Histórias de ebomi Cidália Soledade

postado por Cleidiana Ramos @ 11:17 AM
11 de abril de 2014
Hoje tem lançamento de livro sobre ebomi Cidália. Foto: Rejane Carneiro/Ag.A TARDE/ 19.10.2007

Hoje tem lançamento de livro sobre ebomi Cidália. Foto: Rejane Carneiro/Ag.A TARDE/
19.10.2007

Hoje, às 18 horas, no Terreiro Casa Branca, será lançado o livro Ebomi Cidália: a enciclopédia do candomblé – 80 anos. A publicação é assinada por mim e pelo historiador, designer, músico e religoiso do candomblé Jaime Sodré.  Ela é resultado de uma entrevista coletiva com a sacerdotisa feita por um grupo de jornalistas formado, além de mim, por Marlon Marcos, Meire Oliveira e Juliana Dias.

Conheci ebomi Cidália em 2006, quando o professor Jaime Sodré disse que tinha um presente de final de ano para mim.  A surpresa era me apresentar a ela, sacerdotisa do Ilê Iyá Omi Axé Iyamassê, mais conhecido como Gantois, consagrada ao orixá Iroko, aos 7 anos por Mãe Menininha.

Na primeira conversa já entendi porque a apresentação foi descrita como presente. Ebomi Cidália foi uma das pessoas mais fantásticas que já conheci até hoje.

Maestria
Até a sua passagem para o orum (o mundo sobrenatural no candomblé)  em 20 de março de 2012, mantive o hábito de visitá-la não apenas para entrevistas. Conversar com ela era aprender sobre cultura e religiosidade afro-brasileira e também sobre a vida.

Ebomi Cidália, leitora assídua de A TARDE,  foi uma mestra da oralidade. Aliás, usando um conceito explicado pelo doutor em antropologia da Ufba Ordep Serra, ela fazia “oralitura”, pois suas narrativas conseguiam hipnotizar as mais variadas plateias, além de vir recheadas de poesia, música e outros recursos.

“Por isso no livro buscamos manter uma transcrição o mais próxima possível de como era conversar com ela em um amostra do que foi o encontro realizado, além dos jornalistas, com vários dos seus amigos no Terreiro Oxumaré”, aponta Jaime Sodré.

Matéria publicada na edição de hoje do Caderno 2+ do jornal A TARDE/ Reprodução

Matéria publicada na edição de hoje do Caderno 2+ do jornal A TARDE/ Reprodução

Selo
O livro foi viabilizado pela Secretaria Estadual de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi). De acordo com Sodré, ele é um pedido da criação de  um selo para a memória das comunidades afro-brasileiras, proposta que foi entendida e executada como possível pelo ex-secretário da pasta, Elias Sampaio.

“Tentamos de vários formas fazer a publicação via editais e não conseguimos. Portanto, recorri ao titular da Sepromi que, dentro das suas possiblidades, teve a sensibilidade para entender a importância de um projeto como esse”.

O projeto também contou com o apoio da designer Lúcia Oliveira, da arte-educadora Mônica Silva e da Empresa Gráfica da Bahia (Egba).

No lançamento é necessário o uso do traje branco numa reverência a Oxalá, que, como dizia ebomi Cidália, é cultuado de um  modo muito próprio no Brasil. Segundo ela, o jeito merece respeito, afinal resistiu a obstáculos iniciados com uma travessia do Atlântico.

Livro traz histórias de Ebomi Cidália de Iroko

postado por Cleidiana Ramos @ 7:13 PM
7 de abril de 2014
Livro traz biografia de Ebomi Cidália. Foto: Thiago Teixeira / Ag. A TARDE/ 17.06.2010

Livro traz biografia de Ebomi Cidália. Foto: Thiago Teixeira / Ag. A TARDE/ 17.06.2010

Na próxima, sexta-feira, dia 11, a partir das 18 horas, no terreiro Casa Branca (Avenida Vasco da Gama) acontecerá o lançamento do livro Ebomi Cidália-A Enciclopédia do Candomblé- 80 anos. O livro é uma grande homenagem à sacerdotisa do Ilê Axé Iyamassê (Terreiro do Gantois). Por sua imensa sabedoria ela ganhou o título de “Enciclopédia do Candomblé”, dado pelo professor Jaime Sodré que assina a publicação em conjunto comigo.

O texto é resultado de uma entrevista que foi feita com Ebomi Cidália no Terreiro Oxumarê. Além de mim, participaram da entrevista os jornalistas Marlon Marcos, Meire Oliveira e Juliana Dias. Foi um dia inesquecível e uma experiência fantástica  ouvir as histórias de uma persongaem que dedicou a vida ao candomblé, religião que abraçou aos 7 anos quando foi consagrada a Iroko por Mãe Menininha.

Dona da maestria no uso da oralidade, Ebomi Cidália era extremamente carismática e viveu cercada dos amigos que conquistava com seu carisma impessionante. A iniciativa tem o apoio da Secretaria Estadual de Promoção da Igualdade Racial (Sepromi). Para participar do lançamento é necessário usar traje branco.

Terreiro celebra 35 anos da iniciação religosa do seu líder

postado por Cleidiana Ramos @ 9:42 AM
27 de março de 2014
Pai Valdemir festeja aniversário de iniciação religiosa. Foto: Fernando Vivas/Ag. A TARDE/22.06.2009

Pai Valdemir festeja aniversário de iniciação religiosa. Foto: Fernando Vivas/Ag. A TARDE/22.06.2009

O terreiro Unzó Mameto Bambuerecema, também conhecido como Terreiro de Santa Bárbara, localizado em Lauro de Freitas, está em festa. No próximo sábado (29), a partir das 19h30, o templo celebra os 35 anos de iniciação religiosa do seu líder: o tata de inquice, Valdemir Melo.

Filho religioso de Mãe Kaloyá de Portão, que foi uma das importantes sacerdotisas do candomblé em Lauro de Freitas, Pai Valdemir quer celebrar com uma grande festa sua alegria por mais um importante passo em sua trajetória religosa.

“Estou muito feliz e realizado. Entrei no candomblé muito jovem e até  hoje dou continuidade ao meu trabalho de culto aos inquices, aos cabolcos e encantados. Esta é a minha religião pela qual tenho o maior respeito e cuidado”, diz o sacerdote.

Pai Valdemir é consagrado à inquice Bamburecema, que rege o fogo, o raio, ventos e tempestades. Inquice é o termo de referência às divindades no candomblé angola. O terreiro liderado pelo sacerdote foi fundado há 28 anos.

Além das festas para o inquice, o terreiro é conhecido pela celebração a Tempo, em agosto, ao caboclo Sultão das Matas da Aldeia Jiquiriçá, que acontece em setembro, e também pelo Presente para Dandalunda, divindade das águas doces, realizado em maio.

O presente costuma sair de Lauro de Freitas, em direção ao Abaeté, acompanhado por uma comitiva formada por seis ônibus, o que o faz um dos mais conhecidos do município. A festa do sábado é pública. O terreiro fica na Rua Araqui, 22, em Lauro de Freitas

Das teorias de Nina Rodrigues à bárbarie contra Claudia da Silva Ferreira

postado por Cleidiana Ramos @ 12:41 PM
19 de março de 2014

Filhos mostram farda da mãe trabalhadora que foi baleada e teve o corpo arrastado por uma viatura policial. Foto:  Carlos Moraes/Ag. O Dia/Estadão Conteúdo

Filhos mostram farda da mãe trabalhadora que foi baleada e teve o corpo arrastado por uma viatura policial. Foto: Carlos Moraes/Ag. O Dia/Estadão Conteúdo

Perto do final do século XIX, da Faculdade de Medicina da Bahia, que funcionava naquele imponente prédio situado ainda hoje no Terreiro de Jesus, saiam os estudos que praticamente fundamentaram a prática da Polícia Científica. O autor era o professor Nina Rodrigues, maranhense e discípulo de um italiano chamado Lombroso.

Lombroso defendia que características físicas como formato do nariz, do queixo e tamanho do cerébro interferiam em virtudes e defeitos morais. Nina via nos negros os traços físicos que davam uma predisposição para seguir o caminho do crime e até reivindicou que existissem dois códigos penais: um para negros e outros para brancos.

Hoje pode parecer absurdo, mas teoria científica elaborada dentro de uma instituição de prestígio não é algo que se apaga tão facilmente. Afirmação científica carrega consigo o status de algo verdadeiro, comprovado e, portanto, que merece ser defendido até a exaustão. Quantos membros da polícia tanto civil como militar receberam formação com base nesse pensamento e as transmitiram com uma ou outra modificação, mas sem perder sua essência?

O que tudo isso tem a ver com esses dois jovens e a criança da foto aí acima? Não é preciso fazer uma equação muito difícil para imaginar o estrago que as teorias racistas disseminadas pelas academias de policia Brasil afora fizeram e fazem no campo da segurança pública. De subordinados, inclusive negros, a chefes, mesmo que não assumam, predomina o pensamento de que o crime tem sempre o preto como cor da pele.

O Brasil não pode ficar calado diante da barbárie que matou Claudia da Silva Ferreira,   mãe desses meninos da imagem acima. Depois de baleada quando saía para comprar pão,  Claudia foi jogada no porta-malas de uma viatura policial e arrastada por cerca de 250 metros. Chegou ao hospital morta e o seu corpo dilacerado.

O monstro do racismo sempre esteve no ataque, mas parece que nesse começo de 2014 resolveu mostrar sua força em dobro. Só no futebol foram quatro episódios em apenas duas semanas. O Brasil precisa combater o preconceito de ter preconceito racial, como dizia Florestan Fernandes.

Esse país necessita, tanto como Estado como sociedade civil, reconhecer-se  como racista o mais rápido possível, pois é do silêncio sobre o racismo ou considerá-lo fantasia de radicais que ele tem se alimentado e ficado cada vez pior.

Estudo revela força poética da obra de Abdias Nascimento

postado por Cleidiana Ramos @ 1:01 PM
13 de março de 2014
Dentre a vasta obra de Abdias Nascimento, o livro Axés do Sangue e da Esperança-Orikis é o único de poesia. Foto: Xando Pereira/Ag A TARDE/13.11.2002

Dentre a vasta obra de Abdias Nascimento, o livro Axés do Sangue e da Esperança-Orikis é o único de poesia. Foto: Xando Pereira/Ag A TARDE/13.11.2002

Lindinalva Barbosa é autora de As Encruzilhadas, o ferro e o espelho, estudo sobre a obra poética de Abdias. Foto: Lúcio Távora/Ag. A TARDE

Lindinalva Barbosa é autora de As encruzilhadas, o ferro e o espelho, estudo sobre a obra poética de Abdias. Foto: Lúcio Távora/Ag. A TARDE

Para quem não conseguiu ler no formato de imagem, texto sobre estudo da obra poética do grande Abdias, que tem centenário de nascimento comemorado amanhã. 

Cleidiana Ramos

Intelectual multifacetado, Abdias Nascimento (1914-2011) nasceu em 14 de março,  Dia da Poesia. A data foi escolhida para festejar esse gênero literário por conta do  aniversário de Castro Alves. Curiosamente, também é o  dia em que a escritora Carolina de Jesus nasceu.  Os três produziram uma arte saída da vivência ou da aproximação (no caso de Castro Alves) com o  universo negro. Embora pouca gente saiba, Abdias publicou Axés do Sangue e da Esperança-Orikis, único livro de poesias da sua vasta obra.

A surpresa de muitos quando se deparam com o livro, publicado em 1983, é por conta da imagem do combatente aguerrido de Abdias que, por vezes, acaba ofuscando a sua imensa sensibilidade.
“O  senso comum tem uma noção de  poesia como algo que está apenas  no campo do lirismo. É como se as posturas mais aguerridas e mais duras estivessem  distanciadas desse campo”, explica Lindinalva Barbosa, autora da dissertação As Encruzilhadas, o Ferro e o Espelho .

