para designar as várias religiões que fazem uso de magia em seus rituais. Visando diminuir o preconceito, que nada mais é do que um conceito formado sem conhecimento de causa, eu tentarei esclarecer para os leitores o que é magia: são saberes, crenças e práticas reveladas, através das quais determinadas forças da natureza são manipuladas, visando diminuir a distância entre Deus, deuses, e homens. Quando os saberes e práticas reveladas se institucionalizam em um determinado grupo social, uma religião é constituída, como é o caso do candomblé.

Por ser uma religião surgida no Brasil através de um povo escravizado, não letrado, que não fazia parte nem da considerada mais baixa classe social, que não era visto nem mesmo como humano e sim como objeto de trabalho e lucro, o candomblé sofre ainda hoje preconceito, até por parte de seus iniciados.

Tanto que muitos “filhos-de-santo” se consideram e afirmam para a sociedade que eles são católicos. Isso acontece por medo de descriminação, por hábito herdado da família e da sociedade. Mas o pior é quando isso acontece por falta de reflexão. Se todo ser humano tem por obrigação refletir, isto é, pensar e repensar sobre sua vida, imagine alguém que se dispõe a ser um “filho-de-santo”, um iniciado do candomblé, enfim, um sacerdote.

Preconceito ainda maior se deve ao fato da referida religião trabalhar com magia e esta ser, como já falei, desconhecida nos seus fundamentos e propósitos, ou ainda ser mal utilizada por pessoas inescrupulosas, irresponsáveis e gananciosas, que iludem pessoas que querem ou precisam ser iludidas, transformando religião em comércio e acreditando que podem barganhar com o sagrado.

Muito da visão equivocada que nosso povo tem sobre os feiticeiros, deve-se exatamente aos próprios feiticeiros, principalmente àqueles do tempo da escravidão, que faziam uso de números de ilusionismo para mostrar que, assim como os brancos, eles tinham também força e poder. Ainda hoje vemos esse tipo de “feiticeiro”, que mesmo não precisando mais fazer uso desses recursos, deles se valem para alimentar a vaidade de seus egos e tirar lucro financeiro.

Os falsos feiticeiros em questão gostam sempre de dizer que feitiços maléficos foram feitos para aquela pessoa que o buscou e que por isto oferendas de custos elevados precisam ser feitas. Se me surpreendem esses falsos sacerdotes, surpreendem-me mais ainda as pessoas que acreditam neles. Na verdade, elas gostam de ouvir que estão enfeitiçadas. É uma forma de se autovalorizarem. Muitas das pessoas que buscam meu auxílio se esforçam para me convencer que estão sendo vítimas de feitiçaria e é um custo remover estes pensamentos delas. Para que os sacerdotes da religião dos orixás não caiam nessa armadilha, eles precisam retirar o véu da vaidade que encobrem seus olhos e que faz com que se percam no caminho que os conduziriam à verdadeira comunhão com o divino.

Feiticeiro é todo aquele que faz encantamentos e é por isto um ser encantado. A palavra ajé, que o povo de candomblé tanto teme, apenas significa mulher que encanta e seduz. Sem medo nenhum de usar a palavra, digo para todos os feiticeiros, principalmente para os que tenho obrigação de orientar, que façam bom uso da magia, utilizando-a para auxiliar àqueles que os procuram, no sentido de vencerem os obstáculos, sem prejudicar nem interferir no destino do outro. Concluo alertando aos sacerdotes do candomblé que assim como não fica bem para um juiz infringir a lei, que a ele foi dada a tarefa de fazer com que seja cumprida, também não fica bem para um sacerdote ter comportamentos incompatíveis com sua função.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, sempre às quartas-feiras,o jornal A TARDE publica seus artigos.  


