Balaio de Ideias: Je suis candomblé

postado por Cleidiana Ramos @ 8:34 PM
27 de janeiro de 2015
Jaime Sodré analisa necessidade do respeito à diversidade religiosa.  Foto:  Mila Cordeiro/ Ag. A TARDE/  09.11.2011

Jaime Sodré analisa necessidade do respeito à diversidade religiosa. Foto: Mila Cordeiro/ Ag. A TARDE/
09.11.2011

Jaime Sodré

Imponente, merecido e belo ergue-se o busto a Mãe Gilda, obra de arte a sacralizar e embelezar o espaço sagrado da Lagoa do Abaeté. Este monumento escultural é um símbolo contra a intolerância religiosa. A reverendíssima Yalorixá Gildásia dos Santos, nome de batismo desta dedicada religiosa, morreu no ano 2000 vitimada por um infarto após visualizar, com desgosto profundo, a sua foto em um jornal a ilustrar uma matéria intitulada “Macumbeiros e charlatões lesam a vida e o bolso de clientes”. Em relação a monumentos que louvam os feitos de mulheres religiosas negras, temos o de Mãe Caetana na Boca do Rio e Mãe Runhó no fim de linha do Engenho Velho da Federação. O de Mãe Gilda localiza-se no Abaeté pela proximidade ao seu Terreiro, o Ilê Axé Abassá, hoje liderado pela competência de Mãe Jaciara.

A repressão àqueles que não sabem conviver, tem como marco legislativo a Lei 7.716/89 (Lei Caó), produto do eminente baiano, jornalista, parlamentar e advogado Carlos Alberto dos Santos (Caó). O artigo 20 desta lei assim define a intolerância religiosa: “é um termo que descreve a atitude mental caracterizada pela falta de habilidade ou vontade em reconhecer e respeitar as diferenças ou crenças religiosas de terceiros. Poderá ter origem nas próprias crenças religiosas de alguém ou ser motivada pela intolerância contra as crenças e práticas religiosas de outrem”. Em Salvador existe uma mobilização vigilante e constante contra esta prática por parte de uma maioria de pessoas comprometidas com a liberdade religiosa, incluindo os fiéis do Candomblé. Louvemos a iniciativa da ex-vereadora Olívia Santana, autora da Lei Municipal n. 6.464/04 que instituiu o dia 21 de janeiro como a oportunidade de reflexão, conscientização e combate a intolerância religiosa.

Inspirado na lei criada por Olívia, o deputado federal Daniel Almeida foi o autor da lei federal n. 11.635/07 que inclui a data de 21 de janeiro no Calendário Cívico da União, pois, segundo o parlamentar, é necessário que dediquemos cotidianamente a nossa ação para a convivência com a diferença, de forma harmônica. Sensibilizados por esta proposta de convivência, inúmeros sujeitos lançam-se num empenho contra a intolerância religiosa, eis alguns: o Dr. Wellington Cesar Lima e Silva. Afirma que, mais que medidas judiciais, o que importa é o sentimento de que estamos juntos nesta caminhada, logo, ao respeitarmos as diferenças nos aproximamos do verdadeiro significado de um ato religioso. Louvemos aqui a promotora de Justiça Márcia Virgens.

O pastor Djalma Torres assegura que a diversidade religiosa é uma riqueza e a intolerância é inaceitável, e conclui que somos filhos de um mesmo pai e precisamo-nos respeitar. Já o padre Adriano Portela lembra que conviver em sociedade é encontrar pessoas que pensam diferente e respeitá-las. O ilustre médium espírita José Medrado esclarece que tolerância muitas vezes pode significar apenas “eu suporto”, queremos respeito! Algumas entidades merecem destaques especiais, como é o caso de Koinonia que há 21 anos luta contra a intolerância religiosa e contra todas as formas de violação dos Direitos Humanos, e agora se empenha no apoio ao Caso Mãe Rosa.

Jaime Sodré é professor universitário, mestre em História da Arte, doutorando em História Social e religioso do candomblé

Entrevista Júlio Braga: “Sou criança em relação a esse mundo milenar”

postado por Cleidiana Ramos @ 7:36 PM
25 de janeiro de 2015
O babalorixá e antropólogo Júlio Barga conta suas experiências no campo da religião e da academia. Foto: Fernando Vivas | Ag. A TARDE

O babalorixá e antropólogo Júlio Barga conta suas experiências no campo da religião e da academia. Foto: Fernando Vivas | Ag. A TARDE

Cleidiana Ramos

Os 42 anos da experiência de magistério em universidades como a Federal da Bahia, a Estadual de Feira de Santana e a Nacional do Zaire forjaram o discurso envolvente de Julio Braga, 72. Doutor em antropologia e babalorixá, ele domina o código acadêmico, mas também o da oralidade cheia de sabedoria das religiões afro-brasileiras. Transitar entre esses dois mundos parece confortável para o autor de 11 livros, dentre os quais Candomblé: a cidade das mulheres e dos homens, com lançamento previsto para o dia 7 de fevereiro, na biblioteca pública de Itaparica. Além desse, Julio Braga já prepara uma coletânea de poemas que divide com amigos do Facebook e que chama de “prosemas”, misturando poesia e a prosa em que é mestre. Para perceber isso, basta ouvi-lo narrar a aventura da primeira viagem internacional para Dakar, Senegal, onde tomou forma a melhor definição que encontrou para si mesmo: o antrópologo na encruzilhada, título de um dos seus livros. Nessa entrevista, ele conta que, em sua trajetória, o estranhamento, próprio de quem vê a encruzilhada, não veio do povo de santo ter dentre os seus pares um homem da academia, mas, curiosamente, desta. “Eu era professor e macumbeiro. Foi difícil”. Nada que curvasse um filho de Iansã, orixá a quem é consagrado, e de quem, em suas pesquisas, descobriu novas faces, como a da lealdade.

O senhor formou gerações de cientistas sociais. Aposentou-se após 42 anos de ensino na Ufba e Uefs, de onde saiu em 2010. Qual é a sensação de ficar longe da sala de aula?

É uma sensação de perda. Mas eu sou aposentado, inativo nunca (risos). Tenho um candomblé, o Terreiro Axeloiá, que me dá prazer em administrar. Além disso, continuo minhas pesquisas e já estou com o livro Candomblé: a cidade das mulheres e dos homens pronto. Ele será lançado dia 7, em Itaparica. Esse livro objetiva um foco distinto do trabalho de Ruth Landes (A Cidade das Mulheres), mas a ele não se opõe. Pelo contrário, procura verificar em que medida, ao lado das mulheres, os homens contribuíram para manter e consolidar as religiões afro-brasileiras na Bahia. Andei também fazendo umas tentativas poéticas no Facebook, que chamo de “prosemas”. Esse é o título da coletânea que vai trazer 50 desses textos. Ela deve sair no primeiro semestre desse ano ao lado do livro Dá-me licença aí Sereiá – A pesca de xaréu na Bahia.

O senhor participou de um período rico da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FFCH) da Ufba. Conviveu com personalidades como Pedro Agostinho, Vivaldo da Costa Lima.

Entrei na universidade muito jovem. Primeiro, eu fiz filosofia. No meu terceiro ano como estudante da Ufba, o Ceao (Centro de Estudos Afro-Orientais) resolveu, em 1963-1964, retomar os estudos afro-brasileiros, numa perspectiva antropológica mais elaborada a partir de pesquisa de campo extremamente cuidadosa do ponto de vista metodológico. E eu entrei nessa plêiade de grandes nomes como pesquisador. Dez dias depois de terminar a licenciatura, fui morar na África. Viajei em 1967.

Qual foi o seu primeiro destino?

Fui para Dakar, no Senegal. Não sabia falar francês e enfrentei minha primeira viagem de avião. Embarquei para o Rio , de onde o voo sairia. Mas aí o avião quebrou e nós fomos levados para o Hotel Glória. Imagine eu, pobre, instalado naquele hotel. Quando seguimos viagem, ocorreu uma escala na Libéria, onde estava acontecendo um golpe de Estado, e nos levaram para um hotel com escolta policial. Finalmente, cheguei a Dakar. O problema é que a pessoa que ficou de me esperar aguardava meu desembarque para dias antes. Como disse, não falava francês. Aí, como bom retirante, sentei na mala porque assim não tinha como ninguém roubá-la. De madrugada, chegou um avião de Buenos Aires onde vinha um francês que era professor da Universidade de Dakar, para onde eu havia sido enviado. Ele me levou para o campus da universidade. Tempos depois, Pierre Verger, que regularmente ia à África, apareceu por lá e me convenceu a ir para o Benim.

Foi onde começaram suas pesquisas?

