Um abraço para todas as baianas

postado por Cleidiana Ramos @ 11:01 AM
25 de novembro de 2014
Baianas de acarajé são exemplos de liberdade. Foto: Raul Spinassé

Baianas de acarajé são exemplos de liberdade. Foto: Raul Spinassé

Hoje é o dia dedicado às baianas de acarajé. Trabalhos como o de Cecília Moreira Soares, historiadora e antropóloga, intitulado Mulher negra na Bahia no século XIXmostra o quanto essa atividade teve e tem de resistência. Por meio da sua perícia em fazer acará, que depois virou acarajé; abará, mingau (sim as vendedoras dessa iguaria também estão vinculadas a essa atividade de levar alimento barato, mas substancioso e gostoso  para as ruas), fato, peixe e outros alimentos essas mulheres revolucionaram o próprio papel feminino do seu tempo e dos que viriam depois.  

Algumas libertas outras escravas de ganho fizeram do seu trabalho a arma para ganhar liberdade e, em muitos casos a dos seus filhos e companheiros. Emanciparam-se e emanciparam. Chefiaram famílias e formaram sucessoras nesses e em outros ofícios.  Algumas até viraram “negras do partido alto”, um título para as que desafiaram todas as possibilidades e até enriqueceram.   Foram e são mulheres independentes e sábias na questão de gênero do ponto de vista político e empreendedor.

Como não se orgulhar dessas figuras que impõem um respeito enorme à frente dos seus tabuleiros, criam verdadeiras empresas familiares e não aceitam um passo atrás no que conquistaram? Assim fizeram as  guerreiras da Abam, com dona Rita Santos à frente, para obrigar a Fifa a deixar que vendessem seu acarajé dentro do estádio na Copa.  O acarajé é um patrimônio, mas as mulheres que o fizeram símbolo de liberdade mais do que isso. São exemplos de feminismo libertário antes que ele fosse articulado nos grandes centros ocidentais.

Mais boas notícias sobre o especial Infância da Resistência

postado por Cleidiana Ramos @ 1:57 PM
24 de novembro de 2014

capa do especial 2014 3

Coisa boa é para compartilhar. Portanto, estou agora socializando os parabéns que a equipe de A TARDE responsável pelo especial Infância da Resistência recebeu da Cipó, uma instituição pioneira na Bahia no trabalho de conscientização da mídia sobre os direitos da Infância e Juventude. Receber elogio dessa turma é mais do que especial. Segue a nota:  

A CIPÓ – Comunicação Interativa parabeniza o jornal A Tarde, com destaque para a editora Cleidiana Ramos, pelo caderno publicado neste 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. Essa postura da imprensa, de valorizar com seriedade e respeito uma data que é fruto da luta do movimento social, só ajuda a fortalecer a democracia e deve servir de exemplo para todos os veículos de comunicação.

A opção por abordar o assunto a partir do ponto de vista das crianças éoutro item que merece destaque. As crianças não são “o futuro”, elas vivem no presente e sofrem – ainda mais do que os adultos – as consequências do racismo. São portanto fontes qualificadas para falar sobre o assunto e devem ganhar espaço na imprensa, não como elemento “suavizador” da cobertura, mas como sujeitos de direitos que são.

 

O sonho de Mãe Stella

postado por Cleidiana Ramos @ 12:32 PM
24 de novembro de 2014
Animoteca está funcionando no estacionamento do Shopping Bela Vista, das 10 às 21 horas até o próximo dia 29

Animoteca está funcionando no estacionamento do Shopping Bela Vista, das 10 às 21 horas até o próximo dia 29

No último sábado no Shopping Bela Vista tive a sorte de participar de uma cerimônia marcante: a abertura  da “animoteca”. Trata-se de uma parte do projeto “Encontro Colorido da Encantada Espiritualidade Baiana”, concebido pela ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, Mãe Stella de Oxóssi.

A animoteca, instalada em um ônibus, pode ser visitada até o próximo dia 29, das 10 às 21 horas, no estacionamento do Shopping Bela Vista no Cabula.  Lá é possível encontrar livros, áudios e vídeos sobre as várias religiões.

O projeto é um sonho antigo de Mãe Stella que ela manifestou em um dos muitos artigos que escreveu para o jornal A TARDE. A partir do artigo, que foi desdobramento de um primeiro, onde misturando realidade e ficção ela falou sobre a importância de cultivar a possibilidade de sonhar, vários dos seus leitores se dispuseram a ajudar.

Infelizmente, na última quarta-feira, Mãe Stella se despediu, de forma continuada, do seu espaço cativo a cada 15 dias nas páginas de Opinião do jornal. Ela foi a primeira ialorixá a escrever de forma regular em um jornal de grande circulação. O  texto em que ela se despediu dos leitores foi publicado na quarta-feira passada,  mas a história que ela começou a construir nesse espaço logo terá continuidade.

Aqui segue o texto de Mãe Stella dando um até breve aos seus leitores do jornal:

Mudança de hábito

Maria Stella de Azevedo Santos

Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá

Quem não se lembra do filme Mudança de hábito, onde uma cantora de casino se vê obrigada a se esconder em um convento de freiras? Sem ser uma religiosa, ela conseguiu transformar positivamente o ambiente em que passou a morar. Nem toda pessoa boa é religiosa e nem todo religioso é, necessariamente, bom. No referido caso, o hábito (no sentido de vestimenta religiosa) fez a freira, confirmando o provérbio que diz: “O hábito faz o monge”.

Entretanto, esse provérbio tem outro significado quando dito da maneira completa e certa: “O hábito faz o monge apenas quando ele é visto longe”. Apesar dessa introdução, não escolhi o título “Mudança de hábito” para este artigo tendo como intenção falar de hábito enquanto vestimenta, mas sim enquanto prática costumeira.

Quando algo é difícil de ser dito, o preâmbulo fica sempre mais longo. É uma forma de preparar o interlocutor para ouvir ou ler o que vem pela frente. Sei que estou fazendo certo suspense. Coragem, Stella! – digo para mim. Então, lá vai:

As diversas atividades que minha vida religiosa pede e, é claro, a minha avançada idade estão fazendo com que se torne difícil continuar escrevendo quinzenalmente para este conceituado jornal, que acolheu meus pensamentos e minha cultura religiosa com muito desprendimento.

Não estou me despedindo do jornal A TARDE que, compreendendo minhas razões, deixou o espaço aberto para que eu escrevesse algum artigo quando assim pudesse e desejasse; muito menos estou me despedindo de meus leitores, pois continuarei escrevendo livros, mas no ritmo possível para meus 89 anos de idade.
Afinal, dividi a existência humana em três etapas: na primeira idade, que vai até os 40 anos (pelo menos para mim), as pessoas estão prontas para fazer filhos; a segunda idade, que vai dos 40 aos 80 anos, é para namorar; na terceira idade, que vai dos 80 aos 120 anos, é o momento propício para as pessoas sentarem e esperarem a velhice chegar. Este é o meu momento!

Escolhi com cuidado não só as palavras a serem escritas, como também a ocasião certa para realizar essa espécie de liberação. É que sábado, dia 22 de novembro, às 17 horas, na frente do Shopping Bela Vista, estarei realizando um sonho que só foi possível porque o expus nas páginas deste jornal e seus leitores ajudaram-me a concretizá-lo.

Parece-me que a sociedade já esta pronta para receber um ônibus, que ludicamente chamo de Animoteca, já que um de seus objetivos é despertar o ânimo dos seres que ainda se encontram adormecidos. Nesse ônibus estão guardadas em forma de livros, vídeos e áudios as sabedorias reveladas por mentes inspiradas, pertencentes a diferentes religiões e tradições filosóficas.

Não chamo a apresentação do ônibus de inauguração, porque prefiro, de maneira poética, denominá-la de “Encontro colorido da encantada espiritualidade baiana”, que tem como objetivo maior trabalhar no sentido de diminuir a violência através do despertar da espiritualidade.

Meus leitores, os quais espero encontrar no dia 22, sábado, percebem, assim, que não estou me despedindo, estou apenas mudando de hábito.

Imagens de um dia especial para a redação de A TARDE

postado por Cleidiana Ramos @ 4:57 PM
20 de novembro de 2014

Hoje a redação ganhou uma grande festa para comemorar a circulação do especial  Infância da Resistência. Teve caruru de sete meninos, com as benção do Doté Amilton Costa, líder do Terreiro Vodun Zo; o som da banda mirim da Escola Olodum, jornalistas e suas fontes confraternizando, autoridades e o melhor: a energia doce e renovadora da criançada. Encerramos de forma muito divertida o que foi resultado de muito trabalho unido ao carinho que criança sempre desperta.  Abaixo algumas das fotos dessa manhã inspiradora:

Meire Oliveira, a professora Jacilene Nascimento, diretora da Escola Parque São Cristóvão e eu, Cleidiana Ramos. Foto: Iracema Chequer | Ag.  A TARDE

Renata Santana, aluna da Escola Parque São Cristóvão;  Meire Oliveira;  professora Jacilene Nascimento, diretora da Escola Parque São Cristóvão e eu, Cleidiana Ramos. Foto: Iracema Chequer | Ag. A TARDE

Equipe que realizou o especial fazendo pose com os integrantes da banda mirim da Escola  Olodum. Foto: Iracema Chequer | Ag. A TARDE

Equipe que realizou o especial fazendo pose com os integrantes da banda mirim da Escola Olodum. Foto: Mariana Carneiro | Ag. A TARDE

 

Mesa do caruru de sete meninos na Redação. Foto: Iracema Chequer | Ag. A TARDE

Mesa do caruru de sete meninos na Redação. Foto: Iracema Chequer | Ag. A TARDE

 

 

 

Um alerta para pais e educadores

postado por Cleidiana Ramos @ 8:21 AM
20 de novembro de 2014

Esse vídeo mostra como o racismo não escolhe idade para atacar e como a força de estereótipos ajuda a reforçá-lo. Ele ataca o imaginário, inclusive, das crianças negras e de uma forma muito cruel.

