Um abraço negro

postado por Cleidiana Ramos @ 5:27 PM
26 de novembro de 2012

Uma das comemorações da Consciência Negra foi a lavagem da estátua de Zumbi dos Palmares na Praça da Sé. Foto: Margarida Neide

O artigo de Mãe Stella que eu estava devendo. Aproveite. Como sempre, lindo e profundo!

Maria Stella de Azevedo Santos

Um sorriso negro, um abraço negro/ Traz felicidade… Negro é a raiz da liberdade”. Na história de nosso País, o povo de cor negra não foi apenas figurante, foi protagonista. Ter uma data especial para marcar a trajetória desse povo é de extrema lucidez, pois nos leva a refletir sobre temas que são vitais não apenas para uma fração da sociedade. Temas como: escravização e a consequente luta e conquista da liberdade; preconceito e autopreconceito; resistência… são mais do que atuais, são, repetindo, vitais.

Liberdade é uma necessidade prioritária para o indivíduo e a coletividade, que, como tudo que é de extrema importância, precisa ser constantemente analisada, a fim de que seus limites não sejam ultrapassados, afinal até mesmo a liberdade tem limites;  preconceito e autopreconceito, atitudes e sentimentos que têm como companheiros o medo, a intolerância, o ódio irracional, a autocomiseração; resistência, geralmente entendida como força que se opõe a outra, esta tão propagada palavra fica mais bem traduzida para o povo brasileiro como vigor, ânimo.

Estamos na Semana da Consciência Negra, tendo sido o 20 de novembro escolhido como o Dia Nacional da Consciência Negra por ser o dia da morte de Zumbi dos Palmares, considerado um grande líder na luta pelo término do regime escravagista no Brasil. Hoje, creio ter a palavra consciência não mais a necessidade da certeza de quem somos e a que grupo pertencemos, mas simplesmente a certeza que somos, ou melhor, que apenas somos.

A Semana da Consciência Negra serve para a reflexão, mas é também momento de festejos. E como toda festa tem abraços, segue meu “abraço negro” para todas as pessoas: pretas, brancas, vermelhas… Aliás, segue meu abraço negro para os verdes, amarelos, azuis e brancos, enfim, para todos brasileiros que, sem preconceito, buscam conhecer e compreender a cultura profana e religiosa dos negros brasileiros descendentes dos africanos. Como não posso estar em corpo com todos que me dão a honra de ler meus escritos, meu abraço segue em forma de pensamento.

Não o meu e, sim, o que me foi legado pela religião que fui “chamada” a adotar e da qual muito me orgulho. Professo o candomblé não com um sentimento de soberbia, considerando a referida religião melhor ou mais elevada do que as outras, mas com o brio (sinônimo de vibração, entusiasmo, ânimo) que ela merece. Festejo a Semana da Consciência Negra revelando, através do Ódu Ìká-Òfún, os 16 mandamentos do candomblé, inseridos no Corpo Religioso do Sistema Divinatório de Ifá, que diz: Muitos andam pela vida sem rumo e, por isto, precisam buscar os conselhos de Ifá. Olódùmarè prometeu vida longa aos humanos para que estes pudessem cumprir suas “obrigações”. O que fazer para receber essa bênção?

Ifá ensina: 1. Não troquem o nome das pessoas, não façam nada que possa interferir no destino dos outros; 2. Não façam acusações que possam emitir mau cheiro, não difamem ninguém; 3. Não enganem as pessoas trocando, por exemplo, papagaio por morcego; 4. Não ensinem algo errado de maneira proposital, mostrando a folha de ìrókò e dizendo que é folha de oriro; 5. Não queiram nadar se vocês não conhecem o rio, sejam inteligentes, não sejam imprudentes; 6. Não sejam mal educados e inflexíveis, sejam gentis e maleáveis; 7. Não sejam clandestinos na caminhada, rendam homenagem a Ifá buscando Seus conselhos sem desonestidade, nem malandragem; 8. Não se percam ao levar o conhecimento sagrado para fora de casa; 9. Não semeiem ervas daninhas no seu existir; 10. Não abram espaços para os pobres de espírito; 11. Não aceitem promessas de dinheiro, não sejam gananciosos, não fiquem cegos por dinheiro; 12. Todos devem reconhecer sempre que os mais velhos são os pilares da família, merecedores de respeito e honra; 13. Todos devem reconhecer sempre que as mulheres são portadoras de senso, arte, habilidade, ingenuidade, sensibilidade; 14. Todos devem reconhecer sempre que as mulheres são grandes companheiras; 15. Nunca revelem os segredos, eles precisam ficar escondidos; 16. Recompensem sempre os detentores de sabedoria ancestral.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmene, ela escreve em A TARDE, sempre às quartas-feiras 

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Uma Resposta to “Um abraço negro”

  1. Ivete  Says:

    Quanta sabaderia, parabéns.

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