Museu Afro recolhe donativos para o Haiti

postado por Cleidiana Ramos @ 3:06 PM
26 de janeiro de 2010
Insitituição baiana participa de campanha para auxílio às vítimas da tragédia no Haiti. Foto: EFE |David Fernández

Instituição baiana participa de campanha para auxílio às vítimas da tragédia no Haiti. Foto: EFE |David Fernández

Para quem quiser ajudar as vítimas do terremoto no Haiti, o Museu Afro-Brasileiro da Ufba, está recolhendo alimentos não perecíveis.

A campanha é coordenada pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram). Os alimentos arrecadados serão encaminhados para a Cruz Vermelha.

A entrega deve ser feita na portaria do museu que fica no prédio do Faculdade de Medicina, no Terreiro de Jesus, Centro Histórico. O horário de funcionamento é das 9 às 18 horas, de segunda a sexta. Mais informações pelos telefones 3283 5540 / 5541


Artigo sobre o Haiti

postado por Cleidiana Ramos @ 12:18 PM
19 de janeiro de 2010

Publico abaixo o artigo assinado pelo professor Ubiratan Castro, doutor em História e presidente da Fundação Pedro Calmon, sobre a tragédia que se abateu sobre o Haiti.

O artigo foi originalmente publicado na edição de hoje de A TARDE, que aliás está fazendo uma excelente cobertura sobre o terremoto que destruiu o País.

Como tudo o que o professor Ubiratan escreve é uma belíssima aula, não só de História, mas também uma análise política de quem conhece de perto o Haiti.


Balaio de Ideias:Após o tremor, ai de ti, pobre e devastado país chamado Haiti

postado por Cleidiana Ramos @ 12:17 PM
19 de janeiro de 2010
 

 

 

Professor Ubiratan Castro analisa situação do Haiti. Foto: Marco Aurélio Martins | AG. A TARDE

Professor Ubiratan Castro analisa situação do Haiti. Foto: Marco Aurélio Martins | AG. A TARDE

 

 

Ubiratan Castro

O mundo ficou estarrecido com o terremoto que destruiu Porto Príncipe. Os terremotos não têm qualquer relação com os regimes políticos, com características socioculturais ou mesmo com os credos religiosos praticados pelos povos.

Os movimentos das placas tectônicas provocam terremotos na Itália, nos EUA e no Haiti. No entanto, no Haiti, o país mais pobre das Américas, os efeitos são devastadores.

Conheci o Haiti por sua história de luta contra a escravidão de africanos e seus descendentes. Com o nome de São Domingos foi a mais importante colônia francesa, maior produtora de açúcar das Américas no século XVIII.

Em uma superfície comparável ao Recôncavo baiano, os colonizadores apinharam mais de 500 mil escravos, em sua maioria africanos.

A violência da escravidão desencadeou uma resistência escrava, que antecedeu a grande revolução negra, a partir de 1789, com a eclosão da Revolução Francesa, até 1804, data da Independência nacional haitiana.

Foi a única revolução escrava vitoriosa nas Américas. A escravidão foi erradicada, os senhores foram expulsos ou mortos, as terras e engenhos distribuídos com os trabalhadores e proclamou-se a república dos africanos e seus descendentes.

O nacionalismo negro foi consagrado na constituição do país. Ainda hoje, na linguagem coloquial, o tratamento de neg (negro) é sinônimo de cidadão.

A república negra do Haiti foi considerada o grande perigo para a escravidão imperante nas Américas. Estabeleceu-se um rigoroso cordão sanitário em torno daquela meia-ilha, de modo a impedir a propagação da revolução escrava em outros países.

Longe de Deus e perto dos EUA, como dizem os mexicanos, o Haiti foi vítima de várias invasões militares americanas. A mais longa durou de 1915 a 1934, quando os EUA sequestraram as rendas da alfândega haitiana a título de pagamento da dívida externa.

A mais recente intervenção foi o apoio ao deposto presidente Aristides, que seguiu ao pé da letra as lições americanas sobre o Estado mínimo. Ele praticamente destruiu o Estado haitiano, suprimindo serviços de saúde, obras públicas e, sobretudo, extinguindo o exército nacional. Oficiais e praças foram mandados para casa, sem salários e com as armas na mão. O resultado foi a formação de bandos paramilitares.

Estive no Haiti em quatro missões oficiais. Algumas evidências foram muito fortes para mim. A primeira foi a miséria mais generalizada e mais aguda, sem referência comparativa com qualquer favela brasileira ou musseque africano.

