MUNDO AFRO |

Arte como voz de mulher

postado por Cleidiana Ramos @ 6:17 PM
25 de novembro de 2015
Ayeola Moore traz, em sua primeira exposição, um olhar sobre o universo das mulheres negras. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE

Ayeola Moore traz, em sua primeira exposição, um olhar sobre o universo das mulheres negras. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE

Cleidiana Ramos

A próxima sexta será um dia de descobertas para a artista plástica Ayeola Moore, 66 anos. Pela primeira vez, desde que começou a pintar há 12 anos, ela apresentará suas telas para um público que vai além de amigos e da família, no Museu Afro-brasileiro da Ufba (Mafro), localizado no prédio da Faculdade de Medicina, Terreiro de Jesus.

Ayeola nunca realizou uma exposição. O máximo que fez para expor seus quadros foi um site (http://www.ayeolamoore.com/pt/index.php), onde estão relacionados alguns depoimentos de quem os viu, mas em círculo restrito.

No início do que revela ser a primeira entrevista que concede no lugar de uma artista prestes a expor, ela afirma estar experimentando ansiedade e insegurança.
“Tenho medo de que o resultado não fique à altura de tudo o que ele produziu para chegar a esse momento”, afirma Ayeola. O “ele” refere-se ao escritor Carlos Moore, 73 anos, com quem vive um casamento de 32 anos feito de cumplicidade presente em cada gesto ou troca de olhares.

“Ayeola foi especial em momentos cruciais da minha vida”, contou Moore, em outra ocasião, quando Ayeola estava ausente. O brilho que toma seus olhos a cada vez que fala na companheira fica ainda maior quando estão juntos.

Encontro

A cumplicidade do casal parece existir também em relação à arte a que cada um se dedicou, mesmo que elas sejam diferentes. Em seus livros, Carlos Moore inquieta ao mostrar o quanto de dores os negros da diáspora precisam combater a partir da descoberta e reafirmação de uma identidade resistente. Em seus quadros, Ayeola faz o mesmo, mas usando a perspectiva feminina.

“Mulher é o que eu sou e percebo os desafios que trazemos conosco. São muitas de nós que precisam abrir mão de seus sonhos porque vivem em meio a vários tipo de exploração, seja no Caribe, nos EUA ou na Bahia”, diz.

Foi por isso que, em meio a uma centena de telas, ela escolheu um grupo formado por 24, onde fixou as formas variadas, delícias e cicatrizes que mulheres negras compartilham, conhecem, descobrem ou reconhecem.

“Os pintores, geralmente, são homens brancos e, portanto, nunca falam de mulheres, principalmente as negras. Eu falo sobre elas porque é muito do que sei”, completa.

O título da mostra já prepara para o que será exibido: Mulher, a força que move o mundo. Por meio das telas, Ayeola quer repartir suas inquietações. “Acho que consigo fazer isso por ter começado a pintar já em uma estágio em que esses pensamentos atingiram a maturidade”, completa.

Ayeola Moore traz, em sua primeira exposição, um olhar sobre o universo das mulheres negras. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE

Obra de Ayeola mostra harmonia entre formas e cores. Foto: Raul Spinassé/Ag. A TARDE

Acerto

O encontro com a pintura se deu por meio de uma conversa com Abdias Nascimento (1914-2011), de quem ela e Carlos Moore sempre estiveram muito próximos.
“Eu estava no momento em que desejava deixar minha marca no mundo. Carlos já fazia isso com a sua escrita. E a pintura surgiu. Abdias me disse que se eu queria pintar que o fizesse sem me abalar com críticas”, conta.

A conversa levou Ayeola a encontrar um novo mundo. Natural de Guadalupe, uma região integrada à França e que fica no Caribe, sua conexão com a arte começou por meio da dança, área em que tem graduação e experiência em pesquisa. Ayeola também trabalhou, durante muito tempo, no ministério da educação francês.

Em 2000, ao lado de Carlos Moore, fixou residência em Salvador. Quando estavam mobiliando a casa, fez um comentário que se revelou uma profecia.

“Eu disse a Carlos que não íamos comprar quadros para as paredes da nossa casa, pois ia enchê-las com os meus”.

Hoje, quando se chega à casa deles, no bairro de Nazaré, são os quadros de Ayeola que dão as boas vindas. A harmonia entre cores e formas que eles transmitem impressiona. Mesmo quem não tem intimidade com o universo da pintura consegue perceber as boas histórias que eles têm para contar.

Depois de ouvir sua narrativa cativante, é hora de encerrar a conversa. Carlos Moore se aproxima para participar da despedida. Ela diz para ele que conceder a primeira entrevista não foi tão difícil. A resposta dele é um sorriso, acompanhado da reafirmação do que já havia dito: “Eu nunca duvidei de que você iria vencer mais esse desafio”.

Serviço:

Exposição “Mulher, a força que move o mundo”/ Abertura sexta, das 18 às 22 horas / Mafro/Ufba- Faculdade de Medicina, Terreiro de Jesus

 

Em entrevista à jornalista Regina de Sá, o doutor em História pela Universidade de Minnesota (EUA) e professor do Departamento de História da Universidade Federal da Bahia, João José Reis faz uma reflexão sobre memória da escravidão e persistência do racismo.  

João José Reis faz uma profunda análise sobre a persistência dos impactos da escravidão. Foto: Walter de Carvalho/Ag. A TARDE/  17.11.2010

João José Reis faz uma profunda análise sobre a persistência dos impactos da escravidão. Foto: Walter de Carvalho/Ag. A TARDE/17.11.2010

Regina de Sá 

Em um documento redigido no dia 24 de outubro de 1985, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) apresentava uma lista de 38 localidades com potencial para serem reconhecidas como Patrimônio da Humanidade. Naquele ano, o Centro Histórico de Salvador, a primeira capital do Brasil (1549-1763), ganharia a atenção global com o título dado pela Unesco. No maior conjunto colonial urbano tombado do País, com cerca de três mil imóveis erguidos entre os séculos 17 e 19, desde o São Bento até Santo Antônio Além do Carmo, está o Pelourinho, um dos mais visitados cartões-postais da cidade. Porém, no coração do polígono do tombamento não se vê nenhum indício de que ali existiu, de fato, um pelourinho, símbolo máximo do poder da Colônia portuguesa que servia para castigar e marcar com açoites terríveis a pele das pessoas. Além disso, o pelourinho “passeou” pela cidade. Por volta do século 16, o primeiro local onde instalaram a coluna de pedra cantaria com argolas foi na Praça Municipal (por decreto, desde 1949 se chama Tomé de Souza). Depois, levaram o “símbolo da Justiça” para o Terreiro de Jesus, mas os gritos dos açoitados incomodavam os padres e quem mais participasse das cerimônias religiosas e, por Provisão Real de D. João V, acabou levado para as Portas de São Bento (próximo à Praça Castro Alves). O derradeiro destino seria o largo das Portas do Carmo, onde hoje é o Pelourinho. O instrumento de castigo seria retirado, definitivamente, em 1835. Em 1857, colocariam no lugar um chafariz, mas não se sabe que fim levou.

No Prospecto de Caldas, um minucioso trabalho cartográfico da Cidade do Salvador – elaborado entre os anos de 1756 e 1758 pelo engenheiro e militar baiano José Antônio Caldas (1725-1782) -, aparece a indicação da pedra nas Portas de São Bento. O pelourinho-instrumento, de fato, existiu no Pelourinho-bairro, daí a importância de se batizar o lugar com este nome. No entanto, se o pelourinho enquanto marco histórico da era do regime escravista fosse pauta mais frequente nas agendas culturais, turísticas, educacionais e, por que não, acadêmicas, não correria o risco de se apagar da memória a existência de um local público para castigo e tortura. Mas não é esta a opinião de João José Reis, doutor em História pela Universidade de Minnesota (EUA) e professor do Departamento de História da Universidade Federal da Bahia. Para Reis, autor, entre outros livros, de Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês, os demônios do Pelourinho são exorcizados hoje de uma forma positiva com os tambores do Olodum, por exemplo. Reis defende que este espaço de castigo público poderia ganhar muito mais como local de memória se fosse criado um museu da escravidão e da resistência escrava. O local, apesar do nome, reforça o historiador, em parte descolou sua identidade desse passado, sem que, por outro lado, esse passado esteja encoberto.

Há 30 anos, o Centro Histórico de Salvador foi reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como Patrimônio da Humanidade. No epicentro desta importante área da cidade, está o Pelourinho, local visitado por turistas de todas as partes do Brasil e do mundo. Ali, pessoas de várias partes do País e do mundo buscam um consumo cultural de massa, que abrange diversão, entretenimento e compras. Para o senhor, o Pelourinho perdeu sua identidade?

 

João José Reis – Não existe identidade fixa, “autêntica”, nem de indivíduos, de grupos ou lugares. O Pelourinho não é diferente. Apesar de voltado para o turismo em muitos aspectos, consegue-se ali observar muita manifestação da cultura popular, inclusive no ramo do entretenimento, o que ainda faz daquele um lugar especial. Acho positivo que os tambores do Olodum exorcizem os demônios locais, fazendo desse espaço de tortura pública – e não apenas de tortura de escravos – um ambiente de expressão da liberdade. Não é só de turismo que vive o Pelourinho, apesar de sua mercantilização.

Por que razão, atualmente, não se encontra nenhum resquício de que, durante um longo período, Salvador possuiu uma coluna de pedra com argolas de metal onde se amarravam escravos e criminosos para açoite e ou escárnio público? Ou seja, por que a área conhecida como Pelourinho deixou de possuir um pelourinho (artefato) como testemunho de um passado em que nossa sociedade submeteu seres humanos a castigos cruéis e ignominiosos?

 JJR – O “artefato” desapareceu muito antes de se ter desenvolvido uma política de memória adequada a uma sociedade mais democrática e inclusiva, que, apesar de tudo, o Brasil vem se tornando, aos trancos e barrancos, é verdade, com avanços e recuos – e, nos dias que correm, mais recuos do que avanços. Desconheço alguma imagem que pudesse servir para, por exemplo, reproduzir a coluna de tortura. E, aliás, não acho que seria o caso de se erguer coisa do tipo no atual largo do Pelourinho porque, como disse, o local, apesar do nome, em parte descolou sua identidade desse passado, sem que, por outro lado, esse passado esteja encoberto. Outras formas de lembrança da violência na era do antigo regime escravista poderiam ser criadas, como, por exemplo, um museu da escravidão e da resistência escrava, ou uma seção temática nos museus afros já existentes. Há quem, no movimento negro e na academia, discuta exatamente isso.

  O senhor julga que há, nessa ausência, uma sutil intenção de nossa sociedade em esconder, ou remeter ao esquecimento, este fato?

  JJR – A Bahia já não precisa esconder essas coisas para que os ricos e poderosos continuem a mandar, a usufruir de seus privilégios e a fechar os olhos às desigualdades sociais e raciais. Estamos numa era de cinismo galopante, por um lado, mas também de alguma conquista no que diz respeito a uma compreensão mais inteira do passado. Não é mais possível negar essa parte inconveniente da história. É perfeitamente possível para o Estado e a sociedade combinarem um repúdio à violência do passado, ao mesmo tempo em que toleram ou até promovem o racismo e a violência contra negros, índios, pobres no presente. Veja você que essa violência e o racismo ocorrem e até crescem paralelamente à obrigatoriedade do estudo da história do negro – que inclui o tráfico e a escravidão – nos currículos escolares (Lei 10.639/03). A juventude negra, na maioria pobre, está sendo massacrada pela violência, inclusive a policial, é o que apontam as estatísticas.

 A questão da preservação do patrimônio não estaria também ligada à memória e ao registro da História? Como as gerações futuras vão poder entender o que, de fato, ocorreu onde hoje se conhece como Pelourinho se não são mais visíveis as marcas da escravidão? 

 JJR – Talvez não seja correto dizer que inexistam marcas materiais da escravidão no Pelourinho, porque ali estão casas e igrejas construídas por escravos, e com os lucros da escravidão no Recôncavo e na cidade; lá estão as antigas senzalas urbanas (as chamadas lojas, subsolos dos sobrados e casas), e como contraponto uma igreja erigida por escravos e libertos para abrigar uma irmandade negra, a do Rosário dos Pretos. Existem santos negros nos altares de outras igrejas (por exemplo, São Benedito na Igreja de São Francisco), a Sociedade Protetora dos Desvalidos, fundada por negros livres e libertos em plena vigência da escravidão etc. Não falta então “patrimônio” preservado para se pensar a escravidão, mas também a negociação e a resistência escravas, que estão consignadas por toda parte. O que precisa é passar adiante essas informações. Entenda: não sou contra o Pelourinho ser lembrado e vinculado à violência escravista, mas não vejo necessidade de se repor ali um poste para significar isso. Tente pensar por outro ângulo. O nome do lugar já constitui um componente imaterial do significado histórico, ele substituiu de maneira forte a materialidade da coisa, mais forte, por exemplo, do que naquelas cidades onde o pelourinho sobreviveu enquanto artefato ou monumento histórico. Não há nessas cidades toda uma área da cidade chamada Pelourinho como temos na Bahia. Isso aqui na Bahia é muito forte. Que se entenda isso, que se aproveite isso numa política de memória. Se essa sociedade quisesse realmente “esquecer” a escravidão, teria mudado o nome daquele espaço há muito tempo. Mas o nome está lá a lembrar do que ali acontecia. É coisa que só se vê na Bahia, e é preciso entender por que é assim.

 Estudos recentes apontam para o esvaziamento do Pelourinho como lugar de moradia de camadas mais pobres. Entre os anos 1980 e 2000, 67% da população residente deixou o Pelourinho, em virtude da forma como a intervenção do Estado atuou na região, com vistas a revitalizá-la, ou “restaurá-la”. O processo, conhecido como “gentrificação”, contribuiu para a regeneração da área e reatribuiu significados a esses marcos de memória da sociedade soteropolitana? Apagar por completo a existência do pelourinho também colaborou para afastar dali os “habitantes indesejáveis” do bairro?

 JJR – O que você chama de “gentrificação” (um anglicismo que se poderia evitar) aconteceu muito depois de desaparecido o poste de castigo. Portanto, uma coisa não levou necessariamente a outra. Nas cidades onde o poste se mantem em pé até hoje, como em algumas cidades mineiras, aconteceu o mesmo fenômeno de “requalificação”, o termo burocrático usado pelo Estado não só no Brasil. Nas chamadas cidades históricas brasileiras, gente com dinheiro compra casas para morar ou para segunda residência, assim como residências se tornam lojinhas e restaurantes para servirem à indústria do turismo. Ou seja, com ou sem o poste, o nosso Pelourinho estava destinado a ser parte do circuito turístico e da especulação imobiliária, e essa especulação é um câncer espalhado por toda a cidade. Num sentido mais amplo, o que ali aconteceu com a população se repetiu, antes e depois, em várias áreas de Salvador fora do chamado Centro Histórico. Comunidades de pescadores, por exemplo, foram arrancadas da orla para a construção de praças, estacionamentos, hotéis, edifícios e condomínios. 

Em uma entrevista, o jornalista e escritor Laurentino Gomes, que deverá lançar em 2019 uma trilogia enfocando o tráfico de escravos no Brasil, afirmou que “a escravidão é um cadáver insepulto, um fantasma que nos assombra até hoje porque nos recusamos a encará-lo”. Simbolicamente falando, é possível que ainda exista um fantasma insepulto no Largo do Pelourinho justamente porque há quem prefira passar uma borracha no nosso passado, selecionando o que deve ou não ser rememorado, e manter apenas o nome como atração turística?

 JJR – Laurentino Gomes poderá escrever sua versão da história da escravidão porque, nos últimos 20, 30 anos, esse é um dos temas mais estudados pela historiografia brasileira, talvez o mais estudado. O número de teses, livros e artigos é enorme e não para de crescer. Depois da publicação do livro de Laurentino, depois da comissão da verdade da escravidão, organizada pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), o fantasma de que fala aquele autor continuará nos rondando. Já se sabe o suficiente sobre a escravidão para que esse passado passe, mas ele não passará inteiramente enquanto houver o racismo e a desigualdade baseada no perfil racial. É sempre bom que se tenha mais um livro sobre a escravidão, mas já se sabe o suficiente sobre o assunto, e há muito tempo, para inspirar políticas públicas de reparação, as quais, aliás, estão em curso ultimamente, embora muito mais seja necessário nesse aspecto, eu acho. Para lhe ser franco, acho que se devia falar menos de escravidão e mais sobre racismo e desigualdade racial na atualidade. Às vezes escravidão vira ponto de fuga. O racismo tem pernas próprias, tem uma capacidade enorme de se reproduzir em nossa sociedade, e nos dias que correm se reproduz de uma maneira cada vez mais aberta exatamente porque o negro brasileiro deixou de assumir aquele lugar subalterno que lhe tinha sido destinado desde sempre. O avanço da consciência negra e a ocupação negra de espaços antes quase exclusivamente brancos – como a universidade -, por exemplo, hoje explicam o racismo muito mais do que a escravidão.

Parceria com o IME viabilizou vídeo

postado por Cleidiana Ramos @ 7:17 PM
20 de novembro de 2015
A equipe do IME que produziu o vídeo "Vamo Ngudiá: Rosalvo Neto, Sérgio Sacramento e Geilson Souza. Foto: IME/Divulgação

A equipe do IME que produziu o vídeo “Vamo Ngudiá: Rosalvo Neto, Sérgio Sacramento e Geilson Souza. Foto: IME/Divulgação

O vídeo Vamo Ngudiáinspirado nos games sobre gastronomia que viraram mania na TV, foi uma das inovações em torno do especial Ajeum- A força da comida, publicado hoje pelo jornal A TARDE, que pode ser conferido no Portal A TARDE .

Ele foi produzido pela equipe do especial em parceria com o Instituto Mídia Étnica (IME). Criado há 10 anos, o IME é uma organização da sociedade civil, especializado em realizar ações para assegurar o direito à comunicação. Seus projetos tem como base viabilizar o uso da tecnologia de informação por grupos que sofrem exclusão social, principalmente os de base afro-brasileira como quilombolas, terreiros de candomblé e  comunidades de marisqueiras e  pescadores.

Ações de treinamento para jornalistas e estudantes de comunicação; assessoria para organizações afro-brasileiras, monitoramento dos meios de comunicação e consultoria em comunicação digital são algumas das suas atividades.  O IME também administra o portal Correio Nagô.  

 

A paleta oferecida pelas folhas

postado por Cleidiana Ramos @ 7:13 PM
20 de novembro de 2015

Para chegar ao resultado da palavra “Ajeum na capa do nosso especial Ajeum- a força da comida, a designer Ludmila Cunha, responsável pela concepção gráfica e diagramação da publicação, trabalhou muito com a textura e cores das folhas.

A palavra, por exemplo, foi escrita com uma tinta extraída de folhas e um pouco de água.

Em seguida, ela testou a tinta por quatro vezes até que perdesse o tom de marrom. Quando alcançou o verde desejado escreveu a palavra por mais quatro vezes. “Mas acabei usando a primeira que escrevi”, conta, rindo.

Material usado pela designer Ludmila Cunha. Foto: Acervo pessoal

Material usado pela designer Ludmila Cunha. Foto: Ludmila Cunha

Aí foi só escanear, dar uma coloração final com o photoshop e o  título do caderno estava pronto para receber o texto de apoio e a bela ilustração de Túlio Carapiá.

Foto: Ludmila Cunha

O olhar fotográfico sobre aspectos da cozinha baiana

postado por Cleidiana Ramos @ 6:55 PM
20 de novembro de 2015

A comida desperta vários sentidos. A missão do repórter fotográfico Marco Aurélio Martins foi difícil, mas cumprida à perfeição. Aqui uma coleção de imagens produzidas por ele a partir da pauta do especial  Ajeum- A força da comida.

Uma conversa sobre cozinha saborosa e natural  entre Bela Gil e Beto Pimentel

Uma conversa sobre cozinha saborosa e natural entre Bela Gil e Beto Pimentel

Raimundo Nogueira, expert no conhecimento sobre a sabedoria das folhas

Raimundo Nogueira, expert no conhecimento sobre a sabedoria das folhas

A ciência de transformar o simples em  arte

A ciência de transformar o simples em arte

 

A beleza das folhas que são muito usadas como ingredientes em pratos da cozinha baiana

A beleza das folhas que são muito usadas como ingredientes em pratos da cozinha baiana

 

A habilidade constante do chef Charles Silva em fazer tradição e modernidade dialogarem

A habilidade constante do chef Charles Silva em fazer tradição e modernidade dialogarem

 

 

A cana que dá aquilo que valia ouro em tempos coloniais:  o açúcar e seus derivados

A cana que dá aquilo que valia ouro em tempos coloniais: o açúcar e seus derivados

Casa do Benin é cenário de Vamo Ngudiá

postado por meire.oliveira @ 6:48 PM
20 de novembro de 2015
Casa do Benim recebe exposição sobre culto aos voduns na África e no Brasil. Foto: Rejane Carneiro| AG. A TARDE

Casa do Benin foi o cenário do vídeo Vamo Ngudiá. Foto: Rejane Carneiro| Ag. A TARDE

 

A Casa do Benin, vinculada à Fundação Gregório de Mattos, foi o cenário do vídeo Vamo Ngudiá, que integra o especial Ajeum- A força da comida, publicada em comemoração ao Dia Nacional da Consciência Negra de A TARDE. 

Durante dois dias, os estudantes de gastronomia Luciane Dias, Cláudia Santos e Iago Luz e os chefs Alício Charoth, Matheus Almeida, Angélica Moreira e Beto Pimentel discutiram e realização de pratos criados, exclusivamente, para o especial.

O movimento foi intenso no pátio interno e na cozinha do casarão que foi inaugurado em 1988. A estrutura da cozinha e a estética local contribuíram no resultado do especial que prioriza o legado da herança africana.

“Receber o A Tarde e o Instituto Mídia Ética para este trabalho é uma grande honra para a FGM e Casa do Benin, pois nos dá a oportunidade de comemorar o Dia 20 de Novembro celebrando o alimento e as raízes culturais da nossa cidade”

Atuação

Além de exposições temporárias e oficinas artísticas, a instituição abriga obras da região do Golfo do Benin que, em sua maioria, pertenceram ao etnólogo francês Pierre Verger.

Funcionamento: Segunda a sexta, das 10h às 17h.
Endereço: Rua Padre Agostinho Gomes, 17 – Pelourinho.
Contato: (71) 3202-7890

Balaio de Ideias: A cozinha de Jorge Amado

postado por Cleidiana Ramos @ 6:36 PM
20 de novembro de 2015

 

Elementos para trabalhar com a fantástica cozinha baiana são variados. Foto: Marco Aurélio Martins/ Ag. A TARDE

Elementos para trabalhar com a fantástica cozinha baiana são variados. Foto: Marco Aurélio Martins/ Ag. A TARDE

Gildeci de Oliveira Leite

A comida na obra de Jorge Amado representa identidades que o autor quer fazer aparecer. O romance Dona Flor e Seus Dois Maridos é o mais culinário dos livros amadianos. A obra tem como protagonista uma baiana com características africanas, ameríndias e europeias. Florípedes ou Dona Flor é cozinheira e professora de culinária. A relação de Flor com a cozinha pode ser comparada à relação das Baianas do Acarajé com o tabuleiro e também às Iabassês com o Axé, cozinheiras sagradas dos candomblés.

Assim como as Baianas do Acarajé, Flor consegue a sua independência financeira através da cozinha. Com o primeiro marido, Vadinho, é obrigada a sustentar a casa. Com o segundo marido, filho de Oxalá, músico erudito, que toca fagote, instrumento que lembra o opaxorô ou cajado de Oxalá, não há necessidade de sustentar a casa. As economias de Flor, entretanto, garantem a casa própria, quando casada com Teodoro.

Em alguns candomblés, atribui-se a Oxum o matronato sobre a cozinha, Dona Flor é filha de Oxum. Assim como nos tabuleiros de Acarajé e nos candomblés, o sentido de cozinha no romance não é associado à subserviência, mas à autoridade conferida àquela que tem o poder de manipular os temperos e conquistar outro. No candomblé, a energia de quem cozinha pode determinar parte da energia do Axé. Em “Dona Flor” a sua comida conquista diversos segmentos sociais. As camadas mais abastadas da sociedade a convidam para as festas. Sobre isso, Manuel Querino fala do costume de chamar o cozinheiro ou cozinheira à sala para receber os agradecimentos e os “vivas”. No caso de Dona Flor, não era um chamamento provisório à sala. Ela fazia parte das festas, tendo como suas alunas na escola de culinária “Sabor e Arte” moças ricas. O nome da escola, por sugestão de Vadinho, filho de Exu, pode ser lido “saborearte”.

Flor conhecia a cozinha afro-baiana e a comida europeia da Bahia. Jorge Amado deixa clara a convivência em complementaridade das duas cozinhas. Através do personagem Mirandão, afirma que entre as comidas, a de dendê é a nossa principal identidade.

Em um caruru de Ibejis na casa de um Major, que por graça alcançada, referente à saúde da esposa, cumpria a promessa anualmente, a importância do azeite é revelada. No evento, além do caruru, para contemplar outros gostos, havia outras comidas que não as de dendê. Mirandão, filho de Xangô, em uma cena memorável e aparentemente despretensiosa, de boca cheia, diz que brutos são aqueles que não gostam de azeite de dendê.

Há uma inversão dos valores propagados pela parcela racista da sociedade, pois a comida de maior valor passa a ser a comida negra. Brincando, Jorge Amado diz o que pensa e demonstra seu compromisso com a cultura negra. Afinal, azeite de dendê não é óleo de maquina.

 Gildeci de Oliveira Leite, mestre em Letras e professor de literatura baiana na Uneb 

Assista ao primeiro desafio do mundo sobre cozinha baiana

postado por Cleidiana Ramos @ 10:34 AM
20 de novembro de 2015

 

Os estudantes de gastronomia Cláudia Santos, Iago Luz e Luciane Dias aceitaram um desafio e tanto: criar uma refeição – prato, sobremesa e bebida– para uma plateia de paladar exigente: os chefs Alício Charoth, Angélica Moreira, Beto Pimentel e Matheus Almeida. Os resultados são surpreendentes.

Um passeio pelos bastidores do especial Ajeum- A força da comida

postado por Cleidiana Ramos @ 10:30 AM
20 de novembro de 2015

Durante a produção do vídeo Vamo Ngudiá trabalhamos em dobro, mas também nos divertimos muito. E o resultado foi o que nos deixou mais felizes ainda. Confiram.

Rosalvo Neto, da equipe do Instituto Mídia Étnica, ajusta microfone para o chef Alício Charoth. Foto: Marco Aurélio Martins/ Ag. A TARDE

Rosalvo Neto, da equipe do Instituto Mídia Étnica, ajusta o microfone para o chef Alício Charoth. Foto: Marco Aurélio Martins/ Ag. A TARDE

Troca de impressões sobre o trabalho entre a designer Ludmila Cunha, responsável pela criação gráfica e diagramação do especial, e Meire Oliveira, repórter e uma das editoras do espeical. Foto: Marco Aurélio Cunha/Ag. A TARDE

Troca de impressões sobre o trabalho entre a designer Ludmila Cunha, responsável pela criação gráfica e diagramação do especial, e Meire Oliveira, repórter e uma das editoras . Foto: Marco Aurélio Cunha/Ag. A TARDE

 

Momento para discutir detalhes da gravação. Foto: Marco Aurélio Martins/ Ag. A TARDE

Momento para discutir detalhes da gravação. Foto: Marco Aurélio Martins/ Ag. A TARDE

Conheça as receitas do Vamo Ngudiá

postado por meire.oliveira @ 10:29 AM
20 de novembro de 2015

Conheça, na íntegra, as receitas de todos os pratos e bebidas criados pelos estudantes de gastronomia que participaram do Vamo Ngudiá do especial da consciência Negra de A TARDE.

Cláudia Cristina Santos

GALINHA BAIANA À ZUMBI

Prato principal de Cláudia Santos

Prato principal de Cláudia Santos. Foto: Marco Aurélio Martins/ Ag. A TARDE

Ingredientes

2 kg de sobrecoxa de galinha sem pele
3 cebolas grandes
8 dentes de alho
5g de pimenta do reino
3 unidades de raiz de cúrcuma inteira( açafrão da terra) ou 01 colher de sopa do em pó
15g de gengibre
150g de amendoim torrado
150g de castanha de caju torrada
350g de camarão seco
Suco de limão (3 unidades)
Polpa de coco verde (1 unidade)
100ml de água de coco verde
1l de água morna
75g de fubá de milho
8 unidade de quiabo
6 unidades de pimenta malagueta vermelha
Sal grosso à gosto
1/3 de maço de coentro
1/3 do maço e cebolinha

Preparo do guisado : temperar os pedaços de galinha com sal grosso, pimenta do reino preta , 4 dentes de alho e parte do gengibre ralado. Marinar por no mínimo uma hora. Processar o amendoim, a castanha de caju, uma parte da cebola e cerca de 70g do camarão seco , suco de 01 limão, a polpa e a água do coco verde. Reservar. Numa panela média, refogar em azeite de oliva, 8 camarões secos inteiros. Adicionar os pedaços de galinha, refogar junto com os camarões até dourar levemente, e adicionar o uma cebola e meia picada. Refogar por mais cerca de 15 minutos. Adicionar a raiz de cúrcuma, ralada na hora, e continuar refogando por mais 5 minutos. Adicionar o restante do gengibre, ralado na hora, refogar por mais cinco minutos e adicionar água quente, o suficiente para cobrir a galinha. Cozinhar por cerca de 25 minutos, sem deixar secar. Com a carne da galinha ainda tenra, adicionar a mistura processada e mexer. Adicionar mais água e cozinhar em fogo médio até a galinha ficar macia . Desligar o fogo e finalizar com um pouco do coentro picado.

Preparo do pirão de milho: retirar uma parte do molho do guisado, cerca de 500mL, e processar num liquidificador. Transferir para uma panela e adicionar, sob agitação, uma pequena parte do fubá de milho. Levar ao fogo e adicionar aos poucos, sem parar de agitar, o restante do fubá de milho até consistência desejada, soltando do fundo da panela.

Preparo do molho Nagô: triturar em pilão ou num processador 200g o camarão seco. Reservar. Cozinhar os quiabos inteiros por 5 minutos e resfriar em água gelada. Reservar. Picar bem (muito bem) as pimentas, a cebola, o alho, o coentro e a cebolinha. Juntar tudo e misturar bem. Adicionar o suco de dois limões e misturar. Cortar os quiabos em fatias diagonais e juntar aos demais ingredientes. Corrigir o sal, se necessário ( os camarões secos já são salgados). Servir em temperatura ambiente. Montar o prato, conforme desejado, decorar com camarão inteiro e servir.

ARROZ DOCE CREMOSO COM FAROFA DE COCO RALADO

O arroz doce que parecia um sorvete

O arroz doce que parecia um sorvete. Foto: Marco Aurélio Martins/ Ag. A TARDE

Ingredientes

450g de arroz branco
1l de água
10g de sal
1l de leite integral
750ml de leite de coco seco ralado
180g de açúcar
25g de manteiga de garrafa
2 unidades de canela em pau
1 limão
6 gemas de ovo
10g de Canela em pó ( opcional)

Preparo

Cozinhar o arroz em água e sal até quase secar.Processar 2/3 do coco seco ralado com cerca de 500ml de água quente. Passar na peneira ou num pano limpo , recolher e reservar.Ferver o leite integral com a canela e a manteiga.Adicionar o leite fervendo ao arroz cozido, em fogo médio, sem parar de agitar. Adicionar o açúcar e as raspas do limão, agitando sempre.Adicionar o leite de coco seco, sob agitação. Numa tigela, juntar um pouco do arroz quente às gemas de ovos ( temperar) e depois juntar à panela, agitando sem parar.Cozinhar, em fogo brando, por mais cerca de 05 minutos. Esfriar e levar a geladeira.

Preparo da farofa de coco queimado

Numa panela seca, colocar o restante do coco seco ralado.Levar a fogo baixo, mexendo sempre.Quando começar a dourar, adicione cerca de 10g de açúcar e pitada de sal.Mexer até que doure completamente. Conservar em recipiente fechado.Servir o arroz doce cremoso gelado coberto com a farofa de coco queimado.

ALUADA (bebida em referência ao Aluá)

A Aluada que leva abacaxi

A Aluada que leva abacaxi. Foto: Marco Aurélio Martins/ Ag. A TARDE

Ingredientes

1 abacaxi grande e maduro
500ml de água gelada
160g de açúcar mascavo
20g de gengibre
6 unidade de cravo
150ml de cachaça

Preparo

Descascar o abacaxi e cortar a polpa em pedaços médios. Processar a polpa do abacaxi com a água gelada.Numa jarra, Juntar ao suco de abacaxi o açúcar mascavo, os cravos e o gengibre (ralado na hora). Agitar e levar a geladeira , por no mínimo 4 horas. Filtre o líquido e adicione a cachaça, preferencialmente, minutos antes de servir.Servir gelado.
Luciane Dias

BODIROCA

Bodiroca de Luciane Dias

Bodiroca de Luciane Dias. Foto: Marco Aurélio Martins/ Ag. A TARDE 

Ingredientes

1kg de camarão fresco
1kg de mandioquinha descascada
100g de cebola picada
100g de tomate picado
20g de alho picado
1 maço de coentro picado
200ml de leite de coco
50ml de azeite de oliva
5g  de sal
200ml de água de coco
Modo de fazer
Coloque as mandioquinha com a metade da da cebola e 2l de água e leve ao fogo por cerca de 25 minutos e deixe cozinhar até secar. Depois acrescente a água de coco e bata no liquidificador até formar um creme. Reserve.Tempere o camarão com alho, sal e azeite. Depois é dourar no azeite de oliva em fogo alto. Adicione cebola, tomate e deixe cozinhar por 5 minutos. Acrescente a mistura de mandioquinha batida, o leite de coco e o coentro. Deixe ferver por 2 minutos.

MANJAR DE MAINHA

Ingredientes

100g de farinha de milho branco
1 litro de leite
2 cocos médios
100g de açúcar
1 pitada de sal
2 cocos verde

Modo de fazer
Faça o leite de coco fresco com os dois cocos e mais 500ml de leite líquido. Tem que ficar bem concentrado.Reserve.Faça outra mistura com açúcar, farinha de milho branco, uma pitada de sal e 500ml de leite e bata no liquidificador. Depois leve ao fogo por cerca de 30 minutos, sempre mexendo. Adicione o leite de coco aos poucos até cozinhas e ficar com consistência de mingau. Coloque no refratário e deixe descansar por 2 horas.
CALDA DE COCO E ERVA DOCE FRESCA

Leve 100ml do leite de coco ao fogo brando com a erva doce por 10 minutos. Reserve.Faça o caramelo de coco verde com as duas unidades. Eles devem ser cortados em lascas. Leve ao fogo 100g de açúcar E 10ml de água até ficar em ponto de caramelo e acrescente o coco laminado até ficar no ponto cremoso.

MAMJUBÁ

Ingredientes

50g de casco de jatobá
500ml de cachaça
200ml de agua
100g de açucar
500g de caju
10gde cravo da índia
10g de canela em pau
6 unidades de caju maduro
10g de gengibre

Modo de fazer
Coloque em uma panela a água, 250ml da cachaça e o jatobá. Leve ao fogo brando por 30 minutos e deixe descansar por três horas. Junte as especiarias, o açúcar e o caju e leve ao fogo por cerca de  40 minutos. Após o cozimento, adicione a redução do jatobá e deixe descansar por 3 horas. Depois,leve a geladeira por 30 minutos e sirva.

 

Iago Luz

MOQUENYAMA DE CAMARÃO

Ingredientes

1,5 kg Camarão fresco
100g Camarão seco processado
2kg de inhame
100ml Azeite de dendê
150g Castanha
150g Cajuzinho do cerrado
1 limão
2 unidade de biri-biri
4 cebolas
3 tomates
4 dentes de alho
1 pimentão
2 cocos seco
1 maço coentro
1 maço cebolinha
Gengibre
Pimenta de cheiro
Pimenta malagueta
Sal

Modo de Preparo
Assar o inhame em rodela bem espessa com sal. Retirar o miolo e reservar.Temperar o camarão com sal e pimenta-do-reino e marinar com suco de limão e biribiri.Extrair o leite de coco e reservar.Cortar metade da cebola, tomate e pimentão em rodelas e a outra metade picadinho, juntamente com o alho, gengibre e as pimentas. Refogar no azeite de oliva o tempero picadinho. Adicionar o camarão seco processado, as castanhas e o camarão fresco, e a outra metade do tempero em rodelas. Colocar o leite de coco. Finalizar com o cajuzinho do cerrado, azeite de dendê, coentro e cebolinha.Servir na base do inhame assado. Acompanhado de farofa de beiju com castanhas. É só colocar os dois ingredientes com a manteiga de garrafa até dourar.

BEIJU COLADO

Ingredientes

4 cocos verde
1 cocos seco
700g açúcar
60g  de cravo
200g de beiju
200g cajuzinho do cerrado
100ml de água

Modo de Preparo
Extrair o leite coco e reservar. Colocar em uma panela a água de coco, 500g de açúcar e o cravo e deixar ferver. Adicionar a polpa do coco verde, em fogo alto mexendo de vez em quando até obter uma mistura mais firme. Colocar em uma assadeira e colocar na geladeira. Umedecer o beiju com o leite de coco. Fazer uma calda de cajuzinho do cerrado. Levar ao fogo numa panela 200g de açúcar, água e cajuzinho do cerrado fatiado ao meio, adicionar cravo, canela e anis até formar uma calda consistente.Servir a cocada de coco verde sob o beiju e finalizar com a calda de cajuzinho do cerrado.

MARESIA DO MATO (bebida)

Ingredientes

200g de maracujá do Mato
5g gengibre
50ml de licor de capim santo
200ml de cachaça
1L água de coco
Açúcar
Mel

Modo de Preparo
Despolpar o maracujá do mato. Ralar o gengibre. Misturar com o licor de capim-santo, a cachaça e a água de coco. Adoçar com açúcar e mel. E servir com gelo.

SHOT DE CACAU

100g de polpa de cacau
20g de cacau em pó
500ml de água
250ml de cachaça de cacau

Modo de Preparo
Bater a polpa de cacau com água no liquidificador. Adicionar a cachaça de cacau. Finalizar com o cacau em pó.

 

 

 

Herança africana inspira artista para criar troféus

postado por meire.oliveira @ 10:23 AM
20 de novembro de 2015
Rodrigo é autor dos troféus Ousadia, Força e Leveza

Rodrigo é autor dos troféus Ousadia, Força e Leveza

O artista plástico Rodrigo Siqueira, 34 anos, é autor dos troféus que premiaram os estudantes de gastronomia do  Vamo Ngudiá (fotonovela e vídeo), que integra  Ajeum – A força da comida, especial de A TARDE em comemoração ao Dia Nacional da Consciência Negra. A criação de cada peça teve como base os temas  ”ousadia”,  ”força” e “leveza”. Eles  traduzem as características que fizeram os aspectos da herança africana resistirem e influenciarem a formação de outras culturas.

Cada escultura veio em forma de uma mulher africana com uma panela onde foi colocado o elemento representante de cada símbolo escolhido. “A dona da panela é Oxum. E a africana é o toque ancestral que até hoje é base de pratos contemporâneos”, diz o artista que também é religioso do candomblé. O material utilizado na construção das peças foi resina com pó de mármore, além da panela de cerâmica e a placa de metal.

A definição dos símbolos teve o universo do tema como inspiração. “A ideia da colher de pau surgiu como a extensão do braço de quem tem o poder de comandar e inovar. E também representa o legado da ancestralidade que fundamenta tudo isso”, conta Rodrigo. A segunda escultura com a pimenta traz a simbologia da força. As pimentas são naturais e foram revestidas de resina. A obra que representa a leveza também tem o elemento em sua forma natural. “Não tem nada mais leve na comida que as folhas e as especiarias que carregam muito conhecimento desse legado, no entanto, podem ser levadas pelo vento”, explica Rodrigo.

A atuação no âmbito da religiosidade tem sido frequente no trabalho do artista que também assina uma exposição permanente no terreiro Ilê Obá L´Okê, localizado em Vilas do Atlântico. O acervo engloba dois trabalhos: a mostra Ori Orixá, que consiste em 19 bustos de orixás, e a Na palma de minha mão que são 12 telas que representam divindades da religião de matriz africana. A visitação é gratuita e ocorre às terças e quintas, das 9h às 16h. É necessário agendar pelo telefone: 3287-0435. “Procuro resgatar imagens a partir da valorização dessa herança africana e redesenhar a forma como a religiosidade é retratada”, diz.

A iniciativa é do projeto “Brasil com Artes” que busca valorizar a cultura afro-brasileira em suas variadas expressões. A coordenação é de Rodrigo e do antropólogo e professor Ufba, Vilson Caetano de Sousa Junior.

Trajetória

Rodrigo começou a carreira como carnavalesco atuando, por 17 anos, no eixo Rio de Janeiro- São Paulo. Há quatro anos faz trabalhos no carnaval de Macapá (Amapá). No currículo, o artista amazonense que começou a estudar arte aos 7 anos, também agrega as profissões de cenógrafo, escultor, produtor de eventos e estilista.

Especial aborda as delícias e tempero cultural da cozinha baiana

postado por Cleidiana Ramos @ 2:18 PM
19 de novembro de 2015
Foto: Marco Aurélio Martins/ Ag. A TARDE

Foto: Marco Aurélio Martins/ Ag. A TARDE

A edição nº 13 do especial em comemoração ao Dia Nacional da Consciência Negra circula amanhã, sexta, dia 20,  em meio a muitas novidades.

Além da variação de linguagens narrativas na versão impressa – experimentação literária; textos bem próximos da oralidade; certo tempero poético, fotonovela e infografias – um material multimídia vai tornar o especial, que navega pelo universo da comida, ainda mais saboroso.

Uma das nossas experimentações foi  produzir uma versão inspirada nos já famosos games gastronômicos que invadiram a TV. Mas em nossa produção o que importa não é a competição, mas a transmissão de valores como solidariedade, memórias afetivas, capacidade de ouvir e ousadia para criar.

O vídeo foi produzido por meio de uma parceria com o Instituto Mídia Étnica (IME), organização voltada para a formação de comunicadores negros que está festejando dez anos, no próximo sábado. Saiba mais sobre o IME clicando aqui.

Elenco  

Toparam o desafio de preparar uma refeição – prato principal, bebida e uma sobremesa – os estudantes de gastronomia, Cláudia Santos, 42 anos, 9º semestre, Ufba; Luciane Dias , 37 anos, 3º semestre, Faculdade Batista Brasileira e Iago Luz, 21 anos ( 6º semestre, Ufba).

Claudia Santos, Luciane Dias e Iago Luz. Foto: Marco Aurélio Martins / Ag. A TARDE

Claudia Santos, Luciane Dias e Iago Luz. Foto: Marco Aurélio Martins / Ag. A TARDE

Os pratos passaram pelo crivo de uma equipe de peso: os chefs Alício Charoth; Angélica Moreira, Beto Pimentel e Matheus Almeida.

Os chefs Beto Pimentel, Angélica Moreira, Matheus Almeida e Alício Charoth. Foto: Marco Aurélio Martins

Os chefs Beto Pimentel, Angélica Moreira, Matheus Almeida e Alício Charoth. Foto: Marco Aurélio Martins

Em um primeiro momento, os estudantes apresentaram suas ideias e receberam orientações.

O momento em que ouviam as sugestões dos mestres. Foto: Marco Aurélio Martins/ Ag. A TARDE

O momento em que ouviam as sugestões dos mestres. Foto: Marco Aurélio Martins/ Ag. A TARDE

Depois foram para a cozinha meter a mão nos mais variados ingredientes para preparar suas surpresas. Os detalhes e desfecho dessa história vocês conferem no vídeo intitulado  Vamo Ngudiá. Veja um aperitivo :

A escolha do nome

A frase é uma brincadeira unindo o nosso português falado dia-a-dia e a a palavra que convida a comer na língua kimbundu, que é um dos muitos elementos culturais que herdamos dos povos angolanos.

É por conta da sua forte influência que usamos palavras como samba, moleque e nem nos damos conta.

Para escolher essa palavra consultamos Taata Lubitu Konmannanjy,  especialista em língua banto  que é o nome do grupo linguístico que o kimbundu integra. Taata Konmannanjy é  presidente da Associação Nacional Cultural de Preservação do Patrimônio Bantu (Acbantu).

Sediada em Salvador, a Acbantu reúne terreiros de candomblé de nação angola, grupos de congada, quilombos e outras associações com essas características, espalhadas pelo Brasil.

Quer saber mais sobre a Acbantu? É só clicar aqui

Roteiro

Portanto, amanhã, confira o especial encartado no jornal A TARDE e a sua extensão em conteúdos digitais no Portal A TARDE

Aqui no Mundo Afro o espaço será para produções extras  como artigos, álbum das fotografias realizadas pelo fotógrafo Marco Aurélio Martins, bastidores da produção do especial  e muito mais. 

Balaio de Ideias: Precisamos de respeito

postado por Cleidiana Ramos @ 10:07 AM
18 de novembro de 2015
Mãe Valnizia analisa celebrações de novembro. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE/ 2.12.2014

Mãe Valnizia analisa celebrações de novembro. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE/ 2.12.2014

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre

Ao escrever este texto no mês de novembro não posso deixar de falar dos mortos, ou seja, dos espíritos e ancestrais, apesar de achar que eles podem ser homenageados em qualquer período. Diariamente, morrem milhares de pessoas, assim como nascem outras. Mas o comércio sempre aproveita datas comemorativas para vender mais. Com o Dia de Finados ocorre a oportunidade de usar a homenagem para se obter lucro. Acontece o mesmo com o Natal, São João e demais ocasiões festivas.
Portanto, em 2 de novembro os mortos são homenageados, mas eu, particularmente, não acredito que espíritos, ancestrais ou eguns fiquem presos em um caixão ou túmulo.
Imagino que as pessoas quando partem para o estado que considero de origem permanecem onde desejam ficar, inclusive no coração de parentes e amigos. Às vezes conversamos com eles, que nos escutam do lugar onde estamos. Daí que ir ao cemitério considerando que ali estão as pessoas que nos são queridas e partiram torna-se complicado, principalmente em um mundo repleto de fraudes.
São muitas as histórias de famílias que pagaram, anualmente, pelos serviços de limpeza dos túmulos onde deixaram os restos mortais de seus ancestrais, mas não ficaram sabendo quando eles foram transferidos de local para acomodar outros, diante da falta de espaço no cemitério. Infelizmente, coisas assim têm acontecido.
Mas ainda em novembro comemora-se a Proclamação da República, como aconteceu no último domingo. Esse dia foi o escolhido pelas comunidades dos terreiros de candomblé do bairro do Engenho Velho da Federação para realizarem uma caminhada reivindicando respeito às religiões afro-brasileiras. Digo respeito pois não gosto da expressão “tolerância”. Ninguém precisa aprender a nos “tolerar”, mas, sim, respeitar.
Respeito é algo que nós, povo de candomblé, aprendemos e ensinamos dentro dos nossos terreiros. Convivemos com a diversidade tranquilamente. Aliás, está escrito na Constituição brasileira que todo cidadão tem o direito de professar a religião que deseja. Nosso direito, portanto, é adquirido.
Além de reivindicar respeito pela nossa religião, pedimos também pela paz do mundo; do nosso país, estado, cidade e bairro. Estamos em um momento em que precisamos nos juntar como irmãos para trocarmos energia. Essa possibilidade de unir forças é um dos momentos mais importantes dessas caminhadas, como aconteceu agora em sua 11ª edição.
Na próxima sexta-feira estaremos comemorando o Dia Nacional da Consciência Negra. Tenho dúvidas se há muito para festejar com tanta desigualdade social e centenas de jovens negros morrendo, todos os dias, no Brasil.
Para a população negra, o acesso à saúde e segurança é precário. Nossas crianças passam metade do ano letivo sem ter aulas. As escolas que as acolhem seguem em reforma ou com os professores em greve reivindicando melhores salários, pois são muito mal remunerados. Portanto, são questões para refletir.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA

Balaio de Ideias: Viva o meu pai Ayrá!

postado por Cleidiana Ramos @ 2:25 PM
7 de outubro de 2015
Mãe Valnizia fala da beleza de ser iniciada para o orixá Ayrá. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE/ 2.12.2014

Mãe Valnizia fala da beleza de ser iniciada para o orixá Ayrá. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE/ 2.12.2014

Valnizia Pereira Bianch- Ialorixá do Terreiro do Cobre

Escrever este artigo no mês de outubro é muito gratificante. É o mês em que fui iniciada no candomblé para o orixá Ayrá. Falar desse senhor para mim é uma honra. Costumo dizer que pode existir uma energia igual a ele, mas maior só a de Deus, o todo poderoso. Amo tanto meu pai Ayrá que tenho certeza de que ele me ama também. Ele me orienta, ensina, educa, protege e se faz presente nos momentos mais difíceis da minha vida. Aliás, ele está presente diariamente. Tanto que durmo e acordo me entregando a ele. Eu vivo para ele. Tenho tanta fé em Ayrá que, se isso for indício de fanatismo, posso dizer que sou fanática.

Quando meus filhos dizem que ele é lindo, fico muito feliz, mas com inveja de não poder também conhecê-lo quando está na terra. Já o vi em sonho, mas é diferente de ver como meus filhos o veem. Por coincidência, o aniversário do meu caboclo também é neste mês.

Quando fui iniciada, 12 de outubro não era feriado em homenagem à padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida. Também não era forte a lembrança do Dia das Crianças, mas eu sempre tive uma boa relação com elas. Quando trabalhava em uma escola, onde fazia a merenda, às vezes comprava ossos e verduras para incrementar a sopa e não deixá-las com fome. Há algum tempo, portanto, resolvi fazer no Terreiro do Cobre uma festa para a garotada.

A comemoração começou quando Ayrá recebeu um presente em forma de dinheiro de um filho de santo. Pensei: “Comprar um presente para Ayrá? O que eu vou comprar?”. Como é o aniversário dele e dia de festa para as crianças, resolvi adquirir lembrancinhas e docinhos. Fiz 50 kits, mas, mesmo sem divulgar, apareceram muitas, e algumas ficaram sem receber. Fiquei tão triste que até chorei.

No ano seguinte, comecei a pedir aos meus filhos de santo e amigos ajuda para fazer os kits, sempre contendo brinquedos, porque é o que toda criança, além de alimentação, gosta de ganhar. Sei que elas não conseguem entender por que não podem ter os caros e cheios de tecnologia que veem na televisão. Em muitos casos, seus pais não podem dar nem os mais simples. Aí é que está o perigo. Elas podem crescer e tentar possuir o que desejam de uma forma negativa. Mas graças a Deus e a Ayrá, com a ajuda de alguns filhos e amigos, a edição do ano passado teve pula-pula, piscina de bolinhas, escorregadeira, sorvetes, cachorro-quente e até uma animadora de festas profissional.

Distribuímos 250 kits de brinquedos. Isso para mim é muito gratificante, pois tenho a oportunidade de fazer crianças sorrirem. Na minha infância não ganhava brinquedos caros. Por isso sei o que uma criança sente em um dia como esse.

Portanto, que a Nossa Senhora dos católicos proteja todas as crianças do mundo. E que a bola de fogo, que é o meu pai Ayrá, aqueça o coração das pessoas; dono da Justiça, que ele a faça aos injustiçados; orixá da alegria, que a distribua ao mundo; que ele traga a paz, pois é quem carrega Oxalá quando este está presente em cerimônias; como é o Xangô mais velho, que dê sabedoria aos seres humanos. Viva a voz da experiência. Viva meu pai Ayrá!

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA

Câmara faz homenagem a Pai Air, herdeiro da família Bamboxê

postado por Cleidiana Ramos @ 6:00 PM
28 de setembro de 2015
Os 70 anos de iniciação religiosa de Pai Air é motivo de uma sessão especial na Câmara de Salvador. Foto: Fernando Vivas/ Ag. A TARDE

Os 70 anos de iniciação religiosa de Pai Air é motivo de uma sessão especial na Câmara de Salvador. Foto: Fernando Vivas | Ag. A TARDE

A Câmara de Salvador faz, amanhã, terça, às 19 horas, uma sessão especial para festejar os 70 anos de iniciação religiosa do babalorixá Air José, líder do Pilão de Prata. 

A homenagem celebra também a resistência de uma longa linhagem familiar que tem sido extremamente importante para a consolidação do candomblé no Brasil: a família Bamboxê Obitikô.

Pai Air, por exemplo, foi iniciado por sua tia biológica, Caetana Sowzer, sacerdotisa da Casa Branca e fundadora do terreiro Làjoumim , localizado no Engenho Velho da Federação. Foi ela também quem o auxiliou na fundação do Pilão de Prata.

“É raro que afrodescendentes baianos tenham a oportunidade de conhecer a árvore genealógica de sua família tão detalhadamente como acontece com pai Air José”, destaca o vereador Sílvio Humberto (PSB), autor do requerimento que possibilitou a realização da sessão.

Além disso, de acordo com o vereador, é uma ação importante na luta para combater a intolerância religiosa.

“No momento em que percebemos a persistência de casos de intolerância religiosa essa sessão é uma afirmação de respeito às religiões de matriz africana”, diz o vereador.

História

Pai Air José é descendente de Bamboxé Obitkô, título do africano Rodolfo Manoel Martins de Andrade. “Mais conhecido por seu nome iorubá, Bamboxê Obitikô, ele é um dos personagens históricos mais ilustres do candomblé”, afirma Lisa Earl Castillo, pesquisadora do curso de pós-doutorado do Centro de Pesquisa em História Social da Cultura da Unicamp.

Sacerdote de Xangô e babalaô – título dado aos iniciados no culto de Ifá, divindade dos oráculos – Bamboxê tem sua história ligada a terreiros como a Casa Branca, considerado o mais antigo dentre os de nação ketu (culto de orixás) no Brasil.

“Ele , é lembrado também no Recife e no Rio de Janeiro por seu papel na fundação de dois terreiros antigos, o Sitio de Pai Adão e o Ilê Axé Opô Afonjá no Rio de Janeiro”, completa a pesquisadora.

Lisa Castillo destaca que, além de iniciar várias pessoas, Bamboxé Obitikô deixou uma linhagem biológica que se manteve em evidência na consolidação do candomblé na Bahia. Ele deixou descendentes também em Lagos, na Nigéria.

Dentre os baianos estão seu neto biológico Felisberto Américo Sowzer e suas filhas Caetana América Sowzer, Regina Topázio Sowzer e Irenea Topázio Sowzer. “Todas as três se tornaram ilustres ialorixás”, completa Lisa.

No ramo nigeriano, outra descendente de Bamboxé é a política e radialista Erelu Lola Ayonrinde Bernardina Bamgbose Martins. Natural de Lagos, atualmente ela mora na Inglaterra.

“ Como Caetana, sua prima brasileira, Erelu é também apetebi , nome que se dá à sacerdotisa de adivinhação de Ifá”, acrescenta Lisa Castillo.

Pilão de Prata em ciclo de homenagens

postado por Cleidiana Ramos @ 9:37 AM
24 de setembro de 2015
Pai Air festeja 70 anos de iniciação religiosa. Foto: Fernando Vivas |Ag. A TARDE| 9.12.2004

Pai Air festeja 70 anos de iniciação religiosa. Foto: Fernando Vivas |Ag. A TARDE| 9.12.2004

Começou o ciclo de comemorações aos 70 anos de iniciação religiosa do babalorixá Air José, líder religioso do Pilão de Prata que, em janeiro, celebra também os 50 anos de fundação. 

Amanhã, sexta-feira, 25, às 9 horas, tem sessão especial na Assembleia Legislativa, a partir das 9 horas.

No sábado é a vez de um show musical na Praça Teresa Batista, no Pelourinho.

Na próxima terça-feira será a vez da sessão especial na Câmara Municipal a partir das 19 horas.

Pai Air José é descendente de Bamboxé Obitikô, sacerdote do culto de Xangô que teve um papel extremamente importante no processo de organização do candomblé baiano.

Balaio de Ideias: Não me deem motivos

postado por Cleidiana Ramos @ 4:48 PM
10 de setembro de 2015
Mãe Stella analisa os impactos da tristeza. Foto:  Mila Cordeiro/ Ag. A TARDE / 1.10.2014

Mãe Stella analisa os impactos da tristeza. Foto: Mila Cordeiro/ Ag. A TARDE / 1.10.2014

Maria Stella de Azevedo Santos

Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá

Tim Maia cantava: “Me dê motivos para ir embora.” Eu digo: Não me deem motivos para ir embora! Por favor, construam e exponham para mim argumentos suficientemente convincentes para que eu deseje permanecer em um mundo onde os seres humanos disputam sem nem mesmo saber pelo que estão disputando; onde creio que tantas pessoas estejam diariamente realizando “o bom combate”, mas os meios de comunicação insistem em mostrar o que de ruim a humanidade produz.
Não entrarei no lugar comum de culpar os meios de comunicação. Também não culparei a atração natural que nós humanos temos pela tragédia. Aliás, não culparei nada nem ninguém. Culpa não é um sentimento que tendo a imputar aos outros, muito menos a mim. Como costumo dizer, seriamente brincando com a gramática: somos o que somos em progressão crescente.
Pesquisamos e descobrimos o pedido que o cantor da banda Charlie Brown Jr. fazia cantando, também pedindo insistentemente: “Me Dê Motivos Pra Sonhar.” Chorão morreu, ou melhor, buscou o mundo de sonhos onde, provavelmente, jamais encontraria: nas drogas. Seu companheiro de banda, Champignon, também se matou, desta vez com um tiro, em 9 de setembro de 2013. Quando Champignon perdeu dois de seus companheiros de música e poesia, o vocalista Chorão e o guitarrista Peu Sousa, declarou:
“Os dois perderam a fé. Quando perdem a fé, perdem a vontade de viver. Foi mais um dia muito triste… Eu acho que as pessoas, em algum momento da vida, perdem a fé. Independentemente se morrem por droga, ou enforcadas. Se perdem a vida sem culpa de ninguém, acredito que em algum momento perderam a fé.”
O que estamos fazendo ou faremos para que outras pessoas sensíveis não mudem de dimensão porque esta daqui está insuportável para elas? Acordei no dia 8 de setembro de 2015 com uma imensa vontade de escrever sobre a insensibilidade com que são tratadas as pessoas mais sensíveis; com uma “querência” enorme de não viver em uma “sociedade de poetas mortos”. As palavras iam sendo escritas na mente quando me lembrei que, durante a noite, tinha recebido um aperto de mão de meu pai já falecido.
Compreendi que os seres de outra dimensão desejavam falar comigo. Quem seriam eles? – perguntei-me. Foi só no decorrer do texto que um nome surgiu em minha mente: Chorão. Pensei que esta palavra simbolizava o choro pelas perdas por morte, mas uma de minhas filhas lembrou-se do cantor acima referido e pesquisando na internet descobriu que no dia 9 de setembro de 2015 faria dois anos de morte de seu companheiro Champignon.
Minhas bênçãos, então, a todos que se foram por que não suportaram a dureza dos moradores de nosso planeta, acompanhada de um pedido, ou melhor, de uma súplica: Não permitamos que o mundo em que vivemos se transforme, sem retorno, em uma sociedade de poetas mortos. Cumprindo minha parte, encerro com um poema de Pablo Neruda: “Desde então, sou porque tu és. E desde então és sou e somos… E por amor Serei… Serás… Seremos…”

Balaio de Ideias: O poder da palavra e o mês das festas

postado por Cleidiana Ramos @ 1:10 PM
9 de setembro de 2015
Mãe Valnizia faz mais uma bela análise sobre o poder da palavra e as festas de setembro. Foto:  Joá Souza/ Ag. A TARDE Data: 20/03/2015

Mãe Valnizia faz mais uma bela análise sobre o poder da palavra e as festas de setembro. Foto: Joá Souza/ Ag. A TARDE
Data: 20/03/2015

Valnizia Pereira Bianch 

Ialorixá do Terreiro do Cobre

A palavra é muito poderosa. Ela pode criar, destruir, alegrar, entristecer, abrigar, desabrigar, aconselhar, trazer a felicidade, mas também infelicidade. A palavra também tem o poder de matar e salvar; de educar e alfabetizar. Aproveitando o cortejo, é bom ressaltar que, ontem, dia 8, comemoramos o Dia da Alfabetização, que é a base da vida, porque, sem educação, não se tem o poder da palavra nem um bom futuro. Infelizmente, no Brasil, a educação é muito precária. Vamos pedir a Deus que melhore, pois só com educação podemos formar cidadãos para um futuro melhor.

A palavra é tão importante quanto a primavera que está chegando e trazendo o verde das árvores, a beleza e o colorido das flores, além da calmaria das folhas. Elas param de cair com o vento do inverno, que só a poderosa Oyá pode conduzir, pois ela comanda o vento e as tempestades. Vamos pedir a ela que nos traga bons ventos para o nosso futuro.

Além dessas duas ocasiões que citei, setembro celebra o Dia da Juventude Brasileira, no dia 6; a Independência do Brasil, dia 7; a imprensa, dia 10; a paz – algo que o país está precisando muito –, no dia 16; e as árvores, no dia 21. Tem ainda o dia 27, quando se comemoram os santos Cosme e Damião, que, na cultura do sincretismo, simbolizam os Ibejis. Esta festa traz boas recordações da minha infância. Era época em que as pessoas ofereciam caruru, mesmo sem ser de candomblé.

Rezava-se também a ladainha de são Cosme e, quando terminava, tinha samba de viola a noite toda. Sete crianças sentavam em uma esteira estendida no meio da casa e no centro de onde elas estavam colocava-se uma bacia ou um alguidar com todas as comidas e um pedaço de frango para cada criança.

Era uma folia: cada um queria pegar a galinha do outro e, por isso, era o que se comia primeiro. Quando a gente acabava, bebia aruá e recebia doces. Era uma grande festa para as crianças. A dona da casa se vestia de branco e as crianças, depois de comer, limpavam as mãos na sua roupa. É pena que esse tipo de celebração está se perdendo. Hoje, as pessoas preferem dar doces ou colocam o caruru em quentinhas para ser distribuído às crianças ou a quem quiser comer, mas na rua.

Antigamente se colocava o caruru nas folhas de banana ou em uma folha que as pessoas chamavam de “prato de Oxum”, porque parecia com uma concha. Todos comiam com a ajuda das mãos e as limpavam nas pernas para atrair saúde.

Geralmente, nos terreiros de candomblé, se faz cerimônia para os Ibejis dentro do ciclo de festas e não necessariamente no mês de setembro. No Cobre, por exemplo, se comemora a Corda de Ibeji. Na festa, em uma corda que está no teto do barracão, desde o tempo de minha bisavó, são pendurados frutas e doces.Depois dos cantos rituais, as pessoas podem pular e pegar as frutas e doces e é distribuído o caruru. O engraçado é que as crianças chegam para a festa carregando os saquinhos onde vão guardar as frutas. Que os santos Cosme, Damião e os Ibejis protejam todas as crianças dando-lhes uma boa sorte.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA

Reprodução de chamada na capa do jorna em edição do último domingo. Foto: Reprodução

Reprodução de chamada na capa do jornal. Foto: Reprodução

Cleidiana Ramos

Air José Souza é herdeiro de uma das grandes famílias do candomblé baiano, conhecida como Bamboxê Obitikô ou Bámgbósé Obítikó – em grafia original. No próximo mês, ele comemora, além dos 75 anos de idade, sete décadas de iniciação religiosa, uma marca significativa de longevidade e perseverança no culto aos orixás.
Em janeiro do próximo ano, a comunidade liderada por Pai Air tem mais uma celebração: os 55 anos de fundação do terreiro Pilão de Prata, outro integrante da rede de comunidades que são vinculadas à família Bamboxê.
Os outros são o terreiro Lajoumim, localizado no Engenho Velho da Federação, e o conhecido como Roça de Maria Júlia, situado em Luiz Anselmo. Além disso, a família tem fortes ligações com a Casa Branca do Engenho Velho da Federação, considerado o mais antigo terreiro de nação ketu do país (ver texto ao lado).
Tradição
Pai Air é sobrinho biológico de Caetana Sowzer, ebomi da Casa Branca e ialorixá que fundou o terreiro Lajoumim. Ela foi sua mãe de criação e quem o iniciou no candomblé para o orixá Oxaguian, que é conhecido como a face mais jovem e guerreira de Oxalá.
“Embora tenha nascido e crescido dentro de um ambiente de terreiro, na juventude acabei abandonando os estudos e fui para o Rio de Janeiro”, conta.
Quando voltou para a Bahia, ele trouxe algumas pessoas que pensava em deixar sob os cuidados religiosos de Mãe Caetana. Mal sabia que estava traçando o próprio caminho de volta ao candomblé, agora como líder.
“Lembro que ela disse que queria me ver com anel no dedo, mas já que eu não tinha conseguido seguir por essa linha era hora de reencontrar meu destino. Começou a tomar as providências para que eu abrisse o Pilão de Prata ”, conta.
De uma casa simples, coberta de palha, o Pilão de Prata evoluiu para uma bela construção, o que traduz, de certa forma, uma marca de Pai Air, afinal os filhos de Oxaguian são conhecidos pelo forte valor que dão à perfeição.
“Meu pai lembra um leão quando se propõe a realizar alguma coisa, pois não desiste e tem força para estar até o fim em tudo. É líder e muito carismático”, define Carlos Augusto Marques, 68 anos, iniciado para Oxum por Pai Air há 39 anos.
Confirmado há quatro anos como ogã de Xangô, Igor Barbosa, 33 anos, filho de Oxóssi, destaca a liderança participava de Pai Air.
“Ele é um exemplo para toda a comunidade. É o primeiro a se levantar quando o dia começa e o último a deitar. Tudo que acontece no terreiro ele acompanha numa atenção impressionante. Tem controle sobre tudo e passa uma energia enorme”, diz.
Além dessas qualidades, logo no primeiro contato com Pai Air fica patente a elegância dele. Voz pausada, gestos suaves e uma postura que emana força, também é conhecido pelo bom gosto, principalmente para os trajes rituais.
“Quando viajo, minha preocupação é sempre olhar um tecido para o meu orixá e, também, para os dos meus filhos”, relata.
A elegância, aliás, é uma marca dos herdeiros de Bamboxê. Professor e religioso de candomblé, Jaime Sodré costuma dizer que eles guardam a tradição da alta-costura do povo de santo: beleza sem exageros.
O terreiro, inclusive, mantém o memorial Lajoumim, que exibe essa estética de bom gosto em trajes, acessórios, joias e esculturas.
“O nosso esforço é para guardar a memória”, diz o babalorixá, afirmando ter a certeza de que preservá-la tem sido a melhor homenagem aos ancestrais.

Família tem papel relevante na origem do candomblé

Na história oral e em pesquisas recentes sobre a organização do candomblé realizadas por estudiosos como Lisa Earl Castillo e Renato da Silveira, Bamboxê Obitikô, o tataravô do babalorixá Air José, aparece com participação ativa nos ritos de sedimentação do terreiro Casa Branca.
No texto Vida e Viagens de Bamboxê Obitikô, Lisa Earl Castillo conta que, na cerimônia do padê, em uma das orações, ele é reverenciado como Essa Obitikô.
“É uma grande responsabilidade manter a herança dessa família”, diz Pai Air. Além de um alto sacerdote do culto a Xangô, Bamboxê – que tinha o nome civil de Rodolpho Martins de Andrade – era também babalaô, título usado pelos iniciados para Ifá, divindade dos oráculos, e esteve próximo a Mãe Aninha na fundação do Ilê Axé Opô Afonjá.
A filha Maria Júlia Martins Andrade manteve a tradição da família, principalmente na formação do filho Felisberto Américo Sowzer, conhecido como Benzinho, que, assim como o avô, tornou-se babalaô.
Na Casa Branca, a família Bamboxê se manteve com Caetana Sowzer, consagrada a Oxum e que fundou, em 1941, o terreiro Lajoumim bem próximo de onde está a Casa Branca. Mãe Caetana é tia e mãe de criação de Pai Air.
Aspectos dessa história serão detalhados em uma série de eventos que vão acontecer no próximo mês: seminário e sessões especiais na Câmara Municipal e na Assembleia Legislativa, além de um show cultural.
Em novembro, deve ocorrer mais um ciclo de palestras e, em janeiro, o lançamento de um livro.

Balaio de Ideias: Não dá para ser mais ou menos a favor da vida

postado por Cleidiana Ramos @ 10:21 AM
24 de agosto de 2015
Maíra Azevedo analisa debate sobre aborto. Foto: Arquivo pessoal/Divulgação

Maíra Azevedo analisa debate sobre aborto. Foto: Arquivo pessoal/Divulgação

Maíra Azevedo

Em defesa da vida! Esse é um dos primeiros argumentos utilizados pelas pessoas e grupos que se posicionam contra a legalização do aborto no país. Sim, é importante defender o direito a vida e assegurar que todas as pessoas tenham, de fato, a condição de manter-se vivo.

A cada dois dias, uma brasileira (pobre e ouso afirmar que seja também negra) morre por ter sido submetida a um aborto inseguro. Esse sim, um problema de saúde pública associado à criminalização da interrupção da gravidez e à violação dos direitos da mulher. São elas que são culpadas e responsabilizadas cada vez que um aborto é realizado. O nome dos seus parceiros, dos pais das crianças, não entram no processo. Por isso, criminalizar o aborto é condenar essas mulheres várias vezes, que já sofrem com o abandono dos homens, pelo atendimento nos hospitais públicos, pelo preconceito instaurado e pela dor de ter que escolher pela vida.

Outra situação que merece ser desmistificada é que nem todo aborto clandestino é inseguro. Existem clínicas especializadas em interromper gravidez instaladas em bairros nobres, que cobram caro pelos seus “serviços”. Afinal, fazem o procedimento com todas as condições de higiene, por médicos treinados, basta a mulher ter dinheiro para pagar. O aborto inseguro é aquele realizado sem nenhum tipo de higiene ou condição necessária, muitas vezes em locais insalubres. E é aí que novamente condenamos apenas as mulheres pobres.

E depois de condenar as mulheres pela prática do aborto, é chegado o momento de negar o direito de se manter vivo aos seus filhos. É no mínimo contraditório defender o direito de nascer e em seguida matar a nossa juventude. Sim, matam nossa juventude cotidianamente, eliminam-se talentos,quando se defende a redução da maioridade penal ou se cala diante ao genocídio da juventude negra.

É preciso ter coerência, defender um Estado que assegure todos os direitos. Acesso a saúde pública, a segurança, educação, cultura, lazer. Não se pode ser mais ou menos a favor da vida.

Maíra Azevedo é jornalista do grupo A TARDE

Curta auxilia educação e combate à intolerância

postado por Cleidiana Ramos @ 12:48 PM
21 de agosto de 2015
Uma das imagens do curta. Foto: Cristian Carvalho/ Divulgação

Uma das imagens do curta. Foto: Cristian Carvalho/ Divulgação

As cineastas Jamile Coelho e Cintia Maria preparam o lançamento de um atraente recurso que une ação educativa e combate à intolerância religiosa. Trata-se do curta Òrun Àiyê, que usa a técnica do stop motion, uma espécie de “fotografia animada”.

Diante da expectativa em torno do lançamento do filme elas decidiram fazer uma pré-estreia já em novembro, mas na página oficial do projeto no Facebook é possível ir acompanhando vários detalhes sobre a produção.

O material conta a trajetória de criação do mundo a partir da perspectiva dos povos de cultura iorubá. O protagonista é Oxalá que se une a outras divindades para cumprir a missão de formar o universo.

A narrativa com duração de 12 minutos é feita em libras e também está disponível em português, inglês, francês, espanhol e iorubá. As histórias são contadas com narrativa do saudoso historiador Ubiratan Castro de Araújo (1948-2013).

“Esse material paradidático permitirá às crianças e jovens a ampliação da noção de cultura negra trazida da África para o Brasil, proporcionando uma educação que reconheça e valorize a diversidade, comprometida com as origens do povo brasileiro”, afirma Jamile Coelho.

O projeto foi desenvolvido por meio da Estandarte Produções, que atua na criação e gestão de projetos culturais e pedagógicos como oficinas, mostras, festivais e publicações em áudio e vídeo e reúne profissionais de várias áreas.

O curta teve o financiamento, por meio de edital, da Secretaria de Audiovisual do Ministério da Cultura e Fundação Palmares, além do edital de patrocínio 2014 da Companhia de Gás da Bahia (Bahiagás).

A página especial do curta está no endereço: https://www.facebook.com/OrunFilme

 

Lições de fé, resistência e respeito

postado por Cleidiana Ramos @ 12:28 PM
17 de agosto de 2015

Que espetáculo incrível foi o encontro entre a 17ª Caminhada Azoany e a procissão de São Roque ocorrido ontem na esquina da Escola Politécnica da Ufba, na Federação. Duas manifestações religiosas diferentes, mas que demonstraram como se constrói e mantém o mútuo respeito religioso.

Ao se deparar com a procissão, a caminhada, que vem do Pelourinho, parou e seu carro de som começou a tocar a música Jesus Cristo, de Roberto Carlos. Os católicos aplaudiram. Em seguida, a imagem de São Roque, que seguia em um andor, foi saudada pelos clarins. Após as saudações mútuas, cada uma seguiu o seu roteiro.

A Caminhada Azoany é organizada por Albino Apolinário que ajudou a ampliar um evento iniciado por um morador do Pelourinho, seu Martin Fontes, 85 anos, como pagamento de promessa aos orixás Omolu e Obaluaê, senhores da cura e proteção contra as doenças e que dominam os mistérios sobre a vida e a morte.

Ainda hoje, durante a caminhada do Pelourinho ao Santuário de São Lázaro e São Roque, seu Martin segue firme com seu tabuleiro repleto de pipocas, em silêncio e concentrado em sua relação com seus deuses.

Seu Martin segue, concentrado, à frente da Caminhada Azoany. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag. A TARDE

Seu Martin segue, concentrado, à frente da Caminhada Azoany. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag. A TARDE

O culto a São Roque acontece em uma igreja que tem como marca amparar aqueles que sofrem por problemas de saúde e também pelo peso do passar dos anos. É uma história bonita de resistência de um culto em torno da solidariedade e que encontrou traços muito fortes da filosofia africana que o humanizou, sedimentou e ressignificou.

Chegada da Caminhada Azoany ao Santuário de São Lázaro e São Roque. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag. A TARDE

Chegada da Caminhada Azoany ao Santuário de São Lázaro e São Roque. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag. A TARDE

Esse ano, como repórter, tive o privilégio de cobrir a caminhada, mas também de conhecer o ogã Arivaldo Vivas que toma conta da Casa de Omolu e Obaluaê, uma gruta que fica na encosta atrás do hotel Othon Palace e que é ponto de romarias e agradecimento de gente que encontra na fé a força para cura. Lições preciosas, inclusive, para os dias de tanta intolerância.

O ogã Arivaldo Vivas toma conta da gruta que conserva o culto a Omolu e Obaluaê. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag.  A TARDE

O ogã Arivaldo Vivas toma conta da gruta que conserva o culto a Omolu e Obaluaê. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag. A TARDE

Vivas, portanto a São Roque, Omolu, Obaluâe, Azoany, Kavungo e todo a nossa força ancestral.

Sábado tem Varanda das Flores

postado por Cleidiana Ramos @ 1:59 PM
13 de agosto de 2015
Bom programa para o próximo sábado. Foto: Divulgação

Bom programa para o próximo sábado. Foto: Divulgação

Programa muito legal para o próximo sábado, dia 15.  Um coletivo de mulheres talentosas apresenta a Varanda das Flores, o primeiro evento do projeto da DidêManda.

Elas vão mostrar o resultado de suas ações artísticas e o domínio de suas técnicas de empreendedorismo em um misto de feira e apresentação artística.

Além da exposição fotográfica #Azulejodascores haverá a venda de artigos como biojóias, acessórios diversos, óculos de modelos exclusivos, além de oficina de turbante, sarau de poesia, atrações musicais e o que não pode faltar em eventos desse tipo: comida gostosa.

A Varanda das Flores vai acontecer a partir das 13 horas, em Ondina, na Rua Helvercio Carneiro Ribeiro, nº 21. O ponto de referência: após o monumento das Gordinhas, ao lado do Mercadinho Mini Preço.

 

A cura através da espiritualidade

postado por Cleidiana Ramos @ 11:11 AM
12 de agosto de 2015
Mãe Valnizia faz análise sobre  força da espiritualidade. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE/ 2.12.2014

Mãe Valnizia faz análise sobre força da espiritualidade. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE/ 2.12.2014

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre

Neste mês de agosto, os católicos homenageiam são Roque e também são Lázaro, que, no sincretismo, simbolizam Omolu ou Obaluaê, o orixá da cura. Mesmo quem não é de candomblé tem o costume de distribuir pipocas todas as segundas-feiras em casa e também pelas ruas com tabuleiros. Sei que no candomblé são Lázaro ou são Roque não são Omolu nem Obaluaê, mas os mais velhos não sabiam, mesmo porque foi o que impuseram a eles nas senzalas. Isto, de uma forma ou de outra, serviu como escudo durante muitos anos para que eles pudessem cultuar o sagrado em que acreditavam.

Com toda perseguição e dificuldades, mas com inteligência, usavam as imagens dos santos católicos e escondiam os elementos da natureza embaixo delas para poder cultuar sua crença ao longo dos anos, e a foram passando de pai para filho. Aí está o sincretismo.

Penso que, de uma forma ou de outra, acreditar ou cultuar a espiritualidade é importante para o ser humano, pois viver somente do material sempre deixa a sensação de que está faltando alguma coisa na vida. Seja qual for a religião, o importante é acreditar no sagrado, pois ele é que ajuda a nos curar.

Existem vários tipos de cura. Uma se adquire através da família, porque ela é equilíbrio por mais difícil que seja. Todo grupo familiar tem momentos bons de convivência. Mesmo quando não é com todos os parentes, sempre tem algum que dá alegria ao estar perto.

Existe a cura por meio do amor de amigos, porque a amizade é tão importante quanto a família. Às vezes, uma boa amizade em determinado momento da nossa vida ajuda a nos curar.

Tem a cura do amor no campo dos relacionamentos românticos, que dá equilíbrio e felicidade, e aquela que vem do trabalho, pois alguém que está profissionalmente realizado também fica curado. No candomblé, por exemplo, existem várias formas de cura, além das obrigações, porque às vezes basta chegar ao espaço sagrado e ficar um pouco com os orixás, inquices, voduns e caboclos, dependendo dos seus segmentos, e rezar para sair recuperado. Depende da fé de cada um, até mesmo porque a fé é algo muito individual. Ninguém pode inseri-la no coração ou na cabeça das pessoas. Cada um acredita por si mesmo.

A fé é uma das coisas que mais curam o ser humano. Eu tenho a minha própria experiência nesse sentido. Quando passei por momentos muito difíceis ao perder quase toda minha família em pouco tempo, se não tivesse uma religião e minha fé, não aguentaria. Posso dizer, tranquilamente, que, além da medicina, a fé também é capaz de curar.

Também acredito que todas as pessoas que trabalham com a cura acabam por também se curar. E a forma de recuperação que acho mais importante é a que fazemos com nós mesmos, ou seja, a da consciência, que envolve nossos atos.

A cura do retorno e também do bate-volta é o que acontece com a nossa vida todo o tempo.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA

Cinzas é apresentado em festival

postado por Cleidiana Ramos @ 3:07 PM
22 de julho de 2015
Cena do filme Cinzas que será lançado no festival Latinidades. Foto: Divulgação

Cena do filme Cinzas que será lançado no festival Latinidades. Foto: Divulgação

Cinzas, segundo filme da diretora baiana Larissa Fulana de Tal , será lançado na próxima sexta-feira, em Brasília, às 14 horas. A exibição acontecerá durante o Festival da Mulher Afro Latino-Americana e Caribenha (Latinidades).

A história do filme gira em torno de Toni, negro, que começa o dia de uma forma complicada: ônibus lotado, salário atrasado, descrença nos estudos, contas vencidas, temor da violência policial e solidão. Sua história, adaptada de um conto homônimo do escritor Davi Nunes, encontra outras semelhantes.

“Acreditamos que a temática racial no filme é tão importante quanto a autonomia da voz. Sabemos falar por nós mesmos, e isso é Cinzas. É uma felicidade muito grande para toda equipe lançarmos no Festival Latinidades”, destaca a diretora.

Cinzas é mais uma produção do coletivo Tela Preta, que luta por uma maior representatividade negra no campo do audiovisual.

O Festival da Mulher Afro Latino-Americana e Caribenha acontece há oito anos e já se sedimentou na agenda internacional das lutas do movimento de gênero. O tema desse ano é a produção realizadas por mulheres negras no cinema.

Pseudônimo

Larissa, diretora de Cinzas, escolheu o pseudônimo “Fulana de Tal” como complemento para o seu nome para fazer uma referência aos inúmeros mulheres e homens comuns. Bacharel em cinema e audiovisual pela UFRB é diretora do videoclipe Axé (2012), que recebeu menção honrosa no 3º FestClip realizado em São Paulo. Lápis de Cor (2014) foi o seu primeiro filme contemplado com o edital  Chamada de Curtas Universitários do Canal Futura.

O quê: Lançamento do filme Cinzas
Quando: 24 de julho, às 14 horas.
Onde: Festival da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha, no Cine Brasília. A entrada é gratuita.

Balaio de Ideias: Manifesto por uma vida afetiva digna

postado por Cleidiana Ramos @ 10:33 AM
16 de julho de 2015
A jornalista Maíra Azevedo faz contundente análise sobre racismo e afetividade. Foto:  Edilson Lima/ Ag. A TARDE/ 29.1.2014

A jornalista Maíra Azevedo faz contundente análise sobre racismo e afetividade. Foto: Edilson Lima/ Ag. A TARDE/ 29.1.2014

Maíra Azevedo

Para a maioria, o 25 de julho é apenas mais uma data no calendário. Para nós, que fazemos o debate de gênero e raça, é momento de analisar as posturas sociais e como elas interferem nas vidas daquelas e daqueles que dizemos defender em nossos discursos. As pautas são diversas. Por isso optei em focar meu debate sobre algo que faz parte das conversas das mulheres negras: vida amorosa ou a falta dela. Por isso, resolvi fazer uma série de questionamentos e espero as respostas.

Quem faz manifestação pela morte afetiva e cotidiana das mulheres negras? Quem se importa quando as mulheres passam sozinhas pelas ruas? Quem se incomoda com o fato das mulheres negras serem sempre maltratadas por seus parceiros, seja fisicamente ou psicologicamente? Quem tenta buscar solução pela vida miserável que as mulheres negras levam, pois ou elas estão chorando pelos homens negros que morreram ou pelos que ajudam a tirar suas vidas? Porque a morte das mulheres negras é real. Quando não morrem fisicamente, estão mortas afetivamente. A solidão mata, entristece, deprime.

Hoje, peço a você um minuto de reflexão. Qual mulher negra que você conhece vive uma relação bacana, tranquila, com cumplicidade? Se lembrar de cinco, sem precisar puxar pela memória, então eu volto e digo que estou errada. As mulheres negras estão sozinhas, até mesmo quando tem alguém ao lado. Porque a maioria dos homens, quando estão ao lado de uma mulher negra acham que já fizeram o bastante por ela. Para muitos, o fato de terem assumido a relação com uma de nós é um plus, um bônus. Devemos agradecer, afinal estamos fora das estatísticas da solidão.

É preciso fazer um alerta, uma convocação. Temos obrigação moral de sermos mais companheiras uma das outras. Se somos mesmos comprometidas com o debate de empoderamento feminino, vamos aprender a não brigar por homens, a não permitir que eles nos dissolvam. Pois, quando eles partem, ficamos em frangalhos e eles fazem isso em série.

Não dá mais para aceitar as migalhas que muitos desses homens pensam em nos oferecer: levar para um quarto de hotel e ter uma noite de prazer ou se aproveitar do nosso status para ter um duplo prazer. Muitos deles querem gozar da nossa influência e acham que nos dar o gozo é a melhor forma de retribuir tudo que já fizemos por eles.

E a nós mulheres negras, cabe praticar mais a sororidade. Devemos ser mais cúmplices, não julgar a outra. Estender a mão e no momento de dor, nada de lembrar “EU BEM QUE TE AVISEI”. Esse sofrimento em busca de um homem legal, bacana, companheiro, que te respeite, parece ser incessante e isso é cobrado de todos os lados.

A hora de chorar pelos cantos já passou e não deveria nem ter chagado. Mas é preciso despertar e ser mais cofiante, rejeitar essas miudezas que eles nos oferecem por aí. Porque pra gente é sempre mais difícil. Queremos viver, bem viver e não sobreviver. Vamos protestar contra a miserabilidade afetiva a que somos submetidas e que ás vezes é praticada por aqueles que defendemos. Basta! Por uma vida afetiva verdadeira e digna.

Maíra Azevedo é jornalista do Grupo A Tarde e militante das causas que envolvem a questão étnico-racial, gênero e combate ao racismo e  a todas as formas de desigualdades

Ângelo Flávio participa de episódio da série Tapas e Beijos

postado por Cleidiana Ramos @ 10:46 AM
13 de julho de 2015
Ângelo Flávio exercita sua faceta de ator, amanhã, em Tapas e Beijos, na Globo. Foto: Divulgação

Ângelo Flávio exercita sua faceta de ator, nesta terça, em Tapas e Beijos, na Globo. Foto: Divulgação

Amanhã, Tapas e Beijos, ganha um toque mais que especial: o ator e diretor Ângelo Flávio participa do episódio do seriado de sucesso que está em sua última temporada. Ângelo vai interpretar o gerente do Hotel Bariloche.

A participação já lhe rendeu, nos bastidores, vários elogios da atriz Fernanda Torres, que estrela o programa ao lado de Andréa Beltrão, e de outros integrantes da equipe.

A atuação de Ângelo promete assim como aconteceu quando protagonizou um episódio de A Grande Família.

Inquieto e criativo, Ângelo Flávio é um dos grandes nomes do teatro baiano. Premiado, no ano passado aceitou o desafio e brilhou ao levar para os palcos Sortilégio: Mistério Negro de  Zumbi Redivivo II, um texto inédito de Abdias  Nascimento, que até então só havia sido encenado como leitura dramática.

Tapas e Beijos vai ao ar após a novela Babilônia, na Globo.

Balaio de Ideias: Albergaria, nosso Boca do Inferno II

postado por Cleidiana Ramos @ 10:23 AM
11 de julho de 2015
O professor Roberto Albergaria recebe a homenagem do doutor em antropologia e professor da Ufba, Luiz Mott

O professor Roberto Albergaria recebe a homenagem do doutor em antropologia e professor da Ufba, Luiz Mott. Foto:  Margarida Neide/Ag. A TARDE/ 10.5.2005

 

Luiz Mott

Professor titular de Antropologia da Ufba

Conheci Roberto Albergaria quando ingressou no Departamento de Antropologia da Ufba, há uns 30 anos atrás. Tive o privilégio de dar o parecer reconhecendo sua tese de doutorado defendida em Paris. Sempre disse e reafirmo: Albergaria era o mais culto, inteligente, provocativo e anarquista professor da Ufba. Infelizmente publicou pouco, mas deixou centenas de horas de entrevistas e gravações em rádio e televisão, material riquíssimo que merece virar tema de tese de mestrado e doutorado.

Com seu corpanzil e quase dois metros de altura, tinha a delicadeza de um gay, embora fosse confirmado mulherengo miseravão. Generoso, presenteou-me dois insólitos mimos: belíssimo chifre de um veado galheiro e um chicote de binga de boi – segundo ele, usado pelos cornos do sertão para castigar mulher adúltera. Em meu último aniversário, mandou-me esta mensagem, parece que psicografada pela mesma irreverência piadista de Gregório de Mattos, o Boca do Inferno:

“69 anos é a idade ideal para um putoso – putão idoso! O pururuca do Luizinho já pode broxar sem ter que justificar que ‘isto nunca me aconteceu antes’. Já pode andar com a braguilha aberta, pois ‘em casa de defunto a porta fica sempre aberta’. Já pode deixar de cumprir qualquer obrigação chata sob o pretexto de que se esqueceu: ‘estou ficando gagá mesmo!’ Já pode liberar um dedinho no furico só na manha, sem ter que botar no jornal que está sacrificando seu pobre tobinha apenas para dar um exemplo de militância política, porque menino que dá está brincando de troca-troca, é só estripulia, enquanto velhusco patusco de calça arriada está só esculhambando… pra alegrar seus últimos dias de picardia. E viva a descaração, desencuecada ou não. E viva a brincadeiragem, brincadeira com sacanagem: as melhores dádivas desta triste puta vida que nos pariu!”

Luiz Mott escreve no jornal A TARDE, quinzenalmente, aos sábados  

Bahia perde ícone da inteligência risonha

postado por Cleidiana Ramos @ 7:00 AM
4 de julho de 2015
Roberto Albergaria foi um dos grandes intelectuais baianos. Foto:  Fernando Amorim/ Ag. A TARDE/  29.04.2010

Roberto Albergaria foi um dos grandes intelectuais baianos. Foto: Fernando Amorim/ Ag. A TARDE/
29.04.2010

MORTE/ ANTROPÓLOGO/ ALBERGARIA/ BAHIA

Cleidiana Ramos

Uma das cobranças clássicas a um repórter é o distanciamento ao que se reporta. Em tese, portanto, eu não deveria escrever o obituário de Roberto Albergaria de Oliveira, 63 anos, historiador, antropólogo e professor aposentado da Universidade Federal da Bahia (Ufba), um dos meus amigos mais queridos.

Mas precisei quebrar o cânone para lhe render a homenagem que me foi possível. Além disso, desafiar regras era com ele mesmo.

Nasceu em Cachoeira, embora às vezes dissesse ser de Muritiba para “pirraçar”, segundo ele, cachoeirenses como Ordep Serra, colega na antropologia e na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FFCH) da Ufba.

Doutor em antropologia pela Universidade de Paris VII, a hoje Paris Diderot, Albergaria foi um dos mais brilhantes intelectuais baianos. Recebeu a orientação no doutorado de Michel de Certau (1925-1986), respeitado cientista social da escola francesa.

Sua tese para obter o grau de doutorado mergulha nas imagens simbólicas que o Brasil inspirou, a partir da sua condição de colônia portuguesa. Trata-se de uma análise com profunda inserção em teoria antropológica, mas ele repelia elogios ao seu preparo intelectual. Achava pedante, sem falsa modéstia.

Por isso criou o personagem iconoclasta. Com o tempo percebi que era disfarce para se livrar da chatice dos pretensiosos das mais variadas matizes.

Albergaria gostava de rir, mas tinha uma racionalidade que chocava os desavisados. Era extremamente pragmático, mas generoso.

O problema congênito – um tipo avançado de espinha bífida– foi o seu martírio até o fim. Além de impedir o movimento de uma das pernas, com o tempo desarrumou o sistema nervoso central, o que lhe fez vítima de vários distúrbios, como insônia crônica.

Foi essa dificuldade em lidar com as alterações no sono que o fizeram pedir a aposentadoria da universidade, pois acordava indisposto.
Crítica
Andava chateado com o que considerava a disseminação da “moral de jegue”, seu nome em baianês para falsos moralistas e fazia dos comentários na rádio Metrópole seu instrumento de desabafo contra esse mal.

Dizia invejar em nós, jornalistas, a capacidade de síntese, o que lhe era impossível. Falava pelos cotovelos e o didatismo de professor o fazia enviar complementos em longos textos via fax e depois por e-mail.

Albergaria era consultado por repórteres porque dominava os meandros da teoria antropológica. Conseguia opinar, com propriedade, sobre quase tudo, o que incomodava alguns que confundiam capacidade de explicar de forma didática pensamentos complexos com superficialidade.

Parei de me irritar com esse tipo de crítica, quando percebi que essas análises e até certos tipos de censura, o divertiam. A sua segurança intelectual lhe deu a imunidade necessária.

Não fez adversários ou inimigos. “Minha filha, eu sempre fui tido como maluco. Ninguém briga com doido”, explicava.

Não se casou ou teve filhos. Dizia só ter capacidade para amar mulheres de comportamento irreverente: as “miseravonas”.

Padilhas
Pegou em armas contra a ditadura quando integrou o PCBR. Foi preso durante uma ação frustrada de assalto a banco. Quando saiu da penitenciária foi para o exílio na França.

Não tinha uma crença religiosa, mas admirava o culto aos caboclos e a Exu no candomblé, e as padilhas da umbanda. Em sua casa tinha uma coleção de estátuas dessas entidades.

Nos últimos meses, declarou-se herege, no lugar de ateu. “É que tenho certa imaginação”. Portanto, acredito que essa capacidade o levou a achar o lugar ideal para que sua energia mental descanse em paz.

É tudo o que posso dizer agora

Cláudio Luiz Pereira  

Recebi, consternado, a notícia que Roberto Albergaria está morto. Fico imaginando como isto de fato empobrece a nós todos, retirando-nos certa capacidade de enfrentar com indignação e bom humor esta nossa realidade tão medonha. Morreu provavelmente de overdose de lucidez, recusando toda a carga de tédio que poderia entorpecê-lo, anulá-lo, ou aliená-lo numa velhice que poucos conseguem aceitar, ainda mais ele tão persistentemente jovem no seu pensamento irreverente, loquaz, cheio de uma ciência gaiata.

Para intelectuais como ele o melhor pensamento será sempre uma ação racional perante o mundo real.

Meu respeito por ele como intelectual deriva do fato de que ele fez escolhas, saltando do confortável mundo acadêmico, onde muitos intelectuais atolam numa mediocridade confortável, para o mundo da crítica cultural através do rádio, com sua dinâmica aleatória, delirante, e tão completamente carnavalesca. Provavelmente foi isto que permitiu que ele vivesse os últimos anos de sua vida dignamente, com trabalho, criatividade e, possivelmente, até alguma felicidade intima. Falo daquela felicidade possível aos homens muito inteligentes.

Meu respeito por ele vem também de sua personalidade idiossincrática, de suas ideias mirabolantes e engraçadas, de suas concatenações inesperadas, de suas abstrações lógicas ou ilógicas, mas que nos faziam pensar. Vem, também, do testemunho que posso dar de sua generosidade, do seu senso de justiça, e do seu empenho em apoiar moralmente todos àqueles que eram perseguidos e vilipendiados.

Morreu fazendo uma escolha, dentro das escolhas possíveis com que ele poderia reafirmar sua própria dignidade.

 

 Cláudio Luiz Pereira é doutor em antropologia e diretor do MAE/Ufba

Balaio de Ideias: Coisas da Vida

postado por Cleidiana Ramos @ 7:22 AM
1 de julho de 2015
Mãe Valnizia faz uma homenagem a Egbomi Cutu de Ogum. Foto: Raul Spinassé  / Ag. A TARDE: 2.12. 14

Mãe Valnizia faz uma homenagem a Egbomi Cutu de Ogum. Foto: Raul Spinassé / Ag. A TARDE: 2.12. 14

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre

As festas de Santo Antônio, São João e São Pedro passaram, e na vida continuo pulando fogueiras, lembrando de histórias e vivendo tantas emoções. Uma lembrança que trago dessa fase era o amanhecer do dia, com a fogueira já em chamas bem baixas e as pessoas assando milho verde e chouriça enrolada em papel pardo. Quando o papel pardo pegava fogo, a chouriça estava assada, e se fazia uma farofa com o café adoçado que tinha que estar frio para não embolar a farinha. Quando pronta, se comia a chouriça com essa farofa e um café quentinho.

Saímos dessas festividades e vamos para uma data histórica, o Dois de Julho, quando comemoramos a Independência da Bahia. Nesse dia ou em outra data deste mês, vários terreiros de candomblé fazem homenagem para os caboclos.

A influência dos caboclos é tão importante na religião de matriz africana que antigamente as pessoas que não tinham terreiro de candomblé faziam reunião para cultuá-los nas suas casas. Muitas não eram nem feitas de santo, mas trabalhavam com os caboclos. Eles atendiam e não cobravam nada, ensinavam até remédios e ebós. Na maioria das vezes só batiam palmas ou em tabuinhas. Hoje já não se veem mais cultos aos caboclos como esses.

Interrompi o texto que falava sobre essas festividades juninas e históricas quando uma importante egbomi, tia do meu terreiro, foi convidada por Iku para ir do Aiyê para o Orum. É difícil em tão poucas palavras falar de alguém como minha estimada tia e egbomi Cutu, que era uma pessoa tão alegre e partiu justamente num dia da festa de Xangô Ayrá, um dos orixás de que ela mais gostava.

Tia Cutu foi uma pessoa muito importante na minha vida religiosa e também na do terreiro Engenho Velho Ilê Axé Iyá Nassô Oká Casa Branca. Ao longo de 60 anos ou mais, ela contribuiu de forma séria e dedicada. Durante quatro décadas, tive o privilégio de vivenciar momentos ora alegres, ora tristes, de reflexão e de aprendizagem.

Eu costumava chamá-la de “sargento”. Era uma mulher de Ogum, um “sargento” alegre, que fará muita falta, pela dedicação incansável e pela resistência de manter uma hierarquia do tempo dela. Ela brigava como uma forma de zelar pelo axé. E, assim, continuava a sobreviver diante de todas as mudanças que as gerações trazem.

Guardo dessa mulher guerreira, além da minha história de irmandade do Engenho Velho, a relação com o Terreiro do Cobre. Há anos ela me contou que quando criança muitas vezes vinha andando da Curva Grande (região onde estão localizados o Instituto Médico Legal Nina Rodrigues e o 5º Centro de Saúde Clementino Fraga, na avenida Centenário) ao Engenho Velho da Federação, pois a avó, Hortência de Omolu, era filha de santo de Iyá Flaviana, ialorixá do Cobre e minha bisavó.
Tínhamos muitas coisas em comum. Essa mulher guerreira, festeira e que também era a líder religiosa do terreiro que dirigia em Mussurunga deixa a lembrança de muita alegria, traduzida nos festejos juninos e históricos desta época.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE  EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA