Cinzas é apresentado em festival

postado por Cleidiana Ramos @ 3:07 PM
22 de julho de 2015
Cena do filme Cinzas que será lançado no festival Latinidades. Foto: Divulgação

Cena do filme Cinzas que será lançado no festival Latinidades. Foto: Divulgação

Cinzas, segundo filme da diretora baiana Larissa Fulana de Tal , será lançado na próxima sexta-feira, em Brasília, às 14 horas. A exibição acontecerá durante o Festival da Mulher Afro Latino-Americana e Caribenha (Latinidades).

A história do filme gira em torno de Toni, negro, que começa o dia de uma forma complicada: ônibus lotado, salário atrasado, descrença nos estudos, contas vencidas, temor da violência policial e solidão. Sua história, adaptada de um conto homônimo do escritor Davi Nunes, encontra outras semelhantes.

“Acreditamos que a temática racial no filme é tão importante quanto a autonomia da voz. Sabemos falar por nós mesmos, e isso é Cinzas. É uma felicidade muito grande para toda equipe lançarmos no Festival Latinidades”, destaca a diretora.

Cinzas é mais uma produção do coletivo Tela Preta, que luta por uma maior representatividade negra no campo do audiovisual.

O Festival da Mulher Afro Latino-Americana e Caribenha acontece há oito anos e já se sedimentou na agenda internacional das lutas do movimento de gênero. O tema desse ano é a produção realizadas por mulheres negras no cinema.

Pseudônimo

Larissa, diretora de Cinzas, escolheu o pseudônimo “Fulana de Tal” como complemento para o seu nome para fazer uma referência aos inúmeros mulheres e homens comuns. Bacharel em cinema e audiovisual pela UFRB é diretora do videoclipe Axé (2012), que recebeu menção honrosa no 3º FestClip realizado em São Paulo. Lápis de Cor (2014) foi o seu primeiro filme contemplado com o edital  Chamada de Curtas Universitários do Canal Futura.

O quê: Lançamento do filme Cinzas
Quando: 24 de julho, às 14 horas.
Onde: Festival da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha, no Cine Brasília. A entrada é gratuita.

Balaio de Ideias: Manifesto por uma vida afetiva digna

postado por Cleidiana Ramos @ 10:33 AM
16 de julho de 2015
A jornalista Maíra Azevedo faz contundente análise sobre racismo e afetividade. Foto:  Edilson Lima/ Ag. A TARDE/ 29.1.2014

A jornalista Maíra Azevedo faz contundente análise sobre racismo e afetividade. Foto: Edilson Lima/ Ag. A TARDE/ 29.1.2014

Maíra Azevedo

Para a maioria, o 25 de julho é apenas mais uma data no calendário. Para nós, que fazemos o debate de gênero e raça, é momento de analisar as posturas sociais e como elas interferem nas vidas daquelas e daqueles que dizemos defender em nossos discursos. As pautas são diversas. Por isso optei em focar meu debate sobre algo que faz parte das conversas das mulheres negras: vida amorosa ou a falta dela. Por isso, resolvi fazer uma série de questionamentos e espero as respostas.

Quem faz manifestação pela morte afetiva e cotidiana das mulheres negras? Quem se importa quando as mulheres passam sozinhas pelas ruas? Quem se incomoda com o fato das mulheres negras serem sempre maltratadas por seus parceiros, seja fisicamente ou psicologicamente? Quem tenta buscar solução pela vida miserável que as mulheres negras levam, pois ou elas estão chorando pelos homens negros que morreram ou pelos que ajudam a tirar suas vidas? Porque a morte das mulheres negras é real. Quando não morrem fisicamente, estão mortas afetivamente. A solidão mata, entristece, deprime.

Hoje, peço a você um minuto de reflexão. Qual mulher negra que você conhece vive uma relação bacana, tranquila, com cumplicidade? Se lembrar de cinco, sem precisar puxar pela memória, então eu volto e digo que estou errada. As mulheres negras estão sozinhas, até mesmo quando tem alguém ao lado. Porque a maioria dos homens, quando estão ao lado de uma mulher negra acham que já fizeram o bastante por ela. Para muitos, o fato de terem assumido a relação com uma de nós é um plus, um bônus. Devemos agradecer, afinal estamos fora das estatísticas da solidão.

É preciso fazer um alerta, uma convocação. Temos obrigação moral de sermos mais companheiras uma das outras. Se somos mesmos comprometidas com o debate de empoderamento feminino, vamos aprender a não brigar por homens, a não permitir que eles nos dissolvam. Pois, quando eles partem, ficamos em frangalhos e eles fazem isso em série.

Não dá mais para aceitar as migalhas que muitos desses homens pensam em nos oferecer: levar para um quarto de hotel e ter uma noite de prazer ou se aproveitar do nosso status para ter um duplo prazer. Muitos deles querem gozar da nossa influência e acham que nos dar o gozo é a melhor forma de retribuir tudo que já fizemos por eles.

E a nós mulheres negras, cabe praticar mais a sororidade. Devemos ser mais cúmplices, não julgar a outra. Estender a mão e no momento de dor, nada de lembrar “EU BEM QUE TE AVISEI”. Esse sofrimento em busca de um homem legal, bacana, companheiro, que te respeite, parece ser incessante e isso é cobrado de todos os lados.

A hora de chorar pelos cantos já passou e não deveria nem ter chagado. Mas é preciso despertar e ser mais cofiante, rejeitar essas miudezas que eles nos oferecem por aí. Porque pra gente é sempre mais difícil. Queremos viver, bem viver e não sobreviver. Vamos protestar contra a miserabilidade afetiva a que somos submetidas e que ás vezes é praticada por aqueles que defendemos. Basta! Por uma vida afetiva verdadeira e digna.

Maíra Azevedo é jornalista do Grupo A Tarde e militante das causas que envolvem a questão étnico-racial, gênero e combate ao racismo e  a todas as formas de desigualdades

Ângelo Flávio participa de episódio da série Tapas e Beijos

postado por Cleidiana Ramos @ 10:46 AM
13 de julho de 2015
Ângelo Flávio exercita sua faceta de ator, amanhã, em Tapas e Beijos, na Globo. Foto: Divulgação

Ângelo Flávio exercita sua faceta de ator, nesta terça, em Tapas e Beijos, na Globo. Foto: Divulgação

Amanhã, Tapas e Beijos, ganha um toque mais que especial: o ator e diretor Ângelo Flávio participa do episódio do seriado de sucesso que está em sua última temporada. Ângelo vai interpretar o gerente do Hotel Bariloche.

A participação já lhe rendeu, nos bastidores, vários elogios da atriz Fernanda Torres, que estrela o programa ao lado de Andréa Beltrão, e de outros integrantes da equipe.

A atuação de Ângelo promete assim como aconteceu quando protagonizou um episódio de A Grande Família.

Inquieto e criativo, Ângelo Flávio é um dos grandes nomes do teatro baiano. Premiado, no ano passado aceitou o desafio e brilhou ao levar para os palcos Sortilégio: Mistério Negro de  Zumbi Redivivo II, um texto inédito de Abdias  Nascimento, que até então só havia sido encenado como leitura dramática.

Tapas e Beijos vai ao ar após a novela Babilônia, na Globo.

Balaio de Ideias: Albergaria, nosso Boca do Inferno II

postado por Cleidiana Ramos @ 10:23 AM
11 de julho de 2015
O professor Roberto Albergaria recebe a homenagem do doutor em antropologia e professor da Ufba, Luiz Mott

O professor Roberto Albergaria recebe a homenagem do doutor em antropologia e professor da Ufba, Luiz Mott. Foto:  Margarida Neide/Ag. A TARDE/ 10.5.2005

 

Luiz Mott

Professor titular de Antropologia da Ufba

Conheci Roberto Albergaria quando ingressou no Departamento de Antropologia da Ufba, há uns 30 anos atrás. Tive o privilégio de dar o parecer reconhecendo sua tese de doutorado defendida em Paris. Sempre disse e reafirmo: Albergaria era o mais culto, inteligente, provocativo e anarquista professor da Ufba. Infelizmente publicou pouco, mas deixou centenas de horas de entrevistas e gravações em rádio e televisão, material riquíssimo que merece virar tema de tese de mestrado e doutorado.

Com seu corpanzil e quase dois metros de altura, tinha a delicadeza de um gay, embora fosse confirmado mulherengo miseravão. Generoso, presenteou-me dois insólitos mimos: belíssimo chifre de um veado galheiro e um chicote de binga de boi – segundo ele, usado pelos cornos do sertão para castigar mulher adúltera. Em meu último aniversário, mandou-me esta mensagem, parece que psicografada pela mesma irreverência piadista de Gregório de Mattos, o Boca do Inferno:

“69 anos é a idade ideal para um putoso – putão idoso! O pururuca do Luizinho já pode broxar sem ter que justificar que ‘isto nunca me aconteceu antes’. Já pode andar com a braguilha aberta, pois ‘em casa de defunto a porta fica sempre aberta’. Já pode deixar de cumprir qualquer obrigação chata sob o pretexto de que se esqueceu: ‘estou ficando gagá mesmo!’ Já pode liberar um dedinho no furico só na manha, sem ter que botar no jornal que está sacrificando seu pobre tobinha apenas para dar um exemplo de militância política, porque menino que dá está brincando de troca-troca, é só estripulia, enquanto velhusco patusco de calça arriada está só esculhambando… pra alegrar seus últimos dias de picardia. E viva a descaração, desencuecada ou não. E viva a brincadeiragem, brincadeira com sacanagem: as melhores dádivas desta triste puta vida que nos pariu!”

Luiz Mott escreve no jornal A TARDE, quinzenalmente, aos sábados  

Bahia perde ícone da inteligência risonha

postado por Cleidiana Ramos @ 7:00 AM
4 de julho de 2015
Roberto Albergaria foi um dos grandes intelectuais baianos. Foto:  Fernando Amorim/ Ag. A TARDE/  29.04.2010

Roberto Albergaria foi um dos grandes intelectuais baianos. Foto: Fernando Amorim/ Ag. A TARDE/
29.04.2010

MORTE/ ANTROPÓLOGO/ ALBERGARIA/ BAHIA

Cleidiana Ramos

Uma das cobranças clássicas a um repórter é o distanciamento ao que se reporta. Em tese, portanto, eu não deveria escrever o obituário de Roberto Albergaria de Oliveira, 63 anos, historiador, antropólogo e professor aposentado da Universidade Federal da Bahia (Ufba), um dos meus amigos mais queridos.

Mas precisei quebrar o cânone para lhe render a homenagem que me foi possível. Além disso, desafiar regras era com ele mesmo.

Nasceu em Cachoeira, embora às vezes dissesse ser de Muritiba para “pirraçar”, segundo ele, cachoeirenses como Ordep Serra, colega na antropologia e na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FFCH) da Ufba.

Doutor em antropologia pela Universidade de Paris VII, a hoje Paris Diderot, Albergaria foi um dos mais brilhantes intelectuais baianos. Recebeu a orientação no doutorado de Michel de Certau (1925-1986), respeitado cientista social da escola francesa.

Sua tese para obter o grau de doutorado mergulha nas imagens simbólicas que o Brasil inspirou, a partir da sua condição de colônia portuguesa. Trata-se de uma análise com profunda inserção em teoria antropológica, mas ele repelia elogios ao seu preparo intelectual. Achava pedante, sem falsa modéstia.

Por isso criou o personagem iconoclasta. Com o tempo percebi que era disfarce para se livrar da chatice dos pretensiosos das mais variadas matizes.

Albergaria gostava de rir, mas tinha uma racionalidade que chocava os desavisados. Era extremamente pragmático, mas generoso.