Pequen@s guerreir@s: As primeiras lutas de Natinho

postado por Cleidiana Ramos @ 6:34 AM
20 de novembro de 2014
Bruno Aziz

Bruno Aziz

Jônatas Conceição da Silva era chamado de  Natinho pela família, amigos e em sua cidade do coração, Saubara.  Nasceu em 8 de dezembro de 1952,  na comunidade do Engenho velho de Brotas, localizada nos arredores do Dique do Tororó.

Em sua comunidade, Jônatas desfrutou de uma infância no espaço rodeado de arvores frutíferas; do baba na beira do dique; das brincadeiras com o inseparável amigo José Reis (Zé Furinga) e  do aconchego e carinho dos irmãos mais velhos, pois era o  oitavo filho de dona Isabel e do senhor  Tertulino.

Ao longo de sua vida dedicou-se a combater o racismo por meio  da militância no Movimento Negro Unificado (MNU) e na Associação Bloco Carnavalesco Ilê Aiyê, onde fez parte da diretoria e fundou o Projeto de Extensão Pedagógica (PEP).

Na literatura produziu  artigos, contos e poesias. Como educador desenvolveu aulas com conteúdos sobre as histórias dos nossos ancestrais africanos e afro- brasileiros.

Maria Luísa Passos é pedagoga e escritora

Foto: Arquivo pessoal

Foto: Arquivo pessoal

Pequen@s guerreir@s: Zumbi e o sonho de liberdade

postado por Cleidiana Ramos @ 6:33 AM
20 de novembro de 2014
Bruno Aziz

Bruno Aziz

Francisco nasceu livre, em 1655, em Palmares,  e, como outras crianças do quilombo, conviveu com seus pais, brincando e ouvindo histórias até os cinco anos de idade quando foi raptado com outros quilombolas, numa das investidas dos portugueses.

O nome Francisco, lhe foi dado por um padre quando o batizou, mas certamente a criança era chamada por outro nome.

Francisco nunca desistiu de retornar à sua terra. Ele certamente ouvia dizer que em Palmares além de africanos que fugiram da escravidão, havia também índios, mulatos e até brancos; que em Palmares a terra era de todos e, embora tivesse alcançado o número de 20 mil pessoas, tinha ainda lugar para muita gente se espalhar entre as palmeiras.

Francisco ouvia também contar que desde a formação de Palmares não se parava de tentar destruir o sonho de liberdade de tantos homens e mulheres. Assim, quando completou 15 anos, ele fugiu e retornou à terra de seus pais onde se tornaria, com o nome de Zumbi, o líder de um dos maiores projetos de liberdade construído pelos africanos no Brasil.

Vilson Caetano é babalorixá do Ilê Obá L´Okê,  doutor em antropologia e professor da Ufba

Foto:  Fernando Amorim | Ag. A TARDE | 24.09.2009.

Foto: Fernando Amorim | Ag. A TARDE | 24.09.2009.

Pequen@s guerreir@s: A menina das estrelas

postado por Cleidiana Ramos @ 6:32 AM
20 de novembro de 2014
Bruno Aziz

Bruno Aziz

Era uma vez, há mais ou menos cem anos, uma menina que morava nas estrelas. Humm… pensando bem, acho que eram as estrelas que habitavam dentro dela, e por isso as pessoas gostavam de lhe contar histórias e segredos, como se conversassem com uma iluminada e bela noite escura.

- Sabia que a vida de cada pessoa dá um livro? Só a de vovó é que deve dar uns três ou quatro… costumava dizer, mesmo antes de aprender a ler e escrever.

A vó queria que se chamasse Eunice, mas ela acabou se chamando Carolina Maria. Sapeca como um céu cheio de astros, às vezes sumia:

- Ô, Nicinha! Onde cê tava menina?

- Eu tava lááá na beira de Sacramento, vó, onde a cidade acaba, imaginando o rio que eu quero atravessar…

Carolina amava as grandes distâncias, e as coisas que pareciam infinitas, como a poesia. E se engana quem pensa que poeta vive no mundo da lua… Ela observava tudo em volta com atenção, ouvindo sobretudo os mais velhos.

Quando aprendeu a ler e escrever, mesmo, já era quase férias, e andava sumindo com todo papel que vinha embrulhando o pão. Também surrupiava os moldes que a mãe usava para costurar vestidos. Escrevia, escrevia, escrevia. E logo passou a escrever a história dela mesma.

Aí então… filas de parentes e vizinhos vinham prosear com a menina, e até lhe traziam presentinhos. Uns tinham a esperança de aparecer no livro de Carolina, outros estavam preocupados com o que ela contava sobre eles. Vai que um dia o livro fosse mesmo publicado…

No começo era uma coisa secreta, e Carolina contava algumas mentirinhas.

- Ah, minha filha, outro caderno?! As aulas mal começaram…reclamava a mãe.

- É que… é que… caiu numa poça de água, mamãe.

De outra vez:

- O boi comeu, vó…

E para o pai:

- Aí teve aquela nuvem de gafanhoto horrível, e aí eu larguei o caderno, aí saí correndo…

Só ela não sabia que todo mundo já sabia. A família orgulhosa ouvia as mentiras esfarrapadas com um espantos de faz-de-conta:

- Óóó… Foi mesmo? Não diga…

E no final, alguém resolvia:

- Toma esse dinheiro. Vai na quitanda de Dona Mocinha e compra outro caderno, vai.

Lande M. Munzanzu Onawale é poeta e escritor

Foto: Arquivo pessoal

 

 

Pequen@s guerreir@s: Luiza Ligeira: a menina Gaiaku

postado por Cleidiana Ramos @ 6:31 AM
20 de novembro de 2014
Bruno Aziz

Bruno Aziz

 

Meu nome é Luiza Franquelina da Rocha, um nome gigante e pesado para alguém de apenas 10 anos. Nasci na linda cidade de Cachoeira, na Bahia, entre os mistérios das divindades trazidas da África pelos meus avós, que foram escravizados pela maldade dos humanos. Eu sou filha do vodum Oyá e, como ela, adoro vadiar pelos cantos do mundo, sendo vento em muito movimento.

Sou uma criança ligeira. Adoro perguntar e guardo tudo que me ensinam na minha memória sem tempo… Sou ligeira como Oyá, me visto de branco igual a ela e saio cantando cânticos de candomblé, religião de meus pais que também é a minha, pela orla do Rio Paraguaçu.

Minha mãe Cecília é filha de Iemanjá, e meu pai Miguel é o importante pejigan (ogan principal) do Terreiro Seja Hundê. Minha religião é linda! A gente dança e canta e come iguarias deliciosas, mas trabalha muito também. Os voduns são forças da natureza que nos protegem. Minha voz é linda, eu sou uma menina negra linda que canta lindo para alegrar os deuses do candomblé.

Eu sei dançar como ninguém; às vezes, deixo de brincar de boneca, de subir em árvore, de acordar os preguiçosos que não gostam de trabalhar para as festas dos voduns, só para discutir política com meu pai que me ama muito e diz sempre: Luiza ligeira você é muito inteligente, aprende rápido e adora dar ordens – é uma típica sacerdotisa, mais tarde você será uma Gaiaku e irá comandar um terreiro, sendo a rainha que sempre mereceu ser.

Por isso, já me sinto uma Gaiaku. Imagino-me ensinando meus filhos de santo a cantar e a dançar para os voduns. A aprender o nome das folhas e os fundamentos da nossa nação religiosa, o jeje-mahi. Imagino-me fazendo roda sagrada no centro do meu barracão, que será num lugar lindo e terá o nome Huntoloji – em homenagem ao velho Ajansun.

Sou de Oyá com o vodum do branco chamado Lissá. Não sou muito calma. Falo demais e brigo muito também. Brinco demais porque sinto felicidade e adoro ser uma criança criada em terreiro de candomblé. Lá, no terreiro, tudo faz sentido, é misterioso e bonito.

Minha mãe Oyá é uma rainha e eu herdei o seu temperamento. Por ser filha dela sou muito veloz: daí meu apelido Luiza ligeira ou a menina ventania que, mesmo ainda sendo uma menininha de 10 anos, sabe tanto de candomblé ketu, angola e jeje-mahi, as principais nações, e me chamam também, por isso, de a menina Gaiaku, nascida para ser mãe de uma nação.

Marlon Marcos é omorisá Iemanjá, poeta, jornalista e antropólogo

Foto: Arquivo pessoal

Foto: Arquivo pessoal

Pequen@s guerreir@s: Abdias, o aprendiz de Ekó Ilê

postado por Cleidiana Ramos @ 6:30 AM
20 de novembro de 2014
Bruno Aziz

Bruno Aziz

 

 

Um dia, um griot* nascido nas terras africanas da Nigéria, em Ilê Ifé – a cidade sagrada dos nossos ancestrais yorubás –, nos falou sobre Ekó Ilê. Ele disse que Ekó Ilê é aquela primeira lição que aprendemos em casa, com nossos mais velhos, antes mesmo de irmos pra escola.