A pesquisa que resultou no texto apresentado para a obtenção do seu título de mestre em Estudo de Linguagens pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb) mostra as formas artísticas e discursivas do livro com característica diferenciada dentre a obra literária de Abdias.
Lindinalva conta que tomou contato com o livro em 1986, período inicial da sua trajetória como militante do Movimento Negro Unificado (MNU).

De acordo com ela, embora o livro  traga poesia, ele reflete o espírito mais geral da produção de Abdias.

Luta e religião

“A obra de Abdias está inserida no campo da  literatura negra, conceito que uso. Esse tipo de literatura traz a mensagem capaz de comunicar a luta cotidiana que é travada contra o racismo”, acrescenta.

A religião afro-brasileira é a base dos poemas reunidos no livro. O título escolhido por Lindinalva faz referência aos três orixás que dominam a obra: Exu, Ogum e Oxum.

Exu é o senhor das encruzilhadas, ou seja, dos  vários caminhos que se encontram e exigem decisões; Ogum é o dono da tecnologia e arte de retirar do ferro os variados objetos, inclusive as armas; Oxum é a dona da fertilidade e da luta que combina paciência e inteligência.

“Em uma entrevista que fiz com Abdias, ele chegou a me dizer que Exu era o patrono da sua ação política, como aquele que não se conforma com  as situações que o racismo coloca e que entra e sai de encruzilhadas. Abdias era assim”, diz.

“Ogum prepara as armas e Abdias sempre disse que tudo o que fazia era  ferramenta para a luta contra o racismo;  Oxum é o orixá votivo de Abdias, que, de certa forma, contrabalançava seu espírito bélico, pois ela também é bélica, mas de uma forma mais maleável, engenhosa e sinuosa como as águas”, completa a pesquisadora.

O encontro de Abdias com as religiões afro-brasileiras aconteceu  na década de 1930, no terreiro de Joãozinho da Goméia, no Rio de Janeiro.

“Em uma de suas biografias, ele coloca que o  momento em que deu conta de si enquanto sujeito negro de uma forma mais plena e decisiva foi quando se aproximou do universo afro religioso”, afirma Lindinalva.

Uma amostra dessa arte pessoal e engajada é um dos trechos do poema intitulado Mucama-mor das estrelas: Não direi que isto é poesia/ talvez lembranças fantasia/ quem sabe murmurar de sonhos/ testemunho ou biografia.

O trabalho de Lindinalva Barbosa ainda não foi publicado em livro, mas pode ser conferido tanto no site do Programa de Pós Graduação em Estudo de Linguagens da Uneb, como no site do Ipeafro, que reúne produções sobre Abdias.

Lições da narrativa de Solomon

postado por Cleidiana Ramos @ 8:43 PM
10 de março de 2014
Capa do livro que traz a biografia de Solomon Northup. Foto: Divulgação

Capa do livro que traz a biografia de Solomon Northup. Foto: Divulgação

De cinema como técnica e linguagem artística não entendo absolutamente nada. Os poucos filmes que vi até hoje me seduziram no plano mais intuitivo mesmo. Com a literatura minha relação é mais próxima, embora minha escolha sempre recaia em livros que me façam viajar para outras épocas e mundos e me levem a rir, sentir raiva em determinados trechos, chorar ou ficar com uma saudade imensa do personagem quando chego ao fim da última página. Tudo isso é para dizer um pouco da minha sensação após ter lido 12 anos de escravidão, o relato biográfico de Solomon Northup que deu nome ao filme  ganhador em categorias dos prêmios de prestígio como Oscar e Globo de Ouro.

Ganhei o livro de presente da colega em A TARDE, Regina de Sá, depois de comentar com ela que fui ver e gostei do filme, primeiro passo para uma matéria que precisava fazer. O filme é impactante não apenas pelo que diz de forma explícita, mas pelas nuances. Está lá, nas entrelinhas, mas não menos eloquente, a violência da escravidão em sua vileza crua e detalhista atingindo em níveis diferentes e  impactantes também crianças e mulheres.

Ele também aborda a perda da humanidade à beira da patologia de quem estava em cada peça de comando do sistema. Afinal, o que fica de humano em alguém que engana e sequestra um homem ou mulher para condená-lo ao trabalho forçado? Onde está a humanidade de alguém, que considera o outro algo que pode ser espancado, queimado, amarrado e violentado das mais diversas formas? O cinema tem o recurso da imagem, que torna tudo ainda mais forte.

É exatamente por isso que o livro me impressionou mais ainda. A narrativa feita em primeira pessoa por Solomon Northup é objetiva, descritva nas paisagens e até econômica nas emoções, mas é daquelas capazes de atingir o fundo da alma. Não há como ficar indiferente a um relato feito por alguém que viveu aquele horror de forma real. O drama de Solomon não é ficção, mas um relato de alguém de carne e osso que viveu os extremos de uma experiência humana.

Em pouco mais de 200 páginas, o horror de um sistema que vitimou mulheres e homens livres de variadas partes da África, arrasou civilizações e dispersou povos inteiros para terras que nem sequer imaginavam conhecer, além de escravizar seus descendentes, ganha cores, formas e concretude. Torna-se, no mínimo incômodo, conhecer detalhes de como seres humanos foram tranquilamente submetidos à bárbarie e encarados como nada por tantos que levavam a consciência do ápice do que é ser gente.

Solomon Northup rasga o véu que a passagem do tempo pode estender sobre o entendimento do que foi esse horror e nos ajuda a entender porque questões como o racismo continuam tão presentes até em algo tão lúdico como deveria ser o futebol. Por que será que ainda, hoje, não é difícil encontrar gente que acha legal contar uma piada que compara negros a macacos ou que considera discussão sobre racismo coisa de gente que gosta de confusão?

Que bom que o filme e  livro vão ser usados como ferramenta didática nas escolas americanas.Seria ótimo que histórias como a de Luiz Gama, conhecida e recontada em várias obras literárias fossem mais abordadas no Brasil. Li recentemente que ela vai chegar à TV pela parceria de Ana Maria Gonçalves,autora do fabuloso livro Defeito de Cor, e Fernando Meireles.

Mas, além de Gama tem outras figuras como Manoel Grave, cuja história vem sendo remontada pela pesquisadora do curso de história da Ufba, Cida Gonzaga, que, gentilmente, me relatou em detalhes para a matéria que saiu na edição do último dia 2. (Inclusive, aproveito para pedir desculpas a Cida, pois na nossa conversa por telefone entendi o sobrenome como “Graze” e é “Grave”).

Quem sabe com mais produção artística capaz de não apenas narrar, mas problematizar a questão da escravidão em aspectos que andem além do já conhecido as pessoas comecem a entender que questão racial não é assunto que se resolve numa conversa trival na roda de amigos ou com o sentimento de quem entende como “a cultura negra é linda!”

Por isso, ao  ver o sucesso de obras como o livro e o filme sobre Solomon Northup prefiro me deixar levar bem mais pela emoção do que entrar em discussões sobre tecnicidade ou armadilhas de indústria cultural.

Digo isso porque essas duas obras conseguiram reavivar o sentimento, que já carrego, de responsabilidade com meus ancestrais negros. Foi a sua firmeza e coragem para descobrir estratégias de resistência às várias brutalidades– que lhes infligiram com o silêncio e o apoio de religiões, Estado, governos e homens e mulheres de boa fé– que me trouxeram até aqui para que possa, no mínimo, a cada dia, fazer uma prece agradecida e reconhecida em sua memória.

Em tempo: no Brasil, o livro foi publicado pela Editora Seoman e custa em média R$ 19. Tem 232 páginas.

Balaio de Ideias: Uma ressaca de alegria

postado por Cleidiana Ramos @ 2:54 PM
5 de março de 2014

ATCD10020501CSS

Maria Stella de Azevedo Santos

Quarta-feira de Cinzas”, dia de ressaca. O mar fica de ressaca quando a onda arrebenta nas pedras e recua sobre si mesma. O ser humano fica de ressaca quando após ingestão de grande quantidade de bebida alcoólica termina por sentir um grande mal estar. Eu espero que a ressaca que os foliões do carnaval estejam sentindo hoje seja aquela causada apenas por excesso de alegria. Pois é, até a alegria, quando é excessiva, deixa um gosto amargo na boca quando acaba. Um gosto de saudade que chega a causar dor: “a saudade é dor pungente”, é dor que dói. Afinal, a palavra ressaca tem origem na palavra norueguesa kveis, que significa “mal-estar depois da orgia”, acho que em nossa língua é melhor dizer: mal-estar depois da farra.

A bebida é um estimulante. É por isso que em um dos rituais do candomblé se canta: Oti wa ti xô fê rê, querendo dizer que a bebida nos anima, ela nos encoraja a encarar os dias difíceis de maneira renovada. Entretanto, “como tudo demais é sobra”, a bebida, a comida e até a alegria não deve ser vivida em excesso. Oti é a palavra yorubá que é usada para qualquer bebida que embriague a mente. As religiões, em sua maioria, não são contra as bebidas, e sim ao uso excessivo delas.

Nos rituais do candomblé, as bebidas que embriagam devem ser usadas de maneira comedida, com o intuito maior de despertar a alegria. Essa religião se utiliza de bebidas profanas e sagradas. O champagne e vinho do ritual de bori, a cachaça e vinho do ritual de axexe e a cachaça de Exu são consideradas profanas porque não foram preparadas em ambientes divinizados, nem foram preparadas por sacerdotes consagrados. A bebida sagrada do candomblé é o aluá, uma bebida fermentada que é oferecida aos deuses e homens com o objetivo de aumentar o axé de quem a ingere, seja de maneira concreta (humanos) ou simbólica (divindades).

O aluá é uma bebida fermentada tipicamente brasileira, uma vez que tem relação com os índios, os portugueses e os africanos. No Brasil do 1º Império era moda servir aluá na corte de D. Pedro I. Em Portugal, era uma bebida feita do bagaço da uva, por isto conhecida como bagaceira. Os índios da Amazônia faziam uma bebida com abacaxi que ficava durante três noites fermentando ao luar, razão pela qual o folclorista Luís da Câmara Cascudo sugere ser o nome aluá uma corruptela de “ao luar”.

Na verdade, aluá é uma palavra yorubá (lú, em yorubá, significa misturar) que é usada em um ritual onde se movimenta e mistura a água com a bebida aluá, visando agitar o que está parado, a fim de que a purificação seja favorecida e que o que está velho possa ser renovado através do movimento.

Esse ensinamento nos é transmitido através dos cânticos do Ritual das Folhas, mostrando para os sacerdotes do candomblé a importância de eles conhecerem a língua religiosa que fazem uso, assim como a simbologia dos elementos usados em todos os atos ritualísticos. O aluá que herdamos dos africanos, por exemplo, é feito de raspadura, milho branco e gengibre. O doce normalmente chamada de rapadura é um dos subprodutos da cana-de-açúcar (Ikesen), cujo nome correto é raspadura, pois esta espécie de doce é feita das raspas das crostas do açúcar da cana que ficam presas às paredes dos tachos.

A palavra yorubá que designa o gengibre é atale, planta que tem o poder de aquecer e iluminar, dando-nos alegria. O milho branco, relacionado aos orixá do branco, indica ainda paz, suavidade e proteção dos seres superiores. O aluá é uma bebida fermentada, por isto seus ingredientes aumentam o axé de doçura, através do açúcar feito de cana (raspadura); o axé de alegria, que é transmitido pelo gengibre; o axé de tranquilidade fornecido pelo milho branco.

Boa “Quarta-feira de Cinzas”, boa ressaca, palavra que na língua yorubá é ìbilù-oti. Interessante entender que ìbi é infortúnio, mal estar; lù é mistura e ìbilù significa multidão, o que indica que muita gente junta pode causar ressaca e mal estar. É por isso que digo que três pessoas para mim já é multidão e muita alma junta se perde. Se essa ideia é necessária para qualquer pessoa, para os iniciados ela é ainda mais.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, ela escreve para o jornal A TARDE, sempre às quartas-feiras.

Sobre afros, Afródromo e Carnaval

postado por Cleidiana Ramos @ 4:31 PM
4 de março de 2014
O afoxé Filhos de Gandhy comemora os 65 anos. Foto:   Raul Spinassé/ Ag. A TARDE

O afoxé Filhos de Gandhy comemora os 65 anos. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE

Ilê Aiyê fez festa para os seus 40 anos. Foto: Fernando Vivas/Ag. A TARDE

Ilê Aiyê fez festa para os seus 40 anos. Foto: Fernando Vivas/Ag. A TARDE

 

Hoje termina o Carnaval que teve como um dos seus temas (isso também ficou meio confuso) os 40 anos de blocos afro. Foi uma tentativa de homenagem por meio do Ilê Aiyê, a primeira dessas agremiações a se constituir. O surgimento do Ilê, embora no campo cultural, teve um quê de rebeldia, afinal falar de racismo não se podia durante os anos de governo e ditadura militar no Brasil por conta da Lei de Segurança Nacional.

Além do Ilê, várias outras agremiações com lastro afro-brasileiro comemoraram nese Carnaval o que a gente chama de datas redondas: o afoxé Fihos de Gandhy (65 anos); o Olodum (35 anos); Malê DeBalê (35 anos) e as Filhas de Gandhy (35 anos).

Seria, portanto, o Carnaval ideal para o início do Afródromo, uma tentativa de dar a visbilidade que essas agremiações merecem e que o Carnaval baiano precisa para sacudir a mesmice e fazer jus ao rótulo de diversidade que reivindica.

Agremiação afro tem batida diferenciada de acordo com a característica de cada uma. Aqui recorro a especialistas em música, mas o Ilê tem um toque mais próximo ao feito nos terreiros; o Olodum seguiu um caminho mais sincopado ou pop; o Gandhy segue o passo cadenciado e hipnótico do ijexá; o Okanbí faz experimentação o tempo inteiro e por aí vai.

Além disso, tem alas de dança e figurinos exuberantes como os do Bankoma. Imagina o espetáculo de ver tudo isso junto e misturado como diz o bom baianês. Carlinhos Brown, criador de maravilhas como a Timbalada, bem que tentou. Seu projeto de Afródromo no Comércio não era separação como muita gente entendeu, mas, entendi (e posso estar equivocada também) como uma forma de mostrar porque os afro reivindicam maior visibilidade.

O projeto mudou e foi para o Campo Grande. A mudança de endereço também me pareceu legal, ou seja, seguia para um dos palcos com holofotes da festa. Mas não foi bem isso que rolou por mais que a iniciativa de Brown mereça elogios.

O Afródromo começou com atraso em todos os dias e apenas tornou mais evidente o que as agremiações afro vivem em cada Carnaval: cordeiros somem em busca dos blocos que têm artistas conhecidos; trios apresentam problemas; entidades com equipamentos mais pontentes sufocam suas batidas; no horário não há mais visibilidade na TV e, claro, patrocínio segue a lógica capitalista e dá dinheiro para quem aparece nos espaços midiáticos..enfim…o Afródromo foi apenas uma denominação diferente, pois as entidades agrupadas a cada dia já tinham os seus desfiles agendados para o mesmo horário na programação oficial do Carnaval.

Excetuando-se os holofotes que sempre acompanham o Ilê Aiyê, embora sua história de resistência que vai muito além de um bloco de Carnaval fique praticamente invisível, as outras agremiações afro brilharam onde brilham sempre: no coração e na persistência dos seus seguidores que entendem porque eles teimam em fazer parte do Carnaval mesmo com todas as dificuldades.

Filme com diretor e atores negros é premiado

postado por Cleidiana Ramos @ 7:46 PM
3 de março de 2014
Lupita Nyong´o recebeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante por sua atuação no filme "12 anos de escravidão". Foto: Evan Agostini/Invision/AP

Lupita Nyong´o recebeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante por sua atuação no filme “12 anos de escravidão”. Foto: Evan Agostini/Invision/AP

Cinema também é feito de símbolos por isso o dia de ontem foi especial. Na cerimônia do Oscar,  “12 anos de escravidão” ganhou o prêmio de melhor filme. Além disso, a queniana Lupita Nyong´o levou o Oscar de melhor atriz coadjuvante.

Valeu driblar o sono e aguentar as partes arrastadas da cerimônia, como as piadas nem sempre engraçadas da apresentadora Ellen DeGeneres, para ver a vitória de um filme que traz um exemplo do que tem feito a historiografia moderna sobre a escravidão ao, por meio da história de indíviuos reais, apresentar informações mais amplas sobre o contexto dessa tragédia vivida por africanos e seus descendentes nas Américas por mais de 300 anos.

O filme conta a história de Solomon Northup que, mesmo livre, foi raptado e reescravizado. Inclusive, na edição de domingo do jornal A TARDE publicamos histórias reais de nascidos livres em Salvador que foram escravizados.

Mas além da vitória de um filme contundente e muito interessante o que me chamou a atenção foi a proeminência de artistas negros na cerimônia do Oscar. Will Smith apresentou a categoria “melhor filme”; Jamie Foxx, maravilhoso em Django Livre, apresentou os prêmios para trilha sonora. Ainda houve uma participação emocionante de Sidney Poitier ao lado de Angelina Jolie.

Além disso, ao receber o Oscar de melhor filme, o diretor inglês Steve MCQueen fez um discurso de como a escravidão é real também para os negros e negras de hoje. Quando a TV brasileira terá uma inserção dos afro-brasileiros desse tipo?

Balaio de Ideias: De grão em grão…

postado por Cleidiana Ramos @ 7:20 PM
28 de fevereiro de 2014

ATCD10022601CSS

Maria Stella de Azevedo Santos

O artigo anterior, intitulado “Sucateiro, sucateiro”, foi construído através de uma mistura entre realidade e fantasia. Para minha surpresa não foram poucos os e-mails que recebi tecendo comentários sobre o referido artigo. Uns falavam com saudosismo sobre os antigos vendedores que caminhavam pelas ruas exaltando suas mercadorias; outros diziam o quanto sorriram naquele dia ao lembrar o texto; já muitos outros comentavam sobre a relação entre sonhos e ilusões.

Fiquei espantada com a surpresa que alguns leitores tiveram ao saber que eu ainda tinha sonhos. Transformei esse fato em um bom motivo para reflexão. Quando o corpo não nos dá condição de fazer uma boa faxina em uma casa, aproveita-se a cabeça para faxinar a alma e o espírito.

Por que será que algumas pessoas puderam pensar que eu não tenho mais sonhos? – perguntei-me. Achavam eles que eu já tinha conquistado tudo o que eu queria? Pensavam que o mundo já estava tão chato para mim, tão repetitivo, que eu mais nada queria?

Como não posso concluir o pensamento dos outros, não encontrei resposta para minhas indagações, mas espantei-me com a quantidade de sonhos (concretizáveis) que ainda guardo em meu interior.

Uma das proibições que nós recebemos enquanto iniciados no candomblé é ficar sentado com a mão segurando o queixo. O aprendizado embutido neste tabu é de que não devemos ficar apenas no mundo das ideias, devemos partir para a ação. Sendo assim, compartilharei com todos um dos muitos sonhos que ainda pretendo concretizar.

Todos os religiosos que sejam convictos de sua função na Terra, principalmente aqueles que são consagrados para o sacerdócio, têm consciência de que precisam fazer duas coisas aparentemente simples, mas que são complicadíssimas em seus fundamentos: dar e pedir. É a famosa lei universal da troca que insisto em repetir em muito do que escrevo na esperança que fixe de vez em meu coração, e que penetre nos corações daqueles que ainda não atentaram em cumprir tão importante lei.

A religiosa baiana Irmã Dulce foi um exemplo de cumprimento da lei em questão. Sua capacidade de doação é facilmente identificada através de suas obras, mas acredito que poucos conhecem o quanto ela precisou fazer uso da humildade para pedir o que necessitava, a fim de que seus sonhos se concretizassem. Quando crianças estudamos no mesmo colégio, assim pudemos acompanhar mesmo de longe a vida sacerdotal uma da outra. Eu sabia, por exemplo, que quando faltava algo que Irmã Dulce necessitava para ajudar aos menos favorecidos, ela simplesmente entrava em uma loja e pedia ao vendedor aquilo que precisava, carregava com suas próprias mãos e se despedia alegremente dizendo: “Deus lhe pague”.

Inspirando-me no exemplo que nos foi dado por Irmã Dulce, concluo este artigo revelando um de meus maiores sonhos que pretendo vê-lo concretizado estando eu ainda viva. Tenho a certeza que “sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só. Mas sonho que se sonha junto é realidade”. Por isso, busco em mim a humildade que me foi proporcionada pela vida religiosa para pedir, pedir muito, a ajuda de todos que, preocupados com a violência que aumenta cada dia mais, vejam no estímulo à busca por uma maior espiritualidade uma das saídas (mesmo sendo em longo prazo) para a diminuição de tanta agressividade.

Revelo agora meu sonho acompanhado dos pedidos que faço para os amigos e os amigos de meus amigos, no sentido de que eles usem a web como uma grande rede de pescar benefícios coletivos: gostaria de construir uma biblioteca ambulante, composta por livros voltados para o despertar da religiosidade inerente ao ser humano. Preciso de um ônibus que venha a ser adaptado.

Peço a ajuda de pessoas físicas, empresas particulares, governamentais, enfim, peço ajuda aos homens e mulheres de boa vontade, que sabem que não basta apenas reclamar, nem apenas sonhar, tem que concretizar. Sendo assim, espero agora receber muitos e-mails com oferecimento de ajuda (não importando a forma nem o valor a ser oferecido), para que eu possa dizer, parafraseando Irmã Dulce: Que os orixás lhes paguem com bênçãos de todos os tipos.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, ela escreve para o jornal A TARDE, sempre às quartas-feiras

Candomblé se despede do alabê Erenilton

postado por Cleidiana Ramos @ 11:52 AM
17 de fevereiro de 2014
Ogã Erenilton em pose para especial premiado de A TARDE, "Os homens que chamam os deuses pra terra". Foto: Margarida Neide/ Ag. A TARDE/16.11.2012

Ogã Erenilton em pose para especial premiado de A TARDE, “Os homens que chamam os deuses pra terra”. Foto: Margarida Neide/ Ag. A TARDE/16.11.2012

A pedidos de pessoas que não conseguiram ler a matéria sobre a passagem para o orum do ogã Erenilton, publicada no último sábado em A TARDE, estou reproduzindo aqui o texto.

Cleidiana Ramos

Calou-se, no plano terrestre, a voz de um dos membros da grande escola dos sacerdotes músicos do candomblé: Erenilton Bispo dos Santos, 70 anos, foi sepultado ontem no Jardim da Saudade. Ele foi também um incansável defensor da sobrevivência dos afoxés por meio do grupo Filhos de Korin Efan, do qual era presidente.

Filho de Omolu, ogã Erenilton era alabê – título usado pelos sacerdotes músicos na tradição ketu – do Terreiro Oxumarê, localizado no bairro da Federação.

Dono de um vasto conhecimento sobre os cantos e ritmos do candomblé, era recebido com um toque especial dos atabaques nos terreiros das variadas nações.

“Ele tocava para o orixá. Era um prazer vê-lo cantar. Foi meu irmão, meu amigo, uma pessoa que dedicou sua vida ao candomblé e ao afoxé”, afirma Tânia Bispo. Ela é mayé do Terreiro Oxumarê, título para o mais alto posto no grupo das ekedes (sacerdotisas que não entram em transe) e irmã biológica do ogã Erenilton.

Ele gozava de um extremo respeito também entre os xicarangomas e huntós, como são chamados, respectivamente, os sacerdotes músicos nas nações angola e jeje.

Herança “Sabemos que ele está no outro plano junto com aqueles que já partiram para reforçar a nossa caminhada”, diz o tata Xuxuca Moxingoma, nome sagrado de Esmeraldo Emetério, xicarangoma do terreiro Tumba Junçara.

Segundo tata Xuxuca, ogã Erenilton será sempre lembrado pela insistência e luta para manter a coerência dos ritmos do candomblé e o comportamento elegante.

“Ele sempre esteve preocupado em marcar a diferença entre o toque religioso e o recreativo usado nos grupos musicais. Não aceitava a mistura”, diz.

Conhecido por, nos últimos anos, reger a orquestra do candomblé apenas com a voz – sentado em um banco e segurando uma toalha para enxugar o suor –, o sacerdote tinha um apreço especial pela correção tanto da melodia como da pronúncia.

“Meu mestre tinha uma marca especial que era a busca da perfeição. Cantar ou tocar errado era motivo para correção imediata. Ele pegava o gã e ensinava”, relata o historiador Jaime Sodré, xicarangoma do terreiro Tanuri Junçara e oloiê do Bogum.

Sodré também destaca o amor incondicional que ogã Erenilton tinha pelos afoxés. “Essa manifestação era a sua tentativa de mostrar como o povo de santo deve se portar no espaço carnavalesco”.

De acordo com Sodré, o ogã Erenilton formou uma grande dupla com o ogã Alcides, conhecido como Cidinho, também do Oxumarê. “Eles são representantes de um estilo típico dos mais antigos que tem um sonoridade cadenciada”, completa.

Alabê do terreiro Casa Branca, Edvaldo de Araújo Santos, conhecido como Papadinha, destaca as lições deixadas pelo ogã Erenilton.

“O orum deve estar cheio de alegria com a sua chegada. É o último dos grandes do passado, mas deixou discípulos. Tive a honra de vê-lo junto a outros dos antigos, como Cipriano e Jorge”, acrescenta.

Sacerdote ilustra especial de A TARDE

Ogã Erenilton Bispo dos Santos foi um dos personagens da capa do especial “Os homens que chamam os deuses pra terra”, publicado em 20 de novembro de 2012 por A TARDE, em comemoração ao Dia Nacional da Consciência Negra. O especial foi premiado na categoria mídia impressa, na edição do ano passado do Prêmio Abdias Nascimento. A premiação é uma das mais importantes do jornalismo brasileiro

Força Tinga!

postado por Cleidiana Ramos @ 7:06 PM
13 de fevereiro de 2014
Tinga é mais uma vítima do racismo no mundo do futebol. Episódio ocorreu no jogo de ontem, no Peru, entre Cruzeiro e Real Garcilazo Foto: Karel Navarro

Tinga é mais uma vítima do racismo no mundo do futebol. Episódio ocorreu no jogo de ontem, no Peru, entre Cruzeiro e Real Garcilazo Foto: Karel Navarro

Foto: reprodução

Foto: reprodução

Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

O país está indignado, a CBF mudou as cores da sua logomarca para preto e branco, mas o episódio Tinga vem lembrar mais uma vez que o mundo do futebol precisar parar de fazer de conta que o racismo não existe. Só para lembrar: não foi à toa que tratamos desse tema no nosso especial do 20 de novembro de 2013.

Balaio de Ideias: Sucateiro, sucateiro…

postado por Cleidiana Ramos @ 2:50 PM
13 de fevereiro de 2014
Ilustração: Bruno Aziz

Ilustração: Bruno Aziz

Maria Stella de Azevedo Santos

Seis horas da manhã. Ouço vozes que vêm da movimentada rua que fica em frente ao quarto em que hoje estou dormindo. A casa está em reforma. Ai que saudade do meu quarto no fundo da casa… Em vez de vozes, eu escutava o lindo canto dos passarinhos, que de tão acostumados com o ambiente já penetravam casa adentro, entrando e saindo como se estivessem em seus próprios ninhos. Saudade do antigo quarto, e excitação com as novas experiências de amanhecer neste outro quarto.

Muita gente pode pensar que seis horas é um bom horário para acordar, eu também acho. Acordar às cinco horas é ainda melhor. É muito bom renascer a cada dia junto com o sol, sendo despertada pelo cantar de um galo. Entretanto, toda essa imagem romântica se transforma em uma realidade concreta quando, em vez do cantar do galo, ouço um alto-falante com um som de má qualidade anunciando a venda de pamonhas; quando o sol, tão preguiçoso quanto eu, teima em continuar adormecido em cima de uma acolchoada e fresca nuvem enegrecida. Confesso que a palavra pamonha me estimula a acordar mais rápido.

A imaginação foi tanta que cheguei até a sentir o cheiro inebriante de um bom café. Voltar a dormir estava fora de cogitação, o pregão da rua já tinha invadido minha mente: “Olha a pamonha, olha a pamonha, pamonha quentinha pro seu café da manhã”; “Acaçá de milho bem feito, tem de milho e tem de leite”; “Banana-da-terra, batata-doce, melão, melancia, ovos”. A essa altura, meu simples café imaginário com pamonha já se transformava em um banquete.

A imaginação fica solta quando o corpo está cansado e preso a uma cama. Hoje posso me dar a esse delicioso luxo, pois ontem varei a noite fazendo nascer para a vida espiritual mais um filho. Momento em que foram entoados muitos cânticos que atraíssem boa sorte, prosperidade, alegria, união, saúde, enfim, tudo de bom que uma pessoa precisa ter para caminhar com dignidade na vida. Enquanto minha imaginação vagava entre o passado recente de um ritual e o futuro próximo de um café da manhã, não foi pequeno o susto que levei ao ouvir uma voz que parecia querer ser ouvida por todo o universo:

“Sucateiro, sucateiro, compro sucata pra reciclagem”. A voz do sucateiro me assustou, mas o que ele queria comprar para reciclar me surpreendeu. “Quem tem ilusão pra vender? Quem precisa se desfazer de suas ilusões? Quem quer me entregar suas ilusões? Preciso de ilusões para reciclar, preciso de ilusões para transformar em sonhos! Olha o sucateiro…” – insistia o sucateiro.

Meu corpo se esqueceu de que estava exausto e deu um pulo da cama (ainda bem que ele não se esqueceu de pegar a bengala). Parece que a curiosidade é um grande despertador na vida e da vida. Sabendo que minhas pernas não tinham a rapidez necessária para alcançar o comprador de ilusões, precisei pedir a alguém que o trouxesse até minha presença. Ainda zonza de sono, não sabia se tinha alguma ilusão para vender, até porque não estava entendendo como era o funcionamento daquele comércio. Sabia apenas que precisava conhecer aquele estranho comerciante.

O sucateiro de ilusões aproximou-se de mim muito contente. Pensei que ele estava acreditando que iria fazer um excelente negócio comigo. Seu contentamento, segundo ele próprio, era simplesmente pelo fato de conhecer mais uma pessoa. Para meu espanto, fiquei sabendo que seu grande prazer era quando encontrava alguém que não tinha nenhuma ilusão para lhe vender e que o prazer era muito maior quando encontrava pessoas que já sabiam reciclar suas próprias ilusões em verdadeiros sonhos possíveis de serem concretizados, independentemente do tempo que eles precisassem para se realizarem.

Eu não sabia se alguma ilusão ainda estava viva em mim. Sonhos, eu sabia que ainda tinha muitos. Após uma longa e frutífera conversa, o sucateiro se despediu. Eu fiquei ponderando sobre a inusitada situação que acabava de vivenciar e relembrei do ritual da noite passada, cujos cânticos têm a função maior de reciclar as cabeças dos iniciados e do iniciante, que estava entregando sua cabeça ao comando de seu orixá.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, ela escreve em A TARDE, sempre às quartas-feiras

Iemanjá Black festeja cultura negra

postado por Cleidiana Ramos @ 8:08 PM
31 de janeiro de 2014
Madá e Jorge organizam a festa Iemanjá Blac. Foto: Divulgação

Madá e Jorge organizam a festa Iemanjá Blac. Foto: Divulgação

No próximo domingo, dia de Iemanjá, o que não vai faltar na cidade são eventos culturais para festejar a Rainha do Mar. Mas a terceira edição da festa Iemanjá Black é mais do que especial. Organizada pelo ator Jorge Washington e pela estilista Madá, da grife Negrif, a comemoração começa a partir das 11 hroas, no Sunshine Bar (que fica próximo à Colônia de Pescadores Z1 do Rio Vermelho).

A festa vai ser embalada pelo som de Denise Correia com a banda Na Veia da Nêga e o grupo Samborim. O ator Érico Brás e os cantores Tonho Matéria e Savannah Lima já confirmaram presença. O kit de acesso – camisa com uma estampa exclusiva da Negrif–e ticket da feijoada custa R$ 50 e pode ser adquirido na Boutique da Negrif (Rua Carlos Gomes, Edifício Bariloche, nº 616, bairro 2 de julho).

O espaço da festa é climatizado, tem capacidade para 500 pessoas e fica pertinho da Colônia de Pesca de onde sai o presente principal para Iemanjá.

Balaio de Ideias: O retempero de Daniela

postado por Cleidiana Ramos @ 6:09 PM
3 de janeiro de 2014
Daniela Mercury fez dueto com a Band´Aiyê do bloco Ilê Aiyê em show público no 1º dia do ano. Foto: Margarida Neide/Ag. A TARDE

Daniela Mercury fez dueto com a Band´Aiyê do bloco Ilê Aiyê em show público no 1º dia do ano. Foto: Margarida Neide/Ag. A TARDE

Marlon Marcos

Tem horas que Salvador assombra em surpresas bem agradáveis: o que fez , meu Deus, Daniela Mercury nessa versão 2014 no Projeto Pôr do Som? Por mais que empreendam negar a força artística desta mulher, muito por seu temperamento desencontrado, o que ela fez e faz na gente é inevitavelmente grande e importante em termos de criação individual e coletiva para atestar nossa tal “baianidade”. O que não se atesta enfim, se vive.

Muito de nos orgulhar da nossa vocação para a festa, mas banhado na criatividade selada em nossa negritude e em variantes do universo musical popular: isso é a Bahia! Daniela se retemperou para fazer vibrar uma cidade que há muito eu não via imersa na poesia típica do Ilê e do Olodum… Ao lado deles, mais Banda Didá, foi magistral.

Que noite, que ingresso quente e positivo nessas coisas do tempo fictício que praticamos. Do que vi nessas celebrações de fim de ano: foi o que mais me emocionou; e isso conta muito pra mim, quando no dia anterior, meus amores maiores ( Gal, Caetano, Gil)  também fizeram uma espécie de festa. E Daniela nem precisou sair do Carnaval para mostrar porque conquistou o Brasil e, de certa forma, o mundo.

Estava afiada, linda e consagrada como a branca que tem trânsito e voz no Ilê Aiyê. Deixou um pouco de lado o tom conferencista e realçou a cantora.  Ivete pode ganhar mais, cantar com Gil e Caetano, ser um fenômeno em carisma, vender como ninguém, ter uma voz mais bonita, mas artista é Daniela Mercury. Nem vou citar a do The Voice para não baixar o nível e ofender os anteriores.

Noite linda que queria dedicar à grandeza de Cláudio Marques pelo texto corajoso e procedente que escreveu no blog Teatro Nu,  uma narrativa imaginativa, proto-notícia, buscando momentos mais amplos e irrestritos para a cultura da Bahia; dedicar a Marques e pedir licença para expressar minha tristeza com a postura de Gilberto Gil, nosso mestre, recorrendo à polícia para afirmar censura à postura histórica, brincadeira séria, do cineasta. Confesso que fiquei um pouco envergonhado pelo amor-admiração que tenho por Gil. Tenho me pelado de medo com as retrancas que marcam censura a biografias, a críticas, a mobilizações intelectuais ou jornalísticas que nos façam querer um lugar melhor como cidade, como país, como planeta.

Mas Daniela, o assunto deste texto, muito me emocionou. Ilê e Olodum: a força viva do que somos capazes de fazer, magistrais aprendizes e professores de Gil Caê Gal, sendo conduzidos pela maestra do Canto da Cidade que, mesmo ao meio de tantos exageros, do canto por vezes preciosista, diz muito ao que veio fazer em palcos e trios à luz da sua arte. Ela reitera-se e faz no centro da cultura negra baiana. E, mesmo sem ser negra, merece aplausos.

 Isso é o Brasil.

 Daniela, obrigado.

Marlon Marcos é poeta, antropólogo e jornalista

Balaio de Ideias: O futuro a Deus pertence

postado por Cleidiana Ramos @ 1:42 PM
2 de janeiro de 2014
Mãe Stella faz reflexão sobre o uso dos oráculos. Foto: Gildo Lima/ Ag. A TARDE/ 29.12.2010

Mãe Stella faz reflexão sobre o uso dos oráculos. Foto: Gildo Lima/ Ag. A TARDE/ 29.12.2010

Maria Stella de Azevedo Santos

Todo início de ano, que é entendido pela população como início de um novo ciclo, instiga as pessoas a consultarem oráculos. São muitas as artes divinatórias, todas elas baseadas em um completo, minucioso e complexo sistema filosófico. Aliás, só pode ser considerado verdadeiramente um oráculo o sistema divinatório que possua um código de interpretação simbólica, e até mesmo matemática. Não basta apenas ser uma pessoa intuitiva para que esta se coloque em posição de ler oráculos, é preciso que esteja inteiramente vinculada a uma tradição religiosa ou filosófica e conheça realmente seus fundamentos.

Apesar de diferentes tipos de materiais poderem ser usados para que se estabeleça uma conexão com o divino, é imprescindível um grande conhecimento da padronização do código do sistema divinatório em que o objeto está inserido. Assim são utilizados baralhos, pedras, varetas, e no caso da cultura africana vários tipos de sementes, além do objeto mais conhecido no Brasil que são os búzios.

Faço sempre a opção de falar em sistema divinatório e não adivinhatório, pois a utilização de um oráculo é uma oração realizada com o intuito de receber respostas reveladas pelas divindades, sejam elas as divindades maiores ou a divindade pessoal de cada um que busca esclarecimentos para suas dúvidas e orientações para seus atos futuros.

O jogo de búzios não adivinha o futuro, mostra o caminho presente, levando o consulente a refletir sobre as melhores atitudes a serem tomadas para que a caminhada a seguir seja mais fácil. Afinal, o milionésimo de segundo após o presente já é futuro. O que me inspirou a escrever sobre esse tema foi um simpático e-mail que recebi e que, depois de ter obtido a devida autorização, transcrevo-o na íntegra para meus leitores:

“Prezada Mâe Stella, permita-me inicialmente saudá-la com respeito e reverência. Sou seu leitor assíduo na segunda página do jornal A TARDE. Admiro muito os seus posicionamentos e as suas reflexões que muito têm me ensinado. Sou cristão e católico, assim fui batizado, porém interesso-me por todas as religiões, leio sobre as mesmas e as respeito. ‘Muitos são os caminhos que levem à casa de Deus’. A senhora realmente acredita que se possa saber o futuro através dos búzios? Continue escrevendo e me ensinando. Vida longa e próspera. Respeitosamente. Benigno Alves dos Santos Bruno Bacelar”.

O certo é o incerto. A certeza da vida está na dúvida. Quando procuramos entender, compreender a realidade, ela se transforma em torno de si mesma para gerar novo questionamento. E o futuro a Deus pertence. O futuro é o mistério que pertence ao maior de todos os mistérios – Deus. Espero ter respondido à pergunta do amigo Benigno, que como o próprio nome diz é uma pessoa do bem, assim como é do bem e para o bem devem ser utilizados os oráculos.

O hábito de se vestir de branco no primeiro dia do ano demonstra, de maneira talvez inconsciente, o desejo que têm as pessoas de praticarem o bem, afinal a cor branca é considerada a mais generosa de todas as cores do espectro, uma vez que, de acordo com o conceito de cor-energia, branca é a cor da luz, pois recebe todas as cores, mas não fica com nenhuma para si, reflete todas, iluminando assim o ambiente e a pessoa que a está usando. Branca é a cor de oxalá, considerado o mais puro dos orixás.

Este artigo será lido exatamente no dia em que se inicia um novo ano – 2014 –, momento em que muitos perguntam qual o odu (caminho) e o orixá que estará governando. Não me canso de repetir que quando a divinação é feita para uma coletividade, como é o caso do “jogo do ano” realizado pelos terreiros de candomblé, as respostas reveladas e interpretadas só são direcionadas às pessoas vinculadas àquela “casa de culto”.

Por exemplo: as orientações dadas pelo caminho e pelo orixá que se apresentar no jogo de búzios feito por mim, mãe Stella de Oxossi, são dirigidas às pessoas que, de uma maneira ou de outra, por religiosidade ou afeto, têm um vínculo espiritual com o Ilê Axé Opô Afonjá. Quem muito se mistura não consegue se encontrar.

Maria Stella de Azevedo Santos escreve, quinzenalmente, às quartas-feiras no jornal A TARDE

Feliz 2014 com um abraço afro-brasileiro!

postado por Cleidiana Ramos @ 4:25 PM
31 de dezembro de 2013

 

Foto: Arestides Baptista / Ag A TARDE/ 28.08.2010

Foto: Arestides Baptista / Ag A TARDE/ 28.08.2010

Um 2014 recheado das boas energias trazidas pelas forças do bem! Axé!

Mais um livro, mais um presente

postado por Cleidiana Ramos @ 1:11 PM
18 de dezembro de 2013
Mãe Stella lança novo livro hoje, quarta, na ALB. Foto: Margarida Neide. 07/12/2012

Mãe Stella lança novo livro hoje, quarta, na ALB. Foto: Margarida Neide. 07/12/2012

Maria Stella de Azevedo Santos

Foi assim que meus filhos escreveram no início do convite para o lançamento do próximo livro que estarei entregando ao público. Se permitir que a colocação da referida chamada fosse colocada, foi porque, na verdade, considero que editar mais um livro é, sim, um grande presente. Um grande presente para mim! Afinal, livros nos conectam uns aos outros, fazendo com que eu possa estar presente na vida de pessoas que nunca sonhei em trocar ideias.

Além do mais, continuar devolvendo ao mundo o que recebi dele faz com eu me mantenha presente no momento presente. Meu tempo será sempre o agora! Se escolho, geralmente, o mês de dezembro para lançar os livros que escrevo é exatamente porque neste período o desejo de conexão fica intensificado.

Sendo assim, convido a todos para estarem comigo hoje, quarta-feira, 18 de dezembro, na Academia de Letras da Bahia, para juntos celebrarmos o destino, tema sobre o qual trata a Coleção Odu Adajó: Coleção de Destinos, que pretende ser composta por 16 volumes.

A Coleção Odu Adajó tem a pretensão de ampliar e aprofundar os conhecimentos sobre o legado da cultura yorubá, que hoje é entendida por quem nos visita como cultura baiana. Por que, então, o povo da Bahia/Brasil estuda tanto a mitologia dos deuses gregos e romanos e não estuda a mitologia dos orixás? Por que se interessam apenas por oráculos que estão distantes de nós, como Cabala, Tarô, e não procuram conhecer aquele que atrai tanta gente de fora do estado (e do país) em busca de ajuda e apoio espiritual, que é o Jogo de Búzios?…

Foram essas as perguntas que durante muito tempo me fiz. Recusei-me a acreditar no “chavão” do preconceito e fui a “campo” pesquisar. Perguntei a uma “filha de santo” minha por que ela estava estudando Cabala e não os odus, que são os caminhos do destino indicados pelo oráculo da cultura à qual ela estava vinculada – o candomblé. A resposta foi simples: “Sobre Cabala encontro livros que ajudam em minha busca pelo autoconhecimento e pelo autoaperfeiçoamento, sobre a tradição africana nada ou pouca coisa  encontro”.

Ouvi a resposta e pensei: Se eu sou uma religiosa, preciso colaborar no sentido de facilitar a busca de conexão das pessoas com sua parcela divina, sua espiritualidade. E uma das importantes etapas desse processo é conhecer, aceitar e cumprir o destino. Resolvi, então, tentar cobrir a falta que me foi alertada pela minha filha, escrevendo e publicando livros que podem ser de interesse de muitos.

A Coleção Odu Adajó se destina, portanto, a qualquer pessoa que busque ter uma visão mais ampliada da existência, aos estudiosos de culturas diversas e, principalmente, aos iniciados da religião que é conhecida no Brasil pelo nome de candomblé.

Sendo eu uma iniciada, tenho a tendência de resguardar os mistérios, evitando retirar os véus que os encobrem. Por isso, não foi uma decisão nada fácil editar a coleção que agora chega ao conhecimento do público, assim como os livros anteriores. A ousadia vem sempre da necessidade e a coragem, sempre da permissão dos orixás. Diante da modernidade, da internet, essa ficou sendo a minha única alternativa de evitar deturpações da essência de uma religião milenar.

Quatro volumes da coleção em questão já estão escritos, mas apenas um já foi editado, com apoio da Assembleia Legislativa do Estado da Bahia. Optou-se por usar todas as palavras em yorubá com a grafia correta como forma de preservação da língua, mas isto não é motivo de preocupação, uma vez que a tradução das rezas, dos provérbios, etc. pode ser encontrada logo em seguida.

Conhecer a cultura africana não transforma ninguém em cultuador de orixás. Cada um tem sua crença, a qual deve sempre ser respeitada por todos. Entretanto, conhecer a cultura em que se vive é muito mais do que uma obrigação, pode ser um delicioso prazer. É apenas isso que pretendo oferecer: prazer com uma boa dose de ampliação de conhecimentos, que possa vir a colaborar com a diminuição do preconceito e uma melhor qualidade de presença na sociedade em que se vive.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente ela escreve para o jornal A TARDE, sempre às quartas-feiras

Mãe Stella lança novo livro

postado por Cleidiana Ramos @ 3:46 PM
13 de dezembro de 2013
Mãe Stella lança novo livro. Foto: Margarida Neide/Ag. A TARDE/ 29.11.2012

Mãe Stella lança novo livro. Foto: Margarida Neide/Ag. A TARDE/ 29.11.2012

Na próxima quarta-feira, às 18 horas, na Academia de Letras da Bahia (ALB),  Mãe Stella de Oxóssi dá mais um presente para a comunidade que dirige, o Ilê Axé Opô Afonjá, mas também a todos que professam o candomblé ou se interessam pelos temas que envlvem essa religião. Trata-se do primeiro volume da coleção Odu Àdájo, com tradução livre para o português como Coleção de Destinos. Com maestria, Mãe Stella apresenta toda a beleza que cerca um dos mais importantes pilares para essa tradição religiosa: o oráculo que, no Brasil, é conhecido como Jogo de Búzios e que se baseia nos odus, ou seja, o conhecimento sobre o destino.

Mas este conhecimento é muito mais complexo do que a ideia simplista de conhecer o futuro a partir da consulta a uma sacerdotisa ou sacerdote. Também não significa que conhecer o destino é poder evitar qualquer tipo de problema como os céticos gostam de dizer para diminuir a sabedoria sobre oráculos.

No universo afro religioso, ter informações sobre o “destino” é, antes de tudo, conquistar o auto conhecimento que abre os caminhos para uma vida de paz acima de tudo. São explicações como essa que a coleção, cuidadosamente preparada por Mãe Stella, vem trazer.

O primeiro livro, por exemplo, começa pelo 16º odu, que é Ofun Méji, no sistema oracular da divindade Ifá. No Merindinlogun, um dos nomes que se dá ao Jogo de Búzios, ele ocupa a décima posição.  “Ofún Méjì é, portanto, um odu de extrema complexidade, que como símbolo da síntese universal, carrega em Si a responsabilidade pela “Criação” e por todo tipo de criação, que acontece por oposição ou complementação dos opostos, enfim, através de permanente movimento”, diz a introdução do livro.

No prefácio, Mãe Stella explica que a sua iniciativa em abordar um tema tão complexo e ao mesmo tempo tão caro ao candomblé foi a forma que encontrou para suprir a necessidade de mostrar mais uma face da riqueza que a filsofia iorubá, a qual o Afonjá está vinculado, possui. Ela, inclusive, faz questão de ressaltar que o conhecimento que transmite na coleção é o que recebeu nesta comunidade específica, o que condiz com o respeito que sempre demonstrou e demonstra em seus livros diante das outras tradições religiosas de matrizes africanas.

Fiel a esse princípio da oralidade, Mãe Stella deu um toque diferente a essa coleção. É um livro que dialoga com a oralidade e a escrita. Dessa forma, Mãe Stella, assina o livro na parte de tradição oral. A tradição escrita ficou sob a responsabilidade de Graziela Domini,filha de Iemanjá da casa.

Essa é, portanto, mais uma inovação de uma sacerdotisa que fica muito à vontade para transitar entre as duas linguagens, mas que, neste caso, diante do caráter especial que tem o tema, preferiu repartir, desde a capa, o domínio dos dois códigos de linguagem. Mais uma atitude “ousada”, como ela define sua iniciativa em preparar esta coleção, mas que é mais uma amostra da sua maestria com a literatura a ponto de ter se tornado a primeira líder religiosa do candomblé a ocupar uma cadeira na Academia de Letras da Bahia (ALB).

Em tempos de Internet que ela reconhece a importância, mas que também entende como um meio que, devido a rapidez, não dá o tratamento adequado a temas tão complexos, Mãe Stella conta que optou por fazer o uso da parceria entre oralidade e escrita para transmitir sua reflexão sobre o oráculo de origem africana que continua preservado na Bahia.

É um passeio pelo meio dos mistérios mas sem a necessidade de revelar aquilo que se chama “fundamento”,  reservado apenas para quem conquistou o direito de ter acesso a ele, um dos pilares básicos do candomblé.

“Como iniciada que sou, tenho a tendência de resguardar os mistérios, evitando retirar os véus que os encobrem. Por isso, não foi uma decisão nada fácil editar a coleção que agora entrego ao público. A ousadia veio da necessidade, mas a coragem veio da permissão dos orixá. Diante da modernidade, essa ficou sendo minha única alternativa de evitar deturpações da essência de uma religião milenar. Quero deixar claro que o que aqui transmito tem como base o candomblé como é professado no Il]e Axé Opo Afonjá, na Bahia”, escreve Mãe Stella no prefácio.

A nós leitores cabe recohecer a profundidade deste presente e a generosidade de uma sacerdotisa que tem feito do seu conhecimento uma forma de diálogo tanto com aqueles que são da religião dos orixás,como também com os que se sentem próximos pelos mais variados caminhos.

Serviço:
O que: Lançamento de Ofun (Coleção Odu Àdájo- Coleção de Destinos)
Quando: Dia 18/12, quarta-feira, a partir das 18 horas
Onde: Academia de Letras da Bahia (ALB), Avenida Joana Angélica, 198, Nazaré

Lições da Festa de Santa Bárbara

postado por Cleidiana Ramos @ 2:59 PM
4 de dezembro de 2013
Após a missa, devotos acompanharam a profissão. Foto: Mila Cordeiro/Ag. A TARDE

Após a missa, devotos acompanharam a profissão. Foto: Mila Cordeiro/Ag. A TARDE

O encontro entre experiências religiosas diferentes, mas com semelhanças, permitiu a celebração que hoje coloriu a Ladeira do Pelourinho de vermelho e branco. Reverências a Oyá/Iansã, Bamburecema, Matamba e Kayongo do candomblé encontram-se na festa dedicada à Santa Bárbara dos católicos.

É um acontecimento muito complexo e que conta uma bela história de resistência. A narrativa possível sobre essa festa vai além da explicação simplista como o sincretismo foi muitas vezes encarado. Trata-se, na verdade, de uma ressignificação a partir do outro. Não é que Santa Bárbara vire Iansã ou Kayongo porque o povo sempre soube separar as coisas muito bem.

Na verdade, a virgem Bárbara se encontrou com a impetuosa divindade de matriz africana  que, independentemente da língua e da origem, rege raios, trovões e assume uma face feminina forte e determinada . Bárbara ao bater o pé contra a vontade paterna e até morrer para defender o seu ponto de vista também não é guerreira do seu jeito? A resistência de uma história de fé reforçou a persistência da outra num diálogo contínuo.

Enfim, o belo é ver um encontro que vira respeito também no rito. A festa cuidadosamente preparada pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos às Portas do Carmo, que tem a guarda da imagem secular de Santa Bárbara, foi belíssima.

Um dos pontos altos foi a missa presidida pelo padre Lázaro Muniz. É  muito bonito ver um padre católico conseguir entender esse encontro da forma como hoje ele tem sido debatido em vários espaços, inclusive na academia.

É a visão que compreende este encontro como o resultado da ressignificação que deixou marcas culturais e, para entendê-las, não há necessidade de colocar duas ou mais experiências religiosas em confronto ou anular uma via em detrimento de outra. Trata-se de uma bela lição num mundo de tantas disputas e intolerância, inclusive no campo religioso.

A condução da festa, como resultado do esforço, tanto dessa irmandade de tantas lutas e resistência, como da arquidiocese, tem permitido que católicos, povo de santo, turistas e curiosos sintam-se em casa, rezem embalados pelo samba e pelo ijexá num clima de profunda religiosidade.

Observando este espaço deu para entender porque essa festa tinha que ser realmente reconhecida como um patrimônio do Estado por meio da iniciativa do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC).

Vivas, portanto, à resistência da sabedoria do povo que, ao seu modo, cuida de preservar o que considera importante pelos mais variados caminhos.

Caderno da Consciência Negra disponibilizado

postado por Cleidiana Ramos @ 3:29 PM
20 de novembro de 2013

 

Especial debate persistência do racismo no mundo do futebol. Foto: Raul Spinassé/Ag. A TARDE

Especial debate persistência do racismo no mundo do futebol. Foto: Raul Spinassé/Ag. A TARDE

O nosso especial deste ano discutiu um tema bem pertinente, principalmente, quando o Brasil prepara-se para sediar a Copa do Mundo de Futebol: o racismo que ainda teima em reinar nos campos e também fora deles. Cliquem aqui para conferir

 

 

 

 

Especial aborda relações raciais no futebol

postado por Cleidiana Ramos @ 12:34 PM
18 de novembro de 2013
Caderno especial discute o racismo no futebol. Foto: Raul Spinassé/Ag. A TARDE

Caderno especial discute o racismo no futebol. Foto: Raul Spinassé/Ag. A TARDE

Da Redação

Em 1947, o jornalista Mário Filho lançou O negro no futebol brasileiro. O livro abordou, de forma pioneira, as  relações raciais no esporte mais popular do país . O caderno  de A TARDE,  comemorativo  ao Dia Nacional da Conceição Negra,  que vai circular na próxima quarta-feira, segue os passos de Mário Filho.
A  inserção dos primeiros negros nos times de futebol e a dificuldade para assumir postos de comando são alguns dos temas abordados.
O caderno será a 11ª edição dos especiais. O do ano passado intitulado Os homens que chamam os deuses pra terra, recebeu, na última segunda-feira, o Prêmio Abdias Nascimento, na categoria mídia impressa.
Criatividade
Para Jaime Sodré,  historiador, professor e religioso do candomblé, os especiais da  Consciência Negra de A TARDE estão consolidados por  trazerem, em linguagem acessível, mas  de forma aprofundada, aspectos importantes da história e cultura do povo negro.
“É muito interessante observar como esses especiais resgatam elementos da história, mas de uma forma completamente contemporânea”, afirma.
Outro acerto dos especiais, na avaliação de Sodré, é o cuidado com a qualidade gráfica e a publicação das dicas pedagógicas que são formuladas pela professora Josiane Clímaco desde 2008.
A ideia das dicas pedagógicas é fornecer conteúdo de auxílio aos professores para aplicação da Lei 10.639/2003 que estabelece o ensino de História da África e Cultura Afro-Brasileira.
Consultor dos dois primeiros especiais (Qual a sua cor? A vida em um mundo racista, 2003,  e África, Povo do Sol, 2004,  o antropólogo Roberto Albergaria aponta três conceitos que, em sua análise, sustentam os cadernos: coragem, criatividade e ousadia.
“Desde o primeiro número é visível a ousadia de tratar  de forma sistemática as relações raciais e racismo, temas que sempre foram abordados  com um certo melindre na Bahia”, aponta Albergaria.
De acordo com ele, isso é feito com criatividade. “É outro ponto interessante conseguir colocar uma discussão cercada de complexidade no formato jornalístico”.
A  ousadia de inaugurar um modelo que sempre segue temas para o antropólogo é outro acerto. “Dessa forma  temos uma possibilidade de explorar várias facetas das questões vinculadas às relações raciais”, diz.
O antropólogo também aponta que A TARDE criou um modelo próprio e  único em todo o país. “Não há outro tipo de iniciativa que dedique o espaço de um caderno inteiro para falar deste temas”, completa o antropólogo.
Novidade
O primeiro especial foi publicado em 2003. A partir de uma pauta sobre a persistência do racismo em Salvador, o caderno intitulado Qual a sua cor ? A vida em um mundo racista mostrou a complexidade das relações raciais na Bahia.
O especial foi finalista do Prêmio Imprensa Embratel. Em 2004 foi a vez de.  África Povo do Sol . A formação de uma classe média negra foi abordada em Gente de Raça (2005).
A herança das religiões africanas e a sua luta contra o preconceito inspirou Sou de Santo e Raça (2006). A organização política foi abordada em Lutas de Ontem e de Sempre (2007).
A variedade de linguagens artísticas  sustentou  Arte da Resistência (2008). Negócios inspirados na cultura afro-brasileira compuseram Produtores de Owó(2009).
Este especial venceu o Prêmio Banco do Nordeste, nas categorias Mídia Impressa Regional I e Nacional. A capoeira foi o tema de 2010 com Ê, Camará.
Em 2011 foi a vez de abordar como o dendê inspira aspectos da vida sócio-cultural baiana com o caderno intitulado Epo Pupa,  finalista do Prêmio Abdias Nascimento em 2012. A saga dos sacerdotes músicos das religiões afro-brasileiras, premiado na última segunda-feira, foi o tema do ano passado.

Terreiros do Engenho Velho marcham contra a violência e a intolerância religiosa e pedem paz

postado por Cleidiana Ramos @ 6:26 PM
14 de novembro de 2013

Caminhada reúne comunidades religiosas do Engenho Velho da Federação. Foto:Fernando Vivas 15.11.2011

Caminhada reúne comunidades religiosas do Engenho Velho da Federação. Foto:Fernando Vivas 15.11.2011

Pelo nono ano consecutivo cerca de 30 comunidades religiosas de matrizes africanas, sediadas no Engenho Velho da Federação,  vão realizar a marcha pelo fim da violência e da intolerância religiosa e pedirem paz. A caminhada será na próxima sexta-feira, dia 15 de novembro, a partir das 14 horas.

O ponto de encontro para a saída da caminhada é o fim de linha do bairro, onde fica o busto em homenagem a Doné Ruinhó, uma das sacerdotisas que lideraram o Terreiro Bogum, situado no bairro.

O Engenho Velho da Federação tem como marca característica a valorização de sua identidade negra. O bairro reúne terreiros das mais variadas tradições das religiões afro-brasileiras, como candomblé, umbanda e culto aos caboclos. Além disso, no bairro estão sediados grupos de samba junino, capoeira  e outras manifestações que formam a herança de vários povos de origem africana.

A caminhada começou em 2004 como repúdio a ataques promovidos contra os terreiros por grupos representantes de confissões evangélicas. A partir da mobilização das comunidades religiosas de matrizes africanas os registros de desrespeito praticamente desapareceram, mas suas lideranças decidiram manter a luta como lição e alerta para que atos desrespeitosos não voltem a acontecer.

Além de lideranças das religiões afro-brasileiras, a caminhada reúne representantes de organizações da sociedade civil e do poder público que atuam no combate às desigualdades sociais e simpatizantes da causa.

 

Festa para os especiais do 20 de novembro

postado por Cleidiana Ramos @ 5:09 PM
12 de novembro de 2013
Ancelmo Gois, colunista de O Globo, eu, Maíra Azevedo e Meire Oliveira no momento de receber o troféu no Prêmio Abdias Nascimento. Foto: Carlos Júnior / Divulgação Data: 11.11.2013

Ancelmo Gois, colunista de O Globo, eu, Maíra Azevedo e Meire Oliveira no momento de receber o troféu no Prêmio Abdias Nascimento. Foto: Carlos Júnior / Divulgação
Data: 11.11.2013

Pessoal: esse é um post muito especial. Quero celebrar aqui com vocês a grande conquista que foi o reconhecimento do caderno especial “Os deuses que chamam os homens pra terra” com o Prêmio Abdias Nascimento 2013, na categoria mídia imprensa.

O caderno, que circulou em 20 de novembro do ano passado, fez um passeio pela técnica e saber dos sacerdotes músicos das religiões afro-brasileiras- alabês, huntós e xicarangomas. Mais que isso foi a décima edição do especial da Consciência Negra, como a gente chama, e que nasceu em 2003.

Parece que foi ontem que o Qual a sua cor? A vida em um mundo racista foi publicado mostrando pra gente um caminho de fazer cobertura étnico-racial especializada sem perder uma certa leveza na forma e no conteúdo.

O Qual a sua cor? foi indicado ao Prêmio Imprensa Embratel 2004 e foi seguido pelo África, povo do sol (2004);Gente de Raça (2005); Sou de santo e Raça (2006), também indicado ao Prêmio Embratel 2007; Lutas de ontem e de sempre (2007); Arte da Resistência (2008); Produtores de Owó (2009); Ê, Camará (2010) e Epo Pupá (2011), finalista do Prêmio Abdias Nascimento (2012).

Para nós, que fazemos os especiais, esse prêmio veio como reconhecimento de dez anos de trabalho. Aqui no post não vou citar o nome da equipe da edição 2013 como uma forma de estender a homenagem a todos que nestes dez anos transformaram os cadernos em referência que só nos ensina a fazer jornalismo de qualidade, mas acima de tudo com responsabilidade social.

VEJAM O CADERNO ACESSANDO O LINK ABAIXO:

http://www.premioabdiasnascimento.org.br/w/finalista/281-os-homens-que-chamam-os-deuses-pra-terra-midia-impressa

Museu Afro Brasil faz homenagem a Mestre Didi

postado por Cleidiana Ramos @ 1:34 PM
31 de outubro de 2013
Museu Afro Brasl está fazendo homenagem a Mestre Didi. Foto: Mario Cravo Neto / Divulgação

Museu Afro Brasl está fazendo homenagem a Mestre Didi. Foto: Mario Cravo Neto / Divulgação

Atenção quem está morando ou de passagem por São Paulo. Hoje, quinta-feira, 31, às 20 horas, o Museu Afro Brasil está comemorando seu nono aniversário com uma homenagem a Mestre Didi. Artista plástico e Alapini, título do mais alto sacerdote do culto de egugun, Mestre Didi morreu no último dia 6, aos 95 anos.

Intitulada “O Alapini-Escultor da Ancestralidade Afro-Brasileira”, a exposição tem obras que contam a trajetória de Mestre Didi e integram o acervo permantente do museu, localizado no Parque do Ibarapuera.

Mestre Didi (Deoscóredes Maximiliano dos Santos) nasceu em 1917. Ele era filho de Maria Bibiana do Espírito Santo, mais conhecida como Mãe Senhora, que foi a terceira ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá.

Devido a problemas de saúde, Mestre Didi foi levado aos cinco anos para o Ilê Agboulá onde foi iniciado no culto aos ancestrais. Ele alcançou o título máximo do sacerdócio de reverência aos eguguns. Assobá–posto do culto ao orixá Omolu– do Afonjá ele fundou em Salvador o Ilê Asipá, também dedicado ao culto dos ancestrais.

Esse universo afro-religioso deu a tônica à trajetória artística de Mestre Didi. Suas obras integraram, em 1989, a exposição internacional “Magiciens de lá Terre”, no Georges Pompidou em Paris. Também realizou mostras na Argentina, Senegal, Nigéria, Reino Unido, Alemanha, Estados Unidos, Itália e Espanha. Há quatro anos, o Museu Afro Brasil realizou uma grande homenagem ao artista.

“Mestre Didi sempre foi um homem voltado para a cultura e a vida afro-brasileira, desde os muitos livros que publicou sobre o culto dos ancestrais, no qual tinha o honroso cargo de Alapini. Foi um artista escultor de lindas obras, cuja temática falava desse extraordinário universo da África mítica,onde os deuses estão na terra, e por isso suas esculturas eram totêmicas, saíam do chão para alcançar o infinito”, diz o diretor-curador do Museu Afro Brasil, Emanoel Araujo.

Autor quer eliminar cabelo black de novela

postado por Cleidiana Ramos @ 6:45 PM
21 de outubro de 2013
Autor quer que ator mirim corte o cabelo black. Foto: Divulgação

Autor quer que ator mirim corte o cabelo black. Foto: Divulgação

As telenovelas são uma paixão nacional e mexem muito com todo mundo. Por isso mesmo essa confusão arrumada por Walcyr Carrasco, autor de Amor à Vida, veiculada pela Rede Globo,  merece mais um pouco de atenção.

O autor que está se notabilizando por perder a mão com o que começa como boa ideia, exigiu, segundo vários blogs e sites especializados, que cortem o cabelo do ator que faz o menino órfão Jayminho (Kaiky Gonzaga).

Na trama do chamado horário nobre da Globo, Jayminho é adotado pelo casal homoafetivo Niko (Thiago Fragoso) e Eron ( Marcello Antony).

Chateado com as críticas depois que a história da exigência do corte de cabelo vazou, o autor ameaçou interromper a história na novela. Segundo ele, o menino precisa passar por mudanças pois quando uma criança é adotada ganha roupas novas e brinquedos. Disse ainda que está mais preocupado em mostrar um garoto negro sendo adotado por um homem branco.

O problema que vejo nessa frase de Walcyr Carrasco é extamente o que ele não disse. O menino adotado muda, ganha roupas novas e o complemento possivelmente seria “não pode ter um cabelo como aquele”.

O que a gente pode imaginar da frase inacabada do autor é que o cabelo natural de um menino negro e preservado como tal só pode ser indício de menino que vive em um orfanato.

O problema é que o dono desta conclusão trabalha com um produto que cativa milhões de brasileiros e vende na cifra de milhões. Portanto, o que a gente está entendendo nessa entrelinhas é que um personagem negro para ser “engolido” no horário nobre da Globo tem que ser “embranquecido” e negar sua identidade negra quando melhora o padrão de vida.

Um menino negro, mesmo adotado, não pode manter o cabelo “black” porque isso é símbolo de pobreza e de rejeição. O personagem já disse que várias pessoas desistiram de adotá-lo.

É preocupante essa postura do autor que, aliás, vem retrocendo no que pretendia mostrar como avanços. No caso do casal em questão, por exemplo, já arrumou uma mulher para um dos parceiros se envolver que é Amarilys vivida por Danielle Witinis.

Embora o casal homoafetivo tenha aparecido como bem resolvido e apaixonado, nas brigas entre Niko e Amaralys Eron sempre fica a favor da moça.  Já foi divulgado em sites especializados que Eron vai preferir Amarilys.

O outro homossexual da novela, Félix, vivido por Mateus Solano, também já se sabe que vai abandonar o namorado que foi o estopim para que assumisse seu desejo por homens para ficar com a esposa.Parece que Walcyr Carrasco começa as polêmicas, mas não sabe como enfrentá-las.

Em tempo: o autor parece ter uma obsessão  com os cabelos dos atores e atrizes da sua novela. A outra confusão foi com  Marina Ruy Barbosa que não quis cortar os longos cabelos ruivos para o período em que sua personagem faria tratamento contra um câncer. Resultado: ele matou a personagem e a obrigou a vagar, em algumas cenas, como um fantasma.

Afro Imagem: Festa das crianças no Terreiro do Cobre

postado por Cleidiana Ramos @ 12:16 PM
14 de outubro de 2013

A festa da criançada no Terreiro do Cobre foi um sucesso. Muita diversão e oficina literária. Segundo Mãe Valnizia de Ayrá, ano que vem tem mais.

Turma concentrada na oficina literária. Foto: Josafá Araújo/Divulgação

Turma concentrada na oficina literária. Foto: Josafá Araújo/Divulgação

A tarde foi de muita brincadeira e jogos educativos. Foto: Josafá Araújo

A tarde foi de muita brincadeira e jogos educativos. Foto: Josafá Araújo/Divulgação

 

Festa para os 50 anos de sacerdócio de Doté Amilton

postado por Cleidiana Ramos @ 10:47 AM
12 de outubro de 2013
Doté Amilton comemora também 40 anos de regência religiosa. Foto: Fernando Vivas/Ag. A TARDE/28.12. 2006

Doté Amilton comemora também 40 anos de regência religiosa. Foto: Fernando Vivas/Ag. A TARDE/28.12. 2006

Cleidiana Ramos

O fim de semana vai ser especial para a comunidade do Terreiro Kwe Vodun Zo, localizado na Liberdade. Seu líder religioso, o doté Amilton Sacramento Costa está comemorando 50 anos de iniciação no candomblé e 40 de regência sacerdotal.
A programação  começa hoje com missa às 9 horas na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no Pelourinho, seguida de uma caminhada.
Amanhã, às 19 horas, tem a festa em homenagem aos voduns, nome que se dá às divindades na tradição jeje seguida pelo terreiro.
“Vou agradecer a Deus na casa dele, pois o entendo como criador da  natureza. Em seguida, a festa vai ser na casa de axé onde celebramos os deuses que também fazem parte da natureza”, afirma Doté Amilton.

Doté Amilton é consagrado a Sogbó,  vodum que rege o fogo. A família biológica de Doté Amilton não tinha  um terreiro oficial, mas fazia um culto doméstico.
Criança, ele adoeceu e foi levado para o terreiro conhecido como Cocunda de Iaiá, situado em Sussuarana e regido por Constância Pires, a Mãe Tansa.
Além de Mãe Tansa, sua trajetória religiosa está ligada a personagens como Mãe Mariazinha, ekede Helena Fiúza e os sacerdotes Marcos Paixão, Pedro Alcântara e Victorino Cerqueira.
“Eu posso dizer que sou uma pessoa realizada, que tenho amor pela minha religião e por meio dela ajudo minha comunidade”, afirma.
No Vodun Zo existem vários projetos sociais. O mais conhecido é o de capoeira voltado para crianças e adolescentes. “Eu fui uma criança pobre e sei o que é isso. Gosto de fazer festa para ver as crianças felizes”.
Assim como as características do vodum Sogbó que rege o fogo e os raios, Doté Amilton é conhecido pelo temperamento forte e rigidez.
“Com ele tudo tem que ser da forma mais certa possível”, diz George Silva, 26 anos, que é membro do terreiro.
Para Marivalter Júnior, 25 anos, a rigidez é uma boa ferramenta de educação. “Aqui são muitas crianças e jovens e precisamos de limite”.

O professor Jorge Portugal, que também é  membro da comunidade do Vodun Zo  é outro que destaca a característica exigente do sacerdote.
“Meu filho também é membro da casa. Amilton tem aquele temperamento forte, mas é dono de uma doçura impressionante”.
Além disso, Doté Amilton é conhecido pelo profundo conhecimento sobre a sua tradição religiosa. Ele, inclusive,  recebeu um diploma de notório saber da Universidade de Duke, localizada nos Estados Unidos.
O diploma é fruto das várias idas de Doté Amilton à instituição para falar sobre a religiosidade afro-brasileira. Ele também está  ajudando na montagem de um museu. O professor da instituição, James Lorand Matory vai participar da festa.
Além disso, Doté Amilton é curador de um museu com peças afro-brasileiras que está sendo instalado em Frankfurt, Alemanha.
“Doté Amilton tem habilidades estéticas fantásticas. Ele me presenteou com uma escultura de Exu Elegbara que impressiona não só pelo conhecimento da estética africana, mas pelo saber religioso que ela transmite”, aponta o historiador  Jaime Sodré.
Conhecimento que, para Doté Amilton significa respeitar quem é diferente. “Acho que todas as tradições do candomblé  têm que estar mais unidas. Sou do tempo em que ninguém estava preocupado se o terreiro de origem era ou não famoso. O que valia era o axé”, diz..

Por conta de tantas qualidades, Doté Amilton tem vários amigos entre os religiosos de candomblé. “Conheço Amilton há muito tempo. Há quem diga que ele tem um temperamento forte. Ora, temperamento é para se entender e conviver”, destaca o babalorixá Air José,  líder do Pilão de Prata.
Pai Air completa com uma provocação. “Gosto muito dele, mas gosto bem mais de Sogbó”, diz, entre risos.
Quem também não economiza elogios é Nice Espíndola, ebomi do Terreiro Casa Branca. “Amilton é um gentleman. É como uma flor que a gente encontra numa estrada. O seu vodum não é aquele que nos faz chorar, mas o que enxuga as lágrimas. Rezo para que Oldumare encha os seus caminhos de luz, sempre”.

Praguer Fróes escrevia com sacrifício

postado por Cleidiana Ramos @ 3:05 PM
10 de outubro de 2013
Mãe Stella faz reflexão sobre importância da oralidade e da memória. Foto: Fernando Amorim/ Ag. A TARDE/06.12.2012

Mãe Stella divulga mais um trecho do seu discurso de posse na ALB. Foto:  Ag. A TARDE/06.12.2012

Maria Stella de Azevedo Santos

Continuando a cumprir meu compromisso de tornar cada vez mais pública a vida e a obra dos ilustres baianos que me antecederam na cadeira que hoje ocupo na Academia de Letras da Bahia, transcrevo uma parte de meu discurso de posse que fala sobre Heitor Praguer Fróes. Com humildade e alegria confesso que precisei pesquisar, para me aprofundar, sobre a vida dos acadêmicos. É uma delícia saber que aos 88 anos de idade ainda tenho muito, muito, muito a aprender. Inteirando-me sobre a vida de meu confrade Praguer Fróes, descobri e agora revelo pérolas ditas pelos seus pais, por ele e sobre ele. Espero, com esse meu gesto, não apenas emocionar os leitores, mas reafirmar meu pedido para que as livrarias instaladas na Bahia tenham uma estante específica para os livros dos escritores baianos.

Filho da histórica e cultural cidade de Cachoeira, nascido no dia 25 de setembro de 1900, Praguer Fróes foi poeta, tradutor, médico e professor. Foi membro não apenas da Academia de Letras da Bahia, mas também de inúmeras outras instituições científicas e culturais, como a Academia de Medicina da Bahia.
Praguer Fróes escrevia com sacrifício. Eu faço uso dessa palavra não no sentido comum que ela possui, como sinônimo de dificuldade, mas em seu sentido original. Escrever para Praguer Fróes era um ofício sagrado, sobre o qual ele dizia: “Quem escreve um livro e o revê e publica passa pelo paraíso e pelo inferno: Pelo paraíso, quando compõe; pelo purgatório, quando retoca; pelo inferno, quando imprime. Pelo paraíso, quando compõe, porque nada é mais agradável do que criar; pelo purgatório, quando retoca, porque nada é tão fastidioso quanto modificar; pelo inferno, quando imprime, porque nada é mais enervante que estar interminavelmente a corrigir”.
E foi pensando e sentindo assim que Praguer Fróes somou em sua biografia livros de poemas, contos, contrafábulas e inúmeras obras científicas. Sacralizar um ofício é um comportamento típico de quem se preocupa e se ocupa com a humanidade. Tanto que Praguer Fróes chegou a abdicar dos direitos autorais de seu livro Lições de Medicina Tropical, em benefício do então futuro Hospital das Clínicas. Praguer Fróes era um humanista nato, pois herdou de seus pais a consciência cidadã.
Não se pode nem se deve falar de Heitor Praguer Fróes, sem falar de sua família. Pai, mãe e filho, todos eles médicos que dedicaram a vida a salvar vidas. Sua mãe, Francisca Praguer Fróes, foi uma das primeiras mulheres formadas em Medicina no Brasil, pioneira em todas as áreas em que atuou, principalmente na defesa dos direitos femininos. Ela dizia: “Eu sou feminista por herança e convicção”. O pai de Heitor Praguer Fróes, João Américo Garcez Fróes, foi tão singular figura humana que quando precisava interferir no comportamento de um estudante de Medicina, de modo a impedir que este fizesse o doente sofrer desnecessariamente, delicadamente dizia em latim: Non vi, sed arte! (“Não pela força, sim pela arte!”).
O que nosso confrade o jornalista Jorge Calmon diz sobre o pai de Heitor Praguer Fróes é o princípio que faz de um membro da Academia de Letras da Bahia um imortal; é o principio que faz de qualquer pessoa, letrada ou não, um imortal. Ele diz: “Efetivamente, há homens que se tornam instituições. São poucos. Constituem exceções. A regra geral é o bitolamento medíocre dos inumeráveis componentes do rebanho humano, que a lei da vida vai tangendo, em marcha entre o nascimento e a morte. Nessa indistinta mediania, as inteligências não brilham, o esforço não avulta, o caráter não logra atingir forma, consistência. É a grande planície dos homens comuns. Vez por outra, desse solo rasteiro sobressai uma eminência. O talento, a virtude, o mérito rompem a vulgaridade e projetam de entre a massa os indivíduos bem dotados, ou que a si mesmo se dotam, e cuja ascensão proclama as faculdades superiores da pessoa humana. Foi Garcez Fróes um desses raros indivíduos”.
Em 25 de outubro de 1987, Heitor Praguer Fróes seguiu seu caminho rumo ao reino divinal, para encontrar esta linda família que deixou para todos nós um exemplo de vida registrado em livros.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, ela publica artigos no jornal A TARDE e, sempre, às quartas-feiras

Balaio de Ideias: Um Adeus ao Alapini

postado por Cleidiana Ramos @ 9:47 AM
8 de outubro de 2013
Mestre Didi é homenageado em belo texto de Emanoel Araújo. Foto: Divulgação

Mestre Didi é homenageado em belo texto de Emanoel Araújo. Foto: Divulgação

Emanoel Araujo

Há poucos dias visitei o meu querido amigo e irmão Deoscóredes Maximiliano dos Santos, que estava deitado, meio adormecido. Beijei sua mão longa e delicada. Ele me sussurrou algumas palavras pela surpresa da minha aparição sem anunciar. Por momentos estive com Juana dos Santos, sua inseparável companheira de tantos e tantos anos, sua fiel e apaixonada mulher como foram as do rei Xangô. Ela organizava, como fruto desse amor, a grande homenagem que lhe seria prestada no dia 2 de dezembro nos seus 96 anos, o siré dos 96 anos do Mestre Didi, e me mostrava a lista dos amigos que seriam convidados para a festa. Disse-lhe também que, em novembro, o Museu Afro Brasil, em São Paulo, lhe prestaria uma homenagem para celebrar os 25 anos do livro “A mão afro-brasileira”. Qual a minha surpresa com a sua morte.

Mestre Didi sempre foi um homem voltado para a cultura e a vida afro-brasileira, desde os muitos livros que publicou sobre o culto dos ancestrais, no qual tinha o honroso cargo de Alapini. Foi um artista escultor de lindas obras, cuja temática falava desse extraordinário universo das coisas da África mítica, onde os deuses estão na terra, e por isso suas esculturas eram totêmicas, saíam do chão para alcançar o infinito. Ele sabia desafiar o espaço com a linha que se desdobrava em volutas encimadas por pássaros, numa alusão a Oxalá, ou se desdobrava em formas triangulares como os oxês de Xangô ou as palmas forradas de dores fortes de tecidos protegendo a natureza. Os fios de palmas se transformavam em xaxarás, ibiris, paxorôs com miçangas coloridas, adornadas com fatias de couro de muitas cores.

Esse era o artista no seu pequeno atelier, dando forma e vida à mitologia, às lendas dos orixás, às complexidades dessa cultura milenar: do sofrimento, da alma, do espírito, da dor e das raízes encravadas na memória do tempo e do espaço, diante da incompreensão dos ignorantes. Ele foi um sábio e um homem voltado para o sagrado, talvez ensinado pela sua madrinha Dona Aninha, por sua mãe Dona Senhora, talvez até na atmosfera verde e selvagem do Ilê Axé Opô Afonjá, com todas aquelas ebames num coro uníssono para Xangô, o justiceiro. Mas houve um outro Mestre Didi, amigo de Lídio, de Camafeu, de Waldeloir Rego, de Carybé, de Jorge Amado, de Vivaldo Costa Lima, de Tibúrcio Barreiros, de Dorival Caymmi, e de muitos amigos pelo Brasil afora, pelo mundo afora, pela África afora.

Deoscóredes Maximiliano dos Santos, sacerdote do culto dos Egunguns, Alapini do Ilê Asipa, mestre sagrado do culto dos ancestrais, artista escultor cuja obra encantou brasileiros e estrangeiros no “Magiciens de la Terre”, em Paris, na sala especial da Bienal internacional de São Paulo, na grande exposição no Museu Afro Brasil, no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira em Salvador. Comendador da ordem do mérito da cultura nacional, foram muitos os degraus de sua obra artística e sacerdotal. Pairou por esse mundo de Olodumare e, como o deus Oxalá, transformou o barro e a palha com miçangas coloridas em seres vivos que falam da eterna e milenar cultura de um povo, e também a cultura viva, que pulsa no espírito do novo mundo. Adeus, Alapini, vá ao encontro de suas outras mulheres, que lhe amaram como um filho pródigo: Dona Aninha e sua mãe, Dona Senhora, verdadeiras rainhas do Ilê Axé Opô Afonjá. Kaô Kabecilê.

Emanoel Araujo é escultor e diretor-curador do Museu Afro Brasil, em São Paulo