O problema congênito – um tipo avançado de espinha bífida– foi o seu martírio até o fim. Além de impedir o movimento de uma das pernas, com o tempo desarrumou o sistema nervoso central, o que lhe fez vítima de vários distúrbios, como insônia crônica.

Foi essa dificuldade em lidar com as alterações no sono que o fizeram pedir a aposentadoria da universidade, pois acordava indisposto.
Crítica
Andava chateado com o que considerava a disseminação da “moral de jegue”, seu nome em baianês para falsos moralistas e fazia dos comentários na rádio Metrópole seu instrumento de desabafo contra esse mal.

Dizia invejar em nós, jornalistas, a capacidade de síntese, o que lhe era impossível. Falava pelos cotovelos e o didatismo de professor o fazia enviar complementos em longos textos via fax e depois por e-mail.

Albergaria era consultado por repórteres porque dominava os meandros da teoria antropológica. Conseguia opinar, com propriedade, sobre quase tudo, o que incomodava alguns que confundiam capacidade de explicar de forma didática pensamentos complexos com superficialidade.

Parei de me irritar com esse tipo de crítica, quando percebi que essas análises e até certos tipos de censura, o divertiam. A sua segurança intelectual lhe deu a imunidade necessária.

Não fez adversários ou inimigos. “Minha filha, eu sempre fui tido como maluco. Ninguém briga com doido”, explicava.

Não se casou ou teve filhos. Dizia só ter capacidade para amar mulheres de comportamento irreverente: as “miseravonas”.

Padilhas
Pegou em armas contra a ditadura quando integrou o PCBR. Foi preso durante uma ação frustrada de assalto a banco. Quando saiu da penitenciária foi para o exílio na França.

Não tinha uma crença religiosa, mas admirava o culto aos caboclos e a Exu no candomblé, e as padilhas da umbanda. Em sua casa tinha uma coleção de estátuas dessas entidades.

Nos últimos meses, declarou-se herege, no lugar de ateu. “É que tenho certa imaginação”. Portanto, acredito que essa capacidade o levou a achar o lugar ideal para que sua energia mental descanse em paz.

É tudo o que posso dizer agora

Cláudio Luiz Pereira  

Recebi, consternado, a notícia que Roberto Albergaria está morto. Fico imaginando como isto de fato empobrece a nós todos, retirando-nos certa capacidade de enfrentar com indignação e bom humor esta nossa realidade tão medonha. Morreu provavelmente de overdose de lucidez, recusando toda a carga de tédio que poderia entorpecê-lo, anulá-lo, ou aliená-lo numa velhice que poucos conseguem aceitar, ainda mais ele tão persistentemente jovem no seu pensamento irreverente, loquaz, cheio de uma ciência gaiata.

Para intelectuais como ele o melhor pensamento será sempre uma ação racional perante o mundo real.

Meu respeito por ele como intelectual deriva do fato de que ele fez escolhas, saltando do confortável mundo acadêmico, onde muitos intelectuais atolam numa mediocridade confortável, para o mundo da crítica cultural através do rádio, com sua dinâmica aleatória, delirante, e tão completamente carnavalesca. Provavelmente foi isto que permitiu que ele vivesse os últimos anos de sua vida dignamente, com trabalho, criatividade e, possivelmente, até alguma felicidade intima. Falo daquela felicidade possível aos homens muito inteligentes.

Meu respeito por ele vem também de sua personalidade idiossincrática, de suas ideias mirabolantes e engraçadas, de suas concatenações inesperadas, de suas abstrações lógicas ou ilógicas, mas que nos faziam pensar. Vem, também, do testemunho que posso dar de sua generosidade, do seu senso de justiça, e do seu empenho em apoiar moralmente todos àqueles que eram perseguidos e vilipendiados.

Morreu fazendo uma escolha, dentro das escolhas possíveis com que ele poderia reafirmar sua própria dignidade.

 

 Cláudio Luiz Pereira é doutor em antropologia e diretor do MAE/Ufba

Balaio de Ideias: Coisas da Vida

postado por Cleidiana Ramos @ 7:22 AM
1 de julho de 2015
Mãe Valnizia faz uma homenagem a Egbomi Cutu de Ogum. Foto: Raul Spinassé  / Ag. A TARDE: 2.12. 14

Mãe Valnizia faz uma homenagem a Egbomi Cutu de Ogum. Foto: Raul Spinassé / Ag. A TARDE: 2.12. 14

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre

As festas de Santo Antônio, São João e São Pedro passaram, e na vida continuo pulando fogueiras, lembrando de histórias e vivendo tantas emoções. Uma lembrança que trago dessa fase era o amanhecer do dia, com a fogueira já em chamas bem baixas e as pessoas assando milho verde e chouriça enrolada em papel pardo. Quando o papel pardo pegava fogo, a chouriça estava assada, e se fazia uma farofa com o café adoçado que tinha que estar frio para não embolar a farinha. Quando pronta, se comia a chouriça com essa farofa e um café quentinho.

Saímos dessas festividades e vamos para uma data histórica, o Dois de Julho, quando comemoramos a Independência da Bahia. Nesse dia ou em outra data deste mês, vários terreiros de candomblé fazem homenagem para os caboclos.

A influência dos caboclos é tão importante na religião de matriz africana que antigamente as pessoas que não tinham terreiro de candomblé faziam reunião para cultuá-los nas suas casas. Muitas não eram nem feitas de santo, mas trabalhavam com os caboclos. Eles atendiam e não cobravam nada, ensinavam até remédios e ebós. Na maioria das vezes só batiam palmas ou em tabuinhas. Hoje já não se veem mais cultos aos caboclos como esses.

Interrompi o texto que falava sobre essas festividades juninas e históricas quando uma importante egbomi, tia do meu terreiro, foi convidada por Iku para ir do Aiyê para o Orum. É difícil em tão poucas palavras falar de alguém como minha estimada tia e egbomi Cutu, que era uma pessoa tão alegre e partiu justamente num dia da festa de Xangô Ayrá, um dos orixás de que ela mais gostava.

Tia Cutu foi uma pessoa muito importante na minha vida religiosa e também na do terreiro Engenho Velho Ilê Axé Iyá Nassô Oká Casa Branca. Ao longo de 60 anos ou mais, ela contribuiu de forma séria e dedicada. Durante quatro décadas, tive o privilégio de vivenciar momentos ora alegres, ora tristes, de reflexão e de aprendizagem.

Eu costumava chamá-la de “sargento”. Era uma mulher de Ogum, um “sargento” alegre, que fará muita falta, pela dedicação incansável e pela resistência de manter uma hierarquia do tempo dela. Ela brigava como uma forma de zelar pelo axé. E, assim, continuava a sobreviver diante de todas as mudanças que as gerações trazem.

Guardo dessa mulher guerreira, além da minha história de irmandade do Engenho Velho, a relação com o Terreiro do Cobre. Há anos ela me contou que quando criança muitas vezes vinha andando da Curva Grande (região onde estão localizados o Instituto Médico Legal Nina Rodrigues e o 5º Centro de Saúde Clementino Fraga, na avenida Centenário) ao Engenho Velho da Federação, pois a avó, Hortência de Omolu, era filha de santo de Iyá Flaviana, ialorixá do Cobre e minha bisavó.
Tínhamos muitas coisas em comum. Essa mulher guerreira, festeira e que também era a líder religiosa do terreiro que dirigia em Mussurunga deixa a lembrança de muita alegria, traduzida nos festejos juninos e históricos desta época.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE  EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA

Cristofobia: a propósito de mais uma baboseira nacional

postado por meire.oliveira @ 5:25 PM
19 de junho de 2015
Antropólogo analisa a simulação de uma crucificação durante a Parada Gay de São Paulo

Antropólogo analisa a simulação de uma crucificação durante a Parada Gay de São Paulo

Diz-se, desde que me conheço por gente, que o Brasil é um país a ser observado. Somos um laboratório e, portanto, lugar de gestão do novo em velho, e do velho em novo. Assistimos agora, por exemplo, o embate entre sistema de crenças e sistemas de valores, fruto tardio de uma passagem crítica de um mundo rural limitado para um mundo urbano, amplo e inclusivo. Desta fricção erigimos possivelmente nossa nova paisagem moral, e dela decorrerá parte da dinâmica de nosso sistema cultural no futuro.

Talvez por isto mesmo estejamos nos tornado um país que vive de permanentes casuísmos, de correções e erros, de retaliações, e de desinteligência com respeito ao povo que queremos no futuro. O mais recente destes casuísmos vem sendo resenhado pelos noticiosos e tem como estopim a passeata LGBT, realizada em São Paulo recentemente. Nela uma transexual vale-se de uma alegoria política, encarnado a mais chocante, terrível e fascinante cena cristã: a crucificação de Cristo.

Esta cena e o que ela resultou como reação no Congresso Nacional é um perfeito retrato de um Brasil em devir, com suas contradições, diferenças, divergências, mas que, a despeito de tudo, segue, não à deriva como pode parecer ao pessimista e aqueles que têm a temerária inclinação pelo “quanto pior melhor”, mas de acordo com um jogo de poder, político e simbólico, que são próprios a astuciosa construção de nossa realidade social e cultural.

Para quem analisa friamente nossa vida social a religião, qualquer que seja ela, se parece hoje, sobretudo, como um grande negócio. De forma caricata pode-se dizer que para os adeptos irremediavelmente é dispêndio e consumo, enquanto que para os gestores da religião é produção e comércio, ou seja, uma fonte de fortuna, poder e prestígio. A lógica de um mercado de bens simbólicos e de salvação – produtos e serviços – mais que visível atualmente através de canais midiáticos, faz-nos pensar que logo alguém se sentirá seguro para reivindicar um monopólio, assim como direitos, sobre a imagem de Cristo. Símbolos, não raramente, tornam-se produtos: técnicos, comerciais, estéticos, etc.

Mas, o que os símbolos devem significar? Ora, sabemos que os símbolos agem nas nossas disposições, nas nossas motivações e, também, nas nossas mais elementares noções de ordem. Isto em razão de que todos os atos culturais são construídos mediante apreensão e utilização de formas simbólicas. Neste sentido, os símbolos permeiam nossos acontecimentos sociais e políticos.

A regulamentação da imagem de Cristo se faz mais na cultura que nos tribunais, isto é certo. A maneira como ele foi consolidado no universo católico – por exemplo – foi cuidadosamente gestado no correr de séculos.  Neste processo Cristo se transmutou em muitas diferentes imagens, embora predomine como representação o momento crucial da crucificação.

Pode-se dizer que, em geral, os símbolos sagrados funcionam também para estabelecer uma síntese entre um ethos e a visão de mundo de um povo. Tais símbolos podem ser públicos ou privados e, sendo polissêmicos, podem transitar entre o político e o religioso, apresentando-se, a depender do contexto, como alegórico ou metafórico. Especialmente sendo símbolos sagrados estão sujeitos a incompreensões, a interpretações, a revalidações e a permanentes reavaliações.

Mas, que símbolo Cristo pode representar e representa? Quem é Cristo? Ninguém, de sã consciência, pode negar o valor simbólico de Cristo como símbolo fundante de nossa humanidade: de um lado o homem histórico, doutro o corpo místico, arquétipo. Mas, quem disse que Cristo crucificado não pode ser representado por uma travesti ou um gay? Por um negro, por um índio ou um cigano?  Quem, afinal, pode arrogar-se o direito de dizer o que Cristo pode significar?

Os bens simbólicos, inclusive os sagrados, não podem pertencer a nenhum segmento social em detrimento de outros, ainda mais quando estes símbolos são reconhecidamente universais, gestados no solo de uma história humana densa, adubada por sangue, sêmen e lágrimas.