Pois bem. Hoje vamos falar sobre a primeira lição que o nosso menino Abdias aprendeu com sua mãe, a linda e doce dona Josina, conhecida na cidade de Franca pela sabedoria em fazer as folhas virarem remédios que curavam de um tudo; e as frutas virarem doces de deixar todo mundo com água na boca… E olha que o que não faltava naquela cidade eram ervas e frutas de todo tipo, principalmente as jabuticabas, pretinhas e doces como mel!

Quando o pequeno Abdias tinha assim entre sete e oito anos, aconteceu uma coisa que o marcou para o resto da vida, tanto é que, quase noventa anos depois, ele sempre lembrava do acontecido quando conversava com alguém sobre as coisas da infância. É que ele tinha um coleguinha do grupo escolar que se chamava Filisbino, e era um menino bonito, parecido com Abdias e seus irmãos, pretinho como a jabuticaba doce que dava nas árvores que rodeavam a cidade de Franca.

Porém, Filisbino era também muito triste, pois vivia com muitas dificuldades, já que tinha perdido o pai e a mãe bem cedinho e sobrevivia graças à solidariedade de alguns vizinhos. Pois bem, havia na cidade de Franca uma mulher que não era generosa, nem sábia, nem doce como a mãe de Abdias… Na verdade ela era bem amarga. Tão amarga que, um dia, só por ignorância e crueldade, maltratou muito o coleguinha de Abdias.

E aí, a dona Josina, que não se conformava com esse tipo de maldade, e gostava do menino como se fosse seu filho, não deixou por menos: disse poucas e boas para a mulher amarga e disse mais, que não ia permitir que ela fizesse mal ao menino e a nenhuma outra criança que se parecesse com ele.

O pequeno Abdias, vendo tudo aquilo, aprendeu a lição para o resto da vida: “Não se deve deixar uma ofensa racial sem resposta”. E aí está, a Ekó Ilê aprendida, e nunca esquecida, de sua mãe. Pelo resto da vida, em todo lugar do mundo, Abdias reproduziu a ação de sua mãe, defendendo os direitos das pessoas negras, dos pobres, dos índios, das mulheres e de todas aquelas que fossem desrespeitadas ou vítimas de qualquer tipo de violência.

Lindinalva Barbosa é educadora, mestre em Estudos de Linguagens/Uneb e omorixá Oyá do Terreiro do Cobre.

Foto: Arquivo pessoal

Foto: Arquivo pessoal

*Griot , nas culturas mandês da África Ocidental (Senegal, Guiné e países próximos), é o contador de histórias (“artesão das palavras”) que preserva e transmite a sabedoria e a história do povo. A palavra griot é francesa ; o termo nas línguas locais é djeli ou djali. (Fonte: Semog e Nascimento, Éle e Abdias. O griot e as muralhas, Rio de Janeiro, Pallas, 2006, p. 63.).

Fonte bibliográfica consultada: Semog e Nascimento, Éle e Abdias. O griot e as muralhas, Rio de Janeiro, Pallas, 2006, pgs. 29-51).

Solução do caça-palavra no caderno Infância da Resistência

postado por meire.oliveira @ 6:00 AM
20 de novembro de 2014

Na página 15 do especial Infância da Resistência tem um caça-palavra. Resolvendo o jogo são encontrados alguns dos povos africanos que vieram para o Brasil e contribuíram para a formação da cultura afro-brasileira. Aproveite e conheça, na página 6, a história sobre os países do continente africano de onde vieram a maioria dos negros trazidos para a Bahia.

Na solução são listados nove povos que contribuíram para a formação cultural do nosso País/

Na solução são listados nove povos que contribuíram para a formação cultural do nosso País/ Ludmila Cunha| Editoria de Arte A TARDE

 

Conheça os bastidores do especial Infância da Resistência

postado por meire.oliveira @ 10:33 PM
19 de novembro de 2014

Meire Oliveira

Neste ano resolvemos contar para vocês os bastidores da produção dos especiais da Consciência Negra de A Tarde. O resultado do trabalho que vocês vão conhecer, amanhã, tem a participação de muita gente mesmo antes dele começar a ser, de fato, feito. Todos começam do mesmo jeito, embora o processo de desenvolvimento seja diferente, pois depende do assunto que a gente escolhe trabalhar.

No caso do Infância de Resistência, a elaboração teve início no dia 29 de outubro. Fizemos uma reunião aqui na sede de A TARDE reunindo a equipe do jornal que faz o caderno– repórteres, fotógrafos e estudiosos sobre o tema abordado: o antropólogo Cláudio Pereira; o líder do terreiro Mokambo, tata Anselmo; o jornalista Hugo Mansur e o historiador Jaime Sodré.

Na reunião que ocorre antes de começar o caderno, estudiosos do tema ajudam a formular as pautas

Na reunião que ocorre antes de começar o caderno, estudiosos do tema ajudam a formular as pautas/ Foto: Luciano da Matta

Nessa conversa definimos as matérias que vocês irão ler amanhã e listamos as fontes que serão entrevistadas. A novidade deste ano, que surgiu durante esse encontro, foi a ideia de convidar estudantes das escolas que são referências na implementação da Lei 10.639/03 – que obriga o ensino da história da África e da cultura afro-brasileira no País– para atuarem como repórteres vivenciando a nossa rotina e escrevendo matérias.

Na semana seguinte, nove estudantes das escolas Mãe Hilda, Parque São Cristóvão e Eugênia Anna dos Santos passaram uma tarde com a gente de muita diversão em uma oficina com a equipe de Projetos Sociais de A TARDE; ouviram contos africanos com a historiadora Vanda Machado e souberam mais sobre a vida da pedagoga Olívia Santana que, em 2005, liderou a implementação da Lei em Salvador como secretária municipal da Educação. Após a conversa, Olívia foi entrevistada em uma coletiva e fotografada pelos novos repórteres.

Durante a oficina, os alunos ouviram contos africanos com a historiadora Vanda Machado

Durante a oficina, os alunos ouviram contos africanos com a historiadora Vanda Machado/ Foto: Joa Souza

 

Após uma seleção, foi a vez de Renata,14 anos, Camilly, 12 anos, Leonara, 9 anos, e Gisele,10 anos, acompanhadas por suas professoras nas escolas, serem ‘contratadas’ para atuar como repórteres dentro da redação .Elas conheceram todo o processo de produção do jornal. Chegaram tímidas, mas com o tempo foram mostrando talentos no desenvolvimento de várias atividades ao longo de três dias.

Durante três dias as novas repórteres vivenciaram a rotina da redação

Durante três dias as novas repórteres vivenciaram a rotina da redação/ Foto: Iracema Chequer

As meninas tiveram acesso ao sistema de computador que todos os jornalistas escrevem, elaboraram textos e títulos, escolheram as fotos que seriam utilizadas nas matérias e acompanharam a montagem da página. Nessa fase já estavam familiarizadas e opinaram em tudo, por exemplo, como queriam a foto e a cor do título do texto.

Essa experiência  foi o diferencial do caderno deste ano. Dividir a tarefa de falar do universo infantil contando com a colaboração de quem mais entende do assunto foi essencial pra gente. Meninas, vocês brilharam!

Especial de A TARDE do 20 de novembro celebra a infância

postado por Cleidiana Ramos @ 5:30 PM
19 de novembro de 2014
Especial de A TARDE, que circula amanhã,  é todo dedicado à garotada. Foto: Iracema Chequer | Ag. A TARDE

Especial de A TARDE, que circula amanhã, é todo dedicado à garotada. Foto: Iracema Chequer | Ag. A TARDE

Depois de meses de ausência, eis que o Mundo Afro volta renovado. Tá de cara de nova e abre os trabalhos com uma notícia mais que positiva: amanhã, quinta-feira, o jornal A TARDE circula com a 12ª edição do especiais que comemoram o Dia Nacional da Consciência Negra. E o tema é mais do que especial: a infância.

A nossa ideia foi discutir em 16 páginas como as consequências do sistema de escravidão ainda atrapalham o Brasil e tem no racismo sua face mais cruel. Infelizmente, as crianças não são poupadas.

Mas ao mesmo tempo temos uma geração de meninas e meninos que  já colocam em prática uma história de resistência que começou no passado, mas se renova sempre. Esses já tem mais amparo devido à luta dos movimentos negros organizados que possuem conquistas como a Lei 10.639/2003 que estabelece o ensino de História da África e Cultura Afro-Brasileira.

Salvador foi a primeira capital do país a operacionalizar a aplicação dessa lei e não à toa tem instituições- referência nesse sentido, como as escolas municipais Eugênnia Anna dos Santos, Mãe Hilda e Parque São Cristóvão. A lei ajuda, principalmente, a fazer com que meninas e meninos tenham consciência de como o povo negro foi fundamental para a formação do Brasil como nação.

E como criança tem uma sabedoria imensa fomos buscar a participação delas. Fizemos uma oficina e recebemos Camilly e Gisele, alunas da Eugênia Anna dos Santos; Leonara e Renata,  da Escola Parque São Cristóvão.

As meninas participaram de uma oficina no jornal para saber como ele é feito e a partir daí escreveram seus próprios textos e ajudaram na montagem da página que foi completada com o depoimento de crianças de Moçambique, EUA e França.

Aqui no Mundo Afro vocês vão encontrar material que dialoga com o caderno. O destaque é para as histórias de personalidades importantes para o combate ao racismo no Brasil.

Pedimos que cinco especialistas escrevessem sobre a infância de Abdias Nacimento; Carolina de Jesus; Gaiaku Luiza; Jônatas Conceição e Zumbi. A nossa senha foi que eles deixassem a imaginação voar assim como a das crianças.

O resultado ficou lindo. Os textos são da educadora e especialista em linguagens Lindinalva Barbosa (Abdias); do poeta e escritor Landê Onawalê (Carolina de Jesus); do poeta, jornalista e antropólogo Marlon Marcos (Gaiaku Luiza); da pedagoga Maria Luisa Passos (Jônatas Conceição) e do babalorixá e antropólogo Vilson Caetano (Zumbi).

Além disso é aqui que a gente vai revelar resultado dos passatempos que estão no especial e muito muito mais.

Ficamos de fora tanto tempo que amanhã teremos muitos posts para deixar vocês atualizados não só sobre o especial, mas também sobre o que vai acontecer durante o dia até aqui na redação. Tanto que estaremos contando com a colaboração da jornalista Meire Oliveira.

Jaime Sodré lança livro sobre combate ao racismo para crianças

postado por Cleidiana Ramos @ 12:28 PM
17 de outubro de 2014
Jaime Sodré lança novo livro no próximo domingo. Foto: Mila Cordeiro /Ag. A TARDE

Jaime Sodré lança novo livro no próximo domingo. Foto: Mila Cordeiro /Ag. A TARDE

Pais, educadores e crianças: no próximo domingo, dia 19, a partir das 10 horas, tem um programa imperdível para vocês na Biblioteca Infantil Monteiro Lobato, em Nazaré. Trata-se do lançamento do livro Mocri (Movimento de Conscientização contra o Racismo Infantil), assinado pelo professor Jaime Sodré e com ilutrações de Ila Muniz.

Além do lançamento do livro haverá debate entre o autor e as crianças. Para acompanhar a conversa  será servido um delicioso mugunzá.

Que maus atos não quebrem vasos

postado por Cleidiana Ramos @ 11:16 AM
8 de outubro de 2014
Mãe Stella faz outra bela reflexão sobre política. Foto:  Mila Cordeiro | Ag. a TARDE

Mãe Stella faz outra bela reflexão sobre política. Foto: Mila Cordeiro | Ag. a TARDE

Maria Stella de Azevedo Santos
Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá

Assistimos muitos políticos serem carregados nos comícios, assim como as várias autoridades eleitas neste país foram carregadas nos ombros de seus correligionários no final do pleito eleitoral ocorrido no dia 5 de outubro. Esse gesto, repetido nos comícios e nos resultados dos pleitos, é cheio de simbolismos, os quais precisam e devem ser compreendidos, tanto por quem carrega, como por quem é carregado. Colocar alguém acima das cabeças dos outros é dizer que esta pessoa tem a capacidade e, consequentemente, a responsabilidade sobre tudo que implica na vida social daqueles que confiaram nele, isto é, tem por dever administrar e legislar bem sobre educação, saúde, segurança, lazer e, principalmente, respeitar o cumprimento da liberdade que rege a Carta Magna de um dos países mais democráticos deste planeta – o Brasil.

O catolicismo faz uso do andor, que no candomblé é conhecido como charola (palavra herdada dos portugueses), para colocar o sagrado acima do profano. Um provérbio bastante conhecido diz: “Cuidado com o andor, porque o santo é de barro”. E de barro também foram feitos, originalmente, os políticos a quem foi dado o poder, o direito e o dever de cuidar de seus irmãos. Portanto, se eles devem cuidar de nós, cabe também a nós cuidarmos deles, pois são seres humanos frágeis e fortes como o barro.

O barro é a mistura de água com terra. Uma autoridade precisa se moldar às circunstâncias diversas que a ela são impostas, com a flexibilidade da água e a solidez da terra. É a medida certa entre o sonho da alma com a realidade das ações materiais que faz com que um político seja um bom administrador e um bom legislador, pois recebe e aceita as orientações celestes. Ele é como um vaso, um pote de barro: artefato cuja abertura que possui simboliza a receptividade das orientações divinas.

No candomblé, vários são os objetos sagrados feitos de barro: pote, talha, quartinha, todos eles são utensílios ricos em simbolismos: guarda a água, símbolo de vida, que deve ser sempre renovada, pois os ensinamentos celestes, apesar de eternos, precisam ser sempre readaptados. Os sacerdotes do candomblé devem manter seus vasos cheios, comportamento que é explicado de uma forma clara e bela pelo budismo: Um pote cheio pela metade é emblema do tolo, uma vez que um sacerdote precisa estar pleno de sabedoria e de calma. É o que igualmente se espera de um político: que ele tenha sabedoria e calma para exercer sua missão.
A palavra pote na língua yorubá é odù, palavra que acentuada de maneira diferente significa destino.

O Terreiro de Candomblé que dirijo é sempre visitado por várias pessoas, entre elas os políticos, afinal são nossos irmãos, somos todos filhos de um Deus Supremo. É por isso que em época de eleição, peço aos orixás que dê a vitória àqueles que têm em seus destinos a missão de servir à humanidade através da política, naquele período. Uma missão tão árdua que merece orações constantes dos sacerdotes das diversas religiões e  dos não sacerdotes. Pois deus ouve a todos, indistintamente, basta que tenha “a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo

Mãe Stella escreve no jornal  A TARDE, quinzenalmente, sempre às quartas-feiras  

Balaio de Ideias: Por um paisagismo tipicamente baiana

postado por Cleidiana Ramos @ 11:06 AM
24 de setembro de 2014
O Parque São Bartolomeu é um dos espaços vegetais caros ao povo de santo de Salvador. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag. A TARDE | 18.07.2013

O Parque São Bartolomeu é um dos espaços vegetais caros ao povo de santo de Salvador. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag. A TARDE | 18.07.2013

Quando crianças, nossos professores tinham um trabalho imenso para realizar atividades educativas e informativas em equipe. Enquanto os alunos teimavam em fazer a tarefa com o mesmo grupo de colegas, os professores insistiam em desfazer as conhecidas “panelinhas”. Nesse verdadeiro cabo de guerra, normalmente os alunos eram “vencedores”. O que as crianças e adolescentes não sabiam, por lhes faltar experiência, é que vencer às vezes significa perder.

Na escola, as tarefas feitas em grupo objetivam fornecer informações, mas principalmente educar para o convívio em sociedade, já que, no futuro, os estudantes se tornarão profissionais que em vez de “panelinhas” precisarão formar imensos “caldeirões”, no qual estarão “juntas e misturadas” pessoas possuidoras de diferentes culturas e saberes, compartilhando seus conhecimentos variados, a fim de que as tarefas que lhes sejam dadas possam ser cumpridas com competência.

Estou relembrando o passado escolar para poder comentar sobre o presente, dia 12 de setembro, quando, redundantemente falando, recebi um grande presente na celebração dos meus 75 anos de iniciada. Não me refiro ao fato de ter lançado mais um livro e sim que, através desse livro, pude conhecer novas pessoas, as quais pertencem a grupos completamente diferentes daquele que tenho convivido até então. O livro O que as Folhas Cantam (para quem canta folhas) atraiu um grupo que nem de longe pensei em alcançar, exatamente pelo fato de eles não pertencerem ao meu grupo de convivência.

Os paisagistas e os arquitetos que compareceram ao lançamento me contagiaram com o entusiasmo que demonstraram sentir pelo livro. Um paisagista chegou a me falar que o trabalho dele estaria dividido no antes e no depois desse livro. Confesso, humildemente (pois pode existir humildade no orgulho), que fiquei orgulhosa com o que ouvi. Logo pensei: a Bahia é uma terra rica em sabedoria e, no que diz respeito ao reino vegetal, os negros escravos nos deixaram uma rica herança, que está mais no que na hora de usá-la para o bem de todos.

Este artigo é, pois, dirigido aos paisagistas e arquitetos, não só para agradecer a presença deles no lançamento do livro, como também para convidá-los a criar um tipo de paisagismo específico da Bahia, onde a grande sabedoria das plantas típicas do território baiano possa ser transmitida para os moradores de casas e condomínios, frequentadores de praças, etc.

Aqui seguem alguns exemplos de plantas possíveis de decorar casas e jardins, cujas energias transmitem poderes específicos para o corpo e a mente: folha-da-costa fornece o aprendizado do silêncio e do amadurecimento; batata-doce dá equilíbrio à cabeça; nativo abre os caminhos de quem busca purificação, coragem e liberdade; bambu desperta o deprimido, protegendo-o da excitação; cana-de-macaco nos torna mais maleáveis para que evitemos desavenças desnecessárias e desequilíbrios psíquicos.

Visando fazer com que nossa Bahia seja ainda mais conhecida pela sua criatividade e cultura própria, peço a meus leitores que conheçam algum paisagista, decorador, arquiteto que nos ajudem nesta nova empreitada.

