Balaio de Ideias: A guerra segue

postado por Cleidiana Ramos @ 6:32 PM
27 de fevereiro de 2015
Uma tomada da audiência pública sobre as mortes na Vila Moisés no Cabula, realizada ontem na OAB. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag. A TARDE

Uma tomada da audiência pública sobre as mortes na Vila Moisés (Cabula) , realizada, ontem, na OAB. Foto: Marco Aurélio Martins | Ag. A TARDE

Wlamyra Albuquerque 

Nunca se tinha ouvido falar da Vila Moisés antes da chacina. O lugar não existia no mapa da cidade, exceto nas escalas da RONDESP. Lá não tem qualquer sinal de presença do Estado, lá não tem iluminação pública, asfalto, rede de esgoto, escola nem creche. Na Vila Moisés, o Estado se faz presente com as patrulhas policiais. O Cabula é um bairro repleto de histórias de insurgência, revoltas e pobreza negra desde os primeiros tempos da escravidão. Quilombolas, escravidos fugidos, libertos, adeptos do candomblé e tantos outros insurgentes viveram lá. Nem por isto se trata de um lugar marginal na Salvador do século XXI. No Cabula estão a Universidade do Estado da Bahia, escolas públicas e particulares, condomínio pra classe média e shoppings center. Nada disso existe na Vila Moisés.

A chacina aconteceu pouco antes do carnaval, nem os fartos confetes do Momo baiano enterraram doze cadáveres de jovens, que tinham entre 15 e 24 anos. Assim que os camarotes e arquibancadas baixaram as cordas e acordes carnavalescos, o Movimento Reaja ou será morto! Reaja ou será morta! conseguiu mobilizar diversos setores da sociedade civil e instituições ligadas aos Direitos Humanos para uma audiência pública mediada pela Ordem dos Advogados da Bahia. A audiência publica fez a sede da OAB transbordar com cerca de duas mil num auditório onde só cabiam 150 pessoas. A tensão se espalhava até a Praça da Piedade, de onde se podia ver e ouvir as representações dos sindicatos dos policiais distribuindo panfletos, exibindo cartazes e amplificando com carro de som o protesto contra os protestos que têm se multiplicado desde a chacina do Cabula.

Foi trazida pra o centro da cidade a ação policial que vitimou, no último 6 de fevereiro, doze jovens negros na Vila Moisés, no bairro do Cabula.

Ficaram lado a lado no auditório apertado, militantes do movimento negro, muitos policiais a paisana,–  alguns deles, armados – familiares dos jovens mortos, representantes da OAB nacional, lideranças políticas, o secretário da Justiça do Estado da Bahia, estudantes, dois vereadores (apenas dois) e outros tantos oportunistas seduzidos com o emaranhado de tripés e lentes das Tvs. Não demorou muito e um militante gritou o que todas as estatísticas confirmam: a juventude negra tem sido condenada a pena de morte, sem qualquer julgamento. A dois passos dele estava um policial que reagiu erguendo o braço e dizendo “eu sou preto também e não sou criminoso”. Foi só o começo. Durante mais de três horas, a questão racial pôs em situações limites quem exigia a investigação isenta do que houve na Vila Moisés e os que inocentavam os policiais envolvidos na chacina enquanto defendiam a própria Polícia, como instituição militar.

Na voz de policiais exaltados na platéia e representados na mesa por lideranças da categoria, dois argumentos se repetiam: a “Polícia defende os cidadãos de bem contra os criminosos que estão no tráfico de drogas” e os policiais também são vítimas, também são mortos. Não há quem duvide que os policiais também estão em risco. Hamilton Borges , do Movimento Reajá ou será morto! Reaja ou será morta!, tentou apaziguar os ânimos quando militantes e policiais se enfrentaram, dizendo que nesta guerra só morrem negros. Pois é, em nome da luta contra o tráfico de drogas, cada vez mais, só morrem negros sejam eles descalços ou fardados.

Também se ouviu todo tipo de absurdo. Certo capitão aposentado e mulato se disse vítima de racismo às avesas por ser branco. Outro, negro retinto, desafiava os presentes a entrarem numa viatura e não apertarem o gatilho. Em meio a tanto racismo, foi ficando evidente que o Movimento Negro tem rumo e propostas para a tal questão da Segurança Pública que tanto aflige aos governantes e aos “ cidadãos de bem”. Como disse Vilma Reis, as balanças de precisão, os helicópteros recheados de cocaína não nascem nas comunidades, onde a maioria é negra. Se a justificativa é o combate às drogas, o endereço é outro. A defesa de investigação federal sobre os grupos de extermínio na Bahia, a desmilitarização das polícias, a extinção dos Autos de Resistência foram propostas que mostram o quanto os movimentos sociais estão maduros e cientes de que a Segurança Pública no Brasil e, principalmente na Bahia, é uma questão racial.

O Mapa da Violência no Brasil, divulgado em 2014, mostra o quanto a vitimização tem cor. Entre 2002 e 2012 morreram 146,5% mais negros do que brancos na guerra urbana. Não faltam números, nem cadáveres negros para serem somados aos jovens do Cabula. Quem atendeu ao chamado de protesto do Movimento Reaja ou será morto! Reaja ou será morta! estava de luto por muito outros sepultados em covas rasas. O luto era ainda mais visível na atitude das mães e avós dos jovens mortos. A maioria dos parentes das vítimas não foi. Estavam com medo. Quem sofre uma violência policial sabe que quanto maior a visibilidade maior é o risco. Nenhuma delas se pronunciou durante a audiência. Silêncio de luto e medo, afinal como disse um policial, enquanto se retirava da sala de audiência, “a resposta a isto a Polícia dá é na área”. Quem é da área sabe o que isto quer dizer.

Entre quem defende uma discussão honesta, democrática e sem metáforas futebolísticas sobre Segurança Pública, o Brasil dos tempos da escravidão aparece como a raiz dos nossos problemas. Foi o que disse João Jorge, presidente do Olodum, e Humberto Ádamo, representante da OAB nacional. Os discursos deles convergiam para entender as razões do problema. A criminalização e a vulnerabilidade da população negra no século XXI, quando os números apontam um crescimento do número de assassinatos de jovens negros, seria explicada pelo terrível passado escravista que ainda nos assombra. É consenso, a escravidão é abominável e nos marca até hoje. Mas, o que o genocídio negro nos diz sobre os nossos dias e expectativas de cidadania numa sociedade ultra consumista? Será que dá pra por só na conta da escravidão a Vila Moisés só existir no mapa da RONDESP?

Ainda somos herdeiros do passado escravista, concordo; entretanto, por que a expressão cidadãos de bem é cada vez mais usada para dizer quem são os supostos bandidos a nos ameaçar? Colocar na conta, já bem e devidamente avolumada do passado escravista, a responsabilidade pela tensão racial no Brasil, dramatizada  na audiência da OAB, não pode ser uma maneira de libertar o Estado Republicano, de livrar seus sucessivos governos, democráticos ou não, que ainda relutam em dizer com todas as letras a quem ele chama de cidadão de bem. Não cabe só ao Movimento Negro apostar na nossa juventude. Os mortos dos pelourinhos ainda nos cercam mas é sobre o futuro e as políticas que reeditam, sorrateiramente, o racismo institucional que tratamos ao gritarmos no auditório transbordando de raiva e ressentimentos recentes o mesmo coro: Povo negro livre, povo negro forte que não teme a luta, que não teme a morte!

E a guerra segue na Bahia.

Wlamyra Albuquerque é doutora em História, professora de História do Brasil na Ufba e autora, dentre outros livros, de O Jogo da Dissimulação: abolição e cidadania negra no Brasil,  São Paulo: Companhia das Letras, 2009

 

Homenagem a Tata Anselmo e Jaime Sodré e uma lembrança à memória de Ebomi Cidália

postado por Cleidiana Ramos @ 10:54 AM
20 de fevereiro de 2015

Com as desculpas pelo atraso, mas é que ontem eu ainda estava fora de rede. Os  parabéns a essas duas figuras queridas, que fizeram aniversário ontem, e que são extremamente importantes na defesa da liberdade de expressão religiosa. Eles estão sempre a postos para defender os interesses do povo de santo: o tata de inquice do Terreiro Mokambo, Anselmo dos Santos, filho de Dandalunda; e Jaime Sodré, xicarangoma do terreiro Tanuri Junçara, filho de Lemba, e oloiê do Bogum.

Tata Anselmo e Jaime Sodré, aniversariantes de ontem. Foto: Marco Aurélio Martins/ Ag. A TARDE 3.6.2005; Margaridade Neide/ Ag. A TARDE 16.11.2012

Tata Anselmo e Jaime Sodré, aniversariantes de ontem. Foto: Marco Aurélio Martins/ Ag. A TARDE 3.6.2005; Margaridade Neide/ Ag. A TARDE 16.11.2012

Vai aqui também uma  homenagem à memória da Ebomi Cidália de Iroko, aniversariante também do dia 19  de fevereiro. Saudades imensas da grande enciclopédia do candomblé.

Saudação à memória de Ebomi Cidália  de Iroko. Foto: Margarida Neide / Ag. A TARDE/   7.7.2006

Saudação à memória de Ebomi Cidália de Iroko. Foto: Margarida Neide / Ag. A TARDE/ 7.7.2006

Pérolas negras da resistência carnavalesca

postado por Cleidiana Ramos @ 7:08 PM
15 de fevereiro de 2015

Ilê Aiyê continua belo aos 41 anos

postado por Cleidiana Ramos @ 4:07 PM
15 de fevereiro de 2015
O Mais belo dos Belos fez sua estreia no Carnaval 2015 na noite do último sábado. Foto:   Mateus Pereira/Governo da Bahia

O Mais belo dos Belos fez sua estreia no Carnaval 2015 na noite do último sábado. Foto: Mateus Pereira/Governo da Bahia

Balaio de Ideias: Tá boa santa?

postado por Cleidiana Ramos @ 1:10 PM
14 de fevereiro de 2015
Um grupo dos irreverentes membros de "As coisinha" mantendo tradição dos travestidos no Carnaval baino. Foto: Divulgação

Um grupo dos irreverentes membros de “As coisinha”  que mantêm a tradição dos travestidos no Carnaval baiano. Foto: Divulgação

Jaime Sodré

Quem não gostaria de viver ao menos um dia o universo feminino? O Carnaval está aí para isso. Pouco se sabe a respeito das vestimentas dos Pitecantropus erectus, presume-se que não haveria distinção de vestimentas baseadas na questão de gênero, bastava uma pele para proteção. Em algumas civilizações africanas era comum uma túnica longa, indistinta. A calça trouxera com os colonizadores a proposta de “civilidade”, definindo o masculino.

Os negros na condição de escravos, para fugirem sem ser notados, vestiam os trajes das senhoras brancas. Nos primórdios da escola de samba os homens vestiam-se de baianas, inaugurando esta ala, ponto alto da escola. Item obrigatório e uma justa homenagem à nossa baiana Tia Ciata. Louvem-se os escoceses que vestem um saiote, elemento cultural.

A roupa e a interpretação feminina em corpo masculino é o que caracteriza o Teatro Noh japonês, em contrapartida temos outro teatro onde só as mulheres interpretam os papéis masculinos. Vem à lembrança a marcha carnavalesca de outrora: “O sonho do Juvenal/ É desfilar no Municipal// Mandou buscar em Paris/ Uma peça de lamê/ Pra fazer a fantasia/ Bordada de paetê// Chegou Juvenal na passarela/ Ninguém sabe se é ele/ Ninguém sabe se é ela”.

Carnaval é o mesmo que festa, criatividade, humor, glamour, alegria, música, espaço onde os foliões ou as folionas expõem todas as suas fantasias. Muitos assumem o seu lado feminino, alegre e descontraído fazendo a festa. Homens vestidos de mulheres no Carnaval é um fenômeno nacional, formando blocos “divinos e maravilhosos”, muitos estudiosos já opinaram sobre o tema, mas sem alcançar um consenso a respeito do fenômeno. Na verdade, sem erudição científica, Carnaval é pra soltar a franga.

Eles são heteros, mas nos dias de Momo querem se desinibir “assumindo o seu lado feminino”. Em oposição, desconheço bloco de mulheres vestidas de homem (Lembrei-me da nossa heroína Maria Quitéria). Em discurso elaborado chama-se esse comportamento de “crossdresser”, textualmente “vestir-se ao contrário”. Como na música de Pierre Onassis, “deixa de lero-lero e vem pra cá meu bem…”. Isso tudo é para louvar o cinquentenário da alegria irreverente do Carnaval, As Muquiranas.

Em texto de Ronaldo Jacobina, acompanhado das excelentes fotos de Fernando Vivas, a revista Muito registrara: “os cílios, postiços, claro, ganham ainda mais destaques com leves pinceladas de rímel. Para arrematar, o batom rosa-carmim”, colares e, com mais outros elementos, está “montada” a tão sonhada Muquirana, na versão de 2015, em homenagem às baianas.

Neste espaço saúdo o casal criador desse fenômeno do Carnaval, com doses de criatividade e belas fantasias, os sempre lembrados Charita e sua esposa D. Flor. Lindolfo Araújo de Carvalho, Charita, já fora “Nega Maluca”, onde só um homem se vestia de mulher. No início a proposta gerou polêmica, mas eles seguiram em frente, o apoio era sólido. D. Florisa, a esposa, sua mãe D. Aidê e suas primas Lícia e Léia estavam a costurar fantasias, temáticas e irreverentes, garantia do sucesso.

Aplausos e parabéns “às nossas meninas cinquentonas” e ao trio que não deixará este sonho se acabar, os herdeiros Luciano, Nenê e Washington.

Jaime Sodré é professor universitário, doutorando em História Social e religioso do candomblé

O tempo de ouro de Maria Bethânia

postado por Cleidiana Ramos @ 11:30 AM
13 de fevereiro de 2015
O antropólogo e poeta Marlon Marcos ao lado de sua musa, Maria Bethãnia. Foto: Margarida Neide / Ag. A TARDE

O antropólogo e poeta Marlon Marcos ao lado de sua musa, Maria Bethãnia. Foto: Margarida Neide / Ag. A TARDE

Marlon Marcos

De lá, 1965, o grito do carcará; daqui, 2015, o doce entoar em pronúncias perfeitas sobre etnias indígenas que civilizam o território nacional. Hoje, o Brasil celebra os 50 anos de carreira da matriarca da canção brasileira. A senhora franzina que pauta beleza e simplicidade no cenário cultural deste país. A mulher que ensina com o canto minúcias e delicadezas que estão em nós e, muitas vezes, bem esquecidas.

Hoje a Iara dança desguarnecida, livre, desatenta, em nome da festa que a canção popular nos traz. E sem vontade de ser destemida. Hoje é um tempo vermelho dourado da beleza nascida em Santo Amaro, na Bahia, mas que na forma de raio e pássaro conquistou o Brasil. As águas remontam uma história que revigora o estar de um mito. Um gênio feminino atirado ao campo artístico, ao educativo, ao antropológico.

A memória negríssima no poema de Fernando Pessoa, nos estimulando a ler, nos convidando a ver, nos fazendo agir, nos permitindo gozar. A memória guarida da palavra eleita para os sonhos que, como fogo, se obriga a transformar este país. E pra melhor. A história do impossível sonho que rasga o chão para que brote a rosa vermelha do deserto.

Cinquenta anos de esmerada carreira movida a paixão. Do teatro show Opinião até o centro do nosso Castro Alves, Maria Bethânia é o ouro que faz amanhecer este país, como se ela fosse a rosa do deserto de Cecília: “Eu vi a rosa do deserto/ ainda de estrelas orvalhada/ era a alvorada”.

A alvorada é Bethânia recomeçando. Frente ao disco Ciclo dedicando a Seu Zezinho. Ela tocando o chão para saudar mãe Menininha. Ela reaprendendo Pessoa aos cuidados de dona Cléo. Ela sendo analisada em um congresso todo seu feito pela Associação Rosa dos Ventos Bahia. Ela vista menina irmã mulher artista nas narrativas de Mabel. Ela derretendo-se de saudade de dona Canô, de Nicinha, de Fauzi Arap. E nunca desistindo.

Antropólogo, jornalista e poeta, autor da dissertação Oyá-Bethãnia os mitos de um orixá nos ritos de uma estrela para obtenção do título de mestre em estudos étnicos e africanos pela Ufba

Uma das canções que viram encantamento na voz melodiosa e poderosa de Maria Bethânia

Uma grande mulher: Telinha de Iemanjá

postado por Cleidiana Ramos @ 10:16 AM
11 de fevereiro de 2015
Mãe Valnizia faz homenagem a Ebomi Telinha de Iemanjá. Foto: João Alvarez/ Divulgação

Mãe Valnizia faz homenagem a Ebomi Telinha de Iemanjá. Foto: João Alvarez/ Divulgação

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre

Este texto é sobre uma pessoa muito especial: Aristotelina Fiuza, conhecida como ebomi Telinha de Iemanjá. O que me leva a essa homenagem é o seu aniversário de 90 anos e a comida que ofereceu a Iemanjá, um momento único para o Terreiro do Cobre, onde ela tem uma história muito bonita. Telinha nasceu e cresceu no Cobre. É uma das poucas do tempo da minha bisavó Flaviana Bianch que ainda vive.

Conheço Telinha desde que me entendo como gente, e ela me ajudou muito com sua sabedoria quando cheguei para reabrir o terreiro. É uma pessoa muito respeitada no Cobre e pela comunidade do bairro do Engenho Velho da Federação.

Quando eu era criança, no mês de junho, Telinha tirava reza de santo Antônio em várias casas do bairro. Acabada a reza, servia-se comida, principalmente para as rezadeiras, licor e amendoins. Ela tomava o seu licorzinho e dizia: “Não posso demorar, pois ainda vou tirar outras rezas”.

Durante o Carnaval, ia para o Terreiro de Jesus esperar a saída do afoxé Filhos de Gandhy, pois seu marido, Claudio, era um dos diretores. Acompanhava o bloco até o Campo Grande. No domingo, ela só ia embora depois que as escolas de samba desfilavam. Tinha as famosas, como Juventude do Garcia e Diplomatas de Amaralina. Naquele tempo não havia preocupação com transporte porque quem morava perto do circuito do Carnaval, como nós, ia andando. Não aconteciam assaltos nem mortes. Até os caretas, que saíam com o rosto coberto, após brincar tinham a obrigação de tirar a máscara e mostrar o rosto.

Outra lembrança que tenho de Telinha é da sua ida à praia de Armação com minha mãe e tias para a puxada de rede, onde pescadores, adultos e crianças pegavam o xaréu em meio a muitas cantorias. Após a puxada de rede, elas ganhavam os peixes. Aí preparavam um escaldado com quiabo, abóbora, maxixe, jiló e o molho nagô que era feito com as pimentas raladas, limão, quiabo, coentro, cebola, tomate e camarão seco, e degustavam tudo bebendo uma cachacinha. Era só alegria.

Ela também acompanhava a Romaria de São Lázaro, um evento que acontece no Engenho Velho da Federação há mais de 75 anos. Hoje fica na porta de sua casa segurando um prato de arroz perfumado para quando o santo passar jogar sobre ele. É compromisso.

Telinha foi criada por minha bisavó como uma neta, e tive a felicidade de encontrá-la para me orientar no terreiro. Costumo dizer a ela: “Tem que ficar comigo para tudo”, porque várias vezes foi até a minha casa chorando e pedindo para que eu fosse ver o terreiro quando ele estava fechado e a sua estrutura desmoronando.

Enfim, conviver com Telinha tem sido um dos melhores aprendizados que tive. Ela é uma mulher determinada e realiza o que quer. Lava, passa, cozinha e inspira os mais jovens, que dizem não aguentar fazer a metade das coisas que ela faz. Está sempre me dizendo que quando chegar a sua hora quer dormir, pois não consegue imaginar viver em uma cama dependendo de outras pessoas. Que Deus a ouça, Telinha de Iemanjá Ogunté.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA

Novelacom sotaque angolano conquista brasileiros

postado por Cleidiana Ramos @ 7:30 AM
10 de fevereiro de 2015
Dois windecks em ação; o jornalista Henda (Joel Benolie) e a vilã Vitória (Micaela Reis) responsáveis por várias das armações na novela. Foto: Divulgação/TV Brasil

Dois windecks em ação; o jornalista Henda (Joel Benolie) e a vilã Vitória (Micaela Reis) responsáveis por várias das armações na novela. Foto: Divulgação/TV Brasil

Cleidiana Ramos

Uma trama ágil, moderna e corajosa por abordar temas polêmicos como relações homoafetivas sem subterfúgios; presença bem resolvida dos clichês clássicos da teledramaturgia – o “golpe da barriga” e a “doença mortal falsa–” e vilãs que fazem maldades sem ambiguidades psicológicas. Assim é Windeck, a novela angolana produzida em parceria com Portugal que está sendo exibida desde novembro pela TV Brasil e na Bahia pela TVE às 22 horas.

A chegada da novela para o público nacional ocorreu por meio do apoio cultural da Secretaria Especial de Políticas Públicas para a Promoção da Igualdade Racial (Seppir). Ela é uma produção feita em 2012 pela Semba Comunicação com direção de Sérgio Graciano e texto de Miguel Crespo, Coréon Dú, Isilda Hurst, Joana Jorge e Andreia Vicente. Windeck concorreu ao Emmy Internacional, na categoria telenovela, vencido pela brasileira Lado a Lado, na edição de 2013.

A história parte da redação da Divo, uma revista de moda. É lá que estão os windecks, que, na gíria angolana, são pessoas que querem ascender socialmente a qualquer custo como Vitória (Micaela Reis), que é capaz de seduzir Kiluanji (Celso Roberto), filho de Xavier Voss ( Ery Costa), dono da Divo, e grande amor de sua irmã Ana Maria (Nádia da Silva).

Xavier prefere a filha Luena (Edusa Chindecasse) ao filho Kiluanji. Ele a manda vir de Londres para assumir o comando da revista, mas não sabe que ela mantém um namoro com Tchyssola (Marta Faial), uma designer de moda.

Além de Vitória, a outra vilã da novela é Rosa (Grace Mendes), a produtora de moda da revista, ex-amante de Xavier e que usa todos os artifícios para casar a filha Kássia (Solange Hilário) com Kiluanji e assim assegurar um lugar na família Voss, mas acima de tudo conseguir o comando da Divo.

Além de ter um enredo atraente e bem costurado, Windeck é um símbolo poderoso para um país como o Brasil onde a população negra, maioria no país, é sub-representada em praticamente todos os programas da TV. O elenco é majoritariamente negro. São atores e atrizes interpretando empresários, modelos e jornalistas. Em todo o elenco são apenas três brancos: os atores que interpretam Giorgio (Rui Santos), Pedro (Pedro Martins), seu filho, e Tchyssola.

Giorgio, Luena e Pedro estão envolvidos em tramas interessantes. Tchyssola vive às voltas com a esperança de que Luena tenha coragem de enfrentar o seu pai e assumir o romance com ela.

Já Giorgio, além de ter que lidar com a rebeldia do filho que não aceita seu casamento com a angolana Mariza (Helena Moreno), precisa ajudá-lo contra o preconceito de Ofélia Voss (Tania Burity) que não o quer namorando sua filha por ser um “pula”, ou seja, “branco”.

Essa trama em questão não é um incentivo ao discurso de “ah, os negros também discriminam”. Pelo contrário, ela traz as peculiaridades do contexto local em relação ao enfrentamento racial com base nas cicatrizes deixadas pelo longo colonialismo e batalhas pela independência. Basta lembrar que Angola só ficou independente em 1975, enfrentou uma longa guerra civil e é governada por um presidente negro, José Eduardo dos Santos, desde 1979.

Outro acerto da novela é a apresentação de Luanda como uma cidade moderna, que está em processo de reconstrução, bem diferente da ideia que a maioria dos brasileiros tem sobre as cidades africanas. O idioma – é português, mas com sotaque bem mais próximo ao de Portugal do que o nosso- não é uma barreira, pois a TV Brasil adotou o uso do glossário inserido nas cenas. Ele também pode ser conferido na página oficial da novela . Portanto, palavras como cumbu (dinheiro), miúdo (garoto, garota), entre outras, deixam de ser mistério.

Na discussão homoafetiva tem ainda o personagem Arthur (Fredy Costa), gay assumido, constantemente assediado por mulheres, mas que não cede e faz um estilo sem trejeitos estereotipados.

A dose de humor também é garantida, principalmente por Ofélia, uma vilã extremamente atrapalhada e o windeck Sebastião (Mendes Lacerda), que decidiu ganhar dinheiro passando-se por pastor evangélico. O brasileiro Roco Pitanga fez uma participação especial na novela.

Também surpreende o figurino da novela. As roupas seguem o estilo ocidental, mas com o uso de adereços bem exagerados, como encharpes e puás. Até os homens ousam muito. O personagem Kiluanji aparece com ternos acompanhados de camisas e gravatas em estampas bem chamativas. Mas o figurino de Rosa é imbatível. Um exemplo: em uma cena ela aparece curtindo um dia de tristeza usando uma camisola e uma negligé com estampas que lembram o pêlo de um dálmata. Além disso usa e abusa dos turbantes.

Os cabelos das mulheres seguem o modelo ocidentalizado de alisamento e apliques. Mas há pelos menos uma personagem, Mariza, que usa seus cachos ao natural.

A trilha sonora também é bem interessante e mistura semba, kuduro e outros ritmos . A música de abertura vale um destaque especial: é uma espécie de rap que explica o que é windeck de uma forma muito divertida sob o comando de Cabo Snoop.

Audiência

Windeck tem atngido níveis interessantes de audiência se levarmos em consideração o horário que passa. Segundo o Ibope do mês de janeiro consolidado pela TV Brasil, em Salvador, no período de 10 de novembro, quando estreou, até 2 de janeiro, a novela alcançou média de 0,71%, que é a melhor das praças aferidas. Os locais pesquisados, além da Bahia, são Rio de Janeiro, São Paulo, Distrito Federal, Rio Grande do Sul e Pernambuco.

Na edição de 12 de dezembro o índice na Bahia chegou a 1,69%. De acordo com o mesmo levantamento, já alcançou 313.880 domicílios baianos, o que não é pouco para uma novela estrangeira veiculada em um canal que não tem tradição na exibição desse produto.

Unindo-se as seis praças, Windeck foi vista em quase 2,7 milhões de domicílios. Talvez, sua performance anime um produção nacional onde a representação de personagens negros ocorra em posições de poder e protagonismo, diferentemente do que ocorre com as novelas brasileiras.

Confira o segundo capítulo da novela:

Balaio de Ideias: Em Defesa da Promoção da Igualdade no Legislativo Baiano

postado por Cleidiana Ramos @ 9:43 AM
9 de fevereiro de 2015
Bira Corôa defende status permanente para a Comissão de Promoção da Igualdade. Foto: Edilson Lima / Ag. A TARDE/ 11.11.2014

Bira Corôa defende status permanente para a Comissão de Promoção da Igualdade. Foto: Edilson Lima / Ag. A TARDE/ 11.11.2014

Bira Corôa

biracoroa@alba.ba.gov.br

Nos últimos anos assistimos a intensos debates em torno do tema da igualdade em nosso País. Cada vez mais, grupos que historicamente foram submetidos a diversas formas de exclusão se organizam e buscam espaços institucionais para denunciar as iniquidades que os afligem no dia a dia.

A Assembleia Legislativa da Bahia atenta a esse debate criou em 2001 a Comissão Especial para Assuntos Afrodescendente – CECAD. Na reforma das comissões do Legislativo baiano, ocorrida em 2006, a proposta era a de extinção dessa Comissão, fato que não ocorreu graças a articulação das organizações sociais e de deputados baianos comprometidos com o tema da igualdade. Foi desta forma que conseguimos a manutenção da CECAD, inclusive, transformando-a em Comissão Especial da Promoção da Igualdade – CEPI, atribuindo-lhe assim, um caráter mais amplo.

Nos últimos quatro anos, os membros do legislativo baiano que compõem a referida Comissão, têm contribuído muito com a luta pela construção de políticas afirmativas em nosso estado. Defesa dos Povos e Comunidades Tradicionais (quilombolas, índios, ciganos, fundo e fecho de pasto, dentre outros), do segmento LGBT na luta contra a homofobia, na luta das mulheres, pelo respeito à diversidade religiosa e contra o racismo, dentre outros bandeiras.

Embora a importância dessa Comissão, em virtude do seu caráter provisório sempre que se inicia uma nova legislatura ela corre o risco de não ser reinstalada. O que representaria um retrocesso no debate em torno das lutas de diversos segmentos sociais.

A Comissão Especial da Promoção da Igualdade da Assembleia Legislativa da Bahia é uma conquista da sociedade baiana. E quando mais uma vez, ao iniciarmos uma nova legislatura reaparece o debate em torno da sua extinção, a nossa proposição é pela garantia da sua reinstalação e, futuramente, transformá-la em permanente. Para isso, precisamos da mobilização da sociedade baiana e do apoio dos deputados comprometidos com o tema da igualdade.

Bira Coroa é deputado estadual.

A obra de Maria Bethânia é tema central de congresso

postado por Cleidiana Ramos @ 6:05 PM
5 de fevereiro de 2015
Congresso faz homenagem aos 50 anos da arte de cantora baiana. Foto: Alexandre Moreira/ Divulgação

Congresso faz homenagem aos 50 anos da arte de cantora baiana. Foto: Alexandre Moreira/ Divulgação

Marlon Marcos

Para celebrar os 50 anos de carreira da mais importante cantora brasileira da atualidade, a instituição cultural Rosa dos Ventos Bahia realiza o II Congresso brasileiro sobre a arte e o canto de Maria Bethânia.

O primeiro Congresso aconteceu em fevereiro de 2010 e serviu para celebrar os 45 anos de carreira da cantora santo-amarense e para marcar a importância que ela desempenha ao fazer do seu oficio instrumento de fomento e reflexões sobre a produção cultural brasileira, destacando o povo do interior do nosso país.

Agora, são 50 anos! E a Bahia oferece, via o Rosa dos Ventos, outras possibilidades acadêmicas e artísticas para que intelectuais como Júlio Diniz, Jorge Portugal, Carlos Barros, Aninha Franco, entre outros, homenageiem a grande artista pensando o Brasil através desta obra coerente e única que Maria Bethânia logrou à nossa história ao longo de meio século.

Uma história que se inscreve na memória da pele brasileira e nos tecidos labirínticos da nossa audição. O congresso se inclina, reiteradamente, a promover uma socioantropologia da beleza que se ergue daquela voz e que compõe retratos do Brasil que nos ajudam a dimensionar a riqueza da cultura popular deste país.

Um encontro para festa. E que preserve a memória desta biografia feminina, ativa, baiana, criativa, religiosa, profana, forte, lítero-musical e silenciosa: a presença viva da diva que tanto orgulha os que torcem por um Brasil mais exigente, mais diverso, mais bonito, mais tranquilo e bem bem bem brasileiro!

Em tempo: segue o serviço

Será hoje , 5, a partir das 19  horas a Sessão de Abertura do Congresso, inclusive com o Lançamento do selo Personalizado em Homenagem a Artista .

Nos dias 6 e 7 daremos seguimento à programação a partir das 8 horas
Local de todo o evento: Hotel Sol Barra
Maiores informações (71) 9982-5805 – Neide de Jesus

Marlon Marcos é jornalista, antropólogo, poeta e escritor. É autor da dissertação Oyá-Bethânia: os mitos de um orixá nos ritos de uma estrela

Balaio de Ideias: Je suis candomblé

postado por Cleidiana Ramos @ 8:34 PM
27 de janeiro de 2015
Jaime Sodré analisa necessidade do respeito à diversidade religiosa.  Foto:  Mila Cordeiro/ Ag. A TARDE/  09.11.2011

Jaime Sodré analisa necessidade do respeito à diversidade religiosa. Foto: Mila Cordeiro/ Ag. A TARDE/
09.11.2011

Jaime Sodré

Imponente, merecido e belo ergue-se o busto a Mãe Gilda, obra de arte a sacralizar e embelezar o espaço sagrado da Lagoa do Abaeté. Este monumento escultural é um símbolo contra a intolerância religiosa. A reverendíssima Yalorixá Gildásia dos Santos, nome de batismo desta dedicada religiosa, morreu no ano 2000 vitimada por um infarto após visualizar, com desgosto profundo, a sua foto em um jornal a ilustrar uma matéria intitulada “Macumbeiros e charlatões lesam a vida e o bolso de clientes”. Em relação a monumentos que louvam os feitos de mulheres religiosas negras, temos o de Mãe Caetana na Boca do Rio e Mãe Runhó no fim de linha do Engenho Velho da Federação. O de Mãe Gilda localiza-se no Abaeté pela proximidade ao seu Terreiro, o Ilê Axé Abassá, hoje liderado pela competência de Mãe Jaciara.

A repressão àqueles que não sabem conviver, tem como marco legislativo a Lei 7.716/89 (Lei Caó), produto do eminente baiano, jornalista, parlamentar e advogado Carlos Alberto dos Santos (Caó). O artigo 20 desta lei assim define a intolerância religiosa: “é um termo que descreve a atitude mental caracterizada pela falta de habilidade ou vontade em reconhecer e respeitar as diferenças ou crenças religiosas de terceiros. Poderá ter origem nas próprias crenças religiosas de alguém ou ser motivada pela intolerância contra as crenças e práticas religiosas de outrem”. Em Salvador existe uma mobilização vigilante e constante contra esta prática por parte de uma maioria de pessoas comprometidas com a liberdade religiosa, incluindo os fiéis do Candomblé. Louvemos a iniciativa da ex-vereadora Olívia Santana, autora da Lei Municipal n. 6.464/04 que instituiu o dia 21 de janeiro como a oportunidade de reflexão, conscientização e combate a intolerância religiosa.

Inspirado na lei criada por Olívia, o deputado federal Daniel Almeida foi o autor da lei federal n. 11.635/07 que inclui a data de 21 de janeiro no Calendário Cívico da União, pois, segundo o parlamentar, é necessário que dediquemos cotidianamente a nossa ação para a convivência com a diferença, de forma harmônica. Sensibilizados por esta proposta de convivência, inúmeros sujeitos lançam-se num empenho contra a intolerância religiosa, eis alguns: o Dr. Wellington Cesar Lima e Silva. Afirma que, mais que medidas judiciais, o que importa é o sentimento de que estamos juntos nesta caminhada, logo, ao respeitarmos as diferenças nos aproximamos do verdadeiro significado de um ato religioso. Louvemos aqui a promotora de Justiça Márcia Virgens.

O pastor Djalma Torres assegura que a diversidade religiosa é uma riqueza e a intolerância é inaceitável, e conclui que somos filhos de um mesmo pai e precisamo-nos respeitar. Já o padre Adriano Portela lembra que conviver em sociedade é encontrar pessoas que pensam diferente e respeitá-las. O ilustre médium espírita José Medrado esclarece que tolerância muitas vezes pode significar apenas “eu suporto”, queremos respeito! Algumas entidades merecem destaques especiais, como é o caso de Koinonia que há 21 anos luta contra a intolerância religiosa e contra todas as formas de violação dos Direitos Humanos, e agora se empenha no apoio ao Caso Mãe Rosa.

Jaime Sodré é professor universitário, mestre em História da Arte, doutorando em História Social e religioso do candomblé

Entrevista Júlio Braga: “Sou criança em relação a esse mundo milenar”

postado por Cleidiana Ramos @ 7:36 PM
25 de janeiro de 2015
O babalorixá e antropólogo Júlio Barga conta suas experiências no campo da religião e da academia. Foto: Fernando Vivas | Ag. A TARDE

O babalorixá e antropólogo Júlio Barga conta suas experiências no campo da religião e da academia. Foto: Fernando Vivas | Ag. A TARDE

Cleidiana Ramos

Os 42 anos da experiência de magistério em universidades como a Federal da Bahia, a Estadual de Feira de Santana e a Nacional do Zaire forjaram o discurso envolvente de Julio Braga, 72. Doutor em antropologia e babalorixá, ele domina o código acadêmico, mas também o da oralidade cheia de sabedoria das religiões afro-brasileiras. Transitar entre esses dois mundos parece confortável para o autor de 11 livros, dentre os quais Candomblé: a cidade das mulheres e dos homens, com lançamento previsto para o dia 7 de fevereiro, na biblioteca pública de Itaparica. Além desse, Julio Braga já prepara uma coletânea de poemas que divide com amigos do Facebook e que chama de “prosemas”, misturando poesia e a prosa em que é mestre. Para perceber isso, basta ouvi-lo narrar a aventura da primeira viagem internacional para Dakar, Senegal, onde tomou forma a melhor definição que encontrou para si mesmo: o antrópologo na encruzilhada, título de um dos seus livros. Nessa entrevista, ele conta que, em sua trajetória, o estranhamento, próprio de quem vê a encruzilhada, não veio do povo de santo ter dentre os seus pares um homem da academia, mas, curiosamente, desta. “Eu era professor e macumbeiro. Foi difícil”. Nada que curvasse um filho de Iansã, orixá a quem é consagrado, e de quem, em suas pesquisas, descobriu novas faces, como a da lealdade.

O senhor formou gerações de cientistas sociais. Aposentou-se após 42 anos de ensino na Ufba e Uefs, de onde saiu em 2010. Qual é a sensação de ficar longe da sala de aula?

É uma sensação de perda. Mas eu sou aposentado, inativo nunca (risos). Tenho um candomblé, o Terreiro Axeloiá, que me dá prazer em administrar. Além disso, continuo minhas pesquisas e já estou com o livro Candomblé: a cidade das mulheres e dos homens pronto. Ele será lançado dia 7, em Itaparica. Esse livro objetiva um foco distinto do trabalho de Ruth Landes (A Cidade das Mulheres), mas a ele não se opõe. Pelo contrário, procura verificar em que medida, ao lado das mulheres, os homens contribuíram para manter e consolidar as religiões afro-brasileiras na Bahia. Andei também fazendo umas tentativas poéticas no Facebook, que chamo de “prosemas”. Esse é o título da coletânea que vai trazer 50 desses textos. Ela deve sair no primeiro semestre desse ano ao lado do livro Dá-me licença aí Sereiá – A pesca de xaréu na Bahia.

O senhor participou de um período rico da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FFCH) da Ufba. Conviveu com personalidades como Pedro Agostinho, Vivaldo da Costa Lima.

Entrei na universidade muito jovem. Primeiro, eu fiz filosofia. No meu terceiro ano como estudante da Ufba, o Ceao (Centro de Estudos Afro-Orientais) resolveu, em 1963-1964, retomar os estudos afro-brasileiros, numa perspectiva antropológica mais elaborada a partir de pesquisa de campo extremamente cuidadosa do ponto de vista metodológico. E eu entrei nessa plêiade de grandes nomes como pesquisador. Dez dias depois de terminar a licenciatura, fui morar na África. Viajei em 1967.

Qual foi o seu primeiro destino?

Fui para Dakar, no Senegal. Não sabia falar francês e enfrentei minha primeira viagem de avião. Embarquei para o Rio , de onde o voo sairia. Mas aí o avião quebrou e nós fomos levados para o Hotel Glória. Imagine eu, pobre, instalado naquele hotel. Quando seguimos viagem, ocorreu uma escala na Libéria, onde estava acontecendo um golpe de Estado, e nos levaram para um hotel com escolta policial. Finalmente, cheguei a Dakar. O problema é que a pessoa que ficou de me esperar aguardava meu desembarque para dias antes. Como disse, não falava francês. Aí, como bom retirante, sentei na mala porque assim não tinha como ninguém roubá-la. De madrugada, chegou um avião de Buenos Aires onde vinha um francês que era professor da Universidade de Dakar, para onde eu havia sido enviado. Ele me levou para o campus da universidade. Tempos depois, Pierre Verger, que regularmente ia à África, apareceu por lá e me convenceu a ir para o Benim.

Foi onde começaram suas pesquisas?

Eu tinha começado uma pesquisa no Senegal, mas por sugestão de Verger, fui para Cotonou, no Benim, e depois Porto Novo, que fica na fronteira com a Nigéria. Mas aí Verger, que tinha me recebido lá, teve que viajar e fiquei um pouco isolado. Aí aconteceram coisas que redefiniram meu projeto existencial. A primeira é que tive malária e perdi 25 quilos. Além disso, namorava uma mulher extraordinária e muito inteligente. Eu a acompanhava em suas pesquisas , mas aí aconteceu um acidente trágico. Uma criança atravessou de bicicleta na frente do carro dela. Foi terrível. Ela teve que ir embora e sofreu muito com isso. Aí conheci uma pessoa que me disse para me cuidar espiritualmente. Verger voltou e fui passar um tempo na casa dele em Sakatê (região entre Nigéria e Benim). Então um sacerdote disse que eu tinha que fazer a obrigação “de cabeça” e outra como ojé, que é aquela que dá o título a quem passou pela última etapa iniciática ao culto de babá Egum, um espírito ancestral. E assim o fiz. Em 1968, foi a vez da minha obrigação de cabeça e Iansã veio para dizer que meu nome era Oyá Tundé, que significa “Iansã voltou”. Comecei minhas pesquisas sobre a religião dos orixás. Obviamente, já como filho de Iansã, me concentrei nas coisas desse orixá. Foi assim que descobri que Iansã é um orixá das águas para descontentamento de muita gente no Brasil (risos). Ela é a rainha do Rio Níger. A históra maior de Iansã está entrelaçada com a travessia que ela faz do país nupé, atravessando o Rio Níger para se encontrar com Xangô no reino de Oyó.

Como foi para um homem de ciência se tornar um sacerdote?

Vou contar uma história como os africanos fariam, que é paradigmática para explicar minhas dificuldades. Eu me candidatei a diretor da faculdade (de Filosofia e Ciências Humanas), nos anos 80, numa época em que professores, alunos e funcionários podiam votar. O candidato mais forte era o professor Mário Nascimento, que acabou se tornando o diretor porque eu fui vítima de um jornalista, veja só. Ele estava fazendo matéria para um jornal da universidade. Mário Nascimento disse que, se fosse eleito, como era católico, mandaria celebrar uma missa. Eu disse que, como era de candomblé, iria sacrificar dois galos na porteira da faculdade. Isso caiu como uma bomba. Eu fui eleito, mas a congregação não permitiu a minha posse. Acho que isso é bem sintomático das dificuldades que são colocadas para uma pessoa que zelou pela inteligência, pela interpretação das coisas etnológicas e, ao mesmo tempo, se entregou de corpo e alma, muito mais de alma, à religião afro-brasileira. Havia escárnio a cada instante. Até o próprio departamento era intolerante.

E do lado do povo de santo? Ninguém nunca lhe viu com desconfiança por ser um pesquisador ?

Nunca. Porque nunca perguntei nada a ninguém como antropólogo. Eu tive a felicidade de, ao voltar da África, ser recebido no Aganju, casa de Obaraín (nome sagrado do babalorixá Balbino Daniel de Paula) e ter vivido 15 anos ininterruptos lá dentro. Eu vivi o candomblé pela espinha, ou seja, por dentro.

Dos elementos que formam o arquétipo de Iansã, com quais se identifica?

(Risos, seguidos de um curto silêncio) Eu confesso que ninguém havia me feito uma pergunta dessa natureza, o que me obriga a refletir sobre o que vou dizer. Mas como tive um conhecimento diferenciado sobre a mítica de Iansã, posso colocar a sinceridade. Se no candomblé não sei uma coisa, digo que não sei, até porque, como religioso, devo saber que se mente para o ser humano, mas não para o orixá. Iansã foi uma mulher extremamente sincera e a esposa devotada de Xangô. Quando ele perdeu a guerra, Obá e Oxum não o acompanharam já como desterrado. A única que o seguiu, foi Iansã. Essa leitura é diferenciada do que se recompôs aqui, e fez do arquétipo de Iansã o de uma mulher safada. Na verdade, ela teve muitos amores, mas nunca ao mesmo tempo. Eu tive muitas mulheres, mas amei a todas e fui sempre sincero. Talvez tenha escorregado algumas vezes, mas, como não tem pecado no candomblé, logo me redimi (risos). Dizem que na vida a gente tem que plantar uma árvore, fazer um filho e escrever um livro. Pois eu plantei uma fazenda de cacau, tenho nove filhos e escrevi 11 livros. Portanto, acho que estou a salvo e, com certeza, com lugar guardado ao pé de Olorum. Se bem que espero que demore para chegar lá, pois como diz uma cantiga da nossa tradição, ainda sou criança em relação a esse mundo milenar extraordinário.

Balaio de Ideias: Ano novo e novas esperanças

postado por Cleidiana Ramos @ 7:00 AM
14 de janeiro de 2015
Mãe Valnizia analisa expectativas comuns ao início do ano. Foto: Raul Spinassé | Ag. A TARDE

Mãe Valnizia analisa expectativas comuns ao início do ano. Foto: Raul Spinassé | Ag. A TARDE

Valnizia Pereira Bianch, ialorixá do Terreiro do Cobre

Quando chega o ano novo, as pessoas têm expectativas e esperança de alcançar dias melhores. A espera é por conseguir realizar todos os objetivos que não foram alcançados no período que passou. Infelizmente, nem sempre tudo sai do jeito que cada pessoa quer ou acha que precisa. Às vezes o destino já colocou outras coisas em nossos caminhos ou aquilo que realmente estamos necessitados e não sabemos. Só não podemos desistir dos nossos sonhos. Temos que ter desejos e esperanças até mesmo porque os sonhos alimentam o futuro. Se deixarmos de sonhar como será que ficaremos? Só Deus sabe.

É necessário ter fé, paciência e determinação para lutar por aquilo que desejamos como se o amanhã fosse hoje. E, realmente, ele é. Dormimos e não sabemos se acordaremos. Nós sempre achamos que está faltando algo na nossa vida porque não temos o costume de andar olhando para trás. Mas se a nossa atenção estivesse voltada para o lado veríamos pessoas com problemas que não possuímos e aí iríamos agradecer o que conquistamos.

Se acordamos enxergando, andando, falando já estamos ganhando, pois existem outras pessoas que são cegas, surdas, cadeirantes e às vezes conseguem ser mais felizes do que aquelas que vivem sem nenhuma dessas deficiências, mas que reclamam de tudo e até de Deus ou do sagrado, dependendo da religião que seguem.

Claro que não podemos nos acomodar, sem luta não há vitória. Temos que lutar seja pelo que for – saúde, trabalho, amor – para que, quando chegar o ano seguinte, possamos realizar os nossos desejos porque onde há vida há esperança. O problema é que mantemos o costume de só lembrar das coisas ruins; as boas lembranças conservamos por poucos dias. Já as más passamos o ano todo remoendo.

Devido a essa angústia de querer que todos os problemas sejam resolvidos no novo ano, as pessoas, normalmente, querem saber qual é o orixá que vai governar os 365 dias, em busca de proteção. No candomblé, cada dia da semana simboliza um orixá, vodun, inquice ou caboclo. Às vezes, tem até dois no mesmo dia. Tudo isso é muito relativo, pois não é só o dia da semana que informa qual orixá é o comandante. Tem a numerologia, por exemplo, que diz alguma coisa.

Por isso eu prefiro não fazer jogo sobre essa questão, afinal cada pessoa vê de uma forma diferente. Mas diferente não é errado. É, simplesmente, diferente. O importante mesmo é cada um fazer o melhor que puder, até mesmo porque tudo na vida é bate e volta. Eu costumo dizer que ninguém planta abacaxi para colher banana. Então vamos plantar o que queremos colher.

Que todos os orixás, inquices, voduns e caboclos, portanto, nos deem um ano repleto de saúde e paz. Para o resto a gente corre de lado, porque atrás não alcança e na frente quem corre por nós é Exu, pois ele é o mensageiro e pode levar os nossos pedidos que devem ser bons e positivos. Costumam dizer que Exu faz isso ou aquilo, mas, na verdade, ele só leva o que as pessoas pedem e não tem culpa de nada. Nunca devemos esquecer que Exu é só um mensageiro. Axé.

Mãe Valnizia escreve mensalmente em dia de Xangô, quarta-feira

Ministério e secretarias começam ano com novos gestores

postado por Cleidiana Ramos @ 11:39 AM
5 de janeiro de 2015
Nilma Gomes é a nova titular da Seppir; Vera Lúcia dirige a Sepromi; Olívia Santa é secretária de Política para as Mulheres e Jorge Portugal assumiu a Secult. Fotos: Divulgação; Carol Garcia / GovBa; Edilson Lima / Ag. A TARDE/ 02.03. 2014; Claudionor Junior / Ag. A TARDE/ 23.02.2010

Nilma Gomes é a nova titular da Seppir; Vera Lúcia dirige a Sepromi; Olívia Santana é secretária de Política para as Mulheres e Jorge Portugal assumiu a Secult. Fotos: Divulgação; Carol Garcia / GovBa; Edilson Lima / Ag. A TARDE/ 02.03. 2014; Claudionor Junior / Ag. A TARDE/ 23.02.2010

As gestões públicas federal e estadual começam o ano com novos titulares no ministério e secretarias que são cruciais nas  políticas voltadas para a população negra.

A nova titular da Secretaria Especial de Políticas para a Promoção da Igualdade Racial (Seppir), que tem status de ministério, é a mineira Nilma Lino Gomes. A ministra é pedagoga, mestra em educação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), doutora em antropologia social pela Universidade de São Paulo (USP)  e pós-doutora em sociologia pela Universidade de Coimbra, Portugal.

Professora da UFMG e pesquisadora da área de relações étnico-raciais, Nilma foi a primeira mulher negra a chefiar uma universidade federal brasileira: a Unilab (Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira), que, inclusive, tem um campus na Bahia, em São Francisco do Conde.

A Secretaria Estadual de Promoção da Igualdade (Sepromi) tem como nova titular a ex-dirigente nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), Vera Lúcia Barbosa. Natural de Eunapólis, cidade localizada no extremo sul da Bahia, Lucinha como também é chamada pelos movimentos sociais, foi titular da Secretaria Estadual de Políticas para as Mulheres (SPM), durante o governo Wagner.

A SPM será dirigida por Olívia Santana, que vem da militância histórica do movimento negro. Fundadora da Unegro e filiada ao PCdoB, Olívia já foi secretária municipal de Educação, quando adotou como principal política a operacionalização da Lei 10.639/2003, que estabelece o ensino de História da África e Cultura Afro-Brasileira;  ocupou também uma vaga na Câmara de Salvador e em 2012 concorreu como vice na chapa encabeçada por Nelson Pelegrino para prefeito da capital baiana.

Já a pasta estadual de Cultura (Secult) tem Jorge Portugal. Professor conhecido por suas aulas lúdicas, o novo secretário tem dito que sua principal missão será fazer uma interação entre as ações culturais e  educacionais.

Boa sorte aos novos gestores e que eles tenham uma atuação que renda bastante conteúdo positivo para o Mundo Afro, ou seja, notícias que a gente publica com o coração em festa.

Que 2015 venha sob as bençãos da água e da pureza e brilho das crianças

postado por Cleidiana Ramos @ 8:52 AM
30 de dezembro de 2014

(Oro mimá-Bantos do Iguape- YouTube)

O Mundo Afro teve um ano de longa pausa, mas retornou em uma dia muito especial – 20 de novembro – na torcida para que tenha sido na direção de ficar atualizado de forma mais constante. O objetivo (que pretendo me esforçar para cumprir)  é que em 2015 possamos estar mais perto para debater informações variadas sob a perspectiva da herança que possuímos das mais diversas culturas e civilizações africanas.

Vamos fazer uma parada a partir de hoje, para um pequeno descanso e, na primeira segunda-feira do ano, estaremos de volta. Obrigada a todas e a todos pelo compartilhamento de conteúdo, críticas, elogios e sugestões.

E, para iniciar esse recesso, nada melhor que ficar na companhia da energia da água e do brilho das crianças com um gostinho de releitura de um belo canto para Oxum feito pela banda Bantos do Iguape, de Cachoeira. E que 2015 venha puro para ser grande!

Pérolas negras

postado por Cleidiana Ramos @ 12:29 PM
29 de dezembro de 2014

Fechando as despedidas de dias tão especiais como últimos sexta , sábado, domingo e segunda do ano de 2014 segue essa bela leitura sobre a música do Ilê Aiyê, Pérola Negra, na voz de Daniela Mercury. Uma homenagem a tudo que as culturas de matrizes africanas inspiram.

Pai Carlinhos de Oxóssi celebra 40 anos de santo

postado por Cleidiana Ramos @ 12:23 PM
19 de dezembro de 2014
Pai Carlinhos celebra 40 anos de consagração ao orixá Oxóssi. Foto: Arquivo pessoal/Divulgação

Pai Carlinhos celebra 40 anos de consagração ao orixá Oxóssi. Foto: Arquivo pessoal/Divulgação

Amanhã, sábado, é dia de festa no Ilê Axé Odé Tomi, localizado no Lobato. O babalorixá da casa, José Carlos Conceição dos Santos, também conhecido como Pai Carlinhos, celebra seus 40 anos de iniciação no candomblé.

O sacerdote de 60 anos, foi consagrado, por Mãe Roxa, que comandava  um terreiro em Pernambués,  a Oxóssi, orixá considerado “o dono da prosperidade e da fartura”, chamado de “Rei de Ketu” e “Grande Caçador”.

“O candomblé para mim é uma rosa que tirei os espinhos e conservei as pétalas. Tive muitos momentos marcantes nessa minha caminhada. Fiz santo por amor. Eu amo orixá”, completa Pai Carlinhos.

A celebração começa às 19 horas e o terreiro fica no Conjunto Joanes Centro Oeste, quadro 18, bloco 58 A. Um ponto de referência é a CIPM (Companhia Independente de Polícia Militar), local. Parabéns a Pai Carlinhos e a sua comunidade.

Balaio de Ideias: o Natal e suas diversas famílias

postado por Cleidiana Ramos @ 10:43 AM
17 de dezembro de 2014

MÃE VALNIZIA DE AYRÁ / TERREIRO DO COBRE

Valnizia Pereira Bianch

Ialorixá do Terreiro do Cobre

Começo a colaborar com este jornal no período próximo ao Natal, festa cristã que reúne as famílias. Quando eu era criança, Papai Noel quase nunca passava pela minha janela. Infelizmente, quando se comemora o nascimento de Cristo é alegria para uns e tristeza para outros, principalmente as crianças menos privilegiadas, que não entendem o que é o Natal e por que Papai Noel não passou pelas suas janelas para deixar presentes.
Como eu sabia que Papai Noel não ia passar na minha janela, eu e outras crianças da comunidade do Engenho Velho da Federação íamos pegar fichas para retirar os brinquedos distribuídos em uma garagem de ônibus na Vasco da Gama. Ficávamos em filas quilométricas debaixo do sol e tinha muita confusão. No dia seguinte, íamos buscar os brinquedos: para as meninas era uma boneca pequena que, no segundo dia, mesmo com todos os cuidados que eu e minhas amiguinhas tínhamos, perdia os cabelos. As bolas dadas aos meninos também esvaziavam no segundo dia, assim como os carros soltavam as rodas. Mas ainda assim éramos felizes.
As famílias se reuniam e os vizinhos eram considerados parte delas: era a comadre, o compadre. Cada um levava um prato para a casa do outro. Lembro que minha mãe fazia rabanada com pão duro passado em leite e ovos, fritava e depois colocava açúcar e canela em pó. Era uma delícia.
As casas, nessa época, tinham um cheiro que trazia a lembrança de que era Natal por conta das folhas de pitanga, são-gonçalinho e flores de angélica, que comprávamos na horta de Seu Lídio. O cheiro se misturava ao das frutas – abacaxi, manga, melancia e umbu. O chão de barro batido era molhado no dia anterior. Então colocávamos folhas de banana para deixar liso. À tarde tirávamos as folhas de banana e colocávamos areia, as folhas de pitanga e de são-gonçalinho.
Os vizinhos criavam juntos, durante o ano inteiro, um peru que, por isso, era chamado de “peru de meia”. Na véspera de Natal dava-se cachaça ao peru para então matá-lo. As crianças tinham que ficar no quarto para que não vissem a morte, mas sabiam o que estava acontecendo. No outro dia, ele era servido com farofa.
Mesmo com dificuldades, o Natal é um momento solene. Com muita comida, bebidas e presentes ou até mesmo sem nada disso, as famílias se reúnem e isso é muito importante. Quando estamos reunidos, como família, trocamos coisas boas, energias, saúde, alegria e até mesmo tristezas. Família é uma das coisas mais importantes da vida, pois só ela nos dá a base dos valores que servem para o resto da vida.
O povo de santo, ou seja, de candomblé, é privilegiado porque tem duas famílias: a consanguínea e a religiosa. Assim tem mais oportunidades para a confraternização familiar. Os que não têm a família consaguínea têm a outra. Muitas vezes, meus filhos de santo não têm parentes por perto, mas a qualquer necessidade têm seus irmãos religiosos para ajudar nos momentos de alegria e tristeza. Também temos mais oportunidades para confraternizar com ou sem Papai Noel deixando presentes nas janelas. Feliz Natal para todos com muita saúde, que é o bem maior da vida. Axé.

MÃE VALNIZIA ESCREVE MENSALMENTE EM DIA DE XANGÔ, QUARTA-FEIRA

Antropologia e futebol em destaque

postado por Cleidiana Ramos @ 4:34 PM
11 de dezembro de 2014
Jeferson Bacelar assina Gingas e Nós, um dos livros que integram a coleção É Futebo. Foto: Divulgação

Jeferson Bacelar assina Gingas e Nós, um dos livros que integram a coleção É Futebol. Foto: Divulgação

Futebol sob a visão da antropologia é o fio condutor dos livros que serão lançados amanhã, sexta-feira, no auditório Milton Santos do Centro de Estudos Afro Orientais da Ufba (Ceao), a partir das 18 horas. O Ceao fica no Largo 2 de Julho, centro da cidade.

Gingas e Nós. O jogo do lazer na Bahia, de Jeferson Bacelar; Pugnas renhidas. Futebol, cultura e sociedade em Salvador (1901-1924), assinado por Henrique Sena dos Santos e Fazendo gênero e jogando bola. Futebol feminino na Bahia nos anos 80 e 90, de Enny Vieira Moraes, lançados pela Edufba, apresentam um interessante panorama do esporte mais popular do País na Bahia.

No livro assinado por Jeferson Bacelar, por exemplo, está o interessante mundo dos babas, um espaço de sociabilidade tão forte nos bairros da capital baiana.

Os livros fazem parte de uma coleção denominada É futebol. Imperdível.

Ogum´s Toques tem campanha para publicar obras de autores negros

postado por Cleidiana Ramos @ 12:59 PM
10 de dezembro de 2014
O editor Marcus Guellwaar Adun ao lado do poeta José Carlos Limeira. Foto: Arquivo pessoal

O editor Marcus Guellwaar Adun ao lado do poeta José Carlos Limeira. Foto: Antonio Terra/ Divulgação

Uma campanha criativa e pioneira na Bahia promete movimentar o mundo de quem produz literatura com enfoque no combate ao racismo. Trata-se da campanha de crowdfunding, um nome técnico para a famosa “vaquinha” realizada pela editora Ogum´s Toques.

O objetivo é arrecadar U$ 30 mil dólares o que vai permitir a publicação de 10 livros de autoras e autores negros. Os gêneros incluem poesia, infanto-juvenil, contos e também trabalhos acadêmicos.

“O mercado editorial no Brasil, assim como a sociedade brasileira, pratica o racismo institucional de maneira extremamente sofisticada, prestigiando autorias brancas, masculinas, heterossexuais, burguesas,  sulistas esudestinas”, analisa Marcus Guellwaar Adún, escritor, educador e editor.

De acordo com ele, no lugar de apenas constatar as dificuldades para publicação, a ideia é abrir espaço para autores que têm uma forma peculiar de produzir conhecimento, afinal têm experiências variadas na constatação e formas de combate ao racismo.

“As pessoas doadoras terão seus nomes mencionados entre os reconhecimentos contidos nos livros”, explica Adún.

As doações podem ser feitas em qualquer quantia . As que ficarem acima de U$ 100 dólares receberão uma camisa da editora.

Para acessar o site de doação é só clicar aqui.

A doação é feita por meio da pressão no botão CONTRIBUTE NOW.  Para doar é necessário usar cartão de crédito e o valor é automaticamente convertido em dólar.

Por isso é importante você lembrar que o faturamento em moeda estrangeira no cartão de crédito, geralmente, é feito com a cotação do dia de fechamento da fatura. É importante checar com a sua operadora esses detalhes para não se atrapalhar nas contas.

A boa notícia é que os organizadores já estão elaborando  uma ferramenta da campanha em português para tornar mais fácil a contribuição com a iniciativa.

Leilões

A ação também inclui a realização de leilões de obras de arte. Fique por dentro dos lances da campanha também via a página no Facebook . 

Abaixo você confere um dos vídeos da campanha.

Terreiro Seja Hundé (Roça do Ventura) é tombado pelo Iphan

postado por Cleidiana Ramos @ 3:28 PM
4 de dezembro de 2014
Iphan reconhece Roça do Ventura como patrimônio. Foto: Mila Cordeiro/ Ag. A TARDE 18.01.2012

Iphan reconhece Roça do Ventura como patrimônio. Foto: Mila Cordeiro/ Ag. A TARDE 18.01.2012

Mais um terreiro de candomblé acaba de ser reconhecido como patrimônio brasileiro: a Roça do Ventura, que tem o nome sagrado de Zogbodo Male Bogun Seja Unde, localizado em Cachoeira, Bahia. Dessa forma, o Ventura é o primeiro terreiro de nação jeje da Bahia reconhecido como espaço de riqueza cultural, histórica e artística do Brasil. O título é dado  pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

A solicitação para o tombamento do terreiro, que é identificado como da tradição jeje-mahi foi feita pela Sociedade Religiosa Zogbodo Male Bogum e aprovada em reunião realizada na tarde de hoje pelo Conselho Consultivo do Iphan. O processo para o reconhecimento foi iniciado em 2008 e é recebido com festa pois a comunidade religiosa tem enfrentado uma intensa batalha para conservar seus espaços sagrados por conta da expansão imobiliária no município situado no recôncavo baiano.

A tradição jeje é uma das mais importantes na configuração do candomblé brasileiro como indicam diversos estudos antropológicos como A família de santo nos candomblés da Bahia, de Vivaldo da Costa Lima; Brancos e Pretos na Bahia, de Donald Pierson, escrito na década de 30; A  formação do candomblé, do antropólogo e professor da Ufba, Nicolau Parés, dentre outros.

A Roça do Ventura teve sua história iniciada em 1858. O terreiro ainda hoje consegue manter os assentamentos de suas divindades, os voduns, no amplo espaço verde que possui em meio a fontes, lagoas e árvores. 

Com o reconhecimento da Roça do Ventura, o Brasil passa a ter mais sete terreiros tombados:  Casa Branca, Gantois, Ilê Axé Opô Afonjá, Bate Folha e Oxumaré, localizado na Bahia e a Casa das Minas, situada no Maranhão.

Confiram em versão PDF o especial Infância da Resistência

postado por Cleidiana Ramos @ 11:57 AM
3 de dezembro de 2014
Confira especial em versão PDF

Especial está disponibilizado na versão PDF 

Amigas e amigos: demorou um pouquinho, mas agora está aqui disponível, em formato PDF, o especial “Infância da Resistência”, publicado no dia 20 de novembro em A TARDE.

Para os que já viram, essa é a oportunidade de rever. Aos que ainda não viram ou estão longe da Bahia, a chance de conferir a nossa homenagem às crianças e suas lições.

Mãe Valnizia é nova articulista do jornal A TARDE

postado por Cleidiana Ramos @ 9:44 AM
3 de dezembro de 2014
Mãe Valnizia de Ayrá escreverá artigos para A TARDE, mensalmente. Foto: Raul Spinassé | Ag. A TARDE

Mãe Valnizia de Ayrá escreverá artigos para A TARDE, mensalmente. Foto: Raul Spinassé | Ag. A TARDE

A partir do próximo dia 17, a ialorixá Valnízia Pereira de Oliveira passa a assinar, mensalmente, artigos nas páginas de Opinião de A TARDE. Dessa forma fica mantido o espaço para a abordagem de questões diversas sob o ponto de vista do candomblé, que, desde maio de 2011, eram apresentadas nos artigos de mãe Maria Stella de Azevedo Santos, ialorixá do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá.

“Será uma experiência nova e que dá continuidade à história iniciada nesse espaço por mãe Stella, uma pessoa muito experiente e sábia. Em nossa religião temos por base o respeito aos mais velhos por entender que isso significa também avanço em mais sabedoria”, diz mãe Valnízia.

De acordo com ela, escrever é uma forma de manter o diálogo entre as artes de aprender e ensinar. “Quando a gente escreve, coloca o que está pensando para a opinião de outras pessoas. Então escrever é aprender e ensinar. Eu, por exemplo, aprendi muito com os textos de mãe Stella”, completa mãe Valnízia.

Mãe Stella deixou a publicação regular dos seus artigos em A TARDE, que eram veiculados quinzenalmente, sempre às quartas-feiras. O último foi há 15 dias.

A decisão de interromper a colaboração foi por conta de suas muitas atividades religiosas e coordenação de projetos, como o denominado “Encontro Colorido da Encantada Espiritualidade Baiana”. O projeto mantém uma biblioteca móvel audiovisual denominada “Animoteca” e especializada em diversidade religiosa.

O projeto foi sendo construído a partir de reflexões realizadas por mãe Stella também nos artigos publicados em A TARDE.

Trajetória

Líder do Terreiro do Cobre, localizado no Engenho Velho da Federação e que tem Xangô como patrono, mãe Valnízia, 55 anos, foi iniciada no candomblé no terreiro da Casa Branca para o orixá Ayrá. Ela é autora dos livros Resistência e Fé, publicado em 2009, e Aprendo Ensinando, de 2011.

Há 26 anos mãe Valnízia dirige o Cobre, fundado no fim do século XIX pela africana Margarida de Xangô, que iniciou a linhagem sacerdotal da família.

Mãe Valnízia é bisneta de Flaviana Bianchi, chamada por intelectuais como Jorge Amado e Édison Carneiro de “Flaviana, a grande”.

Consagrada a Oxum, mãe Flaviana é uma das personagens do livro Cidade das mulheres, escrito pela antropóloga americana Ruth Landes, publicado em 1947, e que é um dos clássicos da etnografia sobre o candomblé baiano.

Boas-vindas

Usando a palavra “difícil” para definir sua decisão de deixar de contribuir regularmente com os artigos em  A TARDE, mãe Stella explicou em texto, publicado dia 19, que está deixando essa atividade por conta de seus outros compromissos.

“Tomar decisões é sempre muito difícil, principalmente quando esta decisão implica deixar uma atividade que nos dá prazer e alegria. Foi o que aconteceu comigo quando precisei deixar de escrever artigos para este conceituado jornal. Foi no treinamento do desapego, que todo sacerdote precisa fazer, que encontrei a força que precisava”, diz.

A ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá diz que ficou tranquila quando soube que a ialorixá Valnízia Pereira vai escrever artigos para a seção de Opinião de A TARDE.

“A tranquilidade veio quando fiquei sabendo que o espaço do jornal que era utilizado por mim passará a receber, agora, os conhecimentos de outra líder religiosa. Que a ialorixá Valnízia Pereira tenha muita alegria ao empreender esta nova jornada e conte, como sei que sempre contou, com as bênçãos dos orixás”, acrescentou.

Livro traz homenagem a Mãe Tatá de Oxum

postado por Cleidiana Ramos @ 5:00 PM
28 de novembro de 2014
Mãe Tatá de Oxum recebe homenagem em forma de livro. Foto: Divulgação

Mãe Tatá de Oxum recebe homenagem em forma de livro. Foto: Divulgação

Domingo, dia 30,  tem lançamento de livro no Terreiro da Casa Branca (Avenida Vasco da Gama). Trata-se de uma obra muito especial: uma coletânea de relatos, mensagens e depoimentos sobre Mãe Tatá de Oxum, a ialorixá da comunidade de candomblé, que é considerada a mais antiga, dentre as de nação ketu, do Brasil.

Mãe Tatá segue uma linhagem de grandes sacerdotisas do terreiro fundado por Iyá Nassô e que foi o primeiro reconhecido como patrimônio do Brasil pelo Iphan há 30 anos.

Intitulado Mãe Tatá- uma dádiva de Òsum, a coletânea, organizada por Ana Rita Santiago, traça a trajetória de uma ialorixá conhecida pela sabedoria e elegância nos gestos. O lançamento será a partir das 19 horas.

Maurício Pestana lança livro com entrevistas de enfoque na questão étnico-racial

postado por Cleidiana Ramos @ 1:13 PM
27 de novembro de 2014
Capa do livro do jornalista Maurício Pestana que será lançado hoje. Foto: Divulgação

Capa do livro do jornalista Maurício Pestana que será lançado hoje. Foto: Divulgação

Hoje, quinta-feira, tem lançamento do livro Racismo: Cotas e Ações Afirmativas, no Palacete das Artes Rodin-Bahia, na Graça, a partir das 18h30. De autoria do jornalista e cartunista Maurício Pestana, a obra reúne 46 entrevistas realizadas pelo autor com artistas, intelectuais e religiosos para a Revista Raça Brasil, onde atuou como editor e diretor executivo.

Dentre os entrevistados estão os ex-presidentes Lula e José Sarney, o cantor Gilberto Gil, a ialorixá Mãe Stella de Oxóssi, dentre outros.

As entrevistas foram conduzidas a partir de experiências pessoais em relação ao racismo e ações afirmativas como as cotas nas universidades. O livro é publicado pela Editora Anita Garibaldi com o apoio da Fundação Maurício Grabois.

Serviço: Lançamento do livro Racismo: Cotas e Ações Afirmativas

Onde: Palacete das Artes- Rodin-Bahia (Rua da Graça, 289, Graça)

Quando: Hoje, a partir das 18h30. Entrada franca.

Um abraço para todas as baianas

postado por Cleidiana Ramos @ 11:01 AM
25 de novembro de 2014
Baianas de acarajé são exemplos de liberdade. Foto: Raul Spinassé

Baianas de acarajé são exemplos de liberdade. Foto: Raul Spinassé

Hoje é o dia dedicado às baianas de acarajé. Trabalhos como o de Cecília Moreira Soares, historiadora e antropóloga, intitulado Mulher negra na Bahia no século XIXmostra o quanto essa atividade teve e tem de resistência. Por meio da sua perícia em fazer acará, que depois virou acarajé; abará, mingau (sim as vendedoras dessa iguaria também estão vinculadas a essa atividade de levar alimento barato, mas substancioso e gostoso  para as ruas), fato, peixe e outros alimentos essas mulheres revolucionaram o próprio papel feminino do seu tempo e dos que viriam depois.  

Algumas libertas outras escravas de ganho fizeram do seu trabalho a arma para ganhar liberdade e, em muitos casos a dos seus filhos e companheiros. Emanciparam-se e emanciparam. Chefiaram famílias e formaram sucessoras nesses e em outros ofícios.  Algumas até viraram “negras do partido alto”, um título para as que desafiaram todas as possibilidades e até enriqueceram.   Foram e são mulheres independentes e sábias na questão de gênero do ponto de vista político e empreendedor.

Como não se orgulhar dessas figuras que impõem um respeito enorme à frente dos seus tabuleiros, criam verdadeiras empresas familiares e não aceitam um passo atrás no que conquistaram? Assim fizeram as  guerreiras da Abam, com dona Rita Santos à frente, para obrigar a Fifa a deixar que vendessem seu acarajé dentro do estádio na Copa.  O acarajé é um patrimônio, mas as mulheres que o fizeram símbolo de liberdade mais do que isso. São exemplos de feminismo libertário antes que ele fosse articulado nos grandes centros ocidentais.

Mais boas notícias sobre o especial Infância da Resistência

postado por Cleidiana Ramos @ 1:57 PM
24 de novembro de 2014

capa do especial 2014 3

Coisa boa é para compartilhar. Portanto, estou agora socializando os parabéns que a equipe de A TARDE responsável pelo especial Infância da Resistência recebeu da Cipó, uma instituição pioneira na Bahia no trabalho de conscientização da mídia sobre os direitos da Infância e Juventude. Receber elogio dessa turma é mais do que especial. Segue a nota:  

A CIPÓ – Comunicação Interativa parabeniza o jornal A Tarde, com destaque para a editora Cleidiana Ramos, pelo caderno publicado neste 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. Essa postura da imprensa, de valorizar com seriedade e respeito uma data que é fruto da luta do movimento social, só ajuda a fortalecer a democracia e deve servir de exemplo para todos os veículos de comunicação.

A opção por abordar o assunto a partir do ponto de vista das crianças éoutro item que merece destaque. As crianças não são “o futuro”, elas vivem no presente e sofrem – ainda mais do que os adultos – as consequências do racismo. São portanto fontes qualificadas para falar sobre o assunto e devem ganhar espaço na imprensa, não como elemento “suavizador” da cobertura, mas como sujeitos de direitos que são.

 

O sonho de Mãe Stella

postado por Cleidiana Ramos @ 12:32 PM
24 de novembro de 2014
Animoteca está funcionando no estacionamento do Shopping Bela Vista, das 10 às 21 horas até o próximo dia 29

Animoteca está funcionando no estacionamento do Shopping Bela Vista, das 10 às 21 horas até o próximo dia 29

No último sábado no Shopping Bela Vista tive a sorte de participar de uma cerimônia marcante: a abertura  da “animoteca”. Trata-se de uma parte do projeto “Encontro Colorido da Encantada Espiritualidade Baiana”, concebido pela ialorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, Mãe Stella de Oxóssi.

A animoteca, instalada em um ônibus, pode ser visitada até o próximo dia 29, das 10 às 21 horas, no estacionamento do Shopping Bela Vista no Cabula.  Lá é possível encontrar livros, áudios e vídeos sobre as várias religiões.

O projeto é um sonho antigo de Mãe Stella que ela manifestou em um dos muitos artigos que escreveu para o jornal A TARDE. A partir do artigo, que foi desdobramento de um primeiro, onde misturando realidade e ficção ela falou sobre a importância de cultivar a possibilidade de sonhar, vários dos seus leitores se dispuseram a ajudar.

Infelizmente, na última quarta-feira, Mãe Stella se despediu, de forma continuada, do seu espaço cativo a cada 15 dias nas páginas de Opinião do jornal. Ela foi a primeira ialorixá a escrever de forma regular em um jornal de grande circulação. O  texto em que ela se despediu dos leitores foi publicado na quarta-feira passada,  mas a história que ela começou a construir nesse espaço logo terá continuidade.

Aqui segue o texto de Mãe Stella dando um até breve aos seus leitores do jornal:

Mudança de hábito

Maria Stella de Azevedo Santos

Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá

Quem não se lembra do filme Mudança de hábito, onde uma cantora de casino se vê obrigada a se esconder em um convento de freiras? Sem ser uma religiosa, ela conseguiu transformar positivamente o ambiente em que passou a morar. Nem toda pessoa boa é religiosa e nem todo religioso é, necessariamente, bom. No referido caso, o hábito (no sentido de vestimenta religiosa) fez a freira, confirmando o provérbio que diz: “O hábito faz o monge”.

Entretanto, esse provérbio tem outro significado quando dito da maneira completa e certa: “O hábito faz o monge apenas quando ele é visto longe”. Apesar dessa introdução, não escolhi o título “Mudança de hábito” para este artigo tendo como intenção falar de hábito enquanto vestimenta, mas sim enquanto prática costumeira.

Quando algo é difícil de ser dito, o preâmbulo fica sempre mais longo. É uma forma de preparar o interlocutor para ouvir ou ler o que vem pela frente. Sei que estou fazendo certo suspense. Coragem, Stella! – digo para mim. Então, lá vai:

As diversas atividades que minha vida religiosa pede e, é claro, a minha avançada idade estão fazendo com que se torne difícil continuar escrevendo quinzenalmente para este conceituado jornal, que acolheu meus pensamentos e minha cultura religiosa com muito desprendimento.

Não estou me despedindo do jornal A TARDE que, compreendendo minhas razões, deixou o espaço aberto para que eu escrevesse algum artigo quando assim pudesse e desejasse; muito menos estou me despedindo de meus leitores, pois continuarei escrevendo livros, mas no ritmo possível para meus 89 anos de idade.
Afinal, dividi a existência humana em três etapas: na primeira idade, que vai até os 40 anos (pelo menos para mim), as pessoas estão prontas para fazer filhos; a segunda idade, que vai dos 40 aos 80 anos, é para namorar; na terceira idade, que vai dos 80 aos 120 anos, é o momento propício para as pessoas sentarem e esperarem a velhice chegar. Este é o meu momento!

Escolhi com cuidado não só as palavras a serem escritas, como também a ocasião certa para realizar essa espécie de liberação. É que sábado, dia 22 de novembro, às 17 horas, na frente do Shopping Bela Vista, estarei realizando um sonho que só foi possível porque o expus nas páginas deste jornal e seus leitores ajudaram-me a concretizá-lo.

Parece-me que a sociedade já esta pronta para receber um ônibus, que ludicamente chamo de Animoteca, já que um de seus objetivos é despertar o ânimo dos seres que ainda se encontram adormecidos. Nesse ônibus estão guardadas em forma de livros, vídeos e áudios as sabedorias reveladas por mentes inspiradas, pertencentes a diferentes religiões e tradições filosóficas.

Não chamo a apresentação do ônibus de inauguração, porque prefiro, de maneira poética, denominá-la de “Encontro colorido da encantada espiritualidade baiana”, que tem como objetivo maior trabalhar no sentido de diminuir a violência através do despertar da espiritualidade.

Meus leitores, os quais espero encontrar no dia 22, sábado, percebem, assim, que não estou me despedindo, estou apenas mudando de hábito.

Imagens de um dia especial para a redação de A TARDE

postado por Cleidiana Ramos @ 4:57 PM
20 de novembro de 2014

Hoje a redação ganhou uma grande festa para comemorar a circulação do especial  Infância da Resistência. Teve caruru de sete meninos, com as benção do Doté Amilton Costa, líder do Terreiro Vodun Zo; o som da banda mirim da Escola Olodum, jornalistas e suas fontes confraternizando, autoridades e o melhor: a energia doce e renovadora da criançada. Encerramos de forma muito divertida o que foi resultado de muito trabalho unido ao carinho que criança sempre desperta.  Abaixo algumas das fotos dessa manhã inspiradora:

Meire Oliveira, a professora Jacilene Nascimento, diretora da Escola Parque São Cristóvão e eu, Cleidiana Ramos. Foto: Iracema Chequer | Ag.  A TARDE

Renata Santana, aluna da Escola Parque São Cristóvão;  Meire Oliveira;  professora Jacilene Nascimento, diretora da Escola Parque São Cristóvão e eu, Cleidiana Ramos. Foto: Iracema Chequer | Ag. A TARDE

Equipe que realizou o especial fazendo pose com os integrantes da banda mirim da Escola  Olodum. Foto: Iracema Chequer | Ag. A TARDE

Equipe que realizou o especial fazendo pose com os integrantes da banda mirim da Escola Olodum. Foto: Mariana Carneiro | Ag. A TARDE

 

Mesa do caruru de sete meninos na Redação. Foto: Iracema Chequer | Ag. A TARDE

Mesa do caruru de sete meninos na Redação. Foto: Iracema Chequer | Ag. A TARDE

 

 

 

Um alerta para pais e educadores

postado por Cleidiana Ramos @ 8:21 AM
20 de novembro de 2014

Esse vídeo mostra como o racismo não escolhe idade para atacar e como a força de estereótipos ajuda a reforçá-lo. Ele ataca o imaginário, inclusive, das crianças negras e de uma forma muito cruel.