O essencialismo da formulação política da “cristofobia”, no âmbito deste patético Congresso, nos parece de todo desmedido. Não deveria se tratar de censura e justiça retributiva quanto ao uso de um bem simbólico particular, o Cristo, mas de proteção aos símbolos sagrados religiosos em seu sentido mais amplo, considerando-se a diversidade brasileira, cultural e religiosa?

Vale lembrar que valores civis devem se contrapor a valores religiosos na consolidação da vida social e política. O Estado é laico, e logo não deve dar preferências, prerrogativas ou privilégios por esta ou aquela religião, mas garantir a todos os cidadãos o direito de livre escolha, inclusive a de não ser religioso, ou de simplesmente ter ou não ter religiosidade.

A proposição de uma legislação a propósito de uma “cristofobia” é uma asneira cultural sem precedentes, e urge que seus proponentes troquem seus recalques pessoais, e religiosos, pelo bom senso que possa redundar em tolerância religiosa, e na regulação equilibrada das relações de convivência, tão necessárias à nossa vida social.

 

Cláudio Luiz Pereira

Antropólogo – UFBA

Precisamos ajudar o meio ambiente

postado por meire.oliveira @ 2:54 PM
3 de junho de 2015
Mãe Valnizia fala sobre a importância de preservar o meio ambiente

Mãe Valnizia fala sobre a importância de preservar o meio ambiente

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre

 Vamos aproveitar o próximo dia 5, quando se comemora o Dia do Meio Ambiente, para fazer algumas reflexões sobre as agressões que temos feito a ele, talvez, mesmo sem perceber. Milhares de pessoas, ao não ter saneamento básico, coleta de lixo, luz elétrica e viver em condições muito precárias, acabam tomando medidas que o agridem.

São esses desfavorecidos, inclusive, que sofrem com os acidentes ambientais, embora nem sempre causem os maiores danos. Os mais pobres não têm fábricas para jogar produtos químicos nos rios e nos mares que matam os peixes e poluem o ar; nem fazendas que usam agrotóxicos nas grandes plantações; também não são eles que constroem mansões em cima de nascentes, embora paguem o preço e sofram bem mais quando vêm as tragédias e precisam reconstruir suas vidas.

Precisamos ensinar às nossas crianças práticas como jogar lixo no lugar devido, pois assim adultos conscientes e educados serão formados.

Nós, povo de candomblé, devemos ter uma preocupação ainda maior com o meio ambiente, pois cultuamos a natureza. Sem ela, nossa religião não existiria. Já está difícil, devido ao desmatamento, encontrar matas e outros locais ideais para fazer as nossas oferendas de uma forma que a própria natureza as absorva. Aliás, devemos ter cuidado com o que usamos para depositar nas ruas, no mar e nas matas para que não acabemos por fazer com que esses locais adoeçam.

Acredito que, com um pouco de consciência, cada um de nós vai ajudar a natureza. Não podemos desistir de plantar uma árvore e cuidar dos espaços em que vivemos. É importante, por exemplo, quando formos à praia, levar sacos para recolher o lixo, mesmo que não tenha um cesto por perto. Se cada um fizer a sua parte, o meio ambiente estará recebendo a ajuda que anda pedindo.

Como estamos perto das festas juninas, aproveito para lembrar sobre os riscos, para o meio ambiente, trazidos pelos balões. Na maioria das vezes, eles acabam provocando incêndios, assim como os fogos típicos dessa época, que ameaçam, principalmente, as crianças.

O São João tem coisas melhores para aproveitar como canjica, licor e o samba junino. É pena que muitas dessas tradições vêm perdendo espaço. Antigamente as pessoas saíam de porta em porta. Elas chegavam segurando pequenas tábuas que batiam enquanto cantavam: “Dona da casa, me dê licença/me dê seu salão para vadiar. E viva a São João”.

Quando a chama das fogueiras diminuía, saltava-se por cima delas acompanhado de alguém que se tornava a comadre ou o compadre de São João. Logo depois vinha o São Pedro, quando só as viúvas podiam fazer fogueiras na porta de suas casas.

Portanto, olha quanto coisa boa existe para se fazer durante as festas juninas sem soltar balões ou adotar práticas que agridem as pessoas e o meio ambiente. Portanto, já aproveitando o cortejo, felizes dias de festas.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA

Não quero conversa com “13 de maio”

postado por Cleidiana Ramos @ 4:03 PM
28 de maio de 2015
Jaime Sodré analisa o Bembé do Mercado.  Foto: Rejane Carneiro | AG. A TARDE

Jaime Sodré analisa o Bembé do Mercado. Foto: Rejane Carneiro | AG. A TARDE

Jaime Sodré

Dona Tidinha recordava: “Meu filho, antigamente no dia 13 de maio tinha até missa para a princesa Isabel”. A liberdade é um bem gratificante, imagine experimentada por um negro escravo naquele contexto, mesmo carente de ver este gesto acompanhado das vantagens da cidadania.

Um agradecimento especial pensou João de Obá, ao atribuir, à graça dos orixás, a concretização desta alforria coletiva. Ousado pensou o “BEMBÉ DO MERCADO”.

A competente Luzia Moraes traz esta historia em seu livro “Bembé do Mercado – 13 de maio em Santo Amaro”, o qual, recomendo.

Ao completar um ano da assinatura da Lei Áurea, João Obá, preto malê, escravo forro e Babalorixá, “botou o pau de standard”, que consistia da bandeira Branca de Orumilá, divindade da adivinhação, na Ponte do Xaréu e trouxe, em um ato de desafio, o seu candomblé para o Mercado da Cidade de Santo Amaro, seguido de fiéis do culto e fez a festa, com oferenda a Yemanjá. Exu, o senhor dos mercados, também “comeu”.

A continuidade foi o empenho de muitos; do Babalorixá Menininho, que não tocava o Bembé na sexta feira, em respeito a Oxalá; Noca de Jacó que passou para Tidú, que manteve entendimento com a Prefeitura; Mãe Lídia do Terreiro Ilê Yá Onã, (na Sub estação); Mãe Iara do Terreiro de Oiá (no Trapiche de Baixo) e José Raimundo Lima Chaves – Pai Pote do Terreiro Ilê Axé Ojú Oniré.

D. Canô era uma alegre entusiasta da festa do Bembé e colocava a sua oferenda no Balaio em nome dos “Velosos”; a doce Mabel sabe disso, aliás quando criança a Mabel era dito que “Bembé” era a saudação a Isabel (Isabé).

D. Zilda Paim assegurava que o ano do começo do Bembé era 1889 e nos anos 40 e 50 necessitava de autorização policial. Batia-se nos dias 11, 12, e 13 que era feriado.

Para a Dra. Yeda Castro, Bembé pode ser uma palavra Fon (yoruba/nagô) ou Banto, de Imbembé, mas alguns afirmam que tratava-se de uma corruptela de Candomblé.

Os preparativos para a festa iniciam-se com a oferenda a Exu realizada no Mercado, pois a casa responsável pelo evento religioso instala-se ali em um caramanchão e o Balaio de Yemanjá é levado à praia de Itapema, em caravana e colocado com maré cheia; para Mãe Lídia o Bembé “é mais o presente”.

Historicamente, para o nosso Professor Dr. Ubiratan Castro, o Bembé: “É o candomblé da Liberdade”, de grande significado na afirmação da cidadania negra, amenizando a “subserviência agradecida” à princesa. Os ex-senhores de escravos estavam injuriados com esta ideia de liberdade, afirmando que a lei seria revogada pelos seus parlamentares e mobilizaram o aparelho policial para inibir as manifestações dos negros.

O povo negro, esperançoso, dizia: “Yô Yô Carigé, Dá cá meu Papé” numa alusão a carta de alforria, prometida pelo ilustre abolicionista Eduardo Carigé.

No dia 13 de maio de 1889, as pessoas foram ao Mercado festejar em praça pública o primeiro aniversário da abolição. Não teve parada cívica nem discurso, lembrava o professor Bira. Agradecendo aos orixás, jogaram as oferendas no mar, até hoje.

Os escravos libertos eram chamados pejorativamente de “13 de Maio” e diziam isto em verso popular: “Nasceu periquito, Morreu papagaio, Não quero conversa com treze de maio”. Eu quero. 

Amanhã tem “Literatura negra uterina” no Pelourinho

postado por Cleidiana Ramos @ 11:55 AM
27 de maio de 2015
Encontro vai reunir as escritoras Cristiane Sobral, Livia Natalia e Mel Adún. Foto: Reprodução/Divulgação

Encontro vai reunir as escritoras Cristiane Sobral, Livia Natalia e Mel Adún. Foto: Reprodução/Divulgação

Amanhã, quinta (28), a partir das 18h30, tem sessão especial do Ogum´s Toques, projeto totalmente voltado para a literatura negra. A noite será das escritoras Cristiane Sobral, Livia Natalia e Mel Adún.

Denominado “Literatura Negra Uterina” o encontro vai debater o conceito que vem sendo trabalhado pela Ogum´Toques envolvendo a produção intelectual e literária feminina.

O evento acontecerá na unidade do Sesc/Senac localizada no Pelourinho.

Vércia apresenta show com base na cultura afro-brasileira

postado por Cleidiana Ramos @ 9:50 AM
25 de maio de 2015
A cantora Vércia faz apresentação única no Pelourinho. Foto: Divulgação

A cantora Vércia faz apresentação única no Pelourinho. Foto: Divulgação

Quem curte uma música feita com base nas raízes culturais da Bahia não pode perder o show da cantora Vércia, no próximo dia 29, na Praça Pedro Archanjo, Pelourinho.

O show intitulado Vércia & Muriquins vai das 21 às 23 horas. A banda Muriquins é formada por Gabriel Barros (guitarra); Alex Ferreira (baixo);Ricardo Cara de Rato (percussão); Marcus Santos (bateria) e Artur Costa (backing vocal).

Com direção musical de Marcus Santos e direção cênica de Maria Prado de Oliveira, o show vai contar com as participações especiais de Carlos Barros, Dão e Viviam Caroline.

No repertório,  Iansã, composta por Hugo de Castro Alves, Lua Marina e Bruno Ribeiro, concorrente ao Prêmio Caymmi de Música; Brilho de Beleza (Nego Tenga), dentre outras. Por todo o show estarão presentes referências à herança afro-brasileira, além de repertório do cancioneiro popular.

SERVIÇO:
Show: Vércia & Muriquins
Quando: 29 de maio de 2015, às 21 horas
Onde: Praça Pedro Archanjo, Pelourinho
Participações especiais: Carlos Barros, Dão e Viviam Caroline
Ingresso: 10 reais ( valor único)

E o racismo atinge mais um atleta: o garoto Angelo Assumpção

postado por Cleidiana Ramos @ 12:52 PM
21 de maio de 2015
Angelo Assumpção foi vítima de racismo em vídeo divulgado em rede social por colega da Seleção de Ginástica Artística. Foto: Arquivo Pessoal/ Facebook

Angelo Assumpção foi vítima de racismo em vídeo divulgado por colega da Seleção de Ginástica Artística. Foto: Arquivo Pessoal/ Facebook

Eu comecei a gostar de ginástica artística em meados da década de 1990, quando a Rede Bandeirantes era especializada em esportes. Às vezes, acordava de madrugada para acompanhar as competições.

A primeira referência brasileira no esporte que conheci foi a atleta Luiza Parente que brilhava mesmo com ginástica em uma fase ainda desconhecida no País.

Aí veio a geração de 2000 com Daiane dos Santos. Fiquei extremamente triste quando ela perdeu a medalha, principalmente por saber que seria a primeira atleta negra a conquistar o ouro no esporte em uma Olimpíada.

Imaginem! Em um esporte clássico em Jogos Olímpicos só na década de 2000 uma negra, mesmo com os EUA sendo uma potência, chegou perto de subir ao lugar mais alto do pódio.