Eu tinha começado uma pesquisa no Senegal, mas por sugestão de Verger, fui para Cotonou, no Benim, e depois Porto Novo, que fica na fronteira com a Nigéria. Mas aí Verger, que tinha me recebido lá, teve que viajar e fiquei um pouco isolado. Aí aconteceram coisas que redefiniram meu projeto existencial. A primeira é que tive malária e perdi 25 quilos. Além disso, namorava uma mulher extraordinária e muito inteligente. Eu a acompanhava em suas pesquisas , mas aí aconteceu um acidente trágico. Uma criança atravessou de bicicleta na frente do carro dela. Foi terrível. Ela teve que ir embora e sofreu muito com isso. Aí conheci uma pessoa que me disse para me cuidar espiritualmente. Verger voltou e fui passar um tempo na casa dele em Sakatê (região entre Nigéria e Benim). Então um sacerdote disse que eu tinha que fazer a obrigação “de cabeça” e outra como ojé, que é aquela que dá o título a quem passou pela última etapa iniciática ao culto de babá Egum, um espírito ancestral. E assim o fiz. Em 1968, foi a vez da minha obrigação de cabeça e Iansã veio para dizer que meu nome era Oyá Tundé, que significa “Iansã voltou”. Comecei minhas pesquisas sobre a religião dos orixás. Obviamente, já como filho de Iansã, me concentrei nas coisas desse orixá. Foi assim que descobri que Iansã é um orixá das águas para descontentamento de muita gente no Brasil (risos). Ela é a rainha do Rio Níger. A históra maior de Iansã está entrelaçada com a travessia que ela faz do país nupé, atravessando o Rio Níger para se encontrar com Xangô no reino de Oyó.

Como foi para um homem de ciência se tornar um sacerdote?

Vou contar uma história como os africanos fariam, que é paradigmática para explicar minhas dificuldades. Eu me candidatei a diretor da faculdade (de Filosofia e Ciências Humanas), nos anos 80, numa época em que professores, alunos e funcionários podiam votar. O candidato mais forte era o professor Mário Nascimento, que acabou se tornando o diretor porque eu fui vítima de um jornalista, veja só. Ele estava fazendo matéria para um jornal da universidade. Mário Nascimento disse que, se fosse eleito, como era católico, mandaria celebrar uma missa. Eu disse que, como era de candomblé, iria sacrificar dois galos na porteira da faculdade. Isso caiu como uma bomba. Eu fui eleito, mas a congregação não permitiu a minha posse. Acho que isso é bem sintomático das dificuldades que são colocadas para uma pessoa que zelou pela inteligência, pela interpretação das coisas etnológicas e, ao mesmo tempo, se entregou de corpo e alma, muito mais de alma, à religião afro-brasileira. Havia escárnio a cada instante. Até o próprio departamento era intolerante.

E do lado do povo de santo? Ninguém nunca lhe viu com desconfiança por ser um pesquisador ?

Nunca. Porque nunca perguntei nada a ninguém como antropólogo. Eu tive a felicidade de, ao voltar da África, ser recebido no Aganju, casa de Obaraín (nome sagrado do babalorixá Balbino Daniel de Paula) e ter vivido 15 anos ininterruptos lá dentro. Eu vivi o candomblé pela espinha, ou seja, por dentro.

Dos elementos que formam o arquétipo de Iansã, com quais se identifica?

(Risos, seguidos de um curto silêncio) Eu confesso que ninguém havia me feito uma pergunta dessa natureza, o que me obriga a refletir sobre o que vou dizer. Mas como tive um conhecimento diferenciado sobre a mítica de Iansã, posso colocar a sinceridade. Se no candomblé não sei uma coisa, digo que não sei, até porque, como religioso, devo saber que se mente para o ser humano, mas não para o orixá. Iansã foi uma mulher extremamente sincera e a esposa devotada de Xangô. Quando ele perdeu a guerra, Obá e Oxum não o acompanharam já como desterrado. A única que o seguiu, foi Iansã. Essa leitura é diferenciada do que se recompôs aqui, e fez do arquétipo de Iansã o de uma mulher safada. Na verdade, ela teve muitos amores, mas nunca ao mesmo tempo. Eu tive muitas mulheres, mas amei a todas e fui sempre sincero. Talvez tenha escorregado algumas vezes, mas, como não tem pecado no candomblé, logo me redimi (risos). Dizem que na vida a gente tem que plantar uma árvore, fazer um filho e escrever um livro. Pois eu plantei uma fazenda de cacau, tenho nove filhos e escrevi 11 livros. Portanto, acho que estou a salvo e, com certeza, com lugar guardado ao pé de Olorum. Se bem que espero que demore para chegar lá, pois como diz uma cantiga da nossa tradição, ainda sou criança em relação a esse mundo milenar extraordinário.

Balaio de Ideias: Ano novo e novas esperanças

postado por Cleidiana Ramos @ 7:00 AM
14 de janeiro de 2015
Mãe Valnizia analisa expectativas comuns ao início do ano. Foto: Raul Spinassé | Ag. A TARDE

Mãe Valnizia analisa expectativas comuns ao início do ano. Foto: Raul Spinassé | Ag. A TARDE

Valnizia Pereira Bianch, ialorixá do Terreiro do Cobre

Quando chega o ano novo, as pessoas têm expectativas e esperança de alcançar dias melhores. A espera é por conseguir realizar todos os objetivos que não foram alcançados no período que passou. Infelizmente, nem sempre tudo sai do jeito que cada pessoa quer ou acha que precisa. Às vezes o destino já colocou outras coisas em nossos caminhos ou aquilo que realmente estamos necessitados e não sabemos. Só não podemos desistir dos nossos sonhos. Temos que ter desejos e esperanças até mesmo porque os sonhos alimentam o futuro. Se deixarmos de sonhar como será que ficaremos? Só Deus sabe.

É necessário ter fé, paciência e determinação para lutar por aquilo que desejamos como se o amanhã fosse hoje. E, realmente, ele é. Dormimos e não sabemos se acordaremos. Nós sempre achamos que está faltando algo na nossa vida porque não temos o costume de andar olhando para trás. Mas se a nossa atenção estivesse voltada para o lado veríamos pessoas com problemas que não possuímos e aí iríamos agradecer o que conquistamos.

Se acordamos enxergando, andando, falando já estamos ganhando, pois existem outras pessoas que são cegas, surdas, cadeirantes e às vezes conseguem ser mais felizes do que aquelas que vivem sem nenhuma dessas deficiências, mas que reclamam de tudo e até de Deus ou do sagrado, dependendo da religião que seguem.

Claro que não podemos nos acomodar, sem luta não há vitória. Temos que lutar seja pelo que for – saúde, trabalho, amor – para que, quando chegar o ano seguinte, possamos realizar os nossos desejos porque onde há vida há esperança. O problema é que mantemos o costume de só lembrar das coisas ruins; as boas lembranças conservamos por poucos dias. Já as más passamos o ano todo remoendo.

Devido a essa angústia de querer que todos os problemas sejam resolvidos no novo ano, as pessoas, normalmente, querem saber qual é o orixá que vai governar os 365 dias, em busca de proteção. No candomblé, cada dia da semana simboliza um orixá, vodun, inquice ou caboclo. Às vezes, tem até dois no mesmo dia. Tudo isso é muito relativo, pois não é só o dia da semana que informa qual orixá é o comandante. Tem a numerologia, por exemplo, que diz alguma coisa.

Por isso eu prefiro não fazer jogo sobre essa questão, afinal cada pessoa vê de uma forma diferente. Mas diferente não é errado. É, simplesmente, diferente. O importante mesmo é cada um fazer o melhor que puder, até mesmo porque tudo na vida é bate e volta. Eu costumo dizer que ninguém planta abacaxi para colher banana. Então vamos plantar o que queremos colher.

Que todos os orixás, inquices, voduns e caboclos, portanto, nos deem um ano repleto de saúde e paz. Para o resto a gente corre de lado, porque atrás não alcança e na frente quem corre por nós é Exu, pois ele é o mensageiro e pode levar os nossos pedidos que devem ser bons e positivos. Costumam dizer que Exu faz isso ou aquilo, mas, na verdade, ele só leva o que as pessoas pedem e não tem culpa de nada. Nunca devemos esquecer que Exu é só um mensageiro. Axé.

Mãe Valnizia escreve mensalmente em dia de Xangô, quarta-feira

Ministério e secretarias começam ano com novos gestores

postado por Cleidiana Ramos @ 11:39 AM
5 de janeiro de 2015
Nilma Gomes é a nova titular da Seppir; Vera Lúcia dirige a Sepromi; Olívia Santa é secretária de Política para as Mulheres e Jorge Portugal assumiu a Secult. Fotos: Divulgação; Carol Garcia / GovBa; Edilson Lima / Ag. A TARDE/ 02.03. 2014; Claudionor Junior / Ag. A TARDE/ 23.02.2010

Nilma Gomes é a nova titular da Seppir; Vera Lúcia dirige a Sepromi; Olívia Santana é secretária de Política para as Mulheres e Jorge Portugal assumiu a Secult. Fotos: Divulgação; Carol Garcia / GovBa; Edilson Lima / Ag. A TARDE/ 02.03. 2014; Claudionor Junior / Ag. A TARDE/ 23.02.2010

As gestões públicas federal e estadual começam o ano com novos titulares no ministério e secretarias que são cruciais nas  políticas voltadas para a população negra.

A nova titular da Secretaria Especial de Políticas para a Promoção da Igualdade Racial (Seppir), que tem status de ministério, é a mineira Nilma Lino Gomes. A ministra é pedagoga, mestra em educação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), doutora em antropologia social pela Universidade de São Paulo (USP)  e pós-doutora em sociologia pela Universidade de Coimbra, Portugal.

Professora da UFMG e pesquisadora da área de relações étnico-raciais, Nilma foi a primeira mulher negra a chefiar uma universidade federal brasileira: a Unilab (Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira), que, inclusive, tem um campus na Bahia, em São Francisco do Conde.

A Secretaria Estadual de Promoção da Igualdade (Sepromi) tem como nova titular a ex-dirigente nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), Vera Lúcia Barbosa. Natural de Eunapólis, cidade localizada no extremo sul da Bahia, Lucinha como também é chamada pelos movimentos sociais, foi titular da Secretaria Estadual de Políticas para as Mulheres (SPM), durante o governo Wagner.

A SPM será dirigida por Olívia Santana, que vem da militância histórica do movimento negro. Fundadora da Unegro e filiada ao PCdoB, Olívia já foi secretária municipal de Educação, quando adotou como principal política a operacionalização da Lei 10.639/2003, que estabelece o ensino de História da África e Cultura Afro-Brasileira;  ocupou também uma vaga na Câmara de Salvador e em 2012 concorreu como vice na chapa encabeçada por Nelson Pelegrino para prefeito da capital baiana.

Já a pasta estadual de Cultura (Secult) tem Jorge Portugal. Professor conhecido por suas aulas lúdicas, o novo secretário tem dito que sua principal missão será fazer uma interação entre as ações culturais e  educacionais.

Boa sorte aos novos gestores e que eles tenham uma atuação que renda bastante conteúdo positivo para o Mundo Afro, ou seja, notícias que a gente publica com o coração em festa.

Que 2015 venha sob as bençãos da água e da pureza e brilho das crianças

postado por Cleidiana Ramos @ 8:52 AM
30 de dezembro de 2014

(Oro mimá-Bantos do Iguape- YouTube)

O Mundo Afro teve um ano de longa pausa, mas retornou em uma dia muito especial – 20 de novembro – na torcida para que tenha sido na direção de ficar atualizado de forma mais constante. O objetivo (que pretendo me esforçar para cumprir)  é que em 2015 possamos estar mais perto para debater informações variadas sob a perspectiva da herança que possuímos das mais diversas culturas e civilizações africanas.

Vamos fazer uma parada a partir de hoje, para um pequeno descanso e, na primeira segunda-feira do ano, estaremos de volta. Obrigada a todas e a todos pelo compartilhamento de conteúdo, críticas, elogios e sugestões.

E, para iniciar esse recesso, nada melhor que ficar na companhia da energia da água e do brilho das crianças com um gostinho de releitura de um belo canto para Oxum feito pela banda Bantos do Iguape, de Cachoeira. E que 2015 venha puro para ser grande!

Pérolas negras

postado por Cleidiana Ramos @ 12:29 PM
29 de dezembro de 2014

Fechando as despedidas de dias tão especiais como últimos sexta , sábado, domingo e segunda do ano de 2014 segue essa bela leitura sobre a música do Ilê Aiyê, Pérola Negra, na voz de Daniela Mercury. Uma homenagem a tudo que as culturas de matrizes africanas inspiram.

Pai Carlinhos de Oxóssi celebra 40 anos de santo

postado por Cleidiana Ramos @ 12:23 PM
19 de dezembro de 2014
Pai Carlinhos celebra 40 anos de consagração ao orixá Oxóssi. Foto: Arquivo pessoal/Divulgação

Pai Carlinhos celebra 40 anos de consagração ao orixá Oxóssi. Foto: Arquivo pessoal/Divulgação

Amanhã, sábado, é dia de festa no Ilê Axé Odé Tomi, localizado no Lobato. O babalorixá da casa, José Carlos Conceição dos Santos, também conhecido como Pai Carlinhos, celebra seus 40 anos de iniciação no candomblé.

O sacerdote de 60 anos, foi consagrado, por Mãe Roxa, que comandava  um terreiro em Pernambués,  a Oxóssi, orixá considerado “o dono da prosperidade e da fartura”, chamado de “Rei de Ketu” e “Grande Caçador”.

“O candomblé para mim é uma rosa que tirei os espinhos e conservei as pétalas. Tive muitos momentos marcantes nessa minha caminhada. Fiz santo por amor. Eu amo orixá”, completa Pai Carlinhos.

A celebração começa às 19 horas e o terreiro fica no Conjunto Joanes Centro Oeste, quadro 18, bloco 58 A. Um ponto de referência é a CIPM (Companhia Independente de Polícia Militar), local. Parabéns a Pai Carlinhos e a sua comunidade.

Balaio de Ideias: o Natal e suas diversas famílias

postado por Cleidiana Ramos @ 10:43 AM
17 de dezembro de 2014

MÃE VALNIZIA DE AYRÁ / TERREIRO DO COBRE

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre

Começo a colaborar com este jornal no período próximo ao Natal, festa cristã que reúne as famílias. Quando eu era criança, Papai Noel quase nunca passava pela minha janela. Infelizmente, quando se comemora o nascimento de Cristo é alegria para uns e tristeza para outros, principalmente as crianças menos privilegiadas, que não entendem o que é o Natal e por que Papai Noel não passou pelas suas janelas para deixar presentes.
Como eu sabia que Papai Noel não ia passar na minha janela, eu e outras crianças da comunidade do Engenho Velho da Federação íamos pegar fichas para retirar os brinquedos distribuídos em uma garagem de ônibus na Vasco da Gama. Ficávamos em filas quilométricas debaixo do sol e tinha muita confusão. No dia seguinte, íamos buscar os brinquedos: para as meninas era uma boneca pequena que, no segundo dia, mesmo com todos os cuidados que eu e minhas amiguinhas tínhamos, perdia os cabelos. As bolas dadas aos meninos também esvaziavam no segundo dia, assim como os carros soltavam as rodas. Mas ainda assim éramos felizes.
As famílias se reuniam e os vizinhos eram considerados parte delas: era a comadre, o compadre. Cada um levava um prato para a casa do outro. Lembro que minha mãe fazia rabanada com pão duro passado em leite e ovos, fritava e depois colocava açúcar e canela em pó. Era uma delícia.
As casas, nessa época, tinham um cheiro que trazia a lembrança de que era Natal por conta das folhas de pitanga, são-gonçalinho e flores de angélica, que comprávamos na horta de Seu Lídio. O cheiro se misturava ao das frutas – abacaxi, manga, melancia e umbu. O chão de barro batido era molhado no dia anterior. Então colocávamos folhas de banana para deixar liso. À tarde tirávamos as folhas de banana e colocávamos areia, as folhas de pitanga e de são-gonçalinho.
Os vizinhos criavam juntos, durante o ano inteiro, um peru que, por isso, era chamado de “peru de meia”. Na véspera de Natal dava-se cachaça ao peru para então matá-lo. As crianças tinham que ficar no quarto para que não vissem a morte, mas sabiam o que estava acontecendo. No outro dia, ele era servido com farofa.
Mesmo com dificuldades, o Natal é um momento solene. Com muita comida, bebidas e presentes ou até mesmo sem nada disso, as famílias se reúnem e isso é muito importante. Quando estamos reunidos, como família, trocamos coisas boas, energias, saúde, alegria e até mesmo tristezas. Família é uma das coisas mais importantes da vida, pois só ela nos dá a base dos valores que servem para o resto da vida.
O povo de santo, ou seja, de candomblé, é privilegiado porque tem duas famílias: a consanguínea e a religiosa. Assim tem mais oportunidades para a confraternização familiar. Os que não têm a família consaguínea têm a outra. Muitas vezes, meus filhos de santo não têm parentes por perto, mas a qualquer necessidade têm seus irmãos religiosos para ajudar nos momentos de alegria e tristeza. Também temos mais oportunidades para confraternizar com ou sem Papai Noel deixando presentes nas janelas. Feliz Natal para todos com muita saúde, que é o bem maior da vida. Axé.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA

Antropologia e futebol em destaque

postado por Cleidiana Ramos @ 4:34 PM
11 de dezembro de 2014
Jeferson Bacelar assina Gingas e Nós, um dos livros que integram a coleção É Futebo. Foto: Divulgação

Jeferson Bacelar assina Gingas e Nós, um dos livros que integram a coleção É Futebol. Foto: Divulgação

Futebol sob a visão da antropologia é o fio condutor dos livros que serão lançados amanhã, sexta-feira, no auditório Milton Santos do Centro de Estudos Afro Orientais da Ufba (Ceao), a partir das 18 horas. O Ceao fica no Largo 2 de Julho, centro da cidade.

Gingas e Nós. O jogo do lazer na Bahia, de Jeferson Bacelar; Pugnas renhidas. Futebol, cultura e sociedade em Salvador (1901-1924), assinado por Henrique Sena dos Santos e Fazendo gênero e jogando bola. Futebol feminino na Bahia nos anos 80 e 90, de Enny Vieira Moraes, lançados pela Edufba, apresentam um interessante panorama do esporte mais popular do País na Bahia.

No livro assinado por Jeferson Bacelar, por exemplo, está o interessante mundo dos babas, um espaço de sociabilidade tão forte nos bairros da capital baiana.

Os livros fazem parte de uma coleção denominada É futebol. Imperdível.

Ogum´s Toques tem campanha para publicar obras de autores negros

postado por Cleidiana Ramos @ 12:59 PM
10 de dezembro de 2014
O editor Marcus Guellwaar Adun ao lado do poeta José Carlos Limeira. Foto: Arquivo pessoal

O editor Marcus Guellwaar Adun ao lado do poeta José Carlos Limeira. Foto: Antonio Terra/ Divulgação

Uma campanha criativa e pioneira na Bahia promete movimentar o mundo de quem produz literatura com enfoque no combate ao racismo. Trata-se da campanha de crowdfunding, um nome técnico para a famosa “vaquinha” realizada pela editora Ogum´s Toques.

O objetivo é arrecadar U$ 30 mil dólares o que vai permitir a publicação de 10 livros de autoras e autores negros. Os gêneros incluem poesia, infanto-juvenil, contos e também trabalhos acadêmicos.

“O mercado editorial no Brasil, assim como a sociedade brasileira, pratica o racismo institucional de maneira extremamente sofisticada, prestigiando autorias brancas, masculinas, heterossexuais, burguesas,  sulistas esudestinas”, analisa Marcus Guellwaar Adún, escritor, educador e editor.

De acordo com ele, no lugar de apenas constatar as dificuldades para publicação, a ideia é abrir espaço para autores que têm uma forma peculiar de produzir conhecimento, afinal têm experiências variadas na constatação e formas de combate ao racismo.

“As pessoas doadoras terão seus nomes mencionados entre os reconhecimentos contidos nos livros”, explica Adún.

As doações podem ser feitas em qualquer quantia . As que ficarem acima de U$ 100 dólares receberão uma camisa da editora.

Para acessar o site de doação é só clicar aqui.

A doação é feita por meio da pressão no botão CONTRIBUTE NOW.  Para doar é necessário usar cartão de crédito e o valor é automaticamente convertido em dólar.

Por isso é importante você lembrar que o faturamento em moeda estrangeira no cartão de crédito, geralmente, é feito com a cotação do dia de fechamento da fatura. É importante checar com a sua operadora esses detalhes para não se atrapalhar nas contas.

A boa notícia é que os organizadores já estão elaborando  uma ferramenta da campanha em português para tornar mais fácil a contribuição com a iniciativa.

Leilões

A ação também inclui a realização de leilões de obras de arte. Fique por dentro dos lances da campanha também via a página no Facebook . 

Abaixo você confere um dos vídeos da campanha.

Terreiro Seja Hundé (Roça do Ventura) é tombado pelo Iphan

postado por Cleidiana Ramos @ 3:28 PM
4 de dezembro de 2014
Iphan reconhece Roça do Ventura como patrimônio. Foto: Mila Cordeiro/ Ag. A TARDE 18.01.2012

Iphan reconhece Roça do Ventura como patrimônio. Foto: Mila Cordeiro/ Ag. A TARDE 18.01.2012

Mais um terreiro de candomblé acaba de ser reconhecido como patrimônio brasileiro: a Roça do Ventura, que tem o nome sagrado de Zogbodo Male Bogun Seja Unde, localizado em Cachoeira, Bahia. Dessa forma, o Ventura é o primeiro terreiro de nação jeje da Bahia reconhecido como espaço de riqueza cultural, histórica e artística do Brasil. O título é dado  pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

A solicitação para o tombamento do terreiro, que é identificado como da tradição jeje-mahi foi feita pela Sociedade Religiosa Zogbodo Male Bogum e aprovada em reunião realizada na tarde de hoje pelo Conselho Consultivo do Iphan. O processo para o reconhecimento foi iniciado em 2008 e é recebido com festa pois a comunidade religiosa tem enfrentado uma intensa batalha para conservar seus espaços sagrados por conta da expansão imobiliária no município situado no recôncavo baiano.

A tradição jeje é uma das mais importantes na configuração do candomblé brasileiro como indicam diversos estudos antropológicos como A família de santo nos candomblés da Bahia, de Vivaldo da Costa Lima; Brancos e Pretos na Bahia, de Donald Pierson, escrito na década de 30; A  formação do candomblé, do antropólogo e professor da Ufba, Nicolau Parés, dentre outros.

A Roça do Ventura teve sua história iniciada em 1858. O terreiro ainda hoje consegue manter os assentamentos de suas divindades, os voduns, no amplo espaço verde que possui em meio a fontes, lagoas e árvores. 

Com o reconhecimento da Roça do Ventura, o Brasil passa a ter mais sete terreiros tombados:  Casa Branca, Gantois, Ilê Axé Opô Afonjá, Bate Folha e Oxumaré, localizado na Bahia e a Casa das Minas, situada no Maranhão.

Confiram em versão PDF o especial Infância da Resistência

postado por Cleidiana Ramos @ 11:57 AM
3 de dezembro de 2014
Confira especial em versão PDF

Especial está disponibilizado na versão PDF 

Amigas e amigos: demorou um pouquinho, mas agora está aqui disponível, em formato PDF, o especial “Infância da Resistência”, publicado no dia 20 de novembro em A TARDE.

Para os que já viram, essa é a oportunidade de rever. Aos que ainda não viram ou estão longe da Bahia, a chance de conferir a nossa homenagem às crianças e suas lições.

Mãe Valnizia é nova articulista do jornal A TARDE

postado por Cleidiana Ramos @ 9:44 AM
3 de dezembro de 2014
Mãe Valnizia de Ayrá escreverá artigos para A TARDE, mensalmente. Foto: Raul Spinassé | Ag. A TARDE

Mãe Valnizia de Ayrá escreverá artigos para A TARDE, mensalmente. Foto: Raul Spinassé | Ag. A TARDE

A partir do próximo dia 17, a ialorixá Valnízia Pereira de Oliveira passa a assinar, mensalmente, artigos nas páginas de Opinião de A TARDE. Dessa forma fica mantido o espaço para a abordagem de questões diversas sob o ponto de vista do candomblé, que, desde maio de 2011, eram apresentadas nos artigos de mãe Maria Stella de Azevedo Santos, ialorixá do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá.

“Será uma experiência nova e que dá continuidade à história iniciada nesse espaço por mãe Stella, uma pessoa muito experiente e sábia. Em nossa religião temos por base o respeito aos mais velhos por entender que isso significa também avanço em mais sabedoria”, diz mãe Valnízia.

De acordo com ela, escrever é uma forma de manter o diálogo entre as artes de aprender e ensinar. “Quando a gente escreve, coloca o que está pensando para a opinião de outras pessoas. Então escrever é aprender e ensinar. Eu, por exemplo, aprendi muito com os textos de mãe Stella”, completa mãe Valnízia.

Mãe Stella deixou a publicação regular dos seus artigos em A TARDE, que eram veiculados quinzenalmente, sempre às quartas-feiras. O último foi há 15 dias.

A decisão de interromper a colaboração foi por conta de suas muitas atividades religiosas e coordenação de projetos, como o denominado “Encontro Colorido da Encantada Espiritualidade Baiana”. O projeto mantém uma biblioteca móvel audiovisual denominada “Animoteca” e especializada em diversidade religiosa.

O projeto foi sendo construído a partir de reflexões realizadas por mãe Stella também nos artigos publicados em A TARDE.

Trajetória

Líder do Terreiro do Cobre, localizado no Engenho Velho da Federação e que tem Xangô como patrono, mãe Valnízia, 55 anos, foi iniciada no candomblé no terreiro da Casa Branca para o orixá Ayrá. Ela é autora dos livros Resistência e Fé, publicado em 2009, e Aprendo Ensinando, de 2011.

Há 26 anos mãe Valnízia dirige o Cobre, fundado no fim do século XIX pela africana Margarida de Xangô, que iniciou a linhagem sacerdotal da família.

Mãe Valnízia é bisneta de Flaviana Bianchi, chamada por intelectuais como Jorge Amado e Édison Carneiro de “Flaviana, a grande”.

Consagrada a Oxum, mãe Flaviana é uma das personagens do livro Cidade das mulheres, escrito pela antropóloga americana Ruth Landes, publicado em 1947, e que é um dos clássicos da etnografia sobre o candomblé baiano.

Boas-vindas

Usando a palavra “difícil” para definir sua decisão de deixar de contribuir regularmente com os artigos em  A TARDE, mãe Stella explicou em texto, publicado dia 19, que está deixando essa atividade por conta de seus outros compromissos.

“Tomar decisões é sempre muito difícil, principalmente quando esta decisão implica deixar uma atividade que nos dá prazer e alegria. Foi o que aconteceu comigo quando precisei deixar de escrever artigos para este conceituado jornal. Foi no treinamento do desapego, que todo sacerdote precisa fazer, que encontrei a força que precisava”, diz.

A ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá diz que ficou tranquila quando soube que a ialorixá Valnízia Pereira vai escrever artigos para a seção de Opinião de A TARDE.

“A tranquilidade veio quando fiquei sabendo que o espaço do jornal que era utilizado por mim passará a receber, agora, os conhecimentos de outra líder religiosa. Que a ialorixá Valnízia Pereira tenha muita alegria ao empreender esta nova jornada e conte, como sei que sempre contou, com as bênçãos dos orixás”, acrescentou.

Livro traz homenagem a Mãe Tatá de Oxum

postado por Cleidiana Ramos @ 5:00 PM
28 de novembro de 2014
Mãe Tatá de Oxum recebe homenagem em forma de livro. Foto: Divulgação

Mãe Tatá de Oxum recebe homenagem em forma de livro. Foto: Divulgação

Domingo, dia 30,  tem lançamento de livro no Terreiro da Casa Branca (Avenida Vasco da Gama). Trata-se de uma obra muito especial: uma coletânea de relatos, mensagens e depoimentos sobre Mãe Tatá de Oxum, a ialorixá da comunidade de candomblé, que é considerada a mais antiga, dentre as de nação ketu, do Brasil.

Mãe Tatá segue uma linhagem de grandes sacerdotisas do terreiro fundado por Iyá Nassô e que foi o primeiro reconhecido como patrimônio do Brasil pelo Iphan há 30 anos.

Intitulado Mãe Tatá- uma dádiva de Òsum, a coletânea, organizada por Ana Rita Santiago, traça a trajetória de uma ialorixá conhecida pela sabedoria e elegância nos gestos. O lançamento será a partir das 19 horas.

Maurício Pestana lança livro com entrevistas de enfoque na questão étnico-racial

postado por Cleidiana Ramos @ 1:13 PM
27 de novembro de 2014
Capa do livro do jornalista Maurício Pestana que será lançado hoje. Foto: Divulgação

Capa do livro do jornalista Maurício Pestana que será lançado hoje. Foto: Divulgação

Hoje, quinta-feira, tem lançamento do livro Racismo: Cotas e Ações Afirmativas, no Palacete das Artes Rodin-Bahia, na Graça, a partir das 18h30. De autoria do jornalista e cartunista Maurício Pestana, a obra reúne 46 entrevistas realizadas pelo autor com artistas, intelectuais e religiosos para a Revista Raça Brasil, onde atuou como editor e diretor executivo.

Dentre os entrevistados estão os ex-presidentes Lula e José Sarney, o cantor Gilberto Gil, a ialorixá Mãe Stella de Oxóssi, dentre outros.

As entrevistas foram conduzidas a partir de experiências pessoais em relação ao racismo e ações afirmativas como as cotas nas universidades. O livro é publicado pela Editora Anita Garibaldi com o apoio da Fundação Maurício Grabois.

Serviço: Lançamento do livro Racismo: Cotas e Ações Afirmativas

Onde: Palacete das Artes- Rodin-Bahia (Rua da Graça, 289, Graça)

Quando: Hoje, a partir das 18h30. Entrada franca.

Um abraço para todas as baianas

postado por Cleidiana Ramos @ 11:01 AM
25 de novembro de 2014
Baianas de acarajé são exemplos de liberdade. Foto: Raul Spinassé

Baianas de acarajé são exemplos de liberdade. Foto: Raul Spinassé

Hoje é o dia dedicado às baianas de acarajé. Trabalhos como o de Cecília Moreira Soares, historiadora e antropóloga, intitulado Mulher negra na Bahia no século XIXmostra o quanto essa atividade teve e tem de resistência. Por meio da sua perícia em fazer acará, que depois virou acarajé; abará, mingau (sim as vendedoras dessa iguaria também estão vinculadas a essa atividade de levar alimento barato, mas substancioso e gostoso  para as ruas), fato, peixe e outros alimentos essas mulheres revolucionaram o próprio papel feminino do seu tempo e dos que viriam depois.  

Algumas libertas outras escravas de ganho fizeram do seu trabalho a arma para ganhar liberdade e, em muitos casos a dos seus filhos e companheiros. Emanciparam-se e emanciparam. Chefiaram famílias e formaram sucessoras nesses e em outros ofícios.  Algumas até viraram “negras do partido alto”, um título para as que desafiaram todas as possibilidades e até enriqueceram.   Foram e são mulheres independentes e sábias na questão de gênero do ponto de vista político e empreendedor.

Como não se orgulhar dessas figuras que impõem um respeito enorme à frente dos seus tabuleiros, criam verdadeiras empresas familiares e não aceitam um passo atrás no que conquistaram? Assim fizeram as  guerreiras da Abam, com dona Rita Santos à frente, para obrigar a Fifa a deixar que vendessem seu acarajé dentro do estádio na Copa.  O acarajé é um patrimônio, mas as mulheres que o fizeram símbolo de liberdade mais do que isso. São exemplos de feminismo libertário antes que ele fosse articulado nos grandes centros ocidentais.

Mais boas notícias sobre o especial Infância da Resistência

postado por Cleidiana Ramos @ 1:57 PM
24 de novembro de 2014

capa do especial 2014 3

Coisa boa é para compartilhar. Portanto, estou agora socializando os parabéns que a equipe de A TARDE responsável pelo especial Infância da Resistência recebeu da Cipó, uma instituição pioneira na Bahia no trabalho de conscientização da mídia sobre os direitos da Infância e Juventude. Receber elogio dessa turma é mais do que especial. Segue a nota:  

A CIPÓ – Comunicação Interativa parabeniza o jornal A Tarde, com destaque para a editora Cleidiana Ramos, pelo caderno publicado neste 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. Essa postura da imprensa, de valorizar com seriedade e respeito uma data que é fruto da luta do movimento social, só ajuda a fortalecer a democracia e deve servir de exemplo para todos os veículos de comunicação.

A opção por abordar o assunto a partir do ponto de vista das crianças éoutro item que merece destaque. As crianças não são “o futuro”, elas vivem no presente e sofrem – ainda mais do que os adultos – as consequências do racismo. São portanto fontes qualificadas para falar sobre o assunto e devem ganhar espaço na imprensa, não como elemento “suavizador” da cobertura, mas como sujeitos de direitos que são.

 

O sonho de Mãe Stella

postado por Cleidiana Ramos @ 12:32 PM
24 de novembro de 2014
Animoteca está funcionando no estacionamento do Shopping Bela Vista, das 10 às 21 horas até o próximo dia 29

Animoteca está funcionando no estacionamento do Shopping Bela Vista, das 10 às 21 horas até o próximo dia 29

No último sábado no Shopping Bela Vista tive a sorte de participar de uma cerimônia marcante: a abertura  da “animoteca”. Trata-se de uma parte do projeto “Encontro Colorido da Encantada Espiritualidade Baiana”, concebido pela ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, Mãe Stella de Oxóssi.

A animoteca, instalada em um ônibus, pode ser visitada até o próximo dia 29, das 10 às 21 horas, no estacionamento do Shopping Bela Vista no Cabula.  Lá é possível encontrar livros, áudios e vídeos sobre as várias religiões.

O projeto é um sonho antigo de Mãe Stella que ela manifestou em um dos muitos artigos que escreveu para o jornal A TARDE. A partir do artigo, que foi desdobramento de um primeiro, onde misturando realidade e ficção ela falou sobre a importância de cultivar a possibilidade de sonhar, vários dos seus leitores se dispuseram a ajudar.

Infelizmente, na última quarta-feira, Mãe Stella se despediu, de forma continuada, do seu espaço cativo a cada 15 dias nas páginas de Opinião do jornal. Ela foi a primeira ialorixá a escrever de forma regular em um jornal de grande circulação. O  texto em que ela se despediu dos leitores foi publicado na quarta-feira passada,  mas a história que ela começou a construir nesse espaço logo terá continuidade.

Aqui segue o texto de Mãe Stella dando um até breve aos seus leitores do jornal:

Mudança de hábito

Maria Stella de Azevedo Santos

Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá

Quem não se lembra do filme Mudança de hábito, onde uma cantora de casino se vê obrigada a se esconder em um convento de freiras? Sem ser uma religiosa, ela conseguiu transformar positivamente o ambiente em que passou a morar. Nem toda pessoa boa é religiosa e nem todo religioso é, necessariamente, bom. No referido caso, o hábito (no sentido de vestimenta religiosa) fez a freira, confirmando o provérbio que diz: “O hábito faz o monge”.

Entretanto, esse provérbio tem outro significado quando dito da maneira completa e certa: “O hábito faz o monge apenas quando ele é visto longe”. Apesar dessa introdução, não escolhi o título “Mudança de hábito” para este artigo tendo como intenção falar de hábito enquanto vestimenta, mas sim enquanto prática costumeira.

Quando algo é difícil de ser dito, o preâmbulo fica sempre mais longo. É uma forma de preparar o interlocutor para ouvir ou ler o que vem pela frente. Sei que estou fazendo certo suspense. Coragem, Stella! – digo para mim. Então, lá vai:

As diversas atividades que minha vida religiosa pede e, é claro, a minha avançada idade estão fazendo com que se torne difícil continuar escrevendo quinzenalmente para este conceituado jornal, que acolheu meus pensamentos e minha cultura religiosa com muito desprendimento.

Não estou me despedindo do jornal A TARDE que, compreendendo minhas razões, deixou o espaço aberto para que eu escrevesse algum artigo quando assim pudesse e desejasse; muito menos estou me despedindo de meus leitores, pois continuarei escrevendo livros, mas no ritmo possível para meus 89 anos de idade.
Afinal, dividi a existência humana em três etapas: na primeira idade, que vai até os 40 anos (pelo menos para mim), as pessoas estão prontas para fazer filhos; a segunda idade, que vai dos 40 aos 80 anos, é para namorar; na terceira idade, que vai dos 80 aos 120 anos, é o momento propício para as pessoas sentarem e esperarem a velhice chegar. Este é o meu momento!

Escolhi com cuidado não só as palavras a serem escritas, como também a ocasião certa para realizar essa espécie de liberação. É que sábado, dia 22 de novembro, às 17 horas, na frente do Shopping Bela Vista, estarei realizando um sonho que só foi possível porque o expus nas páginas deste jornal e seus leitores ajudaram-me a concretizá-lo.

Parece-me que a sociedade já esta pronta para receber um ônibus, que ludicamente chamo de Animoteca, já que um de seus objetivos é despertar o ânimo dos seres que ainda se encontram adormecidos. Nesse ônibus estão guardadas em forma de livros, vídeos e áudios as sabedorias reveladas por mentes inspiradas, pertencentes a diferentes religiões e tradições filosóficas.

Não chamo a apresentação do ônibus de inauguração, porque prefiro, de maneira poética, denominá-la de “Encontro colorido da encantada espiritualidade baiana”, que tem como objetivo maior trabalhar no sentido de diminuir a violência através do despertar da espiritualidade.

Meus leitores, os quais espero encontrar no dia 22, sábado, percebem, assim, que não estou me despedindo, estou apenas mudando de hábito.

Imagens de um dia especial para a redação de A TARDE

postado por Cleidiana Ramos @ 4:57 PM
20 de novembro de 2014

Hoje a redação ganhou uma grande festa para comemorar a circulação do especial  Infância da Resistência. Teve caruru de sete meninos, com as benção do Doté Amilton Costa, líder do Terreiro Vodun Zo; o som da banda mirim da Escola Olodum, jornalistas e suas fontes confraternizando, autoridades e o melhor: a energia doce e renovadora da criançada. Encerramos de forma muito divertida o que foi resultado de muito trabalho unido ao carinho que criança sempre desperta.  Abaixo algumas das fotos dessa manhã inspiradora:

Meire Oliveira, a professora Jacilene Nascimento, diretora da Escola Parque São Cristóvão e eu, Cleidiana Ramos. Foto: Iracema Chequer | Ag.  A TARDE

Renata Santana, aluna da Escola Parque São Cristóvão;  Meire Oliveira;  professora Jacilene Nascimento, diretora da Escola Parque São Cristóvão e eu, Cleidiana Ramos. Foto: Iracema Chequer | Ag. A TARDE

Equipe que realizou o especial fazendo pose com os integrantes da banda mirim da Escola  Olodum. Foto: Iracema Chequer | Ag. A TARDE

Equipe que realizou o especial fazendo pose com os integrantes da banda mirim da Escola Olodum. Foto: Mariana Carneiro | Ag. A TARDE

 

Mesa do caruru de sete meninos na Redação. Foto: Iracema Chequer | Ag. A TARDE

Mesa do caruru de sete meninos na Redação. Foto: Iracema Chequer | Ag. A TARDE

 

 

 

Um alerta para pais e educadores

postado por Cleidiana Ramos @ 8:21 AM
20 de novembro de 2014

Esse vídeo mostra como o racismo não escolhe idade para atacar e como a força de estereótipos ajuda a reforçá-lo. Ele ataca o imaginário, inclusive, das crianças negras e de uma forma muito cruel.

Pequen@s guerreir@s: As primeiras lutas de Natinho

postado por Cleidiana Ramos @ 6:34 AM
20 de novembro de 2014
Bruno Aziz

Bruno Aziz

Jônatas Conceição da Silva era chamado de  Natinho pela família, amigos e em sua cidade do coração, Saubara.  Nasceu em 8 de dezembro de 1952,  na comunidade do Engenho velho de Brotas, localizada nos arredores do Dique do Tororó.

Em sua comunidade, Jônatas desfrutou de uma infância no espaço rodeado de arvores frutíferas; do baba na beira do dique; das brincadeiras com o inseparável amigo José Reis (Zé Furinga) e  do aconchego e carinho dos irmãos mais velhos, pois era o  oitavo filho de dona Isabel e do senhor  Tertulino.

Ao longo de sua vida dedicou-se a combater o racismo por meio  da militância no Movimento Negro Unificado (MNU) e na Associação Bloco Carnavalesco Ilê Aiyê, onde fez parte da diretoria e fundou o Projeto de Extensão Pedagógica (PEP).

Na literatura produziu  artigos, contos e poesias. Como educador desenvolveu aulas com conteúdos sobre as histórias dos nossos ancestrais africanos e afro- brasileiros.

Maria Luísa Passos é pedagoga e escritora

Foto: Arquivo pessoal

Foto: Arquivo pessoal

Pequen@s guerreir@s: Zumbi e o sonho de liberdade

postado por Cleidiana Ramos @ 6:33 AM
20 de novembro de 2014
Bruno Aziz

Bruno Aziz

Francisco nasceu livre, em 1655, em Palmares,  e, como outras crianças do quilombo, conviveu com seus pais, brincando e ouvindo histórias até os cinco anos de idade quando foi raptado com outros quilombolas, numa das investidas dos portugueses.

O nome Francisco, lhe foi dado por um padre quando o batizou, mas certamente a criança era chamada por outro nome.

Francisco nunca desistiu de retornar à sua terra. Ele certamente ouvia dizer que em Palmares além de africanos que fugiram da escravidão, havia também índios, mulatos e até brancos; que em Palmares a terra era de todos e, embora tivesse alcançado o número de 20 mil pessoas, tinha ainda lugar para muita gente se espalhar entre as palmeiras.

Francisco ouvia também contar que desde a formação de Palmares não se parava de tentar destruir o sonho de liberdade de tantos homens e mulheres. Assim, quando completou 15 anos, ele fugiu e retornou à terra de seus pais onde se tornaria, com o nome de Zumbi, o líder de um dos maiores projetos de liberdade construído pelos africanos no Brasil.

Vilson Caetano é babalorixá do Ilê Obá L´Okê,  doutor em antropologia e professor da Ufba

Foto:  Fernando Amorim | Ag. A TARDE | 24.09.2009.

Foto: Fernando Amorim | Ag. A TARDE | 24.09.2009.

Pequen@s guerreir@s: A menina das estrelas

postado por Cleidiana Ramos @ 6:32 AM
20 de novembro de 2014
Bruno Aziz

Bruno Aziz

Era uma vez, há mais ou menos cem anos, uma menina que morava nas estrelas. Humm… pensando bem, acho que eram as estrelas que habitavam dentro dela, e por isso as pessoas gostavam de lhe contar histórias e segredos, como se conversassem com uma iluminada e bela noite escura.

- Sabia que a vida de cada pessoa dá um livro? Só a de vovó é que deve dar uns três ou quatro… costumava dizer, mesmo antes de aprender a ler e escrever.

A vó queria que se chamasse Eunice, mas ela acabou se chamando Carolina Maria. Sapeca como um céu cheio de astros, às vezes sumia:

- Ô, Nicinha! Onde cê tava menina?

- Eu tava lááá na beira de Sacramento, vó, onde a cidade acaba, imaginando o rio que eu quero atravessar…

Carolina amava as grandes distâncias, e as coisas que pareciam infinitas, como a poesia. E se engana quem pensa que poeta vive no mundo da lua… Ela observava tudo em volta com atenção, ouvindo sobretudo os mais velhos.

Quando aprendeu a ler e escrever, mesmo, já era quase férias, e andava sumindo com todo papel que vinha embrulhando o pão. Também surrupiava os moldes que a mãe usava para costurar vestidos. Escrevia, escrevia, escrevia. E logo passou a escrever a história dela mesma.

Aí então… filas de parentes e vizinhos vinham prosear com a menina, e até lhe traziam presentinhos. Uns tinham a esperança de aparecer no livro de Carolina, outros estavam preocupados com o que ela contava sobre eles. Vai que um dia o livro fosse mesmo publicado…

No começo era uma coisa secreta, e Carolina contava algumas mentirinhas.

- Ah, minha filha, outro caderno?! As aulas mal começaram…reclamava a mãe.

- É que… é que… caiu numa poça de água, mamãe.

De outra vez:

- O boi comeu, vó…

E para o pai:

- Aí teve aquela nuvem de gafanhoto horrível, e aí eu larguei o caderno, aí saí correndo…

Só ela não sabia que todo mundo já sabia. A família orgulhosa ouvia as mentiras esfarrapadas com um espantos de faz-de-conta:

- Óóó… Foi mesmo? Não diga…

E no final, alguém resolvia:

- Toma esse dinheiro. Vai na quitanda de Dona Mocinha e compra outro caderno, vai.

Lande M. Munzanzu Onawale é poeta e escritor

Foto: Arquivo pessoal

 

 

Pequen@s guerreir@s: Luiza Ligeira: a menina Gaiaku

postado por Cleidiana Ramos @ 6:31 AM
20 de novembro de 2014
Bruno Aziz

Bruno Aziz

 

Meu nome é Luiza Franquelina da Rocha, um nome gigante e pesado para alguém de apenas 10 anos. Nasci na linda cidade de Cachoeira, na Bahia, entre os mistérios das divindades trazidas da África pelos meus avós, que foram escravizados pela maldade dos humanos. Eu sou filha do vodum Oyá e, como ela, adoro vadiar pelos cantos do mundo, sendo vento em muito movimento.

Sou uma criança ligeira. Adoro perguntar e guardo tudo que me ensinam na minha memória sem tempo… Sou ligeira como Oyá, me visto de branco igual a ela e saio cantando cânticos de candomblé, religião de meus pais que também é a minha, pela orla do Rio Paraguaçu.

Minha mãe Cecília é filha de Iemanjá, e meu pai Miguel é o importante pejigan (ogan principal) do Terreiro Seja Hundê. Minha religião é linda! A gente dança e canta e come iguarias deliciosas, mas trabalha muito também. Os voduns são forças da natureza que nos protegem. Minha voz é linda, eu sou uma menina negra linda que canta lindo para alegrar os deuses do candomblé.

Eu sei dançar como ninguém; às vezes, deixo de brincar de boneca, de subir em árvore, de acordar os preguiçosos que não gostam de trabalhar para as festas dos voduns, só para discutir política com meu pai que me ama muito e diz sempre: Luiza ligeira você é muito inteligente, aprende rápido e adora dar ordens – é uma típica sacerdotisa, mais tarde você será uma Gaiaku e irá comandar um terreiro, sendo a rainha que sempre mereceu ser.

Por isso, já me sinto uma Gaiaku. Imagino-me ensinando meus filhos de santo a cantar e a dançar para os voduns. A aprender o nome das folhas e os fundamentos da nossa nação religiosa, o jeje-mahi. Imagino-me fazendo roda sagrada no centro do meu barracão, que será num lugar lindo e terá o nome Huntoloji – em homenagem ao velho Ajansun.

Sou de Oyá com o vodum do branco chamado Lissá. Não sou muito calma. Falo demais e brigo muito também. Brinco demais porque sinto felicidade e adoro ser uma criança criada em terreiro de candomblé. Lá, no terreiro, tudo faz sentido, é misterioso e bonito.

Minha mãe Oyá é uma rainha e eu herdei o seu temperamento. Por ser filha dela sou muito veloz: daí meu apelido Luiza ligeira ou a menina ventania que, mesmo ainda sendo uma menininha de 10 anos, sabe tanto de candomblé ketu, angola e jeje-mahi, as principais nações, e me chamam também, por isso, de a menina Gaiaku, nascida para ser mãe de uma nação.

Marlon Marcos é omorisá Iemanjá, poeta, jornalista e antropólogo

Foto: Arquivo pessoal

Foto: Arquivo pessoal

Pequen@s guerreir@s: Abdias, o aprendiz de Ekó Ilê

postado por Cleidiana Ramos @ 6:30 AM
20 de novembro de 2014
Bruno Aziz

Bruno Aziz

 

 

Um dia, um griot* nascido nas terras africanas da Nigéria, em Ilê Ifé – a cidade sagrada dos nossos ancestrais yorubás –, nos falou sobre Ekó Ilê. Ele disse que Ekó Ilê é aquela primeira lição que aprendemos em casa, com nossos mais velhos, antes mesmo de irmos pra escola.

Pois bem. Hoje vamos falar sobre a primeira lição que o nosso menino Abdias aprendeu com sua mãe, a linda e doce dona Josina, conhecida na cidade de Franca pela sabedoria em fazer as folhas virarem remédios que curavam de um tudo; e as frutas virarem doces de deixar todo mundo com água na boca… E olha que o que não faltava naquela cidade eram ervas e frutas de todo tipo, principalmente as jabuticabas, pretinhas e doces como mel!

Quando o pequeno Abdias tinha assim entre sete e oito anos, aconteceu uma coisa que o marcou para o resto da vida, tanto é que, quase noventa anos depois, ele sempre lembrava do acontecido quando conversava com alguém sobre as coisas da infância. É que ele tinha um coleguinha do grupo escolar que se chamava Filisbino, e era um menino bonito, parecido com Abdias e seus irmãos, pretinho como a jabuticaba doce que dava nas árvores que rodeavam a cidade de Franca.

Porém, Filisbino era também muito triste, pois vivia com muitas dificuldades, já que tinha perdido o pai e a mãe bem cedinho e sobrevivia graças à solidariedade de alguns vizinhos. Pois bem, havia na cidade de Franca uma mulher que não era generosa, nem sábia, nem doce como a mãe de Abdias… Na verdade ela era bem amarga. Tão amarga que, um dia, só por ignorância e crueldade, maltratou muito o coleguinha de Abdias.

E aí, a dona Josina, que não se conformava com esse tipo de maldade, e gostava do menino como se fosse seu filho, não deixou por menos: disse poucas e boas para a mulher amarga e disse mais, que não ia permitir que ela fizesse mal ao menino e a nenhuma outra criança que se parecesse com ele.

O pequeno Abdias, vendo tudo aquilo, aprendeu a lição para o resto da vida: “Não se deve deixar uma ofensa racial sem resposta”. E aí está, a Ekó Ilê aprendida, e nunca esquecida, de sua mãe. Pelo resto da vida, em todo lugar do mundo, Abdias reproduziu a ação de sua mãe, defendendo os direitos das pessoas negras, dos pobres, dos índios, das mulheres e de todas aquelas que fossem desrespeitadas ou vítimas de qualquer tipo de violência.

Lindinalva Barbosa é educadora, mestre em Estudos de Linguagens/Uneb e omorixá Oyá do Terreiro do Cobre.

Foto: Arquivo pessoal

Foto: Arquivo pessoal

*Griot , nas culturas mandês da África Ocidental (Senegal, Guiné e países próximos), é o contador de histórias (“artesão das palavras”) que preserva e transmite a sabedoria e a história do povo. A palavra griot é francesa ; o termo nas línguas locais é djeli ou djali. (Fonte: Semog e Nascimento, Éle e Abdias. O griot e as muralhas, Rio de Janeiro, Pallas, 2006, p. 63.).

Fonte bibliográfica consultada: Semog e Nascimento, Éle e Abdias. O griot e as muralhas, Rio de Janeiro, Pallas, 2006, pgs. 29-51).

Solução do caça-palavra no caderno Infância da Resistência

postado por meire.oliveira @ 6:00 AM
20 de novembro de 2014

Na página 15 do especial Infância da Resistência tem um caça-palavra. Resolvendo o jogo são encontrados alguns dos povos africanos que vieram para o Brasil e contribuíram para a formação da cultura afro-brasileira. Aproveite e conheça, na página 6, a história sobre os países do continente africano de onde vieram a maioria dos negros trazidos para a Bahia.

Na solução são listados nove povos que contribuíram para a formação cultural do nosso País/

Na solução são listados nove povos que contribuíram para a formação cultural do nosso País/ Ludmila Cunha| Editoria de Arte A TARDE

 

Conheça os bastidores do especial Infância da Resistência

postado por meire.oliveira @ 10:33 PM
19 de novembro de 2014

Meire Oliveira

Neste ano resolvemos contar para vocês os bastidores da produção dos especiais da Consciência Negra de A Tarde. O resultado do trabalho que vocês vão conhecer, amanhã, tem a participação de muita gente mesmo antes dele começar a ser, de fato, feito. Todos começam do mesmo jeito, embora o processo de desenvolvimento seja diferente, pois depende do assunto que a gente escolhe trabalhar.

No caso do Infância de Resistência, a elaboração teve início no dia 29 de outubro. Fizemos uma reunião aqui na sede de A TARDE reunindo a equipe do jornal que faz o caderno– repórteres, fotógrafos e estudiosos sobre o tema abordado: o antropólogo Cláudio Pereira; o líder do terreiro Mokambo, tata Anselmo; o jornalista Hugo Mansur e o historiador Jaime Sodré.

Na reunião que ocorre antes de começar o caderno, estudiosos do tema ajudam a formular as pautas

Na reunião que ocorre antes de começar o caderno, estudiosos do tema ajudam a formular as pautas/ Foto: Luciano da Matta

Nessa conversa definimos as matérias que vocês irão ler amanhã e listamos as fontes que serão entrevistadas. A novidade deste ano, que surgiu durante esse encontro, foi a ideia de convidar estudantes das escolas que são referências na implementação da Lei 10.639/03 – que obriga o ensino da história da África e da cultura afro-brasileira no País– para atuarem como repórteres vivenciando a nossa rotina e escrevendo matérias.

Na semana seguinte, nove estudantes das escolas Mãe Hilda, Parque São Cristóvão e Eugênia Anna dos Santos passaram uma tarde com a gente de muita diversão em uma oficina com a equipe de Projetos Sociais de A TARDE; ouviram contos africanos com a historiadora Vanda Machado e souberam mais sobre a vida da pedagoga Olívia Santana que, em 2005, liderou a implementação da Lei em Salvador como secretária municipal da Educação. Após a conversa, Olívia foi entrevistada em uma coletiva e fotografada pelos novos repórteres.

Durante a oficina, os alunos ouviram contos africanos com a historiadora Vanda Machado

Durante a oficina, os alunos ouviram contos africanos com a historiadora Vanda Machado/ Foto: Joa Souza

 

Após uma seleção, foi a vez de Renata,14 anos, Camilly, 12 anos, Leonara, 9 anos, e Gisele,10 anos, acompanhadas por suas professoras nas escolas, serem ‘contratadas’ para atuar como repórteres dentro da redação .Elas conheceram todo o processo de produção do jornal. Chegaram tímidas, mas com o tempo foram mostrando talentos no desenvolvimento de várias atividades ao longo de três dias.

Durante três dias as novas repórteres vivenciaram a rotina da redação

Durante três dias as novas repórteres vivenciaram a rotina da redação/ Foto: Iracema Chequer

As meninas tiveram acesso ao sistema de computador que todos os jornalistas escrevem, elaboraram textos e títulos, escolheram as fotos que seriam utilizadas nas matérias e acompanharam a montagem da página. Nessa fase já estavam familiarizadas e opinaram em tudo, por exemplo, como queriam a foto e a cor do título do texto.

Essa experiência  foi o diferencial do caderno deste ano. Dividir a tarefa de falar do universo infantil contando com a colaboração de quem mais entende do assunto foi essencial pra gente. Meninas, vocês brilharam!

Especial de A TARDE do 20 de novembro celebra a infância

postado por Cleidiana Ramos @ 5:30 PM
19 de novembro de 2014
Especial de A TARDE, que circula amanhã,  é todo dedicado à garotada. Foto: Iracema Chequer | Ag. A TARDE

Especial de A TARDE, que circula amanhã, é todo dedicado à garotada. Foto: Iracema Chequer | Ag. A TARDE

Depois de meses de ausência, eis que o Mundo Afro volta renovado. Tá de cara de nova e abre os trabalhos com uma notícia mais que positiva: amanhã, quinta-feira, o jornal A TARDE circula com a 12ª edição do especiais que comemoram o Dia Nacional da Consciência Negra. E o tema é mais do que especial: a infância.

A nossa ideia foi discutir em 16 páginas como as consequências do sistema de escravidão ainda atrapalham o Brasil e tem no racismo sua face mais cruel. Infelizmente, as crianças não são poupadas.

Mas ao mesmo tempo temos uma geração de meninas e meninos que  já colocam em prática uma história de resistência que começou no passado, mas se renova sempre. Esses já tem mais amparo devido à luta dos movimentos negros organizados que possuem conquistas como a Lei 10.639/2003 que estabelece o ensino de História da África e Cultura Afro-Brasileira.

Salvador foi a primeira capital do país a operacionalizar a aplicação dessa lei e não à toa tem instituições- referência nesse sentido, como as escolas municipais Eugênnia Anna dos Santos, Mãe Hilda e Parque São Cristóvão. A lei ajuda, principalmente, a fazer com que meninas e meninos tenham consciência de como o povo negro foi fundamental para a formação do Brasil como nação.

E como criança tem uma sabedoria imensa fomos buscar a participação delas. Fizemos uma oficina e recebemos Camilly e Gisele, alunas da Eugênia Anna dos Santos; Leonara e Renata,  da Escola Parque São Cristóvão.

As meninas participaram de uma oficina no jornal para saber como ele é feito e a partir daí escreveram seus próprios textos e ajudaram na montagem da página que foi completada com o depoimento de crianças de Moçambique, EUA e França.

Aqui no Mundo Afro vocês vão encontrar material que dialoga com o caderno. O destaque é para as histórias de personalidades importantes para o combate ao racismo no Brasil.

Pedimos que cinco especialistas escrevessem sobre a infância de Abdias Nacimento; Carolina de Jesus; Gaiaku Luiza; Jônatas Conceição e Zumbi. A nossa senha foi que eles deixassem a imaginação voar assim como a das crianças.

O resultado ficou lindo. Os textos são da educadora e especialista em linguagens Lindinalva Barbosa (Abdias); do poeta e escritor Landê Onawalê (Carolina de Jesus); do poeta, jornalista e antropólogo Marlon Marcos (Gaiaku Luiza); da pedagoga Maria Luisa Passos (Jônatas Conceição) e do babalorixá e antropólogo Vilson Caetano (Zumbi).

Além disso é aqui que a gente vai revelar resultado dos passatempos que estão no especial e muito muito mais.

Ficamos de fora tanto tempo que amanhã teremos muitos posts para deixar vocês atualizados não só sobre o especial, mas também sobre o que vai acontecer durante o dia até aqui na redação. Tanto que estaremos contando com a colaboração da jornalista Meire Oliveira.

Jaime Sodré lança livro sobre combate ao racismo para crianças

postado por Cleidiana Ramos @ 12:28 PM
17 de outubro de 2014
Jaime Sodré lança novo livro no próximo domingo. Foto: Mila Cordeiro /Ag. A TARDE

Jaime Sodré lança novo livro no próximo domingo. Foto: Mila Cordeiro /Ag. A TARDE

Pais, educadores e crianças: no próximo domingo, dia 19, a partir das 10 horas, tem um programa imperdível para vocês na Biblioteca Infantil Monteiro Lobato, em Nazaré. Trata-se do lançamento do livro Mocri (Movimento de Conscientização contra o Racismo Infantil), assinado pelo professor Jaime Sodré e com ilutrações de Ila Muniz.

Além do lançamento do livro haverá debate entre o autor e as crianças. Para acompanhar a conversa  será servido um delicioso mugunzá.

Que maus atos não quebrem vasos

postado por Cleidiana Ramos @ 11:16 AM
8 de outubro de 2014
Mãe Stella faz outra bela reflexão sobre política. Foto:  Mila Cordeiro | Ag. a TARDE

Mãe Stella faz outra bela reflexão sobre política. Foto: Mila Cordeiro | Ag. a TARDE

Maria Stella de Azevedo Santos
Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá

Assistimos muitos políticos serem carregados nos comícios, assim como as várias autoridades eleitas neste país foram carregadas nos ombros de seus correligionários no final do pleito eleitoral ocorrido no dia 5 de outubro. Esse gesto, repetido nos comícios e nos resultados dos pleitos, é cheio de simbolismos, os quais precisam e devem ser compreendidos, tanto por quem carrega, como por quem é carregado. Colocar alguém acima das cabeças dos outros é dizer que esta pessoa tem a capacidade e, consequentemente, a responsabilidade sobre tudo que implica na vida social daqueles que confiaram nele, isto é, tem por dever administrar e legislar bem sobre educação, saúde, segurança, lazer e, principalmente, respeitar o cumprimento da liberdade que rege a Carta Magna de um dos países mais democráticos deste planeta – o Brasil.

O catolicismo faz uso do andor, que no candomblé é conhecido como charola (palavra herdada dos portugueses), para colocar o sagrado acima do profano. Um provérbio bastante conhecido diz: “Cuidado com o andor, porque o santo é de barro”. E de barro também foram feitos, originalmente, os políticos a quem foi dado o poder, o direito e o dever de cuidar de seus irmãos. Portanto, se eles devem cuidar de nós, cabe também a nós cuidarmos deles, pois são seres humanos frágeis e fortes como o barro.

O barro é a mistura de água com terra. Uma autoridade precisa se moldar às circunstâncias diversas que a ela são impostas, com a flexibilidade da água e a solidez da terra. É a medida certa entre o sonho da alma com a realidade das ações materiais que faz com que um político seja um bom administrador e um bom legislador, pois recebe e aceita as orientações celestes. Ele é como um vaso, um pote de barro: artefato cuja abertura que possui simboliza a receptividade das orientações divinas.

No candomblé, vários são os objetos sagrados feitos de barro: pote, talha, quartinha, todos eles são utensílios ricos em simbolismos: guarda a água, símbolo de vida, que deve ser sempre renovada, pois os ensinamentos celestes, apesar de eternos, precisam ser sempre readaptados. Os sacerdotes do candomblé devem manter seus vasos cheios, comportamento que é explicado de uma forma clara e bela pelo budismo: Um pote cheio pela metade é emblema do tolo, uma vez que um sacerdote precisa estar pleno de sabedoria e de calma. É o que igualmente se espera de um político: que ele tenha sabedoria e calma para exercer sua missão.
A palavra pote na língua yorubá é odù, palavra que acentuada de maneira diferente significa destino.

O Terreiro de Candomblé que dirijo é sempre visitado por várias pessoas, entre elas os políticos, afinal são nossos irmãos, somos todos filhos de um Deus Supremo. É por isso que em época de eleição, peço aos orixás que dê a vitória àqueles que têm em seus destinos a missão de servir à humanidade através da política, naquele período. Uma missão tão árdua que merece orações constantes dos sacerdotes das diversas religiões e  dos não sacerdotes. Pois deus ouve a todos, indistintamente, basta que tenha “a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo

Mãe Stella escreve no jornal  A TARDE, quinzenalmente, sempre às quartas-feiras