Mãe Stella escreve para  o jornal A TARDE, quinzenalmente, às quartas-feiras   

Terreiro Santa Bárbara celebra Tempo

postado por Cleidiana Ramos @ 12:05 PM
8 de agosto de 2014
O terreiro Santa Bárbara, comandado por Pai Valdemir, celebra Tempo no próximo domingo. Foto: Fernando Vivas/Ag. A TARDE/ 22.06.2009

O terreiro Santa Bárbara, comandado por Pai Valdemir, celebra Tempo no próximo domingo. Foto: Fernando Vivas/Ag. A TARDE/ 22.06.2009

No próximo domingo, dia 10, os terreiros de nação angola estarão em festa para celebrar Tempo. No Terreiro de Santa Bárbara, localizado em Lauro de Freitas, a movimentação começa a partir das 8 horas com um café da manhã.

Durante a tarde vai ter churrasco e à noite a celebração solene. As comemorações são feitas em sua maior parte ao ar livre.

“Tempo é o patrono da nação angola e que costuma ser cultuado no dia 10 de agosto. Ele usa branco e sua festa é feita com muita comida, pois ele é rei e rege a prosperidade”, explica Valdemir Melo, tata de inquice- título usado quando um homem ocupa o mais alto posto numa comunidade  de nação angola- do Terreiro Santa Bárbara.

O terreiro, um dos mais conhecidos na Região Metropolitana de Salvador (RMS), fica na Rua Araqui, 22.

Cena de novela sobre o racismo surpreendeu

postado por Cleidiana Ramos @ 11:24 AM
5 de agosto de 2014
Lázaro Ramos vive o guru Brian Benson em Gerão Brasil.  João Cotta/ TV Globo

Lázaro Ramos vive o guru Brian Benson em Gerão Brasil. João Cotta/ TV Globo

Mesmo com suas limitações as novelas já fazem parte da cultura cotidiana brasileira. Até  quem odeia o gênero não pode ficar completamente alheio a personagens, bordões e polêmicas que elas abordam. Daí que ver um tema espinhoso como o racismo abordado com leveza, mas de forma contundente em um produto do gênero na Globo realmente surpreende.

Foi o caso de Geração Brasil, exibida às 19 horas, em capítulo que foi ao ar há duas semanas. A cena gira em torno de uma reprogramação cerebral, capitaneada pelo guru Brian Benson vivido por Lázaro Ramos. O paciente do guru é  Matias (Danilo Santos Ferreira) membro da chamada geração nem nem (jovens que nem estudam nem trabalham).

Matias anda sem confiança. Na conversa entre os dois, aos poucos, o guru vai mostrando o quanto o racismo é violento ao desconstruir a confiança e levar um jovem negro a duvidar de si mesmo.

O barato foi a abordagem bem amarrada em mais um belo trabalho dos autores Filipe Miguez e Izabel de Oliveira. Os dois já haviam tratado do tema em Cheias de Charme, mas agora, em Geração Brasil, foi mais forte.

Para arrematar, Claudia Abreu, que vive Pamela Parker, apresenta dados que fundamentam o que foi mostrado. Um alento em ver algo sobre os efeitos danosos do racismo em um canal de audiência considerável com texto bem cuidado e o luxo de interpretações como a de Lázaro Ramos. Aliás, a cada dia, Lázaro mostra o grande serviço de um ator que sabe  usar os espaços possíveis da sua arte para denúncia social.

Vejam o vídeo no link abaixo:

http://gshow.globo.com/novelas/geracao-brasil/capitulo/2014/7/22/veronica-e-herval-se-esbarram-em-uma-viagem-de-aviao-e-se-interessam-um-pelo-outro.html

O embalo de Jim Croce para curtir Django Livre

postado por Cleidiana Ramos @ 1:46 PM
2 de agosto de 2014

Além de um bom filme, Django Livre, de Quentin Tarantino, tem uma trilha sonora maravilhosa. Uma das músicas é “I got a name”, de Jim Croce. Vale ouvir a música e ver cenas do filme com um elenco encabeçado pelo maravilhoso Jamie Foxx.

Salvador faz festapara sua majestade, Lamidi Olaywola II, alafim de Oyó

postado por Cleidiana Ramos @ 1:31 PM
31 de julho de 2014
Durante sua visita a Salvador, o alafim Lamidi Olayiwola Adeyemi III participou de seminário sobre patrimônio cultural e visitou terreiros de candomblé. Foto: Joá Souza | Ag. A TARDE

Durante sua visita a Salvador, o alafim Lamidi Olayiwola Adeyemi III participou de seminário sobre patrimônio cultural e visitou terreiros de candomblé. Foto: Joá Souza | Ag. A TARDE

Salvador está recebendo a visita de  Lamidi Olaywola Adeyemi III, o alafim de Oyó, estado nigeriano. De Oyó veio o culto ao orixá Xangô, patrono do Ilê Axé Iyá Nassô Oká, mais conhecido como Casa Branca, que é reconhecido como o mais antigo terreiro de nação Ketu do Brasil e que ele visitou na última terça-feira.  A Casa Branca e a sua história tem estreitas ligações com Oyó que foi um grande império na região onde hoje estão Nigéria e seu vizinho Benim, entre os séculos XVII e XVIII. Por uma questão cultural, Adeyemi III é reconhecido como um governante  local. Ele tem o título de alafin, o equivalente a um imperador ou rei.

Hoje à tarde, como último compromisso público na capital baiana, o alafim visita a pedra consagrada em Xangô, localizada em Cajazeiras.

A Nigéria é uma República, mas o título de alafim tem importância cultural e religiosa, pois ele é  representante de orixás na terra como Odudua, ancestral mítico de parte do povo iorubá.

O alafim veio à capital baiana em uma articulação de terreiros que inclui, além da Casa Branca, o Ilê Iyá Omi Àse Iyamassé (Terreiro do Gantois), o Ilê Axé Opô Afonjá, o Ilé Maroialaji (Alaketu) e Ilê Osùmàré Arákà Àse Ogodó (Casa de Oxumarê).

Todos esses terreiros são reconhecidos como bens culturais brasileiros pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Inclusive, a visista de Adeyemi III motivou a realização de um seminário sobre patrimônio afro-brasileiro e trocas de experiências entre Brasil e Nigéria.

Abaixo vocês tem acesso a um texto de Meire Oliviera, publicado na edição de terça-feira do jornal A TARDE:

Meire Oliveira

Promover o intercâmbio acerca da preservação de bens culturais e fortalecer os laços históricos é o foco do 1º Seminário para Preservação do Patrimônio Cultural Compartilhado entre o Brasil e a Nigéria, que segue até a próxima quinta-feira.

A abertura do encontro – ocorrida ontem (terça-feira) no Salão Nobre do Fórum Ruy Barbosa – contou com a presença do rei do Império de Oyó, Lamidi Olayiwola Adeyemi III, sua comitiva com 22 integrantes, além de lideranças religiosas do candomblé e autoridades políticas dos dois países.

“É lindo o trabalho de conservação feito aqui pelos templos religiosos, honrando a memória dos nossos antepassados, disseminando a religião tradicional e a identidade iorubá. Diante da ameaça constante, temos que nos unir no compromisso de preservar essa ancestralidade”, disse o rei de Oyó.

A iniciativa é promovida por cinco terreiros baianos, já reconhecidos no país como patrimônio cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan):  Ilê Axé Iyá Nassó Okà (Casa Branca), Ilê Axé Opo Àfonjá, Ilê Iyá Omi Àse Iyamassé (Terreiro do Gantois), Ilé Maroialaji (Alaketu) e Ilê Osùmàré Arákà Àse Ogodó (Casa de Oxumarê).

“A nossa meta é unir forças e fortalecer nossa cultura e religiosidade, além de preservar o culto na Nigéria e lutar pelo tombamento de Oyó pela Unesco”, disse Sivanilton Encarnação da Mata, o Babá Pecê, babalorixá da Casa de Oxumarê, que pretende realizar uma edição do seminário na Nigéria.

“O Brasil é guardião da nossa cultura. O objetivo é conhecer como se dá a preservação aqui e trocar experiências com a matriz, estreitando os laços”, disse o representante da Embaixada da Nigéria, Misah Wale Akanni.

Para a ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Luiza Bairros, o evento visa criar mecanismos de preservação.

“É uma oportunidade de revisitar o que temos em comum e discutir o que pode ser feito para salvaguardar a herança que deve ser entendida como parte integrante da formação social, econômica e cultural do Brasil”, afirmou.

Férias

postado por Cleidiana Ramos @ 6:48 PM
27 de maio de 2014

Como tenho um compromisso fora de Salvador, a partir de amanhã estarei ausente da redação de A TARDE por um mês, pois chegou o período do ano que até o mais inveterado workaholic precisa mesmo que seja à força: férias. E o Mundo Afro me acompanha nessa pausa também. Até a volta.

Balaio de Ideias: Vozes d´África

postado por Cleidiana Ramos @ 7:35 PM
26 de maio de 2014
Jaime Sodré analisa atuaçaõ de mulheres na política de países da África.  Foto:  Mila Cordeiro/ Ag. A TARDE/  09.11.2011

Jaime Sodré analisa a atuação de mulheres na política de países da África. Foto: Mila Cordeiro/ Ag. A TARDE/
09.11.2011

Jaime Sodré

A África clama por um novo olhar. Mulheres Africanas – A Rede Invisível é um filme de Carlos Nascimbeni que aborda cinco mulheres marcantes na história deste continente:

Luiza Diogo ressalta a presença feminina na definição da agenda nacional; Graça Machel, ex-ministra da Educação de Moçambique, destaca que a presença feminina já atingiu uma massa crítica, faltando visibilidade; Sara Masasi conta como saiu da invisibilidade na Tanzânia muçulmana como empresária de sucesso; Leymam Gbowee, Prêmio Nobel, atuante pela paz na guerra civil da Libéria; Nadine Gordimer, escritora, vencedora do Nobel, argumenta da impossibilidade de falar de uma cultura africana única.