Isso é um indício de como a ginástica é um esporte que integra o grupo dos que são mais difíceis  para os negros acessarem. Ela requer treinamento especial desde muito cedo, inclusive nos movimentos de balé clássico. Sem falar nos aparelhos caros. É diferente do futebol, quando  uma bola de meia já dá para começar a treinar. 

Daiane, inclusive, dançava pouco, pois começou a treinar tarde, o que prejudicava seu desempenho com a parte do balé. Fazia apenas o básico e exigido. Suas séries eram todas baseadas na força. Vale ressaltar que foram dois ucranianos, à frente da Seleção Brasileira, que “descobriram” Daiane no banco de reservas.E mais: ela precisou fazer movimentos espetaculares para que ganhasse holofotes e saísse da reserva na seleção nacional. Não à toa batizou movimentos com seu nome.

Agressão
Essas reminiscências são para falar do “caso Angelo Assumpção”, 18 anos, a mais nova vítima de crime racista no esporte. Assim como Daiane, ele era reserva. Ganhou a vaga na etapa da Copa do Mundo de Ginástica, disputada no Brasil de 1º a 3 deste mês,  porque um dos titulares se machucou. Saiu do banco para ganhar uma medalha de ouro no salto desbancando a experiência da “eterna estrela” Diego Hypolito e outros favoritos.

Fiquei emocionada quando a transmissão na TV mostrou a família de Angelo na arquibancada. Todos negros. A mãe, dona Magali Dias Assumpção, estava extremamente feliz. Dias depois, nas matérias que surgem após uma conquista “surpresa”, dá para entender o motivo: a família praticamente “ousou” ao deixar o menino correr atrás do sonho mesmo com as dificuldades típicas de transporte e dificuldades financeiras. Um exemplo: a agora “revelação da ginástica nacional” ainda está sem patrocínio.

O mês que poderia acabar de forma perfeita para Angelo trouxe  um pesadelo. Ele está no epicentro de uma história que de tão absurda chega a parecer  inacreditável.

O ginasta Arthur Nory postou numa rede social um vídeo onde, durante uma refeição coletiva – a seleção masculina está concentrada para competições- o campeão Angelo é provocado. É Nory quem pergunta:”Seu celular quebrou: a tela quando funciona é branca..quando ele estraga é de cor?”. Um coro dos outros atletas responde: “Preto”. E continua: “O saquinho do supermercado é branco. E o do lixo? É preto! “. Tudo isso diante de um Angelo constrangido.

O vídeo foi assunto de uma matéria do jornal O Globo o que transformou, ainda bem, o episódio em um escândalo. Aliás, uma curiosidade: Arthur Nory foi exatamente o atleta que Angelo substituiu na etapa da Copa do Mundo de Ginástica realizada no Brasil, porque estava machucado.

Ontem, quarta-feira, a Confederação de Ginástica afastou Arthur Nory, Fellipe Arakawa e Henrique Flores. Os três apareceram em um segundo vídeo onde Angelo está ao lado, aparentemente constrangido, e Nory desculpas dizendo que “tudo foi uma brincadeira”. A típica desculpa cínica nos casos de racismo.

Outra curiosidade na história: o ginasta Angelo Flores é enteado de Marcos Goto, técnico de todos os envolvidos, quando estão na Seleção Brasileira, e do campeão nas argolas Arthur Zanetti.  Goto, vale registrar, é negro.

Punição

A suspensão dos três ginastas é por 30 dias. A pena, diante da gravidade do caso, pode ser considerada leve, mas o que me agradou foi  que ela veio da  CBG e rapidamente, diferentemente de Fifa e CBF que costumam empurrar com a barriga o quanto podem posições diante de casos que envolvem racismo.

A CBG também afirma que está dando o apoio psicológico necessário a Angelo e não deixa que ele se pronuncie sobre o caso.

Imagino o sofrimento desse menino. Deve estar passando por uma pressão imensa, sem falar nos possíveis  olhares atravessados em sua direção , típicos dos que tentam transformar as vítimas de racismo em “gente sem humor”, “complexadas”, que não toleram uma “brincadeirinha inocente”. E é nesse clima que o ele vai ter que disputar uma prova importante: mais uma etapa da Copa Mundial rumo à sua batalha por uma vaga nas Olímpiadas 2016, que o Rio de Janeiro vai sediar.

Aliás, o ginasta Diego Hypolito que, durante o Mundial, se disse um fã de Angelo e grande amigo dele se apressou rapidamente em caracterizar o episódio no “campo da brincadeira”.

A meu ver, “pisou fora do tablado” para usar um expressão do esporte. Com racismo não se brinca, assim como não se desafia o fogo. O resultado pode ser um acidente que deixa sequelas perigosas.

Mãe é para ser celebrada diariamente

postado por Cleidiana Ramos @ 8:38 AM
6 de maio de 2015
Mãe Valnizia analisa as responsabilidades e alegrias da maternidade. Foto:  João Alvarez/ Divulgação/26.7.2011

Mãe Valnizia analisa as responsabilidades e alegrias da maternidade. Foto: João Alvarez/ Divulgação/26.7.2011

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre

Sabemos que o comércio construiu o Dia das Mães, assim como outros feriados, para vender mais. Continuo achando que mãe é para ser festejada diariamente, desde que o homem começou a parir. Sim, na minha opinião, quem pare primeiro é o homem colocando o sêmen no útero da mulher para que ela gere o bebê, embora o avanço da medicina tenha encontrado novas formas de levar alguém a engravidar.
Mesmo com alterações no corpo e até risco de vida, as mulheres ficam muito felizes ao se descobrirem grávidas. Perceber o bebê mexer na barriga é uma sensação difícil de ser definida. Às vezes, a grávida está dormindo e acorda com os “chutes” e “cotoveladas” do filho.
Antes não existiam os exames que permitem saber o sexo do bebê durante a gravidez. Essa informação vinha do conhecimento de pessoas experientes que se baseavam em sinais, como o formato da barriga. Geralmente, eram as parteiras que apontavam se ia ser menino ou menina e quando o parto iria acontecer a partir da observação da lua.
Por isso se fazia um enxoval azul – para os meninos – e rosa para as meninas. Quem precisava economizar fazia tudo em amarelo, cor considerada neutra. A emoção continuava com o nascimento. O momento em que a criança abria o olhos – antigamente, elas levavam sete dias para abri-los – e o primeiro sorriso eram acontecimentos acompanhados de perto pelas mães. A experiência vinha da prática, pois muitas não tinham acesso ao pediatra.
Lembro que se a criança nascia com as pernas tortas, o que se chamava “cangalha”, a mãe esperava que ela começasse a andar e durante sete sextas-feiras a levava na praia. Lá cobria as pernas do filho com areia úmida. Dava certo.
Se o bebê não dormia, a mãe preparava chá com folhas, como melissa e erva-cidreira. Outra medida era colocar uma bacia com a infusão das ervas perto do local onde a criança dormia para que ela fosse inalando o perfume. Raramente, se apelava para remédios.
Se a mãe não tinha leite no peito, tomava mingau feito com café, manteiga e farinha ou de milho com manteiga. Essas eram formas de entender a maternidade como algo que exigia estar perto dos filhos, o que se tornou mais difícil, pois as mulheres têm que ficar fora de casa para trabalhar e estudar.
Eu me considero privilegiada, pois sou mãe de Vandréa e Júnior e avó de Aynã e Ayran, o que é maternidade em dose dupla. Ainda fui escolhida pelo destino para ser mãe espiritual de centenas de pessoas, o que me faz ter amor por elas e seus filhos, que considero netos, como se fossem de “sangue”.
Comemoro ainda uma coincidência. Nasci em um Dia das Mães e este ano meu aniversário vai ser celebrado nessa data. Pensando em tudo isso, quero pedir aos filhos que respeitem sua mãe e sempre digam para ela o quanto a amam. Não existe presente melhor. Também procurem ouvi-la, pois cada uma pressente quando algo de ruim vai acontecer com seus filhos. Desejo a todas as mães muita sorte. Axé.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA

Festa para Mãe Stella

postado por Cleidiana Ramos @ 7:00 AM
2 de maio de 2015
Mãe Stella festeja seus 90 anos. Foto:  Mila Cordeiro | Ag. a TARDE| 1.10.2014

Mãe Stella festeja seus 90 anos. Foto: Mila Cordeiro | Ag. a TARDE| 1.10.2014

Dia de festa para o candomblé: Mãe Stella de Oxóssi, a filha do caçador da alegria, completa 90 anos. Somos privilegiadas e privilegiados por conviver com a sua sabedoria.

Que pena! Windeck chega ao fim

postado por Cleidiana Ramos @ 5:03 PM
27 de abril de 2015

Será que Ana Maria (Nádia da Silva), finalmente, vai se acertar com Kiluanji (Celso Roberto)?

Será que Ana Maria (Nádia da Silva), finalmente, vai se acertar com Kiluanji (Celso Roberto)?

Amanhã, terça, a partir das 23 horas, a novela Windeck, de produção  angolana, chega ao fim. Exibida pela TV Brasil desde novembro do ano passado, a trama foi um acerto e premiou a ousadia da emissora.
Partindo do que são capazes pessoas que ambicionam poder e dinheiro –”windecks”- na gíria angolana, a novela é de uma ousadia impressionante desde os temas que abordou– relações homoafetivas, violência doméstica, homofobia, dependência de álcool e cicatrizes do colonialismo– até a linguagem escancaradamente exagerada que faz lembrar, às vezes, as tramas mexicanas.
Além disso, é gratificante assistir negras e negros em papéis de protagonismo social (executivos, modelos, jornalistas e médicos), além de apresentar uma Luanda moderna, mesmo que em processo de reconstrução, o que apaga vários dos estereótipos que mantemos sobre cidades da África Negra.
Sem pudor, a sinopse usou e abusou dos clichês clássicos da teledramaturgia (golpe da barriga; vilania pura, sem nuances psicológicas e mocinha e mocinho ingênuos), com doses de humor, mas muito bem costurados.
A trilha musical foi outra boa surpresa com ritmos angolanos variados que iam do semba ao kuduro passando também por estilos que lembram a nossa MPB.
Mesmo o que poderia ser uma barreira– a diferença do português falado em Angola do que é usado no Brasil- acabou em acerto. Passado o estranhamento inicial foi divertido aprender o significado de palavras como cumbu e bazeza. O recurso do glossário, que aparecia em meio às cenas, foi eficiente.
Windeck termina alcançando médias de audiência surpreendentes para uma novela estrangeira em um canal que não tem tradição em teledramaturgia e em um horário ingrato (23 horas): em Salvador, a média foi 0,7 no Ibope com dias de pico de um ponto. Porto Alegre foi outro lugar com boas marcas.
Vamos torcer para que a TV Brasil volte a apostar em ações parecidas.

Confira abaixo a sinopse do último capítulo:

Ofélia telefona para Wilson e marca um encontro com urgência. Ela também convoca Isaura, Luena e Kiluanji para fazer uma revelação a todos. Vitória decide assaltar o cofre dos Voss no dia do casamento de Kiluanji e Ana Maria. Vitória e Henda se disfarçam de empregados do bufê e entram na mansão. A vilã consegue chegar ao escritório e tenta abrir o cofre. Será que ela vai conseguir?

Terreiro faz festa para Mutalambô e oferta presente para Dandalunda

postado por Cleidiana Ramos @ 6:04 PM
24 de abril de 2015
O terreiro Santa Bárbara, comandado por Pai Valdemir, celebra Tempo no próximo domingo. Foto: Fernando Vivas/Ag. A TARDE/ 22.06.2009

O terreiro Santa Bárbara, comandado por Pai Valdemir, celebra Tempo no próximo domingo. Foto: Fernando Vivas/Ag. A TARDE/ 22.06.2009

Amanhã, sábado, a comunidade do Terreiro Santa Bárbara, localizado em Lauro de Freitas, estará em festa para Mutalambô, o inquice que é patrono da prosperidade, pois é caçador e protetor das matas.  A celebração começa às 20 horas na casa comandada pelo tata de inquice Valdemir de Bamburucema.