A segunda foi a insuficiência grave de serviços públicos básicos. A terceira foi a atuação do Exército Brasileiro no comando da força de paz da ONU, um exemplo de respeito aos direitos humanos.

Constatei também o valor do povo haitiano. Apesar da pobreza, vi um povo trabalhador, orgulhoso de sua negritude e de sua história revolucionária, a sua afeição pelo Brasil e a esperança com a pacificação comandada pela ONU.
 
Ubiratan Castro é doutor em história e presidente da Fundação Pedro Calmon


Cresce movimento de repúdio a cônsul do Haiti

postado por Cleidiana Ramos @ 11:43 AM
19 de janeiro de 2010
A tragédia no Haiti, segundo o cônsul, era por conta dos haitianos mexerem com "macumba". Foto: AP Photo |Gerald Herbert

A tragédia no Haiti, segundo o cônsul, era por conta dos haitianos mexerem com "macumba". Foto: AP Photo |Gerald Herbert

As declarações do cônsul-geral do Haiti em São Paulo, George Samuel Antoine, continuam repercutindo negativamente. Organizações do movimento negro político e religioso já estão se articulando para pedir a sua saída do país e do cargo que ocupa.

Em Salvador,amanhã, quarta-feira, às 19 horas, haverá uma reunião sobre o tema na sede do Instituto Steve Biko, situado no Largo do Carmo, Pelourinho.

Dentre as declarações desastrosas dadas pelo cônsul, sem saber que uma equipe de reportagem do SBT estava gravando, está a de que a culpa pela tragédia que destruiu o Haiti era por conta da presença do Vodu, um culto de matriz africana extremamente forte no País. Clique aqui para conferir o post com o vídeo em que aparece a fala de Antoine. 

Segundo matéria do Instituto Mídia Étnica, o vídeo, disponível no Youtube, foi traduzido para o inglês e o espanhol e já começa a mobilizar repúdio também internacional.  

 


Cônsul pede desculpas

postado por Cleidiana Ramos @ 3:36 PM
15 de janeiro de 2010
Declarações do cônsul sobre a tragédia no Haiti soaram preconceituosas. Foto: AP Photo|The Canadian Press|Adrian Wyld

Declarações do cônsul sobre a tragédia no Haiti soaram preconceituosas. Foto: AP Photo|The Canadian Press|Adrian Wyld

O cônsul-geral do Haiti em São Paulo, George Samuel Antoine, pediu desculpas e atribuiu suas declarações de caráter preconceituoso não só às religões de matriz africana, mas também aos povos africanos,  ao “seu português ruim” em momentos de tensão. O cônsul está no Brasil desde 1975.

Registrem-se as explicações do cônsul, mas vai ser difícil torná-las convicentes, pois além do áudio tem as imagens. Clique aqui para ver post com o vídeo das declarações de Antoine.


Sandy critica atenção ao Haiti

postado por Cleidiana Ramos @ 8:56 AM
15 de janeiro de 2010
Sandy criou polêmica com declarações sobre a tragédia no Haiti. Foto: Zé Paulo Cardeal | Divulgação

Sandy criou polêmica com declarações sobre a tragédia no Haiti. Foto: Zé Paulo Cardeal | Divulgação

Do lado brasileiro, a polêmica ficou para as declarações que a cantora Sandy publicou em seu Twitter. A moça questionou o que considera uma atenção constante à catástrofe no Haiti, pois, segundo o seu raciocinio,  há pessoas sofrendo no Brasil precisando de ajuda.

“Tudo bem que a quantidade de vítimas foi bem maior no Haiti do que a de vítimas de catástrofes aqui no Brasil; mas tenho ouvido muito mais notícias de gente se mobilizando para ajudar o Haiti do que eu vi acontecer por aqui.  Será que isso é justificável?”, escreveu.

Depois completou: “Não tô querendo desmerecer a tragédia que ocorreu por lá, mas…”.

Por conta das mensagens de protesto que recebeu, a cantora partiu para o ataque:

“Aos ignorantes de plantão: eu não disse que não deveria ajudar, muito pelo contrário; só acho que o Brasil merece mais atenção do que tem tido”. A partir daí colocou links para ajuda ao Haiti e desabrigados do Rio Grande do Sul.

Acho que a cantora deve aprender que liberdade de expressão é caminho de duas vias, ou como diz aquele ditado: quem diz o que quer, ouve o que não quer… 


Cônsul do Haiti demonstra preconceito religioso

postado por Cleidiana Ramos @ 8:46 AM
15 de janeiro de 2010

Em meio à tragédia que se abateu sobre o Haiti, ainda tem gente que consegue achar tempo para destilar intolerância contra as tradições religiosas de matriz africana.