Balaio de Ideias: O “órum” está em festa

postado por Cleidiana Ramos @ 4:58 PM
11 de abril de 2012

Mãe Stella fala sobre "imortais" que partiram em março, como Ederaldo Gentil. Foto: Arquivo A TARDE

Maria Stella de Azevedo Santos

Órum é o nome dado pelo povo yorubá ao que normalmente costumamos chamar de céu. Para lá seguiram em um mesmo mês, março: Cidália de Iroko, uma das poucas sacerdotisas do Brasil consagrada ao orixá Iroko, filha de Mãe Menininha do Gantois, que como diziam os antigos fazia parte da guarda-velha, pois ela era depositária de grandes conhecimentos relativos ao candomblé; o mestre Chico Anysio que, sutilmente, nos fazia lembrar que podemos ser muitos em um só; Millôr Fernandes que, sabiamente, tinha em si os fundamentos de várias religiões e filosofias, sem se deixar prender a nenhuma; e, por último, seguiu para o “órum” um dos maiores poetas da música brasileira, Ederaldo Gentil, que compôs o que costumo chamar de “minha música” – O ouro e a madeira –, através da qual somos alertados de que sendo menos, podemos ser muito mais. Ele assim cantava:

“Não queria ser o mar, me bastava a fonte; muito menos ser a rosa; simplesmente o espinho; não queria ser caminho, porém o atalho; muito menos ser a chuva, apenas o orvalho. Não queria ser o dia, só a alvorada; muito menos ser o campo, me bastava o grão; não queria ser a vida, porém o momento; muito menos ser concerto, apenas a canção. O ouro afunda no mar, madeira fica por cima, ostra nasce do lodo, gerando pérolas finas”.

Ederaldo Gentil não morreu, ele apenas desistiu de viver em uma sociedade onde a grande luta é pelo poder e pela fama; onde as pessoas correm e pisam umas nas outras visando alcançar o primeiro lugar, e quando lá conseguem chegar continuam pisando; onde as pessoas se esqueceram da sabedoria do segundo lugar, posicionamento que nos mantém olhando sempre para o alto, lembrando-nos que o primeiro lugar é um horizonte perdido como Shangri-la, uma espécie de paraíso que creio precisa ser encontrado, primeiro, dentro de si mesmo.

A humildade do segundo lugar guiou a caminhada de Ederaldo Gentil, que mais uma vez a enalteceu quando cantou: “Sou o menor dos pequeninos, o mais pobre dos plebeus, o alheio inquilino, o mais baixo pigmeu, o comum do singular, o último dos derradeiros, viandante e peregrino, o mais manso dos cordeiros. Eu sou maior em lampejos de brandura, de angélica candura dos mistérios do amor. Sou bem maior que os pinheirais da humildade, pelos campos da bondade, eu sou a felicidade”.

Ederaldo Gentil guardava em seus olhos a tristeza dos que estão vendo o que quase ninguém consegue ver  e por isto são tomados por uma síndrome que acomete os grandes poetas. Confundida muitas vezes com depressão, a síndrome dos poetas revela um estado quase que permanente de melancolia, que nosso Ederaldo Gentil soube demonstrar através de uma composição onde a dor da constante dor ganha uma leveza que só os poetas conseguem transmitir. Ele canta:

“Depois que Maria da Graça foi embora, não tenho graça na vida. A vida pra mim é sem graça, toda hora escuto um cadê a Graça que eu tinha na vida, a graça que eu tinha em meu ser. Como posso eu viver sem Graça, se já não tenho graça em meu viver? Um dia aparece Aparecida, no outro Maria José, Maria das Dores da vida, Maria dos Prazeres de Nazaré. Assim eu vou vivendo nessa vida uma farsa, pois minha vida sem Graça não tem graça”.

Seria até lógico dizer que Ederaldo Gentil foi acometido pela depressão em virtude de seus poemas melodiosos não mais encontrarem espaço na mídia e por isto não atingirem o sucesso almejado por todos. Seria lógico, mas não provável. Quem teve o prazer de conhecê-lo ou de ver uma imagem sua da época em que explodia nos meios de comunicação, pode observar a tristeza já presente em seus olhos, os quais já espelhavam seus profundos sentimentos. Porém, são imortais todos que fazem de sua vida uma grande obra. Como Jorge Amado, Cidália de Iroko, Chico Anysio, Millôr Fernandes, Ederaldo Gentil não morreu. Parafraseando Gustavo Corção, digo: “Os seus acordes finais não são um fim. O silêncio que os segue não é um vazio. Os acordes finais anunciam que a beleza se consumou. E o silêncio que se segue é para que o encantamento não seja quebrado”.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. A cada 15 dias, artigos de sua autoria são publicados  no jornal A TARDE, sempre às quarta-feiras.