No domingo, é dia do presente para Dandalunda, senhora das águas doces. O cortejo vai sair de Lauro de Freitas, onde fica o terreiro, às 9 horas em direção à Lagoa do Abaeté.

O terreiro fica   na  Rua do Araqui, 22, em Lauro de Freitas. Telefones:  (71) 3369.0013 / 3379.3412 . Cel: (71) 8759.8063 / 8185.8009 

São Jorge das muitas faces

postado por Cleidiana Ramos @ 5:28 PM
23 de abril de 2015
Em Salvador, São Jorge foi festejado hoje na paróquia localizada no Jardim Cruzeiro, Cidade Baixa. Foto: Gildo Lima| Ag. A TARDE | 30.04.2011

Em Salvador, São Jorge foi festejado hoje na paróquia localizada no Jardim Cruzeiro, Cidade Baixa. Foto: Gildo Lima| Ag. A TARDE | 30.04.2011

Não sou mais católica, mas há elementos dessa prática religiosa que continuam a me inspirar um imenso carinho. Um deles é São Jorge que possui a capacidade de transcendência e ressignificação a partir da perspectiva de seus devotos e assim seu culto vai resistindo desde o século IV. É muito tempo de persistência diante de tantas reviravoltas. Um exemplo: a perda do status de “obrigatória” por sua festa no calendário litúrgico católico.

Hoje as homenagens a ele são “opcionais” no catolicismo. Um dos principais problemas foi a fama de “matador de dragão” que o cerca e faz, inclusive, parte da sua iconografia.

Na década de 1970 a Igreja Católica fez uma reforma em seu calendário litúrgico. A ideia foi dar preferência à historiografia, ou seja: os santos que tinham biografias com dados, digamos, mais difíceis de comprovar historicamente, passaram a ser festejados de forma mais discreta. 

Além de ter entre os seus feitos o enfrentamento a um dragão, Jorge da Capadócia, na devoção popular, ganhou como endereço a lua, pelo menos no Brasil. Lembro que ainda criança já cansei de olhar para o céu e ver a forma como ele aparecia nas imagens em meio as nuvens que passavam pela lua. Fui crescendo e pressionada, em nome do cartesianismo, a perder o  fascínio por aquele fenômeno definido  como autosugestão. Mas de vez em quando expulso a racionalidade e consigo ainda (sucumbindo à imaginação, oras), enxergar São Jorge montado, elegantemente, no seu cavalo em  meio a um belo luar.

Com a reforma do calendário, sua festa, portanto, foi tornada opcional e não se fez mais oficialmente consagrações específicas a ele de igrejas, dioceses ou o escolheram  como o padroeiro de paróquia. Em Salvador, por exemplo, só há uma igreja dedicada a ele: a situada no Jardim Cruzeiro, na Cidade Baixa. Mas o impressionante é que essa questão oficial parece não ter tido impactos significativos sobre o culto a São Jorge.

O santo guerreiro e matador de dragões ( animal que, para muitos, na representação clássica de São Jorge é apenas um símbolo do mal curvado diante da coragem e da santidade) é padroeiro da Inglaterra, via a Igreja Anglicana; no catolicismo brasileiro ganhou fama de intercessor poderoso e para completar, nas religiões de matrizes africanas brasileiras foi associado a divindades ligadas à fartura e proteção.

Na Bahia, São Jorge foi aproximado do Oxóssi ketu ou Mutalambô do povo angola, nome para as divindades definidas como caçadores guerreiros e provedores da sua comunidade; no Rio a relação é com Ogum ou Nkossi, os guerreiros invencíveis, sem falar nas várias associações com encantados que a umbanda lhe deu.

É importante destacar que, no fundo, no fundo, o povo sabe muito bem que São Jorge é São Jorge, Oxóssi é Oxóssi, Ogum é Ogum, mas não se pode impedir as ressignificações ou negá-las, pois isso é próprio da diversidade,  da liberdade religiosa e da dinâmica dos símbolos e interpretações culturais.

Do ponto de vista teológico vamos fazer debates intermináveis sobre a necessidade de separar em partes o que é de cada religião, mas, hoje, vou ficar com a devoção popular e celebrar a licença poética. Portanto, Salve Jorge e reverências a Ogum, Oxóssi e aos encantados das florestas.

Balaio de Ideias: Saudades da Semana Santa antiga

postado por Cleidiana Ramos @ 9:34 AM
8 de abril de 2015
Mãe Valnizia traz a memória de comemorações da Semana Santa no passado. Foto: Raul Spinassé | Ag. A TARDE | 2.12.2014

Mãe Valnizia traz a memória de comemorações da Semana Santa no passado. Foto: Raul Spinassé | Ag. A TARDE | 2.12.2014

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre

Acabamos de passar pela Semana Santa, uma festa do cristianismo que considero muito importante, pois, apesar das mudanças, ainda consegue unir famílias. Lembro-me de que, há alguns anos, nesse dia não se podia fazer barulho, as pessoas pediam perdão, não se falava alto nem se batia nas crianças.

O trabalho para o almoço da sexta tinha que ser adiantado na véspera: os cocos eram partidos e deixados em uma vasilha com água para não azedar até ser ralados, pois a maioria dos pobres não tinha geladeira para conservá-los e nem liquidificador.

Para ser moído, o camarão seco era colocado em uma toalha usada para enxugar prato, fechada e amarrada na ponta de uma mesa, ou usávamos o pilão. O feijão para o “feijão de leite” era partido em uma máquina manual. Já o peixe era limpo na sexta-feira porque esse trabalho não provoca muito barulho. Quem não tinha peixe preparava uma moqueca de ovo com chuchu de tronco, como era chamado o mamão verde.

Tudo isso para não se comer carne. Se bem que, com tanta gente ainda passando fome, acho que Cristo não liga para nada disso. São costumes da cultura que mulheres e homens criaram.

Eu gostava quando os vizinhos trocavam pratos de vatapá entre si. Além disso, ao entrar em uma casa, recebiam-se um pedaço de pão e um pouco de vinho. Era preciso aceitar esse agrado, mesmo que não se ficasse para almoçar.

Para as crianças, os adultos colocavam um dedo de vinho em um copo com água e açúcar e avisavam que isso era só para fazer a “obrigação”. À tarde, os irmãos mais velhos levavam os mais novos para tomar a bênção aos padrinhos, madrinhas, tios e tias.

Mas o melhor mesmo era o Sábado de Aleluia, porque a diversão estava garantida. As crianças guardavam latas e paus para fazer barulho quando chegasse as 10 horas. Nesse horário, os terreiros de candomblé abriam, queimava-se incenso, soltavam-se fogos e os atabaques eram tocados. À noite havia a Queima de Judas. As crianças iam dormir mais cedo para acordar à meia-noite e assistir ao espetáculo.

No domingo aconteciam brincadeiras, como pau de sebo. Um pedaço de madeira era ensebado e no seu alto colocavam-se balas e brinquedos. Quem conseguia fazer a escalada levava tudo.

Nessa época não eram comuns os ovos de Páscoa e, se existiam, nem todas as famílias podiam comprar para seus filhos. O máximo, nesse sentido, era uma caixa de bombons para ser dividida.

É uma pena que os jovens e crianças estejam perdendo esses valores que incentivavam as pessoas a ser solidárias umas com as outras, como na hora de trocar os pratos da ceia da Sexta-feira Santa ou as latas para saudar a Aleluia.

Sinto muita falta da Semana Santa antiga, pois a cada dia que passa essas características são perdidas. Meus netos, por exemplo, já não sabem que se tomava a bênção às pessoas mais velhas que encontrasse pela frente, inclusive dizendo assim: “Me perdoe alguns agravos”.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA

Balaio de Ideias: O que é Ablar?

postado por Cleidiana Ramos @ 7:36 PM
25 de março de 2015
Professor Jaime Sodré apresenta a Ablar. Foto: Manuela Cavadas| AG. A TARDE

Professor Jaime Sodré apresenta a Ablar. Foto: Manuela Cavadas| AG. A TARDE

Jaime Sodré

Sob a sonora ritmia da competente bateria da escola de samba, cantava o intérprete: “Sonhar não custa nada…” Motivado, exercerei esta possibilidade. O ambiente de convivência em um terreiro de candomblé é um polo gerador de um amplo conhecimento, sobre várias temáticas. Além dos ensinamentos teológicos iniciáticos, testemunha-se uma importante produção literária e oral, realizada por fiéis, contribuindo para a qualificação e o enriquecimento da produção intelectual nacional, com um material por vezes de caráter científico, romances, contos etc.

Lembro-me do que dizia uma sábia, respeitada e querida ebomi, quando indignada e atingida por expressões grosseiras, estas emitidas por intolerantes, que no auge da sua ira diziam: “Esses negros do candomblé são macumbeiros, feiticeiros, analfabetos e ignorantes”. Em defesa do povo de santo ela dizia: “Somos negros com orgulho e dignos religiosos, mas não somos analfabetos, dominamos a língua aqui falada, pois sabemos nos comunicar, e mais, para o nosso maior orgulho, somos ‘trilíngues’, pois para o exercício religioso devemos dominar as línguas africanas: o yorubá, o quimbundo e o ewe, aplicadas nas rezas, cânticos e invocações. Quanto à ignorância, esta está em quem fala”.

Sem mencionar o repertório estético, além das danças, os ritmos, a mitologia, a culinária, a fitoterapia dentre outros, podemos concluir ser o espaço sagrado das expressões de matriz africana uma espécie de Academia. O emérito professor Edivaldo Boaventura define a Academia como “um corpo de pesquisadores que convive para estimular a geração e disseminar o conhecimento”, socializando os resultados. Neste contexto, encontramos “conceitos, práticas, instrumentos, saberes, métodos e processos que habilitam a contribuir para a gestão do conhecimento”.

No âmbito da “Academia Candomblé”, localizamos exemplos de intelectuais, iniciados, com importantes contribuições no campo do conhecimento, principalmente sobre esta matriz. Incentivado por esta realidade alvissareira, com o tom de homenagem e bom humor, apresentamos a Ablar (Academia Baiana de Letras Afro Religiosa). O intuito é listar nomes que primam por este fazer, colocando à disposição dos interessados.

Perdoem, lembro-me de alguns, e deixo espaços para outros, que você, leitor, poderá enviar ao blog Mundo Afro, do jornal A TARDE. Na minha modesta lista, temos: Cecília Soares (iyalorixá do terreiro Maroketu) – Mulher negra na Bahia no século XIX; Valnízia Pereira Bianch (iyalorixá do terreiro do Cobre) – Resistência e fé, Aprendo ensinando; Júlio Braga (babalorixá do Ilê Oyá Tundé) – Jogo de Búzios, Na gamela do feitiço, O antropólogo na encruzilhada; Vilson Caetano Júnior (babalorixá do Ilê Obá L’Okê) – Nagô, a nação dos ancestrais itinerantes; Valdina Pinto (makota do Tanuri Junçara) – Meu Caminhar, meu viver, e a distinta acadêmica Mãe Stella.

Esperamos ampliar esta lista, acrescentando autores e autoras que têm, como caráter particular, a qualidade da sua produção literária nos mais diversos estilos, como também a sua filiação na condição de iniciado às expressões religiosas de matriz africana. Laroiê Exu, patrono e senhor dos sonhos das letras e palavras.