Luiza Diogo, primeira-ministra entre 2004 e 2010, diz que a mulher luta principalmente pela segurança alimentar; o trabalho da mulher africana na zona rural é extremamente duro, “imagine uma mulher de vários braços”, comenta. Para Luiza, a mulher está a construir uma agenda do desenvolvimento do país, por isso investir nas mulheres é importante.

Graça Machel, ministra da Educação e Cultura entre 1975 e 1989 em Moçambique, chama a atenção para as transformações que as mulheres africanas têm revelado: “Já há uma massa crítica no ambiente das mulheres africanas, em particular as jovens, altamente qualificadas, que exercem funções de grande responsabilidade, mas não tem havido um sistema que lhes permita ter visibilidade”.

Sara Masasi, da Tanzânia, é líder empresarial e diz: “Quando se tem um negócio, você precisa pensar, porque você não quer perder”; deve-se desfilar na avenida do sucesso, a que não se chega sem planejar. “Adoro trabalhar, os desafios me tornaram a pessoa que sou” – era a única africana a frequentar  uma escola europeia. Atua no mercado de placas para automóveis.

Carmeliza Rosário é antropóloga de Moçambique e assim se manifesta: “Não creio que a humanidade tenha se desenvolvido sem a existência da mulher… são elas que ficam grávidas, geram os filhos”, mas chama a atenção de que todos são importantes de alguma maneira. Alega que é preciso ter respeito pela África, afinal “somos o berço da humanidade”.

Nadine Gordimer, da África do Sul, branca, com Prêmio Nobel de Literatura, ressalta que o continente africano é enorme, sendo impossível falar a respeito de uma cultura unificada, porém as mulheres desempenharam um papel subjetivo. Até os dias de hoje há problemas de lidar com pessoas que vendem suas filhas de 14 ou 15 anos para homens mais velhos. A mulher negra tem que lutar contra isso, conclama.

Para Graça Machel, nos últimos dez anos o continente africano fez progresso quanto ao acesso das “raparigas” à educação, muitas no primário, mas o desafio é a passagem do primário para o secundário, e ainda maior deste para o “terciário”. Lembra que existe uma grave evasão da terceira para a quarta, quando a comunidade acredita que a menina está pronta para casar. Ela afirma que as tradições não são estáticas e acredita em mudanças.

Leymam Gbowee é uma personagem carismática, nascida na Libéria, Prêmio Nobel da Paz. A guerra civil na Libéria matou cerca de 200 mil pessoas, foram cometidas atrocidades por soldados de ambos os lados, milhares fugiram e Gbowee viveu em campos de refugiados em Gana. De 1909 a 2003 foram os anos mais cruéis, grupos inteiros foram dizimados, mulheres estupradas e alguns soldados diziam que suas genitálias eram boas demais para violentar as mulheres, por isso usavam facões na genitália feminina.

Quando vieram as conversações de paz, elas tiveram grande esperança, mas as discussões giravam em torno de quem iria controlar as minas de diamantes. Em revolta Gbowee e suas amigas bloquearam a saída do prédio, o segurança quis prendê-la, mas ela ameaçou tirar a roupa e disse: “A minha nudez será em protesto contra a miséria”. Duas semanas depois o acordo de paz foi assinado.

Luiza Diogo afirmou que “o substrato do funcionamento deste continente está nas mãos das mulheres, é aquele ditado que diz: a mulher sustenta metade do céu… mas se um dia ela largar, tudo rui”. Que continuem a sustentar!

Jaime Sodré é religioso do Candomblé, professor universitário, mestre em História da Arte e doutorando pela Uneb

Balaio de Ideias: Compreender não é aceitar

postado por Cleidiana Ramos @ 8:26 PM
21 de maio de 2014
Mãe Stella lança novo livro. Foto: Margarida Neide/Ag. A TARDE/ 29.11.2012

Mãe Stella faz bela reflexão sobre religião. Foto: Margarida Neide/Ag. A TARDE/ 29.11.2012

Maria Stella de Azevedo Santos

Mais uma polêmica para que possamos refletir e dar um passo rumo a um estágio evolutivo elevado que ajude a construir uma sociedade harmônica e equilibrada. O noticiário televisivo deu a seguinte manchete: “Juiz não reconhece manifestações afro-brasileiras como religiões. A decisão gerou polêmica e surpreendeu líderes do candomblé e da umbanda e o Ministério Público Federal.” Sou uma líder do candomblé e confesso que eu não fiquei nem um pouco surpreendida.

Venho de um tempo em que a referida religião era perseguida pela polícia, em virtude de na época o Brasil ter uma religião oficial – o catolicismo. A atitude do juiz precisa ser compreendida, porém jamais pode ser aceita. Optei por não dizer seu nome, pois o nome de uma pessoa é tão sagrado que não deve ser pronunciado quando o dono dele comete atos impensados e infelizes.

Um belo e significativo ensinamento da Ordem Rosa Cruz diz: “Eu te compreendo, mas em nome do verdadeiro amor não posso aceitar.” Podemos compreender uma atitude que tem por base o preconceito, que é fruto da ignorância sobre o tema que o juiz ousou julgar. O ignorante é assim mesmo: é insolente, “grosseiro nos gestos, nas palavras ou nas ações.”

Não fiquei surpresa, fiquei indignada. Senti repulsa, não pelo cidadão em si, mas pelo seu ato vergonhoso. Quanto a meu irmão que praticou tal ato, verdadeiramente, senti pena e, consequentemente, desejo de ajudá-lo. Afinal, ele é meu irmão, somos filhos de uma única energia, que para o candomblé é chamada de Olorum – o Deus Supremo, que vive no céu (no orum), o qual se expandiu e Dele fez surgir todos os seres vivos que habitam a Terra.

Essa é uma explicação que dou para ajudar meu irmão a entender que as religiões de matriz africana têm, sim, um texto base no qual se baseiam para realizar seus rituais, mas principalmente para ajudar seus adeptos a se tornarem cidadãos “assentados” no bem e na verdade. Esse texto base nos ensina que não basta sentir pena. O Código de Ifá, conjunto de ensinamentos no qual se baseia o candomblé, ensina a seus adeptos que a ignorância precisa ser perdoada, compreendida, mas nunca aceita, e que cabe àquele que conhece os mistérios, instruir aqueles que não os conhecem. Obedecendo, portanto, às orientações dadas pelos seres superiores, esclareço a meu irmão alguns detalhes do candomblé sobre o qual ele demonstra não ter o conhecimento necessário para realizar um julgamento.

A religião trazida para o Brasil por um povo possuidor de dignidade e generosidade inigualáveis tem um texto base, o qual é inclusive codificado através de códigos matemáticos. Não podemos, nem devemos esquecer-nos que um texto, em seu sentido amplo, é um conjunto de palavras expressas de maneira oral ou escrita, que pode ser longo ou breve, antigo ou moderno. Preciso pacientemente repetir que o texto base do candomblé é o Código de Ifá, pois um educador é educado para ser paciente. E nós, sacerdotes de qualquer religião, somos educadores de almas. Explicando ainda mais um pouco, o Código de Ifá é um sistema longo e antigo, considerado axiomático por revelar verdades universalmente dignas e válidas, ditas de maneira simples para expressar a complexa realidade da vida.

Também pacientemente repito que o candomblé possui um Deus Supremo, sendo os orixás divindades que servem como intermediárias entre Olorum e os humanos. Quanto à hierarquia, este é um dos grandes e fortes pilares dessa religião milenar, tanto no que se refere ao mundo das divindades quanto à comunidade dos “terreiros”.

No mundo sagrado se tem: Olorum, orixás funfun (descendente direto do hálito do Deus Supremo), orixás vinculados ao ar, água, fogo e terra, seres humanos, animais, vegetais e minerais. Nas comunidades do candomblé a hierarquia está em tudo: nos cargos (iyalorixá, iyakekere egbomi, yaô, abian); no respeito à idade de nascimento do corpo (os “nossos mais velhos”) e à idade de nascimento, na Terra, da essência divina de cada um. Encerrarei este texto com um provérbio contido no Código de ifá: “O tempo pode ser longo, mas uma mentira não cai em esquecimento.”

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, ela escreve para o jornal A TARDE, sempre às quartas-feiras.

Parabéns, Mãe Stella!

postado por Cleidiana Ramos @ 11:39 AM
2 de maio de 2014
Mãe Stella faz reflexão sobre capacidade de estar aberto a aprender. Foto: Diego Mascarenhas / Ag. A TARDE/ 09.07.2010

Mãe Stella festeja aniversário, hoje. Foto: Diego Mascarenhas / Ag. A TARDE/ 09.07.2010

Hoje é um dia muito especial: aniversário de nascimento da Iyalorixá Mãe Stella de Oxóssi. E, lembrando a todos que gostariam de dar um presente para agradecer por sua dedicação à religião que tantos brasileiros professam, ela sonha em montar uma biblioteca itinerante com livros sobre religião. Portanto, quem pode ajudar até mesmo enviando energias para o projeto, mãos na massa. Vivas a Mãe Stella.

Jamais fomos ou seremos macacos

postado por Cleidiana Ramos @ 3:59 PM
29 de abril de 2014
Daniel Alves resolveu comer banana atirada por torcedor na Espanha. Foto: Frame/reprodução

Daniel Alves resolveu comer banana atirada por torcedor na Espanha. Foto: Frame/reprodução

Se você é negro no Brasil– que tem uma história profundamente ligada ao sequestro de milhões de africanos despejados aqui como escravos durante três séculos– não pode se calar diante dessa nova insanidade nacional de nos reduzir a macacos.

Não. Nós, negros, não somos macacos. Somos gente. E homens e mulheres, há séculos, têm empreendido uma luta em várias fentes para afirmar isso e enfrentar quem tenta, de várias formas, nos dizer o contrário.

É a nossa missão de cada dia, pois milhões dos nossos morrem e engrossam as estatísticas das mais variadas formas de violência; são os nossos que estão mais submetidos ao desemprego; nossas crianças são as mais vulneráveis a doenças e ao péssimo atendimento em saúde e educação.

Isso tudo acontece exatamente  porque no passado disseram que nossos tataravós, bisavós e, assim sucessivamente, não eram humanos, mas pouco mais que esse animal que todo mundo agora diz ser imaginando, de forma simplória, que é uma forma de solidariedade ao jogador Daniel Alves que foi vítima de racismo na Espanha.

Sem falar que a tal campanha “somos todos macacos” aparentemente solidária ao jogador tinha por trás uma estratégia de marketing que já vende até uma camisa de péssimo gosto.

Mas voltemos à história. Sabe por que o macaco? Porque ele é o mais próximo dos humanos. Ora, se aqueles africanos escravizados faziam coisas de “gente” então o máximo que eles podiam ser eram os símios capazes de “imitar” os humanos.  É escandaloso hoje, mas esse foi o discurso que se sedimentou durante séculos por meio das teorias racistas construídas para sustentar a escravidão nas Américas. E se isso foi difundido durante séculos não vai desaparecer do imaginário em um passe de mágica.

Não, nós não somos macacos. Somos humanos. E achar  bonitinho quem está dizendo que é macaco porque foi sua celebridade preferida que o fez ou imaginar que quem está indignado e fulo da vida com essa estratégia ridícula é um mal humorado ou recalcado é demonstrar ignorância da sua própria história.

Quando Portugal resolveu explorar o Brasil, no século XVI os africanos usados para mão-de-obra aqui não eram trabalhadores gentilmente convidados a deixar suas terras. Eles foram retirados de sua vida social e condenados a uma vida brutal em uma terra desconhecida. Isso se sobrevivessem a uma viagem tenobrosa.

Foi com base em muito sangue africano que fortunas foram construídas e cidades erguidas nessa terra que agora celebra o samba e outras heranças ironicamenta originadas na resistência desses povos escravizados.

Para que a agora nação brasileira fosse possível essa escravidão foi justificada com a ajuda de várias ideologias, inclusive a científica. Uma delas foi construída no rastro das teorias de Darwin.

Um dos meios foi aplicar aos humanos a escala de evolução das espécies. Assim o topo era ocupado pelos caucasianos, ou seja, o biótipo dos dominadores europeus; os amarelos eram considerados inteligentes, mas avarentos com os quais se devia ter cuidado; os indígenas tinham até alma, mas eram cabeças de vento que mereciam tutela em tempo integral; e os de pele escura, que vinham de determinadas partes da África, eram um pouco mais que os macacos, pois pelo menos falavam.

Isso não é invenção, mas a história do chamado racismo científico que teve outros desdobramentos como as teses lombrosianas seguidas por Nina Rodrigues, um dos papas da medicina legal brasileira. Essa última proclamava os negros como mais propensos ao crime e a patologias mentais por apresentarem determinadas caracerísticas físicas como o formato do rosto e, claro, cor da pele. Eram uma espécie degenerada, segundo esse pensamento.

E tudo isso  foi apenas uma parte do jogo de se comparar negros a animais. Tratou-se de tirar a sua humanidade e assim os reduzirem facilmente ao status de coisas que podiam ser vendidas e submetidas ao que desejassem seus proprietários. Portanto, nós, negros, só podemos ficar indignados ao ver a banalização de algo que nos causou e causa tanto sofrimento.

Nesse país que ainda se debate para tentar consertar de alguma forma as cicatrizes profundas que o racismo ainda produz não dá para brincar com ele. Se somos tão conscientes de que já o superamos,  porque as celebridades, inclusive, as de pele clara, não apareceram em suas redes sociais dizendo “somos todos negros” ou “somos todos descendentes de africanos”?

A resposta: assumir que somos macaquinhos é bem mais fácil. Fica ainda mais viável para gente  que nunca soube o que é ser vítima do racismo ou faz de conta que não entende quando ele se materializa, inclusive do ponto de vista simbólico. Não é Neymar Jr,?

Balaio de Ideias: Uma crônica para Marlon Marcos: neo-cronista do candomblé

postado por Cleidiana Ramos @ 2:13 PM
24 de abril de 2014
Lançamento de Sob a Égide das Águas será amanhã, das 18h30 às 21 horas, na Katuka (Praça da Sé, Edifício Themis)

Lançamento de Sob a Égide das Águas será amanhã, das 18h30 às 21 horas, na Katuka. Foto: Divulgação

Cláudio Luiz Pereira

É com júbilo imenso que recebi e li o livro Sob a égide das águas (Editora Kawo Kabiyesile, 2014) de Marlon Marcos Vieira Passos. Posso dizer a propósito do autor que é um homem único e, ao mesmo tempo, paradoxalmente múltiplo. Aqui e acolá, ele está em trânsito entre muitos mundos. Está sempre entre as coisas, é um elo, é ele o “e” do vai-e-vem. E sim, ele trafega o mundo da poesia, do jornalismo, da antropologia. E, como não, o mundo do candomblé, que é aquilo lhes dá força e equilíbrio, e onde ele encontra achego, afetos e aconchegos.

Como poeta suas virtudes são muitas e extraordinárias. Como bom prestidigitador seria capaz de erigir a água de um copo em uma tempestade intempestiva, ao que se seguiria uma carreada de raios e trovões verbais. Típico daqueles que tem uma opinião forte frente a tudo, e frente a qualquer coisa. No seu entre mundo a oralidade não é uma qualidade anódina. Mas sua poesia está escrita, também publicada amiúde, e é reveladora da sua veia espirituosa e, mais que isto, de sua espiritualidade. Na sua poesia ele aparece na completa nudez daqueles que só precisam do abrigo das palavras.

Como jornalista é um participativo contribuinte da crítica da cultura baiana. É defensor de suas devoções intimas. Gosta do velho, mas com o novo se compraz. Mas não é justamente o novo e o velho que separam a qualidade da circunstância em que ele se insere. Ele sempre está presente, seja lá onde for, seja a hora que der, seja como tiver de ser. Ele está tanto no espetáculo Cult, de algum artista quase subterrâneo, quanto no camarim do mais charmoso e chique dos mais cultuados dos mortais…

Como antropólogo é um aprendiz de feiticeiro. E a esta altura dos fatos ele, tão claramente quanto o Quesalid Lévi-straussiano, já sabe quão valioso e  mágico é este conhecimento que ele retém. Querer ser antropólogo é um encanto raro, que só toca profundo naqueles que são capazes da renúncia e da entrega como proezas. A verdadeira antropologia, sabe Marlon Marcos, é intestina e visceral, é uma espécie de embriaguez dilacerante, discursiva e textual, é uma obsessão sem cura, um eterno abismar-se consigo mesmo. Ao discernir algo em torno desta soberba abstração do que é o humano, nos explicamos a nós mesmos, mais que tudo.

*

Acredito que algumas palavras mais podem ser ditas para realçar a importância do livro que no momento Marlon Marcos disponibiliza para seus leitores. Em primeiro lugar é preciso notar que o autor reúne boa parte de seus escritos jornalísticos dedicado ao candomblé e, como tal, demonstra aqui quão informado ele está nos temas e problemas concernente a esta religião. Neste sentido, é preciso notar que são textos públicos, veiculados por importante jornal baiano – A TARDE, e que se traduzem em diálogo com o campo onde ele desenvolve suas pesquisas antropológicas. São crônicas, conforme o próprio autor esclarece, e, como tais, articulam o jornalismo e a poesia, e também a antropologia, que a esta altura tornou-se seu mister preferencial.

Sabemos que o autor está credenciado para sua obra. Está possuído, portanto, deste ímpeto que permite ver esta religião de um ponto de vista êmico, interno, intrínseco. Ele vê o que o candomblé tem de mais vibrante (a experiência do êxtase, da devoção, do axé, tudo que se resguarda na contingência dos segredos, dos interditos, do indizível) e, também, o que nele há de mais prosaico.

Assim sendo, tece o fio da memória dos cultos, das narrativas e das estórias, das trajetórias e dos itinerários, das famas, das lidas e das vidas. Faz mesura diante da lembrança dos que se foram e se posta diante da presença dos que cá estão. Escrevendo sobre eles o autor sabe que servirá de semente aos tantos que virão.

É assim, com esta incrível sensibilidade, que Marlon Marcos trata das mulheres que povoam este universo afro-brasileiro. São todas divas, divindades, entidades, deidades. Chamam-se Marias, ou Stelas, ou Zulmiras, ou Carmélias, ou Luizas e a suas designações de batismo se incorporam seus nomes de santo. São de Nanã, de Oxaguian, de Oxóssi… Todas elas mães guerreiras… mães de todo mundo, mães de uma humanidade que delas tanto carece.

E, mais que isto, o que se vê no livro, é o passar dos anos, entre 2007 e 2013, e tudo que vai acontecendo ao povo de santo. As mortes e os passamentos, a religião como fato da polis, as muitas dinâmicas com que o tempo corre e tudo devora. Escreve sobre as diversas nações, e as ações dos homens, também diversas. Através destes homens ele vislumbra os sonhos, as festas, as celebrações, as conquistas, os embates. E, como não, os debates que ele tanto acompanha quanto participa com interesse entusiasmado.

Conclusivamente, enquanto crônicas, os textos de Sob a égide das águas falam sempre de um tempo presente, e, desse modo, falam também de tudo que permanecerá eterno no mundo do Candomblé, para todo o sempre, e sempre… Axé, Marlon Marcos!

Cláudio Luiz Pereira é doutor em antropologia e diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia da Ufba

Serviço
Evento:  Lançamento do livro Sob a égide das águas, escritos jornalísticos sobre candomblé
Autor: Marlon Marcos
Editora: Kawo- Kabiyesile
Dia: 25 de abril, das 18:30  às 21 horas
Local: Katuka- mercado negro// 71 – 3321-0151
Preço sugerido: $ 20,00

São Jorge recebe homenagens

postado por Cleidiana Ramos @ 4:01 PM
23 de abril de 2014
São Jorge recebe hoje várias homenagens na capital baiana. Foto: Marco Aurélio Martins/ Ag. A TARDE

São Jorge recebe hoje várias homenagens na capital baiana. Foto: Marco Aurélio Martins/ Ag. A TARDE

Com uma festa forte, muitos seguidores e uma devoção repleta de significados e ressignificados, como a aproximação com Oxóssi na Bahia e Ogum no Rio de Janeiro, São Jorge continua soberano.

Nem a tranformação da sua festa em opcional, devido à reforma no calendário litúrgico, diminuiu seu prestígio popular. Portanto, saudações a Jorge, o que doma dragões de várias procedências.

Histórias de ebomi Cidália Soledade

postado por Cleidiana Ramos @ 11:17 AM
11 de abril de 2014
Hoje tem lançamento de livro sobre ebomi Cidália. Foto: Rejane Carneiro/Ag.A TARDE/ 19.10.2007

Hoje tem lançamento de livro sobre ebomi Cidália. Foto: Rejane Carneiro/Ag.A TARDE/
19.10.2007

Hoje, às 18 horas, no Terreiro Casa Branca, será lançado o livro Ebomi Cidália: a enciclopédia do candomblé – 80 anos. A publicação é assinada por mim e pelo historiador, designer, músico e religoiso do candomblé Jaime Sodré.  Ela é resultado de uma entrevista coletiva com a sacerdotisa feita por um grupo de jornalistas formado, além de mim, por Marlon Marcos, Meire Oliveira e Juliana Dias.

Conheci ebomi Cidália em 2006, quando o professor Jaime Sodré disse que tinha um presente de final de ano para mim.  A surpresa era me apresentar a ela, sacerdotisa do Ilê Iyá Omi Axé Iyamassê, mais conhecido como Gantois, consagrada ao orixá Iroko, aos 7 anos por Mãe Menininha.

Na primeira conversa já entendi porque a apresentação foi descrita como presente. Ebomi Cidália foi uma das pessoas mais fantásticas que já conheci até hoje.

Maestria
Até a sua passagem para o orum (o mundo sobrenatural no candomblé)  em 20 de março de 2012, mantive o hábito de visitá-la não apenas para entrevistas. Conversar com ela era aprender sobre cultura e religiosidade afro-brasileira e também sobre a vida.

Ebomi Cidália, leitora assídua de A TARDE,  foi uma mestra da oralidade. Aliás, usando um conceito explicado pelo doutor em antropologia da Ufba Ordep Serra, ela fazia “oralitura”, pois suas narrativas conseguiam hipnotizar as mais variadas plateias, além de vir recheadas de poesia, música e outros recursos.

“Por isso no livro buscamos manter uma transcrição o mais próxima possível de como era conversar com ela em um amostra do que foi o encontro realizado, além dos jornalistas, com vários dos seus amigos no Terreiro Oxumaré”, aponta Jaime Sodré.

Matéria publicada na edição de hoje do Caderno 2+ do jornal A TARDE/ Reprodução

Matéria publicada na edição de hoje do Caderno 2+ do jornal A TARDE/ Reprodução

Selo
O livro foi viabilizado pela Secretaria Estadual de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi). De acordo com Sodré, ele é um pedido da criação de  um selo para a memória das comunidades afro-brasileiras, proposta que foi entendida e executada como possível pelo ex-secretário da pasta, Elias Sampaio.

“Tentamos de vários formas fazer a publicação via editais e não conseguimos. Portanto, recorri ao titular da Sepromi que, dentro das suas possiblidades, teve a sensibilidade para entender a importância de um projeto como esse”.

O projeto também contou com o apoio da designer Lúcia Oliveira, da arte-educadora Mônica Silva e da Empresa Gráfica da Bahia (Egba).

No lançamento é necessário o uso do traje branco numa reverência a Oxalá, que, como dizia ebomi Cidália, é cultuado de um  modo muito próprio no Brasil. Segundo ela, o jeito merece respeito, afinal resistiu a obstáculos iniciados com uma travessia do Atlântico.

Livro traz histórias de Ebomi Cidália de Iroko

postado por Cleidiana Ramos @ 7:13 PM
7 de abril de 2014
Livro traz biografia de Ebomi Cidália. Foto: Thiago Teixeira / Ag. A TARDE/ 17.06.2010

Livro traz biografia de Ebomi Cidália. Foto: Thiago Teixeira / Ag. A TARDE/ 17.06.2010

Na próxima, sexta-feira, dia 11, a partir das 18 horas, no terreiro Casa Branca (Avenida Vasco da Gama) acontecerá o lançamento do livro Ebomi Cidália-A Enciclopédia do Candomblé- 80 anos. O livro é uma grande homenagem à sacerdotisa do Ilê Axé Iyamassê (Terreiro do Gantois). Por sua imensa sabedoria ela ganhou o título de “Enciclopédia do Candomblé”, dado pelo professor Jaime Sodré que assina a publicação em conjunto comigo.

O texto é resultado de uma entrevista que foi feita com Ebomi Cidália no Terreiro Oxumarê. Além de mim, participaram da entrevista os jornalistas Marlon Marcos, Meire Oliveira e Juliana Dias. Foi um dia inesquecível e uma experiência fantástica  ouvir as histórias de uma persongaem que dedicou a vida ao candomblé, religião que abraçou aos 7 anos quando foi consagrada a Iroko por Mãe Menininha.

Dona da maestria no uso da oralidade, Ebomi Cidália era extremamente carismática e viveu cercada dos amigos que conquistava com seu carisma impessionante. A iniciativa tem o apoio da Secretaria Estadual de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi). Para participar do lançamento é necessário usar traje branco.

Terreiro celebra 35 anos da iniciação religosa do seu líder

postado por Cleidiana Ramos @ 9:42 AM
27 de março de 2014
Pai Valdemir festeja aniversário de iniciação religiosa. Foto: Fernando Vivas/Ag. A TARDE/22.06.2009

Pai Valdemir festeja aniversário de iniciação religiosa. Foto: Fernando Vivas/Ag. A TARDE/22.06.2009

O terreiro Unzó Mameto Bambuerecema, também conhecido como Terreiro de Santa Bárbara, localizado em Lauro de Freitas, está em festa. No próximo sábado (29), a partir das 19h30, o templo celebra os 35 anos de iniciação religiosa do seu líder: o tata de inquice, Valdemir Melo.

Filho religioso de Mãe Kaloyá de Portão, que foi uma das importantes sacerdotisas do candomblé em Lauro de Freitas, Pai Valdemir quer celebrar com uma grande festa sua alegria por mais um importante passo em sua trajetória religosa.

“Estou muito feliz e realizado. Entrei no candomblé muito jovem e até  hoje dou continuidade ao meu trabalho de culto aos inquices, aos cabolcos e encantados. Esta é a minha religião pela qual tenho o maior respeito e cuidado”, diz o sacerdote.

Pai Valdemir é consagrado à inquice Bamburecema, que rege o fogo, o raio, ventos e tempestades. Inquice é o termo de referência às divindades no candomblé angola. O terreiro liderado pelo sacerdote foi fundado há 28 anos.

Além das festas para o inquice, o terreiro é conhecido pela celebração a Tempo, em agosto, ao caboclo Sultão das Matas da Aldeia Jiquiriçá, que acontece em setembro, e também pelo Presente para Dandalunda, divindade das águas doces, realizado em maio.

O presente costuma sair de Lauro de Freitas, em direção ao Abaeté, acompanhado por uma comitiva formada por seis ônibus, o que o faz um dos mais conhecidos do município. A festa do sábado é pública. O terreiro fica na Rua Araqui, 22, em Lauro de Freitas