Depois do pastor norte-americano Pat Robertson ter dito que a catástrofe é efeito de um “pacto com o diabo” feito pelos haitianos para vencerem os franceses lá no século XVIII, agora é o próprio cônsul do país no Brasil, George Samuel Antoine, que não só considera a tragédia fruto da opção religiosa dos haitianos como também estende  este seu  raciocínio, no mínimo preconceituoso e irresponsável,  a todos os africanos.

Sem saber que estava sendo gravado pelo SBT Antoine fez as seguintes declarações:

-Acho que de tanto mexer com macumba… não sei o que é aquilo.

-O africano em si tem maldição. Todo lugar que tem africano tá f….

E ainda teve essa:

-Desgraça de lá está sendo uma boa pra  gente aqui,  fica conhecido.

Imaginem que é esta criatura que tem a missão de cuidar dos interesses do Haiti no Brasil. Isto tudo é por conta da forte resistência do vodu, que nada tem a ver com aquela imagem divulgada pelo cinema americano, na sociedade haitiana. 

Se vocês acharam inacreditável as palavras do cônsul  confiram no vídeo abaixo. É chocante. Agradeço ao leitor do blog que assinou como Primo que mandou o link com o vídeo.


Dados sobre mortos ainda é incerto

postado por Cleidiana Ramos @ 10:43 AM
14 de janeiro de 2010
Dados precisos sobre a tragédia no Haiti ainda não foram reunidos. Foto:  EFE

Dados precisos sobre a tragédia no Haiti ainda não foram reunidos. Foto: EFE

Mais cedo coloquei um post com a afirmação de que o número de mortes no Haiti por conta do terremoto chega a 100 mil pessoas.

Agora há pouco a Cruz Vermelha divulgou comunicado dizendo que os mortos chegam a 45 mil ou 50 mil pessoas, além de três milhões de feridos ou desabrigados.

A disparidade nas informações oficiais sobre os dados da tragédia, inclusive, as fornecidas pelo próprio governo, é mais um efeito do tamanho da catástrofe que não permite ainda sequer precisar o número de vítimas.   

 


Haiti: um sofrimento que não passa

postado por Cleidiana Ramos @ 9:11 AM
14 de janeiro de 2010
Terremoto é descrito como catástrofe. Foto:  EFE|Orlando Barría

Terremoto é descrito como catástrofe. Foto: EFE|Orlando Barría

A devastação provocada pela violência de um fenômeno natural- um terremoto- que assolou o Haiti e deixou um total aproximado de 100 mil mortos é mais um componente para alimentar a convulsão social que toma conta de um dos países da diáspora africana nas Américas.

É mais uma ocorrência extremamente triste e em um país que carrega uma forte  simbologia de luta pela liberdade. O Haiti aboliu a escavidão em 1794 numa ação bem diferente da demais: pelas mãos dos próprios  escravizados.

A liberdade chegou via o enfrentamento a um dos exércitos mais poderosos da época: o francês. A festa durou pouco pois seguiu-se um período de instabilidade, com a França recuperando seu papel de colonizador.

Um dos períodos mais conturbados da história do país foi o governo de François Duvalier, o Papa Doc e sua temida polícia política, os  tontons macoutes. Papa Doc governou de 1957 a 1971 e foi substituído por seu filho, Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc, um outro período de terror que durou até 1986.

De lá para cá a história não é muito diferente: sucessão de golpes, tentativas  frustradas de retorno da democracia, o óbvio agravamento da pobreza e as consequências de  tragédias naturais como furacões e tempestades.

A autal face da crise começou em 2004, com a derrubada do presidente Jean-Bertrand Aristide por rebeldes. Foi então que a ONU aprovou a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah) que o Brasil lidera desde junho de 2004.

O que os militares basicamente fazem por lá é tentar diminuir a onda de violência, com destaque para os sequestros, promovidos pelas  milícias.

Como é de se esperar o país está devastado, sem nenhum tipo de infra-estrutura. O atual presidente, René Préval, eleito em 2006, tem conseguido manter o cargo, mas ninguém se arrisca a dizer quando as forças da ONU vão realmente deixar o país.

O terremoto que está sendo considerado por especialistas uma catástrofe por conta da suas proporções ( 7 graus na Escala Richter, o equivalente à explosão de 30 bombas atômicas semelhante à que foi lançada em Hiroshima ) piora o que já era considerado inimaginável. A pergunta que todo mundo se faz agora é o que será deste sofrido país daqui para a frente.

Para quem deseja saber um pouco mais sobre os horrores do governo de Papa Doc tem o livro Os Farsantes, de Graham Greene. A obra virou denúncia contra os horrores cometidos por lá, a ponto de ter obrigado o ditador a tentar se explicar internacionalmente.

O livro virou um filme com o mesmo título do livro, dirigido por Peter Glenville,com as atuações de Elizabeth Taylor, Richard Burton e Alec Guiness          


Diáspora de Luto 2

postado por Cleidiana Ramos @ 4:32 PM
13 de janeiro de 2010
Fundadora da Pastoral da Criança, Zilda Arns, morreu por conta do terremoto. Foto: Pastoral da Criança| Divulgação

Fundadora da Pastoral da Criança, Zilda Arns, morreu por conta do terremoto. Foto: Pastoral da Criança| Divulgação

A Arquidiocese de Salvador divulgou uma nota expressando o seu pesar pelos acontecimentos no Haiti. A tragédia ganha conotações ainda mais próximas à comunidade católica por conta da morte de brasileiros, dentre os quais, a médica Zilda Arns, fundadora e coordenadora internacional da Pastoral da Criança, um dos mais bem sucedidos programas de combate à mortalidade infantil do mundo.

Quando a pastoral foi criada, em 1983, o hoje cardeal arcebispo de Salvador e primaz do Brasil, dom Geraldo Majella, era o bispo de Londrina, Paraná, onde o programa surgiu e, portanto, ele é considerado também um dos seus fundadores. Reproduzo abaixo a nota divulgada pela Arquidiocese:      

Nota de Pesar da Arquidiocese de São Salvador da Bahia pelas vítimas do Terremoto no Haiti 

A Arquidiocese de São Salvador da Bahia, na pessoa do Sr. Cardeal Arcebispo, Dom Geraldo Majella Agnelo, dos bispos Auxiliares, dos sacerdotes, diáconos, religiosos e religiosas e de todo o povo de Deus, sente-se profundamente entristecida com as consequências do terremoto que atingiu a já desafiada comunidade haitiana.

O povo do Haiti, em processo de reconstrução do país depois dos anos de exceção política, vê-se agora abatido por uma catástrofe de proporções inigualáveis. Empenhamos a nossa mais profunda solidariedade com nossos irmãos do Haiti, com orações e súplicas para que a reestruturação física acompanhe a recuperação humana e espiritual, mantendo viva a esperança e o espírito de luta tão próprios daquele povo.

A consternação pelo acontecido se amplia com a notícia da morte de brasileiros, entre os quais da Dra. Zilda Arns Neumann, médica, pediatra e sanitarista. Mulher que honrou o Brasil com seu trabalho de total doação à vida, através das crianças e suas famílias, Dra. Zilda deixa uma lacuna em nossos corações.

O sentimento de gratidão por todo bem que ela fez nos anos que lhe foram concedidos viver, deve despertar em todos nós um compromisso renovado em dar continuidade ao seu legado.


Diáspora de Luto 1

postado por Cleidiana Ramos @ 4:28 PM
13 de janeiro de 2010

Esta tragédia que se abateu sobre o Haiti e que, a cada nova notícia, ganha contornos ainda mais dramáticos, é daquelas de deixar sem palavras, mesmo os que tem como ofício expressar emoções, acontecimentos e ideias por meio delas.

Que todas as forças ancestrais que acompanharam as variadas etnias africanas em todas as suas diásporas dê a força necessária ao já tão sofrido povo haitiano.


Notícias do Carifiesta

postado por Cleidiana Ramos @ 7:10 PM
5 de julho de 2009

 Foto-do-Carnaval

Mais contribuição do nosso amigo André Santana que está em Montreal, Canadá. Desta vez o sortudo foi curtir o Carifiesta, que é um Carnaval Caribenho que acontece na cidade. A festa foi no sábado.

Olhem só parte do relato dele:

“Tinha tudo que tem em nosso Carnaval brasileiro: fantasias, percussão, carros de som, mulheres com pouca roupa e muita, mas muita alegria”.

Segundo André os grupos mais animados eram os da Jamaica, Haiti, Barbados, Granada e Trinidad e Tobago.

De acordo com ele, o Carnaval por lá é tranquilo e sem uso de álocool.

“Os poucos policiais observavam a festa sem preocupação, apenas saudavam as pessoas que passavam. Uma chuva fina caiu justamente quando os foliões atiravam talco para o ar. Daí se formou uma lama que os participantes aproveitam para passar no corpo uns dos outros com sensualidade e muito deboche. Depois de quatro horas, o desfile terminou, mas ainda rolaram bailes em parques proximos ao DowTown”.

Depois eu divulgo aqui o endereço do blog que ele criou para postar suas aventuras pelo Canadá.

 


Sonhos de uma manhã de futebol

postado por Cleidiana Ramos @ 6:26 PM
14 de junho de 2009
Iraque e África do Sul abriram a Copa das Confederações. Foto: AFP PHOTO | ALEXANDER JOE

Iraque e África do Sul abriram a Copa das Confederações. Foto: AFP Photo | Alexander Joe

Sou daquelas que enxergam num jogo de futebol muito mais do que 20 homens correndo atrás de uma bola, dois tentando fazer que ela fique longe deles e três tentando colocar ordem no palco da peleja que é o gramado.

Naqueles 90 minutos que dura a partida costumo ter sentimentos contraditórios- raiva, desespero, frustração, alegria, esperança, leveza e tantas outras manifestações da paixão humana.

Mas sobretudo gosto de futebol pelo simbolismo de que algumas partidas se revestem. Nos gramados acontecem encontros felizes e triunfos quase impossíveis de acontecer na vida real. E digo isso ainda atordoada pela pancada de 5 X 0 que o Coritiba, chamado de Coxa, imaginem só!, aplicou no meu pobre e bagunçado Flamengo.

Ainda bem que, hoje pela manhã, antes de assistir ao vexame do meu adorado rubro-negro, pude presenciar um destes acontecimentos cheios de simbolismo do futebol durante a partida entre África do Sul X Iraque pela abertura da Copa das Confederações.

Claro que já passei da idade de ver apenas a poesia nas coisas e sei muito bem que o futebol é um centro do capitalismo mais feroz, movimentando milhões e dono de uma força política na maioria das vezes usada para o mal em seu sentido mais puro. Não é por bondade que a Fifa escolheu a África do Sul como país anfitrião desse torneio e para sede da milionária Copa do Mundo no ano que vem.

Mas o futebol também proporciona mesmo que por apenas 90 minutos coisas que o mundo fora dos estádios paga caro por não ver acontecer.

Assim, nesta manhã, estava no gramado um time sul-africano formado por dez jogadores negros e apenas um branco. Ali estavam eles representando um país onde a minoria branca oprimiu por décadas a maioria negra via o vergonhoso sistema de apertheid racial.

Aqueles rapazes de uniformes e calçados com chuteiras compunham a representação do resultado de uma luta digna e sofrida de muitos, dentre os quais Nelson Mandela, que é um guerreiro sobrevivente.

Um time sul-africano formado maciçamente por negros era algo impossível de acontecer há apenas alguns anos. Mas hoje eles estavam ali para mostrar que a irracionalidade acabou de forma oficial e a gente fica na torcida para que desapareça de fato.

 Do outro lado estavam os representantes de um povo não menos sofrido, por conta dos desmandos do seu ditador local, agora morto, mas também em consequência da loucura de George W. Bush que achava que podia mandar no mundo, sem limites, ao sentar no trono do governo americano.

Na era Bush, que já parece passado distante diante da histórica vitória de Barack Obama, o povo iraquiano viu cair sobre si a pecha do “mal maior” que amedronta o mundo ocidental, quando na verdade é mais uma vítima dos meandros da disputa de poder.

Por isso que os homens que hoje entraram em campo me comoveram. Eles não ganham milhões como os astros brasileiros das chuteiras Kaká e Robinho. Não atraem os astronômicos patrocínios das empresas esportivas. Além disso mostraram uma técnica anos luz distante da genialidade possível de um Pelé ou Garrrincha.

Apesar disso eles emocionaram esta pobre sonhadora a quilômetros de distância e me fizeram viajar na idéia de que a igualdade sul-africana é realmente possível.

Ela está provando ser capaz de ensinar a nós brasileiros, que convivemos com um apertheid racial, embora camuflado, principalmente para as suas maiores vítimas e por isso tão perverso.

Ali também eu vi que é possível imaginar que o povo iraquiano vai sobreviver ao horror que lhe persegue há anos se ainda há espaço para apostar nesta nostalgia que o esporte dá.

É por isso que gosto tanto de futebol. Ele, às vezes, ao menos nos faz lembrar que a humanidade pode corrigir as bobagens que apronta contra si mesma.

Em tempo: Para quem se interessa por este aspecto do futebol como geopolítica tanto do ponto de vista positivo como negativo, sugiro o documentário intitulado O Dia em que o Brasil Esteve Aqui

O  filme de Caíto Ortiz mostra o chamado jogo da paz entre a Seleção Brasileira e a do Haiti, realizado em 2004. Vi na HBO, mas é possível que esteja disponível também em locadoras.