Jaime Sodré é professor universitário, mestre em História da Arte e doutorando em História Social

Entrevista: “A memória da Bahia não pode ser seletiva”, Zulu Araújo, diretor da FPC

postado por Cleidiana Ramos @ 4:38 PM
16 de março de 2015
Zulu Araújo expõe suas ideias de gestão para a Fundação Pedro Calmon. Foto: Margarida Neide / Ag. A TARDE/ 28. 9.  2010

Zulu Araújo expõe suas ideias de gestão para a Fundação Pedro Calmon. Foto: Margarida Neide / Ag. A TARDE/ 28. 9. 2010

O arquiteto e gestor cultural  Zulu Araújo é o novo diretor da Fundação Pedro Calmon (FPC), órgão que integra a Secretaria Estadual de Cultura (Secult). Durante algum tempo, a instituição era vista, pelo senso comum, apenas como a guardiã da memória dos ex-governadores. Mas a a partir das últimas gestões, com destaque para a do professor Ubiratan Castro de Araújo (1948-2013), iniciada em 2006, a FPC e o seu trabalho em outras linhas ganhou maior visibilidade. Em entrevista que concedeu ao jornal A TARDE há nove anos, o professor Ubiratan chegou a afirmar que iria fazer do órgão o “instituto do Jacaré”, numa referência ao orador popular que, do alto de um improvisado tablado feito com caixa de madeira para guardar maçãs, fazia discursos contra o governador Octávio Mangabeira. A citação do professor Ubiratan era para lembrar que a fundação, então sediada no Palácio Rio Branco, também estava aberta para o povo, afinal ela é  a responsável pela guarda de bibliotecas, do arquivo público e de projetos como o de valorização e divulgação dos eventos relacionados à Independência da Bahia, comemorado anualmente em 2 de julho. Nessa entrevista, o novo diretor, Zulu Araújo, destaca a continuidade, em sua gestão, das ações para aproximar ainda mais a fundação dos variados segmentos da população baiana. Ele também afirma que dará continuidade aos projetos que encontrou e providenciará a implantação de novos, além de realizar um esforço para resolver o crônico problema de uma sede mais adequada para o Arquivo Público. A ideia é transferi-lo da Baixa de Quintas para garantir o tratamento mais adequado para o acervo de documentos.

Cleidiana Ramos: Muita gente ainda imagina que a Fundação Pedro Calmon (FPC) é apenas o local da guarda de memória dos ex-governadores. Seria interessante o sr. resumir quais as funções do órgão.

Zulu Araújo: A Fundação Pedro Calmon é uma instituição da Secretária de Cultura (Secult) que trabalha com memória, arquivo público, livro e leitura, além das bibliotecas públicas. Ela é o órgão responsável por formular e implantar políticas públicas nessas áreas.

CR: O Arquivo Público sediado na Baixa de Quintas vem passando há anos por problemas na estrutura física. A instalação elétrica já chegou a ficar desligada por prevenção contra incêndios. Quais as suas ideias para resolver essa questão?

ZA: Assumi o compromisso público e estou convocando outros setores para me ajudar a realizar a transferência do arquivo para um espaço mais adequado. O prédio onde ele está atualmente, apesar da importância arquitetônica, não possui condições para abrigar o acervo. Não há também como adequá-lo. Tenho essa certeza não só como arquiteto mas também por conversas que já mantive com técnicos do Ipac. Estamos, portanto, estudando a transferência para outros locais como o Centro Histórico, o Instituto do Cacau, no Comércio, e até mesmo a construção de um prédio adequado. Claro que isso depende da articulação com outros setores, verbas públicas e também sensibilização nesse sentido. Confio que vamos conseguir esse objetivo. Já na minha posse (no último dia 9), vários parlamentares se dispuseram a nos ajudar com emendas nesse sentido. Quero ressaltar que os gestores anteriores a mim fizeram todo o esforço que lhes foi possível, inclusive uma reforma no telhado. Mas o tempo já comprovou que reformas não resolvem o problema do Arquivo Público.

CR: Sob a guarda da FPC também estão os centros de memória que administram o acervo de arquivos privados. Não só na capital, mas também no interior há muitas coleções desse tipo. 

ZA: Sim. Os arquivos privados são de pessoas físicas que os adquiriram ao longo da vida e os conservaram como foi possível. Mas até mesmo para adquirir novos arquivos temos que ter espaço adequado. Atualmente, o centro de memória para esse fim funciona em duas salas da Biblioteca dos Barris. Estamos estudando outras possibilidades para a sua ampliação como a antiga sede do Inema, localizada em Monte Serrat. Também estamos avaliando, com a ajuda do Ipac, a opção do Palácio da Aclamação que passando por uma reforma será um espaço bem adequado afinal foi a morada oficial dos governadores. Ali é um complexo que também envolve o Passeio Público. Teremos uma reunião essa semana para tratar desse assunto. Mas vamos discutir não apenas a melhoria física do prédio, mas a possibilidade para dotá-lo das condições necessárias à manutenção e aquisição de novos acervos.

CR: O professor Ubiratan Castro,que foi um dos seus antecessores na FPC, dizia que queria fazer do órgão o “instituto do Jacaré” numa alusão a torná-lo mais próximo do povo. O sr. acha que a FPC caminha nesse sentido?

ZA: Quero render minhas homenagens ao professor Ubiratan pelo excelente trabalho na Fundação Pedro Calmon. Aqui ele ampliou e implantou projetos criativos como o denominado “Independência do Brasil na Bahia”, além de a ter aproximado mais da população, com certeza. Meu compromisso é dar continuidade a esse trabalho e nunca retroagir nem sair desse rumo. A FPC pretende, de maneira objetiva, aprofundar o trabalho que o professor Ubiratan vinha fazendo. Estamos também pensando em memória da Bahia no sentido mais amplo, ou seja, com as contribuições cigana, indígena, negra e européia. A memória da Bahia não pode ser seletiva para dar conta e respeitar a sua diversidade.

Balaio de Ideias: Mulheres lindas e guerreiras

postado por Cleidiana Ramos @ 9:53 AM
11 de março de 2015
Mãe Valnizia faz homenagem às mulheres. Foto:  Raul Spinassé | aul Spinassé / Ag. A TARDE: 2.12. 14

Mãe Valnizia faz homenagem às mulheres. Foto:  Raul Spinassé / Ag. A TARDE: 2.12. 14

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre 

No último domingo comemoramos o Dia Internacional da Mulher, embora, para mim, essa data seja diária. Quero, portanto, falar de mulheres como minha bisavó Flaviana Bianch. Ela veio da África ainda pequena com a mãe, Margarida de Xangô, que instalou na Barroquinha o Terreiro do Cobre. Lá ele funcionou até que Flaviana, há 127 anos, o trouxe para o Engenho Velho da Federação, onde permanece até hoje.

Foram guerreiras, como a minha mãe Moura ou Maura – seu nome de batismo. Ela teve 13 filhos e criou a metade deles sem o companheiro e nosso pai, pois ele morreu quando eu tinha 11 meses. Para ganhar dinheiro, minha mãe carregou água, trabalhou como lavadeira, doméstica e fazia bolachinhas de goma e sequilhos para vender e poder completar a renda.

Desse grupo de batalhadoras fazem parte Mãe Tatá, ialorixá do Terreiro do Engenho Velho Casa Branca, conhecida pelo amor, carinho, respeito e dedicação aos orixás e à comunidade; a linda e saudosa Iyá Nitinha de Oxum, que ajudou muito o candomblé, deixando centenas de filhos iniciados; Mãe Stella de Oxóssi, ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, que, com sua experiência e inteligência, enriquece a nossa tradição religiosa.

Vale também destacar: Lélia Gonzáles, que tanto lutou pelos movimentos negro e de direitos humanos; Vilma Reis, socióloga, que trabalha pela formação de mulheres jovens; Yeda Pessoa de Castro, sempre empenhada na construção de uma sociedade melhor; a professora Makota Valdina Pinto, educadora de tantos jovens do Engenho Velho da Federação e adjacências, que batalha pela valorização do candomblé de nação angola-banto; Alaíde do Feijão, que criou seus filhos vendendo sua deliciosa feijoada; professora Ana Célia da Silva, incansável militante do movimento negro; Ivone Lara e Clementina de Jesus, que com suas vozes lindas, fortes e únicas encantam os nossos ouvidos.

Quero homenagear ainda Olga Mettig, por sua luta pela valorização do magistério; santa Irmã Dulce, religiosa da Igreja Católica que dedicou a vida ao amparo dos mais pobres e doentes; Ana Alice Costa, fundadora do Neim-Ufba e militante pelos direitos das mulheres; Amabília Almeida, única mulher do grupo de parlamentares que redigiu a Constituição do nosso estado; e Lídice da Mata, primeira mulher a assumir a prefeitura de Salvador e ser eleita senadora pela Bahia.

Gostaria de citar outras, mas o texto tem limite. Portanto, a partir das citadas, parabenizo todas, em especial as mulheres do Engenho Velho Casa Branca, que são minhas irmãs, mãe e tias de santo, e as do Terreiro do Cobre, minhas lindas filhas. Peço a Deus que continue a fazer surgir mulheres como essas e que a sociedade reconheça os seus valores e dê o espaço que elas merecem. Imagino estar incluída nesse grupo de guerreiras, mas não posso ter a pretensão de falar sobre mim. Como acho que sou um ser humano do bem, vou deixar para que outros falem (risos). Que Deus abençoe essas mulheres e suas famílias, pois só Ele pode tomar conta dos filhos daquelas que, para trabalhar e estudar, precisam deixar suas crianças tomando conta umas das outras, em creches ou até sozinhas, à mercê dos perigos da vida.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA

Ilê Axé Opô Afonjá sedia homenagem ao Dia da Poesia

postado por Cleidiana Ramos @ 11:11 AM
7 de março de 2015
Mãe Stella, ialorixá do Opô Afonjá, é anfitriã do encontro que celebra dia dedicado a Castro Alves. Foto:  Margarida Neide / AG. A TARDE Data: 07/12/2012

Mãe Stella, ialorixá do Opô Afonjá, é anfitriã do encontro que celebra dia dedicado a Castro Alves. Foto: Margarida Neide / AG. A TARDE
Data: 07/12/2012

No dia 14 de março nasceu Castro Alves e, por isso, é quando se celebra a poesia. Ocupante da cadeira que homenageia o mais conhecido poeta baiano na Academia de Letras da Bahia (ABL), a ialorixá Mãe Stella de Oxóssi preparou uma programação especial para festejar uma data tão mágica para as letras.

A partir das 17 horas do dia 14, próximo sábado, no Ilê Axé Opô Afonjá, o projeto Encontro Colorido da Encantada Espiritualidade Baiana vai celebrar o Dia da Poesia com o evento intitulado Três toques: poesia, amor e alegria.

O projeto, que foi inaugurado com a Animoteca, uma biblioteca itinerante, foi pensado para promover o diálogo entre as diferentes tradições religiosas.  A ação é voltada para a construção de uma cultura de paz e combate às variadas formas de violência.

A celebração vai começar com a apresentação da Camerata Castro Alves, criada em 1997 por Marcos Santana e que é especializada na interpretação do repertório do poeta.

“Poesia é ritmo, é toque, é música e é por isso que nos sensibilizaremos com a apresentação deste grupo cultural e artístico”, explica Graziela Domini, coordenadora do projeto Encontro Colorido da Encantada Espiritualidade Baiana.

O amor, que é o segundo toque, vai trazer poemas que cantam esse sentimento como os reunidos no livro Nazaré- das farinhas e poesias, uma coletânea das criações de poetas do município homônimo do período de 1831 a 1963.

A coletânea foi organizada por Carla Domini Peixoto e teve o seu lançamento como uma das atividades da visita da Animoteca a Nazaré.

O terceiro toque é a alegria celebrada no nome sagrado de Mãe Stella – Odé Kayodê –, que numa tradução do iorubá para o português significa Caçador de Alegria.

“ Quem convive com ela sente o encontro da alegria com a responsabilidade em seus pequenos e grandes atos. E é por isso que a cultura brejeira pedirá licença à seriedade do ambiente religioso para encerrar a apresentação com poemas do livro Prosa Morena, onde Jessier Quirino reescreve uma fala sertaneja que diz: ‘O mundo é uma bodega pequena e sortida. Mais dias menos dias a gente se encontra’”, completa Graziela Domini.

Segundo a coordenadora, esse também será o momento de entrega ao prazer da boa comida acompanhada de uma boa prosa. A atividade também vai reservar uma surpresa para os que aceitarem o desafio de declamar poemas autorais ou de outros poetas a partir dos temas amor e alegria.

Pai Valdemir festeja 35 anos de iniciação religiosa

postado por Cleidiana Ramos @ 5:52 PM
5 de março de 2015
Terreiro de Santa Bárbara, liderado por Tata Valdemir, está em festa. Foto: Fernando Vivas | Ag. A TARDE | 22.6.2009 Data - 22/06/2009

Terreiro de Santa Bárbara, liderado por Tata Valdemir, está em festa. Foto: Fernando Vivas | Ag. A TARDE | 22.6.2009
Data – 22/06/2009

O Terreiro de Santa Bárbara, localizado em Lauro de Freitas, está preparando uma grande festa para o próximo sábado quando o seu líder, Tata Valdemir de Bamburecema, completa 35 anos de iniciação religiosa.

“Cheguei ao candomblé por conta de problemas de saúde. Já tinha ido a vários médicos, mas não ficava bom. Chegaram a recomendar que eu fosse para um centro espírita, mas, após uma consulta aos búzios acabei sendo iniciado no candomblé”, relata.

Iniciado pela mameto de inquice Domingas Kaloyá de Portão, que também era filha de Bamburecema, inquice que comanda o fogo e as tempestades e na associação com o catolicismo é vinculada a Santa Bárbara, Pai Valdemir  conta que, mais tarde, descobriu que sua missão era também se tornar uma liderança.

“O terreiro foi aberto em 1987 de uma forma bem humilde. O barracão foi feito aos poucos, mas sempre com a ajuda de Mãe Domingas, hoje já falecida. Ela sempre me acompanhou nas horas em que mais precisei e  era muito carinhosa comigo”, relata.

Hoje, a Rua do Araqui, onde fica o terreiro, diferentemente de 1987, já tem água encanada, energia elétrica e outros benefícios. Desde então, Tata Valdemir já iniciou no candomblé cerca de 180 pessoas.

“Meu esforço é para fazer crescer e embelezar como puder a casa de Bamburecema. Deixo de fazer algo para a casa onde moro, pois a desse inquice que amo e me deu tanto é que tem que brilhar”, completa.

No sábado a festa começa a partir das 19h30. Os festejos, que começaram no último domingo com um rito interno para Nzila, o senhor dos caminhos, prosseguem no dia 25 com a Festa de Mutalambô, no dia 25, também à noite.

No dia seguinte, tem o presente para Dandalunda. A  saída será às 9 horas do terreiro em direção à Lagoa do Abaeté cumprindo uma tradição de 25 anos.

Serviço:

O quê: Festa dos 35 anos de iniciação religiosa do Tata de Inquice Valdemir de Lauro de Freitas

Quando: Sábado, dia 7, a partir das 19h30

Onde: Terreiro de Santa Bárbara, Rua do Araqui, s/n, Lauro de Freitas. Telefone: 71-3379-3412

Balaio de Ideias: A guerra segue

postado por Cleidiana Ramos @ 6:32 PM
27 de fevereiro de 2015
Uma tomada da audiência pública sobre as mortes na Vila Moisés no Cabula, realizada ontem na OAB. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag. A TARDE

Uma tomada da audiência pública sobre as mortes na Vila Moisés (Cabula) , realizada, ontem, na OAB. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag. A TARDE

Wlamyra Albuquerque 

Nunca se tinha ouvido falar da Vila Moisés antes da chacina. O lugar não existia no mapa da cidade, exceto nas escalas da RONDESP. Lá não tem qualquer sinal de presença do Estado, lá não tem iluminação pública, asfalto, rede de esgoto, escola nem creche. Na Vila Moisés, o Estado se faz presente com as patrulhas policiais. O Cabula é um bairro repleto de histórias de insurgência, revoltas e pobreza negra desde os primeiros tempos da escravidão. Quilombolas, escravidos fugidos, libertos, adeptos do candomblé e tantos outros insurgentes viveram lá. Nem por isto se trata de um lugar marginal na Salvador do século XXI. No Cabula estão a Universidade do Estado da Bahia, escolas públicas e particulares, condomínio pra classe média e shoppings center. Nada disso existe na Vila Moisés.

A chacina aconteceu pouco antes do carnaval, nem os fartos confetes do Momo baiano enterraram doze cadáveres de jovens, que tinham entre 15 e 24 anos. Assim que os camarotes e arquibancadas baixaram as cordas e acordes carnavalescos, o Movimento Reaja ou será morto! Reaja ou será morta! conseguiu mobilizar diversos setores da sociedade civil e instituições ligadas aos Direitos Humanos para uma audiência pública mediada pela Ordem dos Advogados da Bahia. A audiência publica fez a sede da OAB transbordar com cerca de duas mil num auditório onde só cabiam 150 pessoas. A tensão se espalhava até a Praça da Piedade, de onde se podia ver e ouvir as representações dos sindicatos dos policiais distribuindo panfletos, exibindo cartazes e amplificando com carro de som o protesto contra os protestos que têm se multiplicado desde a chacina do Cabula.

Foi trazida pra o centro da cidade a ação policial que vitimou, no último 6 de fevereiro, doze jovens negros na Vila Moisés, no bairro do Cabula.

Ficaram lado a lado no auditório apertado, militantes do movimento negro, muitos policiais a paisana,–  alguns deles, armados – familiares dos jovens mortos, representantes da OAB nacional, lideranças políticas, o secretário da Justiça do Estado da Bahia, estudantes, dois vereadores (apenas dois) e outros tantos oportunistas seduzidos com o emaranhado de tripés e lentes das Tvs. Não demorou muito e um militante gritou o que todas as estatísticas confirmam: a juventude negra tem sido condenada a pena de morte, sem qualquer julgamento. A dois passos dele estava um policial que reagiu erguendo o braço e dizendo “eu sou preto também e não sou criminoso”. Foi só o começo. Durante mais de três horas, a questão racial pôs em situações limites quem exigia a investigação isenta do que houve na Vila Moisés e os que inocentavam os policiais envolvidos na chacina enquanto defendiam a própria Polícia, como instituição militar.

Na voz de policiais exaltados na platéia e representados na mesa por lideranças da categoria, dois argumentos se repetiam: a “Polícia defende os cidadãos de bem contra os criminosos que estão no tráfico de drogas” e os policiais também são vítimas, também são mortos. Não há quem duvide que os policiais também estão em risco. Hamilton Borges , do Movimento Reajá ou será morto! Reaja ou será morta!, tentou apaziguar os ânimos quando militantes e policiais se enfrentaram, dizendo que nesta guerra só morrem negros. Pois é, em nome da luta contra o tráfico de drogas, cada vez mais, só morrem negros sejam eles descalços ou fardados.

Também se ouviu todo tipo de absurdo. Certo capitão aposentado e mulato se disse vítima de racismo às avesas por ser branco. Outro, negro retinto, desafiava os presentes a entrarem numa viatura e não apertarem o gatilho. Em meio a tanto racismo, foi ficando evidente que o Movimento Negro tem rumo e propostas para a tal questão da Segurança Pública que tanto aflige aos governantes e aos “ cidadãos de bem”. Como disse Vilma Reis, as balanças de precisão, os helicópteros recheados de cocaína não nascem nas comunidades, onde a maioria é negra. Se a justificativa é o combate às drogas, o endereço é outro. A defesa de investigação federal sobre os grupos de extermínio na Bahia, a desmilitarização das polícias, a extinção dos Autos de Resistência foram propostas que mostram o quanto os movimentos sociais estão maduros e cientes de que a Segurança Pública no Brasil e, principalmente na Bahia, é uma questão racial.

O Mapa da Violência no Brasil, divulgado em 2014, mostra o quanto a vitimização tem cor. Entre 2002 e 2012 morreram 146,5% mais negros do que brancos na guerra urbana. Não faltam números, nem cadáveres negros para serem somados aos jovens do Cabula. Quem atendeu ao chamado de protesto do Movimento Reaja ou será morto! Reaja ou será morta! estava de luto por muito outros sepultados em covas rasas. O luto era ainda mais visível na atitude das mães e avós dos jovens mortos. A maioria dos parentes das vítimas não foi. Estavam com medo. Quem sofre uma violência policial sabe que quanto maior a visibilidade maior é o risco. Nenhuma delas se pronunciou durante a audiência. Silêncio de luto e medo, afinal como disse um policial, enquanto se retirava da sala de audiência, “a resposta a isto a Polícia dá é na área”. Quem é da área sabe o que isto quer dizer.

Entre quem defende uma discussão honesta, democrática e sem metáforas futebolísticas sobre Segurança Pública, o Brasil dos tempos da escravidão aparece como a raiz dos nossos problemas. Foi o que disse João Jorge, presidente do Olodum, e Humberto Ádamo, representante da OAB nacional. Os discursos deles convergiam para entender as razões do problema. A criminalização e a vulnerabilidade da população negra no século XXI, quando os números apontam um crescimento do número de assassinatos de jovens negros, seria explicada pelo terrível passado escravista que ainda nos assombra. É consenso, a escravidão é abominável e nos marca até hoje. Mas, o que o genocídio negro nos diz sobre os nossos dias e expectativas de cidadania numa sociedade ultra consumista? Será que dá pra por só na conta da escravidão a Vila Moisés só existir no mapa da RONDESP?

Ainda somos herdeiros do passado escravista, concordo; entretanto, por que a expressão cidadãos de bem é cada vez mais usada para dizer quem são os supostos bandidos a nos ameaçar? Colocar na conta, já bem e devidamente avolumada do passado escravista, a responsabilidade pela tensão racial no Brasil, dramatizada  na audiência da OAB, não pode ser uma maneira de libertar o Estado Republicano, de livrar seus sucessivos governos, democráticos ou não, que ainda relutam em dizer com todas as letras a quem ele chama de cidadão de bem. Não cabe só ao Movimento Negro apostar na nossa juventude. Os mortos dos pelourinhos ainda nos cercam mas é sobre o futuro e as políticas que reeditam, sorrateiramente, o racismo institucional que tratamos ao gritarmos no auditório transbordando de raiva e ressentimentos recentes o mesmo coro: Povo negro livre, povo negro forte que não teme a luta, que não teme a morte!

E a guerra segue na Bahia.

Wlamyra Albuquerque é doutora em História, professora de História do Brasil na Ufba e autora, dentre outros livros, de O Jogo da Dissimulação: abolição e cidadania negra no Brasil,  São Paulo: Companhia das Letras, 2009

 

Homenagem a Tata Anselmo e Jaime Sodré e uma lembrança à memória de Ebomi Cidália

postado por Cleidiana Ramos @ 10:54 AM
20 de fevereiro de 2015

Com as desculpas pelo atraso, mas é que ontem eu ainda estava fora de rede. Os  parabéns a essas duas figuras queridas, que fizeram aniversário ontem, e que são extremamente importantes na defesa da liberdade de expressão religiosa. Eles estão sempre a postos para defender os interesses do povo de santo: o tata de inquice do Terreiro Mokambo, Anselmo dos Santos, filho de Dandalunda; e Jaime Sodré, xicarangoma do terreiro Tanuri Junçara, filho de Lemba, e oloiê do Bogum.

