Ponte educacional vai marcar Semana da África
postado por Cleidiana Ramos @ 7:06 PM
Aplicação da Lei 10.639/2003 será também discutida durante os dias do seminário. Fernando Amorim/Ag. A TARDE/ 20.05.2005
Começa amanhã (segunda-fiera, dia 20) a VII Semana da África. O evento, que vai até o dia 25, é organizado por estudantes africanos que têm atividades acadêmicas na Bahia, em parceria com colegas brasileiros.
As atividades serão distribuídas por quatro locais: Centro Cultural da Câmara de Vereadores; Centro de Estudos Afro-Orientais da Ufba (Ceao), localizado no Largo 2 de Julho; Faculdade de Economia da Ufba, na Piedade; e campus da Uneb, no Cabula.
O objetivo do evento é marcar o Dia da África, celebrado no dia 25 de maio.
As atividades reúnem estudantes da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Universidade do Estado da Bahia (Uneb) e Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).
“Identidades africanas na produção audiovisual em África e sua diáspora” é o tema da sétima edição.
A ideia é mostrar como o cinema, a TV e demais produções visuais abordam questões relacionadas à população negra, ao continente africano e às expressões culturais afro-brasileiras.
O evento também vai discutir os avanços e desafios da Lei 10.639/2003, que estabelece o ensino de história da África e cultura afro-brasileira. A legislação foi modificada pela Lei 11.645/2008 para incluir história e cultura indígena.
A primeira edição da Semana da África foi realizada em 2006 e passou a ser anual. Sua realização permite a divulgação de pesquisas sobre a questão étnico-racial no Brasil e também sobre o continente africano.
Pesquisadores como Carlos Cardoso, Claudio Luiz Pereira (Ufba), Mohamed Bamba, Claudio Furtado, Wilson Matos, Lívio Sansone, Fatoumata Kandé, dentre outros, estão inscritos como palestrantes.
Além de palestras, o evento vai oferecer oficinas para professores de escolas da rede pública de Salvador. Estão também previstos na programação shows, exibição de filmes e espetáculos teatrais.
Os detalhes da programação, como os horários de cada atividade, temas e locais das palestras, podem ser conferidos no blog www.semanadaafrica.blogspot.com.br.
As informações sobre inscrições também podem ser conferidas no blog. As inscrições são gratuitas e quem obtiver 75% da frequência terá direito a receber certificado.
O credenciamento dos inscritos será feito a partir das 9 horas na sede do Ceao.
PL criticado pelo povo de santo é rejeitado
postado por Cleidiana Ramos @ 10:10 PM
Religiosos do Candomblé ocuparam plenário da Câmara para fazer valer seus direitos. Foto: Fernando Amorim/ Ag. A TARDE/06;05.2013
Conforme a promessa que fiz ontem está aqui abaixo a matéria de Meire Oliveira publicada na edição de hoje de A TARDE.
Meire Oliveira
Foram suficientes 29 votos para derrubar o Projeto de Lei (PL) nº 308/2013 que proibia o sacrifício de animais em cultos religiosos. O placar foi alcançado em sessão realizada ontem na Câmara. A proposta de votação do projeto foi sugerida no início da sessão ordinária pelo vereador Alfredo Mangueira (PMDB).
Dos 37 vereadores presentes na sessão, apenas 29 permaneceram no Plenário Cosme de Farias no momento de votar o projeto. A quantidade de vereadores– 29 – é a mínima exigida pelo regimento interno da Câmara para que o procedimento possa acontecer.
O anúncio da derrota do projeto, que já tinha o parecer contrário da Comissão de Constituição, Justiça e Redação Final, após reunião durante a manhã, foi feito às 15h52 pelo presidente da Casa, Paulo Câmara (PSDB). Da galeria, espaço reservação para o público, religiosos do candomblé festejaram.
“De forma organizada, conseguimos a união do povo de santo e agradecemos à Câmara de Vereadores por entender a nossa luta”, disse o presidente da Associação Cultural de Preservação do Patrimônio Bantu (Acbantu), tata Raimundo Konmannanjy.
“Hoje estou satisfeita e agradeço a todos os orixás e aos meus irmãos de santo por essa vitória. Acreditamos no axé e na nossa ancestralidade”, disse a ebomi Nice de Oyá, sacerdotisa do terreiro Casa Branca.
“Se a população soubesse a força que tem quando se faz presente e cobra seus direitos, muitos projetos não passariam ou seriam melhor discutidos aqui”, disse o vereador Gilmar Santiago (PT).
Ausência
Ausente durante a votação, o autor da proposta Marcell Moraes (PV) teve o pedido de voto negado quando retornou ao plenário. “O senhor não estava no plenário. Já é matéria vencida. Vamos dar sequência às representações partidárias”, disse o presidente da casa, Paulo Câmara.
Quando assumiu o microfone, o autor do projeto foi recebido com vaias. A plateia de religiosos permaneceu de costas durante o discurso do vereador. “Fui mal interpretado. O projeto não agride o candomblé. Isso é coisa de vereadores oportunistas. Só é contra quem mata animais que não servirão de alimento”, disse Marcell.
O vereador também voltou a apresentar o mesmo projeto com uma adaptação. “Apresentei novamente retirando o termo religião. Só quero punir as pessoas que matam os animais para oferendas que são colocadas nas ruas. Também tenho um que determina que as oferendas a Iemanjá sejam feitas com material biodegradável. ”, insistiu Marcell Moraes.
“Ainda sem o termo religião, a prática está relacionada a uma religião que ele quer criminalizar. É tudo feito de forma impositiva, demonstrando falta de conhecimento sobre o assunto e falta de respeito por não querer ouvir os representantes da religião”, explicou o vereador Sílvio Humberto (PSB).
Comissão
A inconstitucionalidade do projeto de lei foi decidida durante a manhã na Comissão de Constituição e Justiça que reuniu os vereadores Leo Prates (DEM), Edvaldo Brito (PTB), Alfredo Mangueira e Kiki Bispo (PTN). Todos votaram contra o projeto. Também estiveram presentes na reunião, os vereadores Hilton Coelho (PSOL), Euvaldo Jorge (PP), Fabíola Mansur (PSB), além do próprio Marcell Moraes.
Colaborou Nilma Gonçalves

Ebomi Nice da Casa Branca exige do vereador Marcell Moraes retirada de projeto polêmico. Foto: Fernando Amorim
Essa é uma imagem que mostra como elas realmente podem substituir um texto longo. O registro é do repórter fotográfico de A TARDE, Fernando Amorim, sobre a batalha do povo de santo contra a tentativa do vereador Marcell Moraes (PV) de legislar sobre seus ritos religiosos.
O vereador apresentou um projeto de lei querendo proibir oferenda de animais em cultos religiosos. O projeto foi construído sem referência, discussão ou qualquer outro tipo de cuidado.
Espanta que, 37 anos após o governador Roberto Santos ter assinado um decreto reconhecendo que o Estado não podia tratar o Candomblé como caso de polícia, um vereador que diz defender a vanguarda, ou seja, a defesa dos direitos animais, não entenda conceitos constitucionais básicos como liberdade de crença, laicidade do Estado e respeito a quem pensa diferente.
Mas espantoso ainda é um membro da casa legislativa da capital do Estado imaginar que pode resolver com uma caneta princípios litúrgicos de uma religião milenar e que se confunde com a própria história e cultura da Bahia.
Hoje o projeto foi devidamente derrotado pelo voto de 29 vereadores. Amanhã posto aqui matéria de Meire Oliveira com os detalhes do último round da batalha.
O aniversário é de Mãe Stella, mas quem ganha o presente somos nós. Como estava fora na quarta-feira passada em que saiu seu artigo em A TARDE, aproveito que hoje é o aniversário dessa fonte de sabedoria para publicar mais um de seus belos ensinamentos e desejar saúde e mais muitos anos de vida entre nós. Axé, Mãe Stella.
Maria Stella de Azevedo Santos
O universo pulsa; o universo fala. Escutar o universo é escutar as batidas do próprio coração. Não as batidas físicas, mas o pulsar abstrato, entusiasmado, de um coração pleno. Quando falo pleno, provavelmente levo as pessoas a pensarem em cheio de alegria, prosperidade, beleza… Engano! Quando falo pleno, refiro-me a um coração cheio de experiências vividas e absorvidas de maneira completa.
Tenham sido essas experiências sentidas como felizes ou dolorosas. O universo fala, as folhas falam, tanta para quem canta para encantá-las, quanto para as pessoas que conversam com elas ou simplesmente lhes dão um bom dia a cada dia que amanhece. As folhas, ou melhor, as plantas são seres vivos, como é vivo todo o universo.
É por isso que no candomblé temos um ritual para reverenciar as folhas e tudo o que elas nos ensinam. Nas folhas não existem apenas substâncias químicas usadas pelos laboratórios para curar nossas doenças físicas; nelas estão contidos ensinamentos ancestrais, que ao serem traduzidos por aqueles que se permitem escutar o universo são verdadeiros remédios para a alma, que ajudam a curar, mas também a prevenir feridas que retardem ou impeçam que a mesma encontre seu destino.
Transmitirei um pouco do que “escutei” de algumas das folhas para quem cantei durante setenta e quatro anos da minha vida sacerdotal.
Alfavaquinha-de-cobra – É a folha que acalma os olhos. A folha que nos faz “videntes”, que amplia a nossa visão, e ao mesmo tempo impede de vermos aquilo que não é necessário ou que não nos agrada. Folha que vem sempre em primeiro lugar, silenciosamente canta a serenidade, alertando a todos para a necessidade do falar pouco, para sofrer menos. A calma é sempre cantada, chamada, em primeiro lugar. Não se pode, ou melhor, não se deve entrar em um ambiente sem que seu olhar esteja manifestando calma, um olhar calmo o suficiente para enxergar as coisas com clareza e nitidez, sob todos os ângulos.
A calma é parceira inseparável do silêncio. Verdadeiros tratados podem ser escritos sobre o silêncio, porém, “silenciosamente” se pode dizer: silêncio é não falar o que não é necessário ser falado. Basta, portanto, não falar aquilo que não é preciso, que a pessoa pode considerar-se em estado de silêncio, passo fundamental para que se possa atingir o estado de calma. Estar calado não necessariamente é estar em silêncio. E o oposto é verdadeiro, no silêncio muito se diz.
Bilreiro – É desta árvore que são tirados os bilros usados pelas rendeiras para fazer um dos mais ricos artesanatos de nosso país. Folha de Xangô que ilumina do alto, nos protegendo e nos erguendo. É a folha do trovão que, como o forte grito de Xangô, acorda quem está dormindo. Afinal, “quem muito dorme nada aprende e nada vê”. E é Xangô, Deus do Trovão, orixá de “olhos de orogbo”, sempre abertos e atentos, que com sua voz rouca grita para que nos levantemos e, como guerreiros, enfrentemos a nossas lutas diárias.
Vassourinha-de-Oxum – Cultuamos com muita força a folha mais doce que o mel, para que ilumine nossos mistérios. O mel é símbolo da doçura natural, isto é, aquela que nos é oferecida pela natureza. Oxum, assim como o mel, representa a fala doce que nos embriaga. A planta conhecida popularmente como vassourinha-de-oxum nos ensina a termos cuidado como as pessoas muito adocicadas, que podem estar usando a fala doce para nos deixar embriagados, conseguindo tirar de nós aquilo que desejam.
Bambu – Folha de vida longa, que é firme e escapa das tempestades, a quem suplicamos que nos torne fortes e vigorosos. O bambu segue em direção ao céu com a humildade e a sabedoria dos grandes mestres. No seu caminhar, reconhece a necessidade de se inclinar perante forças maiores, como a da tempestade. O Bambu é sábio: para não quebrar ele enverga.
Espada-de-Oxossi – Para a folhas com formato de espada pedimos que sejamos bastante fortes para que, rapidamente, possamos cortar o mal e as armadilhas que são feitas para atrapalhar a nossa existência. Afinal, a espada é símbolo de destruição da injustiça, da maleficência e da ignorância.
Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, ela escreve em A TARDE, sempre às quartas-feiras.
Essa eleição de Mãe Stella para a Academia de Letras da Bahia continua emocionando todo mundo. E quando a emoção é expressa por um grande artista ganha ainda mais cor. Vejam que espetáculo a charge produzida por Cau Gomez e publicada no jornal A TARDE, na edição do último domingo, dia 28.
Mãe Stella mais uma vez fazendo história: nova integrante da Academia de Letras da Bahia. A simbologia dessa eleição me deixa sem palavras para um registro maior. A História realmente consegue dar guinadas surpreendentes. Toda a nossa luta e herança afro-brasileira ganharam mais energia. Axe!
Pessoal: olhem aí o registro da nossa conquista: o prêmio Camélia da Liberdade, na categoria mídia digital 2013.
O Camélia da Liberdade foi criado há sete anos pelo Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (Ceap) para homenagear a ação de instituições e pessoas na área de combate ao racismo.
Valeu pelo apoio e paciência nestes últimos tempos por não termos tido uma atualização tão constante, mas vocês mantiveram a fidelidade nos encontros que foram possíveis.
A festa de premiação realizada na noite de ontem no Rio de Janeiro foi muito emocionante, principalmente por reunir tanta gente que tem combatido o racismo nas mais diversas frentes.
Além do Mundo Afro mais duas instituições baianas foram premiadas: A Chesf e o Instituto Mídia Étnica.

Grupo durante o evento de premiação. A ministra Eleonora Menicucci usou um avental em homenagem às trabalhadoras domésticas. Creuza Oliveira está de verde. Foto: Ascom/SPM/Divulgação
Em ano de festa para as trabalhadoras domésticas por conta da conquista histórica do pagamento de FGTS, mais uma boa notícia para a categoria. Creuza Maria Oliveira, ativista histórica do sgmento profissional, foi uma das vencedoras do prêmio “Mulheres Negras Contam sua História”.
O prêmio foi criado pelas SPM e pela Seppir, secretarias especiais do governo federal que têm status de ministério. O objetivo do prêmio foi estimular a reflexão sobre as desigualdades vividas pelas mulheres negras, além de destacar suas experiências bem sucedidas na luta contra a violência e o racismo.
O prêmio selecionou redações e ensaios. Os textos serão publicados em livro ainda este ano. A premiação foi hoje em Brasília.
Balaio de Ideias: Viva o Pastor Djalma de Ogum!
postado por Cleidiana Ramos @ 7:54 PM
Militância do pastor Djalma Torres é destacada em artigo do professor Jaime Sodré. Foto: Walter de Carvalho/ Ag. A TARDE/ 20.09.2005
Jaime Sodré
É isto. O titulo é estratégico para motivar o leitor ao texto. “Vou fazer a louvação, ao que deve ser louvado, louvando o que bem merece deixando o ruim de lado”.
No mínimo estranheza deveria, em outros tempos, causar a visita de um fiel do candomblé a um templo protestante, mas assim o fizemos por obediência à orientação de Ebomi Cidália, que recomendava esta salutar visita para estreitar laços de amizades, enriquecer o conhecimento e abraçar amigos.
A Igreja Batista de Nazareth, um templo histórico, comemorava 35 anos, uma história de muitas histórias dos irmãos solidários, sempre em busca de novos horizontes inclusivos. O culto solene de aniversário teria como orador o excelente Pr. Djalma Torres, assim como o Jantar Teológico, onde teríamos o privilegio da companhia do Pr. Joel Zeferino e Pr. Moises Alves, acolhedores anfitriões, assim como Pr. Djalma, oradores e condutores litúrgicos brilhantes.
Só emoção. Acolhidos, estávamos em casa, sem restrições ou olhares de intolerâncias. Só respeito e carinho. Muita luta ocorreu, tendo como abrigo esta Igreja, contra a ditadura, em favor da democracia plena, dos direitos humanos, contra as injustiças no campo e na cidade.
Em especial, destacamos a participação solidária na luta contra a intolerância religiosa, reconhecimento e respeito à diversidade sexual. Estimulando o dialogo com as paróquias católicas, comunidades protestantes e movimentos sociais, a Igreja alargava o seu horizonte.
Pr. Djalma Torres empenhou-se para que a Igreja fosse recebida pelo Conselho Latino Americano de Igrejas Cristãs (CLAI), na Assembleia de Buenos Aires em 2005, quando o pastor ajudou a criar a Aliança de Batistas do Brasil.
Na “compreensão de que o Reino de Deus é maior do que as suas paredes, sejam físicas ou mentais” destacamos a disposição do Pr. Djalma Torres em dialogar, compreender e participar, como militante ativo, contra as manifestações que vinham de grupos religiosos que, numa demonstração de inadaptação de uma convencia interreligiosa, atacavam o Candomblé.
Pr. Djalma sempre solícito e amigo dos fiéis do candomblé, reservava um espaço do seu precioso tempo para as reuniões ou caminhadas, junto ao povo-de-santo, nas sugestões de posturas para a solução desta incompreensão vil. O Pastor Djalma Torres, pela sua seriedade e apoio às nossas causas, tornou-se um irmão especial, e para retribuir este seu carinho e solidariedade, o povo-de-santo, reconhecendo a sua coragem, sinceridade, em um tom alegre, jocoso, mas respeitoso, desejando ter a honra de integrá-lo em nosso meio, resolveu chamá-lo de Pastor Djalma de OGUM.
Levando em conta e seguindo a máxima da Igreja de Nazareth de que “o que importa são as pessoas”, é para os grupos que necessitam de apoio que o Pastor e a sua Igreja dirigem o melhor dos seus esforços. Também os ministérios e seus respectivos ministros, orientam-se por esse principio e foi assim que o Pr. Djalma empenhou a sua vida em Nazareth e hoje o faz através do Cepesc e a Igreja Evangélica Antioquia.
Outros personagens atuam na mesma lógica do servir. São eles: Pr. Eliab Barbosa, Pr. Moises Alves e Pr. Joel Zeferino. Salve os irmãos das diversas religiões que se irmanam em convicções diversas na “esperança de que o Reino de Deus” ou de Olorum é algo plenamente possível, e por esse ideal vale “gastar a vida”.
E como nos revela o texto da Igreja de Nazareth: “só assim, com resistência, luta e fé é que vale viver”. Estreitando os nossos laços, desejamos um AXÉ para o Pr. Djalma Torres e muitos anos de vitorias para a Igreja Batista Nazareth, que caminhou do Centro para Monte Serrat; para o Garcia; para Brotas e finalmente Nazaré, atual sede.
Parabéns pelos 38 anos, que Ogum lhe dê força e perseverança. Pastor Djalma, de Ogum e de todos aqueles que tem a chance da sua amizade sincera; “quem disse, que não somos nada, que não temos nada a oferecer. Repare, nossas mãos abertas, trazendo as ofertas do nosso viver…Oôô! Recebe Senhor… Louvando a quem bem merece deixando o ruim de lado…”
Jaime Sodré é doutorando em História Social, professor universitário e religioso do Candomblé
Pessoal: o Mundo Afro está em festa. Fomos um dos contemplados com o Prêmio Camélia da Liberdade. O prêmio é está em sua sétima edição e é organizado pelo O Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (CEAP), sediado no Rio de Janeiro. A ideia é destacar açoes afirmativas em várias áreas. Da Bahia ainda foram contemplados o Instituto Mídia Étnica e a Companhaia Hidrelétrica do Vale do São Francisco. Vamos comemorar em grande estilo com um artigo de Mãe Stella.

Bela reflexão de Mãe Stella para comemorar prêmio para o Mundo Afro. Foto: Margarida Neide / AG. A TARDE. 07/12/2012
Maria Stella de Azevedo Santos
Assim eram iniciados os artigos do jornal “Foia dos Rocêro”, que circulava pela capital da Bahia há muitos anos atrás. “Embirrei Compade com a permanente falta d’água em um dos bairros de nossa cidade”; “Embirrei Compade com a demora dos bondes em passar pelos pontos”; “Embirrei Compade ao chegar no Pelourinho e receber lixo pela cabeça, que foi jogado pela janela de um sobrado, devido à ausência de carroças de apanhar lixo”.
Com tantas denúncias não é de se estranhar que o referido jornal tenha caído na “malha grossa” da censura governamental da época. Relembro “Foia dos Rocêro” não apenas como um singelo registro histórico, mas também para mostrar como existem formas leves de se denunciar situações sérias. Parece-me que estamos perdendo a capacidade de brincar com nossas incompetências, coletivas e individuais. Não existe nada melhor do que rirmos de nós mesmos. Essa é uma excelente forma de manter acesa a chama do bom humor, que pode iluminar todo um ambiente, por mais escuro que ele esteja.
Por falar em escuridão, veio-me à mente um bonito mito yorubá que aproveito a oportunidade para transmitir a vocês, meus “leitores-filhos”. Afinal, sou mãe e não quero nenhum filho meu traumatizado porque não lhe contei nenhuma estorinha: Sol, Lua e Escuridão eram irmãos. Eles queriam sair do céu e vir para a Terra.
Sol sugeriu que fossem pedir ajuda aos divinadores, a fim de que fossem honrados e respeitados quando aqui chegassem. Mesmo considerando desnecessário aquele pedido de ajuda, Lua e Escuridão optaram por não discordar do poderoso irmão. Os divinadores indicaram que oferendas fossem dadas por cada um deles. Lua, presunçosamente, não fez as oferendas. Muito bela e popular decidiu não dar ouvidos às orientações. Escuridão sabia que já era temida, o que, consequentemente, fazia com que fosse respeitada. Sol foi o único a fazer o sacrifício. O feixe de vassouras que ele ofertou se transformou nos raios do sol, que passaram a ser usados para impedir que qualquer um se atrevesse a olhar fixamente para Sol. Lua não foi totalmente desprezada porque tinha feito antes sacrifício para o amor, conquistando por isto a simpatia dos casais enamorados. Já Escuridão, que não fez sacrifício nenhum, quase nenhuma valia tem e por isto não conseguiu ser amada.
Ouvir estórias é gostoso e saudável, sentir-se criança também, mas comportar-se como tal quando se é adulto é ridículo. Não são poucas as vezes que tenho assistido a cenas desse tipo. O ridículo muitas vezes é cômico, mas não consigo achar graça nenhuma quando vejo um adulto embirrado como criança.
Com isso não quero dizer que o adulto não tem motivos para embirrar, mas tem que ser birra de adulto, que pode e deve ser traduzida como indignação. De nada adianta para o adulto bater os pés no chão ou fazer cara feia quando algo lhe desagrada. Sua indignação/birra deve servir para que ele encontre uma solução para seu problema.
“Embirro compade” quando vejo birras sem fundamento. Se o jornal “Foia dos Rocêro” ainda existisse, eu mandaria para seu editor um artigo na esperança que fosse publicado e que sobre ele houvesse uma reflexão por parte dos leitores.
O artigo diria o seguinte: Embirrei compade porque vi iniciados que não assumem o sacerdócio; Embirrei compade porque vi sacerdotes que não querem entender sua verdadeira vocação, que é a de servir; Embirrei compade porque vi pessoas trocarem religiosidade por fanatismo; Embirrei compade porque vi usarem as religiões, inclusive a que pratico, como meio de enriquecimento, esquecendo-se estas pessoas que o verdadeiro religioso não mede a riqueza pela quantidade de bens materiais que possui, mas sim pela quantidade de bem que conseguiu fazer a si mesmo e aos outros. Embirro compade quando vejo um dos fundamentos mais importantes do Candomblé – o feitiço, que é uma linguagem usada para ajudar o homem em sua caminhada na Terra – ser interpretado por leigos como algo pernicioso, ou pior, quando é usado pelos próprios religiosos como instrumento de amedrontamento e meio de enriquecimento.
Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Ela escreve, quinzenalmente, no jornal A TARDE sempre às quartas-feiras

Livro traz relato de experiência em projeto pedagógico pioneiro. Foto: Haroldo Abrantes / Ag. A TARDE/ 26.05.2010
Amanhã, terça-feira, dia 2, tem um evento ótimo na Faculdade de Comunicação da Ufba (Facom): o lançamento do livro “Pele da cor da noite”, da doutora em Educação, Vanda Machado.
O livro conta as experiências pessoais da autora responsável pelo projeto Irê Ayô que é desenvolvido na Escola Eugênia Anna dos Santos, localizada no Ilê Axé Opô Afonjá. O projeto se tornou uma referência no ensino de História da África e Cultura Afro-Brasileira muito antes da chegada da Lei 10.639/2003.
Quem conhece a escola sabe o quanto ele é bonito, eficiente e capaz de transformar trajetórias.Um exemplo: a escola não tem sequer um rabisco nas paredes e, mesmo funcionando em um terreiro de candomblé, não faz nenhum proselitismo religoso e abriga crianças das mais variadas crenças.
É uma lição do que deve ser o processo educativo em sua forma mais ampla. O lançamento é uma ação coletiva de autores da Edufba que está comemorando 20 anos de fundação. Será das 17h30 às 20h30, pois ainda tem uma mesa redonda que permite a interação com os autores. O acesso é gratuito.
A Facom fica na área do PAF I. Há o famoso acesso pela Faculdade de Arquitetura, situada na Rua Caetano Moura, Federação, mas também pelo PAF II com entrada na Avenida Ademar de Barros.
Balaio de Ideias: Uma donzela arisca: a perfeição
postado por Cleidiana Ramos @ 3:26 PM
Imagem do livro “O candomblé da Barroquinha” do antropólogo e professor da Ufba, Renato da Silveira. Foto: AG. A TARDE
Car@s: na semana passada, não pude publicar o artigo de Mãe Stella. Então vai aqui um aperitivo com um lembrete: amanhã, quarta-feira, tem mais.
Maria Stella de Azevedo Santos
Oxaguiã é um orixá guerreiro. Sua maior luta é pela perfeição: de si mesmo, dos outros e das coisas. Odeia a preguiça, que ele considera o inimigo número um da perfeição. Da união de Oxaguiã com Iyemanjá, nasceu Ogum, orixá guerreiro como o pai. Ogum guerreia para destruir o que precisa ser renovado, enquanto Oxaguiã luta para construir o que foi destruído. Neste vai e vem de batalhas, Oxaguiã foi um dia à cidade de Ogum para buscar munição e encontrou o povo em festa. A comemoração era pelo término da construção do novo palácio do rei Ogum. Tudo parecia perfeito. Não para Oxaguiã! Ele bateu sua poderosa espada no palácio, que ruiu imediatamente. O povo ficou irado! “Tanto trabalho jogado fora, por um capricho de Oxaguiã”.
O pai de Ogum então falou: “O rei de vocês está em guerra e não voltará tão cedo. Por que entregar este palácio para ele, quando um muito melhor pode ser construído?”. Passado um tempo, Oxaguiã retornou à cidade e encontrou o palácio reconstruído. Entretanto, tudo se repetiu: O pai de Ogum destruiu o novo palácio e ordenou que o povo construísse outro, ainda mais perfeito.
Aconteceu que o dia da volta de Ogum se aproximava, só restando para Oxaguiã contentar-se com o último palácio construído, que para todos estava mais do que perfeito. De tanto reconstruírem o palácio, os moradores daquela cidade passaram a ser conhecidos como “os construtores quase perfeitos”. O povo não gostou daquele “quase” e ousou reclamar com a divindade. Oxaguiã disse: “A perfeição é como uma donzela arisca, ela se compraz em ser buscada, mas nunca permite ser encontrada e muito menos ser cultuada”.
Esse itan (estória narrada de geração para geração) fala sobre a importância da busca pela perfeição. Outro dia ouvi o seguinte comunicado: “Não basta fazer, é preciso fazer com amor”. Eu completo esse lindo comunicado, dizendo: Não basta fazer, é preciso fazer com amor, mas fazer bem feito. E ninguém faz nada bem feito se não tiver tempo. Se a preguiça é o inimigo número um da perfeição, a falta de eficiência para lidar com o tempo é o número dois. É por isso que se diz: “Quem tem tempo faz a colher e borda o cabo”.
Quem tem tempo faz arte. E a arte é uma das importantes formas de aproximação com o sagrado. Não é preciso ser artista para se fazer arte, é preciso apenas se tentar fazer as coisas da melhor maneira possível. Tanto nas coisas mais simples, como nas mais complexas; tanto nos assuntos sociais, quanto nos assuntos religiosos.
Lavar os pratos e estar atento para não deixar na pia nem um grão de arroz, de modo que a harmonia e pureza externas ajudem a harmonizar o interior de quem penetre naquele recinto, é arte. Quem me ouve ou lê o que escrevo está acostumado a ouvir a frase “estou sempre correndo atrás da perfeição”. Acontece que quanto mais eu corro atrás da perfeição, mais parece que a perfeição corre de mim. É como um gostoso jogo de “picula”, onde não tem vencido nem vencedor. E a graça consiste exatamente nisso: tentar, incansavelmente, domar essa virgem rebelde. Sim, acredito ser realmente virgem, a perfeição.
Não conheci ninguém que conseguiu casar-se com ela, apesar de não lhe faltar pretendentes. Entretanto, todos nós gostamos de crer que existem pessoas perfeitas. Gostamos de criar ídolos. Um grande risco, tanto para quem idolatra, quanto para quem é idolatrado. Parece que precisamos de ídolos para seguirmos, como se a “perfeição” (ou o axé) do outro pudesse ser por nós absorvida.
O caminho para a perfeição não é reto, ele é cheio de saliências e reentrâncias. É um caminho individual, como individual é o encontro que cada um tem com sua própria forma de construir e reconstruir seus palácios, sejam eles de areia ou de cristal. A perfeição, como o próprio nome indica, é um movimento em direção a: alguma coisa, algum lugar, alguém… Aperfeiçoar-se é simplesmente manter-se em movimento; é buscar sempre o que lhe parece faltar a cada dia, a cada momento. E é Oxaguiã o orixá que nos auxilia a manter acesa essa chama. É Oxaguiã o orixá que estimula o progresso.
Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, seus artigos são publicados em A TARDE, sempre às quartas-feiras
Balaio de Ideias: O cardeal sem carisma virou um papa pop
postado por Cleidiana Ramos @ 10:25 AMPessoal: estou republicando aqui o artigo que saiu hoje em A TARDE sobre as impressões que tenho sobre a renúncia de Bento XVI .
Cleidiana Ramos
Quando o cardeal Joseph Ratzinger tornou-se o papa Bento XVI, em 2005, o sentimento de católicos praticantes e de quem gosta de acompanhar as coisas da Igreja, como eu, misturou surpresa e desagrado. Isso porque o sucessor do carismático João Paulo II era o homem que passou décadas à frente da Congregação para a Doutrina da Fé com a missão de defender com garras de leão os dogmas católicos e a doutrina moral que causam tanta polêmica no mundo contemporâneo.
Para os brasileiros, a antipatia a Bento XVI era mais forte, pois uma das suas mais conhecidas cruzadas foi contra a Teologia da Libertação, que teve como um dos expoentes o frei franciscano Leonardo Boff.
Mas o que se viu nestes oito anos de pontificado de Bento XVI foi uma versão light do cardeal Ratzinger. Foram poucas as polêmicas de Sua Santidade diante do que se esperava. Não se reconheceu neste papa, por exemplo, o homem que jogou por terra um esforço de anos do diálogo entre a Igreja Católica e outras denominações cristãs. Como chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, Ratzinger divulgou um documento afirmando que a Igreja Católica era o único veículo da salvação, o que causou um rebuliço entre as outras vertentes do cristianismo.
Também não se viram pronunciamentos vindos de Bento XVI mais fortes do que sempre foi a toada da Igreja contra o aborto, o sexo antes do casamento ou a homossexualidade. O seu pontificado, inclusive, andava muito discreto, mesmo diante de escândalos como o Vatileaks, produzido após o vazamento de documentos importantes tornados públicos por um homem da corte papal: o mordomo Paolo Gabriele.
Daí que até agora não se encontrou aquela resposta que é capaz de satisfazer todo mundo sobre os motivos reais dessa renúncia. Bento XVI está muito doente e por isso renunciou? Difícil concluir isso quando seu antecessor, João Paulo II, praticamente definhou diante das lentes de cinegrafistas e fotógrafos de todo o mundo.
Os escândalos sobre corrupção e deslizes sexuais de sacerdotes o obrigaram a abrir mão do Trono de Pedro? Talvez, mas ainda assim é difícil imaginar o combustível desses acontecimentos para o gesto extremo da renúncia, pois nada disso é novo na história da Igreja.
Penso que há uma soma das duas coisas, pois não tenho dúvidas de que calçar as Sandálias do Pescador, como se diz de quem vira papa, modificou Joseph Ratzinger. Ele deve ter descoberto que este calçado martiriza mais do que o manto vermelho que é símbolo da disposição dos cardeais em dar o sangue pela Igreja.
Um homem que ocupou a Congregação para a Doutrina da Fé deve ter adversários poderosos. A Igreja vive a partir de um alicerce de fé, mas é construída por homens e mulheres com todas as contradições de que é feito o ser humano.
As brigas internas de poder nem sempre podem ser vencidas por quem tem a autoridade máxima. E o Vaticano também é um poder temporal, pois não é à toa que o papa é considerado chefe de Estado. Diante de tantos desafios, não há saúde que aguente, ainda mais para um homem que vai completar 86 anos.
Como papa, Bento XVI deve ter chegado mais perto do entendimento do que significa o universalismo do catolicismo e os desafios de tentar conduzi-lo. A Igreja declara-se una, mas em cada canto do mundo tem uma face.
Durante a visita a São Paulo, em 2007, Bento XVI estava claramente entusiasmado com o calor da Igreja Latina a ponto de sorrir e fazer questão de anunciar que ia mudar de idioma durante a missa em Aparecida.
A renúncia talvez tenha sido a sua forma de mostrar ao mundo que a Igreja vive uma crise muito mais profunda do que se imaginava. Se não conseguiu conter os dramas que atormentam a instituição por meio da política ou pelo exercício da autoridade, Ratzinger apelou para o que, à primeira vista, parece um gesto de fraqueza, mas demandou muita coragem.
Ele não virou um mártir por questões de saúde, como seu antecessor, mas entra para a história como o homem que vai fazer do silêncio e da vida trancada em um convento as últimas armas da sua cruzada pela renovação que ao menos imagina ser necessária para a Igreja. Se o seu gesto vai funcionar ou não, é outra história.
Cleidiana Ramos é editora do Grupo A TARDE, especializada em assuntos sobre religião
Balaio de Ideias: E o mundo não se acabou
postado por Cleidiana Ramos @ 6:18 PM
Mãe Stella faz reflexão sobre o comportamento das pessoas diante do mundo que nos cerca. Foto: Gildo Lima/Ag. A TARDE/ 18.03;2011
Maria Stella de Azevedo Santos
A ciência, entretanto, pesquisa e já chega até a afirmar que nosso planeta pode, sim, findar-se um dia. O planeta Terra é um ser vivo, e como todo ser vivo está sujeito a vários tipos de transformações. Esse é um assunto tão sério e profundo que me parece ser específico dos cientistas. A nós, “pobres mortais”, resta-nos viver. Se algo temos que pensar é o que fazer com a vida que nos resta e que tipo de pessoa queremos ser nesta vida.
São muitas as opções. O ser queixoso, que faz de um pequeno incidente uma tragédia; o eterno insatisfeito, que por mais que receba sente-se como um saco vazio incapaz de ser preenchido; o “palpiteiro”, que parece entender de tudo, mas pouco sabe e o que sabe é superficial; o carente, o adulto infantil que insiste em não crescer para poder estar sempre pedindo colo, esquecendo-se que já está na idade de oferecer o seu; o misterioso, que faz de seu simples dia a dia uma arca de segredos profundos, facilmente decifráveis.
Outros tipos de opções também existem: o ser disponível, cuja presença é traduzida como atuação positiva; o grato, que ao valorizar os favores recebidos ajuda a não desestimular as pessoas doadoras; o flexível, que absorvendo a diversidade permite que o colorido possa ser apreciado; o alegre, que torna os fardos leves como plumas; os guerreiros, que mesmo perdendo as batalhas entendem que têm guerras a serem vencidas.
Será uma atitude esperada que o leitor se veja em uma dessas opções, e ainda procure encaixar nelas seus conhecidos. Creio ser essa uma atitude saudável, caso o leitor consiga fugir da tendência de se ver como um tipo considerado positivo, enquanto seus pares são colocados no lado oposto. É uma grande tentação, da qual se deve procurar sempre escapar. Não é só a culpa que colocamos nos outros, os defeitos também. Quando não temos como culpar ninguém, o sistema, os governos e até os deuses passam a ser os vilões.
Hoje, ao assistirmos e lermos os jornais, gostamos de comentar sobre a violência que assola o mundo. Entretanto, esses mesmos meios de comunicação já noticiaram pesquisas científicas comprovando que o período que vivemos é o menos violento pelo qual passa a humanidade. Parece incrível, mas é verdade, basta dar um passeio pelos livros de História Universal que encontraremos barbaridades.
A diferença parece estar clara, é que hoje tomamos conhecimento diariamente do que acontece no mundo. Não comento esse fato para nos conformarmos com a violência, mas sim para que ao entendermos que ela já foi muito pior, possamos ter a esperança que ela continuará diminuindo, caso cada parcela da sociedade e cada indivíduo faça a parte que lhe é devida.
Os seres vivos, todos, carregam em si o instinto da agressividade. Podemos ver isso em nós mesmos, nos animais, nas plantas e na natureza como um todo. Raios, tufões, vulcões não podem ficar invisíveis aos nossos olhos. A agressividade sempre existiu e sempre existirá na natureza, e é claro no homem. Afinal, não existe a natureza e o homem, e sim “a natureza” da qual o homem faz parte.
É interessante observarmos que essa “agressividade” varia de intensidade não só de pessoa para pessoa, como até mesmo entre os vulcões, por exemplo. Quando o instinto já é forte e o meio ainda o estimula, a situação fica pior. Aos cientistas cabe a tarefa de criar mecanismos para prever as tragédias naturais, a fim de que a destruição causada por elas sejam minimizadas, além de ampliar os estudos sobre cérebro e comportamento humanos; os governos precisam concentrar esforços para aprender a não apenas coibir, mas fornecer condições favoráveis para que a agressividade não domine o homem.
Digo e repito, todos os instintos com os quais nascemos devem ser usados para nossa sobrevivência. Devemos ter controle sobre eles, e não o contrário. Não podemos nem devemos permitir que nada nem ninguém nos domine, nem mesmo nossos instintos. O inverso também é uma verdade: não podemos, nem devemos desejar dominar nada nem ninguém, nem mesmo nossos instintos. A permanente busca pela convivência harmônica é a chave.
Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonja. Quinzenalmente, ela escreve em A TARDE, sempre às quartas-feiras

Artigo discute ponte feita pelo samba entre Salvador e Rio de Janeiro. Foto: Marco Aurélio Martins/Ag. A TARDE/ 31.01.2013
Paulo Oliveira
O intercâmbio Bahia/Rio de Janeiro sempre deu bons frutos, principalmente, na área cultural. Foi na Pedra do Sal, na encosta do Morro da Conceição, que baianos cansados da perseguição religiosa em seu Estado e cariocas encontraram-se no final do século 19. Ali, João da Baiana, músico renomado, virou o nome do largo, onde negros, mestiços e brancos pobres reuniam-se para tentar trabalho no cais do porto. E também cantar, tocar e dançar.
Com o tempo e graças às quituteiras e mães de santo da Bahia – a mais famosa Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata –, o território expandiu-se em direção ao bairro do Estácio. Frequentemente, ao fim das sessões de candomblé e de umbanda, religião criada em 1920, eram realizadas as rodas que atraíam os bambas e as cabrochas. Em 1928, surgiu a Deixa Falar, a primeira escola de samba.
Nos anos 60 e 70, a mão se inverteu. Juventude do Garcia, Filhos do Tororó, Bafo da Onça, Diplomatas de Amaralina e outras escolas brilharam no Carnaval soteropolitano, inspiradas nas agremiações cariocas. Malandramente, militares e estivadores baianos que trabalhavam na Cidade Maravilhosa compravam fantasias do ano anterior na Portela para usarem em sua escola do coração na terra natal.
Nessa época, surgiram excelentes compositores, como Nelson Rufino, mais tarde fornecedor de sucessos para Roberto Ribeiro e Zeca Pagodinho, e Alaor Macedo, autor de três sambas enredos que deram títulos ao Salgueiro. Com o ocaso das escolas em Salvador, surgiram os blocos de samba, formados por trabalhadores e estudantes que criaram diversão nos dias em que o movimento nas ruas era menor.
Nos anos 90, as agremiações profissionalizaram-se. A quinta-feira consolidou-se como o Dia do Samba na Avenida. O crescimento ocorreu, em boa parte, devido à vinda de artistas do Rio, em maior número, e São Paulo. Eles vinham por alguns trocados, estadia na casa de amigos e uma boa feijoada regada a cerveja. O negócio prosperou. O samba invadiu a sexta-feira e começou a fincar os pés no sábado.
Os artistas de fora se interessaram pelos lucros. Quem não criou o próprio bloco aumentou a tabela de preços e exagerou nas exigências para as apresentações. Passaram a querer cantar apenas com a própria banda, além de pedir passagens e estadia em bom hotel para duas dezenas de músicos, produtores e familiares. O valor do cachê pulou para cerca de R$ 80 mil por dia.
A relação azedou. Há quatro anos, os donos de blocos tentam mudar o norte do desfile e apostar no carnaval Prata da Casa, apenas com sambistas da terra. Lentamente conseguem adesões, mas ainda estão longe de virar o jogo. Motivos, segundo Luiz Cláudio, o Lula do bloco Proibido Proibir:
1) Não faz parte da cultura local valorizar cantores do Estado.
2) É mais fácil vender ingressos tendo Dudu Nobre, Revelação ou Arlindo Cruz como atrações.
3) Não há mais fidelidade à agremiação. O que atrai o folião é o artista.
Diante do impasse, a prática mais comum é mesclar gente de fora com os colegas baianos. Este ano há pelo menos nove grupos e cantores cariocas, incluindo Fundo de Quintal, cuja origem está no tradicional bloco Cacique de Ramos e na escola Imperatriz Leopoldinense, e a Velha Guarda da Mangueira.
Ao mesmo tempo, os blocos analisam estratégias para reduzir o espaço dos forasteiros, sem levar em conta que é uma briga em que todos perdem. Vale lembrar que cantores e compositores daqui também se beneficiam com a projeção que dão as parcerias e o apadrinhamento do pessoal do Rio.
O melhor é seguir a lição do mestre Ismael Silva (1905-1978), compositor de clássicos como Antonico, Me Faz Carinhos e Se Você Jurar e um dos fundadores da Deixa Falar: – Não há ninguém de quem eu não goste, eu não tenho tempo de reparar em gente que tem algum motivo para me desagradar. E mesmo quando acontece isso, de alguém fazer qualquer coisa que me desagrade, eu levo para o outro lado, fico pensando que não teria sido por mal. E vamos em frente que a Sapucaí e o circuito Osmar são longos.
Paulo Oliviera é jornalista, secretário de redação de A TARDE e apaixonado por samba
Eu já conhecia o texto acadêmico da jornalista Stela Guedes Caputo, autora do valioso trabalho Educação nos Terreiros.
Na semana passada fui surpeendida por esse belíssimo texto poético de Stela. Como sou fã de jornalistas que conseguem equilibrar informação e clareza de ideias com sensibilidade e poesia, pedi autorização a ela para dividir com vocês essa preciosidade.
O texto me tocou não só pelas emoções religosas que compartilamos, mas também pelo dente-de-leão que remete a tantas passagens da minha infância. Aproveitem!

Stela Guedes escreve belo texto com reflexões sobre o impacto da intolerância religiosa contra crianças. Foto: Arquivo pessoal
Vamos soprar os dentes-de-leão
Stela Guedes Caputo
Lavei os pratos bem rápido, duas ou três panelas. Sequei tudo ligeiro e corri para o quintal atrás no terreiro. Queria ver que algazarra era aquela que os meninos faziam. Estavam soltando pipa enquanto a festa não começava. Comemoramos ontem, 19 de janeiro, nosso aniversário e o início das atividades do ano no Ilè Asé Omi Laare Ìyá Sagbá, em Santa Cruz da Serra, Duque de Caxias.
Meu coração é guiado pelo coração delas. Foi pelas mãos de crianças e jovens de terreiros que há muito tempo me aproximei do candomblé. As mesmas mãos me tornaram do candomblé. Uma opção radical pelo lugar em que quero estar, pelas pessoas com quem desejo estar e pela fé que devagar me chega como as sementes de dente-de-leão que João Vitor me soprou ontem. Porque fé deve ser algo leve de brotar, no semear delicado, suponho. Se for na força só pode ser outra coisa.
Lanhei a perna em um vergalhão, cortei o dedo no cerol. Tentava ajudar a desenrolar a linha. Tudo estava agitado porque João Vitor entrou em um cruza. Os amigos gritavam: “dá linha…dá linha”. João cortou e comemoramos. Mas logo depois, “estancou”. “A linha era fraca”, resmungaram.
Os olhos dos meninos estavam no céu, mas os ouvidos atentíssimos ao mínimo som que revelasse o início do candomblé no barracão. “Começou?” perguntava um. “Não, ainda não. Dá tempo de correr atrás da que cortamos”. E lá foram eles pelos quintais dos vizinhos.
Antes disso, porém, enquanto conversávamos no meio das folhas e flores, dois dos meninos me pediram para postar as fotos, mas para não marcá-los no facebook. “A gente gosta de olhar no seu, mas se marcar, a gente aparece para os nossos amigos da escola e tenho vergonha!”, disse um. “Tenho medo de perder meus amigos. Na escola todo mundo me zoa quando vê meu face”, completou o outro.
Quando sumiram atrás da pipa ficamos eu e os dentes-de-leão. Dente-de-leão é o nome comum de várias espécies pertencentes ao gênero Taraxacum que, por brotar espontaneamente, sem mesmo a intervenção humana, indica solo fértil, solo bom. Também resiste fortemente às condições ruins e renasce sempre, sendo por isso símbolo de união, resistência, otimismo e esperança.
A festa começou. Bem antes disso os meninos retornaram sem a pipa. Não ousaram enfrentar os cães que guardam os quintais dos vizinhos. Dois foram para os atabaques,um deles, João Vitor. O outro se preparou para receber Osalá que, quando chegou agigantou aquele corpo franzininho franzinho. Foi em cima dos magros ombrinhos que o grande Òrìsà ergueu o terreiro inteiro. Epà Bàbá!
Meus meninos são reis, como são reis e rainhas meninos e meninas de todos os terreiros. Cantam, tocam e dançam como reis. Sabem yorubá, conhecem as folhas, soltam pipas e…vão à escola. Eu chorei quietinha quando Osalá chegou.
Em parte por sua força, em parte porque não me conformo com uma escola que envergonha guerreiros. Disse que o dente-de-leão brota espontaneamente. Quisera viver em um país em que as religiões de matriz africanas fossem respeitadas, principalmente nas escolas.
Como sei que não vivo, quisera que mudar essa realidade fosse tão simples e espontâneo como o nascer dos dentes-de-leão. Mas mudar as desigualdades de classe, raciais e de cultura em nosso país nunca foi espontâneo. Então precisamos soprar juntos e espalhar as resistências, os otimismos, as esperanças, os dentes-de-leão.
Stela Guedes Caputo é jornalista e professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj)
Maria Stella de Azevedo Santos
Quando criança, eu tinha a sensação que o mundo era um grande parque de diversões: a vassoura, um lindo cavalo de carrossel que corria, corria, corria, mas não chegava a lugar nenhum; as árvores eram como paus-de-sebo, onde eu fazia um imenso esforço, para depois de tê-lo escalado poder ser recompensada com prêmios saborosíssimos, que não eram apenas os frutos colhidos, mas principalmente a corrida que tínhamos que dar para fugir do vizinho que nos ameaçava, sem nenhum intento de cumprir a ameaça; a preparação para dormir era como entrar em um trem fantasma, cada estória de terror que nos era contada nos excitava tanto que, ao corpo cansado e apavorado, só restava dormir.
Já na juventude, o mundo me parecia uma praça de guerra. Éramos “senhores do mundo”. Cheios de certezas e convicções, nós tínhamos muitas coisas para consertar, então nos reuníamos solenes para projetar as mudanças desejadas: os problemas dos transportes coletivos, que permanecem até hoje (imaginem: naquela época eram os bondes!); as cabeças de nossos mais velhos que, é lógico, serão sempre ultrapassadas para os jovens de qualquer época… Somos todos revolucionários na juventude, afinal os hormônios de nossos corpos estão em revolução.
A maturidade chega, e o mundo fica parecendo um hospício, com muitos loucos e poucos, pouquíssimos, médicos e enfermeiros: é uma corrida incessante sem nenhum objetivo aparente a ser alcançado; um sentimento de perseguição, que mais parece uma grande alucinação coletiva (muitos, muitos mesmo, costumam dizer que estão sendo vítimas de inveja, injustiças, incompreensões e até feitiços); o poder sobre os outros querendo ultrapassar o poder sobre si mesmo (muitos, muitos mesmo, querem comandar, mas não aceitam serem comandados). Um mundo cheio de mestres, repletos de “sábios” para ensinar e carentes de discípulos para aprender. É um hospício com muita gente para ser cuidada e pouca querendo cuidar.
Quando a maturidade chega, o mundo também se assemelha a uma creche, com muitas crianças e poucos, pouquíssimos adultos: crianças que fazem “birra” e desejam que a vida transcorra de acordo com seus desejos; que se apegam aos “brinquedinhos” que possuem, esquecendo-se que o gostoso é estar sempre aberto para novos “brinquedos” (que, como mandam os órgãos de proteção ao consumidor, devem ser sempre de acordo com a idade do usuário).
Entretanto, quando a fundamental, mas não tão desejada, velhice chega, o mundo deixa de ser tudo isso e passa a ser um divertido circo. Somos palhaços e precisamos rir e fazer os outros rirem, pois para a maioria dos problemas humanos de nada adianta chorar; tem os trapezistas que se arriscam e os outros que utilizam sua grande força física e mental para segurar aqueles que, por instinto ou necessidade de destino, precisam “jogar-se”, independentemente do risco que corram; tem o globo da morte, lembrando-nos a inevitável certeza da vida; tem os equilibristas que, com os braços levantados como se quisessem alcançar o céu, nos ensinam que para alcançarmos um estado de descanso, diminuindo a instabilidade que tanto gera desarmonia física e mental, é preciso igualar as forças opostas existentes em nós.
Somos todos equilibristas andando na corda bamba da vida. Somos instáveis por natureza. E como manter-se em equilíbrio é muito difícil, melhor pedir uma ajudinha aos deuses, cantando: Igbãni bàbà, igbãni yèyè, ibà pa ràn tán asô dá mã aro, a fi dà wa rá àÿç êkö ma Oriÿá, Oriÿá wa baba alaye = Pai ancestral, mãezinha ancestral, apague o fogo, o calor que se alastra, termine com as muitas discussões e tristezas criadas, nós somos instáveis, transforme-nos, imploramos sempre pelas suas instruções, sua doutrina Orixá, seja nosso mestre, o dono de nosso modo de viver.
Pedir socorro aos deuses é importante, mas precisamos fazer a nossa parte: aprendendo a focar o olhar em um único ponto, concentrando e energizando o centro de nosso corpo – o abdômen – e, principalmente, aprendendo a dobrar sempre os joelhos (em todos sentidos falando) para que os pés fiquem bem plantados.
Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmente, ela escreve em A TARDE, sempre às quartas-feiras

José Medrado defende vaga para Mãe Stella na Academia de Letras da Bahia (ALB). Foto: Marco Aurélio Martins/Ag. A TARDE/ 03.09.2010
José Medrado
Na última segunda-feira, o Brasil registrou o seu Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, em lei proposta pelo deputado federal Daniel Almeida, lembrando a queda de Mãe Gilda com o dissabor que teve em ver a sua imagem com uma tarja preta nos olhos, sendo chamada de charlatã e macumbeira por um jornal evangélico. Essa reverberação nasceu da iniciativa da então vereadora Olívia Santana, que, incansável no tema, sempre buscou fazer chegar esta discussão à sociedade baiana, tendo, naturalmente, na filha de mãe Gilda, Mãe Jaciara, outra incansável neste processo.
Vemos, agora, uma grande oportunidade de a Bahia mostrar ao resto do Brasil que aqui se tenta conciliar as diferenças, principalmente no campo religioso, com a eleição e posse de Mãe Stella de Oxóssi na Academia de Letras da Bahia. Autora de inúmeros livros, ensaios e artigos com grande repercussão, tendo, ainda, entre outros títulos o de Doutor Honoris Causa da Universidade da Bahia, a sacerdotisa reúne peso de cultura e de representatividade social para bem se emparelhar com os letrados que ali têm assento.
A oportunidade se fez pela infelicidade de uma inestimável perda, a do professor, historiador, escritor e acadêmico Ubiratan Castro. Não guardo dúvidas de que o mestre Ubiratan, que foi presidente do Conselho para o Desenvolvimento das Comunidades Negras de Salvador, apoiaria e pediria votos para a sacerdotisa do Ilê Axé Opô Afonjá. Em verdade, eu creio que ele já esteja pedindo, esperando que os homens sensíveis da Academia de Letras da Bahia o ouçam.
Não tenho titubeio algum de que a eleição de Mãe Stella seria um marco social de repercussão nacional que daria destaque àquela Academia, cujo embrião vem desde as Academias dos Esquecidos e dos Renascidos do século XVIII, com grande sentido histórico para esta proposição. Em se tratando de reconhecimento, de ideal, a palavra de um dos sócios-fundadores da Academia, Ruy Barbosa, seria um pedido: “Dilatai a fraternidade cristã, e chegareis das afeições individuais às solidariedades coletivas, da família à nação, da nação à humanidade”.
José Medrado escreve, quinzenalmente, no jornal A TARDE, às quartas-feiras
Falar de amigos que deixam este mundo é complicado . O susto, a tristeza e, por fim, a rendição ao que não se pude mudar levam dias e até meses para deixar de incomodar. E é assim que me sinto em relação à perda do professor Ubiratan Castro de Araújo, o nosso Bira Gordo, como ele permitia e até gostava que o chamassem.
Eu estava em Iaçu, de férias, quando recebi a má notícia. Coube a minha colega de profissão e amiga, Maíra Azevedo, a gentileza de me avisar para que não soubesse de outra forma mais brusca, como a Internet. A forma que achei de retribuir a gentileza de Maíra foi fazer o mesmo por outra pessoa. No caso, o professor Albergaria, colega e amigo de Bira. Foi uma das poucas vezes em que vi a “galhofice” de Albergaria fazer uma pausa, mas como ele mesmo diz: “É assim mesmo…. tem coisas que a gente não pode mudar”.
O tom de Albergaria pode ser traduzido em vários sentidos. Um deles é que partiu com o professor Bira mais um pedaço da Bahia inteligente, culta e que sabia das suas dores e prazeres sem perder a altivez. O professor sabia muito sobre história e economia da escravidão, mas sempre fazia questão de ressaltar os mecanismos da resistência a ela.
Bira foi uma das pessoas mais inteligentes que tive o prazer de conhecer em minha trajetória como jornalista. Entrevistá-lo era o mesmo que estar em uma aula de erudição. Mas sua fala de historiador, formado em uma das mais importantes universidades do mundo, a Sorbonne, nada tinha de arrogância intelectual.
Teorias e análises ganhavam cor, sabor e multifaces. Qualquer conceito complexo tinha nome de gente do povo e de elemento da cultura baiana facilmente absorvido pelo ouvinte. E tudo com muito bom humor. E faço questão de frisar isso não para ser entendido como estereótipo. E nem poderia, pois o humor de Bira Gordo era fino, sagaz e tinha uma certa malícia na medida certa.
Quando nos encontrávamos ele jamais esquecia o apelido que o professor Albergaria inventou por conta da minha predileção pela cor rosa: Afro Barbie. Depois da minha obrigação religiosa ele passou a me chamar apenas de “iaô”. Após a saudação era o momento de me dar uma informação preciosa, sempre em defesa do povo negro.
Numa hora, o objetivo era destacar a participação negra na Guerra da Independência ou porquê o caboclo e a cabocla são tão importantes. Em relação a essa última ele me dizia que guardava uma certa má vontade: “É que ela foi feita para representar Catarina Paraguaçu e tirar de cena o caboclo que representava o povão”, completava.
Em outra era para entender porquê estavam querendo expor de novo, no acervo do Instituto Médico Legal Nina Rodigues, as peças de candomblé, capturadas no período da perseguição religiosa. Após a ligação em que expliquei o que estava apurando para uma matéria, o professor, como presidente da Fundação Pedro Calmon, foi um dos protagonistas da ação que levou o governo a não permitir a exposição e doar o acervo ao museu da Ufba.
Jamais vou esquecer uma aula que ele deu no Teatro XVIII sobre História da Bahia. Eu estava lá como repórter de um especial sobre o 2 de Julho porque o tema da aula era o mesmo de uma matéria que ia fazer para o caderno. Foram duas horas de palestra para uma plateia formada por jovens de 15 a 17 anos que ouviram atentamente sem sair da sala ou fazer barulho. Era uma amostra do seu dom de cativar o ouvinte.
E os artigos? Sempre que a gente pedia, ele atendia . Às vezes a gente abusava, mesmo sabendo que ele estava ocupado, mas o professor dava um jeitinho e mandava o texto. Um dos mais interessantes foi o artigo em que ele contou sobre a sua experiência como Rei Momo aos sete anos. Foi para a primeira edição da nossa cobertura especial de Carnaval inspirada em O Papão há nove anos. Assim que recebi o texto comecei a rir. Liguei para ele e rimos mais. Liguei para Albergaria e voltamos a gargalhar.
E o conto que inclui o livro Sete Histórias de Negro sobre como uma das suas tias é salva da fome por uma festa de Omolu? Até hoje brinco com alguns amigos sobre o Departamento de Investigação da Vida Alheia (Diva) que ele cita no texto simplesmente delicioso.
É, portanto, caso de realmente sentir muita saudade. Mas o que a ameniza um pouco é perceber que o professor Bira é alguém que a gente sempre vai lembrar dessa forma: com leveza e ciência das lições que ele deixou. Que Olorum o tenha em boa paz! Axé!
Reflexão sobre o encontro entre o Senhor do Bonfim e Oxalá
postado por Cleidiana Ramos @ 12:02 PM
Hoje, Salvador está forrada de branco para festejar o Senhor Bom Jesus do Bonfim, uma das invocações a Jesus Crucificado. O branco, claro, vem do encontro com o Candomblé, afinal é a cor de Oxalá. Alguém mais apressado diz logo: “é o sincretismo”. Mas concordo com quem diz que a gente deve ter muito cuidado com essa palavra que se tornou tão usada e, portanto, vítima de equívocos.
O alerta que me levou a comprensão e concordância desse raciocínio foi feito pelo professor Ordep Serra. Uso, portanto, a explicação dele para fazermos aqui uma pequena reflexão sobre esse assunto. O professor Ordep diz que o aconteceu neste encontro entre Oxalá e Senhor do Bonfim não é uma troca de um por outro. Ou seja: não é que os africanos e seus descendentes baianos substituíram a crença em Oxalá (no Candomblé Ketu) ou Lemba (no Candomblé Angola) pela representação do Crucificado de uma forma simplista. A coisa é muito mais complexa.
Imaginemos,como pede o professor Ordep, uma mulher de uma das etnias que falava iorubá indo a caminho do mercado em meados do século XIX. De repente sua travessia é interceptada por traficantes de escravos. Ela é colocada num galpão com pessoas de várias outras etnias que falavam até línguas diferentes. Ninguém ali sabe direito o que vai acontecer, pois o mar era o limite do mundo conhecido. Atravessá-lo signficava rumar em direção ao desconhecido, sem retorno.
Se hoje a gente vai para a Itália, por exemplo, sabe que lá se fala italiano e até se é inverno ou verão dependendo da época do ano. Pois bem! A nossa personagem não sabe ao certo o que acontece depois que se atavessa a linha do infinito que ela vê da terra. É colocada em uma embarcação para fazer uma travessia. Terá muita sorte se sobreviver.
Como âncora ela tem apenas a crença nos deuses que aprendeu a cultuar com seus ancestrais e Oxalá está entre eles, seguramente, pois lá na cidade de onde ela vem , Ilê Ifé, existe uma montanha chamada “umbigo do mundo”, um ponto importante para a criação da Terra, processo do qual Oxalá é protagonista.
Nossa personagem chega, após cerca de três meses, ao seu destino: Salvador, a Cidade da Baía. Agora é hora de torcer para conseguir ser vendida, pois a outra opção é ficar abandonada à própria sorte para morrer, caso não dê lucro. Ela vai então morar em uma casa e já é chamada por um nome católico que lhe deram no batismo após a chegada.
Aos poucos aprende a língua local e começa a ser levada para uma igreja, na Cidade Baixa, lugar de romaria e veraneio. O templo fica numa colina e é consagrado ao Filho do Deus Supremo, Criador do Mundo. Vem, então, o estalo: parece Oxalá que é filho de Olorum e tem a colina como o lugar que usou para estabelecer o mundo. Portanto, temos aqui o reencontro de referência por meio de uma “associação religosa” e não a substituição de um pelo outro.
Nunca vimos, por exemplo, alguém colocar aos pés do Senhor do Bonfim a comida ritual de Oxalá. Isso é só mais uma prova de que as religiões encontram-se e compartilham referências, sem necessariamente anular-se diante da outra. E, na Bahia, isso alcançou tal força que até podemos falar de um afro-catolicismo, como dizia o saudoso professor Ubiratan Castro de Araújo.
Com certeza, é essa herança africana, que entende seus deuses muito perto dos mortais, que deixa a gente à vontade para chamar o Senhor do Bonfim de “padrinho” e “O Velho”. E é isso que faz da festa ao Bom Jesus do Bonfim o único culto ao Crucificado do mundo (mais uma lembrança do professor Ordep) em que não há protagonismo da dor. Não há penitentes praticando o auto flagelo. Até a caminhada de 7,5 km é em meio ao lúdico.
Portanto, vamos hoje celebrar o encontro ou “convênio” (outra expressão do professor Ordep) entre Senhor do Bonfim e Oxalá relembrando essa sua profundidade histórico-antropológica. Ela abre portas para tantas reflexões, principalmente a da resistência que garantiu descendência a povos arrancados à força da suas referências vitais.

Jaime Sodré relata dificuldades de servidor público para participar de editais públicos. Foto: Mila Cordeiro/ Ag. A TARDE/ 09.11.2011
Jaime Sodré
Na madrugada, quando o silêncio brinda-me a calma para escrever, violei a noite com uma expressão roubada: “Saúdem-me, pois estou seriamente na eminência de me tornar um gênio”, soando no espaço da aurora. Esta frase assustou a plateia de pássaros que recorrem sempre a nossa beira, em busca de água adocicada e banana. A frase era cópia que fiz da lavra do genial Honoré de Balzac, dita pelo ano de 1833, quando da visita a sua irmã Laure Surville – servi-me da matéria de Marco Dias no 2+ de A TARDE.
A frase fora usada para celebrar a estratégia que consegui para a produção de uma novela, como recomendara o edital da Fundação Pedro Calmon, com o objetivo de levar ao conhecimento do grande público alguns dos fatos mais importantes da história baiana. Constituía objeto do edital premiar cinco novelas inéditas sobre episódios da história da Bahia, o meu tema era “A Revolução Malê”. A tarefa de registrar ideias no papel exigiu pesquisas, imaginação, daí recorri aos fatos históricos, personagens, situações favorecedoras ao enredo deste escrito concorrente que ganhara o título: “As aventuras e desventuras amorosas de Alufá Licutan e a Revolução Malê”.
Alegre, construí situações, tramas, suspense, embates e romances tórridos, com final inimaginável, surpreendente; tudo prontinho no exigido: impressão em fonte Times New Roman, tamanho 12, cor preta ou azul, no anverso do papel A4; Texto com entrelinha 1,5; pois um relato com mais ou menos 30 mil palavras, composto, resultaria num livro de 80 a 130 páginas. Na tradição da literatura de língua portuguesa, consideram-se novelas, por exemplo, O Alienista, de Machado de Assis, logo “compreende-se como novela um texto narrativo em prosa, intermediário entre o conto e o romance, e que obedeça, obviamente, às regras internas do gênero”, tudo em acordo com o regulamento.
Esperançoso, reli este para encaminhamentos, leitura posterior, por estar concentrado na produção literária. Para efeito da certeza da vitória, assinei convênios de promessas a Yemanjá em flores ao mar e São Benedito, com missa festiva no Rosário dos Pretos, se no mínimo logra-se uma menção honrosa. Mas lendo amiúde o edital surgiu o trauma. Embora pudessem concorrer trabalhos individuais de autores maiores de 18 anos, de comprovada nacionalidade brasileira, vem a ducha fria: “É vedada a inscrição ou participação direta ou indireta dos servidores do governo do Estado da Bahia, de qualquer categoria, natureza ou condição, por termos dos artigos 125 e 207 da Lei Estadual 9.433/05 (e de todos os envolvidos no processo de avaliação do prêmio, bem como cônjuges, companheiros e parentes dos mesmos, em linha reta, colateral ou por afinidade, até 3º grau).
E mais: “Os concorrentes cujas inscrições não atendam ao disposto neste edital serão desclassificados”. Na condição de irremediavelmente excluído no primeiro e com um texto interessante, assim julgo, ávido de publicação, busquei amparo na participação nos editais da Secult de 2013. Por cautela, busquei logo a página 9, que informa: “Quem pode participar? Qualquer pessoa física maior de 18 anos ou pessoa jurídica… em qualquer caso é necessário ser domiciliado na Bahia há pelo menos três anos”, aí eu estou dentro! Mas no item “Quem não pode participar”, estou fora! Pois afirma que não podem participar servidores públicos estaduais ativos.
Doloroso, este simples ato de “exclusão” ou impedimento coloca de fora dos certames centenas e centenas de servidores ativos produtores de arte, conhecimento, ideias, etc., a exemplo dos professores. O que fazer frente a esta lei. Seria o caso de uma ação direta de inconstitucionalidade? Mera especulação que deixo aos juristas, mas cabe aqui apelo para os senhores deputados, capazes de com o seu empenho reformular a inibidora lei e incluir centenas e centenas de produtores que querem oportunizar suas obras para o público. Hoje de fora, um “cara” espera a inclusão e “Esse cara sou eu”.
Jaime Sodré é doutorando em História Social, professor universitário e religioso do Candomblé
Balaio de Ideias: Verão é movimento e inspiração
postado por Cleidiana Ramos @ 9:11 PM
Mãe Stella destaca importância do movimento para o Candomblé. Foto: Margarida Neide/ Ag. A TARDE/ 07.12.2012
Maria Stella de Azevedo Santos
Corpo físico ou concreto, corpo espiritual ou abstrato; ambos precisam de movimento para aumentar e conservar as energias. Sem exercício físico nosso corpo fica pesado e enfraquecido, atuando com muita dificuldade, executando tarefas simples como se carregasse terríveis cargas. O movimento serve para limpar nossos corpos, concreto e abstrato, das energias negativas que concentramos em torno deles, vindas não só do mundo externo, como também do nosso mundo interior. Do exterior vêm as pragas, calúnias, infâmias, “olho gordo”; do interior emitimos vibrações de ganância, inveja, má “querência”. Todos esses sentimentos, naturalmente humanos, nos deixam carregados, pesados e sujos.
Para nos sentirmos leves a ponto de nosso espiritual poder conectar-se com as parcelas abstratas do universo, é preciso então movimentar-se. Na religião dos orixás, o movimento é uma constante nos rituais: cozinhamos, dançamos, ajoelhamos e levantamos diversas vezes em um único momento. Nossos exercícios de concentração são realizados quando cortamos quiabo para o amalá; quando tiramos a casca de cada grão do feijão para fazer o beguiri; quando colamos uma por uma das bandeirolas que enfeitam o barracão; quando, pacientemente, tiramos pena por pena das aves que serão oferecidas aos deuses.
É por essa e outras razões que não é interessante comprarmos e usarmos máquinas para cortar quiabo e depenar galinhas. Exercícios de concentração fazem com que a energia adquirida com a manifestação da divindade, com os banhos de folhas e ebó não seja perdida, fique concentrada em nós, fazendo com que sejamos pessoas mais fortalecidas para enfrentarmos as tarefas e guerras diárias. Sem exercício físico nosso corpo padece com dores diversas. Sem exercícios respiratórios, de concentração, reflexão e de meditação nosso espiritual fica sem forças para cumprir a principal Lei Universal: a Lei da Evolução.
Não faz parte das obrigações dos iniciantes e iniciados no candomblé realizarem exercícios respiratórios, pois estes são executados, naturalmente, durante a dança ritualística, quando inspiramos e emanamos o ar de maneira intensa. A meditação no candomblé se faz desde o carregar silencioso da água para encher quartinhas e talhas, passando pela também silenciosa limpeza da manifestação concreta da divindade, chegando até o jogo de obi, quando o iniciado pode estabelecer um “diálogo” espiritual com a sua própria essência divina.
O movimento corporal, mental e espiritual deve ser começado logo que se acorda. Se começamos um dia na inércia, passamos um péssimo dia e uma noite ruim. A natureza é sábia. Gastamos gradativamente a nossa energia. Pela manhã estamos com uma energia renovada, pronta para ser usada. Ao meio-dia estamos plenos. No decorrer da tarde já nos desgastamos e à noite precisamos dormir para recompô-la (isto é a regra geral, não nos esqueçamos das exceções). Assim também quando a nossa infância e mocidade são sedentárias, temos uma velhice precoce e sem graça, sem força espiritual.
O movimento é fundamental, porém com equilíbrio, como tudo na vida. Às vezes fico a assistir aos omorixá (filhos de santo) andando apressadamente, para executar tarefas que têm tempo de sobra para serem executadas com tranquilidade. Isso é desperdício de energia! É queima desnecessária do combustível que adquiriram através da concentração, respiração, meditação. Por que e para que correm tanto? – pergunto-me. Para provar aos outros ou para si mesmo que estão em atividade? Para que esgotando o corpo físico, a mente não possa refletir sobre os comunicados enviados pelos deuses e ancestrais… As perguntas ficam sem respostas, pois creio que cada caso é um caso.
De repente, é o desejo intenso de servir ao sagrado. O importante é que cada um aprenda a movimentar-se e aquietar-se com equilíbrio. A quietude necessita do movimento e o movimento da quietude. Tanto que cantamos para a folha rinrin: Rinrin là bexê, wa gbejê ni ki wa bexê hu bó, querendo dizer: Rinrin que é puro vem na frente, nós ficamos quietos para não incorrermos em erro e chorarmos alto.
Mãe Stella é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Ela escreve, quinzenalmente, às quartas-feiras, em A TARDE
Depois de uma pausa de 40 dias para a minha renovação da energia de trabalho estou de volta também para o Mundo Afro. E, para começar, nada melhor que um revigorante, belo e sábio artigo de Mãe Stella de Oxóssi. É um presente para inaugurar os posts deste ano!
Paz, Saúde, Energia, Sabedoria, Prosperidade e Alegria para todos nós neste ano. Axé!

Meire Oliveira, Maíra Azevedo, Olívia Santana, eu e os vereadores Pedro Godinho e Gilmar Santiago em dia de festa para os cadernos. Foto: Marivaldo Filho/Ascom Câmara Municipal
A noite de ontem foi muito especial para todos nós que construímos os especiais publicados em A TARDE no dia 20 de novembro: uma iniciativa dos vereadores Olívia Santana (PCdoB) e Gilmar Santiago (PT) fez uma homenagem aos cadernos que chegaram este ano ao seu décimo número, na Câmara Municipal.
A sensibilidade dos vereadores em reconhecer a metodologia especial desses cadernos e sua preocupação pedagógica ao trazer dicas para aplicação em sala de aula, carinhosamente preparadas pela professora Josiane Clímaco, para nós foi um presente. A longevidade desses cadernos é uma mostra também do compromisso de A TARDE com a responsabilidade social ao produzir um material voltado para o combate ao racismo e outras formas de produção de desigualdade.
A noite já começou especial com uma linda apresentação de Matheus Aleluia, seguida pelas belas vozes de Claudia Costa e Andreia Neri. Enfim, um dia para a gente guardar na moldura dos momentos inesquecíveis que esses cadernos têm produzido.

Uma das comemorações da Consciência Negra foi a lavagem da estátua de Zumbi dos Palmares na Praça da Sé. Foto: Margarida Neide
O artigo de Mãe Stella que eu estava devendo. Aproveite. Como sempre, lindo e profundo!
Maria Stella de Azevedo Santos
Um sorriso negro, um abraço negro/ Traz felicidade… Negro é a raiz da liberdade”. Na história de nosso País, o povo de cor negra não foi apenas figurante, foi protagonista. Ter uma data especial para marcar a trajetória desse povo é de extrema lucidez, pois nos leva a refletir sobre temas que são vitais não apenas para uma fração da sociedade. Temas como: escravização e a consequente luta e conquista da liberdade; preconceito e autopreconceito; resistência… são mais do que atuais, são, repetindo, vitais.
Liberdade é uma necessidade prioritária para o indivíduo e a coletividade, que, como tudo que é de extrema importância, precisa ser constantemente analisada, a fim de que seus limites não sejam ultrapassados, afinal até mesmo a liberdade tem limites; preconceito e autopreconceito, atitudes e sentimentos que têm como companheiros o medo, a intolerância, o ódio irracional, a autocomiseração; resistência, geralmente entendida como força que se opõe a outra, esta tão propagada palavra fica mais bem traduzida para o povo brasileiro como vigor, ânimo.
Estamos na Semana da Consciência Negra, tendo sido o 20 de novembro escolhido como o Dia Nacional da Consciência Negra por ser o dia da morte de Zumbi dos Palmares, considerado um grande líder na luta pelo término do regime escravagista no Brasil. Hoje, creio ter a palavra consciência não mais a necessidade da certeza de quem somos e a que grupo pertencemos, mas simplesmente a certeza que somos, ou melhor, que apenas somos.
A Semana da Consciência Negra serve para a reflexão, mas é também momento de festejos. E como toda festa tem abraços, segue meu “abraço negro” para todas as pessoas: pretas, brancas, vermelhas… Aliás, segue meu abraço negro para os verdes, amarelos, azuis e brancos, enfim, para todos brasileiros que, sem preconceito, buscam conhecer e compreender a cultura profana e religiosa dos negros brasileiros descendentes dos africanos. Como não posso estar em corpo com todos que me dão a honra de ler meus escritos, meu abraço segue em forma de pensamento.
Não o meu e, sim, o que me foi legado pela religião que fui “chamada” a adotar e da qual muito me orgulho. Professo o candomblé não com um sentimento de soberbia, considerando a referida religião melhor ou mais elevada do que as outras, mas com o brio (sinônimo de vibração, entusiasmo, ânimo) que ela merece. Festejo a Semana da Consciência Negra revelando, através do Ódu Ìká-Òfún, os 16 mandamentos do candomblé, inseridos no Corpo Religioso do Sistema Divinatório de Ifá, que diz: Muitos andam pela vida sem rumo e, por isto, precisam buscar os conselhos de Ifá. Olódùmarè prometeu vida longa aos humanos para que estes pudessem cumprir suas “obrigações”. O que fazer para receber essa bênção?
Ifá ensina: 1. Não troquem o nome das pessoas, não façam nada que possa interferir no destino dos outros; 2. Não façam acusações que possam emitir mau cheiro, não difamem ninguém; 3. Não enganem as pessoas trocando, por exemplo, papagaio por morcego; 4. Não ensinem algo errado de maneira proposital, mostrando a folha de ìrókò e dizendo que é folha de oriro; 5. Não queiram nadar se vocês não conhecem o rio, sejam inteligentes, não sejam imprudentes; 6. Não sejam mal educados e inflexíveis, sejam gentis e maleáveis; 7. Não sejam clandestinos na caminhada, rendam homenagem a Ifá buscando Seus conselhos sem desonestidade, nem malandragem; 8. Não se percam ao levar o conhecimento sagrado para fora de casa; 9. Não semeiem ervas daninhas no seu existir; 10. Não abram espaços para os pobres de espírito; 11. Não aceitem promessas de dinheiro, não sejam gananciosos, não fiquem cegos por dinheiro; 12. Todos devem reconhecer sempre que os mais velhos são os pilares da família, merecedores de respeito e honra; 13. Todos devem reconhecer sempre que as mulheres são portadoras de senso, arte, habilidade, ingenuidade, sensibilidade; 14. Todos devem reconhecer sempre que as mulheres são grandes companheiras; 15. Nunca revelem os segredos, eles precisam ficar escondidos; 16. Recompensem sempre os detentores de sabedoria ancestral.
Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Quinzenalmene, ela escreve em A TARDE, sempre às quartas-feiras
Curtam o vídeo da festa realizada na redação de A TARDE para comemorar os dez anos dos cadernos especiais do Dia Nacional da Consciência Negra. É só clicar no link abaixo
http://atv.atarde.uol.com.br/video.jsf?v=9860
Os homens que chamam os deuses pra terra
postado por Cleidiana Ramos @ 7:59 PMDesculpem a longa ausência, mas é que, dentre vários motivos, estava envolvida com a preparação do especial do Dia Nacional da Consciência Negra. A boa notícia é que o conteúdo completo acaba de ser disponibilizado. O caderno intitulado “Os homens que chamam os deuses pra terra” fez uma homenagem aos sacerdotes músicos do Candomblé: alabês, da tradição ketu; huntós da jeje e xicarangomas, da angola.
Além disso, esse foi um número muito especial: o de número 10 da nossa produção aqui em A TARDE. Confiram, então, o especial no link abaixo:
http://fw.atarde.uol.com.br/2012/11/1292600.pdf
Pessoal: hoje é um dia mais que especial. Além de celebrarmos o Dia da Consciência Negra, os especiais de A TARDE completam uma década de publicação.
Estamos muito, mas muito felizes e a felicidade hoje extravassou na forma de uma celebração emocionante aqui na redação do jornal. Recebemos convidados muitos especiais como doté Amilton Curuzu, ogã Papadinha, Tata Anselmo dos Santos, Jaime Sodré, Tata Konmannanjy, Cecília Soares, Vilson Caetano, Claudio Pereira, Mestre Curió, Vovô do Ilê, Agnaldo do Gandhy, Vadinho França, o secretário estadual de Promoção da Igualdade, Elias Sampaio, o secrtário municipal da Reparação, Ailton Ferreira, e tantos outras personalidades. E tudo isso foi com ao som do Ilê Aiyê e do Gandhy. Dia para ficar na nossa história.
Especial de A TARDE é finalista do Prêmio Jornalista Abdias Nascimento
postado por Cleidiana Ramos @ 11:10 AMGente: sabe aqueles dias em que a gente tem bons motivos para comemorar? Pois é! Hoje A TARDE faz 100 anos entrando para um seleto de grupo de 25 periódicos brasileiros. Há pouco ficamos sabendo (digo, no plural, pois outras companheiras e companheiros estão incluídos) que somos finalistas, na categoria Mídia Impressa, do Prêmio Jornalista Abdias Nascimento com o especial Epo Pupa- a marca do dendê, publicado em 18 de novembro do ano passado.
O caderno fez uma viagem pela influência que o azeite derivado deste fruto tem sobre os mais variados segmentos da vida baiana: culinária, claro, mas também religiosidade, artes, moda e por aí vai. O grupo de finalistas do especial é formado por mim, Juliana Dias, Juracy dos Anjos, Maíra Azevedo e Meire Oliveira. O caderno é vinculado à editoria Salvador sob a coordenação de Cláudio Bandeira.
Além das dicas pedagógicas para usar o material jornalístico em sala de aula, o especial trouxe mais uma invoação: a tradução dos textos para o inglês comemorando o Afro XXI – Encontro Ibero-americano do Ano Internacional dos Afrodescendentes, que reuniu diversos páises da diáspora negra em Salvador no ano passado.
Sobre o prêmio: o Abdias Nascimento está em sua segunda edição e é voltado para premiar trabalhos jornalísticos que abordam as questões raciais e de gênero. São sete categorias que concorrem a um total de R$ 35 mil em premiação.
O Prêmio Jornalista Abdias Nascimento é organizado pela Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira-Rio), vinculada ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro em parceria com a Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj) e do Centro de Informações das Nações Unidas no Brasil (Unic-Rio). O prêmio tem patrocínio da Fundação Ford, Fundação W. K. Kellogg e da Oi.
Na categoria Mídia Impressa o Epo Pupa concorre com Desigualdade em trabalhos iguais (Antonio Gois e Alessandra Duarte); Caó 70 anos de luta (Adilson Gonçalves, Revista Raça-SP) e Série Pérolas Negras (Sergio Maggio, Correio Braziliense- DF).
Exposição mostra indumentária de irmandades negras
postado por Cleidiana Ramos @ 11:28 AM
Indumentária de irmandades, como a da Boa Morte, é tema de exposição. Foto: Raul Spinassé/ Ag. A TARDE
Hoje, a partir das 15 horas, o núcleo de arte-educação da Casa do Benim realiza uma atividade muito legal: palestra do professor Jaime Sodré, colaborador de primeira hora do Mundo Afro, sobre a contribuição social das irmandades negras.
A palestra integra a programação da exposição “Indumentária Sagrada das Irmandades Negras- uma estética de devoção”.
A exposição de Mônica Silva vai até o dia 26 de outubro. A mostra está na Casa do Benin (Pelourinho- na esquina com a Baixa dos Sapateiros).
O horário para visitas é das 9 às 17 horas.








