Terreiro Santa Bárbara celebra Tempo

postado por Cleidiana Ramos @ 12:05 PM
8 de agosto de 2014
O terreiro Santa Bárbara, comandado por Pai Valdemir, celebra Tempo no próximo domingo. Foto: Fernando Vivas/Ag. A TARDE/ 22.06.2009

O terreiro Santa Bárbara, comandado por Pai Valdemir, celebra Tempo no próximo domingo. Foto: Fernando Vivas/Ag. A TARDE/ 22.06.2009

No próximo domingo, dia 10, os terreiros de nação angola estarão em festa para celebrar Tempo. No Terreiro de Santa Bárbara, localizado em Lauro de Freitas, a movimentação começa a partir das 8 horas com um café da manhã.

Durante a tarde vai ter churrasco e à noite a celebração solene. As comemorações são feitas em sua maior parte ao ar livre.

“Tempo é o patrono da nação angola e que costuma ser cultuado no dia 10 de agosto. Ele usa branco e sua festa é feita com muita comida, pois ele é rei e rege a prosperidade”, explica Valdemir Melo, tata de inquice- título usado quando um homem ocupa o mais alto posto numa comunidade  de nação angola- do Terreiro Santa Bárbara.

O terreiro, um dos mais conhecidos na Região Metropolitana de Salvador (RMS), fica na Rua Araqui, 22.

Cena de novela sobre o racismo surpreendeu

postado por Cleidiana Ramos @ 11:24 AM
5 de agosto de 2014
Lázaro Ramos vive o guru Brian Benson em Gerão Brasil.  João Cotta/ TV Globo

Lázaro Ramos vive o guru Brian Benson em Gerão Brasil. João Cotta/ TV Globo

Mesmo com suas limitações as novelas já fazem parte da cultura cotidiana brasileira. Até  quem odeia o gênero não pode ficar completamente alheio a personagens, bordões e polêmicas que elas abordam. Daí que ver um tema espinhoso como o racismo abordado com leveza, mas de forma contundente em um produto do gênero na Globo realmente surpreende.

Foi o caso de Geração Brasil, exibida às 19 horas, em capítulo que foi ao ar há duas semanas. A cena gira em torno de uma reprogramação cerebral, capitaneada pelo guru Brian Benson vivido por Lázaro Ramos. O paciente do guru é  Matias (Danilo Santos Ferreira) membro da chamada geração nem nem (jovens que nem estudam nem trabalham).

Matias anda sem confiança. Na conversa entre os dois, aos poucos, o guru vai mostrando o quanto o racismo é violento ao desconstruir a confiança e levar um jovem negro a duvidar de si mesmo.

O barato foi a abordagem bem amarrada em mais um belo trabalho dos autores Filipe Miguez e Izabel de Oliveira. Os dois já haviam tratado do tema em Cheias de Charme, mas agora, em Geração Brasil, foi mais forte.

Para arrematar, Claudia Abreu, que vive Pamela Parker, apresenta dados que fundamentam o que foi mostrado. Um alento em ver algo sobre os efeitos danosos do racismo em um canal de audiência considerável com texto bem cuidado e o luxo de interpretações como a de Lázaro Ramos. Aliás, a cada dia, Lázaro mostra o grande serviço de um ator que sabe  usar os espaços possíveis da sua arte para denúncia social.

Vejam o vídeo no link abaixo:

http://gshow.globo.com/novelas/geracao-brasil/capitulo/2014/7/22/veronica-e-herval-se-esbarram-em-uma-viagem-de-aviao-e-se-interessam-um-pelo-outro.html

O embalo de Jim Croce para curtir Django Livre

postado por Cleidiana Ramos @ 1:46 PM
2 de agosto de 2014

Além de um bom filme, Django Livre, de Quentin Tarantino, tem uma trilha sonora maravilhosa. Uma das músicas é “I got a name”, de Jim Croce. Vale ouvir a música e ver cenas do filme com um elenco encabeçado pelo maravilhoso Jamie Foxx.

Salvador faz festapara sua majestade, Lamidi Olaywola II, alafim de Oyó

postado por Cleidiana Ramos @ 1:31 PM
31 de julho de 2014
Durante sua visita a Salvador, o alafim Lamidi Olayiwola Adeyemi III participou de seminário sobre patrimônio cultural e visitou terreiros de candomblé. Foto: Joá Souza | Ag. A TARDE

Durante sua visita a Salvador, o alafim Lamidi Olayiwola Adeyemi III participou de seminário sobre patrimônio cultural e visitou terreiros de candomblé. Foto: Joá Souza | Ag. A TARDE

Salvador está recebendo a visita de  Lamidi Olaywola Adeyemi III, o alafim de Oyó, estado nigeriano. De Oyó veio o culto ao orixá Xangô, patrono do Ilê Axé Iyá Nassô Oká, mais conhecido como Casa Branca, que é reconhecido como o mais antigo terreiro de nação Ketu do Brasil e que ele visitou na última terça-feira.  A Casa Branca e a sua história tem estreitas ligações com Oyó que foi um grande império na região onde hoje estão Nigéria e seu vizinho Benim, entre os séculos XVII e XVIII. Por uma questão cultural, Adeyemi III é reconhecido como um governante  local. Ele tem o título de alafin, o equivalente a um imperador ou rei.

Hoje à tarde, como último compromisso público na capital baiana, o alafim visita a pedra consagrada em Xangô, localizada em Cajazeiras.

A Nigéria é uma República, mas o título de alafim tem importância cultural e religiosa, pois ele é  representante de orixás na terra como Odudua, ancestral mítico de parte do povo iorubá.

O alafim veio à capital baiana em uma articulação de terreiros que inclui, além da Casa Branca, o Ilê Iyá Omi Àse Iyamassé (Terreiro do Gantois), o Ilê Axé Opô Afonjá, o Ilé Maroialaji (Alaketu) e Ilê Osùmàré Arákà Àse Ogodó (Casa de Oxumarê).

Todos esses terreiros são reconhecidos como bens culturais brasileiros pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Inclusive, a visista de Adeyemi III motivou a realização de um seminário sobre patrimônio afro-brasileiro e trocas de experiências entre Brasil e Nigéria.

Abaixo vocês tem acesso a um texto de Meire Oliviera, publicado na edição de terça-feira do jornal A TARDE:

Meire Oliveira

Promover o intercâmbio acerca da preservação de bens culturais e fortalecer os laços históricos é o foco do 1º Seminário para Preservação do Patrimônio Cultural Compartilhado entre o Brasil e a Nigéria, que segue até a próxima quinta-feira.

A abertura do encontro – ocorrida ontem (terça-feira) no Salão Nobre do Fórum Ruy Barbosa – contou com a presença do rei do Império de Oyó, Lamidi Olayiwola Adeyemi III, sua comitiva com 22 integrantes, além de lideranças religiosas do candomblé e autoridades políticas dos dois países.

“É lindo o trabalho de conservação feito aqui pelos templos religiosos, honrando a memória dos nossos antepassados, disseminando a religião tradicional e a identidade iorubá. Diante da ameaça constante, temos que nos unir no compromisso de preservar essa ancestralidade”, disse o rei de Oyó.

A iniciativa é promovida por cinco terreiros baianos, já reconhecidos no país como patrimônio cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan):  Ilê Axé Iyá Nassó Okà (Casa Branca), Ilê Axé Opo Àfonjá, Ilê Iyá Omi Àse Iyamassé (Terreiro do Gantois), Ilé Maroialaji (Alaketu) e Ilê Osùmàré Arákà Àse Ogodó (Casa de Oxumarê).

“A nossa meta é unir forças e fortalecer nossa cultura e religiosidade, além de preservar o culto na Nigéria e lutar pelo tombamento de Oyó pela Unesco”, disse Sivanilton Encarnação da Mata, o Babá Pecê, babalorixá da Casa de Oxumarê, que pretende realizar uma edição do seminário na Nigéria.

“O Brasil é guardião da nossa cultura. O objetivo é conhecer como se dá a preservação aqui e trocar experiências com a matriz, estreitando os laços”, disse o representante da Embaixada da Nigéria, Misah Wale Akanni.

Para a ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Luiza Bairros, o evento visa criar mecanismos de preservação.

“É uma oportunidade de revisitar o que temos em comum e discutir o que pode ser feito para salvaguardar a herança que deve ser entendida como parte integrante da formação social, econômica e cultural do Brasil”, afirmou.

Férias

postado por Cleidiana Ramos @ 6:48 PM
27 de maio de 2014

Como tenho um compromisso fora de Salvador, a partir de amanhã estarei ausente da redação de A TARDE por um mês, pois chegou o período do ano que até o mais inveterado workaholic precisa mesmo que seja à força: férias. E o Mundo Afro me acompanha nessa pausa também. Até a volta.

Balaio de Ideias: Vozes d´África

postado por Cleidiana Ramos @ 7:35 PM
26 de maio de 2014
Jaime Sodré analisa atuaçaõ de mulheres na política de países da África.  Foto:  Mila Cordeiro/ Ag. A TARDE/  09.11.2011

Jaime Sodré analisa a atuação de mulheres na política de países da África. Foto: Mila Cordeiro/ Ag. A TARDE/
09.11.2011

Jaime Sodré

A África clama por um novo olhar. Mulheres Africanas – A Rede Invisível é um filme de Carlos Nascimbeni que aborda cinco mulheres marcantes na história deste continente:

Luiza Diogo ressalta a presença feminina na definição da agenda nacional; Graça Machel, ex-ministra da Educação de Moçambique, destaca que a presença feminina já atingiu uma massa crítica, faltando visibilidade; Sara Masasi conta como saiu da invisibilidade na Tanzânia muçulmana como empresária de sucesso; Leymam Gbowee, Prêmio Nobel, atuante pela paz na guerra civil da Libéria; Nadine Gordimer, escritora, vencedora do Nobel, argumenta da impossibilidade de falar de uma cultura africana única.

Luiza Diogo, primeira-ministra entre 2004 e 2010, diz que a mulher luta principalmente pela segurança alimentar; o trabalho da mulher africana na zona rural é extremamente duro, “imagine uma mulher de vários braços”, comenta. Para Luiza, a mulher está a construir uma agenda do desenvolvimento do país, por isso investir nas mulheres é importante.

Graça Machel, ministra da Educação e Cultura entre 1975 e 1989 em Moçambique, chama a atenção para as transformações que as mulheres africanas têm revelado: “Já há uma massa crítica no ambiente das mulheres africanas, em particular as jovens, altamente qualificadas, que exercem funções de grande responsabilidade, mas não tem havido um sistema que lhes permita ter visibilidade”.

Sara Masasi, da Tanzânia, é líder empresarial e diz: “Quando se tem um negócio, você precisa pensar, porque você não quer perder”; deve-se desfilar na avenida do sucesso, a que não se chega sem planejar. “Adoro trabalhar, os desafios me tornaram a pessoa que sou” – era a única africana a frequentar  uma escola europeia. Atua no mercado de placas para automóveis.

Carmeliza Rosário é antropóloga de Moçambique e assim se manifesta: “Não creio que a humanidade tenha se desenvolvido sem a existência da mulher… são elas que ficam grávidas, geram os filhos”, mas chama a atenção de que todos são importantes de alguma maneira. Alega que é preciso ter respeito pela África, afinal “somos o berço da humanidade”.

Nadine Gordimer, da África do Sul, branca, com Prêmio Nobel de Literatura, ressalta que o continente africano é enorme, sendo impossível falar a respeito de uma cultura unificada, porém as mulheres desempenharam um papel subjetivo. Até os dias de hoje há problemas de lidar com pessoas que vendem suas filhas de 14 ou 15 anos para homens mais velhos. A mulher negra tem que lutar contra isso, conclama.

Para Graça Machel, nos últimos dez anos o continente africano fez progresso quanto ao acesso das “raparigas” à educação, muitas no primário, mas o desafio é a passagem do primário para o secundário, e ainda maior deste para o “terciário”. Lembra que existe uma grave evasão da terceira para a quarta, quando a comunidade acredita que a menina está pronta para casar. Ela afirma que as tradições não são estáticas e acredita em mudanças.

Leymam Gbowee é uma personagem carismática, nascida na Libéria, Prêmio Nobel da Paz. A guerra civil na Libéria matou cerca de 200 mil pessoas, foram cometidas atrocidades por soldados de ambos os lados, milhares fugiram e Gbowee viveu em campos de refugiados em Gana. De 1909 a 2003 foram os anos mais cruéis, grupos inteiros foram dizimados, mulheres estupradas e alguns soldados diziam que suas genitálias eram boas demais para violentar as mulheres, por isso usavam facões na genitália feminina.

Quando vieram as conversações de paz, elas tiveram grande esperança, mas as discussões giravam em torno de quem iria controlar as minas de diamantes. Em revolta Gbowee e suas amigas bloquearam a saída do prédio, o segurança quis prendê-la, mas ela ameaçou tirar a roupa e disse: “A minha nudez será em protesto contra a miséria”. Duas semanas depois o acordo de paz foi assinado.

Luiza Diogo afirmou que “o substrato do funcionamento deste continente está nas mãos das mulheres, é aquele ditado que diz: a mulher sustenta metade do céu… mas se um dia ela largar, tudo rui”. Que continuem a sustentar!

Jaime Sodré é religioso do Candomblé, professor universitário, mestre em História da Arte e doutorando pela Uneb

Balaio de Ideias: Compreender não é aceitar

postado por Cleidiana Ramos @ 8:26 PM
21 de maio de 2014
Mãe Stella lança novo livro. Foto: Margarida Neide/Ag. A TARDE/ 29.11.2012

Mãe Stella faz bela reflexão sobre religião. Foto: Margarida Neide/Ag. A TARDE/ 29.11.2012

Maria Stella de Azevedo Santos

Mais uma polêmica para que possamos refletir e dar um passo rumo a um estágio evolutivo elevado que ajude a construir uma sociedade harmônica e equilibrada. O noticiário televisivo deu a seguinte manchete: “Juiz não reconhece manifestações afro-brasileiras como religiões. A decisão gerou polêmica e surpreendeu líderes do candomblé e da umbanda e o Ministério Público Federal.” Sou uma líder do candomblé e confesso que eu não fiquei nem um pouco surpreendida.

Venho de um tempo em que a referida religião era perseguida pela polícia, em virtude de na época o Brasil ter uma religião oficial – o catolicismo. A atitude do juiz precisa ser compreendida, porém jamais pode ser aceita. Optei por não dizer seu nome, pois o nome de uma pessoa é tão sagrado que não deve ser pronunciado quando o dono dele comete atos impensados e infelizes.

Um belo e significativo ensinamento da Ordem Rosa Cruz diz: “Eu te compreendo, mas em nome do verdadeiro amor não posso aceitar.” Podemos compreender uma atitude que tem por base o preconceito, que é fruto da ignorância sobre o tema que o juiz ousou julgar. O ignorante é assim mesmo: é insolente, “grosseiro nos gestos, nas palavras ou nas ações.”

Não fiquei surpresa, fiquei indignada. Senti repulsa, não pelo cidadão em si, mas pelo seu ato vergonhoso. Quanto a meu irmão que praticou tal ato, verdadeiramente, senti pena e, consequentemente, desejo de ajudá-lo. Afinal, ele é meu irmão, somos filhos de uma única energia, que para o candomblé é chamada de Olorum – o Deus Supremo, que vive no céu (no orum), o qual se expandiu e Dele fez surgir todos os seres vivos que habitam a Terra.

Essa é uma explicação que dou para ajudar meu irmão a entender que as religiões de matriz africana têm, sim, um texto base no qual se baseiam para realizar seus rituais, mas principalmente para ajudar seus adeptos a se tornarem cidadãos “assentados” no bem e na verdade. Esse texto base nos ensina que não basta sentir pena. O Código de Ifá, conjunto de ensinamentos no qual se baseia o candomblé, ensina a seus adeptos que a ignorância precisa ser perdoada, compreendida, mas nunca aceita, e que cabe àquele que conhece os mistérios, instruir aqueles que não os conhecem. Obedecendo, portanto, às orientações dadas pelos seres superiores, esclareço a meu irmão alguns detalhes do candomblé sobre o qual ele demonstra não ter o conhecimento necessário para realizar um julgamento.

A religião trazida para o Brasil por um povo possuidor de dignidade e generosidade inigualáveis tem um texto base, o qual é inclusive codificado através de códigos matemáticos. Não podemos, nem devemos esquecer-nos que um texto, em seu sentido amplo, é um conjunto de palavras expressas de maneira oral ou escrita, que pode ser longo ou breve, antigo ou moderno. Preciso pacientemente repetir que o texto base do candomblé é o Código de Ifá, pois um educador é educado para ser paciente. E nós, sacerdotes de qualquer religião, somos educadores de almas. Explicando ainda mais um pouco, o Código de Ifá é um sistema longo e antigo, considerado axiomático por revelar verdades universalmente dignas e válidas, ditas de maneira simples para expressar a complexa realidade da vida.

Também pacientemente repito que o candomblé possui um Deus Supremo, sendo os orixás divindades que servem como intermediárias entre Olorum e os humanos. Quanto à hierarquia, este é um dos grandes e fortes pilares dessa religião milenar, tanto no que se refere ao mundo das divindades quanto à comunidade dos “terreiros”.

No mundo sagrado se tem: Olorum, orixás funfun (descendente direto do hálito do Deus Supremo), orixás vinculados ao ar, água, fogo e terra, seres humanos, animais, vegetais e minerais. Nas comunidades do candomblé a hierarquia está em tudo: nos cargos (iyalorixá, iyakekere egbomi, yaô, abian); no respeito à idade de nascimento do corpo (os “nossos mais velhos”) e à idade de nascimento, na Terra, da essência divina de cada um. Encerrarei este texto com um provérbio contido no Código de ifá: “O tempo pode ser longo, mas uma mentira não cai em esquecimento.”

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, ela escreve para o jornal A TARDE, sempre às quartas-feiras.

Parabéns, Mãe Stella!

postado por Cleidiana Ramos @ 11:39 AM
2 de maio de 2014
Mãe Stella faz reflexão sobre capacidade de estar aberto a aprender. Foto: Diego Mascarenhas / Ag. A TARDE/ 09.07.2010

Mãe Stella festeja aniversário, hoje. Foto: Diego Mascarenhas / Ag. A TARDE/ 09.07.2010

Hoje é um dia muito especial: aniversário de nascimento da Iyalorixá Mãe Stella de Oxóssi. E, lembrando a todos que gostariam de dar um presente para agradecer por sua dedicação à religião que tantos brasileiros professam, ela sonha em montar uma biblioteca itinerante com livros sobre religião. Portanto, quem pode ajudar até mesmo enviando energias para o projeto, mãos na massa. Vivas a Mãe Stella.

Jamais fomos ou seremos macacos

postado por Cleidiana Ramos @ 3:59 PM
29 de abril de 2014
Daniel Alves resolveu comer banana atirada por torcedor na Espanha. Foto: Frame/reprodução

Daniel Alves resolveu comer banana atirada por torcedor na Espanha. Foto: Frame/reprodução

Se você é negro no Brasil– que tem uma história profundamente ligada ao sequestro de milhões de africanos despejados aqui como escravos durante três séculos– não pode se calar diante dessa nova insanidade nacional de nos reduzir a macacos.

Não. Nós, negros, não somos macacos. Somos gente. E homens e mulheres, há séculos, têm empreendido uma luta em várias fentes para afirmar isso e enfrentar quem tenta, de várias formas, nos dizer o contrário.

É a nossa missão de cada dia, pois milhões dos nossos morrem e engrossam as estatísticas das mais variadas formas de violência; são os nossos que estão mais submetidos ao desemprego; nossas crianças são as mais vulneráveis a doenças e ao péssimo atendimento em saúde e educação.

Isso tudo acontece exatamente  porque no passado disseram que nossos tataravós, bisavós e, assim sucessivamente, não eram humanos, mas pouco mais que esse animal que todo mundo agora diz ser imaginando, de forma simplória, que é uma forma de solidariedade ao jogador Daniel Alves que foi vítima de racismo na Espanha.

Sem falar que a tal campanha “somos todos macacos” aparentemente solidária ao jogador tinha por trás uma estratégia de marketing que já vende até uma camisa de péssimo gosto.

Mas voltemos à história. Sabe por que o macaco? Porque ele é o mais próximo dos humanos. Ora, se aqueles africanos escravizados faziam coisas de “gente” então o máximo que eles podiam ser eram os símios capazes de “imitar” os humanos.  É escandaloso hoje, mas esse foi o discurso que se sedimentou durante séculos por meio das teorias racistas construídas para sustentar a escravidão nas Américas. E se isso foi difundido durante séculos não vai desaparecer do imaginário em um passe de mágica.

Não, nós não somos macacos. Somos humanos. E achar  bonitinho quem está dizendo que é macaco porque foi sua celebridade preferida que o fez ou imaginar que quem está indignado e fulo da vida com essa estratégia ridícula é um mal humorado ou recalcado é demonstrar ignorância da sua própria história.

Quando Portugal resolveu explorar o Brasil, no século XVI os africanos usados para mão-de-obra aqui não eram trabalhadores gentilmente convidados a deixar suas terras. Eles foram retirados de sua vida social e condenados a uma vida brutal em uma terra desconhecida. Isso se sobrevivessem a uma viagem tenobrosa.

Foi com base em muito sangue africano que fortunas foram construídas e cidades erguidas nessa terra que agora celebra o samba e outras heranças ironicamenta originadas na resistência desses povos escravizados.

Para que a agora nação brasileira fosse possível essa escravidão foi justificada com a ajuda de várias ideologias, inclusive a científica. Uma delas foi construída no rastro das teorias de Darwin.

Um dos meios foi aplicar aos humanos a escala de evolução das espécies. Assim o topo era ocupado pelos caucasianos, ou seja, o biótipo dos dominadores europeus; os amarelos eram considerados inteligentes, mas avarentos com os quais se devia ter cuidado; os indígenas tinham até alma, mas eram cabeças de vento que mereciam tutela em tempo integral; e os de pele escura, que vinham de determinadas partes da África, eram um pouco mais que os macacos, pois pelo menos falavam.

Isso não é invenção, mas a história do chamado racismo científico que teve outros desdobramentos como as teses lombrosianas seguidas por Nina Rodrigues, um dos papas da medicina legal brasileira. Essa última proclamava os negros como mais propensos ao crime e a patologias mentais por apresentarem determinadas caracerísticas físicas como o formato do rosto e, claro, cor da pele. Eram uma espécie degenerada, segundo esse pensamento.

E tudo isso  foi apenas uma parte do jogo de se comparar negros a animais. Tratou-se de tirar a sua humanidade e assim os reduzirem facilmente ao status de coisas que podiam ser vendidas e submetidas ao que desejassem seus proprietários. Portanto, nós, negros, só podemos ficar indignados ao ver a banalização de algo que nos causou e causa tanto sofrimento.

Nesse país que ainda se debate para tentar consertar de alguma forma as cicatrizes profundas que o racismo ainda produz não dá para brincar com ele. Se somos tão conscientes de que já o superamos,  porque as celebridades, inclusive, as de pele clara, não apareceram em suas redes sociais dizendo “somos todos negros” ou “somos todos descendentes de africanos”?

A resposta: assumir que somos macaquinhos é bem mais fácil. Fica ainda mais viável para gente  que nunca soube o que é ser vítima do racismo ou faz de conta que não entende quando ele se materializa, inclusive do ponto de vista simbólico. Não é Neymar Jr,?

Balaio de Ideias: Uma crônica para Marlon Marcos: neo-cronista do candomblé

postado por Cleidiana Ramos @ 2:13 PM
24 de abril de 2014
Lançamento de Sob a Égide das Águas será amanhã, das 18h30 às 21 horas, na Katuka (Praça da Sé, Edifício Themis)

Lançamento de Sob a Égide das Águas será amanhã, das 18h30 às 21 horas, na Katuka. Foto: Divulgação

Cláudio Luiz Pereira

É com júbilo imenso que recebi e li o livro Sob a égide das águas (Editora Kawo Kabiyesile, 2014) de Marlon Marcos Vieira Passos. Posso dizer a propósito do autor que é um homem único e, ao mesmo tempo, paradoxalmente múltiplo. Aqui e acolá, ele está em trânsito entre muitos mundos. Está sempre entre as coisas, é um elo, é ele o “e” do vai-e-vem. E sim, ele trafega o mundo da poesia, do jornalismo, da antropologia. E, como não, o mundo do candomblé, que é aquilo lhes dá força e equilíbrio, e onde ele encontra achego, afetos e aconchegos.

Como poeta suas virtudes são muitas e extraordinárias. Como bom prestidigitador seria capaz de erigir a água de um copo em uma tempestade intempestiva, ao que se seguiria uma carreada de raios e trovões verbais. Típico daqueles que tem uma opinião forte frente a tudo, e frente a qualquer coisa. No seu entre mundo a oralidade não é uma qualidade anódina. Mas sua poesia está escrita, também publicada amiúde, e é reveladora da sua veia espirituosa e, mais que isto, de sua espiritualidade. Na sua poesia ele aparece na completa nudez daqueles que só precisam do abrigo das palavras.

Como jornalista é um participativo contribuinte da crítica da cultura baiana. É defensor de suas devoções intimas. Gosta do velho, mas com o novo se compraz. Mas não é justamente o novo e o velho que separam a qualidade da circunstância em que ele se insere. Ele sempre está presente, seja lá onde for, seja a hora que der, seja como tiver de ser. Ele está tanto no espetáculo Cult, de algum artista quase subterrâneo, quanto no camarim do mais charmoso e chique dos mais cultuados dos mortais…

Como antropólogo é um aprendiz de feiticeiro. E a esta altura dos fatos ele, tão claramente quanto o Quesalid Lévi-straussiano, já sabe quão valioso e  mágico é este conhecimento que ele retém. Querer ser antropólogo é um encanto raro, que só toca profundo naqueles que são capazes da renúncia e da entrega como proezas. A verdadeira antropologia, sabe Marlon Marcos, é intestina e visceral, é uma espécie de embriaguez dilacerante, discursiva e textual, é uma obsessão sem cura, um eterno abismar-se consigo mesmo. Ao discernir algo em torno desta soberba abstração do que é o humano, nos explicamos a nós mesmos, mais que tudo.

*

Acredito que algumas palavras mais podem ser ditas para realçar a importância do livro que no momento Marlon Marcos disponibiliza para seus leitores. Em primeiro lugar é preciso notar que o autor reúne boa parte de seus escritos jornalísticos dedicado ao candomblé e, como tal, demonstra aqui quão informado ele está nos temas e problemas concernente a esta religião. Neste sentido, é preciso notar que são textos públicos, veiculados por importante jornal baiano – A TARDE, e que se traduzem em diálogo com o campo onde ele desenvolve suas pesquisas antropológicas. São crônicas, conforme o próprio autor esclarece, e, como tais, articulam o jornalismo e a poesia, e também a antropologia, que a esta altura tornou-se seu mister preferencial.

Sabemos que o autor está credenciado para sua obra. Está possuído, portanto, deste ímpeto que permite ver esta religião de um ponto de vista êmico, interno, intrínseco. Ele vê o que o candomblé tem de mais vibrante (a experiência do êxtase, da devoção, do axé, tudo que se resguarda na contingência dos segredos, dos interditos, do indizível) e, também, o que nele há de mais prosaico.

Assim sendo, tece o fio da memória dos cultos, das narrativas e das estórias, das trajetórias e dos itinerários, das famas, das lidas e das vidas. Faz mesura diante da lembrança dos que se foram e se posta diante da presença dos que cá estão. Escrevendo sobre eles o autor sabe que servirá de semente aos tantos que virão.

É assim, com esta incrível sensibilidade, que Marlon Marcos trata das mulheres que povoam este universo afro-brasileiro. São todas divas, divindades, entidades, deidades. Chamam-se Marias, ou Stelas, ou Zulmiras, ou Carmélias, ou Luizas e a suas designações de batismo se incorporam seus nomes de santo. São de Nanã, de Oxaguian, de Oxóssi… Todas elas mães guerreiras… mães de todo mundo, mães de uma humanidade que delas tanto carece.

E, mais que isto, o que se vê no livro, é o passar dos anos, entre 2007 e 2013, e tudo que vai acontecendo ao povo de santo. As mortes e os passamentos, a religião como fato da polis, as muitas dinâmicas com que o tempo corre e tudo devora. Escreve sobre as diversas nações, e as ações dos homens, também diversas. Através destes homens ele vislumbra os sonhos, as festas, as celebrações, as conquistas, os embates. E, como não, os debates que ele tanto acompanha quanto participa com interesse entusiasmado.

Conclusivamente, enquanto crônicas, os textos de Sob a égide das águas falam sempre de um tempo presente, e, desse modo, falam também de tudo que permanecerá eterno no mundo do Candomblé, para todo o sempre, e sempre… Axé, Marlon Marcos!

Cláudio Luiz Pereira é doutor em antropologia e diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia da Ufba

Serviço
Evento:  Lançamento do livro Sob a égide das águas, escritos jornalísticos sobre candomblé
Autor: Marlon Marcos
Editora: Kawo- Kabiyesile
Dia: 25 de abril, das 18:30  às 21 horas
Local: Katuka- mercado negro// 71 – 3321-0151
Preço sugerido: $ 20,00

São Jorge recebe homenagens

postado por Cleidiana Ramos @ 4:01 PM
23 de abril de 2014
São Jorge recebe hoje várias homenagens na capital baiana. Foto: Marco Aurélio Martins/ Ag. A TARDE

São Jorge recebe hoje várias homenagens na capital baiana. Foto: Marco Aurélio Martins/ Ag. A TARDE

Com uma festa forte, muitos seguidores e uma devoção repleta de significados e ressignificados, como a aproximação com Oxóssi na Bahia e Ogum no Rio de Janeiro, São Jorge continua soberano.

Nem a tranformação da sua festa em opcional, devido à reforma no calendário litúrgico, diminuiu seu prestígio popular. Portanto, saudações a Jorge, o que doma dragões de várias procedências.

Histórias de ebomi Cidália Soledade

postado por Cleidiana Ramos @ 11:17 AM
11 de abril de 2014
Hoje tem lançamento de livro sobre ebomi Cidália. Foto: Rejane Carneiro/Ag.A TARDE/ 19.10.2007

Hoje tem lançamento de livro sobre ebomi Cidália. Foto: Rejane Carneiro/Ag.A TARDE/
19.10.2007

Hoje, às 18 horas, no Terreiro Casa Branca, será lançado o livro Ebomi Cidália: a enciclopédia do candomblé – 80 anos. A publicação é assinada por mim e pelo historiador, designer, músico e religoiso do candomblé Jaime Sodré.  Ela é resultado de uma entrevista coletiva com a sacerdotisa feita por um grupo de jornalistas formado, além de mim, por Marlon Marcos, Meire Oliveira e Juliana Dias.

Conheci ebomi Cidália em 2006, quando o professor Jaime Sodré disse que tinha um presente de final de ano para mim.  A surpresa era me apresentar a ela, sacerdotisa do Ilê Iyá Omi Axé Iyamassê, mais conhecido como Gantois, consagrada ao orixá Iroko, aos 7 anos por Mãe Menininha.

Na primeira conversa já entendi porque a apresentação foi descrita como presente. Ebomi Cidália foi uma das pessoas mais fantásticas que já conheci até hoje.

Maestria
Até a sua passagem para o orum (o mundo sobrenatural no candomblé)  em 20 de março de 2012, mantive o hábito de visitá-la não apenas para entrevistas. Conversar com ela era aprender sobre cultura e religiosidade afro-brasileira e também sobre a vida.

Ebomi Cidália, leitora assídua de A TARDE,  foi uma mestra da oralidade. Aliás, usando um conceito explicado pelo doutor em antropologia da Ufba Ordep Serra, ela fazia “oralitura”, pois suas narrativas conseguiam hipnotizar as mais variadas plateias, além de vir recheadas de poesia, música e outros recursos.

“Por isso no livro buscamos manter uma transcrição o mais próxima possível de como era conversar com ela em um amostra do que foi o encontro realizado, além dos jornalistas, com vários dos seus amigos no Terreiro Oxumaré”, aponta Jaime Sodré.

Matéria publicada na edição de hoje do Caderno 2+ do jornal A TARDE/ Reprodução

Matéria publicada na edição de hoje do Caderno 2+ do jornal A TARDE/ Reprodução

Selo
O livro foi viabilizado pela Secretaria Estadual de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi). De acordo com Sodré, ele é um pedido da criação de  um selo para a memória das comunidades afro-brasileiras, proposta que foi entendida e executada como possível pelo ex-secretário da pasta, Elias Sampaio.

“Tentamos de vários formas fazer a publicação via editais e não conseguimos. Portanto, recorri ao titular da Sepromi que, dentro das suas possiblidades, teve a sensibilidade para entender a importância de um projeto como esse”.

O projeto também contou com o apoio da designer Lúcia Oliveira, da arte-educadora Mônica Silva e da Empresa Gráfica da Bahia (Egba).

No lançamento é necessário o uso do traje branco numa reverência a Oxalá, que, como dizia ebomi Cidália, é cultuado de um  modo muito próprio no Brasil. Segundo ela, o jeito merece respeito, afinal resistiu a obstáculos iniciados com uma travessia do Atlântico.

Livro traz histórias de Ebomi Cidália de Iroko

postado por Cleidiana Ramos @ 7:13 PM
7 de abril de 2014
Livro traz biografia de Ebomi Cidália. Foto: Thiago Teixeira / Ag. A TARDE/ 17.06.2010

Livro traz biografia de Ebomi Cidália. Foto: Thiago Teixeira / Ag. A TARDE/ 17.06.2010

Na próxima, sexta-feira, dia 11, a partir das 18 horas, no terreiro Casa Branca (Avenida Vasco da Gama) acontecerá o lançamento do livro Ebomi Cidália-A Enciclopédia do Candomblé- 80 anos. O livro é uma grande homenagem à sacerdotisa do Ilê Axé Iyamassê (Terreiro do Gantois). Por sua imensa sabedoria ela ganhou o título de “Enciclopédia do Candomblé”, dado pelo professor Jaime Sodré que assina a publicação em conjunto comigo.

O texto é resultado de uma entrevista que foi feita com Ebomi Cidália no Terreiro Oxumarê. Além de mim, participaram da entrevista os jornalistas Marlon Marcos, Meire Oliveira e Juliana Dias. Foi um dia inesquecível e uma experiência fantástica  ouvir as histórias de uma persongaem que dedicou a vida ao candomblé, religião que abraçou aos 7 anos quando foi consagrada a Iroko por Mãe Menininha.

Dona da maestria no uso da oralidade, Ebomi Cidália era extremamente carismática e viveu cercada dos amigos que conquistava com seu carisma impessionante. A iniciativa tem o apoio da Secretaria Estadual de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi). Para participar do lançamento é necessário usar traje branco.

Terreiro celebra 35 anos da iniciação religosa do seu líder

postado por Cleidiana Ramos @ 9:42 AM
27 de março de 2014
Pai Valdemir festeja aniversário de iniciação religiosa. Foto: Fernando Vivas/Ag. A TARDE/22.06.2009

Pai Valdemir festeja aniversário de iniciação religiosa. Foto: Fernando Vivas/Ag. A TARDE/22.06.2009

O terreiro Unzó Mameto Bambuerecema, também conhecido como Terreiro de Santa Bárbara, localizado em Lauro de Freitas, está em festa. No próximo sábado (29), a partir das 19h30, o templo celebra os 35 anos de iniciação religiosa do seu líder: o tata de inquice, Valdemir Melo.

Filho religioso de Mãe Kaloyá de Portão, que foi uma das importantes sacerdotisas do candomblé em Lauro de Freitas, Pai Valdemir quer celebrar com uma grande festa sua alegria por mais um importante passo em sua trajetória religosa.

“Estou muito feliz e realizado. Entrei no candomblé muito jovem e até  hoje dou continuidade ao meu trabalho de culto aos inquices, aos cabolcos e encantados. Esta é a minha religião pela qual tenho o maior respeito e cuidado”, diz o sacerdote.

Pai Valdemir é consagrado à inquice Bamburecema, que rege o fogo, o raio, ventos e tempestades. Inquice é o termo de referência às divindades no candomblé angola. O terreiro liderado pelo sacerdote foi fundado há 28 anos.

Além das festas para o inquice, o terreiro é conhecido pela celebração a Tempo, em agosto, ao caboclo Sultão das Matas da Aldeia Jiquiriçá, que acontece em setembro, e também pelo Presente para Dandalunda, divindade das águas doces, realizado em maio.

O presente costuma sair de Lauro de Freitas, em direção ao Abaeté, acompanhado por uma comitiva formada por seis ônibus, o que o faz um dos mais conhecidos do município. A festa do sábado é pública. O terreiro fica na Rua Araqui, 22, em Lauro de Freitas

Das teorias de Nina Rodrigues à bárbarie contra Claudia da Silva Ferreira

postado por Cleidiana Ramos @ 12:41 PM
19 de março de 2014

Filhos mostram farda da mãe trabalhadora que foi baleada e teve o corpo arrastado por uma viatura policial. Foto:  Carlos Moraes/Ag. O Dia/Estadão Conteúdo

Filhos mostram farda da mãe trabalhadora que foi baleada e teve o corpo arrastado por uma viatura policial. Foto: Carlos Moraes/Ag. O Dia/Estadão Conteúdo

Perto do final do século XIX, da Faculdade de Medicina da Bahia, que funcionava naquele imponente prédio situado ainda hoje no Terreiro de Jesus, saiam os estudos que praticamente fundamentaram a prática da Polícia Científica. O autor era o professor Nina Rodrigues, maranhense e discípulo de um italiano chamado Lombroso.

Lombroso defendia que características físicas como formato do nariz, do queixo e tamanho do cerébro interferiam em virtudes e defeitos morais. Nina via nos negros os traços físicos que davam uma predisposição para seguir o caminho do crime e até reivindicou que existissem dois códigos penais: um para negros e outros para brancos.

Hoje pode parecer absurdo, mas teoria científica elaborada dentro de uma instituição de prestígio não é algo que se apaga tão facilmente. Afirmação científica carrega consigo o status de algo verdadeiro, comprovado e, portanto, que merece ser defendido até a exaustão. Quantos membros da polícia tanto civil como militar receberam formação com base nesse pensamento e as transmitiram com uma ou outra modificação, mas sem perder sua essência?

O que tudo isso tem a ver com esses dois jovens e a criança da foto aí acima? Não é preciso fazer uma equação muito difícil para imaginar o estrago que as teorias racistas disseminadas pelas academias de policia Brasil afora fizeram e fazem no campo da segurança pública. De subordinados, inclusive negros, a chefes, mesmo que não assumam, predomina o pensamento de que o crime tem sempre o preto como cor da pele.

O Brasil não pode ficar calado diante da barbárie que matou Claudia da Silva Ferreira,   mãe desses meninos da imagem acima. Depois de baleada quando saía para comprar pão,  Claudia foi jogada no porta-malas de uma viatura policial e arrastada por cerca de 250 metros. Chegou ao hospital morta e o seu corpo dilacerado.

O monstro do racismo sempre esteve no ataque, mas parece que nesse começo de 2014 resolveu mostrar sua força em dobro. Só no futebol foram quatro episódios em apenas duas semanas. O Brasil precisa combater o preconceito de ter preconceito racial, como dizia Florestan Fernandes.

Esse país necessita, tanto como Estado como sociedade civil, reconhecer-se  como racista o mais rápido possível, pois é do silêncio sobre o racismo ou considerá-lo fantasia de radicais que ele tem se alimentado e ficado cada vez pior.

Estudo revela força poética da obra de Abdias Nascimento

postado por Cleidiana Ramos @ 1:01 PM
13 de março de 2014
Dentre a vasta obra de Abdias Nascimento, o livro Axés do Sangue e da Esperança-Orikis é o único de poesia. Foto: Xando Pereira/Ag A TARDE/13.11.2002

Dentre a vasta obra de Abdias Nascimento, o livro Axés do Sangue e da Esperança-Orikis é o único de poesia. Foto: Xando Pereira/Ag A TARDE/13.11.2002

Lindinalva Barbosa é autora de As Encruzilhadas, o ferro e o espelho, estudo sobre a obra poética de Abdias. Foto: Lúcio Távora/Ag. A TARDE

Lindinalva Barbosa é autora de As encruzilhadas, o ferro e o espelho, estudo sobre a obra poética de Abdias. Foto: Lúcio Távora/Ag. A TARDE

Para quem não conseguiu ler no formato de imagem, texto sobre estudo da obra poética do grande Abdias, que tem centenário de nascimento comemorado amanhã. 

Cleidiana Ramos

Intelectual multifacetado, Abdias Nascimento (1914-2011) nasceu em 14 de março,  Dia da Poesia. A data foi escolhida para festejar esse gênero literário por conta do  aniversário de Castro Alves. Curiosamente, também é o  dia em que a escritora Carolina de Jesus nasceu.  Os três produziram uma arte saída da vivência ou da aproximação (no caso de Castro Alves) com o  universo negro. Embora pouca gente saiba, Abdias publicou Axés do Sangue e da Esperança-Orikis, único livro de poesias da sua vasta obra.

A surpresa de muitos quando se deparam com o livro, publicado em 1983, é por conta da imagem do combatente aguerrido de Abdias que, por vezes, acaba ofuscando a sua imensa sensibilidade.
“O  senso comum tem uma noção de  poesia como algo que está apenas  no campo do lirismo. É como se as posturas mais aguerridas e mais duras estivessem  distanciadas desse campo”, explica Lindinalva Barbosa, autora da dissertação As Encruzilhadas, o Ferro e o Espelho .

A pesquisa que resultou no texto apresentado para a obtenção do seu título de mestre em Estudo de Linguagens pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb) mostra as formas artísticas e discursivas do livro com característica diferenciada dentre a obra literária de Abdias.
Lindinalva conta que tomou contato com o livro em 1986, período inicial da sua trajetória como militante do Movimento Negro Unificado (MNU).

De acordo com ela, embora o livro  traga poesia, ele reflete o espírito mais geral da produção de Abdias.

Luta e religião

“A obra de Abdias está inserida no campo da  literatura negra, conceito que uso. Esse tipo de literatura traz a mensagem capaz de comunicar a luta cotidiana que é travada contra o racismo”, acrescenta.

A religião afro-brasileira é a base dos poemas reunidos no livro. O título escolhido por Lindinalva faz referência aos três orixás que dominam a obra: Exu, Ogum e Oxum.

Exu é o senhor das encruzilhadas, ou seja, dos  vários caminhos que se encontram e exigem decisões; Ogum é o dono da tecnologia e arte de retirar do ferro os variados objetos, inclusive as armas; Oxum é a dona da fertilidade e da luta que combina paciência e inteligência.

“Em uma entrevista que fiz com Abdias, ele chegou a me dizer que Exu era o patrono da sua ação política, como aquele que não se conforma com  as situações que o racismo coloca e que entra e sai de encruzilhadas. Abdias era assim”, diz.

“Ogum prepara as armas e Abdias sempre disse que tudo o que fazia era  ferramenta para a luta contra o racismo;  Oxum é o orixá votivo de Abdias, que, de certa forma, contrabalançava seu espírito bélico, pois ela também é bélica, mas de uma forma mais maleável, engenhosa e sinuosa como as águas”, completa a pesquisadora.

O encontro de Abdias com as religiões afro-brasileiras aconteceu  na década de 1930, no terreiro de Joãozinho da Goméia, no Rio de Janeiro.

“Em uma de suas biografias, ele coloca que o  momento em que deu conta de si enquanto sujeito negro de uma forma mais plena e decisiva foi quando se aproximou do universo afro religioso”, afirma Lindinalva.

Uma amostra dessa arte pessoal e engajada é um dos trechos do poema intitulado Mucama-mor das estrelas: Não direi que isto é poesia/ talvez lembranças fantasia/ quem sabe murmurar de sonhos/ testemunho ou biografia.

O trabalho de Lindinalva Barbosa ainda não foi publicado em livro, mas pode ser conferido tanto no site do Programa de Pós Graduação em Estudo de Linguagens da Uneb, como no site do Ipeafro, que reúne produções sobre Abdias.

Lições da narrativa de Solomon

postado por Cleidiana Ramos @ 8:43 PM
10 de março de 2014
Capa do livro que traz a biografia de Solomon Northup. Foto: Divulgação

Capa do livro que traz a biografia de Solomon Northup. Foto: Divulgação

De cinema como técnica e linguagem artística não entendo absolutamente nada. Os poucos filmes que vi até hoje me seduziram no plano mais intuitivo mesmo. Com a literatura minha relação é mais próxima, embora minha escolha sempre recaia em livros que me façam viajar para outras épocas e mundos e me levem a rir, sentir raiva em determinados trechos, chorar ou ficar com uma saudade imensa do personagem quando chego ao fim da última página. Tudo isso é para dizer um pouco da minha sensação após ter lido 12 anos de escravidão, o relato biográfico de Solomon Northup que deu nome ao filme  ganhador em categorias dos prêmios de prestígio como Oscar e Globo de Ouro.

Ganhei o livro de presente da colega em A TARDE, Regina de Sá, depois de comentar com ela que fui ver e gostei do filme, primeiro passo para uma matéria que precisava fazer. O filme é impactante não apenas pelo que diz de forma explícita, mas pelas nuances. Está lá, nas entrelinhas, mas não menos eloquente, a violência da escravidão em sua vileza crua e detalhista atingindo em níveis diferentes e  impactantes também crianças e mulheres.

Ele também aborda a perda da humanidade à beira da patologia de quem estava em cada peça de comando do sistema. Afinal, o que fica de humano em alguém que engana e sequestra um homem ou mulher para condená-lo ao trabalho forçado? Onde está a humanidade de alguém, que considera o outro algo que pode ser espancado, queimado, amarrado e violentado das mais diversas formas? O cinema tem o recurso da imagem, que torna tudo ainda mais forte.

É exatamente por isso que o livro me impressionou mais ainda. A narrativa feita em primeira pessoa por Solomon Northup é objetiva, descritva nas paisagens e até econômica nas emoções, mas é daquelas capazes de atingir o fundo da alma. Não há como ficar indiferente a um relato feito por alguém que viveu aquele horror de forma real. O drama de Solomon não é ficção, mas um relato de alguém de carne e osso que viveu os extremos de uma experiência humana.

Em pouco mais de 200 páginas, o horror de um sistema que vitimou mulheres e homens livres de variadas partes da África, arrasou civilizações e dispersou povos inteiros para terras que nem sequer imaginavam conhecer, além de escravizar seus descendentes, ganha cores, formas e concretude. Torna-se, no mínimo incômodo, conhecer detalhes de como seres humanos foram tranquilamente submetidos à bárbarie e encarados como nada por tantos que levavam a consciência do ápice do que é ser gente.

Solomon Northup rasga o véu que a passagem do tempo pode estender sobre o entendimento do que foi esse horror e nos ajuda a entender porque questões como o racismo continuam tão presentes até em algo tão lúdico como deveria ser o futebol. Por que será que ainda, hoje, não é difícil encontrar gente que acha legal contar uma piada que compara negros a macacos ou que considera discussão sobre racismo coisa de gente que gosta de confusão?

Que bom que o filme e  livro vão ser usados como ferramenta didática nas escolas americanas.Seria ótimo que histórias como a de Luiz Gama, conhecida e recontada em várias obras literárias fossem mais abordadas no Brasil. Li recentemente que ela vai chegar à TV pela parceria de Ana Maria Gonçalves,autora do fabuloso livro Defeito de Cor, e Fernando Meireles.

Mas, além de Gama tem outras figuras como Manoel Grave, cuja história vem sendo remontada pela pesquisadora do curso de história da Ufba, Cida Gonzaga, que, gentilmente, me relatou em detalhes para a matéria que saiu na edição do último dia 2. (Inclusive, aproveito para pedir desculpas a Cida, pois na nossa conversa por telefone entendi o sobrenome como “Graze” e é “Grave”).

Quem sabe com mais produção artística capaz de não apenas narrar, mas problematizar a questão da escravidão em aspectos que andem além do já conhecido as pessoas comecem a entender que questão racial não é assunto que se resolve numa conversa trival na roda de amigos ou com o sentimento de quem entende como “a cultura negra é linda!”

Por isso, ao  ver o sucesso de obras como o livro e o filme sobre Solomon Northup prefiro me deixar levar bem mais pela emoção do que entrar em discussões sobre tecnicidade ou armadilhas de indústria cultural.

Digo isso porque essas duas obras conseguiram reavivar o sentimento, que já carrego, de responsabilidade com meus ancestrais negros. Foi a sua firmeza e coragem para descobrir estratégias de resistência às várias brutalidades– que lhes infligiram com o silêncio e o apoio de religiões, Estado, governos e homens e mulheres de boa fé– que me trouxeram até aqui para que possa, no mínimo, a cada dia, fazer uma prece agradecida e reconhecida em sua memória.

Em tempo: no Brasil, o livro foi publicado pela Editora Seoman e custa em média R$ 19. Tem 232 páginas.

Balaio de Ideias: Uma ressaca de alegria

postado por Cleidiana Ramos @ 2:54 PM
5 de março de 2014

ATCD10020501CSS

Maria Stella de Azevedo Santos

Quarta-feira de Cinzas”, dia de ressaca. O mar fica de ressaca quando a onda arrebenta nas pedras e recua sobre si mesma. O ser humano fica de ressaca quando após ingestão de grande quantidade de bebida alcoólica termina por sentir um grande mal estar. Eu espero que a ressaca que os foliões do carnaval estejam sentindo hoje seja aquela causada apenas por excesso de alegria. Pois é, até a alegria, quando é excessiva, deixa um gosto amargo na boca quando acaba. Um gosto de saudade que chega a causar dor: “a saudade é dor pungente”, é dor que dói. Afinal, a palavra ressaca tem origem na palavra norueguesa kveis, que significa “mal-estar depois da orgia”, acho que em nossa língua é melhor dizer: mal-estar depois da farra.

A bebida é um estimulante. É por isso que em um dos rituais do candomblé se canta: Oti wa ti xô fê rê, querendo dizer que a bebida nos anima, ela nos encoraja a encarar os dias difíceis de maneira renovada. Entretanto, “como tudo demais é sobra”, a bebida, a comida e até a alegria não deve ser vivida em excesso. Oti é a palavra yorubá que é usada para qualquer bebida que embriague a mente. As religiões, em sua maioria, não são contra as bebidas, e sim ao uso excessivo delas.

Nos rituais do candomblé, as bebidas que embriagam devem ser usadas de maneira comedida, com o intuito maior de despertar a alegria. Essa religião se utiliza de bebidas profanas e sagradas. O champagne e vinho do ritual de bori, a cachaça e vinho do ritual de axexe e a cachaça de Exu são consideradas profanas porque não foram preparadas em ambientes divinizados, nem foram preparadas por sacerdotes consagrados. A bebida sagrada do candomblé é o aluá, uma bebida fermentada que é oferecida aos deuses e homens com o objetivo de aumentar o axé de quem a ingere, seja de maneira concreta (humanos) ou simbólica (divindades).

O aluá é uma bebida fermentada tipicamente brasileira, uma vez que tem relação com os índios, os portugueses e os africanos. No Brasil do 1º Império era moda servir aluá na corte de D. Pedro I. Em Portugal, era uma bebida feita do bagaço da uva, por isto conhecida como bagaceira. Os índios da Amazônia faziam uma bebida com abacaxi que ficava durante três noites fermentando ao luar, razão pela qual o folclorista Luís da Câmara Cascudo sugere ser o nome aluá uma corruptela de “ao luar”.

Na verdade, aluá é uma palavra yorubá (lú, em yorubá, significa misturar) que é usada em um ritual onde se movimenta e mistura a água com a bebida aluá, visando agitar o que está parado, a fim de que a purificação seja favorecida e que o que está velho possa ser renovado através do movimento.

Esse ensinamento nos é transmitido através dos cânticos do Ritual das Folhas, mostrando para os sacerdotes do candomblé a importância de eles conhecerem a língua religiosa que fazem uso, assim como a simbologia dos elementos usados em todos os atos ritualísticos. O aluá que herdamos dos africanos, por exemplo, é feito de raspadura, milho branco e gengibre. O doce normalmente chamada de rapadura é um dos subprodutos da cana-de-açúcar (Ikesen), cujo nome correto é raspadura, pois esta espécie de doce é feita das raspas das crostas do açúcar da cana que ficam presas às paredes dos tachos.

A palavra yorubá que designa o gengibre é atale, planta que tem o poder de aquecer e iluminar, dando-nos alegria. O milho branco, relacionado aos orixá do branco, indica ainda paz, suavidade e proteção dos seres superiores. O aluá é uma bebida fermentada, por isto seus ingredientes aumentam o axé de doçura, através do açúcar feito de cana (raspadura); o axé de alegria, que é transmitido pelo gengibre; o axé de tranquilidade fornecido pelo milho branco.

Boa “Quarta-feira de Cinzas”, boa ressaca, palavra que na língua yorubá é ìbilù-oti. Interessante entender que ìbi é infortúnio, mal estar; lù é mistura e ìbilù significa multidão, o que indica que muita gente junta pode causar ressaca e mal estar. É por isso que digo que três pessoas para mim já é multidão e muita alma junta se perde. Se essa ideia é necessária para qualquer pessoa, para os iniciados ela é ainda mais.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, ela escreve para o jornal A TARDE, sempre às quartas-feiras.

Sobre afros, Afródromo e Carnaval

postado por Cleidiana Ramos @ 4:31 PM
4 de março de 2014
O afoxé Filhos de Gandhy comemora os 65 anos. Foto:   Raul Spinassé/ Ag. A TARDE

O afoxé Filhos de Gandhy comemora os 65 anos. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE

Ilê Aiyê fez festa para os seus 40 anos. Foto: Fernando Vivas/Ag. A TARDE

Ilê Aiyê fez festa para os seus 40 anos. Foto: Fernando Vivas/Ag. A TARDE

 

Hoje termina o Carnaval que teve como um dos seus temas (isso também ficou meio confuso) os 40 anos de blocos afro. Foi uma tentativa de homenagem por meio do Ilê Aiyê, a primeira dessas agremiações a se constituir. O surgimento do Ilê, embora no campo cultural, teve um quê de rebeldia, afinal falar de racismo não se podia durante os anos de governo e ditadura militar no Brasil por conta da Lei de Segurança Nacional.

Além do Ilê, várias outras agremiações com lastro afro-brasileiro comemoraram nese Carnaval o que a gente chama de datas redondas: o afoxé Fihos de Gandhy (65 anos); o Olodum (35 anos); Malê DeBalê (35 anos) e as Filhas de Gandhy (35 anos).

Seria, portanto, o Carnaval ideal para o início do Afródromo, uma tentativa de dar a visbilidade que essas agremiações merecem e que o Carnaval baiano precisa para sacudir a mesmice e fazer jus ao rótulo de diversidade que reivindica.

Agremiação afro tem batida diferenciada de acordo com a característica de cada uma. Aqui recorro a especialistas em música, mas o Ilê tem um toque mais próximo ao feito nos terreiros; o Olodum seguiu um caminho mais sincopado ou pop; o Gandhy segue o passo cadenciado e hipnótico do ijexá; o Okanbí faz experimentação o tempo inteiro e por aí vai.

Além disso, tem alas de dança e figurinos exuberantes como os do Bankoma. Imagina o espetáculo de ver tudo isso junto e misturado como diz o bom baianês. Carlinhos Brown, criador de maravilhas como a Timbalada, bem que tentou. Seu projeto de Afródromo no Comércio não era separação como muita gente entendeu, mas, entendi (e posso estar equivocada também) como uma forma de mostrar porque os afro reivindicam maior visibilidade.

O projeto mudou e foi para o Campo Grande. A mudança de endereço também me pareceu legal, ou seja, seguia para um dos palcos com holofotes da festa. Mas não foi bem isso que rolou por mais que a iniciativa de Brown mereça elogios.

O Afródromo começou com atraso em todos os dias e apenas tornou mais evidente o que as agremiações afro vivem em cada Carnaval: cordeiros somem em busca dos blocos que têm artistas conhecidos; trios apresentam problemas; entidades com equipamentos mais pontentes sufocam suas batidas; no horário não há mais visibilidade na TV e, claro, patrocínio segue a lógica capitalista e dá dinheiro para quem aparece nos espaços midiáticos..enfim…o Afródromo foi apenas uma denominação diferente, pois as entidades agrupadas a cada dia já tinham os seus desfiles agendados para o mesmo horário na programação oficial do Carnaval.

Excetuando-se os holofotes que sempre acompanham o Ilê Aiyê, embora sua história de resistência que vai muito além de um bloco de Carnaval fique praticamente invisível, as outras agremiações afro brilharam onde brilham sempre: no coração e na persistência dos seus seguidores que entendem porque eles teimam em fazer parte do Carnaval mesmo com todas as dificuldades.

Filme com diretor e atores negros é premiado

postado por Cleidiana Ramos @ 7:46 PM
3 de março de 2014
Lupita Nyong´o recebeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante por sua atuação no filme "12 anos de escravidão". Foto: Evan Agostini/Invision/AP

Lupita Nyong´o recebeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante por sua atuação no filme “12 anos de escravidão”. Foto: Evan Agostini/Invision/AP

Cinema também é feito de símbolos por isso o dia de ontem foi especial. Na cerimônia do Oscar,  “12 anos de escravidão” ganhou o prêmio de melhor filme. Além disso, a queniana Lupita Nyong´o levou o Oscar de melhor atriz coadjuvante.

Valeu driblar o sono e aguentar as partes arrastadas da cerimônia, como as piadas nem sempre engraçadas da apresentadora Ellen DeGeneres, para ver a vitória de um filme que traz um exemplo do que tem feito a historiografia moderna sobre a escravidão ao, por meio da história de indíviuos reais, apresentar informações mais amplas sobre o contexto dessa tragédia vivida por africanos e seus descendentes nas Américas por mais de 300 anos.

O filme conta a história de Solomon Northup que, mesmo livre, foi raptado e reescravizado. Inclusive, na edição de domingo do jornal A TARDE publicamos histórias reais de nascidos livres em Salvador que foram escravizados.

Mas além da vitória de um filme contundente e muito interessante o que me chamou a atenção foi a proeminência de artistas negros na cerimônia do Oscar. Will Smith apresentou a categoria “melhor filme”; Jamie Foxx, maravilhoso em Django Livre, apresentou os prêmios para trilha sonora. Ainda houve uma participação emocionante de Sidney Poitier ao lado de Angelina Jolie.

Além disso, ao receber o Oscar de melhor filme, o diretor inglês Steve MCQueen fez um discurso de como a escravidão é real também para os negros e negras de hoje. Quando a TV brasileira terá uma inserção dos afro-brasileiros desse tipo?

Balaio de Ideias: De grão em grão…

postado por Cleidiana Ramos @ 7:20 PM
28 de fevereiro de 2014

ATCD10022601CSS

Maria Stella de Azevedo Santos

O artigo anterior, intitulado “Sucateiro, sucateiro”, foi construído através de uma mistura entre realidade e fantasia. Para minha surpresa não foram poucos os e-mails que recebi tecendo comentários sobre o referido artigo. Uns falavam com saudosismo sobre os antigos vendedores que caminhavam pelas ruas exaltando suas mercadorias; outros diziam o quanto sorriram naquele dia ao lembrar o texto; já muitos outros comentavam sobre a relação entre sonhos e ilusões.

Fiquei espantada com a surpresa que alguns leitores tiveram ao saber que eu ainda tinha sonhos. Transformei esse fato em um bom motivo para reflexão. Quando o corpo não nos dá condição de fazer uma boa faxina em uma casa, aproveita-se a cabeça para faxinar a alma e o espírito.

Por que será que algumas pessoas puderam pensar que eu não tenho mais sonhos? – perguntei-me. Achavam eles que eu já tinha conquistado tudo o que eu queria? Pensavam que o mundo já estava tão chato para mim, tão repetitivo, que eu mais nada queria?

Como não posso concluir o pensamento dos outros, não encontrei resposta para minhas indagações, mas espantei-me com a quantidade de sonhos (concretizáveis) que ainda guardo em meu interior.

Uma das proibições que nós recebemos enquanto iniciados no candomblé é ficar sentado com a mão segurando o queixo. O aprendizado embutido neste tabu é de que não devemos ficar apenas no mundo das ideias, devemos partir para a ação. Sendo assim, compartilharei com todos um dos muitos sonhos que ainda pretendo concretizar.

Todos os religiosos que sejam convictos de sua função na Terra, principalmente aqueles que são consagrados para o sacerdócio, têm consciência de que precisam fazer duas coisas aparentemente simples, mas que são complicadíssimas em seus fundamentos: dar e pedir. É a famosa lei universal da troca que insisto em repetir em muito do que escrevo na esperança que fixe de vez em meu coração, e que penetre nos corações daqueles que ainda não atentaram em cumprir tão importante lei.

A religiosa baiana Irmã Dulce foi um exemplo de cumprimento da lei em questão. Sua capacidade de doação é facilmente identificada através de suas obras, mas acredito que poucos conhecem o quanto ela precisou fazer uso da humildade para pedir o que necessitava, a fim de que seus sonhos se concretizassem. Quando crianças estudamos no mesmo colégio, assim pudemos acompanhar mesmo de longe a vida sacerdotal uma da outra. Eu sabia, por exemplo, que quando faltava algo que Irmã Dulce necessitava para ajudar aos menos favorecidos, ela simplesmente entrava em uma loja e pedia ao vendedor aquilo que precisava, carregava com suas próprias mãos e se despedia alegremente dizendo: “Deus lhe pague”.

Inspirando-me no exemplo que nos foi dado por Irmã Dulce, concluo este artigo revelando um de meus maiores sonhos que pretendo vê-lo concretizado estando eu ainda viva. Tenho a certeza que “sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só. Mas sonho que se sonha junto é realidade”. Por isso, busco em mim a humildade que me foi proporcionada pela vida religiosa para pedir, pedir muito, a ajuda de todos que, preocupados com a violência que aumenta cada dia mais, vejam no estímulo à busca por uma maior espiritualidade uma das saídas (mesmo sendo em longo prazo) para a diminuição de tanta agressividade.

Revelo agora meu sonho acompanhado dos pedidos que faço para os amigos e os amigos de meus amigos, no sentido de que eles usem a web como uma grande rede de pescar benefícios coletivos: gostaria de construir uma biblioteca ambulante, composta por livros voltados para o despertar da religiosidade inerente ao ser humano. Preciso de um ônibus que venha a ser adaptado.

Peço a ajuda de pessoas físicas, empresas particulares, governamentais, enfim, peço ajuda aos homens e mulheres de boa vontade, que sabem que não basta apenas reclamar, nem apenas sonhar, tem que concretizar. Sendo assim, espero agora receber muitos e-mails com oferecimento de ajuda (não importando a forma nem o valor a ser oferecido), para que eu possa dizer, parafraseando Irmã Dulce: Que os orixás lhes paguem com bênçãos de todos os tipos.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, ela escreve para o jornal A TARDE, sempre às quartas-feiras

Candomblé se despede do alabê Erenilton

postado por Cleidiana Ramos @ 11:52 AM
17 de fevereiro de 2014
Ogã Erenilton em pose para especial premiado de A TARDE, "Os homens que chamam os deuses pra terra". Foto: Margarida Neide/ Ag. A TARDE/16.11.2012

Ogã Erenilton em pose para especial premiado de A TARDE, “Os homens que chamam os deuses pra terra”. Foto: Margarida Neide/ Ag. A TARDE/16.11.2012

A pedidos de pessoas que não conseguiram ler a matéria sobre a passagem para o orum do ogã Erenilton, publicada no último sábado em A TARDE, estou reproduzindo aqui o texto.

Cleidiana Ramos

Calou-se, no plano terrestre, a voz de um dos membros da grande escola dos sacerdotes músicos do candomblé: Erenilton Bispo dos Santos, 70 anos, foi sepultado ontem no Jardim da Saudade. Ele foi também um incansável defensor da sobrevivência dos afoxés por meio do grupo Filhos de Korin Efan, do qual era presidente.

Filho de Omolu, ogã Erenilton era alabê – título usado pelos sacerdotes músicos na tradição ketu – do Terreiro Oxumarê, localizado no bairro da Federação.

Dono de um vasto conhecimento sobre os cantos e ritmos do candomblé, era recebido com um toque especial dos atabaques nos terreiros das variadas nações.

“Ele tocava para o orixá. Era um prazer vê-lo cantar. Foi meu irmão, meu amigo, uma pessoa que dedicou sua vida ao candomblé e ao afoxé”, afirma Tânia Bispo. Ela é mayé do Terreiro Oxumarê, título para o mais alto posto no grupo das ekedes (sacerdotisas que não entram em transe) e irmã biológica do ogã Erenilton.

Ele gozava de um extremo respeito também entre os xicarangomas e huntós, como são chamados, respectivamente, os sacerdotes músicos nas nações angola e jeje.

Herança “Sabemos que ele está no outro plano junto com aqueles que já partiram para reforçar a nossa caminhada”, diz o tata Xuxuca Moxingoma, nome sagrado de Esmeraldo Emetério, xicarangoma do terreiro Tumba Junçara.

Segundo tata Xuxuca, ogã Erenilton será sempre lembrado pela insistência e luta para manter a coerência dos ritmos do candomblé e o comportamento elegante.

“Ele sempre esteve preocupado em marcar a diferença entre o toque religioso e o recreativo usado nos grupos musicais. Não aceitava a mistura”, diz.

Conhecido por, nos últimos anos, reger a orquestra do candomblé apenas com a voz – sentado em um banco e segurando uma toalha para enxugar o suor –, o sacerdote tinha um apreço especial pela correção tanto da melodia como da pronúncia.

“Meu mestre tinha uma marca especial que era a busca da perfeição. Cantar ou tocar errado era motivo para correção imediata. Ele pegava o gã e ensinava”, relata o historiador Jaime Sodré, xicarangoma do terreiro Tanuri Junçara e oloiê do Bogum.

Sodré também destaca o amor incondicional que ogã Erenilton tinha pelos afoxés. “Essa manifestação era a sua tentativa de mostrar como o povo de santo deve se portar no espaço carnavalesco”.

De acordo com Sodré, o ogã Erenilton formou uma grande dupla com o ogã Alcides, conhecido como Cidinho, também do Oxumarê. “Eles são representantes de um estilo típico dos mais antigos que tem um sonoridade cadenciada”, completa.

Alabê do terreiro Casa Branca, Edvaldo de Araújo Santos, conhecido como Papadinha, destaca as lições deixadas pelo ogã Erenilton.

“O orum deve estar cheio de alegria com a sua chegada. É o último dos grandes do passado, mas deixou discípulos. Tive a honra de vê-lo junto a outros dos antigos, como Cipriano e Jorge”, acrescenta.

Sacerdote ilustra especial de A TARDE

Ogã Erenilton Bispo dos Santos foi um dos personagens da capa do especial “Os homens que chamam os deuses pra terra”, publicado em 20 de novembro de 2012 por A TARDE, em comemoração ao Dia Nacional da Consciência Negra. O especial foi premiado na categoria mídia impressa, na edição do ano passado do Prêmio Abdias Nascimento. A premiação é uma das mais importantes do jornalismo brasileiro

Força Tinga!

postado por Cleidiana Ramos @ 7:06 PM
13 de fevereiro de 2014
Tinga é mais uma vítima do racismo no mundo do futebol. Episódio ocorreu no jogo de ontem, no Peru, entre Cruzeiro e Real Garcilazo Foto: Karel Navarro

Tinga é mais uma vítima do racismo no mundo do futebol. Episódio ocorreu no jogo de ontem, no Peru, entre Cruzeiro e Real Garcilazo Foto: Karel Navarro

Foto: reprodução

Foto: reprodução

Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

O país está indignado, a CBF mudou as cores da sua logomarca para preto e branco, mas o episódio Tinga vem lembrar mais uma vez que o mundo do futebol precisar parar de fazer de conta que o racismo não existe. Só para lembrar: não foi à toa que tratamos desse tema no nosso especial do 20 de novembro de 2013.

Balaio de Ideias: Sucateiro, sucateiro…

postado por Cleidiana Ramos @ 2:50 PM
13 de fevereiro de 2014
Ilustração: Bruno Aziz

Ilustração: Bruno Aziz

Maria Stella de Azevedo Santos

Seis horas da manhã. Ouço vozes que vêm da movimentada rua que fica em frente ao quarto em que hoje estou dormindo. A casa está em reforma. Ai que saudade do meu quarto no fundo da casa… Em vez de vozes, eu escutava o lindo canto dos passarinhos, que de tão acostumados com o ambiente já penetravam casa adentro, entrando e saindo como se estivessem em seus próprios ninhos. Saudade do antigo quarto, e excitação com as novas experiências de amanhecer neste outro quarto.

Muita gente pode pensar que seis horas é um bom horário para acordar, eu também acho. Acordar às cinco horas é ainda melhor. É muito bom renascer a cada dia junto com o sol, sendo despertada pelo cantar de um galo. Entretanto, toda essa imagem romântica se transforma em uma realidade concreta quando, em vez do cantar do galo, ouço um alto-falante com um som de má qualidade anunciando a venda de pamonhas; quando o sol, tão preguiçoso quanto eu, teima em continuar adormecido em cima de uma acolchoada e fresca nuvem enegrecida. Confesso que a palavra pamonha me estimula a acordar mais rápido.

A imaginação foi tanta que cheguei até a sentir o cheiro inebriante de um bom café. Voltar a dormir estava fora de cogitação, o pregão da rua já tinha invadido minha mente: “Olha a pamonha, olha a pamonha, pamonha quentinha pro seu café da manhã”; “Acaçá de milho bem feito, tem de milho e tem de leite”; “Banana-da-terra, batata-doce, melão, melancia, ovos”. A essa altura, meu simples café imaginário com pamonha já se transformava em um banquete.

A imaginação fica solta quando o corpo está cansado e preso a uma cama. Hoje posso me dar a esse delicioso luxo, pois ontem varei a noite fazendo nascer para a vida espiritual mais um filho. Momento em que foram entoados muitos cânticos que atraíssem boa sorte, prosperidade, alegria, união, saúde, enfim, tudo de bom que uma pessoa precisa ter para caminhar com dignidade na vida. Enquanto minha imaginação vagava entre o passado recente de um ritual e o futuro próximo de um café da manhã, não foi pequeno o susto que levei ao ouvir uma voz que parecia querer ser ouvida por todo o universo:

“Sucateiro, sucateiro, compro sucata pra reciclagem”. A voz do sucateiro me assustou, mas o que ele queria comprar para reciclar me surpreendeu. “Quem tem ilusão pra vender? Quem precisa se desfazer de suas ilusões? Quem quer me entregar suas ilusões? Preciso de ilusões para reciclar, preciso de ilusões para transformar em sonhos! Olha o sucateiro…” – insistia o sucateiro.

Meu corpo se esqueceu de que estava exausto e deu um pulo da cama (ainda bem que ele não se esqueceu de pegar a bengala). Parece que a curiosidade é um grande despertador na vida e da vida. Sabendo que minhas pernas não tinham a rapidez necessária para alcançar o comprador de ilusões, precisei pedir a alguém que o trouxesse até minha presença. Ainda zonza de sono, não sabia se tinha alguma ilusão para vender, até porque não estava entendendo como era o funcionamento daquele comércio. Sabia apenas que precisava conhecer aquele estranho comerciante.

O sucateiro de ilusões aproximou-se de mim muito contente. Pensei que ele estava acreditando que iria fazer um excelente negócio comigo. Seu contentamento, segundo ele próprio, era simplesmente pelo fato de conhecer mais uma pessoa. Para meu espanto, fiquei sabendo que seu grande prazer era quando encontrava alguém que não tinha nenhuma ilusão para lhe vender e que o prazer era muito maior quando encontrava pessoas que já sabiam reciclar suas próprias ilusões em verdadeiros sonhos possíveis de serem concretizados, independentemente do tempo que eles precisassem para se realizarem.

Eu não sabia se alguma ilusão ainda estava viva em mim. Sonhos, eu sabia que ainda tinha muitos. Após uma longa e frutífera conversa, o sucateiro se despediu. Eu fiquei ponderando sobre a inusitada situação que acabava de vivenciar e relembrei do ritual da noite passada, cujos cânticos têm a função maior de reciclar as cabeças dos iniciados e do iniciante, que estava entregando sua cabeça ao comando de seu orixá.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, ela escreve em A TARDE, sempre às quartas-feiras

Iemanjá Black festeja cultura negra

postado por Cleidiana Ramos @ 8:08 PM
31 de janeiro de 2014
Madá e Jorge organizam a festa Iemanjá Blac. Foto: Divulgação

Madá e Jorge organizam a festa Iemanjá Blac. Foto: Divulgação

No próximo domingo, dia de Iemanjá, o que não vai faltar na cidade são eventos culturais para festejar a Rainha do Mar. Mas a terceira edição da festa Iemanjá Black é mais do que especial. Organizada pelo ator Jorge Washington e pela estilista Madá, da grife Negrif, a comemoração começa a partir das 11 hroas, no Sunshine Bar (que fica próximo à Colônia de Pescadores Z1 do Rio Vermelho).

A festa vai ser embalada pelo som de Denise Correia com a banda Na Veia da Nêga e o grupo Samborim. O ator Érico Brás e os cantores Tonho Matéria e Savannah Lima já confirmaram presença. O kit de acesso – camisa com uma estampa exclusiva da Negrif–e ticket da feijoada custa R$ 50 e pode ser adquirido na Boutique da Negrif (Rua Carlos Gomes, Edifício Bariloche, nº 616, bairro 2 de julho).

O espaço da festa é climatizado, tem capacidade para 500 pessoas e fica pertinho da Colônia de Pesca de onde sai o presente principal para Iemanjá.

Balaio de Ideias: O retempero de Daniela

postado por Cleidiana Ramos @ 6:09 PM
3 de janeiro de 2014
Daniela Mercury fez dueto com a Band´Aiyê do bloco Ilê Aiyê em show público no 1º dia do ano. Foto: Margarida Neide/Ag. A TARDE

Daniela Mercury fez dueto com a Band´Aiyê do bloco Ilê Aiyê em show público no 1º dia do ano. Foto: Margarida Neide/Ag. A TARDE

Marlon Marcos

Tem horas que Salvador assombra em surpresas bem agradáveis: o que fez , meu Deus, Daniela Mercury nessa versão 2014 no Projeto Pôr do Som? Por mais que empreendam negar a força artística desta mulher, muito por seu temperamento desencontrado, o que ela fez e faz na gente é inevitavelmente grande e importante em termos de criação individual e coletiva para atestar nossa tal “baianidade”. O que não se atesta enfim, se vive.

Muito de nos orgulhar da nossa vocação para a festa, mas banhado na criatividade selada em nossa negritude e em variantes do universo musical popular: isso é a Bahia! Daniela se retemperou para fazer vibrar uma cidade que há muito eu não via imersa na poesia típica do Ilê e do Olodum… Ao lado deles, mais Banda Didá, foi magistral.

Que noite, que ingresso quente e positivo nessas coisas do tempo fictício que praticamos. Do que vi nessas celebrações de fim de ano: foi o que mais me emocionou; e isso conta muito pra mim, quando no dia anterior, meus amores maiores ( Gal, Caetano, Gil)  também fizeram uma espécie de festa. E Daniela nem precisou sair do Carnaval para mostrar porque conquistou o Brasil e, de certa forma, o mundo.

Estava afiada, linda e consagrada como a branca que tem trânsito e voz no Ilê Aiyê. Deixou um pouco de lado o tom conferencista e realçou a cantora.  Ivete pode ganhar mais, cantar com Gil e Caetano, ser um fenômeno em carisma, vender como ninguém, ter uma voz mais bonita, mas artista é Daniela Mercury. Nem vou citar a do The Voice para não baixar o nível e ofender os anteriores.

Noite linda que queria dedicar à grandeza de Cláudio Marques pelo texto corajoso e procedente que escreveu no blog Teatro Nu,  uma narrativa imaginativa, proto-notícia, buscando momentos mais amplos e irrestritos para a cultura da Bahia; dedicar a Marques e pedir licença para expressar minha tristeza com a postura de Gilberto Gil, nosso mestre, recorrendo à polícia para afirmar censura à postura histórica, brincadeira séria, do cineasta. Confesso que fiquei um pouco envergonhado pelo amor-admiração que tenho por Gil. Tenho me pelado de medo com as retrancas que marcam censura a biografias, a críticas, a mobilizações intelectuais ou jornalísticas que nos façam querer um lugar melhor como cidade, como país, como planeta.

Mas Daniela, o assunto deste texto, muito me emocionou. Ilê e Olodum: a força viva do que somos capazes de fazer, magistrais aprendizes e professores de Gil Caê Gal, sendo conduzidos pela maestra do Canto da Cidade que, mesmo ao meio de tantos exageros, do canto por vezes preciosista, diz muito ao que veio fazer em palcos e trios à luz da sua arte. Ela reitera-se e faz no centro da cultura negra baiana. E, mesmo sem ser negra, merece aplausos.

 Isso é o Brasil.

 Daniela, obrigado.

Marlon Marcos é poeta, antropólogo e jornalista

Balaio de Ideias: O futuro a Deus pertence

postado por Cleidiana Ramos @ 1:42 PM
2 de janeiro de 2014
Mãe Stella faz reflexão sobre o uso dos oráculos. Foto: Gildo Lima/ Ag. A TARDE/ 29.12.2010

Mãe Stella faz reflexão sobre o uso dos oráculos. Foto: Gildo Lima/ Ag. A TARDE/ 29.12.2010

Maria Stella de Azevedo Santos

Todo início de ano, que é entendido pela população como início de um novo ciclo, instiga as pessoas a consultarem oráculos. São muitas as artes divinatórias, todas elas baseadas em um completo, minucioso e complexo sistema filosófico. Aliás, só pode ser considerado verdadeiramente um oráculo o sistema divinatório que possua um código de interpretação simbólica, e até mesmo matemática. Não basta apenas ser uma pessoa intuitiva para que esta se coloque em posição de ler oráculos, é preciso que esteja inteiramente vinculada a uma tradição religiosa ou filosófica e conheça realmente seus fundamentos.

Apesar de diferentes tipos de materiais poderem ser usados para que se estabeleça uma conexão com o divino, é imprescindível um grande conhecimento da padronização do código do sistema divinatório em que o objeto está inserido. Assim são utilizados baralhos, pedras, varetas, e no caso da cultura africana vários tipos de sementes, além do objeto mais conhecido no Brasil que são os búzios.

Faço sempre a opção de falar em sistema divinatório e não adivinhatório, pois a utilização de um oráculo é uma oração realizada com o intuito de receber respostas reveladas pelas divindades, sejam elas as divindades maiores ou a divindade pessoal de cada um que busca esclarecimentos para suas dúvidas e orientações para seus atos futuros.

O jogo de búzios não adivinha o futuro, mostra o caminho presente, levando o consulente a refletir sobre as melhores atitudes a serem tomadas para que a caminhada a seguir seja mais fácil. Afinal, o milionésimo de segundo após o presente já é futuro. O que me inspirou a escrever sobre esse tema foi um simpático e-mail que recebi e que, depois de ter obtido a devida autorização, transcrevo-o na íntegra para meus leitores:

“Prezada Mâe Stella, permita-me inicialmente saudá-la com respeito e reverência. Sou seu leitor assíduo na segunda página do jornal A TARDE. Admiro muito os seus posicionamentos e as suas reflexões que muito têm me ensinado. Sou cristão e católico, assim fui batizado, porém interesso-me por todas as religiões, leio sobre as mesmas e as respeito. ‘Muitos são os caminhos que levem à casa de Deus’. A senhora realmente acredita que se possa saber o futuro através dos búzios? Continue escrevendo e me ensinando. Vida longa e próspera. Respeitosamente. Benigno Alves dos Santos Bruno Bacelar”.

O certo é o incerto. A certeza da vida está na dúvida. Quando procuramos entender, compreender a realidade, ela se transforma em torno de si mesma para gerar novo questionamento. E o futuro a Deus pertence. O futuro é o mistério que pertence ao maior de todos os mistérios – Deus. Espero ter respondido à pergunta do amigo Benigno, que como o próprio nome diz é uma pessoa do bem, assim como é do bem e para o bem devem ser utilizados os oráculos.

O hábito de se vestir de branco no primeiro dia do ano demonstra, de maneira talvez inconsciente, o desejo que têm as pessoas de praticarem o bem, afinal a cor branca é considerada a mais generosa de todas as cores do espectro, uma vez que, de acordo com o conceito de cor-energia, branca é a cor da luz, pois recebe todas as cores, mas não fica com nenhuma para si, reflete todas, iluminando assim o ambiente e a pessoa que a está usando. Branca é a cor de oxalá, considerado o mais puro dos orixás.

Este artigo será lido exatamente no dia em que se inicia um novo ano – 2014 –, momento em que muitos perguntam qual o odu (caminho) e o orixá que estará governando. Não me canso de repetir que quando a divinação é feita para uma coletividade, como é o caso do “jogo do ano” realizado pelos terreiros de candomblé, as respostas reveladas e interpretadas só são direcionadas às pessoas vinculadas àquela “casa de culto”.

Por exemplo: as orientações dadas pelo caminho e pelo orixá que se apresentar no jogo de búzios feito por mim, mãe Stella de Oxossi, são dirigidas às pessoas que, de uma maneira ou de outra, por religiosidade ou afeto, têm um vínculo espiritual com o Ilê Axé Opô Afonjá. Quem muito se mistura não consegue se encontrar.

Maria Stella de Azevedo Santos escreve, quinzenalmente, às quartas-feiras no jornal A TARDE

Feliz 2014 com um abraço afro-brasileiro!

postado por Cleidiana Ramos @ 4:25 PM
31 de dezembro de 2013

 

Foto: Arestides Baptista / Ag A TARDE/ 28.08.2010

Foto: Arestides Baptista / Ag A TARDE/ 28.08.2010

Um 2014 recheado das boas energias trazidas pelas forças do bem! Axé!

Mais um livro, mais um presente

postado por Cleidiana Ramos @ 1:11 PM
18 de dezembro de 2013
Mãe Stella lança novo livro hoje, quarta, na ALB. Foto: Margarida Neide. 07/12/2012

Mãe Stella lança novo livro hoje, quarta, na ALB. Foto: Margarida Neide. 07/12/2012

Maria Stella de Azevedo Santos

Foi assim que meus filhos escreveram no início do convite para o lançamento do próximo livro que estarei entregando ao público. Se permitir que a colocação da referida chamada fosse colocada, foi porque, na verdade, considero que editar mais um livro é, sim, um grande presente. Um grande presente para mim! Afinal, livros nos conectam uns aos outros, fazendo com que eu possa estar presente na vida de pessoas que nunca sonhei em trocar ideias.

Além do mais, continuar devolvendo ao mundo o que recebi dele faz com eu me mantenha presente no momento presente. Meu tempo será sempre o agora! Se escolho, geralmente, o mês de dezembro para lançar os livros que escrevo é exatamente porque neste período o desejo de conexão fica intensificado.

Sendo assim, convido a todos para estarem comigo hoje, quarta-feira, 18 de dezembro, na Academia de Letras da Bahia, para juntos celebrarmos o destino, tema sobre o qual trata a Coleção Odu Adajó: Coleção de Destinos, que pretende ser composta por 16 volumes.

A Coleção Odu Adajó tem a pretensão de ampliar e aprofundar os conhecimentos sobre o legado da cultura yorubá, que hoje é entendida por quem nos visita como cultura baiana. Por que, então, o povo da Bahia/Brasil estuda tanto a mitologia dos deuses gregos e romanos e não estuda a mitologia dos orixás? Por que se interessam apenas por oráculos que estão distantes de nós, como Cabala, Tarô, e não procuram conhecer aquele que atrai tanta gente de fora do estado (e do país) em busca de ajuda e apoio espiritual, que é o Jogo de Búzios?…

Foram essas as perguntas que durante muito tempo me fiz. Recusei-me a acreditar no “chavão” do preconceito e fui a “campo” pesquisar. Perguntei a uma “filha de santo” minha por que ela estava estudando Cabala e não os odus, que são os caminhos do destino indicados pelo oráculo da cultura à qual ela estava vinculada – o candomblé. A resposta foi simples: “Sobre Cabala encontro livros que ajudam em minha busca pelo autoconhecimento e pelo autoaperfeiçoamento, sobre a tradição africana nada ou pouca coisa  encontro”.

Ouvi a resposta e pensei: Se eu sou uma religiosa, preciso colaborar no sentido de facilitar a busca de conexão das pessoas com sua parcela divina, sua espiritualidade. E uma das importantes etapas desse processo é conhecer, aceitar e cumprir o destino. Resolvi, então, tentar cobrir a falta que me foi alertada pela minha filha, escrevendo e publicando livros que podem ser de interesse de muitos.

A Coleção Odu Adajó se destina, portanto, a qualquer pessoa que busque ter uma visão mais ampliada da existência, aos estudiosos de culturas diversas e, principalmente, aos iniciados da religião que é conhecida no Brasil pelo nome de candomblé.

Sendo eu uma iniciada, tenho a tendência de resguardar os mistérios, evitando retirar os véus que os encobrem. Por isso, não foi uma decisão nada fácil editar a coleção que agora chega ao conhecimento do público, assim como os livros anteriores. A ousadia vem sempre da necessidade e a coragem, sempre da permissão dos orixás. Diante da modernidade, da internet, essa ficou sendo a minha única alternativa de evitar deturpações da essência de uma religião milenar.

Quatro volumes da coleção em questão já estão escritos, mas apenas um já foi editado, com apoio da Assembleia Legislativa do Estado da Bahia. Optou-se por usar todas as palavras em yorubá com a grafia correta como forma de preservação da língua, mas isto não é motivo de preocupação, uma vez que a tradução das rezas, dos provérbios, etc. pode ser encontrada logo em seguida.

Conhecer a cultura africana não transforma ninguém em cultuador de orixás. Cada um tem sua crença, a qual deve sempre ser respeitada por todos. Entretanto, conhecer a cultura em que se vive é muito mais do que uma obrigação, pode ser um delicioso prazer. É apenas isso que pretendo oferecer: prazer com uma boa dose de ampliação de conhecimentos, que possa vir a colaborar com a diminuição do preconceito e uma melhor qualidade de presença na sociedade em que se vive.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente ela escreve para o jornal A TARDE, sempre às quartas-feiras

Mãe Stella lança novo livro

postado por Cleidiana Ramos @ 3:46 PM
13 de dezembro de 2013
Mãe Stella lança novo livro. Foto: Margarida Neide/Ag. A TARDE/ 29.11.2012

Mãe Stella lança novo livro. Foto: Margarida Neide/Ag. A TARDE/ 29.11.2012

Na próxima quarta-feira, às 18 horas, na Academia de Letras da Bahia (ALB),  Mãe Stella de Oxóssi dá mais um presente para a comunidade que dirige, o Ilê Axé Opô Afonjá, mas também a todos que professam o candomblé ou se interessam pelos temas que envlvem essa religião. Trata-se do primeiro volume da coleção Odu Àdájo, com tradução livre para o português como Coleção de Destinos. Com maestria, Mãe Stella apresenta toda a beleza que cerca um dos mais importantes pilares para essa tradição religiosa: o oráculo que, no Brasil, é conhecido como Jogo de Búzios e que se baseia nos odus, ou seja, o conhecimento sobre o destino.

Mas este conhecimento é muito mais complexo do que a ideia simplista de conhecer o futuro a partir da consulta a uma sacerdotisa ou sacerdote. Também não significa que conhecer o destino é poder evitar qualquer tipo de problema como os céticos gostam de dizer para diminuir a sabedoria sobre oráculos.

No universo afro religioso, ter informações sobre o “destino” é, antes de tudo, conquistar o auto conhecimento que abre os caminhos para uma vida de paz acima de tudo. São explicações como essa que a coleção, cuidadosamente preparada por Mãe Stella, vem trazer.

O primeiro livro, por exemplo, começa pelo 16º odu, que é Ofun Méji, no sistema oracular da divindade Ifá. No Merindinlogun, um dos nomes que se dá ao Jogo de Búzios, ele ocupa a décima posição.  “Ofún Méjì é, portanto, um odu de extrema complexidade, que como símbolo da síntese universal, carrega em Si a responsabilidade pela “Criação” e por todo tipo de criação, que acontece por oposição ou complementação dos opostos, enfim, através de permanente movimento”, diz a introdução do livro.

No prefácio, Mãe Stella explica que a sua iniciativa em abordar um tema tão complexo e ao mesmo tempo tão caro ao candomblé foi a forma que encontrou para suprir a necessidade de mostrar mais uma face da riqueza que a filsofia iorubá, a qual o Afonjá está vinculado, possui. Ela, inclusive, faz questão de ressaltar que o conhecimento que transmite na coleção é o que recebeu nesta comunidade específica, o que condiz com o respeito que sempre demonstrou e demonstra em seus livros diante das outras tradições religiosas de matrizes africanas.

Fiel a esse princípio da oralidade, Mãe Stella deu um toque diferente a essa coleção. É um livro que dialoga com a oralidade e a escrita. Dessa forma, Mãe Stella, assina o livro na parte de tradição oral. A tradição escrita ficou sob a responsabilidade de Graziela Domini,filha de Iemanjá da casa.

Essa é, portanto, mais uma inovação de uma sacerdotisa que fica muito à vontade para transitar entre as duas linguagens, mas que, neste caso, diante do caráter especial que tem o tema, preferiu repartir, desde a capa, o domínio dos dois códigos de linguagem. Mais uma atitude “ousada”, como ela define sua iniciativa em preparar esta coleção, mas que é mais uma amostra da sua maestria com a literatura a ponto de ter se tornado a primeira líder religiosa do candomblé a ocupar uma cadeira na Academia de Letras da Bahia (ALB).

Em tempos de Internet que ela reconhece a importância, mas que também entende como um meio que, devido a rapidez, não dá o tratamento adequado a temas tão complexos, Mãe Stella conta que optou por fazer o uso da parceria entre oralidade e escrita para transmitir sua reflexão sobre o oráculo de origem africana que continua preservado na Bahia.

É um passeio pelo meio dos mistérios mas sem a necessidade de revelar aquilo que se chama “fundamento”,  reservado apenas para quem conquistou o direito de ter acesso a ele, um dos pilares básicos do candomblé.

“Como iniciada que sou, tenho a tendência de resguardar os mistérios, evitando retirar os véus que os encobrem. Por isso, não foi uma decisão nada fácil editar a coleção que agora entrego ao público. A ousadia veio da necessidade, mas a coragem veio da permissão dos orixá. Diante da modernidade, essa ficou sendo minha única alternativa de evitar deturpações da essência de uma religião milenar. Quero deixar claro que o que aqui transmito tem como base o candomblé como é professado no Il]e Axé Opo Afonjá, na Bahia”, escreve Mãe Stella no prefácio.

A nós leitores cabe recohecer a profundidade deste presente e a generosidade de uma sacerdotisa que tem feito do seu conhecimento uma forma de diálogo tanto com aqueles que são da religião dos orixás,como também com os que se sentem próximos pelos mais variados caminhos.

Serviço:
O que: Lançamento de Ofun (Coleção Odu Àdájo- Coleção de Destinos)
Quando: Dia 18/12, quarta-feira, a partir das 18 horas
Onde: Academia de Letras da Bahia (ALB), Avenida Joana Angélica, 198, Nazaré