Tata Anselmo e Jaime Sodré, aniversariantes de ontem. Foto: Marco Aurélio Martins/ Ag. A TARDE 3.6.2005; Margaridade Neide/ Ag. A TARDE 16.11.2012

Tata Anselmo e Jaime Sodré, aniversariantes de ontem. Foto: Marco Aurélio Martins/ Ag. A TARDE 3.6.2005; Margaridade Neide/ Ag. A TARDE 16.11.2012

Vai aqui também uma  homenagem à memória da Ebomi Cidália de Iroko, aniversariante também do dia 19  de fevereiro. Saudades imensas da grande enciclopédia do candomblé.

Saudação à memória de Ebomi Cidália  de Iroko. Foto: Margarida Neide / Ag. A TARDE/   7.7.2006

Saudação à memória de Ebomi Cidália de Iroko. Foto: Margarida Neide / Ag. A TARDE/ 7.7.2006

Pérolas negras da resistência carnavalesca

postado por Cleidiana Ramos @ 7:08 PM
15 de fevereiro de 2015

Ilê Aiyê continua belo aos 41 anos

postado por Cleidiana Ramos @ 4:07 PM
15 de fevereiro de 2015
O Mais belo dos Belos fez sua estreia no Carnaval 2015 na noite do último sábado. Foto:   Mateus Pereira/Governo da Bahia

O Mais belo dos Belos fez sua estreia no Carnaval 2015 na noite do último sábado. Foto: Mateus Pereira/Governo da Bahia

Balaio de Ideias: Tá boa santa?

postado por Cleidiana Ramos @ 1:10 PM
14 de fevereiro de 2015
Um grupo dos irreverentes membros de "As coisinha" mantendo tradição dos travestidos no Carnaval baino. Foto: Divulgação

Um grupo dos irreverentes membros de “As coisinha”  que mantêm a tradição dos travestidos no Carnaval baiano. Foto: Divulgação

Jaime Sodré

Quem não gostaria de viver ao menos um dia o universo feminino? O Carnaval está aí para isso. Pouco se sabe a respeito das vestimentas dos Pitecantropus erectus, presume-se que não haveria distinção de vestimentas baseadas na questão de gênero, bastava uma pele para proteção. Em algumas civilizações africanas era comum uma túnica longa, indistinta. A calça trouxera com os colonizadores a proposta de “civilidade”, definindo o masculino.

Os negros na condição de escravos, para fugirem sem ser notados, vestiam os trajes das senhoras brancas. Nos primórdios da escola de samba os homens vestiam-se de baianas, inaugurando esta ala, ponto alto da escola. Item obrigatório e uma justa homenagem à nossa baiana Tia Ciata. Louvem-se os escoceses que vestem um saiote, elemento cultural.

A roupa e a interpretação feminina em corpo masculino é o que caracteriza o Teatro Noh japonês, em contrapartida temos outro teatro onde só as mulheres interpretam os papéis masculinos. Vem à lembrança a marcha carnavalesca de outrora: “O sonho do Juvenal/ É desfilar no Municipal// Mandou buscar em Paris/ Uma peça de lamê/ Pra fazer a fantasia/ Bordada de paetê// Chegou Juvenal na passarela/ Ninguém sabe se é ele/ Ninguém sabe se é ela”.

Carnaval é o mesmo que festa, criatividade, humor, glamour, alegria, música, espaço onde os foliões ou as folionas expõem todas as suas fantasias. Muitos assumem o seu lado feminino, alegre e descontraído fazendo a festa. Homens vestidos de mulheres no Carnaval é um fenômeno nacional, formando blocos “divinos e maravilhosos”, muitos estudiosos já opinaram sobre o tema, mas sem alcançar um consenso a respeito do fenômeno. Na verdade, sem erudição científica, Carnaval é pra soltar a franga.

Eles são heteros, mas nos dias de Momo querem se desinibir “assumindo o seu lado feminino”. Em oposição, desconheço bloco de mulheres vestidas de homem (Lembrei-me da nossa heroína Maria Quitéria). Em discurso elaborado chama-se esse comportamento de “crossdresser”, textualmente “vestir-se ao contrário”. Como na música de Pierre Onassis, “deixa de lero-lero e vem pra cá meu bem…”. Isso tudo é para louvar o cinquentenário da alegria irreverente do Carnaval, As Muquiranas.

Em texto de Ronaldo Jacobina, acompanhado das excelentes fotos de Fernando Vivas, a revista Muito registrara: “os cílios, postiços, claro, ganham ainda mais destaques com leves pinceladas de rímel. Para arrematar, o batom rosa-carmim”, colares e, com mais outros elementos, está “montada” a tão sonhada Muquirana, na versão de 2015, em homenagem às baianas.

Neste espaço saúdo o casal criador desse fenômeno do Carnaval, com doses de criatividade e belas fantasias, os sempre lembrados Charita e sua esposa D. Flor. Lindolfo Araújo de Carvalho, Charita, já fora “Nega Maluca”, onde só um homem se vestia de mulher. No início a proposta gerou polêmica, mas eles seguiram em frente, o apoio era sólido. D. Florisa, a esposa, sua mãe D. Aidê e suas primas Lícia e Léia estavam a costurar fantasias, temáticas e irreverentes, garantia do sucesso.

Aplausos e parabéns “às nossas meninas cinquentonas” e ao trio que não deixará este sonho se acabar, os herdeiros Luciano, Nenê e Washington.

Jaime Sodré é professor universitário, doutorando em História Social e religioso do candomblé

O tempo de ouro de Maria Bethânia

postado por Cleidiana Ramos @ 11:30 AM
13 de fevereiro de 2015
O antropólogo e poeta Marlon Marcos ao lado de sua musa, Maria Bethãnia. Foto: Margarida Neide / Ag. A TARDE

O antropólogo e poeta Marlon Marcos ao lado de sua musa, Maria Bethãnia. Foto: Margarida Neide / Ag. A TARDE

Marlon Marcos

De lá, 1965, o grito do carcará; daqui, 2015, o doce entoar em pronúncias perfeitas sobre etnias indígenas que civilizam o território nacional. Hoje, o Brasil celebra os 50 anos de carreira da matriarca da canção brasileira. A senhora franzina que pauta beleza e simplicidade no cenário cultural deste país. A mulher que ensina com o canto minúcias e delicadezas que estão em nós e, muitas vezes, bem esquecidas.

Hoje a Iara dança desguarnecida, livre, desatenta, em nome da festa que a canção popular nos traz. E sem vontade de ser destemida. Hoje é um tempo vermelho dourado da beleza nascida em Santo Amaro, na Bahia, mas que na forma de raio e pássaro conquistou o Brasil. As águas remontam uma história que revigora o estar de um mito. Um gênio feminino atirado ao campo artístico, ao educativo, ao antropológico.

A memória negríssima no poema de Fernando Pessoa, nos estimulando a ler, nos convidando a ver, nos fazendo agir, nos permitindo gozar. A memória guarida da palavra eleita para os sonhos que, como fogo, se obriga a transformar este país. E pra melhor. A história do impossível sonho que rasga o chão para que brote a rosa vermelha do deserto.

Cinquenta anos de esmerada carreira movida a paixão. Do teatro show Opinião até o centro do nosso Castro Alves, Maria Bethânia é o ouro que faz amanhecer este país, como se ela fosse a rosa do deserto de Cecília: “Eu vi a rosa do deserto/ ainda de estrelas orvalhada/ era a alvorada”.

A alvorada é Bethânia recomeçando. Frente ao disco Ciclo dedicando a Seu Zezinho. Ela tocando o chão para saudar mãe Menininha. Ela reaprendendo Pessoa aos cuidados de dona Cléo. Ela sendo analisada em um congresso todo seu feito pela Associação Rosa dos Ventos Bahia. Ela vista menina irmã mulher artista nas narrativas de Mabel. Ela derretendo-se de saudade de dona Canô, de Nicinha, de Fauzi Arap. E nunca desistindo.

Antropólogo, jornalista e poeta, autor da dissertação Oyá-Bethãnia os mitos de um orixá nos ritos de uma estrela para obtenção do título de mestre em estudos étnicos e africanos pela Ufba

Uma das canções que viram encantamento na voz melodiosa e poderosa de Maria Bethânia

Uma grande mulher: Telinha de Iemanjá

postado por Cleidiana Ramos @ 10:16 AM
11 de fevereiro de 2015
Mãe Valnizia faz homenagem a Ebomi Telinha de Iemanjá. Foto: João Alvarez/ Divulgação

Mãe Valnizia faz homenagem a Ebomi Telinha de Iemanjá. Foto: João Alvarez/ Divulgação

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre

Este texto é sobre uma pessoa muito especial: Aristotelina Fiuza, conhecida como ebomi Telinha de Iemanjá. O que me leva a essa homenagem é o seu aniversário de 90 anos e a comida que ofereceu a Iemanjá, um momento único para o Terreiro do Cobre, onde ela tem uma história muito bonita. Telinha nasceu e cresceu no Cobre. É uma das poucas do tempo da minha bisavó Flaviana Bianch que ainda vive.

Conheço Telinha desde que me entendo como gente, e ela me ajudou muito com sua sabedoria quando cheguei para reabrir o terreiro. É uma pessoa muito respeitada no Cobre e pela comunidade do bairro do Engenho Velho da Federação.

Quando eu era criança, no mês de junho, Telinha tirava reza de santo Antônio em várias casas do bairro. Acabada a reza, servia-se comida, principalmente para as rezadeiras, licor e amendoins. Ela tomava o seu licorzinho e dizia: “Não posso demorar, pois ainda vou tirar outras rezas”.

Durante o Carnaval, ia para o Terreiro de Jesus esperar a saída do afoxé Filhos de Gandhy, pois seu marido, Claudio, era um dos diretores. Acompanhava o bloco até o Campo Grande. No domingo, ela só ia embora depois que as escolas de samba desfilavam. Tinha as famosas, como Juventude do Garcia e Diplomatas de Amaralina. Naquele tempo não havia preocupação com transporte porque quem morava perto do circuito do Carnaval, como nós, ia andando. Não aconteciam assaltos nem mortes. Até os caretas, que saíam com o rosto coberto, após brincar tinham a obrigação de tirar a máscara e mostrar o rosto.

Outra lembrança que tenho de Telinha é da sua ida à praia de Armação com minha mãe e tias para a puxada de rede, onde pescadores, adultos e crianças pegavam o xaréu em meio a muitas cantorias. Após a puxada de rede, elas ganhavam os peixes. Aí preparavam um escaldado com quiabo, abóbora, maxixe, jiló e o molho nagô que era feito com as pimentas raladas, limão, quiabo, coentro, cebola, tomate e camarão seco, e degustavam tudo bebendo uma cachacinha. Era só alegria.

Ela também acompanhava a Romaria de São Lázaro, um evento que acontece no Engenho Velho da Federação há mais de 75 anos. Hoje fica na porta de sua casa segurando um prato de arroz perfumado para quando o santo passar jogar sobre ele. É compromisso.

Telinha foi criada por minha bisavó como uma neta, e tive a felicidade de encontrá-la para me orientar no terreiro. Costumo dizer a ela: “Tem que ficar comigo para tudo”, porque várias vezes foi até a minha casa chorando e pedindo para que eu fosse ver o terreiro quando ele estava fechado e a sua estrutura desmoronando.

Enfim, conviver com Telinha tem sido um dos melhores aprendizados que tive. Ela é uma mulher determinada e realiza o que quer. Lava, passa, cozinha e inspira os mais jovens, que dizem não aguentar fazer a metade das coisas que ela faz. Está sempre me dizendo que quando chegar a sua hora quer dormir, pois não consegue imaginar viver em uma cama dependendo de outras pessoas. Que Deus a ouça, Telinha de Iemanjá Ogunté.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA